{"id":11684,"date":"2011-04-25T12:00:58","date_gmt":"2011-04-25T11:00:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=11684"},"modified":"2011-04-18T19:30:34","modified_gmt":"2011-04-18T18:30:34","slug":"portuguese-a-islandia-poe-os-seus-banqueiros-na-prisao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2011\/04\/portuguese-a-islandia-poe-os-seus-banqueiros-na-prisao\/","title":{"rendered":"(Portuguese) A Isl\u00e2ndia P\u00f5e os Seus Banqueiros na Pris\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em> \u201cA primeira v\u00edtima da crise financeira constitui-se como uma valente tentativa de pedir responsabilidades\u201d. Claudi P\u00e9rez (El Pa\u00eds) conta neste artigo a hist\u00f3ria da ascens\u00e3o e da queda da economia islandesa. <\/em><\/p>\n<p>A Interpol emitiu um mandado de busca em nome de Sigurdur Einarsson, presidente executivo de um dos maiores bancos da Isl\u00e2ndia, o Kaupthing, que acabou nacionalizado aquando da crise de 2008.<\/p>\n<p>Procura-se. Homem, 48 anos, 1,80 metros, 114 quilos. Calvo, olhos azuis. A Interpol acompanha esta descri\u00e7\u00e3o de uma foto na qual aparece um tipo bem barbeado enfiado num desses fatos escuros de 2000 euros e enfeitado com um impec\u00e1vel n\u00f3 de gravata. V\u00ea-se \u00e0 l\u00e9gua que se trata de um banqueiro: este n\u00e3o \u00e9 um desses cartazes do oeste selvagem. A delinqu\u00eancia mudou muito com a globaliza\u00e7\u00e3o financeira. E contudo esta hist\u00f3ria tem contornos de western de Sam Peckinpah ambientado para o \u00c1rctico. Isto \u00e9 a Isl\u00e2ndia, o lugar onde os bancos v\u00e3o \u00e0 ru\u00edna e os seus dirigentes podem ir para a cadeia sem que o c\u00e9u se abata sobre as nossas cabe\u00e7as; a ilha onde apenas meio milhar de pessoas armadas com perigosos tachos podem derrubar um governo. Isto \u00e9 a Isl\u00e2ndia, o peda\u00e7o de gelo e rocha vulc\u00e2nica que em tempos foi o pa\u00eds mais feliz do mundo (assim, tal como consta) e onde agora os taxistas lan\u00e7am os mesmos olhares furibundos que em todas as partes quando se lhes pergunta se est\u00e3o mais chateados com os banqueiros ou com os pol\u00edticos. Enfim, Isto \u00e9 a Isl\u00e2ndia: para\u00edso sobrenatural, reza o cartaz que se avista do avi\u00e3o, mesmo antes de desembarcar.<\/p>\n<p>O tipo da foto chama-se Sigurdur Einarsson. Era o presidente executivo dum dos grandes bancos da Isl\u00e2ndia e o mais temer\u00e1rio de todos, Kaupthing (literalmente, &#8220;a pra\u00e7a do mercado&#8221;; os islandeses t\u00eam um estranho sentido de humor, para al\u00e9m duma l\u00edngua milenar e impenetr\u00e1vel). Einarsson j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 na lista da Interpol. Foi detido h\u00e1 uns dias na sua mans\u00e3o de Londres. E \u00e9 um dos protagonistas do livro mais lido na Isl\u00e2ndia: nove volumes e 2400 p\u00e1ginas para uma esp\u00e9cie de saga delirante sobre os desmandes que a ind\u00fastria financeira pode chegar a perpetrar quando est\u00e1 totalmente fora de controlo.<\/p>\n<p>Nove volumes: praticamente epis\u00f3dios nacionais em que se demonstra que nada disso foi um acidente. A Isl\u00e2ndia foi saqueada por cerca de 20 ou 30 pessoas. Uma dezena de banqueiros, uns poucos empres\u00e1rios e um punhado de pol\u00edticos formaram um grupo selvagem que levou o pa\u00eds inteiro \u00e0 ru\u00edna: 10 dos 63 parlamentares islandeses, incluindo os dois l\u00edderes do partido que governou quase ininterruptamente desde 1944, tinham empr\u00e9stimos pessoais concedidos por um valor de quase 10 milh\u00f5es de euros por cabe\u00e7a. Est\u00e1 por demonstrar que isso seja delito (embora pare\u00e7a que parte desse dinheiro servia para comprar ac\u00e7\u00f5es dos pr\u00f3prios bancos: para fazer inchar as cota\u00e7\u00f5es), mas pelo menos \u00e9 um esc\u00e2ndalo enorme.<\/p>\n<p>A Isl\u00e2ndia \u00e9 uma excep\u00e7\u00e3o, uma singularidade; uma raridade. E n\u00e3o s\u00f3 por deixar os seus bancos ir \u00e0 fal\u00eancia e perseguir os banqueiros. A ilha \u00e9 uma paisagem lunar com apenas 320 000 habitantes a meio caminho entre a Europa, os EUA e o c\u00edrculo polar, com um clima e uma geografia extremos, com uma das tradi\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas mais antigas da Europa e, \u00faltimo t\u00f3pico, com uma gente de indom\u00e1vel car\u00e1cter e uma forma de ser e fazer do mais peculiar. Um lugar onde um desses taxistas furibundos, depois de deixar para tr\u00e1s a capital, Reikiavik, se mete por uma l\u00edngua de terra rodeada de \u00e1gua e deixa o jornalista ao p\u00e9 da distinta resid\u00eancia presidencial, com o mesm\u00edssimo presidente esperando na soleira da porta: qualquer um pode aproximar-se sem problemas, n\u00e3o h\u00e1 medidas de seguran\u00e7a, nem sequer um pol\u00edcia. S\u00f3 o pormenor ex\u00f3tico duma enorme pele de urso polar no alto duma escadaria tira do pasmo quem numa primeira entrevista com um presidente dum pa\u00eds d\u00e1 com um mandat\u00e1rio &#8211; \u00d3lagur Gr\u00edmsson, que considera &#8220;uma loucura&#8221; que os seus concidad\u00e3os &#8220;tenham de pagar a factura da banca sem serem consultados&#8221;.<\/p>\n<p>E do presidente ao cidad\u00e3o de p\u00e9-no-ch\u00e3o: da particularidade \u00e0 categoria. Arnar Arinbjarnarsson \u00e9 capaz de resumir o apocalipse da Isl\u00e2ndia com surpreendente impavidez, \u00e0 frente dum fumegante capuchino no central Caf\u00e9 Paris, a dois passos do Althing, o Parlamento. Arnar tem 33 anos e estudou engenharia na universidade, mas, ao acabar nem sequer lhe passou pela cabe\u00e7a desenhar pontes: um dos bancos contratou-o, apesar de n\u00e3o ter forma\u00e7\u00e3o financeira. &#8220;A banca estava a experimentar um crescimento explosivo, e para um engenheiro \u00e9 relativamente simples aprender matem\u00e1tica financeira, sobretudo se o ordenado for estratosf\u00e9rico&#8221;, alega.<\/p>\n<p>A Isl\u00e2ndia costumava ser o pa\u00eds mais pobre da Europa nos princ\u00edpios do s\u00e9culo XX. Nos anos oitenta, o governo privatizou a pesca: dividiu-a em quotas e fez uns quantos pescadores milion\u00e1rios. A partir da\u00ed, sob o influxo de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, o pa\u00eds converteu-se na quintess\u00eancia do modelo liberal, com uma pol\u00edtica econ\u00f3mica de baixos impostos, privatiza\u00e7\u00f5es, desregulamenta\u00e7\u00f5es e al\u00e9m do mais: a sombra de Milton Friedman, que viajou durante essa \u00e9poca para Reikiavik, \u00e9 alargada. Aquilo funcionou. O rendimento per capita situou-se entre os mais altos do mundo, o desemprego estabilizou em 1% e o pa\u00eds investiu em energia verde, unidades industriais de alum\u00ednio e tecnologia. O c\u00famulo deu-se com o novo s\u00e9culo: o Estado privatizou a banca e os banqueiros iniciaram uma corrida desaforada pela expans\u00e3o dentro e fora do pa\u00eds, ajudados pelas m\u00e3os deixadas livres com a falta de regulamenta\u00e7\u00e3o e com taxas de juro \u00e0 volta de 15% que atra\u00edam as poupan\u00e7as dos dentistas austr\u00edacos, dos reformados alem\u00e3es e dos comerciantes holandeses. Uma economia s\u00e3, assente em s\u00f3lidas bases, converteu-se numa mesa de black jack. Nem sequer faltou uma campanha nacionalista a favor da supremacia racial da casta empresarial, o que talvez demonstre como \u00e9 perigoso meter esse tipo de tontarias na cabe\u00e7a das pessoas, seja &#8220;as casas nunca baixam de pre\u00e7o&#8221; ou &#8220;os islandeses controlam melhor o risco pelo seu passado viking&#8221;.<\/p>\n<p>A festa descontrolou-se: os activos dos bancos chegaram a multiplicar o PIB por 12. Apenas a Irlanda, outro exemplo de modelo liberal, se aproxima dessas cifras. At\u00e9 que da noite para o dia &#8211; com o colapso da Lehman Brothers e o estouro financeiro mundial &#8211; tudo se desmoronou, no que foi &#8220;o choque mais brutal e fulminante da crise internacional&#8221;, assegura Jon Danielsson, da London School of Economics.<\/p>\n<p>Mas voltemos a Arnar e ao seu relato: &#8220;a banca come\u00e7ou a desbaratar dinheiro em farras com champanhe e estrelas de rock; comprou ou ajudou a comprar meia Oxford Street, v\u00e1rios clubes de futebol da liga inglesa, bancos na Dinamarca, empresas por toda a Escandin\u00e1via: tudo o que estivesse \u00e0 venda e tudo a cr\u00e9dito&#8221;. Os executivos concediam cr\u00e9ditos milion\u00e1rios a si mesmos, a familiares, a amigos e aos pol\u00edticos pr\u00f3ximos, frequentemente sem garantias. A Bolsa multiplicou o seu valor por nove entre 2003 e 2007. Os pre\u00e7os dos andares triplicaram. &#8220;Os bancos levantaram um obsceno castelo de cartas que levou tudo \u00e0 frente&#8221;, conta Arnar, que conserva o seu emprego, mas com metade do ordenado. Acaba de comprar um barco a meias com o pai com a inten\u00e7\u00e3o de mudar de vida: quer dedicar-se \u00e0 pesca.<\/p>\n<p>A f\u00e1bula duma ilha de pescadores que se converteu num pa\u00eds de banqueiros tem uma moral: &#8220;Talvez seja a hora de voltar ao come\u00e7o&#8221;, reflecte o engenheiro. &#8220;Talvez todo esse dinheiro e esse talento que a banca absorve quando cresce demasiado n\u00e3o s\u00f3 se converta num foco de instabilidade, como que subtraia recursos a outros sectores e possa chegar a ser nocivo ao impedir que uma economia desenvolva todo o seu potencial&#8221;, diz o presidente Gr\u00edmsson.<\/p>\n<p>A magnitude da cat\u00e1strofe foi espectacular. A infla\u00e7\u00e3o descontrolou-se, a coroa veio por ali abaixo, o desemprego cresceu a toda a velocidade, o PIB caiu 15%, os bancos perderam uns 100 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares (h\u00e1-de passar muito tempo at\u00e9 haver n\u00fameros definitivos) e os islandeses continuaram a ser ricos, mais ou menos: metade do que eram antes. De quem foi a culpa? Dos bancos e dos banqueiros, naturalmente. Dos seus excessos, daquele forrobod\u00f3 de cr\u00e9dito, da sua desmedida cobi\u00e7a. Os bancos s\u00e3o o monstro, a culpa \u00e9 deles e, de toda a forma, dos pol\u00edticos que lhes permitiram tudo isso. OK. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida. Somente dos bancos?<\/p>\n<p>&#8220;O pa\u00eds inteiro viu-se apanhado numa bolha. A banca sentiu um desenvolvimento repentino, coisa que agora vemos como algo est\u00fapido e irrespons\u00e1vel. Mas as pessoas fizeram algo parecido. As regras normais das finan\u00e7as permaneceram suspensas e entramos na era do vale tudo: duas casas, tr\u00eas casas por fam\u00edlia, um Range Rover, uma moto de neve. Os sal\u00e1rios subiam, a riqueza parecia sair do nada, os cart\u00f5es de cr\u00e9dito deitavam fumo&#8221;, explica \u00c1sgeir Jonsson, ex-economista chefe da Kaupthing. O tamb\u00e9m economista Magnus Skulasson assume que essa loucura colectiva levou um pa\u00eds inteiro a parecer dominado pelos valores de Wall Street, da banca de investimento mais especulativa. &#8220;N\u00f3s islandeses contribu\u00edmos decisivamente para que se passasse o que passou, por permitirmos que o governo e a banca fizessem o que fizeram, mas tamb\u00e9m participamos dessa combina\u00e7\u00e3o de cobi\u00e7a e estupidez. Os bancos merecem ficar afastados do jogo e n\u00f3s merecemos uma parte do castigo: mas s\u00f3 uma parte&#8221;, afirma no restaurante dum hotel central.<\/p>\n<p>Uma coisa salva os islandeses, de alguma maneira os redime de parte desses pecados. No seu incisivo Indignai-vos!, Stephane Hessel descreve como os financeiros na Europa e nos EUA, culpados indiscut\u00edveis da crise, salvaram o buraco e continuam com a sua vida como sempre: voltaram os lucros, os b\u00f3nus, essas coisas. Em compensa\u00e7\u00e3o, as suas v\u00edtimas n\u00e3o recuperaram o n\u00edvel de ganhos, e muito menos o emprego. &#8220;O poder do dinheiro nunca havia sido t\u00e3o grande, insolente, ego\u00edsta com todos&#8221;, acusa e, contudo, &#8220;os banqueiros mal suportaram as consequ\u00eancias dos seus desaforos&#8221;, acrescenta no pr\u00f3logo do livro o escritor Jos\u00e9 Luis Sampedro.<\/p>\n<p>Assim \u00e9: salvo talvez no \u00c1rctico. A Isl\u00e2ndia fez uma valente tentativa de pedir responsabilidades. &#8220;Deixar falir os bancos e dizer aos credores que n\u00e3o v\u00e3o cobrar tudo o que se lhes deve ajudou a mitigar algumas das consequ\u00eancias das loucuras dos seus banqueiros&#8221;, assegura por telefone a partir do Texas o economista James K. Galbraith.<\/p>\n<p>Contada assim, a vers\u00e3o islandesa da crise tem um toque rom\u00e2ntico. Mas a economia \u00e9 sempre mais prosaica do que parece. H\u00e1 quem relate uma historia diferente: &#8220;Simplesmente, n\u00e3o havia dinheiro para resgatar os bancos: caso contr\u00e1rio, o Estado t\u00ea-los-ia salvado: Chegamos a pedi-lo \u00e0 R\u00fassia!&#8221;, critica o polit\u00f3logo Eirikur Bergmann. &#8220;Foi um acidente: n\u00e3o quer\u00edamos, mas tivemos de deix\u00e1-los falir e agora os pol\u00edticos tratam de vender essa lenda de que Isl\u00e2ndia deu outra resposta&#8221;.<\/p>\n<p>Seja como for, a crise deixou uma cicatriz enorme que continua bem vis\u00edvel: h\u00e1 controlo de capitais, um delicioso eufemismo do que no hemisf\u00e9rio Sul (e mais concretamente na Argentina) costuma chamar-se corralito. O desemprego continua acima dos 8%, taxas desconhecidas por estes lares. A queda da coroa empobreceu todo o pa\u00eds, excepto as empresas exportadoras. Quatro em cada dez lares endividaram-se em divisas ou com cr\u00e9ditos ligados \u00e0 infla\u00e7\u00e3o (parece que, em geral, para comprar segundas resid\u00eancias e carros de luxo), o que deixou um buraco consider\u00e1vel no bolso das pessoas. Depois de deixar falir o sistema banc\u00e1rio, o Estado nacionalizou-o e acabou a injectar mont\u00f5es de dinheiro &#8211; o equivalente a uma quarta parte do PIB &#8211; para que a banca n\u00e3o deixasse de funcionar e agora come\u00e7a a reprivatiz\u00e1-lo: a vida, de algum modo, continua igual.<\/p>\n<p>Tudo isso elevou a d\u00edvida p\u00fablica acima de 100% do PIB e para controlar o d\u00e9fice os islandeses nem sequer se livraram da mar\u00e9 de austeridade que percorre a Europa desde o Estreito de Gibraltar at\u00e9 \u00e0 costa da Gronel\u00e2ndia: mais impostos e menos gastos p\u00fablicos. No final a Isl\u00e2ndia teve que pedir um resgate ao FMI e o Fundo aplicou as receitas habituais: elevaram o IRS e o IVA islandeses e criaram novos impostos, e pelo lado dos gastos baixaram os sal\u00e1rios e benef\u00edcios sociais e est\u00e3o a fechar escolas; reduziu-se o Estado social. Que \u00e9 o que costuma suceder quando de repente um pa\u00eds \u00e9 menos rico do que pensava.<\/p>\n<p>&#8220;And\u00e1mos uma d\u00e9cada para tr\u00e1s&#8221;, encerra Bergman. E mesmo assim o governo e o FMI asseguram que a Isl\u00e2ndia crescer\u00e1 este ano uns 3%: a queda da coroa permitiu um arranque das exporta\u00e7\u00f5es, h\u00e1 sectores de ponta &#8211; como o alum\u00ednio &#8211; que est\u00e3o a ter uma crise muito proveitosa, e, ao fim e ao cabo, a Isl\u00e2ndia \u00e9 um pa\u00eds jovem com um n\u00edvel educativo excelente. Entre a dezena de fontes consultadas para esta reportagem, contudo, n\u00e3o abunda o optimismo. Um dos economistas mais brilhantes da Isl\u00e2ndia, Gylfi Zoega, desenha um panorama preocupante: &#8220;os bancos ainda n\u00e3o est\u00e3o operacionais, os balan\u00e7os das empresas est\u00e3o prejudicados, o acesso ao mercado de capitais est\u00e1 fechado, o governo mostra uma debilidade alarmante. N\u00e3o h\u00e1 consenso sobre que lugar deve Isl\u00e2ndia e a sua economia ocupar no mundo. Vamos \u00e0 deriva&#8230; n\u00e3o se engane: nem sequer o colapso dos bancos foi uma op\u00e7\u00e3o; n\u00e3o havia alternativa. A Isl\u00e2ndia n\u00e3o pode ser modelo de nada&#8221;.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem duvide inclusivamente de que os banqueiros venham finalmente a dar com os ossos na cadeia: &#8220;os executivos foram detidos v\u00e1rias vezes, e depois, postos em liberdade: como tantas outras vezes, isso \u00e9 mais uma brincadeira com a opini\u00e3o p\u00fablica que outra coisa&#8221;, assegura Jon Danielsson. Hannes Guissurasson, assessor do anterior governo e conhecido pela sua f\u00e9rrea defesa de postulados neoliberais, at\u00e9 tra\u00e7a uma estreita linha entre o delito e algumas das pr\u00e1ticas banc\u00e1rias dos \u00faltimos anos. &#8220;Muito poucos banqueiros v\u00e3o parar \u00e0 pris\u00e3o, se \u00e9 que algum vai: a excessiva tomada de riscos infringe que lei?&#8221; pergunta-se.<\/p>\n<p>Mas os mitos s\u00e3o os mitos (e um jornalista deve defender a sua reportagem at\u00e9 ao \u00faltimo par\u00e1grafo) e a Isl\u00e2ndia deixa v\u00e1rias li\u00e7\u00f5es fundamentais. Uma: n\u00e3o est\u00e1 claro se deixar cair um banco \u00e9 um acto reaccion\u00e1rio ou libert\u00e1rio, mas o custo, ao menos para Isl\u00e2ndia, \u00e9 surpreendentemente baixo; o PIB da Irlanda (cujo governo garantiu toda a d\u00edvida banc\u00e1ria) caiu o mesmo e as suas perspectivas de recupera\u00e7\u00e3o s\u00e3o piores. Dois: ter moeda pr\u00f3pria n\u00e3o \u00e9 um mau neg\u00f3cio. Em caso de afli\u00e7\u00e3o desvaloriza-se e vit\u00f3ria, vit\u00f3ria que se acabou a hist\u00f3ria; isso permite sair da crise com exporta\u00e7\u00f5es, algo que nem a Gr\u00e9cia nem a Irlanda (nem a Espanha) podem fazer.<\/p>\n<p>O \u00faltimo e definitivo ensinamento vem da m\u00e3o do grupo selvagem que ningu\u00e9m viu vir: nem as ag\u00eancias de nota\u00e7\u00e3o nem os auditores anteciparam os problemas (ainda que o que uma boa auditoria n\u00e3o descobre, uma boa crise desvela: Pricewaterhousecoopers est\u00e1 acusada de neglig\u00eancia). Mas os problemas estavam a\u00ed: a prova \u00e9 que a imensa maioria dos executivos da banca est\u00e3o na rua e alguns aguardam julgamento. O nosso Sigurdur Einarsson, o banqueiro mais procurado, tratou de comprar uma mans\u00e3o em Chelsea, um dos bairros mais exclusivos de Londres, por 12 milh\u00f5es de euros. A maioria dos banqueiros que tem problemas com a justi\u00e7a fizeram o mesmo durante os anos do boom, e menos mal que o fizeram: as pessoas apupavam-nos no teatro, atiravam-lhes bolas de neve em plena rua, lan\u00e7avam bocas nos restaurantes ou deixavam espirituosas pinturas nas casas. Sa\u00edram a correr da Isl\u00e2ndia. O caso \u00e9 que Einarsson n\u00e3o teve de sair: vivia na sua estupenda mans\u00e3o londrina desde 2005. A hipoteca n\u00e3o era problema: Einarsson decidiu alug\u00e1-la ao banco enquanto vivia na casa; ao fim e ao cabo, um presidente \u00e9 um presidente e esse \u00e9 o tipo de demonstra\u00e7\u00f5es de talento financeiro que s\u00f3 trazem surpresas no improv\u00e1vel caso de que a justi\u00e7a se meta no meio.<\/p>\n<p>A Isl\u00e2ndia parece o lugar adequado para que sucedam coisas improv\u00e1veis: segundo as estat\u00edsticas, mais de metade dos islandeses acredita em elfos. No avi\u00e3o de volta percebe-se melhor a publicidade do aeroporto, sobretudo porque as fontes consultadas descartam que, se finalmente h\u00e1 condena\u00e7\u00e3o dos banqueiros, o governo island\u00eas vai conceder apenas um indulto. Isto \u00e9 a Isl\u00e2ndia: para\u00edso sobrenatural. Ai n\u00e3o que n\u00e3o \u00e9!<\/p>\n<p><strong>O &#8216;caso Icesave&#8217; (e outras peculiaridades)<\/strong><\/p>\n<p>O tubar\u00e3o putrefacto \u00e9 um dos pratos t\u00edpicos da Isl\u00e2ndia, que tem uma noite infind\u00e1vel (n\u00e3o s\u00f3 pelas horas de escurid\u00e3o), uma das poucas primeiras-ministras do mundo (Johana Sigurdardottir, abertamente l\u00e9sbica) e um museu do p\u00e9nis (e isto n\u00e3o \u00e9 uma gralha). A lista de peculiaridades \u00e9 infind\u00e1vel: \u00e9 mais f\u00e1cil entrevistar o presidente da Isl\u00e2ndia que o presidente da c\u00e2mara de Reikiavik, Jon Gnarr, c\u00e9lebre por fazer acordos s\u00f3 com quem tenha visto as quatro temporadas de The Wire. Com a crise, as singularidades alcan\u00e7aram mesmo o sempre aborrecido sector financeiro: em Londres chegaram a aplicar-lhe m\u00e9todos antiterroristas.<\/p>\n<p>Landsbanki, um dos tr\u00eas grandes bancos islandeses, abriu uma filial pela Internet com uma conta de poupan\u00e7a a altas taxas de juro, Icesave, que fez furor entre brit\u00e2nicos e holandeses. Quando as coisas come\u00e7aram a dar para o torto e o governo brit\u00e2nico detectou que o banco estava a repatriar capitais, aplicou-lhe a lei antiterrorista para congelar os fundos. Esse foi o detonador de toda a crise: provocou a fal\u00eancia em cadeia de toda a banca. E continua a dar tremendas dores de cabe\u00e7a \u00e0 Isl\u00e2ndia.<\/p>\n<p>A Holanda e o Reino Unido devolveram aos seus cidad\u00e3os 100% dos dep\u00f3sitos e agora exigem esse dinheiro: 4 mil milh\u00f5es de euros, um ter\u00e7o do PIB island\u00eas, nada menos. O governo chegou a um acordo para que os cidad\u00e3os pagassem em 15 anos e a 5,5% de juro: as pessoas organizaram-se para deit\u00e1-lo abaixo num referendo, depois do veto do presidente. Assim chegou um segundo pacto, mais vantajoso (juros de 3%, a pagar em 37 anos), e de novo as pessoas decidir\u00e3o em Abril em referendo se pagam ou n\u00e3o pelos desmandes dos seus bancos [o artigo foi escrito antes do referendo de dia 9 de Abril, do qual saiu recusado este novo acordo \u2013 quase 60% dos islandeses votaram n\u00e3o]. Agni Asgeirsson, ex-executivo que foi despedido da Kaupthing e agora trabalha como engenheiro em R\u00edo Tinto, \u00e9 cortante a esse respeito: &#8220;o primeiro acordo era claramente uma fraude. Este \u00e9 mais discut\u00edvel. N\u00e3o queremos pagar, mas isso acrescentaria incerteza legal sobre o futuro do pa\u00eds. Mas interessante \u00e9 como reagiram as pessoas&#8221;. Esse \u00e9 talvez o maior atractivo da resposta islandesa: a parlamentar e ex-magistrada francesa Eva Joly (a quem se atribuiu o in\u00edcio da investiga\u00e7\u00e3o sobre a banca) assegura que o mais chamativo na Isl\u00e2ndia \u00e9 que num pa\u00eds &#8220;que se considerava a si mesmo um milagre neoliberal e onde se tinha perdido gradualmente todo o interesse pela pol\u00edtica, agora as pessoas querem ter o destino nas suas pr\u00f3prias m\u00e3os&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Isso sim: a f\u00e9 nos pol\u00edticos e nos banqueiros demorar\u00e1 a voltar, antes de muito, muito, tempo&#8221;, diz a terminar o c\u00f4nsul de Espanha, Fridrik S. Kristj\u00e1nsson.<\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o de <strong>Paula Sequeiros<\/strong> para Esquerda.net<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.esquerda.net\/dossier\/isl%C3%A2ndia-p%C3%B5e-os-seus-banqueiros-na-pris%C3%A3o\" > <\/a><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.esquerda.net\/dossier\/isl%C3%A2ndia-p%C3%B5e-os-seus-banqueiros-na-pris%C3%A3o\" >Go to Original \u2013 esquerda.net<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA primeira v\u00edtima da crise financeira constitui-se como uma valente tentativa de pedir responsabilidades\u201d. Claudi P\u00e9rez (El Pa\u00eds) conta neste artigo a hist\u00f3ria da ascens\u00e3o e da queda da economia islandesa.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-11684","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11684","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11684"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11684\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11684"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11684"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11684"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}