{"id":109821,"date":"2018-04-23T12:00:48","date_gmt":"2018-04-23T11:00:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=109821"},"modified":"2018-04-22T15:21:04","modified_gmt":"2018-04-22T14:21:04","slug":"portugues-qual-e-a-nossa-dieta-natural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2018\/04\/portugues-qual-e-a-nossa-dieta-natural\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Qual \u00e9 a nossa dieta natural?"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><em>Collura: \u201cDietas vegetarianas e veganas podem proporcionar uma vida inteira de nutri\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel\u201d.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_109822\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/dietas-carne-vegetais.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-109822\" class=\"wp-image-109822\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/dietas-carne-vegetais.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"506\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/dietas-carne-vegetais.jpg 768w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/dietas-carne-vegetais-237x300.jpg 237w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-109822\" class=\"wp-caption-text\">Collura: \u201cCuriosamente, os defensores da dieta paleo enfatizam a origem recente (nos \u00faltimos 100 anos ou mais) das principais doen\u00e7as que marcaram a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental; no entanto, a agricultura tem muitos milhares de anos\u201d.<br \/> (Arte e Foto: Zdenezk Burian\/Veganuary)<\/p><\/div>\n<p><em>20 abr 2018 &#8211; <\/em>Em 2004, o proeminente bi\u00f3logo Randall Collura, que tem doutorado em biologia molecular e biologia antropol\u00f3gica pela Universidade Harvard, publicou um ensaio intitulado \u201cWhat is our natural diet and should we really care?\u201d A obra integra o livro \u201cFood for Thought: The Debate Over Eating Meat\u201d, editado pelo conceituado fil\u00f3sofo moral Steve Sapontzis, especialista em direitos animais e \u00e9tica ambiental com doutorado em filosofia pela Universidade Yale.<\/p>\n<p>No ensaio, Collura, que dedicou uma parcela de sua vida a estudar sobre a evolu\u00e7\u00e3o das dietas humanas, defende que n\u00e3o existe uma dieta natural humana, mas sim diversas que foram colocadas em pr\u00e1tica por in\u00fameros fatores \u2013 muitas vezes desconsiderados. Tamb\u00e9m critica a ideia de um retorno a um \u201cestado natural\u201d, defendendo que esse \u201cestado natural\u201d nunca existiu na singularidade, j\u00e1 que as sociedades humanas, e aquelas que deram-lhe origem nunca foram uniformes.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, destaca que estamos distantes de nossos ancestrais h\u00e1 milhares e at\u00e9 milh\u00f5es de anos \u2013 e n\u00e3o h\u00e1 como ignorar as transforma\u00e7\u00f5es contextuais. Logo, no seu entendimento, n\u00e3o faz sentido o ser humano crer, por exemplo, que a alimenta\u00e7\u00e3o de seus ancestrais seria a salva\u00e7\u00e3o para problemas atuais (chamando isso de solu\u00e7\u00f5es simples para problemas complexos) \u2013 e ignorando a ideia de uma \u201ct\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o\u201d. Ele aponta falhas em dietas como a paleol\u00edtica que culpa o surgimento da agricultura como respons\u00e1vel pelo decl\u00ednio da sa\u00fade humana. \u201cCuriosamente, os defensores da dieta paleo enfatizam a origem recente (nos \u00faltimos 100 anos ou mais) das principais doen\u00e7as que marcaram a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental; no entanto, a agricultura tem muitos milhares de anos. Se os alimentos neol\u00edticos eram culpados por essas doen\u00e7as, ter\u00edamos uma hist\u00f3ria de v\u00e1rios mil anos dessas doen\u00e7as\u201d, argumenta.<\/p>\n<p>Collura vai al\u00e9m \u2013 aponta inconsist\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o a todas as dietas radicais. E n\u00e3o s\u00f3 isso, discute o mito do \u201cJardim do \u00c9den\u201d, o anseio do ser humano que, espelhando-se romanticamente no passado, espera reencontrar a dieta perfeita, como se isso permitisse uma proximidade com a ideia de um para\u00edso terreno, puro, livre de mol\u00e9stias. Arrog\u00e2ncia diet\u00e9tica e a cren\u00e7a em uma dieta mitol\u00f3gica s\u00e3o vistas por ele como inimigas do bom senso. O bi\u00f3logo tamb\u00e9m cita a contradi\u00e7\u00e3o de quem critica veganos por suplementarem B12, mas consome muitos alimentos enriquecidos com vitaminas \u2013 ignorando que \u201csuplementa\u201d diariamente sem perceber ou reconhecer. Randall Collura enfatiza ainda que dietas vegetarianas e veganas podem proporcionar uma vida inteira de nutri\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel:<\/p>\n<p>Qual \u00e9 a nossa dieta natural? Essa tem sido uma quest\u00e3o central no movimento vegetariano dos \u00faltimos 150 anos ou mais. Autores vegetarianos exploraram a quest\u00e3o atrav\u00e9s de anatomia comparativa e fisiologia de diversificada sofistica\u00e7\u00e3o. A conclus\u00e3o tem sido geralmente de que os seres humanos s\u00e3o mais adequados a uma dieta vegetariana, o que n\u00e3o surge como uma grande surpresa. As evid\u00eancias apresentadas, no entanto, nunca foram definitivas e eu acredito que nunca ser\u00e1. Impl\u00edcita nessa quest\u00e3o \u00e9 a cren\u00e7a de que nossa dieta natural certamente seria a melhor dieta para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Natural \u00e9 igual a melhor \u2013 n\u00e3o \u00e9 mesmo? Talvez nossos mitos enuviaram nosso pensamento. Mesmo se pud\u00e9ssemos determinar nossa verdadeira dieta natural, ser\u00edamos capazes de encontrar os alimentos que a comp\u00f5e? N\u00f3s n\u00e3o os encontramos em nossos supermercados locais \u2013 n\u00f3s mudamos nossos alimentos t\u00e3o dramaticamente quanto mudamos nossos h\u00e1bitos alimentares. Dever\u00edamos mesmo estar fazendo essa pergunta em primeiro lugar? Ou dever\u00edamos perguntar, em vez disso, qual seria a melhor dieta para n\u00f3s hoje, com nosso estilo de vida atual e nossas escolhas alimentares, e esquecer sobre a m\u00edtica (natural) dieta perfeita j\u00e1 perdida? Vamos explorar a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>O Jardim do \u00c9den \u00e9 um mito poderoso e difundido pelo menos na cultura ocidental. Alus\u00f5es a esse mito est\u00e3o em toda parte. Cobras, ma\u00e7\u00e3s, folhas de figueira e o conceito de um para\u00edso tranquilo ou da \u201cIdade do Ouro\u201d est\u00e3o t\u00e3o enraizados na nossa consci\u00eancia coletiva que s\u00e3o tomados como refer\u00eancia. A ideia \u00e9 estendida \u00e0 nossa hist\u00f3ria evolutiva tamb\u00e9m. Viv\u00edamos em uma floresta paradis\u00edaca at\u00e9 que alguma coisa (mudan\u00e7a clim\u00e1tica?) nos for\u00e7ou a nos mudarmos para a savana para cuidarmos de n\u00f3s mesmos at\u00e9 perdermos a nossa inoc\u00eancia.<\/p>\n<p>Talvez esse mito ressoe t\u00e3o universalmente porque, em parte, a hist\u00f3ria espelha nosso pr\u00f3prio desenvolvimento como indiv\u00edduos. N\u00f3s somos nutridos enquanto crescemos em um lugar seguro onde somos assistidos por seres poderosos com quem partilhamos um interesse emocional. Eventualmente, \u00e9 esperado que deixemos esse bom lar para cuidarmos de n\u00f3s mesmos (e isso envolve a perda da nossa inoc\u00eancia). At\u00e9 mesmo o nosso conto cient\u00edfico da evolu\u00e7\u00e3o da vida na Terra \u00e9 contado como um mito da cria\u00e7\u00e3o, conforme a narrativa sempre come\u00e7a e termina com a nossa evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa mitologia faz com que estejamos abertos a um chamado \u201cretorno \u00e0 natureza\u201d, para recuperar a \u201csabedoria antiga\u201d e viver uma vida mais primitiva. A seguinte cita\u00e7\u00e3o \u00e9 de um livro publicado em 1896 que defende uma dieta crud\u00edvora, baseada principalmente em frutas e castanhas; o autor \u00e9 Adolf Just, um naturopata alem\u00e3o:<\/p>\n<p>No para\u00edso, o homem originalmente viveu livre do pecado e da doen\u00e7a, em perp\u00e9tua alegria e l\u00edmpida felicidade. Mas o homem perdeu o para\u00edso \u2013 foi expulso de l\u00e1. Os mitos antigos, especialmente os mitos sobre o para\u00edso, que encontramos em todos os povos civilizados, incorporam as mais profundas verdades sobre o estado original do homem e a hist\u00f3ria primitiva da humanidade.<\/p>\n<p>Como o mito do \u201cJardim do \u00c9den\u201d se enquadra \u00e0 realidade? N\u00e3o muito bem. Os \u00faltimos 150 anos ou mais trouxeram uma revolu\u00e7\u00e3o na compreens\u00e3o cient\u00edfica sobre os nossos parentes macacos mais pr\u00f3ximos e sobre a nossa verdadeira hist\u00f3ria evolutiva. At\u00e9 os anos 1970, nossa associa\u00e7\u00e3o com os primatas era consideravelmente incerta, embora sempre tenhamos sido considerados da mesma fam\u00edlia dos grandes s\u00edmios. Desde ent\u00e3o, nossa estreita rela\u00e7\u00e3o com os chimpanz\u00e9s foi descoberta, sem qualquer d\u00favida. \u00c9 muito prov\u00e1vel que os ancestrais dos modernos seres humanos estivessem vivendo (e provavelmente parecendo) como os chimpanz\u00e9s de hoje, e isto h\u00e1 apenas seis milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p>Enquanto continuamos a estudar cuidadosamente nossos grandes primos, \u201ca selva paradis\u00edaca\u201d que habitamos h\u00e1 muito tempo come\u00e7a a parecer um pouco mais desagrad\u00e1vel do que amistosa.\u00a0 No habitat do macaco moderno as frutas s\u00e3o abundantes em algumas \u00e9pocas, mas bastante escassas em outras. As frutas que est\u00e3o dispon\u00edveis n\u00e3o est\u00e3o de acordo com os nossos gostos dom\u00e9sticos \u2013 s\u00e3o bem menos doces e muito mais rica em fibras do que aquelas que encontramos em caixas nos supermercados. Chimpanz\u00e9s comuns fazem guerra contra os grupos vizinhos \u2013 matam os machos e muitas vezes ferem as f\u00eameas.<\/p>\n<p>Macacos carregam parasitas, sofrem por causa dos ossos quebrados e morrem de doen\u00e7as que tamb\u00e9m afetam os seres humanos. Agress\u00e3o e infantic\u00eddio s\u00e3o realidades desagrad\u00e1veis de muitos primatas. Sob qualquer avalia\u00e7\u00e3o, estamos muito melhor ou temos potencial para sermos muito melhores do que nossos ancestrais e parentes mais pr\u00f3ximos. O mito, no entanto, \u00e9 muitas vezes mais poderoso do que a verdade \u2013 ou talvez seja apenas mais atrativo enquanto cren\u00e7a. A primeira coisa que precisamos fazer para olhar claramente esta quest\u00e3o \u00e9 abandonar o mito do \u201cJardim do \u00c9den\u201d.<\/p>\n<p>Como os autores vegetarianos analisaram nossa dieta no passado? Pegue um livro sobre vegetarianismo a partir da d\u00e9cada de 1880 ou da d\u00e9cada de 1980 e voc\u00ea provavelmente encontrar\u00e1 um cap\u00edtulo sobre a nossa dieta natural. De fato, provavelmente n\u00e3o haver\u00e1 muita diferen\u00e7a entre esses cap\u00edtulos escritos com 100 anos de diferen\u00e7a. A l\u00f3gica \u00e9 simples: comparando nossa anatomia e fisiologia com a de outros animais, devemos ser capazes de determinar a dieta mais adequada para n\u00f3s. Ouvi os mesmos argumentos feitos em um contexto evolucion\u00e1rio ou b\u00edblico.<\/p>\n<p>Chame-o de \u201cdeterminismo f\u00edsico diet\u00e9tico\u201d. O foco \u00e9 geralmente \u00e9 a forma e o tamanho do dente, comprimento e complexidade do trato digestivo e algumas outras caracter\u00edsticas. Somos mais como os carn\u00edvoros ou como os herb\u00edvoros? E quanto aos on\u00edvoros? Humanos s\u00e3o classificadores \u2013 gostamos de colocar as coisas em categorias \u2013 mas qu\u00e3o r\u00edgidas s\u00e3o essas designa\u00e7\u00f5es? No mundo natural, n\u00e3o h\u00e1 divis\u00f5es r\u00edgidas como \u201cos carn\u00edvoros\u201d. N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o haja grupos naturais formados por linhas de descend\u00eancia, mas esses grupos n\u00e3o s\u00e3o necessariamente homog\u00eaneos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os animais substituem o que comem ao longo do tempo. E eles devem fazer isso. Porque todos os mam\u00edferos derivam de um ancestral comum, mudan\u00e7as na dieta devem ter ocorrido em muitos pontos na evolu\u00e7\u00e3o dos mam\u00edferos, incluindo aqueles que deram origem aos nomes. \u00c9 claro que n\u00e3o somos carn\u00edvoros como os gatos \u2013 meticulosamente adaptados a uma dieta de carne. Poucos argumentam que somos, no entanto. \u00c9 claro que n\u00e3o somos herb\u00edvoros como os ruminantes artiod\u00e1ctilos (isto \u00e9, as vacas), tamb\u00e9m. Eles t\u00eam um sistema digestivo evolu\u00eddo que, com a ajuda de micr\u00f3bios que digerem celulose, podem processar forragens que outros mam\u00edferos n\u00e3o podem.<\/p>\n<p>Curiosamente, um grupo de macacos do Velho Mundo (e uma ave do Novo Mundo) desenvolveram um sistema similar de forma independente. Outros mam\u00edferos, incluindo alguns primatas, digerem alguns alimentos fibrosos no intestino grosso.\u00a0 O intestino posterior dos humanos n\u00e3o parece ser sido ampliado para esse prop\u00f3sito. Na verdade, nosso sistema digestivo n\u00e3o parece muito especializado. Nossos dentes tamb\u00e9m n\u00e3o ajudam muito. Uma coisa que define humanos e nossos ancestrais homin\u00eddeos (esp\u00e9cies que evolu\u00edram desde nossa divis\u00e3o com os chimpanz\u00e9s) s\u00e3o os caninos reduzidos.<\/p>\n<p>Um r\u00e1pido olhar para os grandes s\u00edmios (chimpanz\u00e9s, gorilas e orangotangos) mostra caninos bem grandes, ainda assim eles s\u00e3o supostamente nossos primos vegetarianos. Acontece que esses dentes s\u00e3o usados em competi\u00e7\u00f5es entre esp\u00e9cies \u2013 machos competindo e \u00e0s vezes brigando por f\u00eameas. E se os machos n\u00e3o lutam pelas f\u00eameas (ou seja, formam pares), os caninos grandes podem ser desnecess\u00e1rios. Nossos dentes podem ter mais a dizer sobre nosso sistema social do que nossa dieta.\u00a0 O ponto de partida \u00e9 que nada sobre a nossa anatomia ou fisiologia dita uma dieta vegetariana (ou a exclui tamb\u00e9m). Inclusive para o determinismo f\u00edsico diet\u00e9tico.<\/p>\n<p>E as dietas dos nossos parentes pr\u00f3ximos? Estudos sobre os h\u00e1bitos alimentares dos grandes primatas t\u00eam claramente mostrado que os nossos parentes n\u00e3o humanos mais pr\u00f3ximos sobrevivem primariamente de vegetais. Mas eles s\u00e3o realmente vegetarianos? \u00c9 importante ter em mente que o vegetarianismo \u00e9 um conceito humano. Outros animais podem seguir dietas \u00e0 base de plantas, mas eles n\u00e3o s\u00e3o vegetarianos no sentido de evitar intencionalmente alimentos de origem animal. Por exemplo, muitos primatas consomem insetos quando eles est\u00e3o dispon\u00edveis. Chimpanz\u00e9s adoram cupins e s\u00e3o especialistas em desenvolver ferramentas para captur\u00e1-los.<\/p>\n<p>Formigas e vermes tamb\u00e9m est\u00e3o entre os alimentos preferidos dos macacos. Chimpanz\u00e9s comuns tamb\u00e9m ca\u00e7am e comem mam\u00edferos, embora isso seja mais raro. Os chimpanz\u00e9s pigmeus (bonobos) n\u00e3o ca\u00e7am tanto, mas ainda ocasionalmente comem carne. Esta esp\u00e9cie, t\u00e3o relacionada aos humanos quanto os chimpanz\u00e9s comuns, tamb\u00e9m geralmente \u00e9 menos agressiva. Ambos os chimpanz\u00e9s preferem frutas maduras quando est\u00e3o dispon\u00edveis. Em geral, nossos parentes mais pr\u00f3ximos t\u00eam dietas que s\u00e3o baseadas principalmente em vegetais, mas nenhum deles \u00e9 vegetariano no nosso sentido da palavra.<\/p>\n<p>E quanto \u00e0 comida na evolu\u00e7\u00e3o humana? Desde que aprendemos mais sobre a nossa hist\u00f3ria evolutiva, autores modernos que defendem v\u00e1rias formas de alimenta\u00e7\u00e3o ampliaram as compara\u00e7\u00f5es diet\u00e9ticas para incluir esp\u00e9cies e dietas do nosso passado. Ao longo dos \u00faltimos seis milh\u00f5es de anos, nossos ancestrais existiram em pequenos grupos n\u00f4mades que viviam da ca\u00e7a e coleta. A quantidade de carne e outros alimentos de origem animal provavelmente subiu de forma gradual at\u00e9 se tornar uma parte significativa de algumas dietas dos nossos antepassados.<\/p>\n<p>Como significativa \u00e9 uma quest\u00e3o em aberto, opini\u00f5es podem dizer mais sobre o pensamento atual em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o humana do que sobre qualquer estimativa cient\u00edfica real. Essa pilha de ossos com marcas de ferramentas de pedras corresponde a uma refei\u00e7\u00e3o ou a um completo estilo de vida? Como poder\u00edamos dizer se a ca\u00e7a era algo que era feito tr\u00eas vezes por semana ou tr\u00eas vezes por ano? Recolher e comer um peda\u00e7o de fruta ou desenterrar um tub\u00e9rculo n\u00e3o deixa registros de tra\u00e7os de f\u00f3sseis.<\/p>\n<p>Reconstruir dietas antigas n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil. Na verdade, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil determinar o que as pessoas est\u00e3o comendo hoje, seja nas sociedades contempor\u00e2neas de ca\u00e7adores\/coletores ou na nossa pr\u00f3pria. As dietas mudam frequentemente numa base sazonal e para obter uma imagem completa, as pesquisas precisam ser feitas ao longo do ano. As dietas podem mudar at\u00e9 de ano para ano dependendo da precipita\u00e7\u00e3o de chuvas, disponibilidade e outros fatores.\u00a0 Uma an\u00e1lise mundial recente das dietas dos ca\u00e7adores\/coletores apontou uma propor\u00e7\u00e3o relativamente alta de grupos de alimentos de origem animal para mais da metade das necessidades energ\u00e9ticas, independente de latitude.<\/p>\n<p>No entanto, o registro arqueol\u00f3gico, mostra claramente mudan\u00e7as substanciais nas capacidades tecnol\u00f3gicas dos nossos antepassados h\u00e1 cerca de 50 mil anos. Como poderia a redu\u00e7\u00e3o na capacidade de ca\u00e7a do arcaico Homo sapiens ou do Homo erectus alterarem a rela\u00e7\u00e3o de alimentos ca\u00e7ados vs. alimentos coletados? Se pud\u00e9ssemos voltar no tempo e pegar uma amostragem das sociedades humanas espalhadas por todo o globo h\u00e1 30 mil anos atr\u00e1s e at\u00e9 90 mil anos atr\u00e1s \u2013 olhando para o que eles comiam, como viviam e morriam \u2013 tenho certeza de que encontrar\u00edamos uma enorme quantidade de variabilidade.<\/p>\n<p>Mudan\u00e7as na dieta ocorridas durante a maior parte da evolu\u00e7\u00e3o humana foram graduais, embora certamente n\u00e3o insignificantes. As mudan\u00e7as que ocorreram com a inven\u00e7\u00e3o da agricultura contudo, tanto em termos de dieta como de estilo de vida, foram r\u00e1pidas e sofreram guinadas dram\u00e1ticas em rela\u00e7\u00e3o a tudo que existia anteriormente. De certa forma, nossas dietas provavelmente se tornaram mais baseadas em plantas e menos dependente de alimentos de origem animal (de acordo com a disponibilidade de milh\u00f5es de anos atr\u00e1s).<\/p>\n<p>No entanto, os gr\u00e3os que se tornaram a base das dietas neol\u00edticas (Nova Idade da Pedra: ap\u00f3s cerca de dez mil anos atr\u00e1s) foram introduzidas pouco antes de sua domestica\u00e7\u00e3o. Mudan\u00e7as nos n\u00edveis de atividade, mobilidade e densidade populacional tamb\u00e9m foram pungentes partindo de um estilo de vida de pequenos grupos de ca\u00e7adores-coletores que se espalharam pelo mundo no per\u00edodo Paleol\u00edtico (Per\u00edodo: antes de 10 mil anos atr\u00e1s).<\/p>\n<p>Os \u00faltimos cem anos trouxeram mudan\u00e7as ainda mais dram\u00e1ticas para as dietas e os estilos de vida das sociedades ocidentalizadas. Agricultura mecanizada e outros aspectos da industrializa\u00e7\u00e3o reduziram ainda mais a despesa m\u00e9dia di\u00e1ria de energia (exerc\u00edcios). As redes globais de com\u00e9rcio garantem que plantas e animais domesticados em uma parte do mundo sejam criados em climas semelhantes no mundo todo. O Mundo Novo tem domesticado tanto o milho e a batata que s\u00e3o cultivados na \u00c1frica e na Europa quanto a \u00c1sia domestica o arroz criado no Novo Mundo.<\/p>\n<p>Muitas dessas mudan\u00e7as s\u00e3o ben\u00e9ficas; contudo, algumas reduzem drasticamente a qualidade da dieta. Refinamentos em t\u00e9cnicas de fresagem que separam eficientemente o farelo e o germe do trigo resultam em uma farinha que pode durar mais tempo nas g\u00f4ndolas, mas com menor valor nutritivo. A produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar refinado de cana e beterraba tamb\u00e9m alterou drasticamente a rela\u00e7\u00e3o entre nutrientes e calorias. Agora \u00e9 poss\u00edvel consumir uma dieta adequada em total de calorias, mas quase completamente desprovida de nutrientes. Outra mudan\u00e7a dram\u00e1tica nas dietas ocidentais \u00e9 a inclus\u00e3o de maiores quantidades de carne proveniente de animais domesticados, que tende a ser muito maior em gordura do que a carne proveniente da ca\u00e7a selvagem.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, at\u00e9 onde devemos ir para encontrar a nossa \u201cdieta natural\u201d? Cem anos, 500 anos, 20 mil anos, mais? Defensores da dieta paleo (que inclui apenas alimentos dispon\u00edveis antes do surgimento da agricultura) diriam que os seres humanos modernos t\u00eam a gen\u00e9tica e constitui\u00e7\u00e3o dos nossos antepassados paleol\u00edticos, mas dietas e estilos de vida que s\u00e3o muito diferentes dos que eles tinham. As \u201cdoen\u00e7as da civiliza\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 o que inclui aterosclerose, hipertens\u00e3o, diabetes, c\u00e2ncer, osteoporose, perda auditiva, c\u00e1ries, outras doen\u00e7as e obesidade \u2013 s\u00e3o o resultado da discord\u00e2ncia entre a nossa antiga gen\u00e9tica e nossos estilos de vida e dietas modernas \u2013 de acordo com esses defensores. Isso pressup\u00f5e que n\u00e3o nos adaptamos a esses novos estilos de vida e dietas.<\/p>\n<p>Mas quanto tempo leva para se adaptar a uma nova dieta? O consenso emergente sobre a evolu\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica \u00e9 de grande variabilidade nas taxas de mudan\u00e7a. Nossos genes s\u00e3o uma colcha de retalhos de not\u00e1vel estabilidade e mudan\u00e7a incrivelmente r\u00e1pida, dependendo das press\u00f5es seletivas nos genes individuais. Embora seja verdade que compartilhamos uma grande porcentagem de nossa composi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica com nossos ancestrais e outras esp\u00e9cies de primatas, assim como todos os outros animais, isso de forma alguma nega a import\u00e2ncia das distin\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas.<\/p>\n<p>As diferen\u00e7as gen\u00e9ticas entre chimpanz\u00e9s e n\u00f3s mesmos s\u00e3o muito pequenas, mas as manifesta\u00e7\u00f5es dessas diferen\u00e7as s\u00e3o bem substanciais. Al\u00e9m disso, mudan\u00e7as na dieta parecem ser capazes de induzir mudan\u00e7as evolutivas devido \u00e0 import\u00e2ncia central da dieta na sobreviv\u00eancia das esp\u00e9cies. Um exemplo \u00e9 a reten\u00e7\u00e3o da express\u00e3o de lactase (para digerir a\u00e7\u00facar do leite ou lactose) em adultos cujos antepassados utilizaram o leite animal como fonte de alimento. Mudan\u00e7as gen\u00e9ticas s\u00f3 come\u00e7aram a ser investigadas recentemente e podem ter havido muitas adapta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as diet\u00e9ticas que ocorreram nos \u00faltimos 10 mil anos.<\/p>\n<p>\u00c9 muito menos prov\u00e1vel que as mudan\u00e7as na dieta e no estilo de vida que ocorreram desde a revolu\u00e7\u00e3o industrial tiveram impacto significativo em nossa constitui\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica. Curiosamente, os defensores da dieta paleo enfatizam a origem recente (nos \u00faltimos 100 anos ou mais) das principais doen\u00e7as que marcaram a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental; no entanto, a agricultura tem muitos milhares de anos. Se os alimentos neol\u00edticos eram culpados por essas doen\u00e7as, ter\u00edamos uma hist\u00f3ria de v\u00e1rios mil anos dessas doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Por que autores que promovem a dieta paleo sugerem um retorno a uma dieta de mais de 10 mil anos para a prescri\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as que se tornaram um grande problema apenas desde a revolu\u00e7\u00e3o industrial? N\u00e3o h\u00e1 raz\u00f5es convincentes para come\u00e7ar a comer como um \u201chomem das cavernas\u201d. Talvez ent\u00e3o, em vez de uma receita paleol\u00edtica para as doen\u00e7as da moderna civiliza\u00e7\u00e3o, precisemos de uma receita neol\u00edtica. Ao contr\u00e1rio de quest\u00f5es relativas \u00e0 propor\u00e7\u00e3o de alimentos de origem vegetal ou de origem animal nas dietas de nossos distantes ancestrais, \u00e9 uma tarefa mais f\u00e1cil realizar escolhas nos baseando em mudan\u00e7as que ocorreram t\u00e3o recentemente que temos registros escritos delas.<\/p>\n<p>A dieta neol\u00edtica seria baseada em gr\u00e3os integrais com uma propor\u00e7\u00e3o muito maior de alimentos n\u00e3o refinados, e muito menos carne e a\u00e7\u00facar (a dieta macrobi\u00f3tica, bem como dietas vegetarianas integrais poderiam ser consideradas neol\u00edticas). Mudan\u00e7as no estilo de vida incluem maiores quantidades de exerc\u00edcios \u2013 embora n\u00e3o ao n\u00edvel dos ca\u00e7adores-coletores contempor\u00e2neos. N\u00e3o estou sugerindo que todos os aspectos da vida neol\u00edtica devem ser replicados. No entanto, existem muitos aspectos da ecologia industrial que devem ser questionados. O generalizado uso de pesticidas, herbicidas, conservantes e outros produtos qu\u00edmicos em nossa comida t\u00eam consequ\u00eancias a longo prazo que s\u00e3o pouco consideradas e estudadas. Muitos desses t\u00eam benef\u00edcios incontestados, mas sem uma verdadeira compreens\u00e3o dos custos \u2013 e decis\u00f5es apropriadas sobre seu uso nunca podem ser tomadas.<\/p>\n<p>Outro movimento diet\u00e9tico popular que olha para tr\u00e1s em sua busca por uma dieta perfeita \u00e9 o crudivorismo. Os defensores das dietas crud\u00edvoras gostam de dizer (com esc\u00e1rnio) que os humanos modernos s\u00e3o os \u00fanicos animais que cozinham a comida. Quanto tempo faz que os humanos cozinham a comida \u00e9 ainda uma quest\u00e3o ativa na antropologia. \u00c9 seguro dizer que em algum ponto na evolu\u00e7\u00e3o humana come\u00e7amos a cozinhar alimentos e antes disso nossas dietas eram todas cruas. Essa mudan\u00e7a pode ter sido t\u00e3o antiga quanto a origem do Homo erectus (1,8 milh\u00e3o de anos atr\u00e1s) ou t\u00e3o tarde quanto a origem do Homo sapiens (40-100 mil anos atr\u00e1s).<\/p>\n<p>De qualquer forma, n\u00e3o h\u00e1 provas de que come\u00e7ar a comer alimentos cozidos foi prejudicial para n\u00f3s \u2013 muito pelo contr\u00e1rio, se ponderarmos relatos imparciais que os humanos est\u00e3o fazendo muito bem em compara\u00e7\u00e3o com os nossos parentes macacos que comem alimentos crus. O atual movimento crud\u00edvoro \u00e9 um desdobramento do movimento vegetariano, e comer cru \u00e9 por vezes considerado o \u201cpr\u00f3ximo n\u00edvel diet\u00e9tico\u201d. Onde exatamente essa progress\u00e3o pode levar n\u00e3o est\u00e1 realmente claro. \u201cRespiratorianismo\u201d talvez? De qualquer forma, pode ser instrutivo olhar para um assunto do movimento crud\u00edvoro \u2013 enzimas alimentares.<\/p>\n<p>O conceito de enzima alimentar pode ser resumido da seguinte forma: As c\u00e9lulas vivas cont\u00eam enzimas que mediam todas as atividades dentro da c\u00e9lula. Alimentos crus, incluindo aqueles que foram aquecidos, mas n\u00e3o acima de uma temperatura cr\u00edtica (essa temperatura varia de autor para autor) mant\u00eam suas enzimas intactas. Estas enzimas ativas, obtidas a partir de alimentos crus, s\u00e3o um componente essencial da nossa dieta. Ao consumir alimentos que cont\u00eam enzimas ativas, n\u00f3s conservamos nosso pr\u00f3prio suprimento de enzimas que pode ent\u00e3o ser utilizado para fun\u00e7\u00f5es celulares importantes, em vez da digest\u00e3o.<\/p>\n<p>As enzimas alimentares podem tamb\u00e9m ser absorvidas, redistribu\u00eddas e usadas em todo o corpo. H\u00e1 quase uma import\u00e2ncia de qualidade m\u00edstica atribu\u00edda \u00e0s enzimas. Dizem que elas cont\u00eam \u201ca vida e a for\u00e7a\u201d, e isso \u00e9 destru\u00eddo pelo cozimento (ou seja, pelo calor). \u00c9 por isso que as dietas de alimentos crus tamb\u00e9m s\u00e3o chamadas de dietas de \u201ccomida viva\u201d. Infelizmente, n\u00e3o h\u00e1 m\u00e9rito para esse conceito, e como qualquer reflexivo estudante de biologia do ensino m\u00e9dio poderia provar, de forma alguma enzimas ativas em alimentos poderiam ser um componente diet\u00e9tico essencial.<\/p>\n<p>O conceito de enzima alimentar come\u00e7a com uma importante observa\u00e7\u00e3o sobre a bioqu\u00edmica das c\u00e9lulas vivas; o papel central das enzimas na media\u00e7\u00e3o das rea\u00e7\u00f5es bioqu\u00edmicas. Por enquanto, tudo bem; mas um fato crucial sobre as enzimas \u00e9 encoberto nesse argumento \u2013 as enzimas s\u00e3o MUITO espec\u00edficas. Existem milhares de enzimas diferentes em uma t\u00edpica c\u00e9lula, cada uma mediando uma rea\u00e7\u00e3o bioqu\u00edmica espec\u00edfica. Enzimas s\u00e3o prote\u00ednas, muitas vezes trabalhando em conjunto com \u00edons de metal e cofatores. Prote\u00ednas s\u00e3o feitas de longas cadeias de cerca de 20 amino\u00e1cidos diferentes que est\u00e3o dispostos em uma ordem espec\u00edfica. Essa ordem \u00e9 ditada pela sequ\u00eancia de DNA que codifica a prote\u00edna.<\/p>\n<p>A atividade das enzimas espec\u00edficas \u00e9 regulada pela produ\u00e7\u00e3o de prote\u00edna quando necess\u00e1ria e pela complexa intera\u00e7\u00e3o de enzimas que regulam as atividades de outras enzimas. O fato importante \u00e9 que as enzimas n\u00e3o s\u00e3o intercambi\u00e1veis. Especificamente, enzimas de alimentos, n\u00e3o importando qu\u00e3o ativas, seriam in\u00fateis para n\u00f3s como enzimas porque elas foram produzidas para mediar as atividades das c\u00e9lulas na planta (ou nos animais) que se tornaram nossos alimentos. Enzimas necess\u00e1rias para produzir um broto de grama de trigo s\u00e3o muito diferentes daquelas necess\u00e1rias para produzir c\u00e9lulas de sangue vermelho.<\/p>\n<p>Em qualquer caso, enzimas e outras prote\u00ednas estruturais n\u00e3o passam intactas por nosso sistema digestivo. Todo o prop\u00f3sito do sistema digestivo \u00e9 quebrar macromol\u00e9culas para os seus componentes por absor\u00e7\u00e3o. As prote\u00ednas s\u00e3o quebradas em amino\u00e1cidos, amidos se convertem em a\u00e7\u00facares e lip\u00eddios em \u00e1cidos graxos. Esses componentes s\u00e3o ent\u00e3o transportados para as nossas c\u00e9lulas para se tornarem os blocos de constru\u00e7\u00e3o das prote\u00ednas (incluindo enzimas), carboidratos e lip\u00eddios que requeremos em nossas c\u00e9lulas. Isso \u00e9 biologia muito b\u00e1sica.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, n\u00e3o h\u00e1 nada m\u00edstico sobre as enzimas. Algumas operam em altas temperaturas, e outras preferencialmente em baixas temperaturas. Algumas em pH alto, outras em Ph baixo. Algumas s\u00e3o muito inst\u00e1veis e v\u00e3o quebrar rapidamente enquanto outras (como a lisozima) podem ser fervidas em \u00e1cido e, em seguida, funcionam muito bem (na verdade \u00e9 assim que os pesquisadores purificam a lisozima). Estas diferen\u00e7as funcionais s\u00e3o resultado de press\u00f5es evolutivas espec\u00edficas ao longo de per\u00edodos de tempo. Agora chega de enzimas.<\/p>\n<p>Para ser perfeitamente claro, n\u00e3o h\u00e1 nada de errado com alimentos crus. Frutas frescas e vegetais s\u00e3o excelentes fontes de muitos nutrientes e at\u00e9 mesmo os mais guias nutricionais mais conservadores promovem o seu consumo. Por outro lado, cozinhar n\u00e3o deve ser considerado um pecado. Cozinhar destr\u00f3i alguns nutrientes, mas torna outros mais dispon\u00edveis. Tamb\u00e9m garante uma ampla variedade de alimentos comest\u00edveis que s\u00e3o quase in\u00fateis como alimentos. Os seres humanos se sa\u00edram muito bem seguindo uma dieta baseada na mistura de alimentos crus e cozidos. Ent\u00e3o, por que as pessoas s\u00e3o atra\u00eddas por dietas extremas, como a dieta crud\u00edvora ou a dieta paleol\u00edtica?<\/p>\n<p>Parte \u00e9 a mentalidade do \u201cRetorno ao \u00c9den\u201d, delineada acima: solu\u00e7\u00f5es simples para problemas complexos. Testemunhos s\u00e3o outro fator poderoso para convencer as pessoas a mudarem suas dietas. Eles geralmente envolvem curas milagrosas de doen\u00e7as graves e potencialmente fatais. E se algu\u00e9m diz que estavam perto da morte e uma certa dieta os curou, outros tomam nota. Dessa forma, essas dietas assumem um car\u00e1ter quase religioso e os seguidores desenvolvem um tipo de f\u00e9 e fervor. Testemunhos n\u00e3o s\u00e3o provas cient\u00edficas, no entanto, e as pessoas que promovem dietas completamente diferentes, muitas vezes apresentam depoimentos que s\u00e3o virtualmente intercambi\u00e1veis (talvez qualquer mudan\u00e7a de uma dieta de coca-cola e \u201cjunk food\u201d \u00e9 uma boa mudan\u00e7a em potencial).<\/p>\n<p>Se metade de um por cento das pessoas que tentam uma determinada dieta t\u00eam uma melhoria acentuada na sa\u00fade e os outros n\u00e3o mostram altera\u00e7\u00f5es (ou poucas), isso n\u00e3o \u00e9 realmente um grande endosso (e as melhorias podem ter ocorrido por acaso). No entanto, se cinco mil pessoas tentarem essa dieta, ainda haver\u00e1 25 testemunhos impressionantes soando por a\u00ed. Para muitas pessoas em dietas extremas, comida torna-se uma obsess\u00e3o. Um autor cunhou um termo para obsess\u00e3o na busca por uma dieta perfeitamente saud\u00e1vel: \u201cortorexia nervosa\u201d.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 para sugerir que a alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel \u00e9 um dist\u00farbio, mas que algumas pessoas em um esfor\u00e7o para encontrar uma dieta que seja uma combina\u00e7\u00e3o de promo\u00e7\u00e3o de sa\u00fade e pureza perfeita podem desviar-se para o caminho do transtorno alimentar. Nenhuma dieta permitir\u00e1 que voc\u00ea viva para sempre \u2013 nossos primos s\u00edmios certamente n\u00e3o. Por toda a nossa impureza alimentar, em m\u00e9dia, superamos os chimpanz\u00e9s por d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>O que tudo isso significa para vegetarianos e veganos? Essas dietas s\u00e3o naturais? Eu argumentaria que os humanos n\u00e3o t\u00eam uma dieta natural. N\u00f3s evolu\u00edmos seguindo uma ampla variedade de dietas contendo alimentos de origem vegetal e animal. Poder\u00edamos gastar tempo e energia tentando descobrir o que eram, mas isso s\u00f3 nos diria por onde passamos, n\u00e3o onde estamos.<\/p>\n<p>Realmente n\u00e3o sabemos qu\u00e3o saud\u00e1veis nossos ancestrais eram ou por quanto tempo viveram, de qualquer forma. Podemos ter certeza de que eles sobreviveram, \u00e9 claro; de outra forma n\u00e3o estar\u00edamos aqui. No entanto, como seres humanos modernos nas sociedades industriais ocidentais (ou qualquer sociedade contempor\u00e2nea), queremos saber quais op\u00e7\u00f5es de alimentos e estilo de vida fornecem a melhor chance de uma vida longa e saud\u00e1vel aqui e agora. H\u00e1 muita evid\u00eancia cient\u00edfica que mostra que as dietas vegetarianas e veganas s\u00e3o t\u00e3o potencialmente saud\u00e1veis quanto as dietas mistas. N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para vegetarianos e veganos \u00e9ticos sacrificarem suas \u00e9ticas e alterarem seus h\u00e1bitos de consumo para que suas dietas pare\u00e7am mais \u201cnaturais\u201d.<\/p>\n<p>Na verdade, pode-se argumentar que nenhuma dieta consistindo de alimentos hoje seja natural \u2013 e isso n\u00e3o \u00e9 necessariamente uma coisa ruim. Nos \u00faltimos dez mil anos, n\u00e3o apenas houve uma mudan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao tipo de alimento que comemos como tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o aos pr\u00f3prios alimentos. Algu\u00e9m do per\u00edodo paleol\u00edtico n\u00e3o reconheceria a maioria das frutas e legumes nos supermercados. Sele\u00e7\u00e3o artificial (pessoas escolhendo apenas certas sementes, geralmente das melhores plantas a serem semeadas no ano seguinte) tem produzido alimentos com menos fibras, mais doces e maiores que seus parentes naturais.<\/p>\n<p>Eles tamb\u00e9m s\u00e3o selecionados por conterem menores quantidades de compostos que as plantas produzem para repelir herb\u00edvoros, como taninos, alcaloides e oxalatos. Lembre-se, \u00e9 apenas no mito do Jardim do \u00c9den que as plantas s\u00e3o criadas para o nosso benef\u00edcio. No mundo real, as plantas normalmente n\u00e3o \u201cquerem\u201d ser comidas e evolu\u00edram todos os tipos de defesas. Nossa sele\u00e7\u00e3o qualitativa de alimentos (estou me referindo a alimentos integrais, n\u00e3o processados) podem n\u00e3o ser realmente \u201cnatural\u201d, mas provavelmente \u00e9 melhor do que em qualquer ponto do passado.<\/p>\n<p>No entanto, \u00e9 importante que veganos e vegetarianos n\u00e3o ignorem o potencial problema da defici\u00eancia de vitaminas e outros nutrientes sob a falsa suposi\u00e7\u00e3o de que suas dietas s\u00e3o \u201cnaturais\u201d e, portanto, perfeitas \u2013 uma no\u00e7\u00e3o comum em minha experi\u00eancia. No mesmo fil\u00e3o, embora na dire\u00e7\u00e3o oposta, \u00e9 curioso perceber como a comunidade diet\u00e9tica tradicional sempre aponta a falta de vitamina B12 como um problema em uma dieta vegana \u2013 o que implica na ideia de que sem suplementos h\u00e1 uma dieta inerentemente deficiente e restritiva \u2013 faz isso enquanto ignora as muitas vitaminas e suplementos minerais adicionados aos alimentos comuns (iodo em sal, vitamina B em gr\u00e3os, vitamina D no leite, c\u00e1lcio em muitos alimentos, etc).<\/p>\n<p>Fazer essas importantes adi\u00e7\u00f5es tornam as \u201cpadronizadas\u201d dietas mistas inerentemente deficientes e restritivas? Defici\u00eancia de certos nutrientes podem ter sido uma caracter\u00edstica comum da exist\u00eancia ao longo da evolu\u00e7\u00e3o humana, ou pode ser o resultado de mudan\u00e7as muito recentes nas tecnologias de processamentos de alimentos e estilo de vida \u2013 e at\u00e9 mesmo ambos.<\/p>\n<p>Em qualquer caso, as dietas vegetarianas e veganas n\u00e3o devem ser apontadas como exclusivas em rela\u00e7\u00e3o a isso, mas vegetarianos e veganos n\u00e3o devem ser complacentes nesse sentido. Arrog\u00e2ncia diet\u00e9tica e mitologia antiga n\u00e3o t\u00eam lugar na pol\u00edtica alimentar moderna e na nutri\u00e7\u00e3o. Nem press\u00f5es de produtores e ind\u00fastrias espec\u00edficas de alimentos. Precisamos olhar, de maneira imparcial, quais regimes diet\u00e9ticos promovem vidas saud\u00e1veis para as pessoas de acordo com suas op\u00e7\u00f5es de alimentos e estilo de vida. Financiadas por entidades que buscam uma resposta espec\u00edfica, muitas pesquisas nutricionais procuram respostas que s\u00e3o muito limitadas para responder quest\u00f5es maiores.<\/p>\n<p>Inqu\u00e9ritos mais abrangentes que buscam abordar rela\u00e7\u00f5es mais amplas entre longevidade, doen\u00e7a e dieta podem fornecer algumas respostas, e esta certamente \u00e9 a melhor maneira de proceder. Nenhuma dieta jamais fornecer\u00e1 uma vida potencialmente infinita, mitol\u00f3gica e 100% livre de doen\u00e7as. Contudo, dietas vegetarianas e veganas podem proporcionar uma vida inteira de nutri\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia:<\/strong><\/p>\n<p>Sapontzis, Steve. Collura, Randall.\u00a0<em>What is our natural diet and should we really care? Food for Thought: The Debate over Eating Meat<\/em>. Prometheus Books (2004).<\/p>\n<p>___________________________________________<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/david-arioch-e1507212048175.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-98810\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/david-arioch-e1507212048175.jpg\" alt=\"\" width=\"100\" height=\"125\" \/><\/a><em>David Arioch \u00e9 body builder, jornalista, pesquisador e documentarista. Trabalha profissionalmente h\u00e1 dez anos com jornalismo cultural e liter\u00e1rio.<\/em> <em>\u201cO mais importante \u00e9 eu estar em sintonia com o que estou produzindo. Atualmente escrevo bastante sobre vegetarianismo, veganismo e direitos animais, porque s\u00e3o assuntos que me interessam muito.\u201d <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/davidarioch.com\/2017\/03\/26\/oito-anos-de-david-arioch-jornalismo-cultural\/\" >Leia mais&#8230;<\/a><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o: David Arioch<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/davidarioch.com\/2018\/04\/20\/qual-e-a-nossa-dieta-natural\/\" >Go to Original \u2013 davidarioch.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>20 abr 2018 &#8211; Em 2004, o proeminente bi\u00f3logo Randall Collura, que tem doutorado em biologia molecular e biologia antropol\u00f3gica pela Universidade Harvard, publicou um ensaio intitulado \u201cWhat is our natural diet and should we really care?\u201d A obra integra o livro \u201cFood for Thought: The Debate Over Eating Meat\u201d, editado pelo conceituado fil\u00f3sofo moral Steve Sapontzis, especialista em direitos animais e \u00e9tica ambiental com doutorado em filosofia pela Universidade Yale.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":109822,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-109821","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/109821","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=109821"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/109821\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media\/109822"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=109821"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=109821"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=109821"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}