{"id":105910,"date":"2018-02-05T12:00:31","date_gmt":"2018-02-05T12:00:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=105910"},"modified":"2018-02-01T14:56:57","modified_gmt":"2018-02-01T14:56:57","slug":"portugues-sera-que-aos-olhos-dos-animais-nao-somos-vistos-como-assassinos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2018\/02\/portugues-sera-que-aos-olhos-dos-animais-nao-somos-vistos-como-assassinos\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Ser\u00e1 que aos olhos dos animais n\u00e3o somos vistos como assassinos?"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_105911\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Zodiac-sketch-horz-animal-criminal-minds.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-105911\" class=\"wp-image-105911\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Zodiac-sketch-horz-animal-criminal-minds.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"245\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Zodiac-sketch-horz-animal-criminal-minds.jpg 768w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Zodiac-sketch-horz-animal-criminal-minds-300x184.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-105911\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Criminal Minds Encyclopedia\/Foto: Jo-Anne McArthur\/We Animals<\/p><\/div>\n<p><em>27 Jan 2018 &#8211; <\/em>Vamos esquecer por um instante o conceito legal, tradicional e legitimado socialmente de certo e errado e suas implica\u00e7\u00f5es ulteriores. Ser\u00e1 que o famigerado Assassino do Zod\u00edaco poderia ser considerado um executor com uma proposta de mortic\u00ednio que segue os princ\u00edpios do \u201cabate humanit\u00e1rio\u201d? \u00c9 ineg\u00e1vel que ele era um psicopata que usurpava vidas, e por isso merecia ser responsabilizado por seus atos. Mas, por pior que fossem suas a\u00e7\u00f5es, me parece, valendo-me me de sua trajet\u00f3ria, que ele n\u00e3o deixava de ter um c\u00f3digo de \u00e9tica.<\/p>\n<p>Afinal, ele matava suas v\u00edtimas com tiros cir\u00fargicos, com precis\u00e3o letal. Suas a\u00e7\u00f5es, independente de motiva\u00e7\u00e3o, n\u00e3o deixavam rastros de passionalidade. Como um criminoso organizado, era como se estivesse simplesmente cumprindo um trabalho; tanto que sequer tocava suas v\u00edtimas. Ele n\u00e3o as torturava; n\u00e3o tinha qualquer interesse ordin\u00e1rio ou especial pelo sofrimento, mas apenas pelas consequ\u00eancias daquilo que n\u00e3o existiria sem o sofrimento pessoal ou transfer\u00edvel em algum n\u00edvel. Ou seja, a morte.<\/p>\n<p>O contato direto, a fisicalidade, n\u00e3o o interessava. O seu ritual se resumia ao gatilho. O prazer, se existiu, estava no disparo, e o seu cl\u00edmax no desvanecimento da exist\u00eancia. E foi isso que impediu que ele jamais fosse capturado. N\u00e3o era previs\u00edvel nem imprevis\u00edvel. Ostensivo e privativo, eu diria. Usava sempre o mesmo uniforme e quase sempre a mesma arma. Seu modus operandi e sua assinatura eram unos e indefect\u00edveis na sua express\u00e3o e categoria nos anos 1968 e 1969. Seu m\u00e9todo empedernido, mesmo que n\u00e3o motivado economicamente, j\u00e1 que n\u00e3o lucrava para matar, me levou a uma associa\u00e7\u00e3o, concordem ou n\u00e3o, entre a sua pistola e a captive bolt pistol (no Brasil, conhecida como pistola de atordoamento ou de abate), usada nos matadouros dos pa\u00edses de \u201cPrimeiro Mundo\u201d desde as primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p>Me refiro \u00e0 pistola empunhada pelos magarefes para disparar com brutal naturalidade um dardo que penetra o cr\u00e2nio de um animal n\u00e3o humano e atinge seu c\u00e9rebro na tentativa de insensibiliz\u00e1-lo no processo de abate. Se fiz\u00e9ssemos isso com seres humanos, independente de motiva\u00e7\u00e3o, mesmo que em um caso de repara\u00e7\u00e3o ou de \u201clei de tali\u00e3o\u201d, n\u00e3o ser\u00edamos considerados vis, t\u00farbidos, refeces, monstros? Jeffrey Dahmer lobotomizava suas v\u00edtimas humanas. Ser\u00e1 que o que fazemos com os animais antes de mat\u00e1-los nas linhas de execu\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o diferente da lobotomiza\u00e7\u00e3o? J\u00e1 que o disparo da captive bolt pistol rouba-lhes a pr\u00f3pria identidade, tornando-os in\u00fateis na sua pr\u00f3pria ess\u00eancia, assim como os lobotomizados.<\/p>\n<p>Acredito que h\u00e1 funcion\u00e1rios de matadouros que realmente n\u00e3o sentem prazer em tirar a vida de um animal n\u00e3o humano, j\u00e1 que muitos cumprem esse trabalho por alegada necessidade. Por\u00e9m, ser\u00e1 que isso n\u00e3o impacta em suas vidas? Em seu estado emocional e psicol\u00f3gico? Imagine ter um cotidiano pautado em violentar e matar animais. \u00c9 preciso crer que est\u00e1 diante de objetos, n\u00e3o de vidas. \u00c9 imprescind\u00edvel desligar a compaix\u00e3o \u2013 permitir-se uma dissocia\u00e7\u00e3o. Do contr\u00e1rio, n\u00e3o serve para o trabalho.<\/p>\n<p>N\u00e3o que trabalhar em um matadouro transforme essas pessoas em sujeitos terr\u00edveis, j\u00e1 que s\u00e3o seres humanos imersos em um universo de legitima\u00e7\u00e3o de mortes de outras esp\u00e9cies. Afinal, eles seguem o protocolo da ind\u00fastria e n\u00e3o ousam question\u00e1-la por diversos fatores \u2013 pessoais ou n\u00e3o. A atividade se resume a ser pago, em muitos casos mal pago, para matar sob o respaldo legal. H\u00e1 uma \u201croupagem\u201d de atividade comum, impedindo que aquele que dispara uma arma contra a cabe\u00e7a de um animal reconhe\u00e7a isso como errado, cruel, e menos ainda como assassinato. Claro, porque a humanidade diz que est\u00e1 tudo bem em matar, desde que n\u00e3o seja um ser humano; e desde que aquela morte gere algum produto ou bem de consumo.<\/p>\n<p>O mundo ao seu redor diz que o que ele faz \u00e9 certo numa propor\u00e7\u00e3o muito maior do que a condenat\u00f3ria, j\u00e1 que o valor da vida animal n\u00e3o humana \u00e9 proporcional ao peso da carca\u00e7a no contexto comercial. Por\u00e9m, h\u00e1 um aspecto t\u00e9trico a se considerar. Essa realidade pode brutalizar o ser humano e transform\u00e1-lo, se assim o permitir. E se o executor desenvolve prazer pelo que faz, mesmo que isso signifique a morte de ser de outra esp\u00e9cie, ele corre o risco de definitivamente abrir m\u00e3o de uma das qualidades mais importantes do ser humano, que \u00e9 a empatia. Isso realmente n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel. V\u00eddeos amadores pululam no YouTube mostrando que como os animais n\u00e3o partilham do mesmo c\u00f3digo comunicativo que n\u00f3s, h\u00e1 sempre aqueles que agem, de fato, como violentadores, psicopatas, serial killers, rampage killers ou mass murderers em rela\u00e7\u00e3o aos animais de outras esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>O contato naturalizado com a viol\u00eancia pode asselvajar o ser humano, principalmente aqueles que j\u00e1 t\u00eam predisposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ferocidade; ou a transferir frustra\u00e7\u00f5es aos vulner\u00e1veis com quem convive \u2013 com destaque para aqueles que n\u00e3o podem reclamar do pr\u00f3prio sofrimento por n\u00e3o terem uma voz que inspira respeito e considera\u00e7\u00e3o. Quem n\u00e3o se recorda do cl\u00e1ssico do cinema de terror intitulado \u201cTexas Chainsaw Massacre?\u201d Nas partes mais pesadas do filme, estamos diante de um matadouro, e tudo que acontece l\u00e1 dentro choca facilmente os seres humanos porque as v\u00edtimas s\u00e3o humanas. Por outro lado, ignoramos que aquela \u00e9 a realidade ordin\u00e1ria n\u00e3o humana. Desconsidere a figura do serial killer e substitua os personagens humanos do filme por animais e voc\u00ea ter\u00e1 uma representa\u00e7\u00e3o trivial do cotidiano.<\/p>\n<p>Pessoas penduradas em grilh\u00f5es, e sendo golpeadas violentamente, assim como fazemos com porcos; e, claro, tendo partes de seu corpo removidas. O c\u00f3digo de comunica\u00e7\u00e3o do assassino tamb\u00e9m parece ser outro, e a sua aus\u00eancia de empatia faz refletir sobre a empatia que negamos aos seres de outras esp\u00e9cies. \u00c9 como se n\u00e3o ouv\u00edssemos os animais, assim como os assassinos em s\u00e9rie n\u00e3o ouvissem os seres humanos \u2013 como se enxergassem a si mesmos como uma esp\u00e9cie al\u00e9m \u2013 dotada do direito de nos exterminar. Analise alguns discursos de serial killers e voc\u00ea ver\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber que v\u00e1rios deles se referem \u00e0s suas v\u00edtimas como se fossem bovinos e su\u00ednos.<\/p>\n<p>Claro que a minha inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 chamar de assassino quem sobrevive matando animais, mas o ato em si \u00e9 an\u00e1logo a um assassinato quando subtra\u00edmos vidas que n\u00e3o nos pertencem, independente de finalidade. Mas o mundo e a nossa realidade social, cultural e econ\u00f4mica nos dizem diariamente que esse assassinato \u00e9 justo, necess\u00e1rio e legal, porque tem o aval da maior parte da popula\u00e7\u00e3o e do Estado. E a morte de animais, al\u00e9m de cruel e evidentemente desnecess\u00e1ria, j\u00e1 que \u00e9 poss\u00edvel viver muito bem sem matar outras esp\u00e9cies para consumo, pode preparar algu\u00e9m para a\u00e7\u00f5es que, enfim, despertem a aten\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, deixando-a em choque, como \u00e9 o caso dos crimes cometidos pelo <em>Zodiac Killer<\/em>,\u00a0citado no in\u00edcio do texto.<\/p>\n<p>Al\u00e9m desse, me recordo tamb\u00e9m do caso de Jeremiah Burroughs, funcion\u00e1rio de um matadouro, que enfastiado de executar animais d\u00f3ceis, acabou por matar mais de 70 pessoas. H\u00e1 quem diga que o meio e a naturaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia contra n\u00e3o humanos o levou a matar pessoas. N\u00e3o posso afirmar, mas n\u00e3o duvido, e creio que ele n\u00e3o seja o \u00fanico. Ademais, h\u00e1 in\u00fameros assassinos e serial killers que adotaram em suas execu\u00e7\u00f5es m\u00e9todos comuns em matadouros e na ind\u00fastria da carne. Outros exemplos s\u00e3o Jeffrey Dahmer, Robert Pickton, os Bloody Benders, Ottis Toole, Albert Fish, Ed Gein, B\u00e9la Kiss, Richard Trenton Chase, Joachim Kroll, Armin Meiwes, Andrei Chikatilo, Arthur Shawcross, Issei Sagawa e Robert Maudsley, entre outros.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que aos olhos dos animais n\u00e3o humanos que seguem matadouro adentro n\u00e3o existe a possibilidade de que sejamos vistos como serial killers, mass murderers? A verdade que muitos se negam a ver \u00e9 que assim como v\u00edtimas humanas de assassinatos n\u00e3o t\u00eam qualquer anseio em morrer, os animais n\u00e3o humanos nos matadouros partilham do mesmo interesse. Uma prova disso? Antes de executar um animal, d\u00ea a ele, ou pe\u00e7a que deem a ele, a oportunidade de fugir. Ent\u00e3o voc\u00ea ter\u00e1 sua resposta.<\/p>\n<p>_____________________________________________<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/david-arioch-vegan-vegetarian-animal-e1497182383617.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-92700\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/david-arioch-vegan-vegetarian-animal-e1497182383617.jpg\" alt=\"\" width=\"100\" height=\"133\" \/><\/a><em>David Arioch \u00e9 jornalista, pesquisador e documentarista. Trabalha profissionalmente h\u00e1 dez anos com jornalismo cultural e liter\u00e1rio.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/davidarioch.com\/2018\/01\/27\/sera-que-aos-olhos-dos-animais-nao-somos-vistos-como-assassinos\/\" >Go to Original \u2013 davidarioch.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>27 Jan 2018 &#8211; Ser\u00e1 que o famigerado Assassino do Zod\u00edaco poderia ser considerado um executor que seguia os princ\u00edpios do \u201cabate humanit\u00e1rio\u201d? Por pior que fossem suas a\u00e7\u00f5es, me parece que ele n\u00e3o deixava de ter um c\u00f3digo de \u00e9tica. Afinal, ele matava suas v\u00edtimas com tiros cir\u00fargicos, com precis\u00e3o letal. 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