{"id":102600,"date":"2017-11-27T12:02:18","date_gmt":"2017-11-27T12:02:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=102600"},"modified":"2017-11-26T20:30:37","modified_gmt":"2017-11-26T20:30:37","slug":"portugues-o-imperio-dos-eua-vai-acabar-ate-2020","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2017\/11\/portugues-o-imperio-dos-eua-vai-acabar-ate-2020\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) &#8220;O imp\u00e9rio dos EUA vai acabar at\u00e9 2020&#8221;"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><em>Johan Galtung, fundador da disciplina de Estudos da Paz nos curriculos acad\u00e9micos e que j\u00e1 mediou mais de uma centena de conflitos, diz que j\u00e1 s\u00f3 tr\u00eas pa\u00edses est\u00e3o dispostos a fazer o trabalho por Washington: Reino Unido, Dinamarca e Noruega.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_102601\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/johan-porto-2017.jpeg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-102601\" class=\"wp-image-102601\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/johan-porto-2017.jpeg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/johan-porto-2017.jpeg 823w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/johan-porto-2017-300x200.jpeg 300w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/johan-porto-2017-768x512.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-102601\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Os EUA pensam demasiado bem de si pr\u00f3prios e chamam a isso&#8221;excepcionalismo&#8221;, e v\u00eaem amea\u00e7as \u00e0 sua seguran\u00e7a em todo o lado&#8221;. MANUEL ROBERTO<\/p><\/div>\n<p><em>24 Nov 2017 &#8211; <\/em>O noruegu\u00eas Johan Galtung \u00e9 habitualmente apresentado como o fundador dos estudos da paz: foi ele que h\u00e1 quase 60 anos introduziu a disciplina no curr\u00edculo acad\u00e9mico de uma das principais universidades dos Estados Unidos (Columbia, em Nova Iorque), ao mesmo tempo que lan\u00e7ava o Instituto de Pesquisas da Paz em Oslo. No \u00e2mbito da sua investiga\u00e7\u00e3o, elaborou modelos e desenvolveu teorias que serviram para prever \u2013 correctamente \u2013 a revolu\u00e7\u00e3o iraniana ou o colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. E fora das portas da academia, participou na intermedia\u00e7\u00e3o de mais de uma centena de conflitos \u2013 na antiga Jugosl\u00e1via, no M\u00e9dio Oriente ou no Afeganist\u00e3o. Actualmente, dirige a Transcend International, uma rede sem fins lucrativos para a paz, desenvolvimento e meio ambiente.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Esteve em Braga num semin\u00e1rio na Universidade do Minho com o tema \u201cCinco d\u00e9cadas de investiga\u00e7\u00e3o da paz \u2013 passado e futuro\u201d. Pode explicar-nos como tudo come\u00e7ou?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Na verdade eu comecei em 1958, por isso s\u00e3o seis d\u00e9cadas! Duas coisas aconteceram nesse ano. Eu era professor de Sociologia na Universidade de Columbia, e a minha inten\u00e7\u00e3o era estudar, publicar. Com os meus alunos de doutoramento, fui a Charlottesville, na Virginia, para entrevistar duas mil pessoas, mas depois de chegar l\u00e1 o xerife e o <em>mayor <\/em>vieram ter comigo: \u201cSabe, o Supremo Tribunal decidiu acabar com a segrega\u00e7\u00e3o nas escolas. Como podemos faz\u00ea-lo de forma pac\u00edfica?\u201d A pergunta pareceu-me mais importante do que escrever um livro, e foi assim que despertei para a media\u00e7\u00e3o de paz. A outra coisa que aconteceu foi que estabeleci a distin\u00e7\u00e3o entre a paz negativa e paz positiva. Fazia isso de forma te\u00f3rica, por isso a teoria da investiga\u00e7\u00e3o da paz e a pr\u00e1tica da intermedia\u00e7\u00e3o juntaram-se em 1958.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Ao longo dessas seis d\u00e9cadas, o mundo passou por transforma\u00e7\u00f5es profundas. A sua abordagem tamb\u00e9m mudou?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Sim, est\u00e1 sempre a mudar. Quando n\u00e3o se faz s\u00f3 a teoria, mas tamb\u00e9m a pr\u00e1tica, descobrem-se problemas em que antes n\u00e3o t\u00ednhamos pensado. Isso enriquece a teoria. Ao mesmo tempo, exige que a teoria venha a ser indicativa da pr\u00e1tica, ou seja, perante uma determinada situa\u00e7\u00e3o indicar uma determinada resposta. J\u00e1 fiz isso mais de 150 vezes: perante situa\u00e7\u00f5es muito concretas, propus solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Essa experi\u00eancia levou-o a desenhar um modelo matem\u00e1tico para a media\u00e7\u00e3o de paz e resolu\u00e7\u00e3o de conflitos. Como funciona?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o lhe chamaria exactamente um modelo, diria antes que \u00e9 uma indica\u00e7\u00e3o de quatro coisas que devem ser feitas para alcan\u00e7ar esse objectivo. Apresento-a sob a forma de uma frac\u00e7\u00e3o, com duas coisas positivas no numerador e duas negativas no denominador. A primeira coisa positiva \u00e9 cr\u00edtica, e tem a ver com a coopera\u00e7\u00e3o para um benef\u00edcio m\u00fatuo e igual entre as partes. A segunda, vamos chamar-lhe harmonia ou empatia, significa que somos capazes de entender o outro lado, ou todos os lados, a partir do interior. Isto \u00e9, se eu for uma parte num conflito, tenho de me entender a mim pr\u00f3prio e ao outro lado. E se sou o mediador, tenho de entender todos os lados.<\/p>\n<p>Depois, no denominador dessa frac\u00e7\u00e3o temos o trauma multiplicado pelo conflito. O que quero dizer em rela\u00e7\u00e3o ao trauma \u00e9 que pode levar \u00e0 vingan\u00e7a, e o conflito pode levar \u00e0 agress\u00e3o. Para diminuir o trauma e o conflito, tem de se fazer concilia\u00e7\u00e3o e resolu\u00e7\u00e3o. Portanto, nessa equa\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica temos quatro tarefas. E ainda poderia acrescentar uma quinta, a que chamo de \u201caprofundamento cultural\u201d, e que passa pela compreens\u00e3o do gui\u00e3o invis\u00edvel que motiva a ac\u00e7\u00e3o das partes, o seu c\u00f3digo gen\u00e9tico. No caso dos Estados Unidos da Am\u00e9rica, chamo-lhe mesmo DNA, as iniciais de Dualismo, Nuclear e Armaged\u00e3o. Dualismo porque os EUA est\u00e3o sempre a dividir o mundo em duas partes, uma boa e outra m\u00e1, e Armaged\u00e3o porque uma dessas op\u00e7\u00f5es \u00e9 t\u00e3o m\u00e1 que n\u00e3o se considera o di\u00e1logo, e o risco \u00e9 sempre de acabar em batalha. A pol\u00edtica externa americana adequa-se a esse dualismo.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Esse seu modelo pode aplicar-se a todos os casos e em todas circunst\u00e2ncias?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Precisamente. N\u00e3o vou dizer que \u00e9 f\u00e1cil, mas pode fazer-se. Vou dar um exemplo concreto: um casal em que o marido era um homem de neg\u00f3cios que levava os seus livros de contabilidade para casa e a mulher se converteu ao budismo. Ela levava a religi\u00e3o muito a s\u00e9rio e ficava zangada com o marido porque achava que ele s\u00f3 se preocupava com dinheiro e era a riqueza interior que importava. Ele respondia que todo o conforto de que ela gostava exigia o dinheiro que ele ganhava. Estavam sempre a discutir. Ora, quando falo em empatia, refiro-me a encontrar algo de positivo que as duas partes possam fazer. A primeira regra \u00e9 falar com um de cada vez, para perceber o que querem. E eu digo: n\u00e3o h\u00e1 nada de errado em ser budista, e n\u00e3o h\u00e1 nada de errado em ser um homem de neg\u00f3cios. A minha estrat\u00e9gia, depois de falar com os ambos, foi perguntar: conseguem-se imaginar gerir juntos uma livraria budista? O \u201ctruque\u201d \u00e9 combinar a bondade das partes e fazer um projecto comum. Essa livraria ainda existe.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Acredita que em cada conflito se pode encontrar esse ponto comum e que as partes podem sempre chegar a compromisso?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o se trata de compromisso. Isso seria se ela ficasse um pouco menos budista e ele deixasse de trazer a contabilidade para casa. O que eu proponho \u00e9 uma coisa diferente, que passa por transcender, por ir al\u00e9m para construir algo novo: ela continua a ser budista e ele continua a ser empres\u00e1rio mas os dois deixam de se excluir. A media\u00e7\u00e3o \u00e9 criar algo de novo em ambos os lados. Com algum treino \u00e9 poss\u00edvel encontrar um meio de dar esse passo e construir essa ponte. J\u00e1 o fiz muitas vezes, quer ao n\u00edvel micro, para resolver conflitos entre pessoas; ao n\u00edvel m\u00e9dio, entre sociedades; ao n\u00edvel m\u00e1ximo, quando tratei de problemas entre estados; e ao n\u00edvel mega, entre regi\u00f5es e civiliza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div id=\"attachment_65083\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/alfparque8.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-65083\" class=\"wp-image-65083\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/alfparque8.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/alfparque8.jpg 640w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/alfparque8-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/alfparque8-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-65083\" class=\"wp-caption-text\">Parque &#8216;por la Paz&#8217;\u00a0Johan Galtung in Alf\u00e0z del Pi, Benidorm (Alicante), Spain.<\/p><\/div>\n<blockquote><p><strong>Nesses n\u00edveis macro e mega, enfrentamos desafios, do terrorismo \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e \u00e0 prolifera\u00e7\u00e3o nuclear. Ao mesmo tempo, os indicadores mostram que o mundo nunca conheceu t\u00e3o poucos conflitos como agora. Como explica esta aparente contradi\u00e7\u00e3o na nossa percep\u00e7\u00e3o aguda dos riscos e amea\u00e7as no mundo em que vivemos?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>A nossa percep\u00e7\u00e3o est\u00e1 totalmente errada. \u00c9 verdade que o mundo est\u00e1 melhor do que nunca. Mas temos um mundo multipolar. Isso significa que lidamos com situa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o muito diferentes. Lidamos com conflitos entre o Ocidente e o isl\u00e3o, mas tamb\u00e9m lidamos com conflitos em \u00c1frica e na Am\u00e9rica. Temos a quest\u00e3o de Israel e da Palestina, ou se quisermos a quest\u00e3o do mundo judaico-crist\u00e3o e do mundo \u00e1rabe. Na \u00c1sia Central temos o Afeganist\u00e3o, que \u00e9 muito complicado. Temos a China a assumir um novo papel preponderante no mundo. E temos uma pol\u00edtica mundial que \u00e9 pac\u00edfica mas com armamento.<\/p>\n<p>Os EUA que geriam o mundo em nome do Ocidente. Sem nunca terem pedido autoriza\u00e7\u00e3o intervieram militarmente mais de duas mil vezes desde 1801. Esse \u00e9 um n\u00famero que as pessoas n\u00e3o conhecem. Como tamb\u00e9m n\u00e3o sabem que, desde 1945, os EUA mataram mais de 20 milh\u00f5es de pessoas em mais de 47 pa\u00edses. Os EUA s\u00e3o um grande problema, tal como Israel. S\u00e3o as duas grandes fontes de guerras. A raz\u00e3o por que hoje temos terrorismo \u00e9, em grande parte, uma resposta \u00e0 viol\u00eancia dos EUA e Israel. \u00c9 verdade que n\u00e3o temos guerras entre Estados, elas quase desapareceram. Agora temos outro fen\u00f3meno, a que chamo terrorismo de Estado, e que \u00e9 largar bombas em cima da popula\u00e7\u00e3o civil. Em rela\u00e7\u00e3o ao outro terrorismo \u00e9 99 para 1. As pessoas ou andam a dormir ou fizeram-lhes uma lavagem cerebral.<\/p>\n<p>Mas com tudo isto que se passa no mundo, o que eu digo \u00e9 o mesmo: encontrem a raiz do conflito e tentem resolv\u00ea-lo, atrav\u00e9s de tr\u00eas fases: mapeamento, legitima\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o de pontes. Isto \u00e9, onde est\u00e3o as partes, como justifico o que pretendo e como construo uma ponte entre objectivos leg\u00edtimos.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Quer dizer que mesmo que por vezes n\u00e3o seja poss\u00edvel evitar o conflito \u00e9 poss\u00edvel encontrar uma solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o violenta?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>De forma dogm\u00e1tica diria que \u00e9 sempre poss\u00edvel, o que n\u00e3o quer dizer que essa solu\u00e7\u00e3o possa ser encontrada imediatamente. \u00c9 preciso procur\u00e1-la, e pode n\u00e3o ser f\u00e1cil. O momento cr\u00edtico \u00e9 dar esse passo criativo \u2013 \u00e9 o momento em que pensamos: que tal uma livraria budista? Temos de ver o valor que existe em ambos os lados.<\/p>\n<blockquote><p><strong>As lideran\u00e7as pol\u00edticas de hoje, a quem compete resolver tantos conflitos complexos, t\u00eam essa criatividade?\u00a0<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>As lideran\u00e7as ocidentais n\u00e3o t\u00eam mostrado criatividade alguma. Mas encontro enorme criatividade na China, por exemplo na ideia que tiveram de convidar todo o mundo a usar a nova rota da seda, a infraestrutura de estradas e caminhos-de-ferro e portos que est\u00e3o a construir. Com esse projecto eles conseguiram abrir a \u00c1frica muito mais do que em todo o per\u00edodo do colonialismo. Claro que n\u00e3o est\u00e3o a faz\u00ea-lo s\u00f3 por generosidade, est\u00e3o \u00e0 espera de recolher os seus lucros. Mas est\u00e3o a mostrar como se podem encontrar novas oportunidades. E os africanos est\u00e3o gratos. A China tem a vantagem de tratar os africanos de uma maneira muito diferente e melhor do que fizeram os brit\u00e2nicos, os franceses, os belgas, os portugueses. O que se passou [no per\u00edodo colonial] n\u00e3o foi nada bonito.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Tem teorias influentes sobre a ascens\u00e3o e a queda de imp\u00e9rios \u2013 e que o levaram a prever a revolu\u00e7\u00e3o iraniana, o colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a revolta da Pra\u00e7a de Tianamen. Como olha para a situa\u00e7\u00e3o actual desses pa\u00edses?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Para come\u00e7ar, temos de ver o que significavam esses imp\u00e9rios: havia um pa\u00eds, um cliente, que tinha uma elite local a fazer o trabalho por si. Pensemos por exemplo em Angola e Mo\u00e7ambique, e na elite local a produzir para os portugueses. Quando esses pa\u00edses se tornaram independentes, essa elite local deixou de fazer esse trabalho. Isso \u00e9 o fim do imperialismo. E isso aconteceu muitas vezes no \u00faltimo s\u00e9culo. O imp\u00e9rio sovi\u00e9tico, que como eu previ acabou por volta dos anos 90, foi o \u00faltimo. A minha nova previs\u00e3o \u00e9 que at\u00e9 2020 acabe o imp\u00e9rio dos Estados Unidos, que j\u00e1 s\u00f3 t\u00eam tr\u00eas pa\u00edses que est\u00e3o dispostos a fazer o trabalho por eles: o Reino Unido, a Dinamarca e a Noruega. E porqu\u00ea? Porque s\u00e3o evang\u00e9licos. N\u00e3o s\u00e3o cat\u00f3licos, estes distanciaram-se. Na Uni\u00e3o Europeia, a mensagem foi muito clara: n\u00e3o vamos continuar a lutar nas guerras dos EUA. Mas o Reino Unido ainda est\u00e1 a lutar as guerras dos EUA. A Dinamarca e Noruega est\u00e3o a bombardear na L\u00edbia &#8211; enquanto por exemplo a Fran\u00e7a e a Alemanha n\u00e3o. E por isso esses pa\u00edses foram recompensados, com os primeiros-ministros a ser nomeados secret\u00e1rio-geral da NATO. Essa \u00e9 a maneira que o sistema funciona.<\/p>\n<blockquote><p><strong>A sua previs\u00e3o do fim do imp\u00e9rio dos EUA j\u00e1 tem em conta o impacto da elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump e os poss\u00edveis efeitos das pol\u00edticas da sua Administra\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Com Trump a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 a deteriorar-se muito rapidamente. Donald Trump \u00e9 incapaz de conceber relacionamentos rec\u00edprocos. Ele \u00e9 narcisista e paran\u00f3ico, n\u00e3o acolhe ideias e reage com viol\u00eancia \u00e0 cr\u00edtica. Os pa\u00edses aliados dos EUA est\u00e3o desesperados e n\u00e3o sabem o que fazer. Estou certo que no Minist\u00e9rio dos Neg\u00f3cios Estrangeiros de Lisboa, como em muitos outros, est\u00e3o desejosos que Trump possa desaparecer o mais depressa poss\u00edvel para poderem voltar a lidar com uma Administra\u00e7\u00e3o normal. Mas tamb\u00e9m poderia dizer que se os EUA aceitaram ter uma pessoa como Donald Trump na presid\u00eancia, ent\u00e3o \u00e9 porque tamb\u00e9m h\u00e1 o mesmo tipo de narcisismo e de paran\u00f3ia nos EUA. Os EUA pensam demasiado bem de si pr\u00f3prios, e chamam a isso \u201cexcepcionalismo\u201d, e v\u00eaem amea\u00e7as \u00e0 sua seguran\u00e7a em todo o lado. Talvez fosse melhor olharem para os restantes pa\u00edses do mundo e pensar no que podem fazer e conseguir juntos: \u00e9 isso que fazem os directores das empresas, e fazem-no bem, estabelecem parcerias e fazem neg\u00f3cios muito melhores do que os pol\u00edticos.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Em entrevistas referiu os conceitos de na\u00e7\u00e3o e Estado, e a confus\u00e3o que existe entre os dois, para explicar crises que nos est\u00e3o distantes, como o Afeganist\u00e3o, ou que nos s\u00e3o pr\u00f3ximas, como a Catalunha.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Sim, o jornal <em>El Pa\u00eds<\/em> at\u00e9 sugeriu o meu nome como poss\u00edvel mediador para a crise. Ent\u00e3o vejamos: a posi\u00e7\u00e3o de Madrid \u00e9 \u201cum Estado\u201d e a posi\u00e7\u00e3o dos independentistas da Catalunha \u2013 minorit\u00e1ria\u2014 \u00e9 \u201cdois Estados\u201d. Mas entre um e dois estados h\u00e1 muitas alternativas. Antes da solu\u00e7\u00e3o dois estados, que \u00e9 um passo dram\u00e1tico, ainda temos a federa\u00e7\u00e3o e a confedera\u00e7\u00e3o. A federa\u00e7\u00e3o seria uma solu\u00e7\u00e3o simples: seria uma na\u00e7\u00e3o diferente com a sua pr\u00f3pria l\u00edngua, e talvez com a sua pr\u00f3pria gest\u00e3o do fundo de pens\u00f5es. E quando fizerem isso ter\u00e3o um grau mais elevado de autonomia, fazendo na mesma parte de Espanha. E mesmo se quisessem chamar-se independentes, fariam parte de uma comunidade de na\u00e7\u00f5es em Espanha.<\/p>\n<p>\u00c9 uma quest\u00e3o de dois modelos: o modelo de Franco, \u201cuna grande libre\u201d, e o oposto, \u201cuna comunidade de naciones\u201d. Penso que a segunda hip\u00f3tese \u00e9 muito mais realista. H\u00e1 seis na\u00e7\u00f5es em Espanha: os catal\u00e3es, os bascos, os galegos, os castelhanos, os andaluzes e os baleares e os can\u00e1rios. Uma Espanha vi\u00e1vel seria uma federa\u00e7\u00e3o desses na\u00e7\u00f5es, com autonomia local mas na mesma um Estado. Penso que \u00e9 um belo modelo.<\/p>\n<p>Agora s\u00e3o precisas ideias concretas de como fazer isso. O que eu diria \u00e9 para se ter cuidado com as hierarquias da Catalunha, com os mais ricos que querem explorar os trabalhadores eles pr\u00f3prios sem ter de partilhar a riqueza com Madrid. Foi assim que se fez a independ\u00eancia dos EUA, quando os colonos decidiram que era melhor serem eles pr\u00f3prios a explorar os escravos sem partilhar com Londres.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, os catal\u00e3es t\u00eam todo o direito de querer governar o seu pr\u00f3prio pa\u00eds, com a sua l\u00edngua e a sua cultura. Vai tudo dar a 1640 que \u00e9 tamb\u00e9m quando Portugal entra nesta equa\u00e7\u00e3o: Filipe II tinha agita\u00e7\u00e3o na prov\u00edncia de Portugal e na Catalunha, mas s\u00f3 tinha Ex\u00e9rcito para conter uma das duas rebeli\u00f5es. E foi assim que Portugal se tornou independente, com a supress\u00e3o da revolta da Catalunha. Por isso penso que os portugueses, porque beneficiaram em 1640, deviam ter compaix\u00e3o da Catalunha e pronunciar-se a favor, n\u00e3o da independ\u00eancia, mas de uma maior autonomia.<\/p>\n<p>________________________________________________<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Johan Galtung, dr hc mult, professor de estudos de paz, \u00e9 fundador da <\/em><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/\" >TRANSCEND International<\/a><\/em> <em>e reitor da <\/em><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tpu\/\" >TRANSCEND Peace University<\/a><\/em><em>. Galtung publicou mais de 1.500 artigos e cap\u00edtulos de livros, 500 editoriais para a <\/em><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/\" >TRANSCEND Media Service<\/a><\/em><em> e mais de 170 livros sobre a paz e quest\u00f5es relacionadas, dos quais mais de 40 foram traduzidos para outras l\u00ednguas, incluindo <\/em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tup\/index.php?book=1\" >50 Years<em> \u2013 <\/em>100 Peace and Conflict Perspectives<\/a><em> publicado pela <\/em><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tup\/\" >TRANSCEND University Press<\/a><\/em><em>.<\/em> <em>Mais<\/em><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/galtung\/\" > informac\u00f5es sobre o Prof. Galtung<\/a><\/em><em> e <\/em><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/galtung\/#publications\" >todas as suas publica\u00e7\u00f5es<\/a><\/em><em>, tamb\u00e9m aqui: <\/em><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/galtung\/\" >transcend.org\/galtung<\/a><\/em><em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/rita-siza.jpeg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-102602\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/rita-siza.jpeg\" alt=\"\" width=\"46\" height=\"46\" \/><\/a><em>Rita Siza &#8211; Subeditora de Mundo. <a href=\"mailto:%20rita.siza@publico.pt\">rita.siza@publico.pt<\/a><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2017\/11\/24\/mundo\/entrevista\/temos-uma-politica-mundial-que-e-pacifica-mas-com-armamento-1793652?page=\/&amp;pos=5&amp;b=feature_d\" >Go to Original \u2013 publico.pt<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>24 Nov 2017 &#8211; Johan Galtung, fundador da disciplina de Estudos da Paz nos curriculos acad\u00e9micos e que j\u00e1 mediou mais de uma centena de conflitos, diz que j\u00e1 s\u00f3 tr\u00eas pa\u00edses est\u00e3o dispostos a fazer o trabalho por Washington: Reino Unido, Dinamarca e Noruega.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":102601,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-102600","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/102600","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=102600"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/102600\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media\/102601"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=102600"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=102600"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=102600"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}