{"id":102385,"date":"2017-11-27T12:00:29","date_gmt":"2017-11-27T12:00:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=102385"},"modified":"2017-11-22T11:20:36","modified_gmt":"2017-11-22T11:20:36","slug":"portugues-concepcao-do-ser-humano-nos-limites-de-uma-ecologia-integral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2017\/11\/portugues-concepcao-do-ser-humano-nos-limites-de-uma-ecologia-integral\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Concep\u00e7\u00e3o do ser humano nos limites de uma ecologia integral"},"content":{"rendered":"<p><em>19 nov 2017 &#8211; <\/em>Em sua enc\u00edclica sobre \u201co Cuidado da Casa Comum\u201d o Papa Francisco submeteu a uma rigorosa cr\u00edtica o cl\u00e1ssico antropocentrismo de nossa cultura a partir de uma vis\u00e3o de uma ecologia integral, cosmocentrada, dentro da qual o ser humano comparece como parte do Todo\u00a0e da natureza. Isso nos convida a revisarmos nossa compreens\u00e3o do ser humano nos limites desta ecologia integral.<\/p>\n<p>Cabe enfatizar que as contribui\u00e7\u00f5es das ci\u00eancias da Terra e da vida, subjacentes ao texto papal, vem englobadas pela teoria da evolu\u00e7\u00e3o ampliada embora n\u00e3o a cita explicitamente. Elas nos trouxeram vis\u00f5es complexas e totalizadoras, inserindo-nos como um momento do processo global, f\u00edsico, qu\u00edmico, biol\u00f3gico e cultural.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s \u00a0todos estes conhecimentos nos perguntamos, n\u00e3o sem certa perplexidade: quem somos, afinal enquanto humanos? Tentanto responder, vamos logo dizendo : o ser humano \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o \u00a0da Energia de Fundo, donde tudo provem (V\u00e1cuo Qu\u00e2ntico ou Fonte Origin\u00e1ria de todo Ser); um ser c\u00f3smico, parte de um universo, possivelmente, entre outros paralelos, articulado em onze dimens\u00f5es (teoria das cordas); formado pelos mesmos\u00a0 elementos f\u00edsico-qu\u00edmicos e pelas mesmas energias que comp\u00f5em todos os seres; somos habitantes de uma gal\u00e1xia m\u00e9dia, uma entre duzentas bilh\u00f5es; circulando ao redor \u00a0do Sol, estrela de quinta categoria, uma entre outras trezentas bilh\u00f5es, situada a 27 mil anos luz do centro da Via-L\u00e1ctea, no bra\u00e7o interior da aspiral de \u00d3rion; morando num planeta min\u00fasculo, a Terra, tida como um super organismo vivo que funciona como um sistema que se autoregula, chamado Gaia.<\/p>\n<p>Somos um elo da corrente sagrada \u00a0da vida; um animal do ramo dos vertebrados, sexuado, da classe dos mam\u00edferos, da ordem dos primatas, da fam\u00edlia dos hominidas, do g\u00eanero homo, da esp\u00e9cie s<em>apiens\/demens<\/em>; dotado de um corpo de 30 bilh\u00f5es de c\u00e9lulas e 40 bilh\u00f5es de bat\u00e9rias, continuamente renovado por um sistema gen\u00e9tico que se formou ao largo de 3,8 bilh\u00f5es de anos, a idade da vida; portador de tr\u00eas n\u00edveis de c\u00e9rebro com cerca cem\u00a0 bilh\u00f5es de neur\u00f4nios: o reptiliano, surgido h\u00e1 300 milh\u00f5es de anos, que respondes pelos movimentos instintivos, ao redor do qual se formou o c\u00e9rebro l\u00edmbico, respons\u00e1vel pela nossa afetividade, h\u00e1 220 milh\u00f5es de anos, e por fim, completado pelo c\u00e9rebro neo-cortical, surgido h\u00e1 cerca de 7-8 milh\u00f5es de anos, com o qual organizamos conceptualmente o mundo.<\/p>\n<p>Portador da psiqu\u00e9 com a mesma ancestralidade do corpo, que lhe permite ser\u00a0 sujeito, psiqu\u00e9 habitada por todo tipo de emo\u00e7\u00f5es e\u00a0 estruturada pelo princ\u00edpio do desejo, com\u00a0 arqu\u00e9tipos ancestrais \u00a0e coroada pelo o esp\u00edrito que \u00e9 aquele momento da consci\u00eancia pelo qual se sente parte de um Todo maior, que o faz sempre aberto ao outro e\u00a0 ao infinito; capaz de intervir na natureza, e assim de fazer cultura, de criar e captar significados e valores e se indagar sobre o sentido derradeiro do Todo e da Terra, hoje em sua fase planet\u00e1ria, rumo \u00e0 noosfera pela qual mentes e cora\u00e7\u00f5es convergir\u00e3o numa Humanidade unificada.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m melhor que Pascal (+1662) para expressar o ser complexo que somos: \u201cQue \u00e9 o ser humano na natureza? Um nada diante do infinito, e um tudo diante do nada, um elo entre o nada e o tudo, mas incapaz de ver o nada de onde \u00e9 tirado e o infinito para onde \u00e9 atraido\u201d. Nele se cruzam os tr\u00eas infinitos: o infinitamente pequeno, o infinitamente grande e o infinitamente complexo (Chardin). Sendo isso tudo, sentimo-nos inteiros mas incompletos e ainda nascendo pois percebemo-nos cheios de virtualidades que for\u00e7am por vir \u00e0 tona. Estamos sempre na pr\u00e9-hist\u00f3ria de n\u00f3s mesmos. E apesar disso experimentamo-nos um projeto infinito que reclama seu objeto adequado, tamb\u00e9m infinito, que costumamos chamar de Deus ou de outro nome.<\/p>\n<p>E\u00a0 somos destinados \u00e0 morte. Custa-nos acolher a morte como parte da vida e a dramaticidade do destino humano. Pelo amor, pela arte e pela f\u00e9 pressentimos que a morte n\u00e3o \u00e9 um fim, mas uma inven\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vida para nos transfiguramos atrav\u00e9s dela. E suspeitamos que no balan\u00e7o final das coisas, um pequeno gesto de amor verdadeiro e incondicional vale mais que toda a mat\u00e9ria e a energia do universo juntas. Por isso, s\u00f3 vale falar, crer e esperar em Deus se Ele for sentido como prolongamento do amor, na forma do infinito.<\/p>\n<p>Pertence \u00e0 singularidade do ser humano n\u00e3o apenas apreender uma Presen\u00e7a, Deus, perpassando todos os seres, sen\u00e3o entreter com ele um di\u00e1logo de amizade e de amor. Intui que Ele seja o correspondente ao infinito desejo que sente, Infinito que lhe \u00e9 adequado e no qual pode repousar.<\/p>\n<p>Esse \u00a0Deus n\u00e3o \u00e9 um objeto entre outros, nem uma energia qualquer \u00a0entre outras. Se assim fosse poderia ser detectado pela ci\u00eancia. E n\u00e3o seria o Deus da experi\u00eancia oce\u00e2nia que n\u00e3o cabe em nenhuma f\u00f3rmula. Ele comparece como aquele suporte, cuja natureza \u00e9 Mist\u00e9rio, que tudo sustenta, alimenta e mantem na exist\u00eancia. Sem Ele tudo voltaria ao nada ou ao V\u00e1cuo Qu\u00e2ntico de onde irrompeu.\u00a0 Ele \u00e9 a for\u00e7a pela qual o pensamento pensa, mas que n\u00e3o pode ser pensada. O olho que tudo v\u00ea mas que n\u00e3o pode ser visto. Ele \u00e9 o Mist\u00e9rio sempre conhecido e sempre por conhecer indefinidamente. Ele perpassa e penetra at\u00e9 as entranhas de cada ser humano e do inteiro universo.<\/p>\n<p>Podemos pensar, meditar e interiorizar essa complexa Realidade, feita de realidades. Mas \u00e9 nessa dire\u00e7\u00e3o deve ser concebido o ser humano. Quem ele \u00e9 e qual \u00e9 o seu destino derradeiro se perde no Incognosc\u00edvel, sempre de alguma forma cognoc\u00edvel, que \u00e9 o espa\u00e7o do Mist\u00e9rio de Deus ou do Deus do Mist\u00e9rio. Somos seres sempre sendo indefinidamente. Por isso \u00e9 uma equa\u00e7\u00e3o que nunca se fecha e que permanece sempre em aberto. Quem revelar\u00e1 quem somos? Ningu\u00e9m nos\u00a0 quadros do mundo assim como existe e de uma ecologia por mais integral que se apresente.<\/p>\n<p>_________________________________________<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/leonardo-boff-e1504357428786.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-96488\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/leonardo-boff-e1504357428786.jpg\" alt=\"\" width=\"100\" height=\"118\" \/><\/a><em>Leonardo Boff \u00e9 um escritor, te\u00f3logo e fil\u00f3sofo brasileiro, professor em\u00e9rito de \u00e9tica e filosofia da religi\u00e3o da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, recebedor do <\/em><strong><em>Pr\u00eamio Nobel Alternativo da Paz<\/em><\/strong><em> do Parlamento sueco [<\/em><strong><em>Right Livelihood Award<\/em><\/strong><em>]em 2001, membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra, e professor visitante em v\u00e1rias universidades estrangeiras como Basel, Heidelberg, Harvard, Lisboa e Salamanca. Expoente da <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teologia_da_Liberta%C3%A7%C3%A3o\" >Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/a><\/em><em> no Brasil, foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. \u00c9 respeitado pela sua hist\u00f3ria de defesa pelas causas sociais e atualmente debate tamb\u00e9m quest\u00f5es ambientais. Colunista do <\/em>Jornal do Brasil<em>, escreveu os livros<\/em> Francisco de Assis: Ternura e Vigor, <em>Vozes 2000; <\/em>\u00a0A Terra na palma da m\u00e3o: uma nova vis\u00e3o do planeta e da humanidade<em>,Vozes 2016;\u00a0 <\/em>Cuidar da Terra \u2013 proteger a vida: como escapar do fim do mundo<em>, Record 2010; <\/em>\u00a0<em>A hospitalidade: direito e dever de todos, <\/em><em>Vozes 2005; e <\/em>Paix\u00e3o de Cristo, paix\u00e3o do mundo, <em>Vozes 2001<\/em>.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/leonardoboff.wordpress.com\/2017\/11\/19\/concepcao-do-ser-humano-nos-limites-de-uma-ecologia-integral\/\" >Go to Original \u2013 leonardoboff.wordpress.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>19 nov 2017 &#8211; Em sua enc\u00edclica sobre \u201co Cuidado da Casa Comum\u201d o Papa Francisco submeteu a uma rigorosa cr\u00edtica o cl\u00e1ssico antropocentrismo de nossa cultura a partir de uma vis\u00e3o de uma ecologia integral, cosmocentrada, dentro da qual o ser humano comparece como parte do Todo e da natureza. 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