{"id":1281,"date":"2008-09-30T00:00:00","date_gmt":"2008-09-30T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost\/wordpress\/2008\/09\/o-fim-do-capitalismo\/"},"modified":"2008-09-30T00:00:00","modified_gmt":"2008-09-30T00:00:00","slug":"o-fim-do-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2008\/09\/o-fim-do-capitalismo\/","title":{"rendered":"? o fim do Capitalismo?"},"content":{"rendered":"<p>Esta pergunta circulou nos &uacute;ltimos dias na imprensa financeira respeit&aacute;vel. Assim colocada, a pergunta n&atilde;o tem grande sentido. Todos conhecemos a correla&ccedil;&atilde;o das for&ccedil;as sociais e pol&iacute;ticas. E todos sabemos que uma transi&ccedil;&atilde;o sist&eacute;mica desej&aacute;vel dever&aacute; ser o resultado de um longo processo de acumula&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as democr&aacute;ticas e de vit&oacute;rias socialistas no campo das ideias e das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas. <\/p>\n<p>A pergunta d&aacute;-nos apenas uma primeira medida do p&acirc;nico e da desconfian&ccedil;a que se apoderaram da finan&ccedil;a de mercado, enredada num processo que, como sempre, pouco cria e muito destr&oacute;i. Hoje muitos dos complexos e sofisticados produtos financeiros criados pelos alquimistas da finan&ccedil;a desregulada n&atilde;o t&ecirc;m pre&ccedil;o. Ningu&eacute;m sabe quanto valem. <\/p>\n<p>No entanto, a desconfian&ccedil;a tem um pre&ccedil;o claro: na semana passada, a taxa de juro dos t&iacute;tulos do tesouro norte-americanos de curto prazo tornou-se negativa, ou seja, os especuladores preferiram o preju&iacute;zo seguro dos activos do Estado &agrave;s for&ccedil;as obscuras da incerteza dos mercados monet&aacute;rios. <br \/>H&aacute;, no entanto, uma pergunta mais modesta, mas realista, que talvez valha a pena colocar no meio da actual turbul&ecirc;ncia: ser&aacute; que isto &eacute; o fim de uma certa configura&ccedil;&atilde;o do capitalismo? Uma configura&ccedil;&atilde;o que se desenvolveu sob hegemonia da finan&ccedil;a de mercado, que dura h&aacute; trinta anos, atingindo o seu m&aacute;ximo desenvolvimento no mundo anglo-sax&oacute;nico e gerando um padr&atilde;o de desigualdades e de instabilidade sem precedentes desde 1929. A sucess&atilde;o de acontecimentos dos &uacute;ltimos dias parece de facto anunciar o colapso de um modelo e de uma ideologia. Apenas sob o peso das suas contradi&ccedil;&otilde;es internas. <\/p>\n<p>A ironia amarga de Barbara Ehrenreich, uma das melhores cronistas do sofrimento social dos trabalhadores pobres norte-americanos, tem um ano, mas vai ao &acirc;mago dos actuais problemas: &quot;Por incr&iacute;vel que pare&ccedil;a, este pode ser o primeiro caso na hist&oacute;ria em que os explorados conseguem deitar abaixo um sistema econ&oacute;mico injusto, sem passarem pela trabalheira de uma revolu&ccedil;&atilde;o&quot; (Esquerda, 16\/07\/2008). A financeiriza&ccedil;&atilde;o do capitalismo encontrou os seus limites no cr&eacute;dito dito subprime. Como sublinharam, em artigo recente, diversos economistas da ATTAC: &quot;a consolida&ccedil;&atilde;o de uma rela&ccedil;&atilde;o salarial injusta est&aacute; associada ao frenesim financeiro e &agrave; incapacidade do capitalismo neoliberal em construir uma traject&oacute;ria est&aacute;vel&quot; (Le Monde, 19\/09\/2008). <br \/>A maior liberdade dos agentes financeiros, fruto de um prolongado processo de liberaliza&ccedil;&atilde;o, traduziu-se numa efectiva diminui&ccedil;&atilde;o da liberdade de muitos trabalhadores, hoje expostos &agrave;s consequ&ecirc;ncias socioecon&oacute;micas perversas que adv&ecirc;m da liberdade irrestrita de circula&ccedil;&atilde;o do capital. A precariedade, a estagna&ccedil;&atilde;o salarial e o sobreendividamento s&atilde;o parte desta configura&ccedil;&atilde;o do capitalismo e explicam tamb&eacute;m muitas das suas fragilidades sist&eacute;micas. <\/p>\n<p>Sob o pano de fundo de uma ampla fractura social, e na aus&ecirc;ncia de regula&ccedil;&otilde;es mais robustas que controlassem o comportamento das institui&ccedil;&otilde;es financeiras, as din&acirc;micas concorrenciais da &laquo;anarquia de mercado&raquo; como que &laquo;coagiram&raquo; os agentes financeiros a comportarem-se de forma crescentemente aventureirista na fase ascendente do ciclo. Os lucros potenciais da inova&ccedil;&atilde;o financeira, feita de formas cada vez mais sofisticadas e opacas de endividamento, criaram as condi&ccedil;&otilde;es ideais para o actual colapso. <\/p>\n<p>A finan&ccedil;a trancou ent&atilde;o as economias num ciclo vicioso descendente em que a evolu&ccedil;&atilde;o dos pre&ccedil;os de diversos activos e o sobreendividamento, que tinham suportado a economia euf&oacute;rica para as classes mais ricas, conduzem agora a perversas reac&ccedil;&otilde;es em cadeia que operam numa &uacute;nica direc&ccedil;&atilde;o: crescentes problemas de liquidez, ou seja, crescentes dificuldades em fazer face aos fluxos de pagamentos, levam a vendas for&ccedil;adas e desesperadas de activos que acentuam a quebras dos seus pre&ccedil;os, levando &agrave; desestrutura&ccedil;&atilde;o dos prec&aacute;rios e opacos circuitos da finan&ccedil;a de mercado, &agrave; contrac&ccedil;&atilde;o do cr&eacute;dito, que por sua vez gera quebras do investimento e dos rendimentos que alimentam todo o processo e o intensificam. Como sempre a liquidez, a necessidade de dispor de dinheiro, &eacute; a palavra de ordem. E o esfor&ccedil;o descoordenado para a obter s&oacute; agrava os problemas. Os problemas de liquidez transformam-se progressivamente em problemas de insolv&ecirc;ncia. O cora&ccedil;&atilde;o da finan&ccedil;a de mercado foi assim atingido por uma onda potencial de fal&ecirc;ncias que amea&ccedil;a desestruturar todo o sistema financeiro. <\/p>\n<p>A &uacute;nica raz&atilde;o que impediu at&eacute; agora a cat&aacute;strofe econ&oacute;mica total nos EUA foi a pronta interven&ccedil;&atilde;o das autoridades com uma pol&iacute;tica monet&aacute;ria agressiva, maci&ccedil;as injec&ccedil;&otilde;es de liquidez e o impens&aacute;vel: um vasto programa, sob a press&atilde;o das circunst&acirc;ncias, de nacionaliza&ccedil;&atilde;o de institui&ccedil;&otilde;es financeiras consideradas charneira, de organiza&ccedil;&atilde;o de fus&otilde;es e de socializa&ccedil;&atilde;o das perdas financeiras privadas. O Financial Times reconhece que &laquo;as loucuras de uma gera&ccedil;&atilde;o de financeiros irrespons&aacute;veis ter&atilde;o de ser pagas pelos contribuintes&raquo; (Financial Times, 19\/09\/2008). <\/p>\n<p>No entanto, o c&aacute;lculo pode sair furado: as medidas de emerg&ecirc;ncia, que se multiplicam nos EUA, podem dar origem a uma forte corrente de opini&atilde;o a favor da reintrodu&ccedil;&atilde;o de mecanismos de controlo e de regras muito mais apertadas para as opera&ccedil;&otilde;es financeiras. Este processo, ao colocar entraves &agrave; livre circula&ccedil;&atilde;o do capital financeiro, pode criar as condi&ccedil;&otilde;es para reverter o longo processo de intensifica&ccedil;&atilde;o da explora&ccedil;&atilde;o do mundo do trabalho. S&oacute; quando isto acontecer &eacute; que o an&uacute;ncio do colapso do neoliberalismo se tornar&aacute; efectivo. <\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.esquerda.net\/index.php?option=com_content&amp;task=view&amp;id=8388&amp;Itemid=130\" >GO TO ORIGINAL<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta pergunta circulou nos &uacute;ltimos dias na imprensa financeira respeit&aacute;vel. Assim colocada, a pergunta n&atilde;o tem grande sentido. Todos conhecemos a correla&ccedil;&atilde;o das for&ccedil;as sociais e pol&iacute;ticas. E todos sabemos que uma transi&ccedil;&atilde;o sist&eacute;mica desej&aacute;vel dever&aacute; ser o resultado de um longo processo de acumula&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as democr&aacute;ticas e de vit&oacute;rias socialistas no campo das [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[32],"tags":[],"class_list":["post-1281","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-commentary-archives"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1281","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1281"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1281\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1281"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1281"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1281"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}