{"id":113113,"date":"2018-06-20T12:00:46","date_gmt":"2018-06-20T11:00:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=113113"},"modified":"2018-06-20T11:21:44","modified_gmt":"2018-06-20T10:21:44","slug":"portugues-justine-butler-por-que-o-leite-e-uma-questao-feminista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2018\/06\/portugues-justine-butler-por-que-o-leite-e-uma-questao-feminista\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Justine Butler: \u201cPor que o leite \u00e9 uma quest\u00e3o feminista\u201d"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><em>\u00a0\u201cFicamos indignadas com hist\u00f3rias de estupro e gravidez for\u00e7ada, mas essas s\u00e3o pr\u00e1ticas comuns na moderna pecu\u00e1ria leiteira\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/vaca-cow-animal.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-113114\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/vaca-cow-animal.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"324\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/vaca-cow-animal.jpg 724w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/vaca-cow-animal-300x194.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>19 junho 2018 &#8211; <\/em>Justine Butler defende que a vaca tem direito de n\u00e3o ser violada e isso deve ser respeitado (Foto: Jo-Anne McArthur\/We Animals)<\/p>\n<p>Pesquisadora e autora da organiza\u00e7\u00e3o Viva!, recentemente a bioqu\u00edmica Justine Butler, que tem no curr\u00edculo um doutorado em biologia molecular e a publica\u00e7\u00e3o de um relat\u00f3rio cient\u00edfico intitulado \u201cWhite Lies\u201d, que teve repercuss\u00e3o internacional pela abordagem dos efeitos dos latic\u00ednios na sa\u00fade humana, republicou o seu artigo \u201cWhy milk is a feminist issue\u201d \u2013 sobre as raz\u00f5es pelas quais o leite \u00e9 uma quest\u00e3o feminista.<\/p>\n<p>Justine come\u00e7a o artigo declarando que o feminismo combina uma gama de ideias que compartilham um objetivo comum \u2013 apoiar os direitos das mulheres: \u201cN\u00e3o foi antes de 1991 que a viola\u00e7\u00e3o f\u00edsica dentro do casamento se tornou um crime. Antes disso, a lei sugeria que o casamento implicava consentimento para o sexo, e uma vez casada, uma mulher poderia ser considerada como propriedade do marido.\u201d<\/p>\n<p>De acordo com a autora, nos \u00faltimos cem anos as mulheres t\u00eam lutado arduamente pelo direito de controlar o que acontece com seus pr\u00f3prios corpos. \u201cFicamos indignadas com hist\u00f3rias de estupro e gravidez for\u00e7ada, mas essas s\u00e3o pr\u00e1ticas comuns na moderna pecu\u00e1ria leiteira. As vacas vivem essa realidade repetidas vezes, em escala industrial, e sem escolha.\u201d<\/p>\n<p>Justine Butler, que testemunhou v\u00e1rias fases do feminismo no Reino Unido e em outras partes do mundo, explica que o feminismo ocorreu em ondas \u2013 tendo as sufragistas como pioneiras: \u201cA segunda fase ocorreu nos anos 1960 com o feminismo liberal. Uma terceira onda surgiu na d\u00e9cada de 1980 com o ecofeminismo, que se identificou com a opress\u00e3o dos animais criados para consumo. Na d\u00e9cada de 1990, os v\u00ednculos entre o abuso de animais e a opress\u00e3o das mulheres foram rebaixados e um feminismo p\u00f3s-moderno emergiu, priorizando os seres humanos, com pouca preocupa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos animais e ao meio ambiente. O feminismo centrado no ser humano passou a dominar o pensamento feminista no in\u00edcio dos anos 2000.\u201d<\/p>\n<p>Hoje a autora diz que as feministas devem se questionar se est\u00e1 tudo bem para os seres humanos controlarem violentamente o sistema reprodutivo de um animal enquanto se op\u00f5em fundamentalmente a um tratamento similar dispensado \u00e0s mulheres: \u201cPor que escolher a qual forma de opress\u00e3o nos opomos? Esse tipo de distin\u00e7\u00e3o \u00e9 chamada de \u2018especismo\u2019. Envolve a atribui\u00e7\u00e3o de diferentes valores morais ou direitos aos indiv\u00edduos com base em quais esp\u00e9cies eles pertencem. \u2018Sou uma feminista vegana porque sou um animal entre muitos e n\u00e3o quero impor uma hierarquia de consumo a essa rela\u00e7\u00e3o\u2019\u201d, defende, citando a autora Carol J. Adams.<\/p>\n<p>Justine tamb\u00e9m parafraseia a ativista Alice Walker, que parte do princ\u00edpio de que os animais existem por suas pr\u00f3prias raz\u00f5es: \u201cEles n\u00e3o foram feitos para os humanos, assim como pessoas negras n\u00e3o foram feitas para os brancos ou as mulheres para os homens.\u201d A suposi\u00e7\u00e3o de que os animais criados para consumo n\u00e3o sofrem quando mantidos em condi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o seriam toleradas pelos seres humanos tem como base a ideia de que eles s\u00e3o menos inteligentes do que os seres humanos, e n\u00e3o t\u00eam senso de si mesmos.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, isso \u00e9 evidentemente errado \u2013 garante Justine Butler, que cita o trabalho do professor John Webster, da Universidade de Bristol, que dedicou d\u00e9cadas estudando o comportamento de animais criados para consumo e refuta tal afirma\u00e7\u00e3o: \u201cAs pessoas assumiram que a intelig\u00eancia est\u00e1 ligada a capacidade de sofrer e que, como os animais t\u00eam c\u00e9rebros menores, eles sofrem menos que os humanos. Essa \u00e9 uma l\u00f3gica pat\u00e9tica.\u201d<\/p>\n<p>In\u00fameras pesquisas mostram claramente que vacas criam la\u00e7os de amizade, guardam ressentimentos e s\u00e3o estimuladas por desafios intelectuais. E claro, s\u00e3o capazes de sentir fortes emo\u00e7\u00f5es, como dor, medo e ansiedade, assim como alegria. \u201cTodos n\u00f3s gostamos do sol nas nossas costas. Caracter\u00edsticas semelhantes foram encontradas em porcos, cabras, galinhas e outros animais\u201d, exemplifica a autora.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o poucos os cientistas que sugerem que os animais podem ser t\u00e3o semelhantes aos seres humanos em alguns aspectos que as leis de bem-estar precisam ser urgentemente repensadas. Christine Nicol, professora de bem-estar animal na Universidade de Bristol, reconhece que muitos animais n\u00e3o humanos t\u00eam not\u00e1veis \u200b\u200bhabilidades cognitivas e de inova\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n<p>\u201cA imagem buc\u00f3lica de uma vaca e seu bezerro em um ambiente pastoral \u00e9 um mito. As vacas n\u00e3o produzem constantemente leite, e como n\u00f3s, s\u00f3 o fazem depois de uma gravidez e um parto de nove meses. Uma vaca leiteira moderna ser\u00e1 confinada e obrigada a engravidar logo ap\u00f3s o seu primeiro anivers\u00e1rio, usando um aparelho de conten\u00e7\u00e3o denominado rape rack [em que uma vaca \u00e9 imobilizada e inseminada]\u201c, relata Justine.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s dar \u00e0 luz, a vaca amamentaria o bezerro por at\u00e9 um ano, mas na pecu\u00e1ria leiteira \u00e9 comum a separa\u00e7\u00e3o em um ou dois dias. \u201cBezerros machos s\u00e3o subprodutos indesej\u00e1veis, \u200b\u200be todos os anos, no Reino Unido, 100 mil ou mais s\u00e3o abatidos, enquanto outros s\u00e3o vendidos para a produ\u00e7\u00e3o de carne de vitela\u201d, informa a autora, acrescentando que a imensa demanda f\u00edsica leva \u00e0 infertilidade e infec\u00e7\u00f5es graves (mastite e laminite), reduzindo produtividade e expectativa de vida. Nesse sistema, um animal que poderia viver naturalmente pelo menos 20 anos, \u00e9 morto com n\u00e3o mais do que seis anos.<\/p>\n<p>Justine Butler n\u00e3o considera um exagero dizer que o leite \u00e9 produto do estupro, sequestro, tortura e assassinato, considerando que as vontades e os anseios da vaca s\u00e3o completamente desconsiderados:<\/p>\n<p>\u201cAtos de viol\u00eancia sexual ou atividade sexual for\u00e7ada com animais geram repulsa na maioria das pessoas. Ent\u00e3o, por que fechamos os olhos para esse tratamento dado \u00e0s vacas leiteiras? O leite \u00e9 o produto da explora\u00e7\u00e3o das capacidades reprodutivas de um corpo feminino. Considerar isso uma quest\u00e3o feminista n\u00e3o \u00e9 radical, mas uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica totalmente defens\u00e1vel. As vacas compartilham conosco a arquitetura b\u00e1sica do c\u00e9rebro respons\u00e1vel pela emo\u00e7\u00e3o. As vacas m\u00e3es se sentem extremamente angustiadas quando as suas crias s\u00e3o tiradas delas \u2013 elas choram e berram. Elas ainda est\u00e3o de luto quando a m\u00e1quina de ordenha suga o leite de seus \u00faberes. Um torturante ciclo de tormento f\u00edsico e emocional \u00e9 imposto sobre elas at\u00e9 sucumbirem. O leite vem de uma m\u00e3e enlutada e isso \u00e9 uma quest\u00e3o feminista.\u201d<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia:<\/strong><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.viva.org.uk\/why-milk-feminist-issue\" >Butler, Justine. Why milk is a feminist issue (2015).<\/a><\/p>\n<p><em>_____________________________________________<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/David-Arioch-e1491301383398.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-87305\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/David-Arioch-e1491301383398.jpg\" alt=\"\" width=\"100\" height=\"100\" \/><\/a><\/em><em>David Arioch \u00e9 body builder, jornalista, pesquisador e documentarista. Trabalha profissionalmente h\u00e1 dez anos com jornalismo cultural e liter\u00e1rio.<\/em> <em>\u201cO mais importante \u00e9 eu estar em sintonia com o que estou produzindo. Atualmente escrevo bastante sobre vegetarianismo, veganismo e direitos animais, porque s\u00e3o assuntos que me interessam muito.\u201d <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/davidarioch.com\/2017\/03\/26\/oito-anos-de-david-arioch-jornalismo-cultural\/\" >Leia mais&#8230;<\/a><\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/davidarioch.com\/2018\/06\/19\/justine-butler-por-que-o-leite-e-uma-questao-feminista\/\" >Go to Original \u2013 davidarioch.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> \u201cFicamos indignadas com hist\u00f3rias de estupro e gravidez for\u00e7ada, mas essas s\u00e3o pr\u00e1ticas comuns na moderna pecu\u00e1ria leiteira\u201d<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":113114,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-113113","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/113113","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=113113"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/113113\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media\/113114"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=113113"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=113113"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=113113"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}