{"id":128070,"date":"2019-02-18T12:00:00","date_gmt":"2019-02-18T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=128070"},"modified":"2019-02-15T10:40:46","modified_gmt":"2019-02-15T10:40:46","slug":"portugues-tolstoi-enquanto-o-sangue-descia-o-acougueiro-acendeu-o-cigarro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2019\/02\/portugues-tolstoi-enquanto-o-sangue-descia-o-acougueiro-acendeu-o-cigarro\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Tolst\u00f3i: \u201cEnquanto o sangue descia, o a\u00e7ougueiro acendeu o cigarro\u201d"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><em>Quando o boi n\u00e3o caiu onde o a\u00e7ougueiro queria, ele gritou: \u201cMaldito diabo!\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_128071\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/leo-tolstoy-leon-tolstoi.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-128071\" class=\"wp-image-128071\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/leo-tolstoy-leon-tolstoi.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/leo-tolstoy-leon-tolstoi.jpg 696w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/leo-tolstoy-leon-tolstoi-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-128071\" class=\"wp-caption-text\">\u201cMas o a\u00e7ougueiro marchava atr\u00e1s, pegou a cauda e a torceu; rangeram as v\u00e9rtebras\u201d. (Acervo: Tolstoy Foundation)<\/p><\/div>\n<p><em>13 fev 2019 &#8211; <\/em>Em um de seus v\u00e1rios relatos sobre suas experi\u00eancias em matadouros, e que dariam origem ao ensaio \u201cO Primeiro Passo\u201d, de 1892, o escritor russo Liev Tolst\u00f3i escreveu que uma vez, quando observava um rebanho, ele notou que o primeiro animal se destacava pela beleza, robustez e cor alva com manchas e extremidades\u00a0pretas.<\/p>\n<p>\u201cUm jovem animal musculoso e en\u00e9rgico. Quando tiraram a corda, ele abaixou a cabe\u00e7a e se deteve com decis\u00e3o. Mas o a\u00e7ougueiro marchava atr\u00e1s, pegou a cauda e a torceu; rangeram as v\u00e9rtebras. O boi lan\u00e7ou os que prendiam a corda, jogando-os contra o ch\u00e3o, e se deteve de novo olhando para os lados com seus olhos negros cheios de fogo\u201d, relatou.<\/p>\n<p>Sua cauda foi violentada mais uma vez, e ele avan\u00e7ou. Quando chegou onde queria, o a\u00e7ougueiro se aproximou, apontou e o golpeou. O mau golpe n\u00e3o fez o boi ceder. Ele agitou com for\u00e7a a cabe\u00e7a, mugiu e, sangrento e furioso, soltou-se e inclinou-se.<\/p>\n<p>Segundo Tolst\u00f3i, quem estava perto da porta, fugiu. Acostumados\u00a0com o perigo, os a\u00e7ougueiros pegaram a corda e mais uma vez puxaram a cauda do animal. Depois de enganar o boi, fizeram com que ficasse exatamente onde queriam. E de l\u00e1, ele n\u00e3o poderia escapar. Um dos a\u00e7ougueiros golpeou o belo animal que, cheio de vida, moveu a cabe\u00e7a e as pernas enquanto o degolavam e o esfolavam.<\/p>\n<p>Quando o boi n\u00e3o caiu onde o a\u00e7ougueiro queria, ele gritou: \u201cMaldito diabo!\u201d, e cortou a pele da cabe\u00e7a do animal. Cinco minutos depois, a cabe\u00e7a preta estava vermelha e aqueles olhos, que cinco minutos antes brilhavam com tanta for\u00e7a, estavam v\u00edtreos e apagados.<\/p>\n<p>Depois,\u00a0Tolst\u00f3i foi ao matadouro de ovelhas, um grande pr\u00e9dio com pavimento asfaltado. Ele viu mesas com apoios, e sobre elas as ovelhas e os bezerros eram degolados. Naquele local com forte odor de sangue, o trabalho tinha terminado e havia somente dois a\u00e7ougueiros.<\/p>\n<p>\u201cUm deles soprava a perna de uma ovelha morta e esfregava com a m\u00e3o o ventre inchado do animal. O outro, que era mo\u00e7o e levava o avental cheio de sangue, fumava um cigarro. Seguiu-me um homem que parecia um antigo soldado. Levava um cordeiro de um dia, preto, com uma mancha no pesco\u00e7o e as patas amarradas, e o p\u00f4s sobre a mesa\u201d, relatou o escritor russo.<\/p>\n<p>O cordeiro continuava im\u00f3vel como a ovelha morta e inchada enquanto eles cumprimentavam-se e conversavam. De acordo com Tolst\u00f3i, a \u00fanica diferen\u00e7a era que o animal movia a pequena cauda e ocasionalmente as laterais, com celeridade.<\/p>\n<p>\u201cO soldado, sem fazer esfor\u00e7o, apoiou a cabe\u00e7a do pequeno animal na mesa, e o a\u00e7ougueiro, sem parar de falar, segurou com a m\u00e3o esquerda a cabe\u00e7a do cordeiro e cortou-lhe o pesco\u00e7o. A v\u00edtima agitou-se, a cauda ficou r\u00edgida e parou de se mover. Enquanto o sangue descia, o a\u00e7ougueiro acendeu o cigarro\u201d, testemunhou.<\/p>\n<p>Tolst\u00f3i se surpreendeu com a tranquilidade daqueles homens. Quando o sangue parou de escorrer, o cordeiro se agitou de novo e a conversa prosseguiu sem cessar nem por um segundo.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia:<\/strong><\/p>\n<p>Tolst\u00f3i, Liev. O Primeiro Passo (1892).<\/p>\n<p><em>_____________________________________________<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/david-arioch.jpeg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-116472\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/david-arioch.jpeg\" alt=\"\" width=\"96\" height=\"96\" \/><\/a><\/em><em>David Arioch \u00e9 jornalista profissional, historiador e especialista em jornalismo cultural, hist\u00f3rico e liter\u00e1rio<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/vegazeta.com.br\/liev-tolstoi-enquanto-o-sangue-descia\/\" >Go to Original \u2013 vegazeta.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando o boi n\u00e3o caiu onde o a\u00e7ougueiro queria, ele gritou: \u201cMaldito diabo!\u201d<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":128071,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-128070","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/128070","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=128070"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/128070\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media\/128071"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=128070"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=128070"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=128070"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}