{"id":119526,"date":"2018-10-01T12:01:02","date_gmt":"2018-10-01T11:01:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=119526"},"modified":"2018-09-30T15:18:10","modified_gmt":"2018-09-30T14:18:10","slug":"portugues-o-eclipse-da-etica-na-atualidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2018\/10\/portugues-o-eclipse-da-etica-na-atualidade\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) O Eclipse da \u00c9tica na Atualidade"},"content":{"rendered":"<p><em>28 Set 2018 &#8211; <\/em>Entre os dias10-13 de julho de 2018 realizou-se em Belo Horizonte um congresso internacional organizado pela Sociedade de Teologia e Ci\u00eancias da Religi\u00e3o (SOTER) em torno dos temas: <em>Religi\u00e3o, \u00c9tica e Pol\u00edtica<\/em>. As exposi\u00e7\u00f5es foram de grande atualidade e de qualidade superior. Refiro-me apenas \u00e0 discuss\u00e3o acerca do Eclipse da \u00c9tica que me coube introduzir.<\/p>\n<p>A meu ver, dois fatores atingiram o cora\u00e7\u00e3o da \u00e9tica: o processo de globaliza\u00e7\u00e3o e a mercantiliza\u00e7\u00e3o da sociedade.<\/p>\n<p>A <strong>globaliza\u00e7\u00e3o<\/strong> mostrou os v\u00e1rios tipos de \u00e9tica, consoante as diferen\u00e7as culturais. Relativizou-se a \u00e9tica ocidental, uma entre tantas. As grandes culturas do Oriente e as dos povos origin\u00e1rios revelaram que podemos ser \u00e9ticos de forma muito diferente.<\/p>\n<p>Por exemplo, a cultura maia coloca tudo centrado no cora\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que todas as coisas nasceram do amor de dois grandes cora\u00e7\u00f5es, do C\u00e9u e da Terra. O ideal \u00e9tico \u00e9 criar em todas as pessoas cora\u00e7\u00f5es sens\u00edveis, justos, transparentes e verdadeiros. Ou a \u00e9tica do <em>bien vivir y convivir<\/em> , dos andinos, assentada no equil\u00edbrio com todas as coisas, entre os humanos, com a natureza e com o universo.<\/p>\n<p>Tal pluralidade de caminhos \u00e9ticos teve como consequ\u00eancia uma relativiza\u00e7\u00e3o generalizada. Sabemos que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel viver sem a lei e a ordem, valores da pr\u00e1tica \u00e9tica fundamental; s\u00e3o os pr\u00e9-requisitos para qualquer civiliza\u00e7\u00e3o em qualquer parte do mundo. O que observamos \u00e9 que a humanidade est\u00e1 cedendo diante da barb\u00e1rie rumo a uma verdadeira idade das trevas mundial, tal \u00e9 o descalabro \u00e9tico que estamos vendo.<\/p>\n<p>Pouco antes de morrer, em 2017, advertia o pensador Sigmund Bauman: \u201dou a humanidade se d\u00e1 as m\u00e3os para juntos nos salvarmos ou ent\u00e3o engrossaremos o cortejo daqueles que caminham rumo ao abismo\u201d. Qual \u00e9 a \u00e9tica que nos poder\u00e1 orientar como humanidade vivendo na Casa Comum?<\/p>\n<p>O segundo grande empecilho \u00e9 <strong>a sociedade de mercado<\/strong>, cuja\u00a0 \u00e9tica \u00e9 aquilo que Karl Polaniy chamava j\u00e1 em 1944 de \u201c<em>A Grande Transforma\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>. \u00c9 o fen\u00f4meno da passagem de uma <em>economia de mercado<\/em> para uma <em>sociedade puramente de mercado.<\/em> Tudo se transforma em mercadoria, coisa j\u00e1 prevista por Karl Marx em seu texto <em>A mis\u00e9ria da Filosofia<\/em> de 1848, quando se referia ao tempo em que as coisas mais sagradas como a verdade e a consci\u00eancia seriam levadas ao mercado; seria \u201c<strong>tempo da grande corrup\u00e7\u00e3o e da venalidade universal\u201d<\/strong>. Pois vivemos este tempo. A economia especialmente a especulativa dita os rumos da pol\u00edtica e da sociedade como um todo. A competi\u00e7\u00e3o \u00e9 sua marca registrada e a solidariedade praticamente desapareceu.<\/p>\n<p>O que \u00e9 o ideal \u00e9tico deste tipo de sociedade? \u00c9 a capacidade de acumula\u00e7\u00e3o ilimitada e de consumo sem peias, gerando uma grande divis\u00e3o entre um pequen\u00edssimo grupo que controla grande parte da economia e as maiorias exclu\u00eddas e mergulhadas na fome e na mis\u00e9ria.\u00a0Aqui se revelam tra\u00e7os de barb\u00e1rie e crueldade como poucas vezes na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Precisamos refundar uma \u00e9tica que se enra\u00edze naquilo que \u00e9 espec\u00edfico nosso, enquanto humanos e que, por isso, seja universal e possa ser assumida por todos.<\/p>\n<p>Estimo que, em primeir\u00edssimo lugar, \u00e9 a <strong>\u00e9tica do cuidado<\/strong> que, segundo a f\u00e1bula 220 do escravo Higino e bem interpretada por Martin Heidegger em <em>Ser e Tempo<\/em>, constitui o substrato ontol\u00f3gico do ser humano, aquele conjunto de fatores sem os quais jamais surgiria o ser humano e outros seres vivos. Pelo fato de o cuidado ser da ess\u00eancia do humano, todos podem viv\u00ea-lo e dar-lhe formas concretas, consoantes suas culturas.. O cuidado pressup\u00f5e uma rela\u00e7\u00e3o amig\u00e1vel e amorosa para com a realidade, da m\u00e3o estendida para a solidariedade e n\u00e3o do punho cerrado para a domina\u00e7\u00e3o. No centro do cuidado est\u00e1 a vida. A civiliza\u00e7\u00e3o dever\u00e1 ser bio-centrada.<\/p>\n<p>Outro dado de nossa ess\u00eancia humana \u00e9 <strong>solidariedade<\/strong> e a \u00e9tica que da\u00ed se deriva. Sabemos hoje pelo bio-antropologia que foi a solidariedade de nossos ancestrais antrop\u00f3ides que permitiu dar o salto da animalidade para a humanidade. Buscavam os alimentos e os consumiam solidariamente. Todos vivemos porque existiu e existe um m\u00ednimo de solidariedade, come\u00e7ando pela fam\u00edlia. O que foi fundador ontem, continua sendo-o ainda hoje.<\/p>\n<p>Outro caminho \u00e9tico, ligado \u00e0 nossa estrita humanidade \u00e9 a <strong>\u00e9tica da responsabilidade universal<\/strong>, Ou assumimos juntos responsavelmente o destino de nossa Casa Comum ou ent\u00e3o percorreremos um caminho sem retorno. Somos respons\u00e1veis pela sustentabilidade de Gaia e de seus ecossistemas para que possamos continuar a viver junto com toda a comunidade de vida.<\/p>\n<p>O filosofo Hans Jonas que, por primeiro, elaborou \u201c<em>O Princ\u00edpio Responsabilidade<\/em>\u201d, agregou a ele a import\u00e2ncia do <em>medo coletivo<\/em>. Quando este surge e os humanos come\u00e7am a dar-se conta de que podem conhecer um fim tr\u00e1gico e at\u00e9 de desaparecer como esp\u00e9cie, irrompe um medo ancestral que os leva a uma \u00e9tica de sobreviv\u00eancia. O pressuposto inconsciente \u00e9 que o valor da vida est\u00e1 acima de qualquer outro valor cultural, religioso ou econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Por fim importa resgatar a <strong>\u00e9tica da justi\u00e7a<\/strong> para todos. A justi\u00e7a \u00e9 o direito m\u00ednimo que tributamos ao outro, de que possa continuar a existir e dando-lhe o que lhe cabe como pessoa. Especialmente as institui\u00e7\u00f5es devem ser Justas e equitativas para evitar os privil\u00e9gios e as exclus\u00f5es sociais que tantas v\u00edtimas produzem, particularmente nosso pa\u00eds, um dos mais desiguais, vale dizer, mais injustos do mundo. Da\u00ed se explica o \u00f3dio e as discrimina\u00e7\u00f5es que dilaceram a sociedade, vindos n\u00e3o do povo mas daquelas elites endinheiradas que sempre viveram do privil\u00e9gio. Atualmente vivemos sob um regime de exce\u00e7\u00e3o, no qual tanto a Constitui\u00e7\u00e3o e as leis s\u00e3o pisoteadas ou mediante o <em>Lawfare<\/em> (a interpreta\u00e7\u00e3o distorcida da lei que o juiz pratica para prejudicar o acusado)<\/p>\n<p>A justi\u00e7a n\u00e3o vale apenas entre os humanos mas tamb\u00e9m para com a natureza e a Terra que s\u00e3o portadores de direitos e por isso devem ser inclu\u00eddos em nosso conceito de democracia s\u00f3cio-ecol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Estes s\u00e3o alguns par\u00e2metros m\u00ednimos para uma \u00e9tica, v\u00e1lida para cada povo e para a humanidade, reunida na Casa Comum. Devemos incorporar uma \u00e9tica da\u00a0sobriedade compartida para lograr o que dizia Xi Jinping, chefe supremo da China, \u201cuma sociedade moderadamente abastecida\u201d. Isto significa um ideal m\u00ednimo e alcan\u00e7\u00e1vel. Caso contr\u00e1rio, poderemos conhecer um <em>armagedon<\/em> social e ecol\u00f3gico.<\/p>\n<p>_________________________________________________<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Leonardo_Boff_Wilson-Dias_Abr_0-e1507211118491.gif\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-43416\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Leonardo_Boff_Wilson-Dias_Abr_0-e1507211118491.gif\" alt=\"\" width=\"100\" height=\"59\" \/><\/a><\/em><em>Leonardo Boff \u00e9 um escritor, te\u00f3logo e fil\u00f3sofo brasileiro, professor em\u00e9rito de \u00e9tica e filosofia da religi\u00e3o da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, recebedor do <\/em><strong><em>Pr\u00eamio Nobel Alternativo da Paz<\/em><\/strong><em> do Parlamento sueco [<\/em><strong><em>Right Livelihood Award<\/em><\/strong><em>]em 2001, membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra, e professor visitante em v\u00e1rias universidades estrangeiras como Basel, Heidelberg, Harvard, Lisboa e Salamanca. Expoente da <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teologia_da_Liberta%C3%A7%C3%A3o\" >Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/a><\/em><em> no Brasil, foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. \u00c9 respeitado pela sua hist\u00f3ria de defesa pelas causas sociais e atualmente debate tamb\u00e9m quest\u00f5es ambientais. Colunista do <\/em>Jornal do Brasil<em>, escreveu os livros<\/em> Francisco de Assis: Ternura e Vigor, <em>Vozes 2000; <\/em>\u00a0A Terra na palma da m\u00e3o: uma nova vis\u00e3o do planeta e da humanidade<em>,Vozes 2016;\u00a0 <\/em>Cuidar da Terra \u2013 proteger a vida: como escapar do fim do mundo<em>, Record 2010; <\/em>\u00a0<em>A <\/em>hospitalidade: Direito e dever de todos, <em>Vozes 2005<\/em>; Paix\u00e3o de Cristo, paix\u00e3o do mundo<em>, Vozes 2001<\/em>; Brasil: Concluir a refunda\u00e7\u00e3o ou prolongar a depend\u00eancia, <em>Vozes 2018.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/opinionsur.org.ar\/wp\/o-eclipse-da-etica-na-atualidade\/?lang=pt-br\" >Go to Original \u2013 opinionsur.org.ar<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>28 Set 2018 &#8211; A meu ver, dois fatores atingiram o cora\u00e7\u00e3o da \u00e9tica: o processo de globaliza\u00e7\u00e3o e a mercantiliza\u00e7\u00e3o da sociedade. A justi\u00e7a n\u00e3o vale apenas entre os humanos mas tamb\u00e9m para com a natureza e a Terra que s\u00e3o portadores de direitos e por isso devem ser inclu\u00eddos em nosso conceito de democracia s\u00f3cio-ecol\u00f3gica.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":43416,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-119526","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/119526","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=119526"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/119526\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media\/43416"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=119526"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=119526"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=119526"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}