{"id":118663,"date":"2018-09-24T12:00:09","date_gmt":"2018-09-24T11:00:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=118663"},"modified":"2018-09-16T12:04:27","modified_gmt":"2018-09-16T11:04:27","slug":"portugues-um-problema-nunca-resolvido-o-sofrimento-dos-inocentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2018\/09\/portugues-um-problema-nunca-resolvido-o-sofrimento-dos-inocentes\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Um problema nunca resolvido: o sofrimento dos inocentes"},"content":{"rendered":"<p><em>14 Set 2018 &#8211; <\/em>Acompanhando a crescente viol\u00eancia no Brasil e verdadeiros massacres de ind\u00edgenas e de pobres nas periferias e mais ainda, viajando, recentemente pela Am\u00e9rica Central fiquei impressionado em El Salvador, Guatemala, Nicaragua e outros pa\u00edses da regi\u00e3o com os relatos de mssacres havidos no tempo das ditaduras militares,massacres de vilas inteiras, de catequistas ou de camponeses que tinham a B\u00edblia em casa. O que houve entre n\u00f3s, na Argentina e no Chile durante o tempo assassino sob a \u00e9gide das for\u00e7as militares \u00e9 tamb\u00e9m de estarrecer.<\/p>\n<p>Atualmente, dada a crise econ\u00f4mico-financeira h\u00e1 milh\u00f5es passando fome, crian\u00e7as fam\u00e9licas definhando e gente na rua pedindo centavos para comer qualquer coisa. Mas o que mais d\u00f3i \u00e9 o sofrimento dos inocentes. Tamb\u00e9m dos milh\u00f5es de pobres e miser\u00e1veis que sofrem as consequ\u00eancias de pol\u00edticas econ\u00f4nomicas e financeiras sobre as quais n\u00e3o t\u00eam nenhuma influ\u00eancia. Mas s\u00e3o v\u00edtimas inocentes, cujo grito de dor sobe ao c\u00e9u. Dizem as Escrituras do Primeiro e do Segundo Testamento que Deus escuta seus gritos. Um dos profetas chega a dizer que as blasf\u00eamias que proferem por causa da dor, Deus as escuta como s\u00faplicas.<\/p>\n<p>Nesse momento h\u00e1 um manto de dor que cobre todo nosso pa\u00eds, com alguma esperan\u00e7a de que as elei\u00e7\u00f5es nos tragam l\u00edderes cujas pol\u00edticas sociais fa\u00e7am o povo sofrer menos ou n\u00e3o mais sofrer e at\u00e9 de voltar a sorrir. Bem haja!<\/p>\n<p>Mas o sofrimento dos inocentes \u00e9 um eterno problema para a filosofia e principalmente para a teologia. Sejamos sinceros: at\u00e9 hoje n\u00e3o identificamos nenhuma resposta satisfat\u00f3ria por mais que grandes nomes, desde Agostinho, Tom\u00e1s de Aquino, Leibnitz at\u00e9 Gustavo Guti\u00e9rrez entre n\u00f3s, tentassem elaborar uma teodic\u00e9ia, quer dizer, um esfor\u00e7o de n\u00e3o ligar Deus ao sofrimento humano. A culpa estaria apenas do nosso lado. Mas em v\u00e3o, pois o sofrimento continua e a pergunta permanece irrespond\u00edvel.<\/p>\n<p>Talvez o primeiro a formular a quest\u00e3o, sempre repetida pelos grandes pensadores como Russel, Toynbee e outros, foi formulada por Epicuro (341-270 a.C) e recolhida por Lact\u00e2ncio.um crist\u00e3o e conselheiro de Constantino (240-320 a.C) em seu tratado sobre <em>A ira de Deus.<\/em>A quest\u00e3o se p\u00f5e assim: Ou Deus quer eliminar o mal mas n\u00e3o pode, deixa de ser onipotente e j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 Deus. Ou Deus pode suprimir o mal e n\u00e3o o quer, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 bom e deixa de ser Deus e se transforma num dem\u00f4nio. Em ambos os casos fica a pergunta: de onde vem o mal?<\/p>\n<p>O judeo-cristianismo responde que vem do pecado humano (original ou n\u00e3o) e somos os produtores de Auschwizt e de Ayachucho e os grandes massacres dos colonizadores ib\u00e9ricos no nosso Continente. Mas a resposta n\u00e3o convence. Se Deus previu o pecado e n\u00e3o criou condi\u00e7\u00f5es para evit\u00e1-lo \u00e9 sinal que n\u00e3o \u00e9 bom. Por\u00e9m se fez todo o poss\u00edvel para evitar o pecado e n\u00e3o o conseguiu ent\u00e3o \u00e9 prova de que n\u00e3o \u00e9 onipotente. Em ambos os casos n\u00e3o seria Deus.<\/p>\n<p>E asim caimos na mesma quest\u00e3o de Epicuro.As te\u00f3logas eco-feministas criticam essa formula\u00e7\u00e3o entre impot\u00eancia e falta de bondade como patriarcal e machista, pois tais atributos de onipot\u00eancia e bondade seriam atributos masculinos. O feminino sente e pensa diferente, bem na linha dos profetas e de Jesus. Estes criticavam uma religi\u00e3o sacrificial em nome da miseric\u00f3rdia:\u201dquero miseric\u00f3rdia e n\u00e3o sacrif\u00edcios\u201d soa na boca deles. A mulher est\u00e1 ligada \u00e0 vida, \u00e0 miseric\u00f3rdia para com quem sofre e sabe melhor identificar-se com as v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Argumenta-se ent\u00e3o: Deus \u00e9 t\u00e3o bom e onipotente que pode renunciar a tais prerrogativas (deixa de ser o \u201cDeus\u201d das religi\u00f5es convencionais) e se faz ele mesmo um sofredor, vai para o ex\u00edlio com o povo, \u00e9 perseguido e por fim \u00e9 crucificado em seu Filho Jesus. Comentava D.Bonh\u00f6ffer, o te\u00f3logo que participou do atentado contra Hitler e foi enforcado:\u201dS\u00f3 um Deus sofredor nos pode ajudar\u201d. Talvez por aqui nos venha alguma luz bruxoleante. Quem sabe entendamos alguma coisa do mal, quando o combatemos pelo caminho\u00a0 do bem.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o temos resposta para o mal apenas sabemos agora que nunca estamos s\u00f3s no sofrimento.Deus sofre junto. O terr\u00edvel do sofrimento \u00e9 a solid\u00e3o, a m\u00e3o que se nega de se p\u00f4r no ombro, a palavra consoladora que falta. Ai o sofrimento \u00e9 completo.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 resposta para o sofrimento dos inocentes nem para o mal. Se houvesse. o sofrimento e o mal desapareciam. Eles continuam a\u00ed fazendo sua obra perversa. Quem nos salvar\u00e1? S\u00e3o Paulo, confiante, responde:\u201d\u00e9 s\u00f3 na esperan\u00e7a que seremos salvos\u201d.<\/p>\n<p>Mas como tarda a se realizar esta esperan\u00e7a!<\/p>\n<p>_________________________________________________<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/15342-Leonardo_Boff_bio-e1517222599916.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-105405\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/15342-Leonardo_Boff_bio-e1517222599916.jpg\" alt=\"\" width=\"100\" height=\"75\" \/><\/a><\/em><em>Leonardo Boff \u00e9 um escritor, te\u00f3logo e fil\u00f3sofo brasileiro, professor em\u00e9rito de \u00e9tica e filosofia da religi\u00e3o da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, recebedor do <\/em><strong><em>Pr\u00eamio Nobel Alternativo da Paz<\/em><\/strong><em> do Parlamento sueco [<\/em><strong><em>Right Livelihood Award<\/em><\/strong><em>]em 2001, membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra, e professor visitante em v\u00e1rias universidades estrangeiras como Basel, Heidelberg, Harvard, Lisboa e Salamanca. Expoente da <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teologia_da_Liberta%C3%A7%C3%A3o\" >Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/a><\/em><em> no Brasil, foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. \u00c9 respeitado pela sua hist\u00f3ria de defesa pelas causas sociais e atualmente debate tamb\u00e9m quest\u00f5es ambientais. Colunista do <\/em>Jornal do Brasil<em>, escreveu os livros<\/em> Francisco de Assis: Ternura e Vigor, <em>Vozes 2000; <\/em>\u00a0A Terra na palma da m\u00e3o: uma nova vis\u00e3o do planeta e da humanidade<em>,Vozes 2016;\u00a0 <\/em>Cuidar da Terra \u2013 proteger a vida: como escapar do fim do mundo<em>, Record 2010; <\/em>\u00a0<em>A <\/em>hospitalidade: Direito e dever de todos, <em>Vozes 2005<\/em>; Paix\u00e3o de Cristo, paix\u00e3o do mundo<em>, Vozes 2001<\/em>; Brasil: Concluir a refunda\u00e7\u00e3o ou prolongar a depend\u00eancia, <em>Vozes 2018.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/leonardoboff.wordpress.com\/2018\/09\/14\/um-problema-nunca-resolvido-o-sofrimento-dos-inocentes\/\" >Go to Original \u2013 leonardoboff.wordpress.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>14 Set 2018 &#8211; Sejamos sinceros: at\u00e9 hoje n\u00e3o identificamos nenhuma resposta satisfat\u00f3ria por mais que grandes nomes, desde Agostinho, Tom\u00e1s de Aquino, Leibnitz at\u00e9 Gustavo Guti\u00e9rrez entre n\u00f3s, tentassem elaborar uma teodic\u00e9ia, quer dizer, um esfor\u00e7o de n\u00e3o ligar Deus ao sofrimento humano. 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