{"id":118904,"date":"2018-09-24T12:00:44","date_gmt":"2018-09-24T11:00:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=118904"},"modified":"2018-09-19T16:25:29","modified_gmt":"2018-09-19T15:25:29","slug":"portugues-um-aborto-a-cada-quatro-gravidas-a-cidade-em-que-o-agrotoxico-glifosato-contamina-o-leite-materno-e-mata-ate-quem-ainda-nem-nasceu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2018\/09\/portugues-um-aborto-a-cada-quatro-gravidas-a-cidade-em-que-o-agrotoxico-glifosato-contamina-o-leite-materno-e-mata-ate-quem-ainda-nem-nasceu\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Um aborto a cada quatro gr\u00e1vidas: A cidade em que o agrot\u00f3xico glifosato contamina o leite materno e mata at\u00e9 quem ainda nem nasceu"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_118906\" style=\"width: 710px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/14-09-2018-ultrassom-feto.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-118906\" class=\"wp-image-118906\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/14-09-2018-ultrassom-feto-1024x512.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/14-09-2018-ultrassom-feto-1024x512.jpg 1024w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/14-09-2018-ultrassom-feto-300x150.jpg 300w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/14-09-2018-ultrassom-feto-768x384.jpg 768w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/14-09-2018-ultrassom-feto.jpg 1440w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-118906\" class=\"wp-caption-text\">Ultrassom que constatou a m\u00e1-forma\u00e7\u00e3o no filho de Maria F\u00e9lix. Ele morreu ainda no \u00fatero, com 25 semanas, por causa de m\u00e1-forma\u00e7\u00e3o no abd\u00f4men e no cora\u00e7\u00e3o. Imagem: Jo\u00e3o Brizzi\/The Intercept Brasil<\/p><\/div>\n<p><em>17 Set 2018<\/em> &#8211; O filho de Maria F\u00e9lix, de 21 anos, resistiu pouco mais de seis meses de gesta\u00e7\u00e3o. Morreu ainda no ventre, com apenas 322 gramas. A causa do aborto, que aconteceu com 25 semanas de gravidez, foi m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o: o beb\u00ea tinha o intestino para fora do abd\u00f4men e tamb\u00e9m problemas no cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 incomum que as m\u00e3es da regi\u00e3o percam seus filhos precocemente. O beb\u00ea de Maria, ao que tudo indica, foi mais uma v\u00edtima precoce do agrot\u00f3xico glifosato, usado em grandes planta\u00e7\u00f5es de soja e de milho em Uru\u00e7u\u00ed, a 459 km de Teresina, no Piau\u00ed.<\/p>\n<p>O mesmo veneno que garante a riqueza dos fazendeiros da cidade, no sul do estado, est\u00e1 provocando uma epidemia de intoxica\u00e7\u00e3o com reflexo severo em m\u00e3es e beb\u00eas. Estima-se que uma em cada quatro gr\u00e1vidas da cidade tenha sofrido aborto, que 14% dos beb\u00eas nas\u00e7am com baixo peso (quase do dobro da m\u00e9dia nacional) e que 83% das m\u00e3es tenham o leite materno contaminado. Os dados s\u00e3o de um levantamento do sanitarista In\u00e1cio Pereira Lima, que investigou as intoxica\u00e7\u00f5es em Uru\u00e7u\u00ed na sua <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/assets.documentcloud.org\/documents\/4883663\/Dissertac-a-O-Inacio-Pereira-Lima-Atual.pdf\" >tese de mestrado<\/a> em sa\u00fade da mulher pela Universidade Federal do Piau\u00ed.<\/p>\n<p>Conheci a hist\u00f3ria de Maria F\u00e9lix Costa Guimar\u00e3es na maternidade do hospital regional Tib\u00e9rio Nunes, na cidade de Floriano. \u00c9 para l\u00e1 que as mulheres de Uru\u00e7u\u00ed s\u00e3o encaminhadas quando t\u00eam problemas na gravidez. Nos primeiros exames, feitos em julho, j\u00e1 havia sido identificada a m\u00e1-forma\u00e7\u00e3o no feto. Em setembro, no leito do hospital, encontrei a jovem, que lia a B\u00edblia e se recusava a comer. Carregava um olhar entristecido, meio envergonhado. Ela tinha sofrido o aborto no dia anterior e aguardava o m\u00e9dico para fazer uma ultrassom e se certificar de que n\u00e3o seria necess\u00e1ria a curetagem (cirurgia para retirada de restos da placenta).<\/p>\n<div id=\"attachment_118907\" style=\"width: 360px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/glifosato-aborto-brasil-laudo-feto.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-118907\" class=\"wp-image-118907\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/glifosato-aborto-brasil-laudo-feto-440x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"815\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/glifosato-aborto-brasil-laudo-feto-440x1024.jpg 440w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/glifosato-aborto-brasil-laudo-feto-129x300.jpg 129w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/glifosato-aborto-brasil-laudo-feto.jpg 540w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-118907\" class=\"wp-caption-text\">Laudo do ultrassom que constatou a morte do beb\u00ea. \u2018A principal consequ\u00eancia \u00e9 a atrofia de alguns \u00f3rg\u00e3os\u2019, diz o m\u00e9dico. Reprodu\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>Maria n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es emocionais para conversar, por isso falei com a sua tia, a funcion\u00e1ria p\u00fablica Gra\u00e7a Barros Guimar\u00e3es. Ela n\u00e3o sabia sobre a pesquisa realizada em Uru\u00e7u\u00ed, mas acredita nos resultados apontados por Lima. \u201cSe a gente for avaliar, o agrot\u00f3xico causa problema respirat\u00f3rio e de alergia. Ent\u00e3o \u00e9 claro que se a mulher tiver gr\u00e1vida, o beb\u00ea pode se contaminar tamb\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p>Gra\u00e7a me contou que a sobrinha sempre esteve rodeada de fazendas de soja. A casa onde vive, em Uru\u00e7u\u00ed, fica a cerca de 15 km de uma planta\u00e7\u00e3o. Antes, ela morava na zona rural do munic\u00edpio de Mirador, no Maranh\u00e3o, onde tamb\u00e9m h\u00e1 plantio de soja. \u201cOs fazendeiros tomaram conta de tudo.\u201d<\/p>\n<p>Em meados de agosto estive em Uru\u00e7u\u00ed para conversar com profissionais da sa\u00fade e com os trabalhadores agr\u00edcolas. Eu queria entender como viviam as pessoas no munic\u00edpio contaminado pelo glifosato, e se elas tinham no\u00e7\u00e3o de que o problema existe. Tamb\u00e9m liguei para o pesquisador In\u00e1cio Pereira Lima, que culpa o agroneg\u00f3cio pelo adoecimento das pessoas. \u201cTudo isso \u00e9 consequ\u00eancia do modelo de desenvolvimento econ\u00f4mico em que s\u00f3 o lucro est\u00e1 em foco, independente das consequ\u00eancias negativas para a popula\u00e7\u00e3o\u201d, ele me disse.<\/p>\n<p><strong>Epidemia de glifosato<\/strong><\/p>\n<p>O glifosato \u00e9 o agrot\u00f3xico mais usado no Brasil. \u00c9 vendido principalmente pela Monsanto, da Bayer, com o nome comercial de Roundup. Seus impactos na sa\u00fade humana s\u00e3o t\u00e3o conhecidos que o Minist\u00e9rio P\u00fablico pediu que sua comercializa\u00e7\u00e3o <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.mpf.mp.br\/df\/sala-de-imprensa\/docs\/acao-civil-publica-1\" >fosse suspensa<\/a> no Brasil at\u00e9 que a Anvisa fizesse sua reavalia\u00e7\u00e3o toxicol\u00f3gica. Em agosto, a justi\u00e7a aceitou e o glifosfato foi proibido. A suspens\u00e3o foi classificada como um \u201cdesastre\u201d pelo ministro da Agricultura, Blairo Maggi, e foi duramente combatida por ruralistas e pela ind\u00fastria.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o, no entanto, foi derrubada pela justi\u00e7a em segunda inst\u00e2ncia poucas semanas depois. Maggi \u2013 que tamb\u00e9m \u00e9 conhecido como \u201crei da soja\u201d \u2013 n\u00e3o escondeu o seu entusiasmo com a libera\u00e7\u00e3o do agrot\u00f3xico:<\/p>\n<p>https:\/\/twitter.com\/blairomaggi\/status\/1036596452712177666?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1036596452712177666%7Ctwgr%5E373939313b636f6e74726f6c&#038;ref_url=https%3A%2F%2Ftheintercept.com%2F2018%2F09%2F17%2Fagrotoxico-aborto-leite%2F<\/p>\n<p>A Monsanto diz que o produto \u00e9 seguro, mas e-mails da empresa <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/istoe.com.br\/e-mails-da-monsanto-divulgados-poem-em-duvida-defesa-do-glifosato\/\" >divulgados no ano passado <\/a>mostram que ela pressionou cientistas e \u00f3rg\u00e3os de controle nos EUA para afirmarem que o glifosato n\u00e3o causa c\u00e2ncer. Isso n\u00e3o impediu a Monsanto de <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/business\/2018\/aug\/11\/one-mans-suffering-exposed-monsantos-secrets-to-the-world\" >ser condenada<\/a> a pagar mais de R$ 1 bilh\u00e3o a um homem que est\u00e1 morrendo de c\u00e2ncer nos Estados Unidos. Cerca de 4 mil a\u00e7\u00f5es parecidas est\u00e3o em curso naquele pa\u00eds.<\/p>\n<p>O produto representa <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/ibama.gov.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=594&amp;Itemid=546\" >quase a metade<\/a> de todos os agrot\u00f3xicos comercializados no Piau\u00ed. O pesquisador Lima explicou que a presen\u00e7a da subst\u00e2ncia no leite materno indica a contamina\u00e7\u00e3o direta ou que as quantidades utilizadas na atividade agr\u00edcola da regi\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o elevadas, que o excesso n\u00e3o foi degradado pelo metabolismo da planta. As mulheres estudadas por ele sequer trabalham nas lavouras: elas est\u00e3o intoxicadas porque fazem limpeza, cozinham nas fazendas ou porque comeram o herbicida nos alimentos. Lima, em sua tese, explica que o organismo \u00e9 contaminado pela pele e vias respirat\u00f3ria e oral.<\/p>\n<p><strong>Mulheres, as maiores v\u00edtimas<\/strong><\/p>\n<p>Pelos registros do hospital regional de Uru\u00e7u\u00ed, os abortos ocorrem geralmente em mulheres entre 20 e 30 anos, que chegam at\u00e9 a 10\u00aa semana de gesta\u00e7\u00e3o. O n\u00famero elevado de casos \u00e9 citado por Ira\u00eddes Maria Saraiva, enfermeira plantonista. \u201cS\u00e3o muitas as mulheres que chegam com sangramento ou j\u00e1 com o ultrassom mostrando que o feto n\u00e3o tem batimentos card\u00edacos. A maioria desses abortos s\u00e3o espont\u00e2neos\u201d, me disse.<\/p>\n<p>Muitas mulheres t\u00eam a gravidez interrompida logo nas primeiras semanas. Sem saber que est\u00e3o gr\u00e1vidas, elas seguem trabalhando cercadas pelo glifosato. Quando descobrem, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais o que fazer. \u201cDificilmente \u00e9 a primeira gravidez e elas n\u00e3o t\u00eam doen\u00e7as pr\u00e9-existentes. Quer dizer, s\u00e3o mulheres jovens que aparentam ser saud\u00e1veis\u201d, observou a enfermeira.<\/p>\n<blockquote><p><strong><em>\u2018\u00c9 uma contamina\u00e7\u00e3o lenta, gradual e di\u00e1ria.\u2019 <\/em><\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>H\u00e1 ainda as que sabem que est\u00e3o esperando um filho mas n\u00e3o podem deixar o trabalho, simplesmente porque dependem do sal\u00e1rio. As que passam da fase mais cr\u00edtica e levam a gravidez at\u00e9 o fim correm alto risco de ter m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o do feto.<\/p>\n<p>Na maternidade de Floriano, o coordenador do setor de obstetr\u00edcia Luiz Rosendo Alves da Silva j\u00e1 viu muitos casos de aborto e de m\u00e1-forma\u00e7\u00e3o. Ele acredita na culpa dos agrot\u00f3xicos. \u201c\u00c9 uma contamina\u00e7\u00e3o lenta, gradual e di\u00e1ria. A principal consequ\u00eancia \u00e9 a atrofia de alguns \u00f3rg\u00e3os, principalmente cora\u00e7\u00e3o e pulm\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Alanne Pinheiro, enfermeira do Centro de Refer\u00eancia em Sa\u00fade do Trabalhador (Cerest), observa que as mulheres est\u00e3o expostas aos agrot\u00f3xicos de forma mais perigosa do que os homens que trabalham diretamente na aplica\u00e7\u00e3o do veneno. \u201cElas ficam na cozinha ou fazem a limpeza das fazendas e acabam inalando o agrot\u00f3xico de forma indireta. Como n\u00e3o usam roupas especiais, sofrem mais o efeito da intoxica\u00e7\u00e3o passiva.\u201d<\/p>\n<p><strong>PIB alto, sal\u00e1rio baixo<\/strong><\/p>\n<p>A cidade de 21 mil habitantes tem as caracter\u00edsticas comuns do interior, onde a vida acontece sossegada e todo mundo se conhece. Quase um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o vive na zona rural. No percurso de 40 km do centro at\u00e9 o Assentamento Flores \u2013 onde moram muitos dos trabalhadores com quem eu pretendia conversar \u2013 quase n\u00e3o h\u00e1 \u00e1rvores, exceto em pontos isolados ao redor da casa grande, a sede da fazenda. A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de um enorme deserto e uma riqueza distribu\u00edda entre poucos.<\/p>\n<div id=\"attachment_118909\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/glifosato-aborto-brasil-laudo-feto2.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-118909\" class=\"wp-image-118909\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/glifosato-aborto-brasil-laudo-feto2.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/glifosato-aborto-brasil-laudo-feto2.jpg 1000w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/glifosato-aborto-brasil-laudo-feto2-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/glifosato-aborto-brasil-laudo-feto2-768x576.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-118909\" class=\"wp-caption-text\">Na pacata Uru\u00e7u\u00ed, mesmo quem n\u00e3o trabalha diretamente na agricultura est\u00e1 sendo contaminado. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\/Prefeitura Municipal de Uru\u00e7u\u00ed<\/p><\/div>\n<p>Uru\u00e7u\u00ed n\u00e3o \u00e9 um munic\u00edpio pobre. O PIB per capita, de R$ 49 mil, era o 2\u00ba maior do Piau\u00ed em 2015, \u00faltimo ano da pesquisa do IBGE. Perdia apenas para a cidade vizinha, a tamb\u00e9m agr\u00edcola Baixa Grande do Ribeiro. Mas na pr\u00e1tica, o sal\u00e1rio dos trabalhadores \u00e9 de R$ 1.900 por m\u00eas, em m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Quem enriquece de verdade s\u00e3o os fazendeiros. A maioria deles saiu do sul do Brasil para o cerrado piauiense em busca de terras e do clima ideal para o plantio de suas lavouras. Outros ocupam ou j\u00e1 ocuparam cargos na pol\u00edtica como deputados ou vereadores. \u00c9 o caso do ex-deputado estadual Leal J\u00fanior, eleito tr\u00eas vezes para o mesmo cargo, e da vereadora de Uru\u00e7u\u00ed T\u00e2nia Fianco.<\/p>\n<p><strong>\u2018N\u00e3o fale com eles\u2019<\/strong><\/p>\n<p>Joana* trabalhou como cozinheira na Fazenda Serra Branca h\u00e1 sete anos. Ela conta que o cheiro do agrot\u00f3xico chega at\u00e9 as trabalhadoras, mesmo quando elas n\u00e3o est\u00e3o nos locais onde o veneno \u00e9 aplicado. \u201cDependendo da posi\u00e7\u00e3o do vento, a gente sentia. E se tivesse aplicando com o avi\u00e3o, era mais forte. \u00c0s vezes eu chegava em casa com dor de cabe\u00e7a e sabia que era do veneno\u201d, lembra ela, que prefere n\u00e3o se identificar. \u201cSabe como \u00e9, n\u00e9? A gente depende das fazendas\u201d, conforma-se. O marido ainda trabalha no agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Se os males causados pelos agrot\u00f3xicos se limitassem \u00e0s m\u00e3es e aos seus beb\u00eas, o problema j\u00e1 seria grave o bastante, mas o sanitarista In\u00e1cio Pereira Lima faz um alerta. \u201cComo minha pesquisa foi voltada para a mulher, coletei amostras biol\u00f3gicas exclusivas; por isso foi o leite. Mas, se a pesquisa fosse da popula\u00e7\u00e3o em geral, poderia optar por outro tipo de amostra como sangue ou urina. E talvez chegasse a esses mesmos resultados. Ou seja, toda a popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 sob risco, e n\u00e3o s\u00f3 as m\u00e3es que amamentam\u201d, me explicou o pesquisador.<\/p>\n<blockquote><p><strong><em>Efeitos do agrot\u00f3xico s\u00e3o tabu na cidade. <\/em><\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Ouvi de muitas pessoas da cidade que alguns fazendeiros n\u00e3o s\u00e3o simp\u00e1ticos com quem os contraria. O conselho que todo mundo me deu foi: \u201cN\u00e3o fale com eles\u201d. As fazendas t\u00eam seguran\u00e7as armados.<\/p>\n<p>Decidi ir ao escrit\u00f3rio da Fazenda Canel, administrada pelas fam\u00edlias Bortolozzo e Segnini, origin\u00e1rias de Araraquara, no interior de S\u00e3o Paulo. Eles se instalaram no Piau\u00ed h\u00e1 30 anos e s\u00e3o os pioneiros no plantio de soja no estado. Eu queria entender a posi\u00e7\u00e3o deles. Todos se negaram a conversar comigo. Funcion\u00e1rios justificaram que os respons\u00e1veis estavam \u201cviajando para o exterior\u201d.<\/p>\n<p><strong>Mais medo de demiss\u00e3o do que de doen\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Na cidade onde quase todo mundo se conhece, o mesmo segredo \u00e9 compartilhado. Ningu\u00e9m fala para os profissionais de sa\u00fade quando sente os efeitos do agrot\u00f3xico no organismo, e dificilmente o hospital \u00e9 procurado. Se a intoxica\u00e7\u00e3o for mais grave, os trabalhadores escondem dos m\u00e9dicos sua poss\u00edvel causa. \u00c9 muito dif\u00edcil detectar laboratorialmente <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/theintercept.com\/2018\/07\/10\/fiscal-agrotoxicos-intoxicacao\/\" >doen\u00e7as causadas por agrot\u00f3xico<\/a>. Se o paciente n\u00e3o fala, muitas interna\u00e7\u00f5es provocadas pelos qu\u00edmicos n\u00e3o caem na conta deles.<\/p>\n<p>A enfermeira Alanne Pinheiro me disse que as pessoas t\u00eam medo de perder o emprego. \u201cSe eles disserem que est\u00e3o doentes por causa dos agrot\u00f3xicos, aquilo pode repercutir na cidade e ficar mal pro fazendeiro. Os trabalhadores t\u00eam mais medo de demiss\u00e3o do que de uma doen\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>\u2018Quando a gente come\u00e7a a investigar, eles n\u00e3o falam tudo.\u2019<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda a falta de conhecimento sobre os riscos dos agrot\u00f3xicos. \u201cEles nem acreditam que possa acontecer algum problema grave porque os danos s\u00f3 aparecem a longo prazo. N\u00e3o existe a percep\u00e7\u00e3o de que os males se acumulam e podem trazer doen\u00e7as irrevers\u00edveis, como um c\u00e2ncer que j\u00e1 se descobre em met\u00e1stase\u201d, diz Alanne.<\/p>\n<p>Um poss\u00edvel exemplo \u00e9 Jo\u00e3o*, marido de Helena*. Conversei com ela porque Jo\u00e3o sai cedo para a Fazenda Nova Alian\u00e7a e s\u00f3 chega \u00e0 noite. Este ano, o trabalhador teve uma alergia nos bra\u00e7os, mas decidiu tratar em casa. Sem avalia\u00e7\u00e3o m\u00e9dica e sem exames, Jo\u00e3o se auto-medicou. \u201cAcho que n\u00e3o foi agrot\u00f3xico, porque ele \u00e9 pedreiro e n\u00e3o mexe com veneno. Deve ter sido por causa do cimento\u201d, opina a mulher.<\/p>\n<p>\u00c9 comum que os moradores atribuam os sintomas da intoxica\u00e7\u00e3o a outras causas. \u201cOs pacientes chegam com queixas vagas, como ard\u00eancia nos olhos. Mas, quando a gente come\u00e7a a investigar, eles n\u00e3o falam tudo\u201d, comenta a enfermeira Ira\u00eddes. Nas raras vezes em que v\u00e3o ao hospital, s\u00e3o levados por algum funcion\u00e1rio da fazenda. Com essa vig\u00edlia, o medo de perder o emprego \u00e9 maior e a sa\u00fade fica em segundo plano.<\/p>\n<p>O Centro de Refer\u00eancia em Sa\u00fade do Trabalhador est\u00e1 tentando evitar o alto \u00edndice de subnotifica\u00e7\u00e3o: eles treinam os enfermeiros e m\u00e9dicos para que notifiquem os casos de intoxica\u00e7\u00e3o quando perceberem os sintomas, independente do que afirmam os pacientes.<\/p>\n<p><strong>Tecnologia para o lucro<\/strong><\/p>\n<p>Geivan Borges da Silva \u00e9 t\u00e9cnico em agropecu\u00e1ria e presta assessoria para muitos fazendeiros de Uru\u00e7u\u00ed. Ele defende que o uso de sementes transg\u00eanicas reduz a necessidade de agrot\u00f3xicos. \u201cQuase 100% das \u00e1reas plantadas aqui s\u00e3o de variedades transg\u00eanicas, resistentes a muitos tipos de praga e ervas daninhas\u201d, ameniza.<\/p>\n<p>Na verdade, as provas cient\u00edficas dizem o contr\u00e1rio. O <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.abrasco.org.br\/dossieagrotoxicos\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/DossieAbrasco_2015_web.pdf\" >dossi\u00ea sobre agrot\u00f3xicos<\/a> da Abrasco, a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Sa\u00fade Coletiva, mostra que o uso de transg\u00eanicos aumentou a necessidade de defensivos agr\u00edcolas. \u00c9 s\u00f3 olhar para a soja, campe\u00e3 no uso de agrot\u00f3xicos: 93% da safra \u00e9 transg\u00eanica, e a quantidade de litros de produtos qu\u00edmicos aumentou mesmo assim.<\/p>\n<p>Na regi\u00e3o sul do Piau\u00ed, as sementes de milho, soja e algod\u00e3o tamb\u00e9m s\u00e3o vendidas pela Monsanto, a mesma que fornece o glifosato, de acordo com o <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.adapi.pi.gov.br\/agrotoxicos\/cadastro-de-agrotoxicos\" >cadastro de junho <\/a>de 2018 da Ag\u00eancia de Defesa Agropecu\u00e1ria do Piau\u00ed, a Adapi.<\/p>\n<p>Outra tecnologia defendida por Silva \u00e9 a que minimiza a dissemina\u00e7\u00e3o do agrot\u00f3xico no ar: usa-se um produto que aumenta o peso da gota, fazendo com que ela des\u00e7a diretamente na planta e n\u00e3o disperse com o vento. \u201cTudo \u00e9 agricultura de precis\u00e3o para reduzir os custos\u201d, argumenta.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que essas tecnologias otimizam a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, mas elas foram incapazes de evitar a intoxica\u00e7\u00e3o de Emanuel*, que trabalha como operador de m\u00e1quina de aplica\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xico na Fazenda Condom\u00ednio Uni\u00e3o 2000.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s um ano trabalhando, Emanuel sentiu tontura, fraqueza, ard\u00eancia nos olhos e chegou a vomitar. Quem conta essa hist\u00f3ria \u00e9 a esposa dele, Rosa*. \u201cN\u00f3s fomos pro hospital e quando saiu o resultado do exame, deu que tinha agrot\u00f3xico no sangue. A m\u00e9dica passou rem\u00e9dio, mandou ele se afastar do trabalho por um tempo e tomar muito leite\u201d.<\/p>\n<p>Emanuel melhorou, mas h\u00e1 tr\u00eas anos voltou para o mesmo of\u00edcio. \u201cEle j\u00e1 me disse que s\u00f3 fica at\u00e9 o final desse ano. N\u00e3o vale a pena perder a sa\u00fade por causa de dois mil por m\u00eas\u201d, diz Rosa. Eram 18h quando me despedi. O marido dela ainda n\u00e3o tinha chegado. Ele trabalha para a vereadora T\u00e2nia Fianco, do PSDB.<\/p>\n<p>No Brasil, o Projeto de Lei conhecido como PL do Veneno pretende liberar mais rapidamente v\u00e1rios produtos, entre eles muitos que s\u00e3o \u00e0 base de glifosato. O <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/theintercept.com\/2018\/07\/13\/anvisa-pesticidas-agrotoxicos-viagem\/\" >lobby da ind\u00fastria \u00e9 pesado<\/a>, e ataca sobretudo a Anvisa, ag\u00eancia reguladora suscet\u00edvel a <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/theintercept.com\/2018\/03\/26\/66-dias-de-lobby-uma-maquina-de-pressao-fez-a-anvisa-voltar-atras-e-liberar-um-perigoso-agrotoxico\/\" >todo tipo de press\u00e3o<\/a> e que j\u00e1 mostrou que e<a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/theintercept.com\/2018\/08\/01\/anvisa-pl-do-veneno-agrotoxicos\/\" >st\u00e1 disposta<\/a> a fazer o jogo das grandes corpora\u00e7\u00f5es.<br \/>\n<em><br \/>\n*Os nomes dos trabalhadores foram alterados para preservar suas identidades.<\/em><\/p>\n<p><strong>_____________________________________________<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Nayara-Felizardo.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-118910 size-full\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Nayara-Felizardo-e1537370657642.jpg\" alt=\"\" width=\"100\" height=\"99\" \/><\/a><\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/theintercept.com\/staff\/nayarafelizardo\/\" >Nayara Felizardo<\/a><\/em><em> &#8211; <\/em><em><a href=\"mailto:nayara.felizardo@theintercept.com\">nayara.felizardo@\u200btheintercept.com<\/a><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/theintercept.com\/2018\/09\/17\/agrotoxico-aborto-leite\/\" >Go to Original \u2013 theintercept.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>17 Set 2018 &#8211; O mesmo veneno que garante a riqueza dos fazendeiros da cidade est\u00e1 provocando uma epidemia de intoxica\u00e7\u00e3o em m\u00e3es e beb\u00eas. Estima-se que uma em cada quatro gr\u00e1vidas da cidade tenha sofrido aborto, que 14% dos beb\u00eas nas\u00e7am com baixo peso (quase do dobro da m\u00e9dia nacional) e que 83% das m\u00e3es tenham o leite materno contaminado. Os dados s\u00e3o do sanitarista In\u00e1cio Pereira Lima na sua tese de mestrado em sa\u00fade da mulher pela Universidade Federal do Piau\u00ed.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":118910,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-118904","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/118904","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=118904"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/118904\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media\/118910"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=118904"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=118904"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=118904"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}