{"id":105205,"date":"2018-01-22T12:00:45","date_gmt":"2018-01-22T12:00:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=105205"},"modified":"2018-01-20T12:27:40","modified_gmt":"2018-01-20T12:27:40","slug":"portugues-o-protovegetarianismo-na-literatura-do-poeta-romano-ovidio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2018\/01\/portugues-o-protovegetarianismo-na-literatura-do-poeta-romano-ovidio\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) O protovegetarianismo na literatura do poeta romano Ov\u00eddio"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><em>\u201cSeres humanos, parem de profanar seus corpos com alimentos \u00edmpios\u201d!<\/em><\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_105206\" style=\"width: 296px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/ovidio.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-105206\" class=\"size-medium wp-image-105206\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/ovidio-286x300.jpg\" alt=\"\" width=\"286\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/ovidio-286x300.jpg 286w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/ovidio.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 286px) 100vw, 286px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-105206\" class=\"wp-caption-text\">Ov\u00eddio ajudou a eternizar o fil\u00f3sofo grego Pit\u00e1goras como um dos precursores do vegetarianismo no Ocidente.<br \/>(Acervo: Ancient History Encyclopedia)<\/p><\/div>\n<p><em>17 jan 2018 &#8211; <\/em>Influ\u00eancia para Dante Alighieri, Shakespeare, Caravaggio, Michelangelo, Boccaccio, Rembrandt, Rousseau, Chaucer, Kafka, James Joyce, Fernando Pessoa e Cruz e Sousa, entre outros importantes nomes da literatura e das artes pl\u00e1sticas, o poeta romano Ov\u00eddio se tornou mais conhecido pela autoria da obra em latim \u201cMetamorfoses\u201d, composta em 15 livros em hex\u00e2metro heroico e considerada uma das mais importantes obras da mitologia cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p>Quando \u201cMetamorfoses\u201d foi publicada pela primeira vez no ano 8 do s\u00e9culo I, Ov\u00eddio chegou a ser considerado um contraventor em diversos c\u00edrculos sociais, principalmente pela forma como descreve, mesmo que poeticamente, um mundo diferente daquele idealizado pelos imperadores da \u00e9poca. At\u00e9 hoje a causa de seu ex\u00edlio na remota Tomis (atual Constanta ou Constan\u00e7a, na Rom\u00eania), na C\u00edtia Menor, ao Sul do Mar Negro, ainda \u00e1 incerta, embora \u201cMetamorfoses\u201d tenha sido publicada no mesmo ano.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil entender por que Ov\u00eddio, que gozava de grande popularidade, despertaria desconfian\u00e7a e receio. Assim como alguns fil\u00f3sofos da Gr\u00e9cia Antiga que foram perseguidos por suas ideias que se voltavam mais para o desenvolvimento humano, equil\u00edbrio entre os seres vivos e \u00e0 potencializa\u00e7\u00e3o de sensibilidades, como S\u00f3crates, que foi obrigado a ingerir cicuta ap\u00f3s 30 dias preso, Ov\u00eddio tamb\u00e9m n\u00e3o admitia restri\u00e7\u00f5es ao intelecto e \u00e0 capacidade humana de gerir a compaix\u00e3o e o respeito pela vida em suas multif\u00e1rias formas.<\/p>\n<p>No 15\u00ba livro de \u201cMetamorfoses\u201d, h\u00e1 dois cap\u00edtulos em especial que chamam a aten\u00e7\u00e3o. Na vers\u00e3o traduzida do original em latim para o ingl\u00eas por Anthony S. Kline, no cap\u00edtulo \u201cOs Ensinamentos de Pit\u00e1goras: Vegetarianismo\u201d, Ov\u00eddio ajudou a eternizar o fil\u00f3sofo grego Pit\u00e1goras como um dos precursores do vegetarianismo no Ocidente, o que contribuiu para dar origem ao termo \u201cpitag\u00f3ricos\u201d em refer\u00eancia a \u201cvegetarianos\u201d, locu\u00e7\u00e3o que passaria a existir formalmente apenas no s\u00e9culo 19, em refer\u00eancia a quem se abst\u00e9m do consumo de carne e de outros alimentos de origem animal. Sendo assim, \u00e9 importante reconhecer que se a hist\u00f3ria do vegetarianismo no Ocidente remete a mais de 2,5 mil anos, em parte isso se deve a autores como Ov\u00eddio, j\u00e1 que Pit\u00e1goras, por exemplo, n\u00e3o publicou nada em vida.<\/p>\n<p>Em \u201cMetamorfoses\u201d, o poeta romano narra que havia um homem que fugiu de Samos porque, odiando a tirania de seus governantes, preferiu viver em ex\u00edlio volunt\u00e1rio. Segundo Ov\u00eddio, embora os deuses estivessem longe, Pit\u00e1goras poderia visit\u00e1-los atrav\u00e9s do c\u00e9u e do poder de sua mente, j\u00e1 que o que a natureza negou \u00e0 vis\u00e3o humana, Pit\u00e1goras poderia desfrutar a partir do seu terceiro olho \u2013 em men\u00e7\u00e3o \u00e0 sua capacidade intuitiva atilada.<\/p>\n<p>Pit\u00e1goras fazia quest\u00e3o de dividir o seu conhecimento com o p\u00fablico. De acordo com o poeta romano, ele reunia multid\u00f5es silenciosas que ouviam as maravilhas de suas palavras quanto \u00e0 origem do universo e das causas das coisas. Discorria sobre o mundo f\u00edsico, os deuses, o surgimento da neve, a origem dos rel\u00e2mpagos, das tempestades, dos trov\u00f5es e das estrelas. Na realidade, sobre tudo que era oculto ou mesmo intencionalmente velado. Incentivava tamb\u00e9m a absten\u00e7\u00e3o do consumo de animais, um fato em especial que estimulou o pintor flamengo Peter Paul Rubens a conceber a pintura que receberia o nome \u201cPit\u00e1goras advogando o vegetarianismo\u201d, criada entre os anos de 1618 e 1620.<\/p>\n<p>\u201cEle foi o primeiro a condenar o ato de servir carne \u00e0 mesa. [\u2026] Seres humanos, parem de profanar seus corpos com alimentos \u00edmpios. H\u00e1 colheitas, h\u00e1 ma\u00e7\u00e3s envergando os galhos; e uvas amadurecendo nas videiras; h\u00e1 ervas arom\u00e1ticas; e aquelas que podem ser suaves e gentis sobre as chamas; [\u2026] A terra pr\u00f3diga de sua riqueza, fornece-lhe um suave sustento e oferece comida sem morte ou derramamento de sangue\u201d, exorta Ov\u00eddio citando Pit\u00e1goras.<\/p>\n<p>O poeta romano escreveu, baseando-se no discurso do grego, que a carne satisfaz a fome dos animais selvagens, embora n\u00e3o todos eles, j\u00e1 que cavalos, ovelhas e bovinos se alimentam de grama. \u201cTigres arm\u00eanios, le\u00f5es furiosos, lobos e ursos desfrutam de comida molhada com sangue. \u00d3, qu\u00e3o errada \u00e9 a carne feita de carne; para um corpo voraz engordar, engolindo outro corpo; para uma criatura viver a partir da morte de outra criatura! Assim, entre essas riquezas, a terra, a maior das m\u00e3es, cede. Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 feliz a menos que rasgue, com dentes cru\u00e9is, lastimosas feridas, recordando assim a pr\u00e1tica do ciclope; e voc\u00ea n\u00e3o pode satisfazer o seu voraz apetite e a sua inquieta fome a menos que voc\u00ea destrua outra vida\u201d, critica.<\/p>\n<p>Entre os ensinamentos de Pit\u00e1goras, Ov\u00eddio aborda a Era do Ouro, uma \u00e9poca em que os seres humanos eram felizes porque se satisfaziam com os frutos das \u00e1rvores e com as ervas que a terra produzia, assim n\u00e3o contaminando os seus l\u00e1bios com sangue. Naquele tempo, os p\u00e1ssaros abriam caminho no ar em seguran\u00e7a, sem terem o que temer, assim como os le\u00f5es que vagavam sem medo da interven\u00e7\u00e3o humana: \u201cMas, uma vez que algu\u00e9m, quem quer que fosse, invejava as presas do le\u00e3o e enchia sua insaci\u00e1vel barriga com carne, abria-se caminho para o crime.\u201d<\/p>\n<p>Ov\u00eddio relata que a viol\u00eancia humana contra os animais come\u00e7ou a partir da viol\u00eancia e da morte das \u201cferas selvagens\u201d. E tal ferocidade, tamb\u00e9m citada no di\u00e1logo de S\u00f3crates com Glauco, e registrado por Plat\u00e3o em \u201cA Rep\u00fablica\u201d, remete \u00e0 gan\u00e2ncia humana, aos homens invadindo \u00e1reas naturais cada vez maiores n\u00e3o para satisfazerem suas necessidades b\u00e1sicas, mas sim para lucrarem com suas produ\u00e7\u00f5es, o que deixa subentendido que havia aqueles que j\u00e1 n\u00e3o se contentavam com a igualdade. Estes buscavam status, distin\u00e7\u00e3o baseada no poder pecuni\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u201cA perversidade se espalhou ainda mais, e acredita-se que o porco foi considerado o primeiro a merecer o abate porque arrancou as sementes com o seu largo focinho e destruiu a esperan\u00e7a de uma colheita. A cabra foi levada \u00e0 morte, no altar da vingan\u00e7a, para navegar pelas vinhas de Baco. Esses dois sofreram pelos seus crimes!\u201d, conta Ov\u00eddio, acrescentando que rebanhos tranquilos como de ovelhas, animais naturalmente pac\u00edficos, tamb\u00e9m foram v\u00edtimas da procacidade humana, mesmo sem terem invadido ou destru\u00eddo planta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Citando os ensinamentos de Pit\u00e1goras, Ov\u00eddio declara que o ser humano imerso na viol\u00eancia contra os animais \u00e9 um ingrato, indigno da d\u00e1diva que \u00e9 o milho. Tamb\u00e9m fala dos homens que for\u00e7avam os bovinos a puxarem o arado, e quando estes j\u00e1 n\u00e3o gozavam da mesma vitalidade eram mortos a sangue frio, com golpes de machado no pesco\u00e7o:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o era suficiente ter cometido tal maldade; envolveram os deuses em seus crimes e acreditam que os deuses se deleitavam com o abate dos bois que sofriam. A v\u00edtima, com sua beleza excepcional (uma vez que ser agrad\u00e1vel \u00e9 prejudicial), e que se distinguia pelas fitas rituais de ouro, era posicionada em frente ao altar enquanto ouvia, sem entender, as ora\u00e7\u00f5es, e via o milho que trabalhou tanto para produzir sendo colocado entre seus chifres, e depois derrubado, manchado com o sangue das facas que refletiam na \u00e1gua l\u00edmpida.\u201d<\/p>\n<p>Tencionando descobrir qual era a verdadeira vontade dos deuses, os homens, imersos na viol\u00eancia legitimada, arrancavam os pulm\u00f5es do peito dos animais enquanto estes ainda estavam vivos, com o cora\u00e7\u00e3o rufando. \u201cDisso (t\u00e3o grande \u00e9 a fome do homem pelo alimento proibido) voc\u00ea se alimenta, \u00f3 ra\u00e7a humana! N\u00e3o, eu imploro, concentre sua mente nas admoesta\u00e7\u00f5es. Quando voc\u00ea coloca a carne do gado abatido em sua boca, sabe e sente que est\u00e1 devorando uma criatura amiga\u201d, censura o autor.<\/p>\n<p>No cap\u00edtulo \u201cOs Ensinamentos de Pit\u00e1goras: A Santidade da Vida\u201d, Ov\u00eddio defende que, seguindo os preceitos de Pit\u00e1goras, devemos permitir e garantir que os animais vivam em seguran\u00e7a e de forma honrada, n\u00e3o cabendo a n\u00f3s intervir no curso de suas naturezas, nem decidir quando suas vidas devem findar simplesmente por um capricho hedonista:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o podemos preencher as nossas barrigas como se estiv\u00e9ssemos em um banquete canibal. Que perversidade eles fazem, qu\u00e3o impiedosamente se preparam para derramar o pr\u00f3prio sangue humano, aquele que rasga a garganta de um bezerro com a faca e escuta insens\u00edvel o seu balido; [\u2026] que chora como uma crian\u00e7a, ou se alimenta de uma ave que eles mesmos alimentaram. At\u00e9 que ponto isso n\u00e3o \u00e9 um verdadeiro assassinato? Para qual caminho isso leva? [\u2026] Deixe o boi morrer de velhice. N\u00e3o engane os p\u00e1ssaros com galhos molhados nem aprisione o veado, assustando-os com cordas emplumadas ou iscas trai\u00e7oeiras como ganchos farpados. [\u2026] Deixe sua boca livre de seu sangue, desfrute de uma comida mais suave.\u201d<\/p>\n<p><strong>Saiba Mais<\/strong><\/p>\n<p>Ov\u00eddio nasceu no ano 23 a.C. em Sulmona, na atual It\u00e1lia, e faleceu no ano 17 ou 18 da Era Crist\u00e3 em Tomis, na C\u00edtia Menor.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de \u201cMetamorfoses\u201d, Ov\u00eddio legou obras como \u201cAmores\u201d, \u201cCartas de P\u00f4nticas\u201d, \u201cAs Heroides\u201d, \u201cCuras para o Amor\u201d, \u201cA Arte de Amar\u201d e \u201cTristezas\u201d.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/ovid.lib.virginia.edu\/trans\/Ovhome.htm\" >Ovid. Anthony S. Kline. Ovid\u2019s Metamorphoses. University of Virginia (2000).<\/a><\/p>\n<p>Plat\u00e3o. A Rep\u00fablica. Nova Fronteira (2014).<\/p>\n<p>__________________________________________<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/David-Arioch-e1491301383398.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-87305\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/David-Arioch-e1491301383398.jpg\" alt=\"\" width=\"100\" height=\"100\" \/><\/a><em>David Arioch \u00e9 jornalista, pesquisador e documentarista. Trabalha profissionalmente h\u00e1 dez anos com jornalismo cultural e liter\u00e1rio.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/davidarioch.com\/2018\/01\/17\/o-protovegetarianismo-na-literatura-do-poeta-romano-ovidio\/\" >Go to Original \u2013 davidarioch.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ov\u00eddio relata que a viol\u00eancia humana contra os animais come\u00e7ou a partir da viol\u00eancia e da morte das \u201cferas selvagens\u201d. 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