{"id":11805,"date":"2011-04-25T12:00:34","date_gmt":"2011-04-25T11:00:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=11805"},"modified":"2019-06-12T10:42:25","modified_gmt":"2019-06-12T09:42:25","slug":"portugues-portugal-o-triunfo-dos-agiotas-uma-historia-de-gangsters","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2011\/04\/portugues-portugal-o-triunfo-dos-agiotas-uma-historia-de-gangsters\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Portugal: O Triunfo dos Agiotas &#8211; Uma Hist\u00f3ria de Gangsters"},"content":{"rendered":"<p><strong>01\u00a0Duas\u00a0na\u00e7\u00f5es<\/strong> Benjamin Disraeli (1804-1881), ali\u00e1s Lorde Beaconsfield (desde 1876), foi um dos pol\u00edticos ingleses mais not\u00e1veis do s\u00e9culo xix. Conservador e reformador com preocupa\u00e7\u00f5es sociais, chegou a advogar uma alian\u00e7a entre a aristocracia e a classe trabalhadora, sugerindo que os aristocratas deviam usar o seu poder para ajudar a proteger os mais pobres. Al\u00e9m de ter sido primeiro-ministro da rainha Vit\u00f3ria (e do Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico) durante a d\u00e9cada de 1870, foi um escritor popular, que expressou em alguns romances as suas preocupa\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pobreza e \u00e0 injusti\u00e7a do sistema parlamentar, que ajudou a reformar com o apoio do Partido Liberal (j\u00e1 chefiado por William Gladstone, que viria a suceder-lhe como primeiro-ministro). Num dos seus romances mais conhecidos, Sybil (1844), Disraeli descreve uma Inglaterra dividida em &#8220;duas na\u00e7\u00f5es&#8221;, a dos ricos e a dos pobres, entre as quais &#8220;n\u00e3o h\u00e1 nem relacionamento nem simpatia&#8221;. Cen\u00e1rio que se repetiria no s\u00e9culo xx, com algumas adapta\u00e7\u00f5es, mas a mesma crueldade, nos governos de Margaret Thatcher, e que amea\u00e7a repetir-se no s\u00e9culo xxi com o de David Cameron.<\/p>\n<p>Tal como essas &#8220;duas na\u00e7\u00f5es&#8221; de costas voltadas uma para a outra, tamb\u00e9m hoje se poder\u00e1 falar de &#8220;duas Am\u00e9ricas&#8221;, de &#8220;duas Europas&#8221; ou mesmo de &#8220;duas na\u00e7\u00f5es&#8221; de costas voltadas em v\u00e1rios pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia. Estamos de facto a viver uma crise profunda e a assistir a uma degrada\u00e7\u00e3o inquietante da democracia representativa. H\u00e1 uma dist\u00e2ncia cada vez maior entre a classe pol\u00edtica e os cidad\u00e3os, entre o povo e os seus representantes, entre a minoria dos muito ricos e o resto da sociedade, com uma classe m\u00e9dia em eros\u00e3o acentuada que vai engrossando as fileiras dos pobres e dos desempregados. O partido dos abstencionistas \u00e9 cada vez maior e a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 cada vez mais a imagem inversa do pa\u00eds real.<\/p>\n<p>Em sondagem recentemente publicada por v\u00e1rios jornais europeus, constata-se que aumentou significativamente a desconfian\u00e7a dos cidad\u00e3os europeus em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 capacidade dos governos e respectivas oposi\u00e7\u00f5es de resolver os problemas econ\u00f3micos. Cresce a sensa\u00e7\u00e3o de que os pol\u00edticos nacionais j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam autonomia para tomar as decis\u00f5es indispens\u00e1veis para combater eficazmente a crise nos seus pa\u00edses, tal como a no\u00e7\u00e3o de que esses pol\u00edticos foram substitu\u00eddos pelos novos poderes f\u00e1cticos: mercados e especuladores financeiros, bancos e ag\u00eancias de rating, tecnocratas e pol\u00edticos escolhidos em inst\u00e2ncias superiores, que tomam decis\u00f5es al\u00e9m-fronteiras encerrados em &#8220;torres de marfim&#8221; (BCE, FED, Wall Street, City, Bruxelas, etc.).<\/p>\n<p>Algu\u00e9m lembrava recentemente uma famosa frase de um dos actores da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, o abade Emmanuel-Joseph Siey\u00e8s: &#8220;O poder vem de cima, a confian\u00e7a vem de baixo.&#8221; Quando o topo e a base se afastam excessivamente, o poder vai perdendo a autoridade \u00e0 medida que a confian\u00e7a se degrada. E vai tomando forma, entre o povo, o sentimento de que existem &#8220;duas na\u00e7\u00f5es&#8221; ou &#8220;dois pa\u00edses&#8221;: um pa\u00eds de cima, constitu\u00eddo pelos muito ricos, por uma minoria de pessoas moldadas na mesma matriz, que obedecem aos mesmos c\u00f3digos e vivem encerradas na mesma torre de marfim; e um pa\u00eds de baixo, constitu\u00eddo pela grande maioria, abandonada \u00e0 sua sorte, esquecida pelos que tudo t\u00eam, pelas elites, v\u00edtima de uma esp\u00e9cie de desprezo de classe. Como salienta o fil\u00f3sofo esloveno Slavoj Zizek, &#8220;o capitalismo actual move-se segundo uma l\u00f3gica de apartheid, em que uns poucos se sentem com direito a tudo e a grande maioria \u00e9 constitu\u00edda por exclu\u00eddos&#8221;. Como tamb\u00e9m diz, &#8220;os capitalistas actuais s\u00e3o fan\u00e1ticos religiosos que defendem a todo o custo os seus lucros, mesmo que causem a ru\u00edna de milh\u00f5es de pessoas&#8221;. \u00c9 a l\u00f3gica neoliberal.<\/p>\n<p><strong>02 Neoliberalismo<\/strong> N\u00e3o se trata de uma fantasia imaginada por esquerdistas. Como nos explica David Harvey, no seu livro &#8220;O Enigma do Capital e as Crises do Capitalismo&#8221; (Editorial Biz\u00e2ncio, 2011), o termo &#8220;neoliberalismo&#8221; &#8220;refere-se a um projecto de classe que foi tomando forma durante a crise da d\u00e9cada de 1970&#8221;. &#8220;Mascarado por muita ret\u00f3rica sobre liberdade individual, autonomia, responsabilidade pessoal e as virtudes da privatiza\u00e7\u00e3o, do mercado livre e do com\u00e9rcio livre, o termo &#8221;neoliberalismo&#8221; legitimou pol\u00edticas draconianas concebidas para restaurar e consolidar o poder da classe capitalista. Projecto que tem sido bem-sucedido, a julgar pela incr\u00edvel concentra\u00e7\u00e3o de riqueza e poder que se verifica em todos os pa\u00edses que enveredaram pela via neoliberal. E n\u00e3o h\u00e1 provas de que esteja morto&#8221; &#8211; ao contr\u00e1rio do que pensam os que n\u00e3o se cansam de falar de um &#8220;novo paradigma&#8221;, mas n\u00e3o conseguem sequer defini-lo ou explic\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Num texto publicado em 2000, &#8220;A m\u00e3o invis\u00edvel dos poderosos&#8221;, Pierre Bourdieu dizia que &#8220;a vis\u00e3o neoliberal \u00e9 dif\u00edcil de combater com efic\u00e1cia porque, sendo conservadora, apresenta-se como progressista e pode remeter para o lado do conservadorismo, e at\u00e9 do arca\u00edsmo, todas as cr\u00edticas que lhe s\u00e3o dirigidas, nomeadamente aquelas que tomam por alvo a destrui\u00e7\u00e3o das conquistas sociais do passado&#8221;. Todavia, \u00e9 um facto que &#8220;o neoliberalismo visa destruir o Estado social, a m\u00e3o esquerda do Estado (que \u00e9 f\u00e1cil mostrar ser o melhor garante dos interesses dos dominados, desprovidos de recursos culturais e econ\u00f3micos, mulheres, etnias estigmatizadas, etc.)&#8221;. Para os que praticam esta doutrina, \u00e9 a economia que est\u00e1 &#8220;no centro da vida&#8221; &#8211; e n\u00e3o o homem. E acham que o mercado n\u00e3o se d\u00e1 bem com a <em>res publica<\/em>.<\/p>\n<p>De facto, o neoliberalismo est\u00e1 na base daquilo que alguns designam por &#8220;hipercapitalismo&#8221; e, evidentemente, na base da &#8220;financeiriza\u00e7\u00e3o da economia&#8221;. A finan\u00e7a &#8211; que nunca devia ter deixado de ser um meio, um instrumento, uma alavanca &#8211; tornou-se um fim em si mesma. O dinheiro \u00e9 rei e o homem \u00e9 s\u00fabdito, a especula\u00e7\u00e3o financeira n\u00e3o conhece limites nem regras, o lucro imediato \u00e9 o Santo Graal. Pior: a d\u00edvida \u00e9 consubstancial, \u00e9 indispens\u00e1vel ao bom funcionamento do sistema. A gan\u00e2ncia e o ego\u00edsmo est\u00e3o na ess\u00eancia do hipercapitalismo. S\u00e3o os agiotas, e n\u00e3o os pol\u00edticos, que governam o mundo e est\u00e3o a dar cabo da democracia representativa.<\/p>\n<p>O hipercapitalismo, \u00e9 bom lembrar, nasceu nos EUA e em Inglaterra durante a d\u00e9cada de 1980, nos anos Reagan-Thatcher (e tamb\u00e9m teve como fi\u00e9is executores, atrav\u00e9s de f\u00e9rreas ditaduras militares, o general chileno Augusto Pinochet, assim como os generais brasileiros e argentinos, todos adeptos da doutrina neoliberal elaborada por Milton Friedman, acolitado pelos seus Chicago boys). Foi nessa altura que a progress\u00e3o dos sal\u00e1rios come\u00e7ou a ser bloqueada, o desemprego em massa gerou a precariedade e esta foi institu\u00edda em regra, ao mesmo tempo que os accionistas passaram a ser privilegiados em detrimento do factor trabalho. A acentuada diminui\u00e7\u00e3o da parte dos sal\u00e1rios dos trabalhadores na redistribui\u00e7\u00e3o das riquezas, que partiu do mundo anglo-sax\u00f3nico, alastrou em seguida a todos os pa\u00edses desenvolvidos e foi refor\u00e7ada pela irrup\u00e7\u00e3o da China e da sua m\u00e3o-de-obra barata. S\u00f3 que, para a m\u00e1quina continuar a funcionar, era preciso que os assalariados consumissem. Para tanto, urgia estimul\u00e1-los a endividar-se, e a sobreendividar-se, enquanto as desigualdades se iam acentuando. &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o ganha o suficiente? Pe\u00e7a emprestado, consuma, sobretudo produtos importados baratos, e o mundo continuar\u00e1 a girar.&#8221; O hipercapitalismo tem, estruturalmente, necessidade de um endividamento sempre crescente para prosperar. E as v\u00edtimas tanto s\u00e3o os indiv\u00edduos como os estados.<\/p>\n<p>Desregulamenta\u00e7\u00e3o financeira, baixos sal\u00e1rios, aumento do trabalho prec\u00e1rio, feminiza\u00e7\u00e3o crescente da m\u00e3o-de-obra (e da pobreza) a n\u00edvel mundial, acesso do capital \u00e0s reservas de m\u00e3o-de-obra barata em todo o mundo &#8211; s\u00e3o algumas das caracter\u00edsticas essenciais da doutrina neoliberal, que est\u00e3o na base da famosa globaliza\u00e7\u00e3o e da subordina\u00e7\u00e3o dos governos \u00e0s exig\u00eancias do mercado. Ao Estado passou a estar reservada uma fun\u00e7\u00e3o essencial: usar o seu poder para proteger as institui\u00e7\u00f5es financeiras a qualquer custo (em contradi\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s, com o n\u00e3o intervencionismo preconizado pela doutrina neoliberal). No fundo trata-se &#8211; como salienta David Harvey &#8220;com toda a crueza&#8221; &#8211; de &#8220;privatizar os lucros e socializar os riscos&#8221;, de &#8220;salvar os bancos e extorquir ao povo&#8221;. A pretexto de n\u00e3o poder haver um risco sist\u00e9mico, &#8220;os bancos comportam-se mal porque n\u00e3o t\u00eam de se responsabilizar pelas consequ\u00eancias negativas dos seus comportamentos de alto risco&#8221;. Como se viu nos EUA e no Reino Unido, a partir da brutal crise das hipotecas subprime, em 2008. E como se viu em Portugal no caso absolutamente escandaloso do BPN. Mas h\u00e1 muito mais exemplos.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade o que diz Jean-Claude Trichet, presidente do BCE: &#8220;Os bancos teriam todos desaparecido se n\u00f3s n\u00e3o os tiv\u00e9ssemos salvo.&#8221; Mas o paradoxo \u00e9 evidente: os estados endividaram-se para evitar o colapso dos bancos, mas agora s\u00e3o os bancos que imp\u00f5em aos governos a adop\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de austeridade brutais, que podem conduzir ao colapso dos povos e dos estados. Para tanto, socorrem-se das j\u00e1 famosas ag\u00eancias de rating, que espancam os governos at\u00e9 estes atirarem a toalha ao ch\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>03 Gangsterismo<\/strong> Parece-me ser a express\u00e3o mais adequada para descrever a actividade das ag\u00eancias privadas de qualifica\u00e7\u00e3o de riscos, mais conhecidas como ag\u00eancias de rating. Trabalham para quem lhes paga, sobretudo os bancos, proporcionando aos especuladores financeiros, e aos investidores oportunistas de alto calibre, juros cada vez mais elevados para os seus empr\u00e9stimos. Para tanto, sovam os governos de v\u00e1rios pa\u00edses em s\u00e9rias dificuldades econ\u00f3micas e financeiras, at\u00e9 eles n\u00e3o aguentarem mais espancamentos. E se continuarem a resistir apontam-lhes uma pistola \u00e0 cabe\u00e7a e amea\u00e7am: &#8220;Ou cedes ou morres de bancarrota!&#8221; As ag\u00eancias de rating s\u00e3o assim uma esp\u00e9cie de gangsters ao servi\u00e7o da agiotagem.<\/p>\n<p>Apesar da venera\u00e7\u00e3o que suscitam entre os economistas e os jornalistas especializados ao servi\u00e7o do capital financeiro, as ag\u00eancias de rating n\u00e3o s\u00e3o entidades de direito divino. De facto, s\u00e3o empresas privadas ao servi\u00e7o de interesses privados, que acumulam j\u00e1, ao longo da sua hist\u00f3ria, muitos casos de manifesta incompet\u00eancia, escandaloso favoritismo e oportunismo irrespons\u00e1vel. Al\u00e9m disso, n\u00e3o s\u00e3o avaliadas nem fiscalizadas por qualquer entidade reguladora e ainda por cima funcionam praticamente em regime de oligop\u00f3lio: apenas tr\u00eas ag\u00eancias &#8211; Moody&#8221;s, Standard &amp; Poor&#8221;s e Fitch &#8211; repartem entre si mais de 90 % do mercado e as duas primeiras quase 80 %. Isto para n\u00e3o falar dos \u00f3bvios conflitos de interesses em que incorrem.<\/p>\n<p>O actual Presidente da Rep\u00fablica, Cavaco Silva, gostaria de impor um sil\u00eancio patri\u00f3tico aos pol\u00edticos e comentadores (infelizmente, poucos!) que criticam as ag\u00eancias de rating. Todavia, abundam os casos em que elas contribu\u00edram para agravar as crises. Vejamos dois exemplos recentes.<\/p>\n<p>Desde logo, o caso do magnata Bernard Madoff, sem d\u00favida um dos maiores vigaristas do s\u00e9culo, que exibia, no cart\u00e3o de apresenta\u00e7\u00e3o da sua entidade financeira, um rutilante triplo A (AAA), a classifica\u00e7\u00e3o positiva m\u00e1xima atribu\u00edda pelas ag\u00eancias de rating. Foi parar \u00e0 cadeia.<\/p>\n<p>Depois o caso das famosas hipotecas subprime e dos t\u00e3o sofisticados como t\u00f3xicos produtos financeiros que ajudaram a fabricar, que inclu\u00edam nomeadamente t\u00edtulos de d\u00edvida (obriga\u00e7\u00f5es) do Lehman Brothers. Todos eles beneficiaram tamb\u00e9m de um rutilante triplo A. Mas foi precisamente a fal\u00eancia do Lehman Brothers que desencadeou a gigantesca crise financeira de 2008 nos EUA, que depois alastrou \u00e0 Europa, e cujas consequ\u00eancias ainda hoje estamos a sofrer. Vale a pena lembrar aqui uma passagem do relat\u00f3rio final da Comiss\u00e3o de Investiga\u00e7\u00e3o do Congresso dos EUA que foi constitu\u00edda para apurar as causas da grave crise financeira. Reza assim:<\/p>\n<p>&#8220;Conclu\u00edmos que os erros cometidos pelas ag\u00eancias de qualifica\u00e7\u00e3o de riscos (ag\u00eancias de rating) foram engrenagens essenciais na maquinaria de destrui\u00e7\u00e3o financeira. As tr\u00eas ag\u00eancias foram ferramentas&#8211;chave do caos financeiro. Os valores relacionados com hipotecas, no cora\u00e7\u00e3o da crise, n\u00e3o se teriam vendido sem o selo de aprova\u00e7\u00e3o das ag\u00eancias. Os investidores confiaram nelas, na maioria dos casos cegamente. [&#8230;] Esta crise n\u00e3o teria podido ocorrer sem as ag\u00eancias de rating. As suas qualifica\u00e7\u00f5es (m\u00e1ximas) ajudaram o mercado a disparar, e quando tiveram de baix\u00e1-las (at\u00e9 ao n\u00edvel de lixo), em 2007 e 2008, causaram enormes estragos&#8221;.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio salienta que a Moody&#8221;s &#8211; que em 2006 foi uma aut\u00eantica f\u00e1brica de atribui\u00e7\u00e3o de classifica\u00e7\u00f5es m\u00e1ximas a t\u00edtulos hipotec\u00e1rios &#8211; deve ser considerada um case study das m\u00e1s pr\u00e1ticas que provocaram a crise. De facto, entre os anos 2000 e 2007, a Moody&#8221;s considerou de m\u00e1xima solv\u00eancia (AAA) nada menos que 45 mil valores relativos a hipotecas. O relat\u00f3rio refere a exist\u00eancia de modelos de c\u00e1lculo desfasados, as press\u00f5es exercidas por empresas financeiras e a \u00e2nsia de ganhar quota de mercado, que se sobrep\u00f4s \u00e0 qualidade das qualifica\u00e7\u00f5es atribu\u00eddas.<\/p>\n<p>Apesar destas conclus\u00f5es devastadoras para a credibilidade das ag\u00eancias de rating, estas n\u00e3o hesitaram em aumentar os sal\u00e1rios e pr\u00e9mios dos seus executivos, j\u00e1 depois de conhecido o relat\u00f3rio. O caso da Moody&#8221;s foi o mais escandaloso. O seu presidente executivo, Raymond Mc Daniel, recebeu em 2010 um aumento de 69 % do seu sal\u00e1rio anual, que trepou at\u00e9 aos 9,15 milh\u00f5es de d\u00f3lares (cerca de 6,4 milh\u00f5es de euros). Um dos motivos invocados, entre outros, foi ter ajudado a &#8220;restaurar a confian\u00e7a (!) nas qualifica\u00e7\u00f5es atribu\u00eddas pela Moody&#8221;s Investors Service, ao elevar o conhecimento do papel e da fun\u00e7\u00e3o dessas qualifica\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p>Raymond McDaniel foi chamado a testemunhar perante a Comiss\u00e3o de Inqu\u00e9rito acompanhado pelo principal accionista da Moody&#8221;s, Warren Buffet. Este lavou as m\u00e3os, como Pilatos, declarando que n\u00e3o fazia a menor ideia da gest\u00e3o da ag\u00eancia, e que nunca l\u00e1 tinha posto os p\u00e9s. Explicou, no entanto, que tinha investido na empresa porque o neg\u00f3cio das ag\u00eancias de rating era &#8220;um duop\u00f3lio natural, o que lhe dava um incr\u00edvel poder sobre os pre\u00e7os&#8221;! Na transcri\u00e7\u00e3o do depoimento de Raymond McDaniel perante a Comiss\u00e3o de Inqu\u00e9rito do Congresso tamb\u00e9m surge uma declara\u00e7\u00e3o surpreendente. Disse ele: &#8220;Os investidores n\u00e3o deveriam confiar nas qualifica\u00e7\u00f5es (das ag\u00eancias) para comprar, vender ou manter valores&#8221;! N\u00e3o foi ingenuidade. Foi insol\u00eancia e hipocrisia. Infelizmente, em rela\u00e7\u00e3o a Portugal, ningu\u00e9m seguiu o conselho deste senhor Raimundo&#8230;<\/p>\n<p><strong>04\u00a0Portugal<\/strong> Cumpriu-se o fado. O destino marca a hora. Como na famosa can\u00e7\u00e3o de Tony de Matos: &#8220;Se o destino nos condena\/N\u00e3o vale a pena\/Lutarmos mais.&#8221; Portugal foi sovado pelas ag\u00eancias de rating at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o. Estava marcado para morrer de bancarrota se n\u00e3o cedesse \u00e0s exig\u00eancias do capital financeiro. No dia 5 de Abril de 2011, o &#8220;Jornal de Neg\u00f3cios&#8221; noticiava: &#8220;Bancos cortam cr\u00e9dito ao Estado&#8221;. E explicava: &#8220;Os banqueiros reuniram-se ontem no Banco de Portugal. N\u00e3o v\u00e3o financiar mais o Estado. Querem um pedido de ajuda intercalar de 15 mil milh\u00f5es &#8211; e j\u00e1! O governo tem de pedir e o PSD e o PP t\u00eam de subscrever.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;E j\u00e1!&#8221; Percebeu? Foi assim, sem qualquer pudor, que o ultimato foi anunciado, que a pistola foi apontada \u00e0 cabe\u00e7a da v\u00edtima, que j\u00e1 estava na fila de espera para ser garrotada pelo Fundo Monet\u00e1rio Internacional e pelo Fundo Europeu de Estabiliza\u00e7\u00e3o Financeira. Cerca de 24 horas depois, j\u00e1 t\u00ednhamos direito a ouvir o sr. Olli Rehn (criatura finlandesa em quem n\u00e3o vot\u00e1mos e que fala ingl\u00eas aos solu\u00e7os) a explicar \u00e0 Europa e ao mundo o que \u00e9 bom para Portugal &#8211; e n\u00e3o necessariamente para a grande maioria os portugueses. Olli Rehn \u00e9 comiss\u00e1rio europeu para os Assuntos Econ\u00f3micos e Financeiros. Trabalha, portanto, sob a direc\u00e7\u00e3o (!?) do sr. Dur\u00e3o Barroso, ex-presidente do PSD e ex-primeiro&#8211;ministro, que foi sovado pelo PS (de Ferro Rodrigues) nas elei\u00e7\u00f5es europeias de 2004 e que a seguir abandonou o governo que chefiava com o rabo entre as pernas, pouco depois de ter prometido ao pa\u00eds que n\u00e3o o faria, para ir ocupar em Bruxelas o cargo de presidente da Comiss\u00e3o Europeia, que lhe foi oferecido pela direita.<\/p>\n<p>Como escreveu Pierre Bourdieu h\u00e1 11 anos: &#8220;Temos uma Europa dos bancos e dos banqueiros, uma Europa das empresas e dos patr\u00f5es, uma Europa das pol\u00edcias e dos pol\u00edcias, teremos em breve uma Europa das for\u00e7as armadas e dos militares&#8221; (esta est\u00e1 quase!). Infelizmente, ainda n\u00e3o existe um movimento social europeu unificado, capaz de reunir diferentes movimentos, sindicatos e associa\u00e7\u00f5es de diferentes naturezas, e capaz de resistir eficazmente \u00e0s for\u00e7as dominantes, a essa &#8220;Europa que se constr\u00f3i em torno dos poderes e dos poderosos e que \u00e9 t\u00e3o pouco europeia&#8221;.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que algumas vozes bem intencionadas andaram a proclamar, a grav\u00edssima crise econ\u00f3mica e financeira desencadeada pelas m\u00e1s pr\u00e1ticas do hipercapitalismo n\u00e3o deu origem a um novo paradigma. Paralisada (e neutralizada) pelas sucessivas concess\u00f5es \u00e0 doutrina neoliberal, a social-democracia europeia assiste, pol\u00edtica e ideologicamente desarmada, ao que alguns j\u00e1 designam como &#8220;nova contra-revolu\u00e7\u00e3o social thatchero-reaganiana&#8221;. At\u00e9 onde poder\u00e1 ela ir? Nesta verdadeira guerra dos mercados contra os estados, foi manifesta a incapacidade dos europeus de definir uma estrat\u00e9gia progressista comum para enfrentar a crise. Isso foi perfeitamente percebido pelos mercados, que decidiram aproveitar essa sua vantagem para atacar frontalmente os estados mais fr\u00e1geis, com o objectivo de desregular ainda mais os mercados internos e de exigir mais privatiza\u00e7\u00f5es. \u00c9 exactamente o que est\u00e1 a acontecer aqui e agora.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia europeia de sa\u00edda da crise mundial \u00e9 clara: desregula\u00e7\u00e3o dos mercados de trabalho, defla\u00e7\u00e3o salarial, desemprego estrutural, menor protec\u00e7\u00e3o no emprego, restri\u00e7\u00f5es or\u00e7amentais, privatiza\u00e7\u00f5es em massa, etc. \u00c9 uma estrat\u00e9gia aparentemente paradoxal, que torna ainda mais vorazes os &#8220;mercados&#8221;, que exigem sempre tudo e nunca se sentem saciados. Mas \u00e9 tamb\u00e9m uma estrat\u00e9gia fundamentalmente recessiva, que pode provocar um aumento significativo das reivindica\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas. Neste bra\u00e7o-de-ferro, o estatuto do euro \u00e9 um teste definitivo, dizem os entendidos. E a quest\u00e3o est\u00e1 em saber se ser\u00e1, finalmente, posto ao servi\u00e7o da promo\u00e7\u00e3o de um modelo social sustent\u00e1vel ou ir\u00e1 tornar-se o vector da destrui\u00e7\u00e3o do que resta do estado de bem&#8211;estar europeu. Os exemplos da Gr\u00e9cia, da Irlanda e de Portugal n\u00e3o auguram nada de bom para o Estado social.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 se noticia, a &#8220;ajuda&#8221; financeira do FEEF e do FMI servir\u00e1 essencialmente para Portugal &#8220;pagar o que deve aos credores, sobretudo bancos estrangeiros, que, ao longo de d\u00e9cadas, foram fornecendo fundos aos bancos nacionais e que estes depois canalizavam para a compra de casas, carros e cr\u00e9ditos \u00e0s empresas&#8221; (DN, 08\/04\/2011). Al\u00e9m de cortes em sal\u00e1rios, pens\u00f5es, subs\u00eddios de desemprego e outras presta\u00e7\u00f5es sociais, fala-se em reformas mais profundas do mercado de trabalho, menor protec\u00e7\u00e3o no emprego, maior abertura da educa\u00e7\u00e3o e da sa\u00fade aos privados, subida dos impostos (o dr. Passos Coelho deve estar radiante!). Tamb\u00e9m se diz que mal as condi\u00e7\u00f5es melhorem, o Estado deve come\u00e7ar a sair (privatizar) das empresas de transportes. Casos da ANA, da TAP, da CP, da Refer, da Carris, da Metro de Lisboa e do Porto. N\u00e3o haver\u00e1 mais nada para privatizar? Claro que h\u00e1! Um Estado bem desmantelado d\u00e1 para enriquecer v\u00e1rios oligarcas.<\/p>\n<p>Enfim, temos este pa\u00eds pronto a morrer da cura. Gra\u00e7as ao trabalho sujo das ag\u00eancias de rating (os gangsters desta hist\u00f3ria) ao servi\u00e7o dos mercados (os agiotas). Mas tamb\u00e9m gra\u00e7as aos bons of\u00edcios do actual Presidente da Rep\u00fablica, \u00e0 ansiedade do pote de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, e ao extraordin\u00e1rio sentido de oportunidade de Jer\u00f3nimo de Sousa e Francisco Lou\u00e7\u00e3. Sem esquecer as evidentes responsabilidades de Jos\u00e9 S\u00f3crates, que n\u00e3o resistiu \u00e0s sucessivas concess\u00f5es que foi fazendo ao blairismo e ao neocentrismo, ou seja, \u00e0 doutrina neoliberal.<\/p>\n<p>Observa\u00e7\u00e3o final. V\u00e1rias s\u00e3o as vozes que afirmam que o FMI n\u00e3o \u00e9 nenhum pap\u00e3o e n\u00e3o mete medo a ningu\u00e9m, porque j\u00e1 c\u00e1 esteve no s\u00e9culo passado e tudo correu \u00e0s mil maravilhas. \u00c9 quase verdade, mas esquecem-se de um pequeno pormenor que faz toda a diferen\u00e7a: \u00e9 que, quando o pa\u00eds sair exausto e exangue dos pr\u00f3ximos anos de brutal austeridade, n\u00e3o haver\u00e1 mais uma CEE \u00e0 nossa espera para inundar Portugal com as catadupas de fundos comunit\u00e1rios que fizeram a felicidade do cavaquismo!<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.ionline.pt\/conteudo\/117675-o-triunfo-dos-agiotas---uma-historia-gangsters\" >Go to Original \u2013 ionline.pt<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sovado pelas ag\u00eancias de rating, Portugal atirou a toalha. 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