{"id":110054,"date":"2018-04-30T12:00:20","date_gmt":"2018-04-30T11:00:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=110054"},"modified":"2018-04-26T11:59:50","modified_gmt":"2018-04-26T10:59:50","slug":"portugues-podemos-falar-sobre-os-direitos-dos-animais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2018\/04\/portugues-podemos-falar-sobre-os-direitos-dos-animais\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Podemos falar sobre os direitos dos animais?"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><em>\u00a0\u201cPodemos come\u00e7ar reconhecendo que o fracasso moral do moderno consumo de carne n\u00e3o \u00e9 o fim da hist\u00f3ria\u201d.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_110055\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/vaca-vitela-bezerro-calf-boi.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-110055\" class=\"wp-image-110055\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/vaca-vitela-bezerro-calf-boi.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"451\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/vaca-vitela-bezerro-calf-boi.jpg 511w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/vaca-vitela-bezerro-calf-boi-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-110055\" class=\"wp-caption-text\">Gottlieb: \u201cquando voc\u00ea pede uma deliciosa vitela \u00e0 parmegiana em um chique restaurante italiano, voc\u00ea est\u00e1 consumindo a carne de um ser vivo que foi confinado em uma gaiola t\u00e3o pequena que mal podia se mover\u201d<br \/> (Foto: Jo-Anne McArthur\/We Animals)<\/p><\/div>\n<p><em>24 abr 2018 &#8211; <\/em>Em 2014, o fil\u00f3sofo Roger S. Gottlieb, professor de filosofia do Instituto Polit\u00e9cnico de Worcester, em Massachusetts, e autor de 18 livros, incluindo obras sobre filosofia pol\u00edtica e crise ambiental, publicou pelo Harvard Divinity Bulletin, um dos boletins da Universidade Harvard, um artigo intitulado \u201cCan We Talk (about Animal Rights)?\u201d.<\/p>\n<p>No texto, Gottlieb apresenta assuntos bastante controversos que envolvem a discuss\u00e3o dos direitos dos animais, como o uso de animais para as mais diferentes finalidades \u2013 como consumo e experimenta\u00e7\u00e3o animal, e defende que nenhuma mudan\u00e7a \u00e9 poss\u00edvel se n\u00e3o estivermos dispostos a entender ou reconhecer as implica\u00e7\u00f5es de nossas a\u00e7\u00f5es para os animais n\u00e3o humanos.<\/p>\n<p>O objetivo do fil\u00f3sofo claramente n\u00e3o \u00e9 oferecer respostas, mas propor reflex\u00f5es inclusive conflitantes sobre o nosso papel no mundo a despeito das nossas rela\u00e7\u00f5es com seres n\u00e3o humanos \u2013 inclusive evidenciando argumentos de perspectivas contr\u00e1rias aos direitos dos animais. No decorrer do artigo, Roger. S Gottlieb enfatiza que se uma pessoa age com indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao sofrimento dos animais, inclusive com esc\u00e1rnio, isso n\u00e3o significa que ela seja incapaz de compreender essa realidade ou mudar, mas que talvez agora a mudan\u00e7a n\u00e3o seja moralmente poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Na sua perspectiva, o entendimento da realidade da explora\u00e7\u00e3o animal depende de uma reflex\u00e3o profunda e da aptid\u00e3o para um di\u00e1logo horizontal, que deve partir tanto por parte de quem instiga a reflex\u00e3o quanto de quem \u00e9 convidado a toma parte nela: \u201cUma conversa verdadeiramente moral. Parece necess\u00e1rio nos abrimos para o que a outra pessoa est\u00e1 dizendo e tentar encontrar o m\u00e1ximo poss\u00edvel de verdade.\u201d Segundo o autor, n\u00e3o importa o qu\u00e3o correta seja uma afirma\u00e7\u00e3o moral, se a humanidade n\u00e3o estiver pronta para aceitar a sua verdade, ela n\u00e3o ter\u00e1 consequ\u00eancias sociais:<\/p>\n<p>Os animais sofrem por muitas raz\u00f5es: eles congelam at\u00e9 a morte em invernos rigorosos, s\u00e3o despeda\u00e7ados por predadores, envelhecem e passam fome porque n\u00e3o conseguem mais ca\u00e7ar. Se voc\u00ea colocar uma m\u00fasica bem triste nesse cen\u00e1rio, enquanto testemunhamos esses momentos, sem d\u00favida, muitos olhos se encher\u00e3o de l\u00e1grimas. Mas essas l\u00e1grimas s\u00e3o facilmente remediadas por um momento de reflex\u00e3o sobre os intermin\u00e1veis e necess\u00e1rios ciclos da vida e da morte.<\/p>\n<p>Existem outras formas de sofrimento que n\u00e3o diminuem t\u00e3o facilmente. As aves marinhas cobertas de \u00f3leo, a raposa presa na armadilha de um ca\u00e7ador \u2013 roendo a pr\u00f3pria perna na tentativa de fugir; as longas e longas filas de bois e vacas esperando para serem espancados e terem suas gargantas cortadas; os milh\u00f5es de camundongos a serem usados, sabe l\u00e1 Deus para qual finalidade, incluindo aqueles que foram cientificamente e geneticamente modificados para desenvolverem c\u00e2ncer (chamados de onco-camundongos). Sem mencionar esp\u00e9cies inteiras, milhares delas, morrendo porque os humanos dominaram ou contaminaram o seu habitat, ou trouxeram esp\u00e9cies ex\u00f3ticas contra as quais eles n\u00e3o desenvolveram defesas, ou simplesmente foram comidos em grandes quantidades.<\/p>\n<p>O que acontece quando olhamos para a dor deles? Muitas vezes, nada de mais, porque a maioria de n\u00f3s n\u00e3o se preocupa em olhar. Ou, se o fizermos, o que vemos \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o: x milh\u00f5es de mortos em experimentos, x milhares de esp\u00e9cies perdidas. Se olharmos com cuidado, dispostos a aceitar quaisquer sentimentos que surjam, como por exemplo no caso dos ursos populares for\u00e7ados a canibalizarem uns aos outros porque o aquecimento global derreteu tanto gelo que eles n\u00e3o podem mais ca\u00e7ar. Olhe para eles \u2013 magn\u00edficas criaturas com pelos espessos e brancos, incrivelmente adaptados a suportarem o gelo glacial e \u00e0 neve, em casa e mesmo no mar. S\u00e3o m\u00e3es que protegem seus filhos jovens e brincalh\u00f5es dos poderosos ca\u00e7adores de focas. Esses animais est\u00e3o morrendo, n\u00e3o de velhice nem na luta contra predadores ou pela lideran\u00e7a de um rebanho, mas porque n\u00f3s estamos matando eles atrav\u00e9s do aquecimento global e da imprudente ca\u00e7a esportiva. H\u00e1 toxinas feitas pelo homem que se acumulam em suas carnes.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 apenas o sofrimento individual dos ursos polares que chegam at\u00e9 n\u00f3s, ou mesmo a perda potencial dessa esp\u00e9cie majestosa. Tudo isso \u00e9 sobre como \u00e9 dif\u00edcil olharmos para n\u00f3s mesmos. Para salvar o urso polar, os grandes felinos e os bovinos nos matadouros, o quanto ter\u00edamos que mudar? Quanto da nossa economia, cultura e vida familiar? Quantas leis ter\u00edamos que aprovar? Quantos encontros de A\u00e7\u00e3o de Gra\u00e7as seriam ou teriam um sabor diferente? Ter\u00edamos que desistir do nosso sonho de infind\u00e1vel expans\u00e3o econ\u00f4mica a fim de deixar algum espa\u00e7o para outras esp\u00e9cies? Ter\u00edamos que convencer todos os nossos camaradas que um tofu grelhado pode ser t\u00e3o bom quanto um bife grelhado? Ter\u00edamos que dizer que todo o empreendimento humano dos \u00faltimos dez mil anos \u2013 buscando cada vez mais poder, riqueza, controle, conhecimento t\u00e9cnico e posses \u2013 deveria (profundamente, seriamente e essencialmente) ser contido?<\/p>\n<p>Entre a intensidade da dor que sentimos, a culpa pela nossa pr\u00f3pria cumplicidade, e a aparente impossibilidade de que todos n\u00f3s ter\u00edamos que mudar, ficamos em uma posi\u00e7\u00e3o moral dif\u00edcil. Sentimos culpa por n\u00f3s mesmos e raiva contra \u201cos outros\u201d que \u201cn\u00e3o entendem isso\u201d. A necessidade de por em pr\u00e1tica algo que \u201cfazer tudo parar\u201d e a certeza de que n\u00e3o podemos. Uma vida que j\u00e1 parece suficientemente dif\u00edcil, mas \u00e0 qual esses \u201ctipos dos direitos dos animais\u201d querem acrescentar mais preocupa\u00e7\u00f5es, problemas e coisas para nos incomodar.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda para esse conflito e confus\u00e3o. Isto \u00e9, de maneira nenhuma isso levar\u00e1 a uma simples solu\u00e7\u00e3o dos problemas, ou a uma maneira universalmente aceita de pessoas de lados opostos se unirem para terem uma conversa moral calma, racional e agrad\u00e1vel. A verdade \u00e9 que temos sentimentos extraordinariamente poderosos sobre esse assunto, e essas respostas podem se traduzir em intui\u00e7\u00f5es morais muito fortes. Essas institui\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas podem ser resumidas da seguinte maneira:<\/p>\n<p>Institui\u00e7\u00f5es de ativistas dos direitos animais. Os animais sofrem, como n\u00f3s. Eles amam seus companheiros e filhos, brincam na grama e brigam entre si. Eles se deleitam em voar atrav\u00e9s do c\u00e9u de madrugada, correr pela floresta, ruminar. E apesar do ocasional momento em que eles machucam as pessoas, eles s\u00e3o praticamente indefesos contra n\u00f3s. E pense em quanto sofrimento lhes causamos: em laborat\u00f3rios, em fazendas, nos frigor\u00edficos. Se voc\u00ea realmente olhar para eles, ouvir seus gritos, tomar para si suas feridas, como poder\u00e1 continuar fazendo isso com eles?<\/p>\n<p>Institui\u00e7\u00f5es que priorizam o ser humano. Pessoas s\u00e3o mais importantes que os animais. Elas apenas s\u00e3o. Al\u00e9m disso, a vida j\u00e1 \u00e9 bastante dif\u00edcil \u2013 se eu quiser um bife ou um peda\u00e7o de frango frito, eu terei. Tem um gosto realmente bom. E a ideia de que algum rato ou pombo tem direitos \u00e9 simplesmente rid\u00edcula. As pessoas precisam de alimentos. A ci\u00eancia precisa de animais de laborat\u00f3rio. Pessoas do mundo todo est\u00e3o famintas e doentes, e voc\u00ea quer que eu me preocupe com uma vaca ou um rato? Caia na real. Se voc\u00ea quiser enlouquecer com isso, tudo bem. Mas deixe o resto de n\u00f3s em paz. A maioria das pessoas, a maior parte do tempo, vai usar os animais para qualquer coisa que elas queiram. Isso nunca vai mudar.<\/p>\n<p>As coisas poderiam ser amenizadas se todos n\u00f3s pud\u00e9ssemos apenas \u201cconcordar em discordar\u201d. Por que cada um de n\u00f3s n\u00e3o pode se dar bem com pessoas que t\u00eam opini\u00f5es diferentes sobre comer carne, usar animais em experimentos ou sobre a quantidade de espa\u00e7o que um bezerro deve ter em sua jaula antes de ser abatido? No entanto, isso n\u00e3o daria certo, porque, querendo ou n\u00e3o, se uma determinada e particular \u201cdiferen\u00e7a\u201d \u00e9 permitida, isso j\u00e1 \u00e9 parte do problema em si. Como indiv\u00edduos, como sociedade, temos que desenhar linhas: entre diferen\u00e7as que s\u00e3o uma quest\u00e3o de gosto (como um guarda-roupa realmente ruim) e diferen\u00e7as que o colocar\u00e3o na cadeia (como abusar de seus filhos). Embora a op\u00e7\u00e3o pela toler\u00e2ncia \u00e0s diferen\u00e7as seja certamente uma op\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, os direitos animais e os cuidados com os animais podem n\u00e3o ser um problema de toler\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, ainda que pensemos que nossos pontos de vista s\u00e3o t\u00e3o moralmente corretos que as pessoas do outro lado n\u00e3o nos pare\u00e7am apenas diferentes, mas erradas \u2013 e t\u00e3o erradas que o que elas fazem deveria ser ilegal e considerado um ultraje anti\u00e9tico \u2013\u00a0 seja l\u00e1 qual for o lado em que estamos, ainda devemos ponderar que h\u00e1 muitas pessoas do outro lado. Se vamos nos relacionar moralmente \u2013 pensar naqueles do outro lado como agentes morais que merecem respeito por suas escolhas, assim como n\u00f3s fazemos, \u00e9 importante pelo menos para tentarmos nos entender, Al\u00e9m do mais, tal entendimento pode nos levar a um pouco de terreno comum.<\/p>\n<p>Quando os pontos de vista t\u00eam uma aceita\u00e7\u00e3o ampla e de longa data \u2013 como a superioridade humana, consumo de carne e a explora\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de animais \u2013 temos de lev\u00e1-los a s\u00e9rio em seus pr\u00f3prios termos. Similarmente, quando tantas pessoas s\u00e3o vegetarianas morais, ou se op\u00f5em ao uso de animais na ci\u00eancia, n\u00e3o funciona descrev\u00ea-los como hippies excessivamente sentimentais. Se um dos lados for desconsiderado logo no come\u00e7o, as tentativas de comunica\u00e7\u00e3o, ou mesmo de compreens\u00e3o, dessas diferentes pessoas estar\u00e3o condenadas desde o in\u00edcio. E onde isso nos deixaria? Uma conversa verdadeiramente moral. Parece necess\u00e1rio nos abrimos para o que a outra pessoa est\u00e1 dizendo e tentar encontrar o m\u00e1ximo poss\u00edvel de verdade.<\/p>\n<p>Primeiro vamos reconhecer que nos relacionamos com os animais de muitas maneiras diferentes. Considere: usamos animais como alimento, para o trabalho e para experimentos cient\u00edficos. H\u00e1 animais de estima\u00e7\u00e3o, animais selvagens e animais de zool\u00f3gico. Os animais s\u00e3o presas de ca\u00e7adores, sacrif\u00edcios para algumas religi\u00f5es e companheiros para os cegos. Como podemos entender todos esses diferentes contextos? N\u00e3o vou oferecer uma regra simples e universal. No entanto, podemos comparar dois contextos muito diferentes e ver como as diferen\u00e7as afetam nossas respostas.<\/p>\n<p>Aqui est\u00e1 o primeiro cen\u00e1rio: quando voc\u00ea pede uma deliciosa vitela \u00e0 parmegiana em um chique restaurante italiano, voc\u00ea est\u00e1 consumindo a carne de um ser vivo que foi confinado em uma gaiola t\u00e3o pequena que mal podia se mover, e foi mantido por muito tempo no escuro para que sua carne empalidecesse, sem qualquer companhia (o que \u00e9 necess\u00e1rio, sendo ele um animal social) e, para preservar a delicadeza do gosto de sua carne, nunca foi alimentado sequer com a comida s\u00f3lida que seu organismo naturalmente requeria.<\/p>\n<p>Claramente, existem todos os tipos de raz\u00f5es culturais para continuar comendo vitela \u00e0 parmegiana \u2013 que tem sido uma iguaria por muito tempo. E tem um \u00f3timo sabor. As pessoas ganham a vida criando, cozinhando e servindo vitela. No entanto, se voc\u00ea se inclinar na dire\u00e7\u00e3o dos direitos animais, como eu fa\u00e7o, pode parecer muito f\u00e1cil descartar todas essas defesas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 carne de vitela \u2013 apontando [inclusive] que a escravid\u00e3o foi culturalmente apoiada e que as pessoas ganharam dinheiro com o Holocausto. Mas a grande maioria das pessoas simplesmente n\u00e3o equipara gaiolas para bezerros com campos de concentra\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, ao comparar o tratamento dado aos animais aos horrores que humanos infligiram uns aos outros pode ser moralmente v\u00e1lido, mas pode n\u00e3o parecer para muitas das pessoas que voc\u00ea precisa convencer disso.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 muito dif\u00edcil entender o modo como os bezerros s\u00e3o criados sem dizer que a dor dos animais \u00e9 moralmente insignificante. Essa posi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma esp\u00e9cie de antropocentrismo ortodoxo: as pessoas s\u00e3o o centro de todas as coisas e os seres na periferia disso tudo n\u00e3o contam muito. Curiosamente, at\u00e9 mesmo as pessoas que creem nesse tipo de coisa geralmente n\u00e3o acreditam nisso completamente; e \u00e9 essa falta de completude que deixa uma abertura para a outra perspectiva. Por exemplo: um bom n\u00famero de consumidores de vitela \u00e0 parmegiana (ou servidores) sem d\u00favida t\u00eam seus pr\u00f3prios animais de estima\u00e7\u00e3o favoritos que n\u00e3o sonham em tratar da maneira como os bezerros s\u00e3o tratados: animais cujo bem-estar, felicidade e prazer contam para alguma coisa. Nisso h\u00e1 uma inconsist\u00eancia fundamental que cria um profundo buraco l\u00f3gico do qual \u00e9 muito dif\u00edcil sair.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quando olhamos para a vitela \u2013 e, na verdade, para o consumo de carne em geral \u2013 o que temos \u00e9 uma pr\u00e1tica social profundamente arraigada que \u00e9, quando examinada, sem qualquer justificativa moral. O que o consumidor de vitela pode dizer em resposta? N\u00e3o muito, e \u00e9 por isso que sua resposta geralmente \u00e9 o riso, o desprezo, o ato de ignorar a verdade, isso quando n\u00e3o assistem os filmes sobre as fazendas industriais e os matadouros e dizem: \u201cIsso \u00e9 apenas como as coisas s\u00e3o feitas aqui\u201d, e repetem: \u201cIsso tem um gosto bom\u201d, como se isso fosse raz\u00e3o suficiente para continuar comendo. Geralmente, h\u00e1 muita atitude, mas pouca discuss\u00e3o. Se o feliz consumidor de carne n\u00e3o quiser se envolver seriamente com as alega\u00e7\u00f5es de um defensor dos direitos animais, o que devemos fazer?<\/p>\n<p>Bem, podemos come\u00e7ar reconhecendo que o fracasso moral do moderno consumo de carne n\u00e3o \u00e9 o fim da hist\u00f3ria. H\u00e1 muitas coisas que fazemos que n\u00e3o se somam moralmente. Certamente tenho minhas pr\u00f3prias fraquezas \u00e9ticas. De fato, todo ativista dos direitos animais vive de uma maneira que prejudica os animais. Esses ativistas dirigem seus carros [el\u00e9tricos] que se ligam \u00e0 rede el\u00e9trica, contribuindo com o aquecimento global que erradica in\u00fameras esp\u00e9cies. At\u00e9 mesmo sua dieta totalmente vegana envolve agricultura em grande escala que promove o deslocamento de animais. E quando seus filhos est\u00e3o doentes eles n\u00e3o rejeitam medicamentos \u201cfora de princ\u00edpio\u201d que foram desenvolvidos por meio de testes em animais.<\/p>\n<p>Uma das coisas que distingue a \u00e9tica em uma \u00e9poca de aquecimento global \u00e9 que n\u00e3o podemos deixar de ser parte do problema. Certamente seremos [problematicamente] menos importantes se deixarmos de comer produtos de origem animal e nos recusarmos a comprar produtos que foram testados em animais. Mas enquanto integrarmos essa sociedade, estaremos nesse limite.<\/p>\n<p>E a triste verdade \u00e9 que muitas pessoas que apreciam profundamente os animais podem, ao mesmo tempo, ser indiferentes a outras pessoas e a outras preocupa\u00e7\u00f5es morais importantes. Elas podem pensar e falar com humanos que comem animais com \u00f3dio e viol\u00eancia verbal. Elas podem se refugiar em um senso reconfortante de superioridade, analisando incessantemente o invent\u00e1rio moral das falhas de todos os outros enquanto nunca examinam seriamente as suas pr\u00f3prias falhas.<\/p>\n<p>Essa linha de pensamento n\u00e3o elimina as tens\u00f5es entre os \u201cdois lados\u201d. No entanto, permite que o ativista dos direitos animais, cr\u00edtico moralmente, se aproxime do seu advers\u00e1rio com uma postura menos arrogante e mais modesta. Poder\u00edamos tamb\u00e9m ser capazes de ver que uma melhora parcial \u00e9 melhor do que nenhuma melhora. Em alguns pa\u00edses, houve um acordo sobre restri\u00e7\u00f5es legais sobre como voc\u00ea pode criar carne de vitela e em outros assuntos relacionados a animais tamb\u00e9m. Se essas novas leis n\u00e3o s\u00e3o o suficiente para o vegetariano moral, entendo completamente. Mas a vida moral \u00e9, muitas vezes, talvez tipicamente, n\u00e3o um caso de \u201csufici\u00eancia\u201d. Geralmente \u00e9, na melhor das hip\u00f3teses, um caso de \u201cbuscar melhorias\u201d.<\/p>\n<p>Agora vamos considerar um segundo cen\u00e1rio: seu filho nasceu com fibrose c\u00edstica (FC), uma condi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica geralmente fatal em que a aus\u00eancia de uma enzima leva a problemas pulmonares e digestivos. Enquanto isso costumava significar uma morte prematura para todos os portadores, pesquisas recentes permitiram que muitos vivessem por seus 30 e 40 anos.<\/p>\n<p>Se fosse seu filho, condenado a uma vida de infec\u00e7\u00f5es pulmonares frequentes, ciclos de tosses aparentemente intermin\u00e1veis, e um tratamento cont\u00ednuo de fisioterapia respirat\u00f3ria para limpar o muco de FC distintamente espesso e imut\u00e1vel, voc\u00ea se importaria com quantos animais de laborat\u00f3rio est\u00e3o morrendo na busca pela cura? Ou mesmo na busca de um tratamento que permitir\u00e1 ao seu filho ter uma vida um pouco mais longa e toler\u00e1vel? Em 40 anos, a idade m\u00e9dia de portadores de FC passou de dez para 37. \u00c9 isso que voc\u00ea est\u00e1 contando, n\u00e3o o n\u00famero de ratos que foram usados para desenvolver tratamentos e, potencialmente, uma cura para o seu filho.<\/p>\n<p>Se comer carne, em especial vitela, \u00e9 uma imoral autoindulg\u00eancia, o uso de animais para pesquisas para curar doen\u00e7as mortais \u00e9 outra coisa. Aqui temos o que pelo menos parece ser uma escolha clara: permitir que uma crian\u00e7a sofra e morra jovem, ou fa\u00e7a o que precisa ser feito pelo humano \u00e0s custas dos animais. Se voc\u00ea \u00e9 esse pai \u2013 ou a pr\u00f3pria crian\u00e7a \u2013 voc\u00ea acha que vai dar mais aten\u00e7\u00e3o aos relatos sobre o sofrimento animal?<\/p>\n<p>\u00c9 claro que o defensor dos direitos animais pode simplesmente dizer que n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para preferir o humano ao animal, ou levantar quest\u00f5es de grau e escopo. Al\u00e9m disso, e mais poderosamente, pode-se argumentar que usar animais para pesquisa custa dinheiro, e que o dinheiro para os cuidados de sa\u00fade \u00e9 limitado e que h\u00e1 muitas outras coisas que podemos fazer com esse dinheiro que s\u00e3o boas para a sa\u00fade das pessoas e n\u00e3o envolvem crueldade contra os animais. Podemos melhorar o meio ambiente para que menos pessoas tenham c\u00e2ncer em decorr\u00eancia da polui\u00e7\u00e3o; podemos ensinar as pessoas e terem melhores h\u00e1bitos de sa\u00fade; para que as doen\u00e7as que surgem a partir dos seus estilos de vida diminuam; podemos encorajar as pessoas a n\u00e3o comerem alimentos de origem animal, uma vez que contribuem muito para o surgimento de problemas de sa\u00fade. Essas medidas n\u00e3o prejudicar\u00e3o os animais; na verdade, elas ajudar\u00e3o tanto os animais quanto as pessoas, uma solu\u00e7\u00e3o vantajosa para todos.<\/p>\n<p>No entanto, mesmo os melhores regimes ambientais e toda uma popula\u00e7\u00e3o fazendo ioga, meditando e comendo apenas saladas, arroz integral e lentilhas cozidas n\u00e3o acabar\u00e3o com problemas gen\u00e9ticos de sa\u00fade como a FC. Ainda teremos o pai desesperado e a crian\u00e7a doente, pessoas com uma doen\u00e7a terr\u00edvel e os animais cujas vidas desejaremos sacrificar para encontrar melhores tratamentos.<\/p>\n<p>Talvez, mais uma vez, a \u00fanica abordagem com uma chance razo\u00e1vel de sucesso seja tentar melhorar as coisas. Primeiro, pare com todos os est\u00fapidos, in\u00fateis e insanos experimentos com animais: os que jogam cosm\u00e9ticos nos olhos dos coelhos at\u00e9 ficarem cegos, ou que esmagam as cabe\u00e7as dos macacos em paredes para confirmar se cabe\u00e7as esmagadas contra uma parede ferem o c\u00e9rebro; ou aquele teste de quanto tempo leva para os animais enlouquecerem, sujeitando-os aleatoriamente a choques el\u00e9tricos.<\/p>\n<p>E quanto aos experimentos de fibrose c\u00edstica? Bem, talvez pud\u00e9ssemos concordar em falar sobre eles mais tarde. H\u00e1 muita coisa que pode ser feita para limitar ou eliminar experimentos com animais antes de pararmos a pesquisa destinada a curar doen\u00e7as letais. Em uma vida moral, muitas vezes nos deparamos com escolhas dif\u00edceis. \u00c0s vezes, essas s\u00e3o escolhas realmente falsas, e devemos nos certificar de que sabemos quem ou o que disse: \u201cEscolha entre A e B.\u201d<\/p>\n<p>Talvez haja uma op\u00e7\u00e3o C que funcione para todos n\u00f3s \u2013 como as medidas de sa\u00fade hol\u00edsticas e preventivas descritas acima. Ainda assim, \u00e0s vezes, e infelizmente, h\u00e1 casos em que n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda para alternativas dolorosas. N\u00f3s ainda teremos que lidar com a dor nesta vida, assim como todos os outros, e nenhuma quantidade de bondade moral jamais levar\u00e1 isso embora. Tipos que defendem \u201cEu posso fazer qualquer coisa que eu quiser com os animais\u201d t\u00eam seus pr\u00f3prios animais de estima\u00e7\u00e3o, assim como h\u00e1 defensores dos direitos animais que t\u00eam seus filhos e outras pessoas que privilegiariam em vez dos animais. Essa \u00e9 uma das raz\u00f5es pelas quais essa quest\u00e3o dos experimentos com animais \u00e9 muito dif\u00edcil, e exatamente onde um acordo entre diferen\u00e7as reais pode ser alcan\u00e7ado.<\/p>\n<p>A verdade pr\u00e1tica de qualquer reivindica\u00e7\u00e3o moral \u2013 direitos dos animais, das mulheres, casamento gay, e o que devemos \u00e0s pessoas que passam fome \u2013 \u00e9 t\u00e3o poderosa quanto o n\u00edvel de desenvolvimento moral das pessoas com quem estamos conversando. N\u00e3o importa qu\u00e3o correta seja uma afirma\u00e7\u00e3o moral, se a humanidade n\u00e3o estiver pronta para aceitar a sua verdade, ela n\u00e3o ter\u00e1 consequ\u00eancias sociais. Pode ser que, de acordo com o pleno respeito pelos animais, isso seja apenas algo que n\u00e3o \u00e9 psicologicamente e, portanto, moralmente poss\u00edvel agora. A cada minuto de cada dia a nossa civiliza\u00e7\u00e3o pode de fato estar cometendo crimes monstruosos, e talvez os angustiados e \u201cextremistas\u201d gritos dos ativistas dos direitos animais s\u00e3o exatamente o que precisamos para despertar. No entanto, suspeito que, neste caso, quaisquer mudan\u00e7as que fa\u00e7amos ser\u00e3o necessariamente graduais, mais baseadas na compreens\u00e3o silenciosa e em lentas e moderadas melhorias do que em rejei\u00e7\u00f5es morais por atacado.<\/p>\n<p>Provavelmente, alguns ativistas dos direitos animais, e talvez at\u00e9 mesmo os pr\u00f3prios animais, pensem que isso \u00e9 uma desculpa covarde diante do massacre em massa. Mas devemos lembrar que a longa luta pela igualdade social e legal das mulheres est\u00e1 longe de terminar; e enquanto os escravos foram libertados em 1865 [nos Estados Unidos], mais de um s\u00e9culo depois, os afro-americanos ainda lutavam por direitos civis b\u00e1sicos. Com todas as mudan\u00e7as importantes que ocorreram, \u00e9 dif\u00edcil saber quanto foi conquistado atrav\u00e9s de raiva, viol\u00eancia verbal e leis coercivas, e quanto foi conquistado pelo paciente trabalho de conversa\u00e7\u00e3o moral \u2013 em que fazemos o melhor que podemos para entender o \u201coutro\u201d, apesar do amargo desacordo. Talvez refletir sobre essa hist\u00f3ria nos ajude a ficar um pouco satisfeitos com ganhos limitados que tornam a vida um pouco melhor, em vez de nos apegarmos com raiva e amargura a um ideal imposs\u00edvel [em curto prazo]. Goste ou n\u00e3o, grandes mudan\u00e7as s\u00e3o lentas.<\/p>\n<p>Enquanto isso, aqueles de n\u00f3s que prestam aten\u00e7\u00e3o [a essa realidade], podem pelo menos reconhecer o quanto isso nos incomoda. Podemos nos lamentar em rela\u00e7\u00e3o aos limites morais de outras pessoas, sabendo que por n\u00f3s mesmos j\u00e1 temos muitos limites. Podemos nos perguntar qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre o golden retriever que dorme em nossa cama \u00e0 noite e o bacon que comemos no caf\u00e9 da manh\u00e3. E se estamos realmente dispostos a sentir toda a gama e intensidade de nossas emo\u00e7\u00f5es sobre os nossos primos animais, na tentativa de assimilar a sua dor e a nossa responsabilidade sobre isso, e desenvolver a compaix\u00e3o por eles e ao mesmo tempo por nossos companheiros humanos, quem sabe no que isso pode resultar? N\u00e3o o suficiente, com certeza. Mas claramente o suficiente para fazer a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia:<\/strong><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/bulletin.hds.harvard.edu\/articles\/winterspring2014\/can-we-talk-about-animal-rights\" >Gottlieb, Roger S. Can We Talk (about Animal Rights)? Harvard Divinity Bulletin. Harvard University (2014).<\/a><\/p>\n<p><em>_____________________________________________<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/David-Arioch-e1491301383398.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-87305\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/David-Arioch-e1491301383398.jpg\" alt=\"\" width=\"100\" height=\"100\" \/><\/a><em>David Arioch \u00e9 body builder, jornalista, pesquisador e documentarista. Trabalha profissionalmente h\u00e1 dez anos com jornalismo cultural e liter\u00e1rio.<\/em> <em>\u201cO mais importante \u00e9 eu estar em sintonia com o que estou produzindo. Atualmente escrevo bastante sobre vegetarianismo, veganismo e direitos animais, porque s\u00e3o assuntos que me interessam muito.\u201d <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/davidarioch.com\/2017\/03\/26\/oito-anos-de-david-arioch-jornalismo-cultural\/\" >Leia mais&#8230;<\/a><\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/davidarioch.com\/2018\/04\/24\/podemos-falar-sobre-os-direitos-dos-animais\/\" >Go to Original \u2013 davidarioch.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>24 abr 2018 &#8211; Em 2014, o fil\u00f3sofo Roger S. Gottlieb, professor de filosofia e autor de 18 livros, publicou pelo Harvard Divinity Bulletin um artigo intitulado \u201cCan We Talk (about Animal Rights)?\u201d. \u201cPodemos come\u00e7ar reconhecendo que o fracasso moral do moderno consumo de carne n\u00e3o \u00e9 o fim da hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":87305,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-110054","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/110054","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=110054"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/110054\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media\/87305"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=110054"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=110054"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=110054"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}