{"id":128107,"date":"2019-04-15T12:02:55","date_gmt":"2019-04-15T11:02:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=128107"},"modified":"2019-04-15T13:19:52","modified_gmt":"2019-04-15T12:19:52","slug":"portugues-einstein-e-freud-guerra-e-paz-num-dialogo-interdisciplinar-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2019\/04\/portugues-einstein-e-freud-guerra-e-paz-num-dialogo-interdisciplinar-2\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Einstein e Freud: Guerra e Paz Num Di\u00e1logo Interdisciplinar"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2019\/04\/einstein-and-freud-war-and-peace-in-an-interdisciplinary-dialogue\/\" ><strong>Read in English<\/strong><\/a><\/p>\n<blockquote><p><em>Disserta\u00e7\u00e3o apresentada como requisito parcial para a obten\u00e7\u00e3o de Mestrado em Educa\u00e7\u00e3o, Arte e Hist\u00f3ria da Cultura. Mar\u00e7o 2006<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Resumo<\/strong><\/p>\n<p>O presente trabalho busca situar a relev\u00e2ncia das id\u00e9ias de Albert Einstein e de Sigmund Freud sobre a guerra e a paz para os esfor\u00e7os contempor\u00e2neos de constru\u00e7\u00e3o de uma Cultura de Paz, conforme postulados pela ONU\/UNESCO para a D\u00e9cada Internacional da Cultura de Paz (2001-2010). Como <em>corpus<\/em> para esta investiga\u00e7\u00e3o, tem-se as duas cartas-abertas que Einstein e Freud trocaram entre si em 1932 \u00be sob os ausp\u00edcios do Instituto Internacional de Coopera\u00e7\u00e3o Intelectual da Liga das Na\u00e7\u00f5es \u00be nas quais apresentavam suas vis\u00f5es sobre as causas da guerra e os poss\u00edveis caminhos para o estabelecimento de uma paz definitiva entre as na\u00e7\u00f5es. Os postulados de Einstein e de Freud sobre a guerra e a paz s\u00e3o analisados \u00e0 luz da categoriza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea das formas de pacifismo (\u201cas vias da paz\u201d) elaborada por Norberto Bobbio. Conclui-se que as id\u00e9ias apresentadas por Einstein e Freud, apesar de passados setenta anos de sua reda\u00e7\u00e3o, ainda se mant\u00eam relevantes na contemporaneidade, apesar de alguns dos pressupostos, especialmente de Freud, terem sofrido desgaste com o passar do tempo. Argumenta-se que suas contribui\u00e7\u00f5es s\u00e3o especialmente relevantes para fortalecer a id\u00e9ia fundamental por tr\u00e1s dos esfor\u00e7os de educa\u00e7\u00e3o por uma Cultura de Paz, qual seja, de que a guerra n\u00e3o \u00e9 intr\u00ednseca \u00e0 natureza humana, e que, portanto, pode ser eliminada. Em retrospectiva, percebe-se que a contribui\u00e7\u00e3o que Einstein e Freud podem prestar \u00e0 Cultura de Paz adv\u00e9m tanto de suas id\u00e9ias quanto do fato de terem se tornado figuras ic\u00f4nicas da cultura do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/einsteinfreud-1.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-95877 size-full\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/einsteinfreud-1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"245\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/einsteinfreud-1.jpg 600w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/einsteinfreud-1-300x123.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Abstract<\/strong><\/p>\n<p>The present work makes a case for the relevance of Albert Einstein and Sigmund Freud\u2019s exchange on war and peace for current efforts towards establishing a Culture of Peace as designated by the UN\/UNESCO International Decade for a Culture of Peace (2001-2010). Two open letters exchanged between Einstein and Freud in 1932 served as the principle source for this investigation. In these letters \u2014 exchanged under the auspices of the International Committee on Intellectual Cooperation of the League of Nations \u2014 Einstein and Freud describe their rationale regarding the causes of war and the possible paths which might lead to the establishment of a lasting peace between the Nations. This paper analyzes the perspectives of Einstein and Freud in relation to war and peace in light of the theoretical framework given by Norberto Bobbio\u2019s characterization of the contemporary modes of pacifism (\u201cpaths to peace\u201d). In spite of the fact that seventy years have passed since Einstein and Freud discussed their views on war and peace and notwithstanding the fact that some of Freud\u00b4s thinking has been challenged since, the author concludes by suggesting that the exchange between Einstein and Freud is directly in line with, and contributes towards, current efforts to promote a Culture of Peace \u2014 particularly regarding their shared view that war is not intrinsic to human nature and therefore can be eliminated. In retrospect, the contribution that Einstein and Freud can make towards the goal of establishing a Culture of Peace stems as much from their exchange as it does from the fact that these two thinkers have become icon figures of the 20th century.<\/p>\n<ul>\n<li><strong>1 Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n<p>Os desenvolvimentos t\u00e9cnicos e culturais da humanidade ao longo do s\u00e9culo XX colocam a quest\u00e3o da paz mundial num novo patamar de responsabilidade, sob pena de as guerras causarem a destrui\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o \u2014 e mesmo da vida na terra \u2014 como a conhecemos<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a>. Apesar da inconceb\u00edvel amea\u00e7a que pesa sobre o destino dos homens, a consci\u00eancia da necessidade de uma paz mundial definitiva e a mobiliza\u00e7\u00e3o para sua realiza\u00e7\u00e3o ainda parecem longe das prioridades contempor\u00e2neas. Em 1984, Norberto Bobbio, constatava, com pesar que \u201cos passos dados na dire\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia at\u00f4mica<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a> foram lent\u00edssimos, e certamente inferiores ao aumento da pot\u00eancia das armas\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a>.<\/p>\n<p>Desde que as primeiras preocupa\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao perigo da destrui\u00e7\u00e3o por armas nucleares foram emitidas, ainda na d\u00e9cada de 1950, a situa\u00e7\u00e3o mundial apenas piorou. Al\u00e9m de o n\u00famero de na\u00e7\u00f5es que disp\u00f5em de arsenais nucleares ter subido de cinco para sete, com a \u00cdndia e o Paquist\u00e3o juntando-se ao \u201cclube nuclear\u201d em 1998, o risco do emprego de armas nucleares por parte de pequenos estados nacionais ou de organiza\u00e7\u00f5es terroristas cresceu imensamente<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[iv]<\/a>. Apesar de todos os tratados e conven\u00e7\u00f5es mundiais contra a prolifera\u00e7\u00e3o das armas nucleares, estima-se que ainda hoje existam cerca de 30.000 artefatos nucleares prontos para ser usados<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[v]<\/a> (contra 70.000 no auge da Guerra Fria, em 1985)<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[vi]<\/a>.<\/p>\n<p>Um dos aspectos mais preocupantes dessa corrida armamentista \u00e9 que, de certa forma, contra todas as evid\u00eancias, a guerra at\u00f4mica passou a ser considerada uma hip\u00f3tese vi\u00e1vel. Norberto Bobbio, em 1991, comentava que al\u00e9m de a \u201cconsci\u00eancia at\u00f4mica\u201d n\u00e3o ter surgido com a for\u00e7a e a difus\u00e3o que se supunha, nascera um \u201ctipo de adapta\u00e7\u00e3o ou de resigna\u00e7\u00e3o ante uma poss\u00edvel cat\u00e1strofe\u201d<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[vii]<\/a>. Essa vis\u00e3o da plausibilidade da destrui\u00e7\u00e3o nuclear mundial invadiu inclusive a literatura de fic\u00e7\u00e3o e a tela do cinema e da televis\u00e3o. Dezenas de filmes, em geral sobre um hipot\u00e9tico e l\u00fagubre futuro \u201cp\u00f3s-guerra-nuclear\u201d, exploraram essa possibilidade tr\u00e1gica da guerra total, desde o cl\u00e1ssico de Stanley Kubrick \u201cDr. Fant\u00e1stico\u201d (1964), passando pela s\u00e9rie Mad Max<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[viii]<\/a> \u2014 que lan\u00e7ou Mel Gibson ao estrelato \u2014 e pelo \u201cO Dia Seguinte\u201d, para a TV (1983).<\/p>\n<p>Entre os v\u00e1rios fatores que podem contribuir para uma atitude complacente ante a guerra, o principal talvez seja a cren\u00e7a de que a atividade b\u00e9lica faz parte da natureza humana, e que, portanto, \u00e9 imposs\u00edvel de ser erradicada<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[ix]<\/a>. Pesquisas realizadas entre estudantes na Finl\u00e2ndia (1985) e nos Estados Unidos (1985 e 1986) apontaram que um significativo percentual dos entrevistados (52% na Finl\u00e2ndia e 44% nos EUA) acreditavam que \u201ca guerra \u00e9 intr\u00ednseca \u00e0 natureza humana\u201d<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[x]<\/a>. David Adams, um dos mais destacados pesquisadores e ativistas pela paz mundial afirma que \u201cO mito de que a guerra \u00e9 intr\u00ednseca \u00e0 natureza humana \u00e9 aparentemente muito difundido e muito insidioso\u201d<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[xi]<\/a>.<\/p>\n<p>Em fun\u00e7\u00e3o de todas estas e outras quest\u00f5es, e em cumprimento ao seu mandado de \u201cpreservar as futuras gera\u00e7\u00f5es do flagelo da guerra\u201d<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\">[xii]<\/a>, a ONU proclamou a d\u00e9cada de 2001 a 2010 como a D\u00e9cada Internacional da Cultura de Paz.<a href=\"#_edn13\" name=\"_ednref13\">[xiii]<\/a> Entre os desafios da d\u00e9cada est\u00e1 a formula\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o de <em>programas de educa\u00e7\u00e3o para a Cultura de Paz<\/em><a href=\"#_edn14\" name=\"_ednref14\">[xiv]<\/a>. Na Declara\u00e7\u00e3o sobre Cultura de Paz, a Assembl\u00e9ia Geral da ONU explicita que \u201cA educa\u00e7\u00e3o, em todos os n\u00edveis, \u00e9 um dos meios fundamentais para construir uma Cultura de Paz\u201d<a href=\"#_edn15\" name=\"_ednref15\">[xv]<\/a>. A elabora\u00e7\u00e3o de conte\u00fados a serem utilizado em tais programas educacionais para a paz \u00e9 um dos grandes esfor\u00e7os contempor\u00e2neos da D\u00e9cada Internacional da Cultura de Paz<a href=\"#_edn16\" name=\"_ednref16\">[xvi]<\/a>, e \u00e9 com este empenho que a presente disserta\u00e7\u00e3o procura colaborar.<\/p>\n<p>Em 1932, Albert Einstein e Sigmund Freud trocaram uma correspond\u00eancia sobre a guerra e a paz, analisando, desde seus respectivos pontos de vista, as causas da guerra entre as na\u00e7\u00f5es e as possibilidades do estabelecimento de uma paz mundial definitiva. O livreto contendo suas cartas-abertas, intitulado <em>Warum Krieg<\/em>?<a href=\"#_edn17\" name=\"_ednref17\">[xvii]<\/a> no original alem\u00e3o, foi publicado em 1933 pela Liga das Na\u00e7\u00f5es. Logo ap\u00f3s a correspond\u00eancia ter sido trocada entre ambos, a situa\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia e mundial se deteriorou rapidamente, com o acesso de Hitler ao poder na Alemanha em 1933 e o in\u00edcio da Segunda Grande Guerra em 1939. Com o mundo mergulhado na guerra, falar de paz passou a ser socialmente conden\u00e1vel, uma atitude quase subversiva, e a correspond\u00eancia nunca obteve a ampla divulga\u00e7\u00e3o que lhe era destinada.<\/p>\n<p>Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, o mundo, exausto e desiludido, s\u00f3 queria reconstruir os escombros. Mas o mundo do p\u00f3s-guerra se havia transformado. Brotara diferente do caos. A f\u00eanix que renasceu das cinzas era de outra esp\u00e9cie. Eric Hobsbawm comenta que \u201cTratava-se de um mundo qualitativamente diferente\u201d<a href=\"#_edn18\" name=\"_ednref18\">[xviii]<\/a>. A vida da p\u00f3s-modernidade ensaiava seus desencantos com as grandes narrativas e as massas pensavam mais em shopping-centers, supermercados e seriados de TV, do que em reformar o mundo<a href=\"#_edn19\" name=\"_ednref19\">[xix]<\/a>. Nesta era em que vivemos, \u201cp\u00f3s-moralista\u201d<a href=\"#_edn20\" name=\"_ednref20\">[xx]<\/a>, o dever s\u00f3 pode ser expresso em formas amenas, pois \u201cos supermercados, o marketing e o para\u00edso dos lazeres sepultaram a religi\u00e3o das obriga\u00e7\u00f5es.<a href=\"#_edn21\" name=\"_ednref21\">[xxi]<\/a><\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, uma realidade contradit\u00f3ria se desenvolveu: o idealismo da paz mundial, t\u00e3o marcante antes de Hiroxima, foi-se esgar\u00e7ando na mesma medida em que as necessidades reais da paz aumentavam<a href=\"#_edn22\" name=\"_ednref22\">[xxii]<\/a>. As perspectivas de coopera\u00e7\u00e3o com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, que haviam sido nutridas pelo presidente americano Franklin Delano Roosevelt e por seu vice, Henry Wallace, foram esmagadas pela atitude confrontadora de Henry Truman na presid\u00eancia<a href=\"#_edn23\" name=\"_ednref23\">[xxiii]<\/a>. Apesar de ter havido um desenvolvimento do pacifismo no per\u00edodo imediato ao p\u00f3s-guerra em outras partes do mundo<a href=\"#_edn24\" name=\"_ednref24\">[xxiv]<\/a>, o idealismo parecia estar condenado a morrer \u00e0 m\u00edngua. Em 1984, Norberto Bobbio escrevia que as manifesta\u00e7\u00f5es pacifistas, \u201cnos lugares em que elas ocorrem, o p\u00fablico, mesmo quando \u00e9 numeroso, [&#8230;] n\u00e3o \u00e9 compar\u00e1vel \u00e0quele que aos domingos acorre para assistir aos jogos de futebol\u201d.<a href=\"#_edn25\" name=\"_ednref25\">[xxv]<\/a><\/p>\n<p>O idealismo pacifista, muito provavelmente abatido por um sentimento de impot\u00eancia, esvaziou-se consideravelmente e passou a ser considerado irrealista. Como comenta Hobsbawm, como conseq\u00fc\u00eancia da \u201ccat\u00e1strofe\u201d<a href=\"#_edn26\" name=\"_ednref26\">[xxvi]<\/a> da Segunda Grande Guerra, \u201ca humanidade aprendeu a viver num mundo em que a matan\u00e7a, a tortura e o ex\u00edlio em massa se tornaram experi\u00eancias dos dia-a-dia que n\u00e3o mais notamos\u201d<a href=\"#_edn27\" name=\"_ednref27\">[xxvii]<\/a>. Segundo Hobsbawm<a href=\"#_edn28\" name=\"_ednref28\">[xxviii]<\/a>, \u201ca crise social e moral\u201d<a href=\"#_edn29\" name=\"_ednref29\">[xxix]<\/a> era \u201cainda mais \u00f3bvia que as incertezas da economia e da pol\u00edtica mundiais\u201d<a href=\"#_edn30\" name=\"_ednref30\">[xxx]<\/a>. Representava \u201cuma crise das cren\u00e7as e supostos sobre os quais se apoiava a sociedade moderna\u201d<a href=\"#_edn31\" name=\"_ednref31\">[xxxi]<\/a>, uma crise \u201cdas teorias racionalistas e humanistas abra\u00e7adas tanto pelo capitalismo liberal quanto pelo comunismo\u201d<a href=\"#_edn32\" name=\"_ednref32\">[xxxii]<\/a>. O internacionalismo esfuziante e muitas vezes ing\u00eanuo do per\u00edodo entre as duas grandes guerras foi envenenado pela Guerra Fria, pelo imperialismo e pela globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim, passadas mais de sete d\u00e9cadas desde sua publica\u00e7\u00e3o, as id\u00e9ias apresentadas por Einstein e Freud em <em>Warum Krieg?<\/em> ficaram como que congeladas no tempo, e nunca tiveram a ampla divulga\u00e7\u00e3o que lhes era intencionada pela Liga das Na\u00e7\u00f5es. Apesar de diferen\u00e7as significativas em suas respectivas <em>Weltanschauungen<\/em><a href=\"#_edn33\" name=\"_ednref33\"><em><strong>[xxxiii]<\/strong><\/em><\/a> com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra e \u00e0 paz, Einstein e Freud apresentam id\u00e9ias e argumentos poderosos, que merecem ser investigadas tanto na sua individualidade quanto na sua rela\u00e7\u00e3o rec\u00edproca. Por\u00e9m, seus nomes \u2014 que para sempre ser\u00e3o lembrados entre aqueles que mudaram o curso do entendimento humano sobre o universo e sobre si mesmo \u2014 praticamente n\u00e3o s\u00e3o mais recordados quando o pensamento e a a\u00e7\u00e3o pela paz ocorrem nos dias atuais.<\/p>\n<p>Com a retomada, em tempos recentes, de esfor\u00e7os sistem\u00e1ticos, em n\u00edvel mundial, para a constru\u00e7\u00e3o de uma Cultura de Paz baseada em esfor\u00e7os educacionais para a paz, sob os ausp\u00edcios da ONU e da UNESCO, centenas de institui\u00e7\u00f5es e universidades do mundo mant\u00eam cursos de gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o (inclusive em n\u00edvel de p\u00f3s-doutorado), em estudos da paz e em educa\u00e7\u00e3o para a paz<a href=\"#_edn34\" name=\"_ednref34\">[xxxiv]<\/a>. Uma r\u00e1pida busca na Internet<a href=\"#_edn35\" name=\"_ednref35\">[xxxv]<\/a> pelo termo \u201cpeace studies\u201d<a href=\"#_edn36\" name=\"_ednref36\">[xxxvi]<\/a> traz um resultado aproximado de 1.780.000 documentos. \u201cPeace education\u201d<a href=\"#_edn37\" name=\"_ednref37\">[xxxvii]<\/a> resulta em 893.000 p\u00e1ginas. \u201cCulture of peace\u201d<a href=\"#_edn38\" name=\"_ednref38\">[xxxviii]<\/a> mostra 985.000 resultados. No Google Brasil, a busca resulta em 30.400 documentos, com centenas de institui\u00e7\u00f5es que oferecem cursos<a href=\"#_edn39\" name=\"_ednref39\">[xxxix]<\/a>.<\/p>\n<p>Levantamos a hip\u00f3tese, que objetivamos testar neste trabalho, de que as an\u00e1lises feitas e as conclus\u00f5es apresentadas por Einstein e Freud em 1932 \u2014 ambos na maturidade de suas vidas e de suas teorias \u2014 t\u00eam ainda muito que dizer para os esfor\u00e7os contempor\u00e2neos de uma educa\u00e7\u00e3o para a Cultura de Paz. O Mestrado em Educa\u00e7\u00e3o, Arte e Hist\u00f3ria da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie pareceu-nos oferecer o ambiente interdisciplinar adequado para uma pesquisa que, por seu pr\u00f3prio tema e objeto, \u00e9 de natureza interdisciplinar. Acreditamos que a an\u00e1lise dos postulados de Einstein e Freud sobre a guerra e a paz tem muito a contribuir para este espa\u00e7o interdisciplinar onde a hist\u00f3ria da cultura cria interfaces expl\u00edcitas com os esfor\u00e7os contempor\u00e2neos de uma educa\u00e7\u00e3o voltada para a constru\u00e7\u00e3o de uma Cultura de Paz.<\/p>\n<p>Ao longo dos \u00faltimos 20 anos, a quest\u00e3o da paz e da cultura de paz tem sido uma dileta companheira de nosso pensar e de nossa caminhada pessoal. Em diversas atividades de cunho pessoal e profissional<a href=\"#_edn40\" name=\"_ednref40\">[xl]<\/a>, tivemos a oportunidade de nos debru\u00e7ar sobre a quest\u00e3o da viol\u00eancia e da guerra nos mais diversos ambientes culturais, em mais de trinta pa\u00edses. E, em praticamente todas as ocasi\u00f5es, era poss\u00edvel e necess\u00e1rio recorrer a uma ou mais das id\u00e9ias apresentadas por Einstein e Freud em suas cartas-abertas de 1932.<\/p>\n<p>Nossa pesquisa tem como objeto a confronta\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias sobre a guerra e a paz apresentadas por Einstein e por Freud em <em>Warum Krieg?<\/em>, usando como estrutura anal\u00edtica<a href=\"#_edn41\" name=\"_ednref41\">[xli]<\/a> a categoriza\u00e7\u00e3o de Norberto Bobbio para os diversos tipos de pacifismo no mundo contempor\u00e2neo. A pergunta \u00e0 qual nos propusemos responder \u00e9 se as id\u00e9ias de Einstein e Freud sobre a guerra e a paz ainda t\u00eam relev\u00e2ncia, ap\u00f3s 70 anos, para esfor\u00e7os educacionais contempor\u00e2neos de cria\u00e7\u00e3o de uma Cultura de Paz.<\/p>\n<p>Utilizando a categoriza\u00e7\u00e3o das \u201cvias da paz\u201d elaborada por Bobbio, podemos verificar como e se as proposi\u00e7\u00f5es de Einstein e de Freud ainda se encaixam num esquema contempor\u00e2neo de esfor\u00e7os pela paz. No corpo do trabalho, adotamos uma postura ao mesmo tempo expositiva (buscando apresentar o material pesquisado sobre o objeto da pesquisa) e argumentativa (apresentando nossas posi\u00e7\u00f5es, com suas raz\u00f5es e evid\u00eancias). Procuramos analisar as id\u00e9ias de ambos atrav\u00e9s da compara\u00e7\u00e3o e do contraste entre elas, seguindo um movimento anal\u00edtico \u201cde dentro para fora\u201d, indutivo, ou seja, do particular de cada um de seus postulados, para a generaliza\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a suas id\u00e9ias no contexto de suas <em>Weltanschauungen.<\/em><\/p>\n<p>Entre os passos que assumidos como necess\u00e1rios para esta investiga\u00e7\u00e3o, pode-se listar:<\/p>\n<ol>\n<li>Traduzir para o portugu\u00eas, diretamente do original alem\u00e3o \u2014 com todos os riscos a\u00ed inerentes \u2014 as cartas de Einstein e de Freud, buscando assim corrigir equ\u00edvocos constantes em tradu\u00e7\u00f5es anteriores;<\/li>\n<li>Historiar as origens e o desenrolar da correspond\u00eancia sobre a guerra e a paz entre Einstein e Freud em 1932, apontando as circunst\u00e2ncias nas quais se concretizou;<\/li>\n<li>Analisar como guerra e paz se evidenciam nas <em>Weltanschauungen<\/em> de Einstein e de Freud, tomando como base sua correspond\u00eancia de 1932 e outros escritos relevantes para a pesquisa.<\/li>\n<li>Analisar as concord\u00e2ncias, os contrastes e a <em>sinergia<\/em> entre os postulados de Einstein e Freud, \u00e0 luz do contexto interdisciplinar que naturalmente est\u00e1 impl\u00edcito na troca epistolar entre um f\u00edsico e um psic\u00f3logo a respeito da guerra e da paz.<\/li>\n<li>Salientar os aspectos fundamentais, apontados pela correspond\u00eancia, que ainda hoje possam contribuir para os esfor\u00e7os internacionais de constru\u00e7\u00e3o de uma Cultura de Paz.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Esperamos, como este trabalho, encorajar outras pesquisas sobre o tema da Cultura de Paz, bem como resgatar a fertilidade e a representatividade dos pensamentos de Einstein e de Freud para o cen\u00e1rio das investiga\u00e7\u00f5es e refer\u00eancias no campo da Educa\u00e7\u00e3o para a Paz. Acima de tudo, temos a esperan\u00e7a de contribuir para os esfor\u00e7os sinceros, corajosos, perseverantes e amorosos de todos aqueles que se dedicam para a constru\u00e7\u00e3o de uma Cultura de Paz onde a viol\u00eancia b\u00e9lica seja definitivamente eliminada da face da terra, e todas as demais formas de viol\u00eancia sejam domadas pela intelig\u00eancia e pelo amor.<\/p>\n<p><strong>2\u00a0 <em>Warum Krieg?<\/em>: Por que a Guerra?<\/strong><\/p>\n<p><strong>2.1\u00a0 Um <em>di\u00e1logo<\/em> interdisciplinar entre Einstein e Freud<\/strong><\/p>\n<p>Entre julho e setembro de 1932, dois dos maiores nomes da Ci\u00eancia do s\u00e9culo XX \u2014 Albert Einstein e Sigmund Freud \u2014 trocaram entre si uma significativa correspond\u00eancia sobre as causas da guerra e os caminhos para erradic\u00e1-la. Um ano antes, o j\u00e1 influente partido nazista alem\u00e3o recebera o apoio decisivo das grandes fortunas do pa\u00eds. Um ano depois, Hitler estaria no poder. O cen\u00e1rio estava pronto para o in\u00edcio do maior conflito armado da hist\u00f3ria. Entre 1937 e 1945, cerca de 60 milh\u00f5es de pessoas perderiam a vida<a href=\"#_edn42\" name=\"_ednref42\">[xlii]<\/a>, nas mais terr\u00edveis e brutais formas de exterm\u00ednio j\u00e1 vistas.<\/p>\n<p>Nos vinte e oito par\u00e1grafos de sua correspond\u00eancia p\u00fablica, Einstein e Freud oferecem penetrantes vis\u00f5es sobre as possibilidades da paz entre as na\u00e7\u00f5es e instigantes percep\u00e7\u00f5es sobre os entraves que impedem sua realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por ocasi\u00e3o da troca de cartas que mais tarde foram publicadas com o t\u00edtulo de <em>Warum Krieg?<\/em><a href=\"#_edn43\" name=\"_ednref43\"><em><strong>[xliii]<\/strong><\/em><\/a>, tanto Einstein (ent\u00e3o com 53 anos) quanto Freud (com 76) j\u00e1 haviam alcan\u00e7ado a plenitude de suas vidas e a maturidade de suas reflex\u00f5es intelectuais sobre este e outros temas. Suas principais teorias e investiga\u00e7\u00f5es, nos respectivos campos de investiga\u00e7\u00e3o, a F\u00edsica e a Psicologia, j\u00e1 estavam consolidadas e mundialmente reconhecidas. As an\u00e1lises, os argumentos e os ju\u00edzos que ambos prop\u00f5em em suas cartas sobre a guerra e a paz s\u00e3o obras de maturidade.<\/p>\n<p>Dez anos antes, em 1921, Einstein havia recebido o Pr\u00eamio Nobel de F\u00edsica e, desde ent\u00e3o, tornara-se uma das faces mais conhecidas em todo o mundo. Freud, por sua vez, j\u00e1 havia consolidado o movimento psicanal\u00edtico e suas teorias haviam ingressado no dia-a-dia de todas as pessoas letradas, e n\u00e3o eram de todo desconhecidas pelas massas. Embora nunca tenha sido agraciado com o Nobel, em 1930 ele havia recebido o prestigioso pr\u00eamio Goethe, por sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Einstein, desde a Primeira Grande Guerra, vinha atuando em esfor\u00e7os para a erradica\u00e7\u00e3o da guerra. Isto o havia colocado em evid\u00eancia n\u00e3o apenas no mundo da ci\u00eancia, mas tamb\u00e9m no campo social e cultural. No auge do ver\u00e3o daquele ano de amea\u00e7adores sinais para a paz mundial, em 30 de julho de 1932, Einstein dirigiu uma carta-aberta a Freud. Nela, expunha suas vis\u00f5es sobre as causas da guerra e apontava para os mecanismos pol\u00edticos que lhe pareciam necess\u00e1rios para elimin\u00e1-la definitivamente do cen\u00e1rio mundial. Por\u00e9m, tamb\u00e9m expressava sua perplexidade. Como podem, perguntava, os mecanismos das classes dominantes, como a igreja, a educa\u00e7\u00e3o e a imprensa, \u201cser t\u00e3o eficazes em inflamar os homens com este entusiasmo louco e este sacrif\u00edcio da pr\u00f3pria vida?\u201d<a href=\"#_edn44\" name=\"_ednref44\">[xliv]<\/a>. Apenas uma explica\u00e7\u00e3o lhe parecia poss\u00edvel: \u201cporque o homem possui dentro de si uma necessidade de \u00f3dio e destrui\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn45\" name=\"_ednref45\">[xlv]<\/a>.<\/p>\n<p>Einstein dizia reconhecer em Freud o \u201cgrande conhecedor\u201d das \u201cpuls\u00f5es humanas\u201d, e acreditava que ele seria capaz de apresentar respostas para este que era, na sua opini\u00e3o, \u201co cerne do problema\u201d<a href=\"#_edn46\" name=\"_ednref46\">[xlvi]<\/a>. Freud responde a Einstein em setembro do mesmo ano de 1932, tamb\u00e9m em correspond\u00eancia p\u00fablica. Do alto de seus 76 anos, ele desfrutava de uma fama mundial semelhante \u00e0 de Einstein, como um cientista cujas id\u00e9ias e cujo rosto haviam transcendido os ambientes restritos da academia e do laborat\u00f3rio. Sua fama, apesar disso, era algo mais sombria do que a de Einstein. Enquanto o expositor da <em>Relatividade<\/em> surgira aos olhos do mundo por lidar com a luz do universo, o pai da psican\u00e1lise tornara-se conhecido por lidar com a escurid\u00e3o das motiva\u00e7\u00f5es humanas. Ainda que fosse cogitado v\u00e1rias vezes para o Pr\u00eamio Nobel \u2014 algumas delas, ironicamente, n\u00e3o por seus estudos em psicologia, mas por seu estilo liter\u00e1rio \u2014 Freud nunca chegou a receb\u00ea-lo<a href=\"#_edn47\" name=\"_ednref47\">[xlvii]<\/a>. Al\u00e9m disso, ao longo de toda a sua vida, sempre esteve longe de ser uma unanimidade como Einstein. Entretanto, apesar de tudo, a \u201cmitologia\u201d<a href=\"#_edn48\" name=\"_ednref48\">[xlviii]<\/a> (como ele mesmo se referiu \u00e0 Psican\u00e1lise) criada por Freud serviu como uma luva para que se pudesse buscar entender tudo que o s\u00e9culo XX representava de novo<a href=\"#_edn49\" name=\"_ednref49\">[xlix]<\/a>.<\/p>\n<p>Apesar de ter concordado previamente com esta troca epistolar com Einstein, Freud n\u00e3o sabia antecipadamente sobre o que dialogariam e foi tomado de surpresa pelo tema escolhido por Einstein. Na carta, Freud se diz \u201caturdido\u201d<a href=\"#_edn50\" name=\"_ednref50\">[l]<\/a> ao pensar em sua incompet\u00eancia para tratar da guerra e da paz. Por\u00e9m, passada esta primeira impress\u00e3o, Freud se sente encorajado pelo fato de que ele n\u00e3o estava sendo convidado a dar sugest\u00f5es pr\u00e1ticas, mas sim \u201cexplicar como a quest\u00e3o da preven\u00e7\u00e3o das guerras \u00e9 vista por um psic\u00f3logo\u201d<a href=\"#_edn51\" name=\"_ednref51\">[li]<\/a>.<\/p>\n<p>Freud encerra a carta com seu t\u00edpico tom de auto-deprecia\u00e7\u00e3o<a href=\"#_edn52\" name=\"_ednref52\">[lii]<\/a>, pedindo a Einstein \u201csinceras desculpas\u201d<a href=\"#_edn53\" name=\"_ednref53\">[liii]<\/a> caso suas explica\u00e7\u00f5es lhe causassem desapontamento. Antes mesmo de iniciar sua ep\u00edstola, ao conversar com o funcion\u00e1rio da Liga das Na\u00e7\u00f5es que intermediara o contato entre ele e Einstein, Freud j\u00e1 havia expressado sentimentos de que o que teria a dizer n\u00e3o seria muito encorajador<a href=\"#_edn54\" name=\"_ednref54\">[liv]<\/a>. Achava que dificilmente sua \u201cresposta pessimista\u201d<a href=\"#_edn55\" name=\"_ednref55\">[lv]<\/a> \u00e0 carta de Einstein seria publicada.<\/p>\n<p>Apesar dessa autocr\u00edtica excessiva, nem Einstein ficou decepcionado com a resposta, nem seu conte\u00fado poderia ser considerado pessimista. Ao contr\u00e1rio, Freud assume um equilibrado realismo. Uma postura eq\u00fcidistante que n\u00e3o nega as evidentes dificuldades de implantar-se a paz num contexto mundial de interesses conflitantes, nem renega as esperan\u00e7as de que um dia a humanidade possa viver sem as mis\u00e9rias que as guerras imp\u00f5em. Como ele coloca, ainda que a propens\u00e3o para a guerra emane da puls\u00e3o de destrui\u00e7\u00e3o<a href=\"#_edn56\" name=\"_ednref56\">[lvi]<\/a>, contra ela \u201ctemos bem perto seu oponente, Eros, para nos ajudar\u201d<a href=\"#_edn57\" name=\"_ednref57\">[lvii]<\/a>. E Freud afirma, num tom que pode ser visto como bastante esperan\u00e7oso e otimista: \u201cTudo o que produz la\u00e7os de afeto entre os homens nos serve como ant\u00eddoto da guerra\u201d<a href=\"#_edn58\" name=\"_ednref58\">[lviii]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>2.2\u00a0 Antecedentes: o Instituto de Coopera\u00e7\u00e3o Intelectual da Liga das Na\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>A correspond\u00eancia entre Einstein e Freud sobre a guerra e a paz foi uma iniciativa de Einstein, e deu-se sob os ausp\u00edcios do Instituto Internacional de Coopera\u00e7\u00e3o Intelectual, um organismo da Liga das Na\u00e7\u00f5es ao qual Einstein estava associado desde sua cria\u00e7\u00e3o em 1926<a href=\"#_edn59\" name=\"_ednref59\">[lix]<\/a>. O Instituto, por sua vez, surgira para ser o bra\u00e7o executivo do Comit\u00ea de Coopera\u00e7\u00e3o Intelectual da Liga, criado em 1922, e formado por personalidades de renome mundial, como a famosa f\u00edsica Marie Curie e o destacado fil\u00f3sofo franc\u00eas Henri Bergson<a href=\"#_edn60\" name=\"_ednref60\">[lx]<\/a>.<\/p>\n<p>O Instituto de Coopera\u00e7\u00e3o Intelectual da Liga das Na\u00e7\u00f5es foi inaugurado oficialmente em 16 de janeiro de 1926, em Paris. Em 1928, depois de muitas dificuldades, o Comit\u00ea Nacional de Coopera\u00e7\u00e3o Intelectual foi criado na Alemanha pelo pr\u00f3prio governo alem\u00e3o, que indicava tamb\u00e9m seus membros, entre os quais estava Einstein. Depois disso, ele compareceu apenas a mais uma das reuni\u00f5es do Comit\u00ea Internacional em Genebra, no ano de 1930.<\/p>\n<p><strong>2.3\u00a0 A concretiza\u00e7\u00e3o da correspond\u00eancia Einstein-Freud sobre a paz<\/strong><\/p>\n<p>Ao longo dos anos, Einstein manteve viva a id\u00e9ia de que os intelectuais e cientistas \u00be ao menos aqueles que nutriam ideais de paz \u2014 poderiam ter uma significativa atua\u00e7\u00e3o na mobiliza\u00e7\u00e3o das massas e dos governos para a elimina\u00e7\u00e3o da guerra<a href=\"#_edn61\" name=\"_ednref61\">[lxi]<\/a>. Os anos de atua\u00e7\u00e3o junto ao Comit\u00ea da Liga das Na\u00e7\u00f5es<a href=\"#_edn62\" name=\"_ednref62\">[lxii]<\/a> parecem ter cristalizado em Einstein tr\u00eas concep\u00e7\u00f5es que teriam direta rela\u00e7\u00e3o com sua correspond\u00eancia aberta com Freud. Por um lado, ele acreditava no efeito e influ\u00eancia que as id\u00e9ias e posi\u00e7\u00f5es dos intelectuais pacifistas podiam exercer sobre a opini\u00e3o p\u00fablica e, muitas vezes, sobre as decis\u00f5es pol\u00edticas. Em segundo lugar, sabia que o fato de algu\u00e9m ser um grande intelectual, artista ou cientista, n\u00e3o garantia sua isen\u00e7\u00e3o das paix\u00f5es que conduzem \u00e0 guerra. E, finalmente, n\u00e3o confiava que a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica intelectual pela paz pudesse ser realizada dentro do contexto de institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, necessitando um f\u00f3rum totalmente independente e isento de colora\u00e7\u00f5es nacionalistas ou ideol\u00f3gicas. Embora Einstein tenha promovido iniciativas para a cria\u00e7\u00e3o de uma associa\u00e7\u00e3o de intelectuais pacifistas, o projeto nunca se concretizou.<a href=\"#_edn63\" name=\"_ednref63\">[lxiii]<\/a>.<\/p>\n<p>A convic\u00e7\u00e3o de que a troca epistolar entre grandes figuras intelectuais poderia influenciar positivamente o desenvolvimento da civiliza\u00e7\u00e3o era uma cren\u00e7a que estava nas ra\u00edzes do Comit\u00ea de Coopera\u00e7\u00e3o Intelectual criado pela Liga das Na\u00e7\u00f5es em 1922<a href=\"#_edn64\" name=\"_ednref64\">[lxiv]<\/a>. Um primeiro volume, intitulado <em>A League of Minds<\/em> (Uma Liga de Mentes), j\u00e1 havia sido publicado. No outono de 1931, <em>Monsieur <\/em>Steinig, um funcion\u00e1rio da Liga das Na\u00e7\u00f5es, viajou a Berlim a fim de obter a colabora\u00e7\u00e3o de Einstein na elabora\u00e7\u00e3o de um segundo volume<a href=\"#_edn65\" name=\"_ednref65\">[lxv]<\/a>. O tema havia sido deixado em aberto, embora algumas possibilidades tivessem sido aventadas em Genebra. Einstein mostrou-se grandemente simp\u00e1tico \u00e0 id\u00e9ia, e logo discutiu com <em>Monsieur <\/em>Steinig alguns detalhes do plano. Ficou decidido, em princ\u00edpio, que Einstein escreveria duas cartas, para dois interlocutores distintos, abordando algum tema ligado \u00e0 educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma das cartas seria dirigida a Paul Langevin<a href=\"#_edn66\" name=\"_ednref66\">[lxvi]<\/a>, f\u00edsico franc\u00eas que estava entre os mais queridos amigos de Einstein, e a outra seria endere\u00e7ada a Sigmund Freud. Desde o j\u00e1 long\u00ednquo ano de 1912, os nomes de Einstein e Freud haviam se encontrado em apoio a uma s\u00e9rie de manifestos p\u00fablicos em prol da paz e do entendimento entre as na\u00e7\u00f5es<a href=\"#_edn67\" name=\"_ednref67\">[lxvii]<\/a>, fato que se repetiria em 12 de outubro de 1930, num manifesto contra o servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio e o treinamento militar dos jovens.<a href=\"#_edn68\" name=\"_ednref68\">[lxviii]<\/a>. Ver esta iniciativa sendo tamb\u00e9m apoiada por Freud deve ter motivado ainda mais Einstein a considerar seu nome, tanto para integrar a pretendida associa\u00e7\u00e3o pacifista internacional de intelectuais, quanto para a troca de correspond\u00eancias que a Liga das Na\u00e7\u00f5es lhe convidava a iniciar<a href=\"#_edn69\" name=\"_ednref69\">[lxix]<\/a>. Nesta \u00e9poca a situa\u00e7\u00e3o social na Europa j\u00e1 estava claramente explosiva. Os movimentos militares e paramilitares fascistas j\u00e1 ocupavam as ruas, com uniformes, desfiles, bandeiras e demonstra\u00e7\u00f5es de animosidade baseadas na ra\u00e7a, na nacionalidade e na religi\u00e3o. Os tempos exigiam medidas desesperadas por parte dos que se opunham a este tipo de desenvolvimento.<\/p>\n<p>A correspond\u00eancia de Einstein com Freud chegou a ser publicada em Paris pela Liga das Na\u00e7\u00f5es, em 1933, com o t\u00edtulo de <em>Warum Krieg?<\/em> (<em>Por que a Guerra?<\/em>)<em>.<\/em> Um n\u00famero razoavelmente pequeno de exemplares (2.000) foi publicado em alem\u00e3o, franc\u00eas e ingl\u00eas. Na Alemanha, a obra foi imediatamente banida pelo governo nazista e nenhum tipo de divulga\u00e7\u00e3o a respeito dela foi permitido<a href=\"#_edn70\" name=\"_ednref70\">[lxx]<\/a>. A esta altura, Hitler j\u00e1 estava no poder, a situa\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica na Europa se deteriorava aceleradamente, e as cartas nunca tiveram a ampla divulga\u00e7\u00e3o que lhes era destinada.<\/p>\n<p><strong>2.4\u00a0 O conhecimento m\u00fatuo entre Einstein e Freud<\/strong><\/p>\n<p>Em 1932, ano da troca da correspond\u00eancia sobre a guerra e a paz, j\u00e1 fazia muito que Einstein e Freud sabiam um do outro e acompanhavam, ainda que \u00e0 dist\u00e2ncia, as m\u00fatuas carreiras. Como destacadas figuras p\u00fablicas de seu tempo, sendo ambos judeus e de l\u00edngua alem\u00e3 (apesar de Freud ser austr\u00edaco e Einstein alem\u00e3o), era natural que estivessem razoavelmente bem informados um do outro. Ap\u00f3s a Primeira Guerra Mundial, especialmente, suas carreiras e fama correram mundo de forma extraordin\u00e1ria<a href=\"#_edn71\" name=\"_ednref71\">[lxxi]<\/a>.<\/p>\n<p>Ao longo dos 20 anos que sucederam suas assinaturas conjuntas na iniciativa da cria\u00e7\u00e3o de uma associa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u201cde pontos de vista estritamente emp\u00edricos e positivistas\u201d<a href=\"#_edn72\" name=\"_ednref72\">[lxxii]<\/a>, em 1912, at\u00e9 sua correspond\u00eancia oficial sobre a paz, em 1932, Einstein e Freud tiveram a oportunidade de se corresponder algumas vezes<a href=\"#_edn73\" name=\"_ednref73\">[lxxiii]<\/a> e de se encontrar pessoalmente pelo menos em duas oportunidades<a href=\"#_edn74\" name=\"_ednref74\">[lxxiv]<\/a>, em Berlim, por ocasi\u00e3o de visitas de Freud \u00e0 cidade onde Einstein ent\u00e3o residia.<\/p>\n<p>A atitude de Einstein para com a obra de Freud era simp\u00e1tica, mas n\u00e3o de todo favor\u00e1vel. Ele admirava principalmente o estilo e a capacidade expositiva de Freud, e seu empenho com a pesquisa cient\u00edfica, mais do que suas id\u00e9ias sobre as origens inconscientes e fundamentalmente sexuais dos dist\u00farbios ps\u00edquicos<a href=\"#_edn75\" name=\"_ednref75\">[lxxv]<\/a>. Em 1928 e 1930, um jovem psicanalista alem\u00e3o, Dr. Heinrich Meng, organizou uma campanha em favor do Pr\u00eamio Nobel para Freud, mas Einstein foi um dos que n\u00e3o se sentiram em condi\u00e7\u00f5es de subscrever sua candidatura.<a href=\"#_edn76\" name=\"_ednref76\">[lxxvi]<\/a><\/p>\n<p>Por ocasi\u00e3o do septuag\u00e9simo quinto anivers\u00e1rio de Freud, em 1931, Einstein lhe enviou um bilhete muito elogioso, dizendo que todas as ter\u00e7as-feiras ele e uma amiga liam as obras de Freud e que se sentia assoberbado pela \u201cbeleza e limpidez\u201d de seus textos. Dizia que \u201cafora Schopenhauer, n\u00e3o existe ningu\u00e9m para mim que seja, ou tenha sido, capaz de escrever assim\u201d. Entretanto, confessava que, sendo \u201cpouco sens\u00edvel\u201d com rela\u00e7\u00e3o aos assuntos da psicologia, por isso vacilava entre \u201ca cren\u00e7a e a descren\u00e7a\u201d<a href=\"#_edn77\" name=\"_ednref77\">[lxxvii]<\/a> nas teorias de Freud.<\/p>\n<p>Em 1936, por ocasi\u00e3o do octog\u00e9simo anivers\u00e1rio de Freud, Einstein foi um dos primeiros a lhe mandar uma carta de parab\u00e9ns<a href=\"#_edn78\" name=\"_ednref78\">[lxxviii]<\/a>. Nela, Einstein dizia que at\u00e9 recentemente \u201capenas conseguia distinguir o poder te\u00f3rico de sua corrente de pensamento, juntamente com sua enorme influ\u00eancia sobre a <em>Weltanschauung<\/em><a href=\"#_edn79\" name=\"_ednref79\">[lxxix]<\/a> da era atual\u201d, mas sem ter condi\u00e7\u00f5es \u201cde formar uma opini\u00e3o clara sobre a medida de verdade nela contida\u201d. Por\u00e9m, dizia a Freud que, h\u00e1 pouco tempo, inteirara-se de alguns casos que, em sua opini\u00e3o, \u201cn\u00e3o permitem nenhum outro tipo de interpreta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o aquela oferecida pela teoria do recalque<a href=\"#_edn80\" name=\"_ednref80\">[lxxx]<\/a>\u201d, e dizia-se \u201cencantado ao tomar conhecimento deles, pois \u00e9 sempre encantador quando uma grande e bela id\u00e9ia prova estar de acordo com a realidade\u201d <a href=\"#_edn81\" name=\"_ednref81\">[lxxxi]<\/a>.<\/p>\n<p>Freud respondeu \u00e0 carta imediatamente, tr\u00eas dias antes de seu anivers\u00e1rio, em 3 de maio de 1936, expressando sua satisfa\u00e7\u00e3o ao saber da mudan\u00e7a (ou princ\u00edpio de mudan\u00e7a) no julgamento de Einstein. Dizia que sempre soube que Einstein o admirava por cortesia, e que \u201cbem pouca f\u00e9\u201d tinha em qualquer de suas doutrinas. Por\u00e9m, agora, podia nutrir a esperan\u00e7a de \u201cvir a t\u00ea-lo como meu \u2018disc\u00edpulo\u2019 quando alcan\u00e7ar minha idade\u201d. E conclu\u00eda: \u201cComo naquele tempo n\u00e3o poderei saber disso, antecipo para agora a satisfa\u00e7\u00e3o que isso me d\u00e1\u201d<a href=\"#_edn82\" name=\"_ednref82\">[lxxxii]<\/a>. Apesar destas palavras animadoras de Einstein, que tanto significaram para Freud, o fato \u00e9 que, at\u00e9 o fim da vida, Einstein manter-se-ia, em grande medida, incr\u00e9dulo nos ensinamentos de Freud.<a href=\"#_edn83\" name=\"_ednref83\">[lxxxiii]<\/a><\/p>\n<p>Assim, apesar de lidarem com campos absolutamente distintos do conhecimento, e das reservas existentes por parte de Einstein em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Psican\u00e1lise, a correspond\u00eancia que Einstein e Freud trocaram em 1932 sobre a guerra e a paz oferece um momento extraordin\u00e1rio de \u201cencontro\u201d entre ambos. Do alto da maturidade de suas vidas, os dois foram capazes de apontar alguns dos mais profundos e pertinazes desafios para a elimina\u00e7\u00e3o da guerra, bem como expressar algumas das mais pungentes esperan\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 paz, como veremos nos textos integrais da correspond\u00eancia, no pr\u00f3ximo cap\u00edtulo.<\/p>\n<p><strong>3\u00a0 A correspond\u00eancia na \u00edntegra<\/strong><\/p>\n<p><strong>3.1\u00a0 A carta de Einstein<a href=\"#_edn84\" name=\"_ednref84\">[lxxxiv]<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Caputh, perto de Potsdam, 30 de julho de 1932.<\/p>\n<p>Estimado Sr. Freud:<\/p>\n<p>(\u00a7E1)<a href=\"#_edn85\" name=\"_ednref85\">[lxxxv]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A Liga das Na\u00e7\u00f5es, e seu Instituto Internacional para a Coopera\u00e7\u00e3o Intelectual, incentivou-me a convidar uma pessoa de minha escolha com a qual pudesse estabelecer uma franca troca de id\u00e9ias sobre qualquer problema por mim selecionado, e fico feliz de isso me oferecer a oportunidade \u00fanica de confabular com o Senhor sobre uma quest\u00e3o que, nas presentes circunst\u00e2ncias, parece ser o mais premente problema enfrentado pela civiliza\u00e7\u00e3o: h\u00e1 alguma forma de livrar a humanidade da amea\u00e7a da guerra? \u00c9 de amplo conhecimento que o avan\u00e7o da tecnologia fez deste assunto uma quest\u00e3o de vida ou morte para o mundo civilizado, pois apesar de todo o zelo, at\u00e9 agora todos os esfor\u00e7os para sua solu\u00e7\u00e3o findaram em alarmante fracasso.<\/p>\n<p>(\u00a7E2) Creio, tamb\u00e9m, que os respons\u00e1veis em lidar com o problema por incumb\u00eancia profissional ou pr\u00e1tica est\u00e3o cada vez mais conscientes de sua impot\u00eancia e desejam conhecer as perspectivas de homens da ci\u00eancia, que desfrutam do distanciamento adequado para avaliar a quest\u00e3o. Quanto a mim, os objetivos normais de meu pensar n\u00e3o me d\u00e3o acesso \u00e0s profundidades dos sentimentos e vontades humanos. Assim, na troca de vis\u00f5es aqui proposta, o que posso fazer \u00e9 t\u00e3o-somente tentar explicitar a quest\u00e3o e, ao abrir o caminho atrav\u00e9s das tentativas de solu\u00e7\u00e3o mais \u00f3bvias, permitir-lhe lan\u00e7ar sobre o problema a luz de seu profundo conhecimento sobre a vida pulsional<a href=\"#_edn86\" name=\"_ednref86\">[lxxxvi]<\/a> do ser humano. H\u00e1 certos empecilhos psicol\u00f3gicos que podem ser vislumbrados pelo leigo na psicologia, mas cujas inter-rela\u00e7\u00f5es e caprichos ele ignora totalmente. Tenho confian\u00e7a de que o Senhor possa apontar caminhos educacionais, por assim dizer fora do escopo da pol\u00edtica, que consigam eliminar estes obst\u00e1culos psicol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>(\u00a7E3) Sendo eu mesmo uma pessoa livre do preconceito nacional, vejo um caminho simples para lidar com o aspecto aparente \u2014 ou seja, organizacional \u2014 do problema: o estabelecimento, pelos Estados Nacionais, de uma autoridade legislativa e judici\u00e1ria que resolvesse todos os conflitos entre eles. Todas as na\u00e7\u00f5es comprometer-se-iam a aquiescer \u00e0s decis\u00f5es emitidas por este corpo legislativo, a solicitar sua decis\u00e3o em todas as disputas, a aceitar seu ju\u00edzo sem reservas e a p\u00f4r em pr\u00e1tica quaisquer medidas julgadas necess\u00e1rias para implementar seu veredicto. O problema que se apresenta, logo de in\u00edcio, \u00e9 que um tribunal \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o humana que apenas tem autoridade na medida em que desfruta do poder para implementar suas decis\u00f5es, sem o que elas s\u00e3o frustradas por press\u00f5es extrajudiciais. Este \u00e9 um fato que precisa ser aceito: a lei e o poder andam invariavelmente juntos e os veredictos de um \u00f3rg\u00e3o legislativo aproximam-se mais da justi\u00e7a ideal demandada pela comunidade \u2014 em cujo nome e interesse eles s\u00e3o pronunciados \u2014 apenas na medida em que a comunidade tenha efetivo poder para exigir a obedi\u00eancia ao seu ideal de justi\u00e7a. Mas, no presente [1932], estamos longe de dispor de uma entidade supranacional competente para impor veredictos de inconteste autoridade e para exigir submiss\u00e3o absoluta \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o de suas decis\u00f5es. Assim sou levado \u00e0 minha primeira conclus\u00e3o: o caminho para a seguran\u00e7a internacional exige que todas as na\u00e7\u00f5es, em certa medida, abdiquem incondicionalmente de sua liberdade para agir<a href=\"#_edn87\" name=\"_ednref87\">[lxxxvii]<\/a> \u2014 ou seja, sua soberania \u2014 e \u00e9 certo que nenhum outro caminho pode conduzir a esta seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>(\u00a7E4) O fracasso de todos os sinceros esfor\u00e7os neste sentido, ao longo da \u00faltima d\u00e9cada [1922-1932], nos for\u00e7am a reconhecer que poderosas for\u00e7as psicol\u00f3gicas atuam na paralisa\u00e7\u00e3o de tais iniciativas. Algumas destas for\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o dif\u00edceis de identificar. O desejo de poder das classes governantes em cada na\u00e7\u00e3o \u00e9 hostil a qualquer limita\u00e7\u00e3o da soberania nacional. Esta sede de poder pol\u00edtico \u00e9 geralmente apoiada pela luta pelo poder material e econ\u00f4mico de outro grupo. Penso em especial naquele pequeno mas determinado grupo que, em todas as na\u00e7\u00f5es, \u00e9 composto por indiv\u00edduos que \u2014 indiferentes a qualquer considera\u00e7\u00e3o ou restri\u00e7\u00e3o social \u2014 consideram a guerra e a fabrica\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o de armas apenas como um instrumento para garantir seus interesses pessoais e para ampliar seu poder pessoal.<\/p>\n<p>(\u00a7E5) Mas o reconhecimento deste fato \u00f3bvio \u00e9 apenas o primeiro passo para o entendimento da situa\u00e7\u00e3o. Uma outra quest\u00e3o se imp\u00f5e imediatamente: como pode esta minoria manipular, a servi\u00e7o de suas ambi\u00e7\u00f5es, a vontade da maioria, que \u00e9 quem perde e sofre com a guerra? (Quando falo da massa do povo, n\u00e3o excluo os soldados de todas as patentes, os quais escolheram a guerra como sua profiss\u00e3o na cren\u00e7a de estarem servindo aos melhores interesses de seus povos e na convic\u00e7\u00e3o de que geralmente o ataque \u00e9 a melhor defesa.) Uma resposta \u00f3bvia seria que esta minoria que \u00e9 a classe dominante det\u00e9m em suas m\u00e3os as escolas, a imprensa e geralmente tamb\u00e9m as organiza\u00e7\u00f5es religiosas. Atrav\u00e9s desses meios consegue dominar e governar as emo\u00e7\u00f5es das massas em geral, para manipul\u00e1-las a seu bel-prazer.<\/p>\n<p>(\u00a7E6) Por\u00e9m, esta resposta tampouco explica totalmente o contexto. Outra quest\u00e3o surge dela: como podem tais artif\u00edcios ser t\u00e3o eficazes em inflamar os homens com este entusiasmo louco e este sacrif\u00edcio da pr\u00f3pria vida? Apenas uma resposta \u00e9 poss\u00edvel: porque o homem possui dentro de si uma necessidade de \u00f3dio e destrui\u00e7\u00e3o. Em tempos normais esta tend\u00eancia est\u00e1 latente e emerge apenas em circunst\u00e2ncias excepcionais, mas \u00e9 relativamente f\u00e1cil acion\u00e1-la e mobiliz\u00e1-la ao n\u00edvel de uma psicose de massa. Aqui jaz, talvez, o cerne do problema de todos os complexos fatores que estamos a considerar, uma quest\u00e3o que apenas os profundos conhecedores das puls\u00f5es humanas podem resolver.<\/p>\n<p>(\u00a7E7) Da\u00ed surge uma \u00faltima quest\u00e3o: ser\u00e1 poss\u00edvel orientar o desenvolvimento ps\u00edquico do homem de modo a faz\u00ea-lo superar a psicose do \u00f3dio e da destrui\u00e7\u00e3o? E neste sentido, n\u00e3o penso de forma alguma apenas nas assim chamadas massas incultas Minha experi\u00eancia aponta que \u00e9 a assim denominada <em>intelligentsia<\/em> quem mais cede a estas desastrosas sugest\u00f5es coletivas, pois o intelectual n\u00e3o tem contato direto com a vida concreta, mas a vive na sua forma mais f\u00e1cil e sint\u00e9tica: a p\u00e1gina impressa.<\/p>\n<p>(\u00a7E8) Para concluir: at\u00e9 aqui estive a falar apenas da guerra entre as na\u00e7\u00f5es, os assim chamados conflitos internacionais. Mas estou bem consciente de que a agressividade humana tamb\u00e9m opera em outras formas e sob outras circunst\u00e2ncias (por exemplo, as guerras civis \u2014 que antigamente derivavam de causas religiosas e agora de causas sociais \u2014 e a persegui\u00e7\u00e3o a minorias nacionais). Mas deliberadamente detive-me naquela que \u00e9 a forma mais t\u00edpica, mais cruel e mais desenfreada de conflito entre os homens, pois atrav\u00e9s dela podemos talvez encontrar modos de evitar todos os conflitos belicosos.<\/p>\n<p>(\u00a7E9) Estou certo de que nos seus escritos se podem encontrar, impl\u00edcita e explicitamente, respostas para todas as quest\u00f5es relacionadas a este problema urgente e cativante. Contudo, seria um grande servi\u00e7o a todos se o Senhor abordasse o problema da paz mundial \u00e0 luz de suas mais recentes descobertas, pois tal apresenta\u00e7\u00e3o bem poderia abrir o caminho para novas e frut\u00edferas formas de a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>(\u00a7E10)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Com as mais cordiais sauda\u00e7\u00f5es,<\/p>\n<p>Seu, A. Einstein<\/p>\n<p>________________________<\/p>\n<p><strong>3.2\u00a0 A carta de Freud<\/strong><\/p>\n<p>Viena, em setembro [1932]<\/p>\n<p>Estimado Sr. Einstein!<\/p>\n<p>(\u00a7F1) Quando fui informado de sua inten\u00e7\u00e3o de convidar-me para uma troca de id\u00e9ias sobre um assunto que n\u00e3o apenas fosse do seu interesse, mas que tamb\u00e9m merecesse a curiosidade de outros, concordei prontamente. Esperava que o Senhor escolhesse um problema nas fronteiras do conhecimento atual, um tema que cada um de n\u00f3s, um f\u00edsico e um psic\u00f3logo, pudesse abordar desde seu ponto de vista particular. Por isso, a quest\u00e3o que o Senhor me prop\u00f4s \u2014 como se pode livrar a humanidade da fatalidade das guerras \u2014 tomou-me de surpresa. Em seguida senti-me aturdido ao pensar em minha (quase escrevi <em>nossa<\/em>) incompet\u00eancia sobre este assunto, pois ele me parece uma quest\u00e3o referente \u00e0 a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, portanto, conhecimento pr\u00f3prio de estadistas. Por\u00e9m, ent\u00e3o percebi que o Senhor n\u00e3o estava levantando a quest\u00e3o na qualidade de um f\u00edsico ou cientista, mas como um amante da humanidade, que respondeu ao chamado da Liga das Na\u00e7\u00f5es da mesma forma que Fridtjof Nansen, o explorador polar, assumiu a tarefa de socorrer as v\u00edtimas desabrigadas e famintas da Guerra Mundial. E, em seguida, percebi que eu pr\u00f3prio n\u00e3o estava sendo convidado a dar sugest\u00f5es pr\u00e1ticas, mas sim explicar como a quest\u00e3o da preven\u00e7\u00e3o das guerras \u00e9 vista por um psic\u00f3logo.<\/p>\n<p>(\u00a7F2) Entretanto, mesmo assim, sinto que o Senhor j\u00e1 expressou o principal sobre o assunto. O Senhor roubou o vento de minhas velas, mas sigo com prazer na sua esteira, contentando-me em endossar todas as suas conclus\u00f5es, propondo-me apenas a ampli\u00e1-las no melhor de meu conhecimento ou conjectura.<\/p>\n<p>(\u00a7F3) O Senhor iniciou tratando da rela\u00e7\u00e3o entre o direito e o poder. Certamente este \u00e9 o ponto de partida correto para esta investiga\u00e7\u00e3o. Permita-me apenas, em vez do termo <em>poder<\/em>, empregar uma palavra mais reveladora e dura: <em>for\u00e7a<\/em>. Entre o direito e a for\u00e7a existe hoje um antagonismo, mas \u00e9 f\u00e1cil provar que um nasceu do outro. Quando nos remetemos \u00e0s origens e examinamos as condi\u00e7\u00f5es primitivas o problema se torna claro. Desculpe-me assim, se me refiro a fatos j\u00e1 bem conhecidos e aceitos como se fossem novidade; mas o contexto o demanda que eu assim proceda.<\/p>\n<p>(\u00a7F4) Conflitos de interesses entre os homens s\u00e3o resolvidos, em princ\u00edpio, pelo emprego da for\u00e7a. D\u00e1-se o mesmo em todo o reino animal, do qual o homem n\u00e3o se pode excluir; por\u00e9m, os homens tamb\u00e9m t\u00eam conflitos de opini\u00e3o, que chegam por vezes \u00e0s mais altas esferas do pensamento abstrato, e que parecem exigir outro m\u00e9todo de solu\u00e7\u00e3o. Mas esta \u00e9 uma complica\u00e7\u00e3o que surge mais tarde. Inicialmente, nas pequenas hordas humanas primitivas, era a maior for\u00e7a muscular que decidia quest\u00f5es de propriedade ou de imposi\u00e7\u00e3o da vontade. A for\u00e7a f\u00edsica foi ent\u00e3o amplificada e substitu\u00edda pelo emprego de v\u00e1rios instrumentos; o vencedor era o que melhor arma possu\u00eda, ou aquele que a melhor manejava. Destarte, com o surgimento das armas, a for\u00e7a do intelecto come\u00e7ou a sobrepujar a for\u00e7a bruta. A finalidade da luta, por\u00e9m, continuava a ser a mesma: for\u00e7ar um dos lados, atrav\u00e9s do dano causado a ele, ou do seu enfraquecimento, a desistir de uma demanda ou de uma recusa. Este objetivo era mais eficazmente alcan\u00e7ado quando a for\u00e7a do inimigo era definitivamente vencida, ao ser morto. Este procedimento tem duas vantagens: o inimigo n\u00e3o pode renovar as hostilidades, e, al\u00e9m disso, o seu destino previne que outros sigam seus passos. Ademais, a morte do inimigo satisfaz uma inclina\u00e7\u00e3o pulsional \u2014 um assunto ao qual voltaremos adiante. Entretanto, outra considera\u00e7\u00e3o pode se impor a esta inten\u00e7\u00e3o de matar: a possibilidade de usar o inimigo como escravo ao lhe poupar a vida e abater o esp\u00edrito. Aqui a for\u00e7a encontra express\u00e3o n\u00e3o na mortandade, mas na subjuga\u00e7\u00e3o. Da\u00ed emana a pr\u00e1tica de mostrar merc\u00ea para com o inimigo. Por\u00e9m, o vitorioso, tendo que lidar da\u00ed por diante com o desejo de vingan\u00e7a de sua v\u00edtima, perde uma parcela de sua pr\u00f3pria seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>(\u00a7F5) Portanto, em condi\u00e7\u00f5es primitivas, o dom\u00ednio pertence a quem det\u00e9m o maior poder, apoiado quer na for\u00e7a dos m\u00fasculos, quer na do intelecto. Sabemos que no decorrer da evolu\u00e7\u00e3o este estado de coisas modificou-se, e foi aberto um caminho que se afastou da for\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o ao direito, mas como? Penso que devido a um s\u00f3 fator: que a superior for\u00e7a f\u00edsica de um \u00fanico homem pode ser sobrepujada pela uni\u00e3o de v\u00e1rios fracotes. <em>L\u2019union fait la force<a href=\"#_edn88\" name=\"_ednref88\"><strong>[lxxxviii]<\/strong><\/a><\/em>. A for\u00e7a \u00e9 sobrepujada pela uni\u00e3o, o poder unido de v\u00e1rios indiv\u00edduos imp\u00f5e seu direito contra a for\u00e7a do gigante isolado. Assim vemos que o direito \u00e9 o poder de uma comunidade. Mas ele nada mais \u00e9 do que o uso da for\u00e7a, r\u00e1pida em atacar qualquer um que se coloque como obst\u00e1culo, empregando os mesmos m\u00e9todos, perseguindo os mesmos objetivos, mas com uma diferen\u00e7a: n\u00e3o \u00e9 mais a for\u00e7a de um indiv\u00edduo que se imp\u00f5e, mas a da comunidade. Por\u00e9m, para que ocorra esta transi\u00e7\u00e3o do reino da for\u00e7a para o do direito, uma certa condi\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica precisa antes estabelecer-se. A uni\u00e3o da maioria precisa ser est\u00e1vel e duradoura. Se ela apenas mirar a derrocada de um indiv\u00edduo presun\u00e7oso para ent\u00e3o desaparecer depois de sua queda, de nada servir\u00e1. Algum outro indiv\u00edduo, sabendo-se mais forte, procurar\u00e1 reinstituir o reino da for\u00e7a, e o ciclo assim repetir-se-ia indefinidamente. Desta forma, a uni\u00e3o entre as pessoas precisa ser permanente e bem organizada; deve estabelecer regulamentos para enfrentar o risco de poss\u00edveis revoltas, uma estrutura organizacional que garanta que as regras legisladas sejam cumpridas e que aqueles atos de for\u00e7a impostos pela lei sejam devidamente executados. Este reconhecimento de uma comunidade de interesses produz entre os membros do grupo um sentimento de unidade e de fraterna solidariedade, que \u00e9 onde jaz sua verdadeira for\u00e7a.<\/p>\n<p>(\u00a7F6) Assim, penso que o essencial j\u00e1 est\u00e1 colocado: a supress\u00e3o da for\u00e7a pela transfer\u00eancia de poder para uma unidade maior, fundada na comunh\u00e3o de sentimentos de seus membros. Todo o resto \u00e9 mera repeti\u00e7\u00e3o e coment\u00e1rio. Este procedimento \u00e9 bastante elementar quando a comunidade consiste somente de um determinado n\u00famero de indiv\u00edduos eq\u00fcipolentes. As leis de tal coaliz\u00e3o podem determinar em que medida o indiv\u00edduo deve abdicar de sua liberdade pessoal \u2014 seu direito de usar a for\u00e7a f\u00edsica como instrumento de poder \u2014 para garantir a seguran\u00e7a do grupo. Por\u00e9m, esta situa\u00e7\u00e3o somente \u00e9 poss\u00edvel em teoria. Na pr\u00e1tica as coisas sempre se complicam pelo fato de que, desde o in\u00edcio, a comunidade \u00e9 composta de elementos com poder desigual: homens e mulheres, velhos e crian\u00e7as, e em seguida \u2014 como fruto da guerra e da conquista \u00be, tamb\u00e9m vencedores e vencidos, ou seja, senhores e escravos. A legisla\u00e7\u00e3o da comunidade tomar\u00e1 em conta esta diferen\u00e7a de poder em seu meio: as leis s\u00e3o feitas pelos governantes e em seu benef\u00edcio, enquanto as massas subalternas recebem menos direitos. Da\u00ed em diante, temos dentro da comunidade duas fontes que provocam a instabilidade da lei, mas tamb\u00e9m sua evolu\u00e7\u00e3o. Em primeiro lugar, as tentativas por parte de membros da classe governante para se manterem acima das restri\u00e7\u00f5es impostas a todos \u00be num regresso do reino do direito para o reino da for\u00e7a \u00be e, em segundo lugar, os esfor\u00e7os constantes dos oprimidos para obterem mais poder e para ver essas mudan\u00e7as incorporadas na lei, substituindo as desigualdades por leis eq\u00fcitativas para todos. A segunda dessas tend\u00eancias ser\u00e1 especialmente marcante quando ocorre uma mudan\u00e7a genu\u00edna no balan\u00e7o de poder dentro da comunidade, que \u00e9 o resultado freq\u00fcente de determinadas condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. Em tais casos, a Lei pode ser gradualmente ajustada \u00e0s novas circunst\u00e2ncias da divis\u00e3o de poder, ou, o que ocorre mais frequentemente, a classe dominante n\u00e3o se mostra disposta a realizar estas mudan\u00e7as no Direito, o que d\u00e1 origem a insurrei\u00e7\u00f5es e guerras civis, um per\u00edodo no qual a Lei fica em suspenso e se experimenta um novo balan\u00e7o de poder, para ent\u00e3o surgir um novo regime de direito. H\u00e1 tamb\u00e9m uma outra fonte de mudan\u00e7a jur\u00eddica, que se expressa numa forma bem mais pac\u00edfica, e que se d\u00e1 atrav\u00e9s da transforma\u00e7\u00e3o cultural dos membros da comunidade; mas este fator \u00e9 uma circunst\u00e2ncia que s\u00f3 podemos tratar mais adiante.<\/p>\n<p>(\u00a7F7) Vemos, portanto, que mesmo dentro de uma comunidade o ajustamento pela for\u00e7a n\u00e3o pode ser evitado quando conflitos de interesse est\u00e3o em jogo. Mas as necessidades e h\u00e1bitos compartilhados por aqueles que vivem unidos numa mesma terra tendem a propiciar uma solu\u00e7\u00e3o expedita para estas lutas, e, assim sendo, as possibilidades de solu\u00e7\u00f5es pac\u00edficas progridem continuamente. Por\u00e9m, a mais r\u00e1pida mirada \u00e0 hist\u00f3ria do mundo demonstra uma s\u00e9rie ininterrupta de conflitos entre uma comunidade e outra, ou entre um grupo e outro, entre unidades maiores e menores, entre cidades, pa\u00edses, ra\u00e7as, tribos e reinos, os quais foram geralmente resolvidos atrav\u00e9s da medi\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que se d\u00e1 na guerra. Estas guerras terminam \u00be ou em pilhagem ou em conquista e seus frutos \u00be com a queda do vencido. N\u00e3o se podem colocar todas estas guerras de conquista numa mesma categoria. Algumas, como a guerra entre os mong\u00f3is e os turcos, s\u00f3 trouxeram mis\u00e9ria, mas outras apressaram a transi\u00e7\u00e3o da for\u00e7a para a Lei, pois criaram unidades sociais maiores, dentro de cujos limites o uso da for\u00e7a era proibido e um novo regime de direito resolvia as disputas. Desta forma, a conquista romana trouxe aquela bonan\u00e7a \u2014 a <em>pax romana<\/em> \u2014 \u00e0s terras do Mediterr\u00e2neo. A sede de grandeza dos reis franceses criou uma nova Fran\u00e7a, que floresceu em paz e unidade. Assim, por paradoxal que seja, temos de admitir que a guerra pode servir de caminho para aquela paz perp\u00e9tua que tanto desejamos, pois a guerra constr\u00f3i vastos imp\u00e9rios dentro de cujas fronteiras toda guerra \u00e9 proscrita por um poder central forte. Na pr\u00e1tica, por\u00e9m, este objetivo n\u00e3o \u00e9 alcan\u00e7ado, pois os frutos da vit\u00f3ria n\u00e3o s\u00e3o duradouros. Geralmente, as unidades rec\u00e9m-criadas fragmentam-se novamente, porque n\u00e3o pode haver verdadeira coes\u00e3o entre as partes unidas pela viol\u00eancia. Al\u00e9m disso, at\u00e9 aqui tais conquistas apenas produziram unifica\u00e7\u00f5es que, apesar de suas dimens\u00f5es, eram parciais, e as disputas entre tais unidades somente podia ser resolvida pelas armas. Para a humanidade em geral, o \u00fanico resultado destas campanhas militares foi que, em vez de freq\u00fcentes \u2014 para n\u00e3o dizer incessantes \u2014 pequenas guerras, os povos tinham de enfrentar grandes guerras que, apesar de virem com menor freq\u00fc\u00eancia, eram muito mais destruidoras.<\/p>\n<p>(\u00a7F8) Com rela\u00e7\u00e3o ao mundo de hoje, a mesma conclus\u00e3o se imp\u00f5e, e o Senhor tamb\u00e9m j\u00e1 chegou a ela, mas atrav\u00e9s de um caminho mais curto. S\u00f3 existe realmente uma forma segura de se eliminar a guerra, e esta \u00e9 o estabelecimento volunt\u00e1rio de um poder central que tenha a palavra final em todos os conflitos de interesse. Para que assim seja, duas coisas s\u00e3o necess\u00e1rias: primeiro, que tal corte suprema seja estabelecida, e, segundo, que disponha de adequado poder executivo. A menos que o segundo requisito seja atendido, de nada vale o primeiro. \u00c9 \u00f3bvio que a Liga das Na\u00e7\u00f5es, atuando como uma corte suprema, preenche a primeira condi\u00e7\u00e3o; mas n\u00e3o a segunda. Ela n\u00e3o disp\u00f5e de poder pr\u00f3prio e apenas pode obt\u00ea-lo quando os membros da nova institui\u00e7\u00e3o, seus estados constituintes, o fornecem. E, pelo estado das coisas, esta \u00e9 uma esperan\u00e7a v\u00e3. Contudo, estar\u00edamos tendo uma vis\u00e3o muito m\u00edope da Liga das Na\u00e7\u00f5es se ignor\u00e1ssemos o fato de que ela representa uma experi\u00eancia que poucas vezes \u2014 nunca, talvez, nesta escala \u2014 foi tentada no curso da hist\u00f3ria. \u00c9 um esfor\u00e7o de conquistar a autoridade \u2014 ou seja, influ\u00eancia coercitiva \u00be, que at\u00e9 aqui repousava exclusivamente na posse do poder, atrav\u00e9s da evoca\u00e7\u00e3o de determinados princ\u00edpios idealistas. Como vimos, h\u00e1 dois fatores que podem manter a unidade de uma comunidade: a compuls\u00e3o da for\u00e7a ou os la\u00e7os de sentimentos \u2014 em termos t\u00e9cnicos: la\u00e7os de identifica\u00e7\u00e3o \u2014 entre seus membros. Se um desses fatores se torna inoperante, o outro ainda pode ser suficiente para manter o grupo unido. \u00c9 claro que no\u00e7\u00f5es como estas s\u00f3 s\u00e3o significativas quando expressam um profundo senso de unidade compartilhado por todos. A quest\u00e3o \u00e9, pois, qu\u00e3o fortes eles s\u00e3o. A hist\u00f3ria mostra que em determinadas ocasi\u00f5es eles foram eficazes. Por exemplo, a concep\u00e7\u00e3o pan-hel\u00eanica, a id\u00e9ia grega de sua superioridade sobre os vizinhos b\u00e1rbaros, manifesta nos anfiteatros, nos or\u00e1culos e nos jogos, foi suficientemente forte para humanizar os m\u00e9todos de guerra entre os gregos, embora tenha falhado sempre para prevenir os conflitos entre os diversos elementos do povo hel\u00eanico ou mesmo para deter uma cidade, ou grupo de cidades, de juntar for\u00e7as com seus inimigos, os persas, para sobrepujar um rival. A solidariedade crist\u00e3 na Renascen\u00e7a n\u00e3o foi mais eficaz, apesar de sua vasta autoridade, em impedir as na\u00e7\u00f5es crist\u00e3s, grandes ou pequenas, de conclamar a ajuda do sult\u00e3o. Tampouco em nosso tempo se pode encontrar alguma no\u00e7\u00e3o cuja autoridade unificadora seja inquestion\u00e1vel. \u00c9 absolutamente claro que as id\u00e9ia nacionalistas, preponderantes hoje em dia entre o povo, operam numa dire\u00e7\u00e3o bem oposta. Alguns defendem que as id\u00e9ias bolcheviques possam trazer um fim \u00e0 guerra, mas, no estado atual das coisas, esta meta jaz muito longe e, talvez, somente poderia ser alcan\u00e7ada depois de uma explos\u00e3o de brutal guerra civil. Desta forma, parece que qualquer esfor\u00e7o para substituir o poder concreto pelo poder das id\u00e9ias est\u00e1, nas atuais condi\u00e7\u00f5es, destinado ao fracasso. Nosso racioc\u00ednio estaria equivocado se n\u00e3o reconhec\u00eassemos o fato de que o direito nasce da for\u00e7a bruta e que mesmo hoje em dia ele n\u00e3o pode subsistir sem a for\u00e7a.<\/p>\n<p>(\u00a7F9) Posso agora comentar sobre outra de suas quest\u00f5es. O Senhor se diz espantado com o fato de ser t\u00e3o f\u00e1cil entusiasmar os homens para a guerra, e conjectura que deve haver neles uma puls\u00e3o para o \u00f3dio e a destrui\u00e7\u00e3o que \u00e9 mobilizada por este est\u00edmulo. Aqui, outra vez, s\u00f3 posso concordar plenamente com o Senhor. N\u00f3s acreditamos na exist\u00eancia de tal puls\u00e3o e nos \u00faltimos anos temos nos dedicado a estudar suas manifesta\u00e7\u00f5es. Permita-me compartilhar com o Senhor uma por\u00e7\u00e3o deste conhecimento das puls\u00f5es, o qual n\u00f3s na Psican\u00e1lise adquirimos apenas depois de muito vacilar e tatear. Entendemos que existem dois tipos de puls\u00e3o nos seres humanos: uma que preserva e une \u2014 a qual chamamos de er\u00f3tica, no sentido do Eros nos Di\u00e1logos de Plat\u00e3o, ou sexual, numa consciente amplia\u00e7\u00e3o do sentido popular de sexualidade \u2014 e outra que busca a destrui\u00e7\u00e3o e a morte, que n\u00f3s apreendemos em conjunto como puls\u00e3o de agress\u00e3o ou puls\u00e3o de destrui\u00e7\u00e3o. Estas s\u00e3o, como o Senhor pode perceber, simplesmente as transfigura\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas dos bem conhecidos opostos: Amor e \u00d3dio, que talvez sejam outro aspecto das eternas polaridades de atra\u00e7\u00e3o e repuls\u00e3o, que desempenham um papel no seu campo de estudo. Por\u00e9m, temos de ter cuidado para n\u00e3o passar apressadamente \u00e0s valoriza\u00e7\u00f5es de Bem e Mal. Cada uma destas puls\u00f5es \u00e9 t\u00e3o essencial quanto a outra, e todos os fen\u00f4menos da vida derivam de sua atividade, seja quando atuam em conjunto, seja em oposi\u00e7\u00e3o. Parece que uma puls\u00e3o de cada uma das categorias raramente atua de forma isolada; ela sempre est\u00e1 mesclada \u2014 soldada, como n\u00f3s dizemos \u2014, com certa dose da outra, que modifica sua inten\u00e7\u00e3o e, em certas circunst\u00e2ncias, chega a ser uma condi\u00e7\u00e3o essencial para cumprir seu objetivo. Assim, a puls\u00e3o de autopreserva\u00e7\u00e3o \u00e9, certamente, de uma natureza er\u00f3tica, mas para alcan\u00e7ar seus objetivos esta mesma puls\u00e3o necessita de a\u00e7\u00e3o agressiva. Da mesma forma, a puls\u00e3o de amor, quando direcionada a um objeto espec\u00edfico, requer uma mescla com a puls\u00e3o de posse, se quiser realmente entrar numa rela\u00e7\u00e3o efetiva com aquele objeto. Foi a dificuldade de isolar as manifesta\u00e7\u00f5es das duas puls\u00f5es que nos impediram, por tanto tempo, de conhec\u00ea-las.<\/p>\n<p>(\u00a7F10)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Se o Senhor me acompanhar um pouco mais longe neste caminho, perceber\u00e1 que as a\u00e7\u00f5es humanas se complicam por ainda outro fator. Apenas excepcionalmente uma a\u00e7\u00e3o emana do est\u00edmulo de uma \u00fanica puls\u00e3o, sendo em geral, necessariamente, uma liga de Eros e destrutividade. Via de regra, uma combina\u00e7\u00e3o de diversos motivos de constitui\u00e7\u00e3o assemelhada juntam-se para produzir a a\u00e7\u00e3o. Este fato foi corretamente percebido por um colega seu, o Professor G. C. Lichtenberg, numa ocasi\u00e3o professor de f\u00edsica na Universidade de G\u00f6ttingen; ele foi, talvez, ainda mais eminente como psic\u00f3logo do que como f\u00edsico. Ele desenvolveu a no\u00e7\u00e3o de rosa-dos-ventos da motiva\u00e7\u00e3o e escreveu: \u201cOs motivos que fazem o homem agir podem ser classificadas como os trinta e dois ventos e podem ser descritos da mesma maneira, por exemplo, p\u00e3o-p\u00e3o-gl\u00f3ria ou gl\u00f3ria-gl\u00f3ria-p\u00e3o.\u201d Assim, quando os homens s\u00e3o chamados \u00e0 guerra, uma vasta gama de motivos humanos \u00e9 neles mobilizada por este apelo \u2014 alguns nobres, outros comuns; alguns sobre os quais se fala abertamente, outros sobre os quais se silencia. N\u00e3o temos aqui ocasi\u00e3o para desnud\u00e1-los todos ao Senhor. O desejo de agress\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o certamente est\u00e1 entre eles; as in\u00fameras crueldades registradas na hist\u00f3ria e na vida di\u00e1ria dos homens confirmam sua exist\u00eancia e sua for\u00e7a. O est\u00edmulo a estas tend\u00eancias<a href=\"#_edn89\" name=\"_ednref89\">[lxxxix]<\/a> destrutivas atrav\u00e9s de apelos a outras propens\u00f5es de cunho idealista e er\u00f3tico com certeza facilita sua satisfa\u00e7\u00e3o. Se ponderarmos sobre as atrocidades registradas nas p\u00e1ginas da hist\u00f3ria, perceberemos que a motiva\u00e7\u00e3o idealista seguidamente serviu de apelo camuflado para o apetite de destrui\u00e7\u00e3o; algumas vezes, como nas crueldades cometidas durante a Inquisi\u00e7\u00e3o, pensamos que enquanto as motiva\u00e7\u00f5es idealistas ocupavam a fachada da consci\u00eancia, elas derivavam sua for\u00e7a das motiva\u00e7\u00f5es destrutivas submersas no inconsciente. Ambas as interpreta\u00e7\u00f5es s\u00e3o poss\u00edveis.<\/p>\n<p>(\u00a7F11)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Sei que o Senhor est\u00e1 interessado na preven\u00e7\u00e3o da guerra e n\u00e3o em nossas teorias. Apesar disso, gostaria de me deter um pouco mais nesta puls\u00e3o de destrui\u00e7\u00e3o, pois ela poucas vezes recebe a aten\u00e7\u00e3o que merece. Mesmo com pouca especula\u00e7\u00e3o, somos levados a concluir que esta puls\u00e3o trabalha dentro de todos os seres vivos buscando sua ru\u00edna, de modo a fazer a vida retornar ao seu estado primitivo de mat\u00e9ria inerte. Em verdade, ela pode, ser com toda a seriedade, ser nomeada como uma puls\u00e3o de morte, enquanto as puls\u00f5es er\u00f3ticas representam a luta pela vida. A puls\u00e3o de morte se torna puls\u00e3o de destrui\u00e7\u00e3o quando, com a ajuda de outros \u00f3rg\u00e3os, dirige sua a\u00e7\u00e3o para fora, contra objetos externos. Os seres vivos, por assim dizer, defendem sua exist\u00eancia atrav\u00e9s da destrui\u00e7\u00e3o do estranho. Por\u00e9m, uma parcela da puls\u00e3o de morte permanece atuando dentro do ser vivo, e n\u00f3s nos esfor\u00e7amos por associar uma s\u00e9rie de fen\u00f4menos naturais e patol\u00f3gicos a esta introvers\u00e3o da puls\u00e3o de destrui\u00e7\u00e3o. At\u00e9 mesmo cometemos a heresia de explicar a origem da consci\u00eancia humana como sendo uma dessas introvers\u00f5es da agress\u00e3o. \u00c9 claro que quando este processo opera numa escala excessiva temos uma situa\u00e7\u00e3o verdadeiramente m\u00f3rbida; enquanto que a libera\u00e7\u00e3o destas for\u00e7as pulsionais de destrui\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao mundo exterior deve ter um efeito prazeroso. Aqui, pois, est\u00e3o as justifica\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas de todas aquelas propens\u00f5es feias e perigosas contra as quais lutamos. \u00c9 preciso reconhecer que elas se encontram mais perto da Natureza do que nossa avers\u00e3o a elas, um fato que tamb\u00e9m precisamos ainda esclarecer.<\/p>\n<p>(\u00a7F12)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Talvez o Senhor tenha a impress\u00e3o de que nossas teorias sejam uma esp\u00e9cie de mitologia, e uma n\u00e3o muito alvissareira. Mas acaso todas as ci\u00eancias naturais n\u00e3o levam afinal a isso, uma esp\u00e9cie de mitologia? Hoje em dia n\u00e3o ocorre o mesmo com a sua F\u00edsica?<\/p>\n<p>(\u00a7F13)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Como corol\u00e1rio dessas observa\u00e7\u00f5es, no que diz respeito ao assunto em quest\u00e3o, vemos que n\u00e3o parece haver nenhuma possibilidade de suprimirmos as tend\u00eancias agressivas dos homens. Dizem que em algumas regi\u00f5es felizes do mundo, onde a natureza prov\u00ea abundantemente tudo aquilo que os homens necessitam, florescem ra\u00e7as cujas vidas correm gentis, sem conhecimento da coer\u00e7\u00e3o ou da agress\u00e3o. Mal posso nisso acreditar e necessitaria de mais detalhes a respeito deste povo feliz. Os bolcheviques, da mesma forma, anseiam eliminar a agressividade humana pela satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades materiais e pelo estabelecimento da igualdade entre os homens. Para mim isto \u00e9 uma ilus\u00e3o. Enquanto isso eles se armam meticulosamente, e seu \u00f3dio contra todos os estranhos n\u00e3o \u00e9 o mais insignificante de seus fatores de coes\u00e3o interna. Em todo o caso, como o Senhor mesmo observou, a total supress\u00e3o das tend\u00eancias agressivas humanas n\u00e3o \u00e9 o que est\u00e1 em quest\u00e3o, mas sim como redirecion\u00e1-las a outras manifesta\u00e7\u00f5es que n\u00e3o a guerra.<\/p>\n<p>(\u00a7F14)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 De nossas mitol\u00f3gicas li\u00e7\u00f5es das puls\u00f5es podemos facilmente deduzir uma f\u00f3rmula simples de um caminho indireto para a elimina\u00e7\u00e3o da guerra. Se a propens\u00e3o para a guerra emana da puls\u00e3o de destrui\u00e7\u00e3o, temos bem perto seu oponente, Eros, para nos ajudar. Tudo o que produz la\u00e7os de afeto entre os homens nos serve como ant\u00eddoto da guerra. Esses la\u00e7os podem ser de duas esp\u00e9cies. Em primeiro lugar, aquelas rela\u00e7\u00f5es para com um objeto de amor, embora sem conte\u00fado sexual. O psic\u00f3logo n\u00e3o precisa se sentir envergonhado de aqui falar de amor, na mesma linguagem empregada pela religi\u00e3o: ama teu pr\u00f3ximo como a ti mesmo. Isto \u00e9 f\u00e1cil de dizer, mas dif\u00edcil de p\u00f4r em pr\u00e1tica. O outro tipo de la\u00e7o emocional \u00e9 aquele por meio da identifica\u00e7\u00e3o. Tudo o que p\u00f5e em evid\u00eancia as significativas semelhan\u00e7as entre os homens mobiliza este sentimento de comunidade, a identifica\u00e7\u00e3o. Nele est\u00e1 fundado, em grande medida, todo o edif\u00edcio da sociedade humana.<\/p>\n<p>(\u00a7F15)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Numa de suas cr\u00edticas a respeito do abuso de autoridade eu encontro uma segunda deixa para um ataque indireto \u00e0 propens\u00e3o para a guerra. Que os homens se dividem entre l\u00edderes e liderados \u00e9 apenas mais uma manifesta\u00e7\u00e3o de sua desigualdade inata e irremedi\u00e1vel. A segunda classe de homens constitui a imensa maioria, e necessita de uma autoridade que tome as decis\u00f5es por ela, \u00e0s quais geralmente se curva sem contesta\u00e7\u00e3o. Neste contexto, poder\u00edamos dizer que ter\u00edamos que nos empenhar mais do que no passado para criar uma classe superior de pensadores independentes, imunes \u00e0 intimida\u00e7\u00e3o e fervorosos na busca da verdade, cuja fun\u00e7\u00e3o seria guiar as massas dependentes de sua lideran\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio mencionar o quanto a intromiss\u00e3o das for\u00e7as do estado e a proibi\u00e7\u00e3o da liberdade de pensamento por parte da Igreja desencoraja tal desenvolvimento. As condi\u00e7\u00f5es ideais seriam obviamente encontradas em uma comunidade onde cada homem subordinasse sua vida pulsional aos ditames da raz\u00e3o. Nada menos do que isso poderia criar tal uni\u00e3o completa e duradoura entre os homens, dessa forma garantindo os la\u00e7os emocionais entre eles. Mas isso \u00e9 muito provavelmente uma esperan\u00e7a ut\u00f3pica. Os outros caminhos que podem indiretamente prevenir a guerra s\u00e3o mais fact\u00edveis, mas sem resultados r\u00e1pidos. Eles evocam o pensamento ingrato de moinhos a moer t\u00e3o lentamente que antes de a farinha estar pronta os homens j\u00e1 morreram de fome.<\/p>\n<p>(\u00a7F16)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Como o Senhor pode notar, pouco se consegue a respeito de assuntos pr\u00e1ticos e urgentes ao consultar um te\u00f3rico afastado do mundo. Melhor seria lidar com cada crise sucessiva com os meios que j\u00e1 temos em m\u00e3os. Entretanto, gostaria ainda de tratar de uma quest\u00e3o que me interessa grandemente, apesar de n\u00e3o ser levantada por sua carta. Por que \u00e9 que n\u00f3s dois, e tantos outros, nos revoltamos t\u00e3o veementemente contra a guerra, em vez de simplesmente aceit\u00e1-la como mais uma das dolorosas desgra\u00e7as da vida? Afinal, ela, de fato, parece ser uma coisa natural, plenamente fundada na biologia e praticamente inevit\u00e1vel. N\u00e3o se espante com minha coloca\u00e7\u00e3o. Para a melhor condu\u00e7\u00e3o de uma investiga\u00e7\u00e3o pode ser adequado usar uma m\u00e1scara de falsa indiferen\u00e7a. A resposta pode ser a seguinte: \u00e9 porque todo homem tem o direito sobre sua pr\u00f3pria vida e a guerra destr\u00f3i vidas cheias de promessas. Ela for\u00e7a o indiv\u00edduo a situa\u00e7\u00f5es que humilham sua natureza, obrigando-o a matar seus semelhantes contra sua vontade. Ela destr\u00f3i as amenidades materiais, os frutos do esfor\u00e7o humano, e tudo o mais. Al\u00e9m disso, as guerras, como hoje s\u00e3o conduzidas, n\u00e3o oferecem espa\u00e7o para atos de hero\u00edsmo como os antigos ideais prescreviam, e, dada a alta sofistica\u00e7\u00e3o dos armamentos modernos, a guerra hoje representaria o total exterm\u00ednio de um dos combatentes, se n\u00e3o de ambos. Isso \u00e9 t\u00e3o verdadeiro e t\u00e3o \u00f3bvio que n\u00e3o se entende como \u00e9 que a pr\u00e1tica da guerra n\u00e3o foi banida atrav\u00e9s de uma decis\u00e3o coletiva da humanidade. Com certeza, podem-se questionar ambos os pontos aqui levantados. Pode-se perguntar se a comunidade n\u00e3o tem direito sobre a vida individual de cada um de seus membros. Al\u00e9m disso, nem todas as formas de guerra podem ser igualmente condenadas. Enquanto houver na\u00e7\u00f5es e imp\u00e9rios, cada um preparado insensivelmente para exterminar seu rival, todos precisam estar armados para a guerra. Mas n\u00e3o nos deteremos em nenhum desses problemas; eles n\u00e3o fazem parte do escopo do debate para o qual o Senhor me convidou. Passo para outro tema; creio que a principal raz\u00e3o pela qual nos revoltamos contra a guerra \u00e9 que n\u00e3o temos outra escolha. Somos pacifistas porque temos de s\u00ea-lo por raz\u00f5es org\u00e2nicas. \u00c9 por essa raz\u00e3o que nos \u00e9 f\u00e1cil apresentar argumentos que justificam nosso ponto de vista.<\/p>\n<p>(\u00a7F17)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Este ponto, por\u00e9m, requer elucida\u00e7\u00e3o. Eis como entendo a quest\u00e3o. O desenvolvimento cultural da humanidade (alguns, bem sei, preferem cham\u00e1-lo de civiliza\u00e7\u00e3o) tem estado em progresso desde a antiguidade imemorial. A este processo devemos tudo o que h\u00e1 de melhor em n\u00f3s, mas tamb\u00e9m uma boa medida daquilo que nos faz sofrer. Suas origens e causas s\u00e3o obscuras, seu resultado incerto, mas algumas de suas caracter\u00edsticas s\u00e3o f\u00e1ceis de perceber. Ele bem pode levar ao exterm\u00ednio da esp\u00e9cie humana, pois prejudica a fun\u00e7\u00e3o sexual em mais de um sentido, e ainda hoje as ra\u00e7as incivilizadas e as classes atrasadas de todas as na\u00e7\u00f5es multiplicam-se mais rapidamente do que os segmentos dotados de cultura. Este processo talvez possa ser comparado aos efeitos da domestica\u00e7\u00e3o de certos animais \u2014 ele certamente produz mudan\u00e7as na estrutura f\u00edsica \u2014 mas a vis\u00e3o de que o desenvolvimento cultural \u00e9 um processo org\u00e2nico desta natureza ainda n\u00e3o se tornou familiar. As mudan\u00e7as ps\u00edquicas que acompanham este processo s\u00e3o not\u00e1veis e inequ\u00edvocas. Elas consistem na rejei\u00e7\u00e3o progressiva das metas pulsionais e em um decr\u00e9scimo nas rea\u00e7\u00f5es pulsionais. Sensa\u00e7\u00f5es que deleitavam nossos antepassados tornaram-se neutras ou intoler\u00e1veis para n\u00f3s; e, se nossos ideais \u00e9ticos e est\u00e9ticos se transformaram, as causas dessa mudan\u00e7a s\u00e3o, em \u00faltima inst\u00e2ncia, org\u00e2nicas. No que tange o aspecto psicol\u00f3gico da cultura, dois dos fen\u00f4menos mais importantes s\u00e3o, primeiro, um fortalecimento do intelecto, que tende a comandar nossa vida pulsional e, em segundo lugar, uma introvers\u00e3o da tend\u00eancia agressiva, com todos os seus conseq\u00fcentes benef\u00edcios e perigos. A guerra vai enfaticamente contra o ajustamento ps\u00edquico imposto a n\u00f3s pelo processo cultural; \u00e9 por isso que necessariamente nos opomos a ela e a consideramos totalmente intoler\u00e1vel. Para pacifistas como n\u00f3s, n\u00e3o se trata apenas de uma avers\u00e3o intelectual ou afetiva, mas de uma intoler\u00e2ncia constitucional, uma idiossincrasia do tipo mais radical. E tamb\u00e9m parece que esta repugn\u00e2ncia \u00e9 causada quase tanto pelas indignidades est\u00e9ticas da guerra quanto por suas atrocidades.<\/p>\n<p>(\u00a7F18)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quanto tempo levar\u00e1 para que toda a humanidade se torne pacifista? Imposs\u00edvel prever, mas n\u00e3o s\u00e3o quim\u00e9ricas nossas esperan\u00e7as de que estes dois fatores \u2014 o ajustamento cultural e um bem-fundado temor quanto \u00e0 forma de futuras guerras \u2014 possam acabar com a guerra num futuro n\u00e3o muito distante. Por\u00e9m, n\u00e3o podemos dizer atrav\u00e9s de quais caminhos ou desvios isso ocorrer\u00e1. Neste meio tempo, podemos ficar certos de que tudo o que promove o desenvolvimento cultural trabalha ao mesmo tempo contra a guerra.<\/p>\n<p>(\u00a7F19)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Cumprimento-o cordialmente e pe\u00e7o suas desculpas caso minha exposi\u00e7\u00e3o lhe cause desapontamento.<\/p>\n<p>Seu,<\/p>\n<p>Sigmund Freud<\/p>\n<p>*********************<\/p>\n<p>No pr\u00f3ximo cap\u00edtulo, passamos \u00e0 an\u00e1lise das id\u00e9ias de Einstein e de Freud sobre a guerra e a paz a partir do <em>corpus<\/em> central oferecido por estas duas cartas publicadas em 1932.<\/p>\n<blockquote><p><em>Em 12 de junho de 1812 os ex\u00e9rcitos ocidentais transpuseram as fronteiras da R\u00fassia e come\u00e7aram a guerra, quer dizer, um acontecimento contr\u00e1rio \u00e0 raz\u00e3o e \u00e0 natureza humana. Milh\u00f5es de homens foram cometer uns contra os outros mais crimes \u00be mentiras, trai\u00e7\u00f5es, roubos, emiss\u00f5es de moedas falsas, pilhagens, inc\u00eandios e assass\u00ednios \u00be do que cont\u00eam, h\u00e1 s\u00e9culos, os arquivos de todos os tribunais do mundo, enquanto durante esse per\u00edodo os homens culpados desses crimes n\u00e3o os consideravam como tais.<a href=\"#_edn90\" name=\"_ednref90\">[xc]\u00a0<\/a><\/em><em>&#8211;<\/em>&#8211; Leon Tolstoi<\/p>\n<p><em>O caminho de ouro \u00e9 fazer as pazes com todo o mundo e considerar a inteira fam\u00edlia humana como uma s\u00f3 fam\u00edlia.<a href=\"#_edn91\" name=\"_ednref91\">[xci]\u00a0<\/a><\/em><em>&#8212; <\/em>Mahatma Gandhi<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>4\u00a0 quadro a quadro: guerra e paz em einstein e freud<\/strong><\/p>\n<p>Nas an\u00e1lises que se seguem, confrontamos as id\u00e9ias de Einstein e de Freud sobre as causas da guerra e as possibilidades da paz assim como as expressam em <em>Warum Krieg?<\/em>, tomando como categorias de an\u00e1lise os postulados centrais de ambos em sua correspond\u00eancia de 1932. Ao mesmo tempo, cotejamos suas id\u00e9ias com a estrutura anal\u00edtica oferecida pela categoriza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea de Norberto Bobbio<a href=\"#_edn92\" name=\"_ednref92\">[xcii]<\/a> para os v\u00e1rios tipos de pacifismo, ou, em suas palavras, as \u201cvias da paz\u201d. Dessa maneira, testamos a atualidade dos pensamentos expressos por Einstein e Freud na correspond\u00eancia e, conseq\u00fcentemente, sua relev\u00e2ncia para os esfor\u00e7os contempor\u00e2neos de educa\u00e7\u00e3o para a Cultura de Paz.<\/p>\n<p>As dez id\u00e9ias centrais que identificamos em <em>Warum Krieg?<\/em> e que tomamos como categorias de an\u00e1lise s\u00e3o: 1) o conceito de paz e de guerra, 2) a id\u00e9ia de um estado mundial supranacional, 3) a quest\u00e3o da justifica\u00e7\u00e3o da guerra, 4) a quest\u00e3o da guerra e da paz em sua rela\u00e7\u00e3o com a mudan\u00e7a social, 5) a no\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a qualitativa da guerra no s\u00e9culo XX, 6) a rela\u00e7\u00e3o entre as puls\u00f5es de agress\u00e3o e a guerra, 7) os la\u00e7os de sentimentos, unidade e fraternidade que podem servir como ant\u00eddoto da guerra, 8) a rela\u00e7\u00e3o entre civiliza\u00e7\u00e3o e cultura e a guerra e a paz, 9) a quest\u00e3o freudiana do desenvolvimento cultural como um processo org\u00e2nico e 10) a rela\u00e7\u00e3o entre as lideran\u00e7as sociais e as possibilidades da paz.<\/p>\n<p>Passemos, pois, \u00e0 an\u00e1lise.<\/p>\n<p><strong>4.1\u00a0 Conceitos de paz e de guerra<\/strong><\/p>\n<p>Logo no in\u00edcio de sua carta, Einstein prop\u00f5e a Freud <em>a pergunta que n\u00e3o quer calar<\/em>: \u201ch\u00e1 alguma forma de livrar a humanidade da amea\u00e7a da guerra?\u201d<a href=\"#_edn93\" name=\"_ednref93\">[xciii]<\/a> Nesta coloca\u00e7\u00e3o, Einstein delimita o campo de investiga\u00e7\u00e3o que est\u00e1 propondo a Freud<a href=\"#_edn94\" name=\"_ednref94\">[xciv]<\/a>. Embora reconhe\u00e7a que a \u201cagressividade humana\u201d<a href=\"#_edn95\" name=\"_ednref95\">[xcv]<\/a> tamb\u00e9m opera em muitas outras formas e circunst\u00e2ncias, como as guerras civis e a persegui\u00e7\u00e3o a minorias nacionais<a href=\"#_edn96\" name=\"_ednref96\">[xcvi]<\/a>, Einstein prop\u00f5e a Freud que o tema da discuss\u00e3o enfoque a guerra entre as na\u00e7\u00f5es, pois esta \u00e9 \u201ca forma mais t\u00edpica, mais cruel e mais desenfreada de conflito entre os homens\u201d<a href=\"#_edn97\" name=\"_ednref97\">[xcvii]<\/a>.<\/p>\n<p>Norberto Bobbio argumenta que, em geral, o termo <em>paz<\/em> tem dois campos bem definidos de significado: a paz <em>interna<\/em>, e a paz <em>externa<\/em><a href=\"#_edn98\" name=\"_ednref98\">[xcviii]<\/a>. Na sua acep\u00e7\u00e3o mais geral, paz significa aus\u00eancia (ou cessa\u00e7\u00e3o, solu\u00e7\u00e3o, etc.) de um conflito. Por <em>paz<\/em> <em>interna<\/em> [ou interior] entende-se a aus\u00eancia (ou cessa\u00e7\u00e3o, etc.) de um conflito interno, no qual por <em>interno<\/em> entende-se um conflito entre comportamentos ou atitudes do mesmo ator<a href=\"#_edn99\" name=\"_ednref99\">[xcix]<\/a>. Por <em>paz externa<\/em>, entende-se a aus\u00eancia (ou cessa\u00e7\u00e3o, etc.) de um conflito externo, no qual por <em>externo <\/em>entende-se um conflito entre indiv\u00edduos ou grupos diferentes<a href=\"#_edn100\" name=\"_ednref100\">[c]<\/a>.<\/p>\n<p>Quando Einstein prop\u00f5e a quest\u00e3o a Freud, portanto, ele delimita o conceito ainda mais: n\u00e3o est\u00e1 abordando a paz que resulta da cessa\u00e7\u00e3o da \u201cguerra\u201d entre grupos humanos de qualquer natureza, como \u201cguerra civil\u201d, ou \u201cguerra comercial\u201d. Ele se refere especificamente \u00e0 paz que p\u00f5e fim \u00e0quele tipo particular de conflito que \u00e9 a guerra entre estados independentes e soberanos.<\/p>\n<p>Norberto Bobbio chama a aten\u00e7\u00e3o para os conceitos <em>negativo<\/em> e <em>positivo<\/em> de paz, salientando a import\u00e2ncia, nos tempos atuais, de se assumir o conceito positivo, e n\u00e3o simplesmente o negativo. O conceito negativo define paz com <em>n\u00e3o-guerra<\/em>, j\u00e1 o conceito positivo, segundo Bobbio, tem duas vertentes: a) t\u00e9cnico-jur\u00eddica e b) teol\u00f3gico-filos\u00f3fica. Na vertente t\u00e9cnico-jur\u00eddica, a paz positiva \u00e9 aquela que considera as condi\u00e7\u00f5es formais com base nas quais uma guerra pode ser conclu\u00edda de modo est\u00e1vel. Por\u00e9m, nesta defini\u00e7\u00e3o \u201cn\u00e3o h\u00e1 nada que permita distinguir uma paz justa de uma paz injusta\u201d<a href=\"#_edn101\" name=\"_ednref101\">[ci]<\/a>. A import\u00e2ncia da defini\u00e7\u00e3o teol\u00f3gico-filos\u00f3fica da paz positiva \u00e9 que \u201cs\u00f3 a paz com justi\u00e7a merece ser chamada propriamente paz; enquanto a paz injusta \u00e9 apenas um simulacro de paz, uma paz aparente, uma paz impropriamente dita\u201d<a href=\"#_edn102\" name=\"_ednref102\">[cii]<\/a>.<\/p>\n<p>Bobbio tamb\u00e9m apresenta uma abordagem sobre as v\u00e1rias formas ou tipos de paz que podem ser registradas na hist\u00f3ria ou conceitualizadas por aqueles que se debru\u00e7am sobre o assunto<a href=\"#_edn103\" name=\"_ednref103\">[ciii]<\/a>, mas se restringe a analisar a classifica\u00e7\u00e3o de Raymond Aron, fazendo alguns ajustes e corre\u00e7\u00f5es. O Quadro 1, abaixo, procura sintetizar suas an\u00e1lises.<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"139\"><strong>Tipo de Paz<\/strong><\/td>\n<td width=\"144\"><strong>Subtipos<\/strong><\/td>\n<td width=\"168\"><strong>Tipo de rela\u00e7\u00e3o<\/strong><\/td>\n<td width=\"163\"><strong>Observa\u00e7\u00f5es<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td rowspan=\"5\" width=\"139\">Paz de Pot\u00eancia<a href=\"#_edn104\" name=\"_ednref104\">[civ]<\/a><\/td>\n<td width=\"144\">Paz de equil\u00edbrio<\/td>\n<td width=\"168\">Igualdade<\/td>\n<td width=\"163\"><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"144\">Paz de hegemonia<\/td>\n<td width=\"168\">Preponder\u00e2ncia<\/td>\n<td width=\"163\">EUA em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Am\u00e9rica.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"144\">Paz de imp\u00e9rio<\/td>\n<td width=\"168\">Dom\u00ednio<\/td>\n<td width=\"163\">\u201cPax romana\u201d.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"144\">Paz de exterm\u00ednio<\/td>\n<td width=\"168\">Exterm\u00ednio<\/td>\n<td width=\"163\"><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"144\">Paz confederativa<\/td>\n<td width=\"168\">Igualdade<\/td>\n<td width=\"163\">Mais vinculat\u00f3ria que a de equil\u00edbrio.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td colspan=\"2\" width=\"283\">Paz de Impot\u00eancia<\/td>\n<td width=\"168\">Potencial de destrui\u00e7\u00e3o m\u00fatua total<a href=\"#_edn105\" name=\"_ednref105\">[cv]<\/a><\/td>\n<td width=\"163\">Forma extrema da paz de equil\u00edbrio (Bobbio).<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td colspan=\"2\" width=\"283\">Paz de Satisfa\u00e7\u00e3o<\/td>\n<td width=\"168\">Mutualidade<\/td>\n<td width=\"163\">A Europa depois da 2\u00aa GG.<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>Quadro 1 \u2013 Tipos de Paz segundo Raymond Aron e Norberto Bobbio<a href=\"#_edn106\" name=\"_ednref106\">[cvi]<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Esta classifica\u00e7\u00e3o nos oferece uma ferramenta anal\u00edtica para algumas das coloca\u00e7\u00f5es existentes nas cartas de Einstein e Freud. Por exemplo, quando Einstein escreve sobre a paz garantida por uma corte de justi\u00e7a sobre um grupo de na\u00e7\u00f5es ou uma popula\u00e7\u00e3o (\u00a7E3), ele est\u00e1, embora de uma forma indireta, referindo-se ao conceito de paz positiva como justi\u00e7a. \u00c9 evidente que, na sua concep\u00e7\u00e3o, estava impl\u00edcito que a paz a ser buscada n\u00e3o seria de outra natureza que n\u00e3o uma paz justa. No esquema de Bobbio, esta paz seria ou a <em>paz de equil\u00edbrio<\/em> ou a <em>paz confederativa<\/em>, dentre os tipos de paz de pot\u00eancia; ou ainda poderia se referir \u00e0 <em>paz de satisfa\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p>Freud, por seu lado, menciona que \u201cn\u00e3o podemos colocar todas essas guerras de conquista numa mesma categoria\u201d<a href=\"#_edn107\" name=\"_ednref107\">[cvii]<\/a>. Impl\u00edcito est\u00e1 que nem todos os tipos de paz podem ser de uma s\u00f3 categoria. E assim, por via inversa, encontramos nos coment\u00e1rios de Freud n\u00e3o apenas o ideal da paz justa, mas um reconhecimento de outros tipos de paz, que se aproxima da categoriza\u00e7\u00e3o exposta por Bobbio. Por exemplo, Freud diz que \u201ca guerra entre os mong\u00f3is e os turcos s\u00f3 trouxe mis\u00e9ria\u201d<a href=\"#_edn108\" name=\"_ednref108\">[cviii]<\/a>, mas \u201ca conquista romana trouxe aquela bonan\u00e7a \u2014 a pax romana \u2014 \u00e0s terras do Mediterr\u00e2neo\u201d. Podemos reconhecer, aqui, a \u201cpaz do exterm\u00ednio\u201d, no caso dos turcos e do mong\u00f3is, e a \u201cpaz de imp\u00e9rio\u201d no caso de Roma. Freud aponta para a inadequa\u00e7\u00e3o de tais <em>vias de paz<\/em> n\u00e3o acompanhadas de justi\u00e7a quando comenta que \u201cGeralmente as unidades rec\u00e9m-criadas fragmentam-se novamente, porque n\u00e3o pode haver verdadeira coes\u00e3o entre as partes unidas pela viol\u00eancia\u201d <a href=\"#_edn109\" name=\"_ednref109\">[cix]<\/a>.<\/p>\n<p>Visto isso, passemos a um dos pontos mais representativos das id\u00e9ias de paz na <em>Weltanschauung<\/em> de Einstein, e sua resson\u00e2ncia em Freud.<\/p>\n<p><strong>4.2\u00a0 Um estado supranacional<\/strong><\/p>\n<p>A id\u00e9ia de um governo mundial era, para Einstein, uma das mais permanentes em todos os seus quarenta anos de ativismo pacifista<a href=\"#_edn110\" name=\"_ednref110\">[cx]<\/a>. Logo ap\u00f3s a Primeira Grande Guerra ele j\u00e1 a defendia, e ela se tornaria uma de suas marcas mais distintivas. A Liga das Na\u00e7\u00f5es lhe parecera, apesar de todas as restri\u00e7\u00f5es que tinha contra sua efic\u00e1cia, um primeiro passo neste caminho. Em 1946 Einstein escreveria que a solu\u00e7\u00e3o do verdadeiro problema da guerra \u201cdepende exclusivamente de um acordo em grande escala\u201d<a href=\"#_edn111\" name=\"_ednref111\">[cxi]<\/a> entre os Estados Unidos e a R\u00fassia, e que se este acordo fosse feito na dire\u00e7\u00e3o de um governo mundial, \u201cesses dois pa\u00edses, sozinhos, seriam capazes de induzir as outras na\u00e7\u00f5es a abrirem m\u00e3o de sua soberania no grau necess\u00e1rio \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a militar para todos\u201d<a href=\"#_edn112\" name=\"_ednref112\">[cxii]<\/a>.<\/p>\n<p>Portanto, quando Einstein, em sua correspond\u00eancia com Freud, chama este o \u201ccaminho simples\u201d, que lida apenas com o aspecto \u201caparente\u201d<a href=\"#_edn113\" name=\"_ednref113\">[cxiii]<\/a> do problema da guerra, ele n\u00e3o o est\u00e1 menosprezando. Ele o assumia como basilar. Essencial. Imprescind\u00edvel. Mas, ao mesmo tempo, ele reconhecia que tais caminhos pol\u00edticos n\u00e3o eram suficientes<a href=\"#_edn114\" name=\"_ednref114\">[cxiv]<\/a>, e que \u201cpoderosas for\u00e7as psicol\u00f3gicas\u201d<a href=\"#_edn115\" name=\"_ednref115\">[cxv]<\/a> agiam contra a aparentemente l\u00f3gica unifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos povos.<\/p>\n<p>Einstein foi, ao longo da vida, muito criticado, e mesmo ridicularizado, por essas id\u00e9ias sobre um governo supranacional, mas \u201caceitava essa situa\u00e7\u00e3o como uma natural parte do jogo\u201d<a href=\"#_edn116\" name=\"_ednref116\">[cxvi]<\/a>. Imaginemos as rea\u00e7\u00f5es \u00e0s suas propostas insistentes por um governo mundial, sempre expressadas com paix\u00e3o e nem sempre com muito tato, no ambiente altamente carregado de nacionalismo na Alemanha de 1920, ou nos Estados Unidos de 1946!<\/p>\n<p>Freud concorda que \u201cS\u00f3 existe realmente uma forma segura de se eliminar a guerra\u201d<a href=\"#_edn117\" name=\"_ednref117\">[cxvii]<\/a> no mundo contempor\u00e2neo, \u201ce esta \u00e9 o estabelecimento volunt\u00e1rio de um poder central que tenha a palavra final em todos os conflitos de interesse\u201d<a href=\"#_edn118\" name=\"_ednref118\">[cxviii]<\/a>. Mas para que tal poder central seja capaz de realizar esta tarefa suprema, \u201cduas coisas s\u00e3o necess\u00e1rias: primeiro, que tal corte suprema seja estabelecida, e, segundo, que disponha de adequado poder executivo\u201d<a href=\"#_edn119\" name=\"_ednref119\">[cxix]<\/a>. Como empecilho a isto, como j\u00e1 vimos, Einstein denunciava o \u201cdesejo de poder das classes governantes\u201d<a href=\"#_edn120\" name=\"_ednref120\">[cxx]<\/a> que, por tirar benef\u00edcios da guerra, \u201cem cada na\u00e7\u00e3o \u00e9 hostil a qualquer limita\u00e7\u00e3o da soberania nacional\u201d<a href=\"#_edn121\" name=\"_ednref121\">[cxxi]<\/a>.<\/p>\n<p>Freud, da mesma forma, j\u00e1 em 1915, percebia que \u201co fator educativo da coer\u00e7\u00e3o moral exterior, que vemos atuar de forma t\u00e3o eficiente sobre o indiv\u00edduo\u201d<a href=\"#_edn122\" name=\"_ednref122\">[cxxii]<\/a> \u00e9 ainda \u201cum fator negligente\u201d<a href=\"#_edn123\" name=\"_ednref123\">[cxxiii]<\/a> no controle das rela\u00e7\u00f5es m\u00fatuas entre as na\u00e7\u00f5es do mundo contempor\u00e2neo. Como Freud dizia a Einstein em <em>Warum Krieg?<\/em>, \u201ch\u00e1 dois fatores que podem manter a unidade de uma comunidade: a compuls\u00e3o da for\u00e7a ou os la\u00e7os de sentimentos \u2014 em termos t\u00e9cnicos: la\u00e7os de identifica\u00e7\u00e3o \u2014 entre seus membros\u201d<a href=\"#_edn124\" name=\"_ednref124\">[cxxiv]<\/a>. Devido \u00e0 imaturidade das na\u00e7\u00f5es para reconhecer o princ\u00edpio da justi\u00e7a internacional e de se submeterem \u00e0 compuls\u00e3o de uma ordem jur\u00eddica superior ao estado-na\u00e7\u00e3o, Freud sentia que \u201cqualquer esfor\u00e7o para substituir o poder concreto pelo poder das id\u00e9ias est\u00e1, nas atuais condi\u00e7\u00f5es, destinado ao fracasso\u201d<a href=\"#_edn125\" name=\"_ednref125\">[cxxv]<\/a>, e isso porque \u201co direito nasce da for\u00e7a bruta\u201d<a href=\"#_edn126\" name=\"_ednref126\">[cxxvi]<\/a> e mesmo nos dias atuais \u201cele n\u00e3o pode subsistir sem a for\u00e7a\u201d<a href=\"#_edn127\" name=\"_ednref127\">[cxxvii]<\/a>.#<\/p>\n<p>Sobre uma for\u00e7a internacional que tivesse for\u00e7a coerciva para manter a unidade mundial das na\u00e7\u00f5es, Freud comentara, tamb\u00e9m em 1915, que \u201cSeria de esperar que a magna comunidade de interesses criada pela produ\u00e7\u00e3o e pelo com\u00e9rcio seria o princ\u00edpio de uma tal coer\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn128\" name=\"_ednref128\">[cxxviii]<\/a>,. Por\u00e9m, ele constata que \u201cparece suceder que, por enquanto, os povos obedecem muito mais a suas paix\u00f5es do que a seus interesses. Ainda mais: servem-se de seus interesses para racionalizar suas paix\u00f5es; antep\u00f5em seus interesses a fim de poder dar raz\u00f5es para a satisfa\u00e7\u00e3o de suas paix\u00f5es\u201d<a href=\"#_edn129\" name=\"_ednref129\">[cxxix]<\/a>. Talvez em raz\u00e3o destes racioc\u00ednios \u00e9 que Freud chegue \u00e0 conclus\u00e3o, anos mais tarde, de que a \u201ccomunidade de interesses\u201d que une os homens em metas e prop\u00f3sitos comuns n\u00e3o \u00e9 capaz de produzir \u201cuma limita\u00e7\u00e3o permanente do narcisismo\u201d que sempre amea\u00e7a de desagrega\u00e7\u00e3o o grupo social. Neste tipo de grupo, pensava Freud, \u201ca toler\u00e2ncia durar\u00e1 t\u00e3o somente enquanto dure o proveito imediato produzido pela colabora\u00e7\u00e3o com os demais\u201d<a href=\"#_edn130\" name=\"_ednref130\">[cxxx]<\/a>. Por isso, para a constru\u00e7\u00e3o de uma verdadeira comunidade de homens que possa superar \u201ca psicose do \u00f3dio e da destrui\u00e7\u00e3o\u201d, Freud sentia que era vital o estabelecimento de la\u00e7os de amor, ou identifica\u00e7\u00e3o, entre os povos, pois \u201cNo desenvolvimento da humanidade, como no do indiv\u00edduo, o amor \u00e9 que se revelou ser o principal fator da civiliza\u00e7\u00e3o, quem sabe at\u00e9 o \u00fanico, determinando a passagem do ego\u00edsmo ao altru\u00edsmo\u201d<a href=\"#_edn131\" name=\"_ednref131\">[cxxxi]<\/a>.<\/p>\n<p>Em 1915 Freud ainda sentia que \u201c\u00e9 algo enigm\u00e1tico\u201d<a href=\"#_edn132\" name=\"_ednref132\">[cxxxii]<\/a> a raz\u00e3o pela qual \u201cas individualidades coletivas, as na\u00e7\u00f5es, se depreciam, se odeiam e se antagonizam umas \u00e0s outras, inclusive em tempos de paz\u201d<a href=\"#_edn133\" name=\"_ednref133\">[cxxxiii]<\/a>. Por\u00e9m, em 1927, em <em>O Futuro de uma Ilus\u00e3o<\/em>, ele j\u00e1 era capaz de dar uma explica\u00e7\u00e3o clara:<\/p>\n<p>A satisfa\u00e7\u00e3o narc\u00edsica, extra\u00edda do ideal cultural, \u00e9 um dos poderes que com maior \u00eaxito atuam contra a hostilidade dirigida contra a civiliza\u00e7\u00e3o, dentro de cada setor civilizado. N\u00e3o apenas as classes favorecidas que desfrutam dos benef\u00edcios da civiliza\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o, mas tamb\u00e9m as oprimidas participam dessa satisfa\u00e7\u00e3o, pois o direito que ela lhes confere de desprezar todos os que n\u00e3o pertencem \u00e0 sua civiliza\u00e7\u00e3o compensa as limita\u00e7\u00f5es que ela lhes imp\u00f5e.<a href=\"#_edn134\" name=\"_ednref134\">[cxxxiv]<\/a><\/p>\n<p>Essa explica\u00e7\u00e3o da necessidade do \u201cOutro\u201d como fator motivacional para a unidade das massas dentro de cada cultura pode ser entendido dentro do contexto do \u201cnarcisismo das pequenas diferen\u00e7as\u201d<a href=\"#_edn135\" name=\"_ednref135\">[cxxxv]<\/a> que Freud viria a descrever tr\u00eas anos depois, em <em>O Mal-Estar na Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>. Freud salientava a import\u00e2ncia das artes na cria\u00e7\u00e3o desse sentimento de unidade social que transborda os limites de classes e estamentos da sociedade. Isso porque \u201cAs cria\u00e7\u00f5es das artes intensificam os sentimentos de identifica\u00e7\u00e3o, dos quais tanto depende todo setor civilizado, oferecendo ocasi\u00f5es para que coletivamente se experimentem sensa\u00e7\u00f5es elevadas\u201d<a href=\"#_edn136\" name=\"_ednref136\">[cxxxvi]<\/a>.<\/p>\n<p>Esta via institucional para a paz atrav\u00e9s de um supra-estado mundial soa para muitos, ainda hoje, como eminentemente ut\u00f3pica. Norberto Bobbio, entretanto, em sua an\u00e1lise sobre as formas mais eficazes de pacifismo, ap\u00f3s analisar v\u00e1rios aspectos do problema<a href=\"#_edn137\" name=\"_ednref137\">[cxxxvii]<\/a>, chega \u00e0 conclus\u00e3o que este seria o melhor caminho a ser tomado e o \u201c\u00fanico pacifismo cr\u00edvel\u201d<a href=\"#_edn138\" name=\"_ednref138\">[cxxxviii]<\/a>.<\/p>\n<p>Bobbio inicia sua investiga\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise sobre as \u201cvias da paz\u201d, ou seja, os caminhos a serem trilhados para a elimina\u00e7\u00e3o da guerra entre as na\u00e7\u00f5es, apontando que h\u00e1 basicamente dois tipos de pacifismo: a) o pacifismo passivo e o b) pacifismo ativo. Segundo ele, o pacifismo passivo \u00e9 \u201cfundado sobre uma teoria cient\u00edfica ou presumida como tal\u201d<a href=\"#_edn139\" name=\"_ednref139\">[cxxxix]<\/a>. Tr\u00eas destacadas dessas teorias<a href=\"#_edn140\" name=\"_ednref140\">[cxl]<\/a> foram as influentes filosofias da hist\u00f3ria que dominaram o s\u00e9culo XIX: a iluminista, a positivista e a marxista<a href=\"#_edn141\" name=\"_ednref141\">[cxli]<\/a>. Embora diferissem entre si em muitos aspectos, o que importa para nossa an\u00e1lise \u00e9 o fato fundamental de estarem em acordo quanto \u00e0 inevitabilidade da paz mundial<a href=\"#_edn142\" name=\"_ednref142\">[cxlii]<\/a>. Assim, com base nessas teorias de uma paz inevit\u00e1vel, o pacifismo passivo se constr\u00f3i como um observador do mundo. Basta esperar, que a paz vir\u00e1&#8230;<a href=\"#_edn143\" name=\"_ednref143\">[cxliii]<\/a> Esta \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o muito mais caracter\u00edstica de Freud do que de Einstein, pois Freud pensava que a paz eventualmente viria a partir de um \u201cajustamento cultural e um bem-fundado temor quanto \u00e0 forma de futuras guerras\u201d<a href=\"#_edn144\" name=\"_ednref144\">[cxliv]<\/a>.<\/p>\n<p>O pacifismo ativo, por outro lado, \u201cpressup\u00f5e uma \u00e9tica\u201d<a href=\"#_edn145\" name=\"_ednref145\">[cxlv]<\/a>. Ele n\u00e3o se contenta em entender e explicar as vias da paz, mas \u201c\u00e9 uma tomada de posi\u00e7\u00e3o que engaja pessoalmente, como toda tomada de posi\u00e7\u00e3o moral, aquele que o assume\u201d<a href=\"#_edn146\" name=\"_ednref146\">[cxlvi]<\/a>. Seu procedimento intelectual fundamental \u00e9 \u201cmostrar que as coisas deviam (ou n\u00e3o deviam) se passar como se passam\u201d<a href=\"#_edn147\" name=\"_ednref147\">[cxlvii]<\/a>. O pacifismo ativo pressup\u00f5e a cr\u00edtica das justifica\u00e7\u00f5es da guerra: \u201cdeve propor-se demonstrar n\u00e3o s\u00f3 que a guerra n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria, mas tamb\u00e9m que n\u00e3o \u00e9 boa\u201d<a href=\"#_edn148\" name=\"_ednref148\">[cxlviii]<\/a>. Einstein, muito mais do que Freud, agia dentro dos referencias do pacifismo ativo. Ele era n\u00e3o apenas um pacifista, mas um \u201cpacifista <em>consagrado<\/em>\u201d<a href=\"#_edn149\" name=\"_ednref149\">[cxlix]<\/a>, que sentia a necessidade premente de fazer algo para a constru\u00e7\u00e3o da paz.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, no tocante aos caminhos que Einstein e Freud<a href=\"#_edn150\" name=\"_ednref150\">[cl]<\/a> defendem para a paz atrav\u00e9s de um supra-estado mundial \u2014 que tenha ao seu dispor o poder coercitivo para impedir a guerra entre as na\u00e7\u00f5es \u2014, ambos se conduzem dentro do cen\u00e1rio descrito por Bobbio para o <em>pacifismo ativo<\/em>. E seus pensamentos encontram uma localiza\u00e7\u00e3o bem espec\u00edfica dentro deste referencial te\u00f3rico. Vejamos.<\/p>\n<p>S\u00e3o tr\u00eas formas distintas de pacifismo ativo que Bobbio apresenta<a href=\"#_edn151\" name=\"_ednref151\">[cli]<\/a>:<\/p>\n<ol>\n<li>Pacifismo ativo <em>instrumental<\/em>: busca a paz atuando sobre os meios<a href=\"#_edn152\" name=\"_ednref152\">[clii]<\/a>.<\/li>\n<li>Pacifismo ativo <em>institucional<\/em>: busca a paz atuando sobre as institui\u00e7\u00f5es.<\/li>\n<li>Pacifismo ativo <em>\u00e9tico-finalista<\/em>: busca a paz atuando sobre os homens.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Segundo Bobbio, estes tr\u00eas tipos disp\u00f5em-se numa ordem crescente de complexidade e de profundidade<a href=\"#_edn153\" name=\"_ednref153\">[cliii]<\/a>. O primeiro det\u00e9m-se no plano mais superficial das t\u00e9cnicas (construir a paz eliminando-se as armas que causam a guerra); o segundo passa do plano das t\u00e9cnicas para o plano intermedi\u00e1rio da organiza\u00e7\u00e3o social (construir a paz eliminando-se\/reformando-se as institui\u00e7\u00f5es que causam a guerra); e o terceiro desce at\u00e9 as profundidades da alma do homem, que \u00e9 o inventor e o fruidor das t\u00e9cnicas e das v\u00e1rias formas de organiza\u00e7\u00e3o social (construir a paz eliminando-se\/reformando-se no homem os impulsos que causam a guerra)<a href=\"#_edn154\" name=\"_ednref154\">[cliv]<\/a>.<\/p>\n<p>Como todas essas tr\u00eas formas de pacifismo s\u00e3o \u201cmeios que sevem todos para o alcance de um mesmo fim\u201d<a href=\"#_edn155\" name=\"_ednref155\">[clv]<\/a>, Bobbio aponta que o problema \u00e9 o da escolha racional, j\u00e1 que nenhum \u00e9 necessariamente melhor do que o outro. A partir desse entendimento, prop\u00f5e dois crit\u00e9rios de julgamento e de escolha que levam em considera\u00e7\u00e3o: a) a maior ou menor exeq\u00fcibilidade<a href=\"#_edn156\" name=\"_ednref156\">[clvi]<\/a> e b) a maior ou menor efic\u00e1cia<a href=\"#_edn157\" name=\"_ednref157\">[clvii]<\/a> de cada uma dessas \u201cposs\u00edveis vias da paz\u201d<a href=\"#_edn158\" name=\"_ednref158\">[clviii]<\/a> entre as na\u00e7\u00f5es. Segundo esse crit\u00e9rio descobre-se o paradoxo de que o primeiro \u00e9 o mais exeq\u00fc\u00edvel e o menos eficaz; o terceiro seria o mais eficaz, se fosse exeq\u00fc\u00edvel, pelo menos num prazo n\u00e3o muito longo, n\u00e3o t\u00e3o longo que n\u00e3o conseguisse evitar a morte universal; o segundo \u00e9 menos exeq\u00fc\u00edvel que o primeiro mas ao mesmo tempo menos eficaz que o terceiro.<a href=\"#_edn159\" name=\"_ednref159\">[clix]<\/a> A constata\u00e7\u00e3o deste paradoxo conduz \u00e0 conclus\u00e3o de que \u201cna situa\u00e7\u00e3o presente da humanidade nenhuma das vias at\u00e9 agora cogitadas \u00e9, ao grau m\u00e1ximo, ao mesmo tempo exeq\u00fc\u00edvel e eficaz\u201d<a href=\"#_edn160\" name=\"_ednref160\">[clx]<\/a>.<\/p>\n<p>Colocando isso num quadro, para mais r\u00e1pida apreens\u00e3o, temos:<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"367\">Forma de pacifismo ativo<\/td>\n<td width=\"126\">Exeq\u00fcibilidade<\/td>\n<td width=\"126\">Efic\u00e1cia<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"367\"><strong>1. Pacifismo instrumental<\/strong> (age sobre os meios)<\/td>\n<td width=\"126\"><\/td>\n<td width=\"126\"><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"367\"><strong>2. Pacifismo institucional<\/strong> (age sobre as institui\u00e7\u00f5es)<\/td>\n<td width=\"126\"><\/td>\n<td width=\"126\"><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"367\"><strong>3. Pacifismo \u00e9tico e finalista<\/strong> (age sobre os homens)<\/td>\n<td width=\"126\"><\/td>\n<td width=\"126\"><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>Quadro 2 Formas de pacifismo ativo e sua exeq\u00fcibilidade e efic\u00e1cia, segundo Norberto Bobbio<\/strong><\/p>\n<p>Aprofundando ainda mais essa sistematiza\u00e7\u00e3o, Bobbio apresenta outras duas subdivis\u00f5es l\u00f3gicas para o pacifismo ativo institucional e para o \u00e9tico-finalista, quais sejam:<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"223\">Forma de pacifismo<\/td>\n<td width=\"396\">SUBDIVIS\u00d5ES<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td rowspan=\"2\" width=\"223\"><strong>Pacifismo institucional<\/strong><\/td>\n<td width=\"396\">Jur\u00eddico: busca a paz pelo direito \u2013 UM SUPRA-ESTADO.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"396\">Social: busca a paz pela transforma\u00e7\u00e3o social.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td rowspan=\"2\" width=\"223\"><strong>Pacifismo \u00e9tico e finalista<\/strong><\/td>\n<td width=\"396\">\u00c9tico-religioso: de fundo espiritualista.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"396\">Terap\u00eautico: de fundo materialista.<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>Quadro 3 Subdivis\u00f5es do Pacifismo Institucional e do \u00c9tico-finalista, segundo Norberto Bobbio<\/strong><\/p>\n<p>O pacifismo jur\u00eddico v\u00ea a guerra como uma forma que os estados disp\u00f5em de resolver os conflitos internacionais na comunidade de na\u00e7\u00f5es. O pacifismo social a entende como decorr\u00eancia dos conflitos existentes dentro de alguns tipos de estado.<\/p>\n<p>Em fun\u00e7\u00e3o dessa diferen\u00e7a no entendimento da origem do mal (a guerra), estas duas vias para a paz prop\u00f5em caminhos distintos: a) o pacifismo jur\u00eddico encontra o rem\u00e9dio na institui\u00e7\u00e3o de um supra-estado, ou estado mundial \u2014 um estado acima dos estados \u2014 nos exatos moldes descritos por Einstein e Freud em suas cartas; b) o pacifismo social cr\u00ea que o rem\u00e9dio esteja n\u00e3o na supera\u00e7\u00e3o do estado nacional <em>per se<\/em>, mas na supera\u00e7\u00e3o de um tipo de estado-na\u00e7\u00e3o que especificamente provoca a guerra: aquele que, internamente, se ap\u00f3ia na opress\u00e3o das classes sociais n\u00e3o-dirigentes, e que, nas suas rela\u00e7\u00f5es externas, acredita na expans\u00e3o imperialista. Os estados nacionais que provocam a guerra, portanto, seriam aqueles baseados na viol\u00eancia dom\u00e9stica e na internacional. Bobbio entende que o pacifismo jur\u00eddico \u00e9 mais exeq\u00fc\u00edvel, mas menos eficaz que o social; por sua vez, o social \u00e9 mais eficaz que o jur\u00eddico, mas menos exeq\u00fc\u00edvel.<\/p>\n<p>Einstein se refere, ainda que indiretamente, ao pacifismo social, quando diz que as guerras s\u00e3o causadas pelas \u201cclasses governantes\u201d que \u201cem cada na\u00e7\u00e3o \u00e9 hostil a qualquer limita\u00e7\u00e3o da soberania nacional\u201d<a href=\"#_edn161\" name=\"_ednref161\">[clxi]<\/a> e que \u201cconsegue dominar e governar as emo\u00e7\u00f5es das massas em geral\u201d atrav\u00e9s das escolas, da imprensa e das organiza\u00e7\u00f5es religiosas, \u201cpara manipul\u00e1-las a seu bel-prazer.\u201d<a href=\"#_edn162\" name=\"_ednref162\">[clxii]<\/a> Parece evidente que Einstein, nestas considera\u00e7\u00f5es, est\u00e1 refletindo sobre aquele tipo de estado cuja transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 a meta do pacifismo institucional social.<\/p>\n<p>Vimos j\u00e1, acima, que, segundo a classifica\u00e7\u00e3o de Bobbio, o pacifismo \u00e9tico-finalista atua sobre o pr\u00f3prio homem. Ele se fundamenta na seguinte l\u00f3gica: se as armas (pacifismo instrumental) e as institui\u00e7\u00f5es (pacifismo institucional) s\u00e3o feitas pelos homens, ent\u00e3o deve-se atuar n\u00e3o sobre os meios ou as institui\u00e7\u00f5es usados para a guerra, mas sobre a sua causa \u00faltima: os motivos interiores do ser humano que provocam a viol\u00eancia de uns contra os outros. O pacifismo \u00e9tico-finalista n\u00e3o busca dar um jeito nas armas ou na sociedade \u2014 mas dar um jeito no homem, \u201cnas profundidades dos sentimentos e vontades humanos\u201d<a href=\"#_edn163\" name=\"_ednref163\">[clxiii]<\/a>, como diz Einstein a Freud.<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil perceber, assim, que quando Einstein reconhece que o fracasso dos esfor\u00e7os no sentido de construir uma comunidade supranacional de na\u00e7\u00f5es<a href=\"#_edn164\" name=\"_ednref164\">[clxiv]<\/a> se devem a \u201cpoderosas for\u00e7as psicol\u00f3gicas atuam na paralisa\u00e7\u00e3o de tais iniciativas\u201d<a href=\"#_edn165\" name=\"_ednref165\">[clxv]<\/a>, ele est\u00e1 justamente buscando na <em>m\u00e1xima efic\u00e1cia<\/em> dos meios \u00e9tico-finalistas, uma forma de alavancar a <em>exeq\u00fcibilidade<\/em> do seu projeto de pacifismo jur\u00eddico atrav\u00e9s de um <em>estado de estados<\/em>.<\/p>\n<p>Portanto, quando Einstein vislumbra \u201ccertos empecilhos psicol\u00f3gicos\u201d<a href=\"#_edn166\" name=\"_ednref166\">[clxvi]<\/a> que impedem a paz, e convida Freud, para apontar os caminhos educacionais que consigam eliminar estes obst\u00e1culos<a href=\"#_edn167\" name=\"_ednref167\">[clxvii]<\/a>, ele est\u00e1 se movendo da esfera do pacifismo institucional jur\u00eddico para aquela do pacifismo \u00e9tico-finalista.<\/p>\n<p>No quadro 2 vemos que Norberto Bobbio apresenta dois tipos de pacifismo \u00e9tico-finalista: a) o \u00e9tico-religioso e b) o terap\u00eautico. Estes dois modos de pacifismo fundamentam-se em duas concep\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas opostas. O pacifismo \u00e9tico-religioso ap\u00f3ia-se no espiritualismo e o pacifismo terap\u00eautico, no materialismo<a href=\"#_edn168\" name=\"_ednref168\">[clxviii]<\/a>. Segundo Bobbio, s\u00e3o dois caminhos antit\u00e9ticos e inconcili\u00e1veis<a href=\"#_edn169\" name=\"_ednref169\">[clxix]<\/a>.<\/p>\n<p>O pacifismo \u00e9tico-religioso entende que a causa da guerra est\u00e1 num defeito moral do homem. J\u00e1 o pacifismo terap\u00eautico encontra-a num defeito psicol\u00f3gico interno, somente explic\u00e1vel em termos psicol\u00f3gicos e sociol\u00f3gicos. Para o pacifismo \u00e9tico-religioso, o problema da guerra e da paz tem a ver com <em>convers\u00e3o<\/em>. Para o terap\u00eautico, tem a ver com <em>cura<\/em>. O primeiro confia na pedagogia, acreditando que pode resgatar os homens da guerra atrav\u00e9s da persuas\u00e3o e da edifica\u00e7\u00e3o<a href=\"#_edn170\" name=\"_ednref170\">[clxx]<\/a>. O segundo confia na terapia<a href=\"#_edn171\" name=\"_ednref171\">[clxxi]<\/a>. Entre os pacifismos \u201cterap\u00eauticos\u201d, como se poderia logo adivinhar, Bobbio inclui a psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Pois bem, neste contexto de an\u00e1lise sobre a <em>via da paz<\/em> que representa um supragoverno mundial, \u00e9 significativo notar que sessenta anos depois de Einstein e Freud terem defendido essa id\u00e9ia, Norberto Bobbio tivesse chegado \u00e0 mesma conclus\u00e3o, de que a \u201c\u00fanica proposta realista\u201d para a paz entre as na\u00e7\u00f5es \u00e9 \u201caquela que visa \u00e0 inven\u00e7\u00e3o de novas institui\u00e7\u00f5es e de novos instrumentos de a\u00e7\u00e3o que permitam, sem necessidade de recorrer \u00e0 viol\u00eancia individual ou coletiva, resolver conflitos sociais cuja solu\u00e7\u00e3o foi tradicionalmente confiada \u00e0 a\u00e7\u00e3o violenta\u201d<a href=\"#_edn172\" name=\"_ednref172\">[clxxii]<\/a>.<\/p>\n<p>Bobbio trabalha com a vantagem de uma vis\u00e3o perspectiva do s\u00e9culo XX ante si, enquanto Einstein e Freud, em 1932, ainda n\u00e3o sabiam nem da Segunda Grande Guerra. Bobbio coloca em sua an\u00e1lise toda a capacidade de percep\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o de um fil\u00f3sofo do direito e das ci\u00eancias pol\u00edticas, bem como de historiador do pensamento pol\u00edtico, enquanto Einstein e Freud eram leigos no assunto&#8230;<\/p>\n<p><strong>4.3\u00a0 Justifica\u00e7\u00e3o da guerra<\/strong><\/p>\n<p>Em sua carta a Freud, apesar de n\u00e3o tratar dessa quest\u00e3o explicitamente, \u00e9 claro que Einstein parte do pressuposto de que todo e qualquer tipo de guerra \u00e9 absolutamente indesej\u00e1vel. A forma como ele prop\u00f5e o tema para o di\u00e1logo epistolar com Freud n\u00e3o abre espa\u00e7o para uma discuss\u00e3o da justifica\u00e7\u00e3o da guerra. Sabemos que, na \u00e9poca da correspond\u00eancia, Einstein ainda era um pacifista radical, para quem nenhuma guerra era justific\u00e1vel<a href=\"#_edn173\" name=\"_ednref173\">[clxxiii]<\/a>. Este elemento de sua <em>Weltanschauung<\/em> modificar-se-ia, embora com relut\u00e2ncia, ap\u00f3s a ascens\u00e3o do nazismo e da Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Nos anos da Primeira Grande Guerra e nas d\u00e9cadas subseq\u00fcentes, Einstein era \u201cum pacifista incondicional\u201d<a href=\"#_edn174\" name=\"_ednref174\">[clxxiv]<\/a>, que acreditava no levante dos povos contra o servi\u00e7o militar e na necessidade da deposi\u00e7\u00e3o de todas as armas. Em 1928, ao recusar um convite para participar numa confer\u00eancia da <em>Liga Internacional de Mulheres pela Paz e pela Liberdade<\/em><a href=\"#_edn175\" name=\"_ednref175\">[clxxv]<\/a> cujo assunto era o uso de gases venenosos na atividade b\u00e9lica, Einstein argumentou que era \u201cuma tarefa absolutamente f\u00fatil prescrever regras e limita\u00e7\u00f5es para qualquer atividade b\u00e9lica\u201d<a href=\"#_edn176\" name=\"_ednref176\">[clxxvi]<\/a> e que o que se fazia necess\u00e1rio era o povo se organizar, em tempos de paz, para \u201crecusar categoricamente o servi\u00e7o militar\u201d<a href=\"#_edn177\" name=\"_ednref177\">[clxxvii]<\/a>. Da mesma forma, em uma palestra num encontro de estudantes pelo desarmamento, em 1930, Einstein, afirmava que \u201ca guerra n\u00e3o \u00e9 um jogo de sal\u00e3o onde todos os participantes obedecem estritamente as regras\u201d<a href=\"#_edn178\" name=\"_ednref178\">[clxxviii]<\/a> e que \u201cApenas o rep\u00fadio absoluto a todas as guerras pode ser de alguma serventia nesta situa\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn179\" name=\"_ednref179\">[clxxix]<\/a>.<\/p>\n<p>Freud, ao contr\u00e1rio, justifica a guerra em v\u00e1rios pontos de sua carta. No par\u00e1grafo s\u00e9timo ele argumenta que \u201cN\u00e3o se podem colocar todas estas guerras de conquista numa mesma categoria\u201d, e que, enquanto algumas \u201cs\u00f3 trouxeram mis\u00e9ria\u201d, outras \u201capressaram a transi\u00e7\u00e3o da for\u00e7a para a Lei\u201d. E diz ainda que \u201ctemos de admitir que a guerra pode servir de caminho para aquela paz perp\u00e9tua que tanto desejamos, pois a guerra constr\u00f3i vastos imp\u00e9rios dentro de cujas fronteiras toda guerra \u00e9 proscrita por um poder central forte\u201d<a href=\"#_edn180\" name=\"_ednref180\">[clxxx]<\/a>.<\/p>\n<p>Embora toda a argumenta\u00e7\u00e3o de Freud seja austera e bem fundamentada dentro de sua <em>Weltanschauung<\/em>, ela com certeza se colocava como alvo potencial dos mais indignados ataques por parte dos pacifistas radicais, entre os quais Einstein se inclu\u00eda na \u00e9poca da correspond\u00eancia<a href=\"#_edn181\" name=\"_ednref181\">[clxxxi]<\/a>. Ao longo de todas as d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, at\u00e9 a \u00e9poca em que trocaram entre si a correspond\u00eancia, este talvez fosse o mais evidente contraste com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra nas <em>Weltanschauungen<\/em> de Einstein e de Freud. Enquanto Einstein repudiava a guerra em todas as suas formas e justificativas, Freud encontrava em algumas delas um instrumento para o desenvolvimento humano e mesmo um instrumento para a paz.<\/p>\n<p>Segundo Bobbio, com rela\u00e7\u00e3o ao modo como a guerra foi justificada (ou injustificada), pode-se distinguir tr\u00eas grupos de teorias, cada grupo com suas caracter\u00edsticas espec\u00edficas. Com fins de brevidade isso \u00e9 apresentado atrav\u00e9s do Quadro 4, abaixo. Cabem aqui alguns coment\u00e1rios para maior clareza da exposi\u00e7\u00e3o: para o modelo <em>belicista<\/em> <em>providencialista<\/em> a guerra \u00e9 um <em>mal aparente; <\/em>\u00e9 um mal que <em>esconde<\/em> um bem.<a href=\"#_edn182\" name=\"_ednref182\">[clxxxii]<\/a> Na sua vers\u00e3o <em>teologizante<\/em> a hist\u00f3ria \u00e9 vista como des\u00edgnio divino<a href=\"#_edn183\" name=\"_ednref183\">[clxxxiii]<\/a>. J\u00e1 na vers\u00e3o <em>racionalizante<\/em> a hist\u00f3ria aparece como des\u00edgnio da <em>Natureza<\/em>, ou do <em>Esp\u00edrito do Mundo<\/em>, ou da <em>Raz\u00e3o<\/em>.<a href=\"#_edn184\" name=\"_ednref184\">[clxxxiv]<\/a><\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"103\"><strong>Teorias da hist\u00f3ria<\/strong><a href=\"#_edn185\" name=\"_ednref185\">[clxxxv]<\/a><\/td>\n<td colspan=\"3\" width=\"264\"><strong>Subdivis\u00f5es<\/strong><\/td>\n<td width=\"252\"><strong>Observa\u00e7\u00f5es<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td rowspan=\"7\" width=\"103\">1. Teorias <em>belicistas:<\/em> tendem a justificar todas as guerras.<\/td>\n<td rowspan=\"2\" width=\"109\">Modelo <em>providencialista.<\/em><\/td>\n<td colspan=\"2\" width=\"155\">Vers\u00e3o teologizante.<\/td>\n<td width=\"252\">Joseph de Maistre<em>.<\/em><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td colspan=\"2\" width=\"155\">Vers\u00e3o racionalizante.<\/td>\n<td width=\"252\">Kant, na <em>Cr\u00edtica do Ju\u00edzo<\/em><a href=\"#_edn186\" name=\"_ednref186\">[clxxxvi]<\/a>.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td rowspan=\"5\" width=\"109\">Modelo<em> finalista:<\/em>a guerra \u00e9 um <em>mal necess\u00e1rio, <\/em>um mal do qual <em>deriva<\/em> um bem<\/td>\n<td rowspan=\"3\" width=\"84\"><em>Filosofias da hist\u00f3ria<\/em> do s\u00e9culo XIX.<\/td>\n<td rowspan=\"3\" width=\"71\">Id\u00e9ia de <em>progresso<\/em>.<\/td>\n<td width=\"252\">A guerra serve ao <em>progresso moral<\/em>.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"252\">A guerra serve ao <em>progresso civil<\/em><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"252\">A guerra serve ao <em>progresso t\u00e9cnico<\/em>.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td rowspan=\"2\" width=\"84\"><em>Sociologia<\/em> do s\u00e9culo XIX.<\/td>\n<td rowspan=\"2\" width=\"71\">Id\u00e9ia de <em>evolu\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/td>\n<td width=\"252\">Niilismo. <a href=\"#_edn187\" name=\"_ednref187\">[clxxxvii]<\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"252\">Sociologia realista. <a href=\"#_edn188\" name=\"_ednref188\">[clxxxviii]<\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td rowspan=\"5\" width=\"103\">2. Teorias <em>pacifistas:<\/em> tendem a n\u00e3o justificar nenhuma guerra.<\/td>\n<td rowspan=\"5\" width=\"109\">Geram as tr\u00eas formas de <em>pacifismo ativo<\/em>.<a href=\"#_edn189\" name=\"_ednref189\">[clxxxix]<\/a><\/td>\n<td colspan=\"2\" width=\"155\"><em>Instrumental<\/em>: age sobre os meios.<\/td>\n<td width=\"252\">Enfoca principalmente o controle de armamentos e de t\u00e9cnicas de guerra.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td colspan=\"2\" rowspan=\"2\" width=\"155\"><em>Institucional<\/em>: age sobre as institui\u00e7\u00f5es.<\/td>\n<td width=\"252\">Jur\u00eddico: a paz atrav\u00e9s do direito.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"252\">Social: a paz atrav\u00e9s da transforma\u00e7\u00e3o social.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td colspan=\"2\" rowspan=\"2\" width=\"155\"><em>\u00c9tico-finalista<\/em>: age sobre o homem.<\/td>\n<td width=\"252\">Espiritualista (\u00e9tico-religioso).<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"252\">Materialista (terap\u00eautico).<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td rowspan=\"2\" width=\"103\">3. Teorias da<em> guerra justa:<\/em> aprovam algumas guerras e condenam outras.<\/td>\n<td colspan=\"3\" width=\"264\">Guerra como um processo judicial: parte do princ\u00edpio do restabelecimento de uma ordem justa.<\/td>\n<td rowspan=\"2\" width=\"252\">No limite, somente as guerras de defesa seriam justas, pois todas as outras \u201cd\u00e3o raz\u00e3o a quem vence\u201d, em vez de \u201cfazer vencer quem tem raz\u00e3o\u201d. As guerra de defesa podem ser <em>reativas<\/em> ou <em>preventivas<\/em>.<a href=\"#_edn190\" name=\"_ednref190\">[cxc]<\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td colspan=\"3\" width=\"264\">Guerra como uma revolu\u00e7\u00e3o: pela revoga\u00e7\u00e3o de um ordenamento velho e instala\u00e7\u00e3o de um novo.<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>Quadro 4 Teorias da hist\u00f3ria quanto \u00e0 forma de justificar a guerra, segundo Norberto Bobbio<\/strong><\/p>\n<p>O modelo <em>belicista-finalista<\/em> \u00e9 caracter\u00edstico das filosofias da hist\u00f3ria do s\u00e9culo XIX, quer idealistas, quer positivistas. Tais filosofias eram tipicamente dualistas: separavam a natureza da cultura, a natureza da hist\u00f3ria, cada qual sendo entendida com suas leis e estrutura caracter\u00edsticas<a href=\"#_edn191\" name=\"_ednref191\">[cxci]<\/a>. Todas estas filosofias tinham como fundamento a id\u00e9ia de progresso: de que a hist\u00f3ria avan\u00e7a, e sempre na dire\u00e7\u00e3o do <em>melhor<\/em><a href=\"#_edn192\" name=\"_ednref192\">[cxcii]<\/a>. Para o <em>modelo finalista<\/em> de filosofia da hist\u00f3ria, a guerra \u00e9 um <em>mal necess\u00e1rio <\/em>(a guerra \u00e9 um mal do qual <em>deriva<\/em> um bem), \u00e9 uma <em>via obrigat\u00f3ria<\/em> para o melhor<a href=\"#_edn193\" name=\"_ednref193\">[cxciii]<\/a>. Ela \u00e9 um <em>meio<\/em> para atingir um <em>fim<\/em> necess\u00e1rio<a href=\"#_edn194\" name=\"_ednref194\">[cxciv]<\/a>.<\/p>\n<p>A sociologia substituiu a filosofia da hist\u00f3ria como referencial intelectual predominante no final do s\u00e9culo XIX<a href=\"#_edn195\" name=\"_ednref195\">[cxcv]<\/a>. As correntes sociol\u00f3gicas que surgem na esteira das filosofias da hist\u00f3ria est\u00e3o ligadas a uma concep\u00e7\u00e3o predominantemente \u201cmonistas e naturalista da realidade\u201d<a href=\"#_edn196\" name=\"_ednref196\">[cxcvi]<\/a>. O fil\u00e3o do <em>darwinismo social<\/em> foi a express\u00e3o m\u00e1xima dessa sociologia baseada na id\u00e9ia de evolu\u00e7\u00e3o. Um dos c\u00e2nones de sua interpreta\u00e7\u00e3o de progresso era a luta pela exist\u00eancia e a guerra como meio para a sobreviv\u00eancia dos mais aptos. Para Bobbio, o darwinismo social \u201cofereceu argumentos e pretextos \u00e0s mais irrespons\u00e1veis exalta\u00e7\u00f5es \u00e0 guerra que j\u00e1 foram formuladas\u201d<a href=\"#_edn197\" name=\"_ednref197\">[cxcvii]<\/a>.<\/p>\n<p>Ao buscarmos entender como as id\u00e9ias de Einstein e Freud se encaixam neste modelo te\u00f3rico, percebemos que n\u00e3o h\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o f\u00e1cil, mas podemos dizer que Einstein e Freud fazem caminhos opostos para chegar mais ou menos no mesmo ponto. Vejamos.<\/p>\n<p>Se tomarmos como ponto de partida a Primeira Grande Guerra, em 1914, percebemos que a <em>Weltanschauung<\/em> de Einstein se mostra inicialmente impregnada por aqueles valores caracter\u00edsticos das teorias pacifistas, na classifica\u00e7\u00e3o de Bobbio, mais especialmente do pacifismo institucional. Einstein op\u00f4s-se \u00e0 guerra logo quando da sua deflagra\u00e7\u00e3o e mostrou-se chocado e indignado com as iniciativas de outros intelectuais e cientistas que apoiaram o esfor\u00e7o de guerra alem\u00e3o<a href=\"#_edn198\" name=\"_ednref198\">[cxcviii]<\/a>.<\/p>\n<p>At\u00e9 1928, \u00e9 certo que a posi\u00e7\u00e3o de Einstein em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra era de absoluto rep\u00fadio<a href=\"#_edn199\" name=\"_ednref199\">[cxcix]<\/a>. Ele apenas via, para a paz, o \u201ccaminho revolucion\u00e1rio\u201d<a href=\"#_edn200\" name=\"_ednref200\">[cc]<\/a> do enfrentamento radical de qualquer esfor\u00e7o de guerra. Em uma mensagem ao movimento \u201cN\u00e3o Mais Guerras\u201d<a href=\"#_edn201\" name=\"_ednref201\">[cci]<\/a>, naquele ano, Einstein escreveu que todas as pessoas conscientes e de boas inten\u00e7\u00f5es deviam assumir \u201co compromisso solene e incondicional de n\u00e3o participar em nenhuma guerra, por nenhuma raz\u00e3o, e de n\u00e3o oferecer nenhum tipo de apoio, seja direto, seja indireto\u201d<a href=\"#_edn202\" name=\"_ednref202\">[ccii]<\/a>.<\/p>\n<p>Entretanto, em menos de um ano, Einstein estaria defendendo tamb\u00e9m um \u201ccaminho legal\u201d de opor-se \u00e0 guerra, que era \u201ca oferta de servi\u00e7os alternativos (ao recrutamento militar) n\u00e3o apenas como um privil\u00e9gio de uns poucos, mas como um direito de todos\u201d<a href=\"#_edn203\" name=\"_ednref203\">[cciii]<\/a>. Apesar do desagrado de v\u00e1rios l\u00edderes pacifistas<a href=\"#_edn204\" name=\"_ednref204\">[cciv]<\/a> e de seus esfor\u00e7os para que Einstein mudasse de posi\u00e7\u00e3o, ele se manteve convencido de que \u201cambos os caminhos [o revolucion\u00e1rio e o legal] s\u00e3o valiosos e que certas circunst\u00e2ncias justificavam um deles, e outras circunst\u00e2ncias, o outro\u201d<a href=\"#_edn205\" name=\"_ednref205\">[ccv]<\/a>.<\/p>\n<p>Assim, apesar de Einstein se proclamar \u201cn\u00e3o apenas um pacifista, mas um pacifista militante\u201d<a href=\"#_edn206\" name=\"_ednref206\">[ccvi]<\/a>, o fato \u00e9 que ele n\u00e3o colocava posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ou ideol\u00f3gicas acima da causa da paz<a href=\"#_edn207\" name=\"_ednref207\">[ccvii]<\/a>. E, por essa raz\u00e3o, podia ser considerado, por muitos, como um pacifista inconsistente, sendo-lhe dif\u00edcil trabalhar em conjunto com institui\u00e7\u00f5es pacifistas, geralmente radicais<a href=\"#_edn208\" name=\"_ednref208\">[ccviii]<\/a>. Embora a posi\u00e7\u00e3o pessoal de Einstein em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 paz se tenha mantido inalterada ao longo das d\u00e9cadas<a href=\"#_edn209\" name=\"_ednref209\">[ccix]<\/a>, a estrutura mundial na qual a paz se podia concretizar mudou substancialmente entre 1920 e 1930<a href=\"#_edn210\" name=\"_ednref210\">[ccx]<\/a>. Por isso, para Einstein n\u00e3o parecia poss\u00edvel defender um pacifismo radical e est\u00e1tico, que n\u00e3o tivesse nenhuma possibilidade de alcan\u00e7ar a paz. Esta posi\u00e7\u00e3o de Einstein em rela\u00e7\u00e3o ao pacifismo demonstra, antes de tudo, uma coer\u00eancia hist\u00f3rica muito grande.<\/p>\n<p>A convic\u00e7\u00e3o mais profunda de Einstein defendia acima de tudo a \u201cpaz de igualdade\u201d ou a \u201cpaz confederativa\u201d ou a \u201cpaz de satisfa\u00e7\u00e3o\u201d, no esquema de Norberto Bobbio (vide quadro 1), recusando qualquer paz baseada no emprego da viol\u00eancia e da for\u00e7a. Mas esta posi\u00e7\u00e3o de Einstein era uma posi\u00e7\u00e3o limite. Ele entendia que at\u00e9 que ela pudesse ser alcan\u00e7ada, etapas menos ideais teriam que ser conquistadas. Com a ascens\u00e3o do nazismo ao poder na Alemanha, em janeiro de 1933, Einstein percebeu que o pacifismo ativo, simplesmente, n\u00e3o teria chances de trazer a paz \u201calcan\u00e7ada pela compreens\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn211\" name=\"_ednref211\">[ccxi]<\/a>. A \u00fanica paz que poderia resultar do avan\u00e7o nazista era a \u201cpaz de imp\u00e9rio\u201d, ou a \u201cpaz de exterm\u00ednio\u201d<a href=\"#_edn212\" name=\"_ednref212\">[ccxii]<\/a>, que, no conceito de Einstein, n\u00e3o eram, de forma alguma, <em>paz<\/em>.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, ele sentia que a paz s\u00f3 poderia nascer quando o perigo nazista fosse afastado. E isso n\u00e3o seria conseguido sem o recurso \u00e0s armas. Assim, por volta de 1932, quando troca a carta com Freud, Einstein <em>havia colocado a quest\u00e3o da paz acima da quest\u00e3o do pacifismo<\/em>. N\u00e3o lhe foi f\u00e1cil enfrentar a maioria dos movimentos pacifistas que, insistentemente, n\u00e3o percebiam a realidade hist\u00f3rica e se apegavam a ideais sublimes, mas impratic\u00e1veis. Ao longo dos anos seguintes Einstein manteve esta posi\u00e7\u00e3o como muita clareza e de forma cada vez mais expl\u00edcita<a href=\"#_edn213\" name=\"_ednref213\">[ccxiii]<\/a>.. Em 30 de dezembro de 1941, numa entrevista para o New York Times, Einstein argumentava:<\/p>\n<p>Nos anos vinte, quando n\u00e3o existiam ditaduras, eu advoguei a id\u00e9ia de que a recusa de ir para a guerra faria a guerra improv\u00e1vel. Mas assim que condi\u00e7\u00f5es coercivas surgiram em algumas na\u00e7\u00f5es, senti que esta posi\u00e7\u00e3o enfraqueceria as na\u00e7\u00f5es menos agressivas <em>vis-\u00e0-vis<\/em> as mais agressivas.<a href=\"#_edn214\" name=\"_ednref214\">[ccxiv]<\/a><\/p>\n<p>Em duas cartas ao pacifista japon\u00eas Seiei Shinohara, em 1953, Einstein dizia que era \u201cum pacifista <em>consagrado<\/em>, mas n\u00e3o um pacifista <em>incondicional<\/em>\u201d<a href=\"#_edn215\" name=\"_ednref215\">[ccxv]<\/a>, e que acreditava existir circunst\u00e2ncias nas quais \u201co uso da for\u00e7a seja apropriado \u2014 especificamente quando se enfrenta um inimigo incondicionalmente decidido a destruir a mim e ao meu povo\u201d<a href=\"#_edn216\" name=\"_ednref216\">[ccxvi]<\/a>, e que era \u201ccontr\u00e1rio ao uso da for\u00e7a em todas as circunst\u00e2ncias, exceto quando em confronto com um inimigo que busca a destrui\u00e7\u00e3o da vida como <em>um fim em si mesmo<\/em>\u201d<a href=\"#_edn217\" name=\"_ednref217\">[ccxvii]<\/a>.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da participa\u00e7\u00e3o de Einstein na empreitada americana para a produ\u00e7\u00e3o da bomba at\u00f4mica \u00e9 cheia de interessantes meandros, detalhadamente descritos por Roland Clark em sua biografia de Einstein<a href=\"#_edn218\" name=\"_ednref218\">[ccxviii]<\/a>, e refletem esta posi\u00e7\u00e3o \u00e0 qual Einstein se viu levado pelas circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas. N\u00e3o podemos aqui, por quest\u00e3o de espa\u00e7o, entrar nos detalhes de todas as a\u00e7\u00f5es de Einstein e dos governos Roosevelt e Truman no tocante \u00e0 produ\u00e7\u00e3o americana da bomba nuclear, mas \u00e9 preciso deixar anotado que Einstein n\u00e3o se recusou a desempenhar um papel \u201csingularmente dram\u00e1tico\u201d<a href=\"#_edn219\" name=\"_ednref219\">[ccxix]<\/a> na promo\u00e7\u00e3o do esfor\u00e7o americano para a produ\u00e7\u00e3o da bomba nuclear, a partir de 1939. Apesar de a primeira carta de Einstein ao presidente Roosevelt, em agosto de 1939, ser a mais famosa, o fato \u00e9 que Einstein chegou a assinar tr\u00eas cartas, das quais, segundo Roland Clark, \u201ca terceira, que ajudou a disparar a cria\u00e7\u00e3o do Projeto Manhattan<a href=\"#_edn220\" name=\"_ednref220\">[ccxx]<\/a>, foi talvez a mais importante\u201d<a href=\"#_edn221\" name=\"_ednref221\">[ccxxi]<\/a>.<\/p>\n<p>Foi provavelmente durante os anos da Segunda Grande Guerra, em especial diante das evid\u00eancias de agressivo expansionismo nazista, que Einstein consolidou sua posi\u00e7\u00e3o de um pacifista que justifica a guerra de defesa. Einstein manteve esta postura l\u00facida at\u00e9 o final de seus dias<a href=\"#_edn222\" name=\"_ednref222\">[ccxxii]<\/a>.<\/p>\n<p>Pode parecer que a \u00fanica exce\u00e7\u00e3o aberta por Einstein ao princ\u00edpio da n\u00e3o-agress\u00e3o, era no caso de uma guerra de defesa. Ele salienta que a viol\u00eancia somente \u00e9 justific\u00e1vel \u201cespecificamente quando se enfrenta um inimigo incondicionalmente decidido a destruir <em>a mim e ao meu povo<\/em>\u201d<a href=\"#_edn223\" name=\"_ednref223\">[ccxxiii]<\/a>, quando \u201cum poder hostil amea\u00e7a a destrui\u00e7\u00e3o em massa do <em>grupo ao qual se pertence<\/em>\u201d<a href=\"#_edn224\" name=\"_ednref224\">[ccxxiv]<\/a>. Entretanto, os desenvolvimentos hist\u00f3ricos durante a Segunda Guerra Mundial levaram Einstein a tamb\u00e9m rever suas cren\u00e7as a respeito do princ\u00edpio da n\u00e3o-interfer\u00eancia em assuntos internos de outras na\u00e7\u00f5es. Consoante com a dura realidade do genoc\u00eddio empreendido pelos nazistas, Einstein defendeu firmemente o princ\u00edpio de que \u201cnenhum governo tem o direito de conduzir uma campanha sistem\u00e1tica para a destrui\u00e7\u00e3o f\u00edsica de qualquer segmento da popula\u00e7\u00e3o que reside dentro de suas fronteiras\u201d<a href=\"#_edn225\" name=\"_ednref225\">[ccxxv]<\/a>, e que, \u201cNeste assunto <em>n\u00e3o reconhecemos nenhum princ\u00edpio de n\u00e3o-interfer\u00eancia<\/em>\u201d<a href=\"#_edn226\" name=\"_ednref226\">[ccxxvi]<\/a>. Einstein manteve esta posi\u00e7\u00e3o de forma cada vez mais clara e categ\u00f3rica<a href=\"#_edn227\" name=\"_ednref227\">[ccxxvii]<\/a>.<\/p>\n<p>Assim, percebemos que, ao longo de sua vida, a <em>Weltanschauung<\/em> de Einstein, no que diz respeito ao pacifismo, moveu-se de um pacifismo absoluto em dire\u00e7\u00e3o a um pacifismo relativo. No esquema de Norberto Bobbio, isso significa que Einstein saiu do c\u00edrculo de refer\u00eancias das <em>teorias pacifistas<\/em><a href=\"#_edn228\" name=\"_ednref228\"><em><strong>[ccxxviii]<\/strong><\/em><\/a>, que n\u00e3o justificam nenhuma guerra, para ingressar no das teorias da <em>guerra justa<\/em><a href=\"#_edn229\" name=\"_ednref229\"><em><strong>[ccxxix]<\/strong><\/em><\/a><em>, <\/em>que justificam algumas. Neste movimento, Einstein foi para al\u00e9m da simples justifica\u00e7\u00e3o da <em>guerra de defesa<\/em>, caracteristicamente travada pelas na\u00e7\u00f5es sob ataque de inimigos inveterados; ele tamb\u00e9m veio a justificar a <em>guerra em defesa<\/em> de na\u00e7\u00f5es mais fr\u00e1geis por parte de um terceiro poder militarmente capaz e moralmente respons\u00e1vel. Esta justifica\u00e7\u00e3o da guerra cai dentro daquela esfera de <em>guerra justa<\/em> que Bobbio equipara a um \u201cprocesso judicial\u201d, quando a guerra \u00e9 exercida para restabelecer uma ordem mundial justa que foi perdida pelos arroubos expansionistas de um governo belicista, como no caso da Alemanha nazista entre 1933 e 1945.<\/p>\n<p>Se o movimento de Einstein vai do pacifismo incondicional para a justifica\u00e7\u00e3o das guerras de defesa e, num passo seguinte, para a justifica\u00e7\u00e3o das guerras de interfer\u00eancia travadas por terceiros poderes para \u201cque a vida de pessoas inocentes seja respeitada e inviolada em todas as partes\u201d<a href=\"#_edn230\" name=\"_ednref230\">[ccxxx]<\/a>, o movimento de Freud, para chegar mais ou menos no mesmo ponto, d\u00e1-se a partir de um ponto de partida oposto: o da justifica\u00e7\u00e3o de todas as guerras.<\/p>\n<p>Freud, ao contr\u00e1rio de Einstein, n\u00e3o restringe a justifica\u00e7\u00e3o da guerra \u00e0 defesa pr\u00f3pria ou de outrem, mas consegue justificar tamb\u00e9m \u201cas guerras de conquista\u201d<a href=\"#_edn231\" name=\"_ednref231\">[ccxxxi]<\/a>. Como corol\u00e1rio dessa perspectiva, Freud argumenta que, por paradoxal que seja, \u201ctemos de admitir que a guerra pode servir de caminho para aquela paz perp\u00e9tua que tanto desejamos\u201d<a href=\"#_edn232\" name=\"_ednref232\">[ccxxxii]<\/a>, e isso porque \u201ca guerra constr\u00f3i vastos imp\u00e9rios dentro de cujas fronteiras toda guerra \u00e9 proscrita por um poder central forte\u201d<a href=\"#_edn233\" name=\"_ednref233\">[ccxxxiii]<\/a>. Podemos encontrar, nestas palavras de Freud, uma aproxima\u00e7\u00e3o daquelas filosofias da hist\u00f3ria que, conforme Bobbio \u201ctendem a justificar todas as guerras\u201d. Os postulados de Freud est\u00e3o em algum lugar entre os modelos de um <em>belicismo providencialista<\/em>, na sua vers\u00e3o <em>racionalizante<\/em> e um <em>belicismo finalista<\/em><a href=\"#_edn234\" name=\"_ednref234\">[ccxxxiv]<\/a>.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, Freud argumenta tamb\u00e9m que a unidade constru\u00edda pela guerra n\u00e3o perdura<a href=\"#_edn235\" name=\"_ednref235\">[ccxxxv]<\/a>, e que, \u201cPara a humanidade em geral, o \u00fanico resultado destas campanhas militares foi que, em vez de freq\u00fcentes \u2014 para n\u00e3o dizer incessantes \u2014 pequenas guerras, os povos tinham de enfrentar grandes guerras que, apesar de virem com menor freq\u00fc\u00eancia, eram muito mais destruidoras\u201d (\u00a7F7).<\/p>\n<p>Nessa ambig\u00fcidade com que Freud trata da quest\u00e3o da guerra em sua carta a Einstein encontramos, entretanto, um significativo movimento em dire\u00e7\u00e3o a uma regi\u00e3o mais dominada pelo pacifismo do que pelo belicismo. Isso porque, devemos lembrar, ao contr\u00e1rio de Einstein, Freud, como a grande maioria dos europeus, havia saudado o in\u00edcio da Primeira Guerra Mundial <em>com entusiasmo<\/em><a href=\"#_edn236\" name=\"_ednref236\">[ccxxxvi]<\/a>.<\/p>\n<p>Pelo fato de desconhecerem o que realmente era uma guerra, os povos e governos da Europa ingressaram na Primeira Grande Guerra com um entusiasmo juvenil<a href=\"#_edn237\" name=\"_ednref237\">[ccxxxvii]<\/a> que, na perspectiva contempor\u00e2nea, beira o pat\u00e9tico, se n\u00e3o a insanidade<a href=\"#_edn238\" name=\"_ednref238\">[ccxxxviii]<\/a>. Hobsbawm escreve que \u201cEm 1914, os povos da Europa foram alegremente massacrar e ser massacrados\u201d<a href=\"#_edn239\" name=\"_ednref239\">[ccxxxix]<\/a>. A maior parte dos intelectuais saudava a guerra como \u201cum cl\u00edmax adequado a d\u00e9cadas de irrita\u00e7\u00e3o contra o que eles e seus ancestrais de vanguarda gostavam de denunciar como a cultura burguesa obtusa, segura, vulgar\u201d<a href=\"#_edn240\" name=\"_ednref240\">[ccxl]<\/a>. Numa atitude alienada e soberana, estes intelectuais \u201cresumiam em si uma paix\u00e3o jocosa, sofisticada e irrespons\u00e1vel pela desraz\u00e3o, purifica\u00e7\u00e3o e morte\u201d<a href=\"#_edn241\" name=\"_ednref241\">[ccxli]<\/a>.<\/p>\n<p>Entre estes milhares de iludidos intelectuais, estava Freud<a href=\"#_edn242\" name=\"_ednref242\">[ccxlii]<\/a>, que se apoiava nas imagens idealizadas da guerra que dominavam a cultura europ\u00e9ia<a href=\"#_edn243\" name=\"_ednref243\">[ccxliii]<\/a>. Durante os primeiros anos da guerra, Freud disse estar \u201cvivendo de uma vit\u00f3ria alem\u00e3 \u00e0 pr\u00f3xima\u201d<a href=\"#_edn244\" name=\"_ednref244\">[ccxliv]<\/a>, e, durante um certo tempo, \u201ctamb\u00e9m entregou-se \u00e0 credulidade partid\u00e1ria\u201d<a href=\"#_edn245\" name=\"_ednref245\">[ccxlv]<\/a>, sendo \u201cacometido por um acesso inesperado de patriotismo\u201d<a href=\"#_edn246\" name=\"_ednref246\">[ccxlvi]<\/a>. Como o pr\u00f3prio Freud disse sobre si mesmo, \u201cToda a minha libido<a href=\"#_edn247\" name=\"_ednref247\">[ccxlvii]<\/a> foi entregue ao Imp\u00e9rio Austro-h\u00fangaro\u201d<a href=\"#_edn248\" name=\"_ednref248\">[ccxlviii]<\/a>. Ernest Jones, o fiel bi\u00f3grafo e disc\u00edpulo, tamb\u00e9m relata a entusi\u00e1stica sauda\u00e7\u00e3o da guerra por parte de Freud:<\/p>\n<p>A resposta imediata de Freud \u00e0 declara\u00e7\u00e3o de guerra foi inesperada. Seria natural imaginar que um pac\u00edfico <em>savant<\/em><a href=\"#_edn249\" name=\"_ednref249\">[ccxlix]<\/a> de cinq\u00fcenta e oito anos a haveria de saudar com simples horror, como muitos fizeram. Mas, ao contr\u00e1rio, sua primeira rea\u00e7\u00e3o foi antes de um entusiasmo juvenil, aparentemente um redespertar dos ardores militaristas de sua meninice.<a href=\"#_edn250\" name=\"_ednref250\">[ccl]<\/a><\/p>\n<p>Por\u00e9m, esta vis\u00e3o asc\u00e9tica da guerra logo cairia por terra com os horrores inimagin\u00e1veis que se seguiram durante a Primeira Guerra Mundial, na qual 20 milh\u00f5es de pessoas viriam a ser dizimadas nas maneiras mais brutais<a href=\"#_edn251\" name=\"_ednref251\">[ccli]<\/a>. A Primeira Guerra Mundial fez com que Freud, assim como muitos outros intelectuais europeus, revisse categoricamente seus pressupostos e suas id\u00e9ias a respeito da guerra.<\/p>\n<p>Assim, ao longo desta caminhada intelectual e emocional, Freud chega a 1932, ocasi\u00e3o de sua correspond\u00eancia com Einstein, num ponto bem diferente daquele donde partira em 1914. Apesar de ainda justificar, de maneira evidentemente amb\u00edgua, os poss\u00edveis benef\u00edcios de algumas guerras de conquista, e de assumir que a guerra \u201cpode servir de caminho para aquela paz perp\u00e9tua que tanto desejamos\u201d<a href=\"#_edn252\" name=\"_ednref252\">[cclii]<\/a>, Freud finaliza a carta a Einstein escrevendo, de forma pungente, que \u201ca guerra destr\u00f3i vidas cheias de promessas\u201d, que ela \u201cfor\u00e7a o indiv\u00edduo a situa\u00e7\u00f5es que humilham sua natureza\u201d, e que \u201cdestr\u00f3i as amenidades materiais, os frutos do esfor\u00e7o humano, e tudo o mais\u201d<a href=\"#_edn253\" name=\"_ednref253\">[ccliii]<\/a>.<\/p>\n<p>Que grande reforma sofrera a <em>Weltanschauung<\/em> do velho <em>savant<\/em>! De um entusiasta dos poderes <em>purificadores<\/em> da guerra em 1914, temos, em 1932, um Freud que, diante dos horrores e da carnificina dos conflitos b\u00e9licos, n\u00e3o entende \u201ccomo \u00e9 que a pr\u00e1tica da guerra n\u00e3o foi banida atrav\u00e9s de uma decis\u00e3o coletiva da humanidade\u201d<a href=\"#_edn254\" name=\"_ednref254\">[ccliv]<\/a>.<\/p>\n<p>Portanto, na \u00e9poca em que redigiram suas cartas em <em>Warum Krieg?<\/em> (1932), encontramos Einstein e Freud convergindo para uma esp\u00e9cie de fronteira comum, bem longe dos territ\u00f3rios radicalmente opostos que ocupavam antes da Primeira Grande Guerra. Freud, dos confins de uma filosofia marcadamente belicista, caminha para uma zona em que apenas consegue justificar, relutantemente, algumas guerras, n\u00e3o mais todas. Einstein, por sua vez, se move dos rinc\u00f5es de um pacifismo absoluto para a mesma regi\u00e3o da aceita\u00e7\u00e3o das \u201cguerras justas\u201d, especialmente durante o per\u00edodo da Segunda Grande Guerra.<\/p>\n<p><strong>4.4\u00a0 Guerra e mudan\u00e7a social<\/strong><\/p>\n<p>Einstein e Freud, em <em>Warum Krieg?<\/em>, dedicam-se a analisar, embora n\u00e3o extensamente, alguns dos elementos centrais referentes \u00e0 perspectiva do <em>pacifismo institucional social<\/em>, aquele que busca a paz atrav\u00e9s da revolu\u00e7\u00e3o social (Quadro 4). Einstein, por seu lado, indica algumas for\u00e7as sociais que lhe parecem evidentemente relacionadas \u00e0s causas da guerra, dizendo que elas \u201cn\u00e3o s\u00e3o dif\u00edceis de identificar\u201d<a href=\"#_edn255\" name=\"_ednref255\">[cclv]<\/a>: as classes governantes e os que lucram com a produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o de armamentos<a href=\"#_edn256\" name=\"_ednref256\">[cclvi]<\/a>.E isso porque esta classe dominante \u201cdet\u00e9m em suas m\u00e3os as escolas, a imprensa e geralmente tamb\u00e9m as organiza\u00e7\u00f5es religiosas\u201d<a href=\"#_edn257\" name=\"_ednref257\">[cclvii]<\/a>, e, atrav\u00e9s desses meios, \u201cconsegue dominar e governar as emo\u00e7\u00f5es das massas em geral, para manipul\u00e1-las a seu bel-prazer\u201d<a href=\"#_edn258\" name=\"_ednref258\">[cclviii]<\/a>.<\/p>\n<p>Em sua breve exposi\u00e7\u00e3o sobre os elementos institucional-sociais que est\u00e3o por detr\u00e1s da atividade b\u00e9lica, Einstein salienta que a manipula\u00e7\u00e3o conseguida pela classe governante n\u00e3o atua \u201cde forma alguma apenas nas chamadas massas incultas\u201d<a href=\"#_edn259\" name=\"_ednref259\">[cclix]<\/a>, mas que \u00e9 a \u201cassim denominada <em>intelligentsia<\/em> quem mais cede a estas desastrosas sugest\u00f5es coletivas\u201d<a href=\"#_edn260\" name=\"_ednref260\">[cclx]<\/a>. Apesar de Einstein ter restringido intencionalmente suas considera\u00e7\u00f5es \u00e0 guerra entre as na\u00e7\u00f5es<a href=\"#_edn261\" name=\"_ednref261\">[cclxi]<\/a>, Freud estende o campo de investiga\u00e7\u00e3o para al\u00e9m desses limites, com o intuito de apontar as ra\u00edzes daquele comportamento manipulador t\u00edpico das classes dominantes, o qual, conforme Einstein, \u00e9 um dos elementos que conduz \u00e0s guerras.<\/p>\n<p>Freud enxerga a origem da ordem social numa decis\u00e3o coletiva de transferir o imp\u00e9rio da for\u00e7a individual para a for\u00e7a da coletividade. Freud indica, assim, que \u201co direito\u201d<a href=\"#_edn262\" name=\"_ednref262\">[cclxii]<\/a> que rege as sociedades humanas<a href=\"#_edn263\" name=\"_ednref263\">[cclxiii]<\/a> no lugar da for\u00e7a, nada mais \u00e9 do que \u201co poder de uma comunidade\u201d<a href=\"#_edn264\" name=\"_ednref264\">[cclxiv]<\/a>, e que este estado de imp\u00e9rio do direito \u201cnada mais \u00e9 do que o uso da for\u00e7a\u201d<a href=\"#_edn265\" name=\"_ednref265\">[cclxv]<\/a> s\u00f3 que numa condi\u00e7\u00e3o em que \u201cn\u00e3o \u00e9 mais a for\u00e7a de um indiv\u00edduo que se imp\u00f5e, mas a da comunidade\u201d<a href=\"#_edn266\" name=\"_ednref266\">[cclxvi]<\/a>.<\/p>\n<p>No entendimento de Freud, a \u00fanica forma de a sociedade conseguir manter a sua unidade, apesar da sua diversidade, \u00e9 atrav\u00e9s do imp\u00e9rio da Lei. Para ele, a \u201clegisla\u00e7\u00e3o da comunidade tomar\u00e1 em conta esta diferen\u00e7a de poder em seu meio\u201d<a href=\"#_edn267\" name=\"_ednref267\">[cclxvii]<\/a> e procurar\u00e1 lidar com ela. Por\u00e9m, o problema \u00e9 que \u201cas leis s\u00e3o feitas pelos governantes e em seu benef\u00edcio, enquanto as massas subalternas recebem menos direitos\u201d<a href=\"#_edn268\" name=\"_ednref268\">[cclxviii]<\/a>. \u00c9 nisto que Freud, assim como Einstein, encontra os elementos de instabilidade social que conduzem \u00e0s guerras, dentro das perspectivas de um pacifismo <em>institucional social<\/em>, conforme Bobbio.<\/p>\n<p>Em <em>Warum Krieg?<\/em>, Freud det\u00e9m-se, mais do que Einstein, nas din\u00e2micas desta transforma\u00e7\u00e3o social necess\u00e1ria para superar os conflitos inerentes \u00e0 disparidade de direitos e privil\u00e9gios dentro da sociedade. Embora Freud direcione sua an\u00e1lise para aquelas unidades sociais \u201cdentro de cujas fronteiras toda guerra \u00e9 proscrita por um poder central forte\u201d<a href=\"#_edn269\" name=\"_ednref269\">[cclxix]<\/a>, sua an\u00e1lise \u00e9 \u00fatil para compreender a din\u00e2mica daqueles conflitos internos aos Estados, como as guerras civis.<\/p>\n<p>Freud identifica que \u201cdentro da comunidade h\u00e1 duas fontes que provocam a instabilidade da lei, mas tamb\u00e9m sua evolu\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn270\" name=\"_ednref270\">[cclxx]<\/a>, quais sejam: \u201cas tentativas por parte de membros da classe governante para se manterem acima das restri\u00e7\u00f5es impostas a todos\u201d<a href=\"#_edn271\" name=\"_ednref271\">[cclxxi]<\/a>, e \u201cos esfor\u00e7os constantes dos oprimidos para obterem mais poder e para ver essas mudan\u00e7as incorporadas na lei\u201d<a href=\"#_edn272\" name=\"_ednref272\">[cclxxii]<\/a>. Este conflito de interesses, para Freud, tem sua din\u00e2mica alterada atrav\u00e9s daquelas mudan\u00e7as sociais associadas a \u201cdeterminadas condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas\u201d<a href=\"#_edn273\" name=\"_ednref273\">[cclxxiii]<\/a>, quando ocorre \u201cuma mudan\u00e7a genu\u00edna no balan\u00e7o de poder dentro da comunidade\u201d<a href=\"#_edn274\" name=\"_ednref274\">[cclxxiv]<\/a><a href=\"#_edn275\" name=\"_ednref275\">[cclxxv]<\/a>. Quando ocorre esta mudan\u00e7a no balan\u00e7o do poder \u2014 geralmente pela ascens\u00e3o de um novo segmento social \u00e0 elite econ\u00f4mica \u2014 h\u00e1 dois caminhos que Freud vislumbra, atrav\u00e9s dos quais se d\u00e1 a mudan\u00e7a da ordem jur\u00eddica.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, se os novos atores sociais que ingressaram na elite econ\u00f4mica conseguem tamb\u00e9m acesso \u00e0s decis\u00f5es pol\u00edticas, ent\u00e3o, \u201cEm tais casos, a Lei pode ser gradualmente ajustada \u00e0s novas circunst\u00e2ncias da divis\u00e3o de poder\u201d<a href=\"#_edn276\" name=\"_ednref276\">[cclxxvi]<\/a>. Por\u00e9m, se a classe hegem\u00f4nica n\u00e3o d\u00e1 espa\u00e7o para os novos atores empoderados pela ascens\u00e3o social, e \u201cn\u00e3o se mostra disposta a realizar estas mudan\u00e7as no Direito\u201d<a href=\"#_edn277\" name=\"_ednref277\">[cclxxvii]<\/a>, ent\u00e3o a ordem social se desestabiliza, com \u201cinsurrei\u00e7\u00f5es e guerras civis, um per\u00edodo no qual a Lei fica em suspenso e se experimenta um novo balan\u00e7o de poder, para ent\u00e3o surgir um novo regime de direito\u201d<a href=\"#_edn278\" name=\"_ednref278\">[cclxxviii]<\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 importante notar como esta an\u00e1lise de Freud n\u00e3o condena o conflito resultante da injusti\u00e7a com que a Lei trata determinadas camadas sociais. Pelo contr\u00e1rio, ela a compreende e justifica. Tampouco condena a viol\u00eancia resultante da recusa da classe hegem\u00f4nica em realizar mudan\u00e7as jur\u00eddicas que contemplem o novo \u201cbalan\u00e7o de poder\u201d. Freud entende nestes conflitos de interesses tanto um fator de \u201cinstabilidade da lei\u201d<a href=\"#_edn279\" name=\"_ednref279\">[cclxxix]<\/a>, como tamb\u00e9m um fator que causa \u201csua evolu\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn280\" name=\"_ednref280\">[cclxxx]<\/a>.<\/p>\n<p>Tal entendimento inserido na <em>Weltanschauung<\/em> de Freud est\u00e1 claramente alinhado, no esquema de Bobbio, com a perspectiva do <em>pacifismo institucional<\/em>, tanto na sua vertente <em>jur\u00eddica<\/em> \u2014 a paz pela modifica\u00e7\u00e3o da lei \u2014, quanto da <em>social<\/em> \u2014 a paz pela revolu\u00e7\u00e3o social<a href=\"#_edn281\" name=\"_ednref281\">[cclxxxi]<\/a>. Einstein, da mesma forma, em 1931, explicitava este entendimento ao dizer que:<\/p>\n<p>H\u00e1 duas maneiras de opor-se \u00e0 guerra: o caminho legal e o caminho revolucion\u00e1rio. O caminho legal envolve a oferta de servi\u00e7os alternativos (ao recrutamento) n\u00e3o apenas como um privil\u00e9gio de uns poucos, mas como um direito de todos. O caminho revolucion\u00e1rio envolve a resist\u00eancia incondicional, objetivando quebrar o poder do militarismo em tempos de paz ou os recursos do estado em tempos de guerra.<a href=\"#_edn282\" name=\"_ednref282\">[cclxxxii]<\/a><\/p>\n<p>Parece-nos evidente que Einstein e Freud, em 1932, j\u00e1 trabalhavam com o entendimento que Lederach e outros estudiosos dos caminhos da paz vieram, na d\u00e9cada e 1980 e 90, a conceitualizar como <em>transforma\u00e7\u00e3o de conflitos<\/em><a href=\"#_edn283\" name=\"_ednref283\"><em><strong>[cclxxxiii]<\/strong><\/em><\/a>, bem como apontavam para o conceito de <em>viol\u00eancia estrutural<\/em>, de Galtung<a href=\"#_edn284\" name=\"_ednref284\">[cclxxxiv]<\/a>, ao denunciar o favoritismo da lei em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s classes dominantes<a href=\"#_edn285\" name=\"_ednref285\">[cclxxxv]<\/a>.<\/p>\n<p>Na <em>Weltanschauung<\/em> de Freud esta abordagem de transforma\u00e7\u00e3o de conflitos tamb\u00e9m se estende \u00e0s rela\u00e7\u00f5es entre as na\u00e7\u00f5es, que era o foco da discuss\u00e3o com Einstein em 1932. Freud argumenta como algumas guerras \u201capressaram a transi\u00e7\u00e3o da for\u00e7a para a Lei, pois criaram unidades sociais maiores, dentro de cujos limites o uso da for\u00e7a era proibido e um novo regime de direito resolvia as disputas\u201d<a href=\"#_edn286\" name=\"_ednref286\">[cclxxxvi]<\/a>. Apesar de considerar que em geral estas conquistas s\u00e3o bastante inst\u00e1veis, uma vez que \u201cn\u00e3o pode haver verdadeira coes\u00e3o entre as partes unidas pela viol\u00eancia\u201d<a href=\"#_edn287\" name=\"_ednref287\">[cclxxxvii]<\/a>, o argumento empregado por Freud para entender a paz como resultado da transforma\u00e7\u00e3o de conflitos dentro das na\u00e7\u00f5es \u00e9 aqui claramente aplicado \u00e0s rela\u00e7\u00f5es entre as na\u00e7\u00f5es em si.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 1915, no seu ensaio <em>Considera\u00e7\u00f5es Atuais Sobre a Guerra e a Morte<\/em>, Freud argumentava que \u201cas guerras n\u00e3o podem cessar enquanto os povos viverem em t\u00e3o distintas condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia\u201d<a href=\"#_edn288\" name=\"_ednref288\">[cclxxxviii]<\/a>, e que \u201cenquanto as condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia dos povos sejam t\u00e3o distintas e t\u00e3o violentas as avers\u00f5es entre eles, haver\u00e1 guerras\u201d<a href=\"#_edn289\" name=\"_ednref289\">[cclxxxix]<\/a>. Freud n\u00e3o fala, portanto, de uma impossibilidade da guerra, mas de um processo em que a paz adv\u00e9m de um ajustamento entre as na\u00e7\u00f5es \u2014 o que, na ess\u00eancia, significa <em>transforma\u00e7\u00e3o de conflitos<\/em> \u2014 da mesma forma como a paz interna \u00e0s na\u00e7\u00f5es depende de um ajustamento entre os diferentes atores sociais que atuam dentro delas.<\/p>\n<p>Para Einstein, aquele que se op\u00f5e \u00e0 guerra por uma quest\u00e3o de consci\u00eancia tem de ser \u201cum revolucion\u00e1rio\u201d<a href=\"#_edn290\" name=\"_ednref290\">[ccxc]<\/a>, algu\u00e9m que \u201cao desobedecer a lei, sacrifica seus interesses pessoais para trabalhar em prol da causa superior da melhoria da sociedade\u201d<a href=\"#_edn291\" name=\"_ednref291\">[ccxci]<\/a>. Assim como Freud, portanto, Einstein tamb\u00e9m contemplava a necessidade tanto dos caminhos jur\u00eddicos quanto os da mobiliza\u00e7\u00e3o e da revolu\u00e7\u00e3o social para a conquista da paz, embora ele tenha restringido seus coment\u00e1rios sobre este aspecto nas p\u00e1ginas de <em>Warum Krieg?<\/em>.<\/p>\n<p>Tanto Einstein quanto Freud incorporavam em suas vis\u00f5es da paz a id\u00e9ia de que ela n\u00e3o poderia vir da elimina\u00e7\u00e3o artificial da <em>viol\u00eancia expl\u00edcita<\/em>, mas sim pela supera\u00e7\u00e3o das v\u00e1rias formas de <em>viol\u00eancia estrutural<\/em>. Assim, eles concordam com a vis\u00e3o de Johan Galtung, de que, muitas vezes, a conquista da paz exige uma luta ativa, inclusive revolucion\u00e1ria, contra as estruturas sociais que sustentam a <em>viol\u00eancia estrutural<\/em>. N\u00e3o propunham, portanto, segundo as an\u00e1lises de Jean Paul Lederach<a href=\"#_edn292\" name=\"_ednref292\">[ccxcii]<\/a>, algo na linha da \u201cresolu\u00e7\u00e3o de conflitos\u201d ou da \u201cadministra\u00e7\u00e3o de conflitos\u201d, mas sim se alinhavam com uma vis\u00e3o de \u201ctransforma\u00e7\u00e3o de conflitos\u201d, na qual <em>a paz que vale a pena<\/em> (baseada na justi\u00e7a) emerge, no mais das vezes, da pr\u00f3pria din\u00e2mica dos conflitos, mais do que de sua elimina\u00e7\u00e3o precoce e artificial, o que, no esquema de Bobbio, representaria uma <em>paz de hegemonia<\/em>, ou <em>de imp\u00e9rio<\/em>, ou <em>de exterm\u00ednio<\/em>, mas nunca uma <em>paz de equil\u00edbrio<\/em> ou <em>de satisfa\u00e7\u00e3o<\/em><a href=\"#_edn293\" name=\"_ednref293\"><em><strong>[ccxciii]<\/strong><\/em><\/a>.<\/p>\n<p><strong>4.5\u00a0 A diferen\u00e7a qualitativa da guerra no s\u00e9culo XX<\/strong><\/p>\n<p>Um outro ponto de concord\u00e2ncia entre Einstein e Freud na correspond\u00eancia diz respeito \u00e0 diferen\u00e7a qualitativa da guerra contempor\u00e2nea em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s travadas no passado. Ambos se colocam assim, como precursores daquele tipo de consci\u00eancia que Norberto Bobbio chama de \u201cconsci\u00eancia at\u00f4mica\u201d<a href=\"#_edn294\" name=\"_ednref294\">[ccxciv]<\/a>, ou seja, a consci\u00eancia de que o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico levou a atividade b\u00e9lica a uma radicalidade que a torna ou absolutamente invi\u00e1vel, ou absolutamente injustific\u00e1vel, pela magnitude dos riscos e das perdas que implica<a href=\"#_edn295\" name=\"_ednref295\">[ccxcv]<\/a>. Claro que, em 1932, Einstein e Freud n\u00e3o podiam arrazoar sobre os limites impostos \u00e0 guerra pelos armamentos at\u00f4micos, pois estes ainda nem sequer eram cogitados. Ambos tomavam como refer\u00eancia apenas a tecnologia existente no primeiro quartel do s\u00e9culo XX. E esta, aos seus olhos, j\u00e1 bastava para indicar a guerra como uma via bloqueada<a href=\"#_edn296\" name=\"_ednref296\">[ccxcvi]<\/a>, como uma institui\u00e7\u00e3o humana cujo tempo j\u00e1 se esgotara, no sentido de que \u201ccada \u00e9poca tem n\u00e3o s\u00f3 a sua verdade, mas tamb\u00e9m as suas institui\u00e7\u00f5es\u201d<a href=\"#_edn297\" name=\"_ednref297\">[ccxcvii]<\/a>.<\/p>\n<p>Quando, em 1932, Einstein escreveu sobre o \u201cavan\u00e7o da tecnologia\u201d<a href=\"#_edn298\" name=\"_ednref298\">[ccxcviii]<\/a> que tornava a \u201cguerra uma quest\u00e3o de vida ou morte para o mundo civilizado\u201d<a href=\"#_edn299\" name=\"_ednref299\">[ccxcix]<\/a>, e quando Freud, em sua resposta, falava do \u201cbem-fundado temor quanto \u00e0 forma de futuras guerras\u201d<a href=\"#_edn300\" name=\"_ednref300\">[ccc]<\/a> nenhum dos dois podia ter a menor id\u00e9ia do quanto isso seria verdade apenas treze ver\u00f5es mais tarde. Quando, em 6 de agosto de 1945 a bomba at\u00f4mica explodiu sobre Hiroxima, isso n\u00e3o apenas representou a morte de mais de 120.000 pessoas inocentes em alguns segundos \u2014 tamb\u00e9m morreu uma \u00e9poca. A bomba nuclear inaugurou uma era em que todas as amea\u00e7as do Apocalipse \u2014 mesmo para um ateu como Freud \u2014 deixaram de ser mito para se tornar realidade. Em 12 de junho de 1953, num pronunciamento conjunto publicado pelo <em>New York Times<\/em>, Einstein diria, juntamente com os demais signat\u00e1rios, que \u201cA primeira bomba at\u00f4mica destruiu mais do que a cidade de Hiroxima. Ela tamb\u00e9m detonou as id\u00e9ias pol\u00edticas ultrapassadas que herdamos\u201d<a href=\"#_edn301\" name=\"_ednref301\">[ccci]<\/a>.<\/p>\n<p>Ao rep\u00f3rter do <em>New York Times<\/em> que foi \u00e0 sua casa para dar a not\u00edcia da detona\u00e7\u00e3o da bomba em Hiroxima, Einstein disse: \u201cO mundo ainda n\u00e3o est\u00e1 pronto para isso!\u201d<a href=\"#_edn302\" name=\"_ednref302\">[cccii]<\/a> J\u00e1 em 1930, avaliando os armamentos b\u00e9licos existentes, Einstein dizia que \u201co desenvolvimento dos meios mec\u00e2nicos de combate b\u00e9lico \u00e9 de tal natureza que a vida humana tornar-se-\u00e1 intoler\u00e1vel se as pessoas n\u00e3o descobrirem em breve uma forma de prevenir as guerras\u201d<a href=\"#_edn303\" name=\"_ednref303\">[ccciii]<\/a>.<\/p>\n<p>Norberto Bobbio prop\u00f5e tr\u00eas met\u00e1foras, tr\u00eas modelos aproximativos que \u201ccorrespondem a tr\u00eas modos de conceber o sentido da hist\u00f3ria\u201d<a href=\"#_edn304\" name=\"_ednref304\">[ccciv]<\/a> e da guerra dentro da hist\u00f3ria, que procuramos resumir no Quadro 5 a seguir.<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"127\"><strong>Met\u00e1fora da guerra<\/strong><\/td>\n<td width=\"145\"><strong>Situa\u00e7\u00e3o descrita<\/strong><\/td>\n<td width=\"239\"><strong>O papel do fil\u00f3sofo<\/strong><\/td>\n<td width=\"103\"><strong>Observa\u00e7\u00f5es<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"127\">\u201cMosca na garrafa\u201d<a href=\"#_edn305\" name=\"_ednref305\">[cccv]<\/a><\/td>\n<td width=\"145\">H\u00e1 uma sa\u00edda, mas a humanidade (mosca) n\u00e3o a v\u00ea.<\/td>\n<td width=\"239\">O fil\u00f3sofo \u00e9 observador externo. V\u00ea a sa\u00edda e busca guiar a mosca (humanidade).<\/td>\n<td width=\"103\">A filosofia sob a roupagem do saber racional<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"127\">\u201cPeixe na rede\u201d<\/td>\n<td width=\"145\">N\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda. E quando h\u00e1, \u00e9 a morte.<\/td>\n<td width=\"239\">O fil\u00f3sofo \u00e9 observador externo. N\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda. Busca consolar o peixe (humanidade) quanto ao seu destino.<\/td>\n<td width=\"103\">A filosofia sob a roupagem de sabedoria.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"127\">\u201cLabirinto\u201d<\/td>\n<td width=\"145\">H\u00e1 vias bloqueadas<a href=\"#_edn306\" name=\"_ednref306\">[cccvi]<\/a>, mas a via de sa\u00edda existe. Por\u00e9m, ningu\u00e9m sabe onde ela est\u00e1, de modo que \u00e9 preciso prosseguir por tentativas e sucessivas aproxima\u00e7\u00f5es.<\/td>\n<td width=\"239\">Todos est\u00e3o dentro do labirinto, inclusive os fil\u00f3sofos. Eles ensinam a coordenar os esfor\u00e7os, a evitar o ativismo e a inatividade, a fazer escolhas racionais, metas intermedi\u00e1rias, a corrigir o caminho, a adaptar os meios aos fins, a reconhecer as vias erradas e a abandon\u00e1-las.<\/td>\n<td width=\"103\">As vias bloqueadas s\u00e3o aquelas que n\u00e3o viabilizam um futuro melhor para todos, como a guerra nuclear.<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>Quadro 5 Met\u00e1foras sobre tr\u00eas modelos de conceber o sentido da guerra na hist\u00f3ria, segundo Norberto Bobbio<\/strong><\/p>\n<p>Como fica f\u00e1cil perceber no quadro, a tarefa do fil\u00f3sofo na met\u00e1fora do labirinto \u201c\u00e9 mais modesta comparada \u00e0 primeira situa\u00e7\u00e3o [da mosca na garrafa, onde o fil\u00f3sofo \u00e9 quase onisciente] e menos sublime comparada \u00e0 segunda [dos peixes na rede, onde o fil\u00f3sofo prega a resigna\u00e7\u00e3o, a imperturbabilidade]\u201d<a href=\"#_edn307\" name=\"_ednref307\">[cccvii]<\/a>.<\/p>\n<p>As filosofias da hist\u00f3ria que se enquadram na met\u00e1fora do peixe na rede s\u00e3o aquelas que tendem a justificar todas as guerras, conforme j\u00e1 analisamos na se\u00e7\u00e3o anterior (7.3). Para estas, a guerra \u00e9 uma <em>via necess\u00e1ria<\/em>. A humanidade \u00e9 o peixe preso na rede da guerra. N\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda. A guerra, como a rede, \u00e9 um fato inevit\u00e1vel e irremedi\u00e1vel. Qualquer agita\u00e7\u00e3o ou tentativa de fuga apenas aperta a malha da rede ao redor dos prisioneiros.<\/p>\n<p>As filosofias que se enquadram na met\u00e1fora da mosca na garrafa s\u00e3o aquelas que tendem a justificar algumas guerras e a condenar outras, as <em>filosofias da guerra-justa<\/em>. O fil\u00f3sofo buscaria guiar a a\u00e7\u00e3o humana em cada caso.<\/p>\n<p>Por sua vez, a met\u00e1fora do labirinto se aplica \u00e0quelas filosofias que consideram a guerra moderna, especialmente a guerra at\u00f4mica, como uma <em>via bloqueada<\/em>, uma institui\u00e7\u00e3o caduca e exigindo extin\u00e7\u00e3o. O papel do fil\u00f3sofo \u00e9 auxiliar a humanidade a reconhecer este fato e a buscar um caminho vi\u00e1vel para fora do labirinto, j\u00e1 que a via da guerra se mostra ou imposs\u00edvel ou injustific\u00e1vel.<\/p>\n<p>Uma mudan\u00e7a significativa no que diz respeito \u00e0 forma como Einstein e Freud concebiam o papel da guerra na hist\u00f3ria humana e o papel do fil\u00f3sofo \u00be ou do s\u00e1bio \u00be em rela\u00e7\u00e3o a ela tamb\u00e9m ocorreu ao longo de suas vidas. A partir da Primeira Guerra Mundial, durante as d\u00e9cadas que lhe sucederam, Einstein, sempre um pacifista convicto, abandonou aos poucos a atua\u00e7\u00e3o dentro do modelo da <em>mosca na garrafa<\/em>, para passar a atuar dentro dos referenciais do <em>labirinto<\/em>. Na met\u00e1fora da <em>mosca na garrafa<\/em>, que Norberto Bobbio toma emprestada de Wittgenstein, o fil\u00f3sofo \u00e9 um ser que enxerga, de fora, os dilemas da mosca para sair da garrafa. Ele enxerga tamb\u00e9m a sa\u00edda e, numa condi\u00e7\u00e3o bastante superior, busca guiar a mosca para a sa\u00edda. Einstein se comportou por muito tempo desta maneira. Pensava ter encontrado, no pacifismo internacionalista \u00be especialmente na id\u00e9ia de um supragoverno mundial \u00be a solu\u00e7\u00e3o final e \u201cum caminho simples\u201d<a href=\"#_edn308\" name=\"_ednref308\">[cccviii]<\/a> para lidar com o problema da guerra. Para Einstein, \u201cTudo era claro como o dia\u201d<a href=\"#_edn309\" name=\"_ednref309\">[cccix]<\/a>.<\/p>\n<p>Sendo ele \u201cuma pessoa livre do preconceito nacional\u201d<a href=\"#_edn310\" name=\"_ednref310\">[cccx]<\/a>, Einstein parecia n\u00e3o compreender a magnitude e a complexidade das transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f4micas, culturais e emocionais envolvidas na id\u00e9ia de um supragoverno mundial, e tocava com insist\u00eancia e ingenuidade a mesma tecla, a ponto de gerar desconforto e antagonismo a suas posi\u00e7\u00f5es e id\u00e9ias \u00be sen\u00e3o \u00e0 sua pessoa.<a href=\"#_edn311\" name=\"_ednref311\">[cccxi]<\/a>.<\/p>\n<p>S\u00e3o muitos os exemplos da cabal ingenuidade de Einstein em assuntos pol\u00edticos, mas talvez um dos mais significativos seja a opini\u00e3o que emitiu, no ver\u00e3o setentrional de 1946, a respeito de uma for\u00e7a de seguran\u00e7a internacional \u00be a servi\u00e7o do sempre-presente governo mundial \u00be, a exemplo do que mais tarde viria a ser a for\u00e7a de paz da ONU. Einstein sugeriu \u201cque seria bom se tiv\u00e9ssemos os russos a servi\u00e7o da organiza\u00e7\u00e3o mundial baseados nos Estados Unidos, e os americanos baseados na R\u00fassia\u201d. Imagine-se a repercuss\u00e3o de tais id\u00e9ias: um ex\u00e9rcito americano baseado na R\u00fassia e um ex\u00e9rcito russo baseado nos Estados Unidos! As id\u00e9ias de Einstein foram, \u00e9 claro, rejeitadas com igual desprezo tanto nos Estado Unidos quanto na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica<a href=\"#_edn312\" name=\"_ednref312\">[cccxii]<\/a>.<\/p>\n<p>Por essas e tantas outras, Einstein foi adotando, ao longo de sua caminhada pacifista, um tom mais brando e menos grandiloq\u00fcente, apesar de ter permanecido, at\u00e9 o fim da vida, inquebrant\u00e1vel quanto \u00e0s id\u00e9ias de um governo mundial. Mas, de certa forma, deixou de express\u00e1-las como se fosse o s\u00e1bio onisciente que, de fora da garrafa, indicava para a humanidade a sa\u00edda. Sua postura foi pouco a pouco se conformando com a id\u00e9ia de algu\u00e9m tamb\u00e9m dentro do labirinto, na imagem criada por Norberto Bobbio.<\/p>\n<p>Sua miss\u00e3o n\u00e3o era mais apontar o caminho que somente ele via, mas buscar, junto com os demais, caminhos que ningu\u00e9m conhecia. Parece ser por esta raz\u00e3o que ele escreve a Freud, como nenhum fil\u00f3sofo fora da garrafa escreveria, que \u201cos objetivos normais de meu pensar n\u00e3o me d\u00e3o acesso \u00e0s profundidades dos sentimentos e vontades humanos\u201d<a href=\"#_edn313\" name=\"_ednref313\">[cccxiii]<\/a>. E sente a necessidade de pedir a outros igualmente perdidos dentro do labirinto, mas talvez com perspectivas e experi\u00eancias distintas e mais adequadas, orienta\u00e7\u00f5es quanto aos caminhos a serem seguidos. Da\u00ed dirigir a Freud sua pergunta essencial: \u201cser\u00e1 poss\u00edvel orientar o desenvolvimento ps\u00edquico do homem de modo a faz\u00ea-lo superar a psicose do \u00f3dio e da destrui\u00e7\u00e3o?\u201d<a href=\"#_edn314\" name=\"_ednref314\">[cccxiv]<\/a>.<\/p>\n<p>Se o movimento de Einstein foi do modelo da <em>mosca na garrafa <\/em>para o modelo do <em>labirinto<\/em>, o movimento de Freud, para chegar no <em>labirinto <\/em>foi a partir dos <em>peixes na rede<\/em>. Como na met\u00e1fora dos peixes na rede, Freud se colocava como um observador externo que contemplava os seres humanos a se debaterem dentro da rede das puls\u00f5es inconscientes, das amarras da cultura e da vida civilizada, para as quais n\u00e3o havia sa\u00edda. Os seres humanos, como os peixes presos na rede, debatiam-se em busca de uma forma de escaparem das amarras que os prendiam e asfixiavam. Para Freud, a psican\u00e1lise era o instrumento que lhes permitiria identificar a rede, seu tamanho, sua malha, e a realidade de seu destino como homens-peixes nela enredados. E ele, do alto de seu conhecimento psicanal\u00edtico, contemplava a humanidade a se debater.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, essa identifica\u00e7\u00e3o e esta consci\u00eancia facultadas pela psican\u00e1lise n\u00e3o levavam a uma liberta\u00e7\u00e3o. No m\u00e1ximo, ofereciam aos prisioneiros uma vis\u00e3o l\u00facida de seu destino, de modo que n\u00e3o se debatessem com tanto desespero, o que apenas acrescia ferimentos in\u00fateis ao seu destino j\u00e1 cruel. A mensagem do observador psicanal\u00edtico para os peixes dentro da rede era de um realismo tr\u00e1gico. Uma mensagem que for\u00e7ava a aceita\u00e7\u00e3o de uma dura realidade e o abandono de ilus\u00f5es; n\u00e3o uma guia de escapat\u00f3ria. Isso tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra.<\/p>\n<p>Em 1915, em seu artigo <em>Considera\u00e7\u00f5es Atuais Sobre a Guerra e a Morte<\/em><a href=\"#_edn315\" name=\"_ednref315\">[cccxv]<\/a>, o m\u00e1ximo que Freud podia oferecer era um desconsolo: para ele, toda a amargura e toda a decep\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra \u201cn\u00e3o \u00e9, em rigor justificada, pois prov\u00e9m do desmantelamento de uma ilus\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn316\" name=\"_ednref316\">[cccxvi]<\/a>. O sofrimento seria menor, Freud argumentava, se encar\u00e1ssemos a realidade de frente, ou ent\u00e3o, \u201cdever\u00edamos aceitar sem nos lamentar\u201d quando nossas ilus\u00f5es \u201cchocam-se contra a realidade e se partem em peda\u00e7os\u201d<a href=\"#_edn317\" name=\"_ednref317\">[cccxvii]<\/a>. Em rela\u00e7\u00e3o ao comportamento abomin\u00e1vel dos homens na guerra, Freud argumenta que \u201cNa realidade, tais homens n\u00e3o ca\u00edram t\u00e3o baixo como tem\u00edamos, porque n\u00e3o se haviam elevado t\u00e3o alto quanto imagin\u00e1vamos\u201d<a href=\"#_edn318\" name=\"_ednref318\">[cccxviii]<\/a>. Assumindo o t\u00edpico papel do fil\u00f3sofo que aconselha os peixes na rede a aceitarem sua sina, Freud \u201crecomendava a aceita\u00e7\u00e3o est\u00f3ica\u201d<a href=\"#_edn319\" name=\"_ednref319\">[cccxix]<\/a>.<\/p>\n<p>No entanto, o distanciamento est\u00f3ico e soberano do fil\u00f3sofo que contempla os peixes emaranhados na rede logo teria de ser deixado de lado. Freud seria colocado dentro do <em>labirinto<\/em> bem cedo. Peter Gay argumenta que \u201ca principal raz\u00e3o pela qual o entusiasmo de Freud por seu pa\u00eds logo come\u00e7ou a diminuir foi porque a guerra chegou \u00e0 sua casa desde o in\u00edcio\u201d<a href=\"#_edn320\" name=\"_ednref320\">[cccxx]<\/a>, com seus filhos sendo enviados para as frentes de batalha e seu trabalho cl\u00ednico praticamente paralisado pela eclos\u00e3o das hostilidades da Primeira Grande Guerra.<\/p>\n<p>Conquanto no in\u00edcio da Primeira Guerra Mundial Freud \u201cn\u00e3o visse raz\u00f5es para questionar seus valores militaristas\u201d<a href=\"#_edn321\" name=\"_ednref321\">[cccxxi]<\/a>, ele logo seria for\u00e7ado a rever suas id\u00e9ias<a href=\"#_edn322\" name=\"_ednref322\">[cccxxii]<\/a>. Em seu artigo <em>Considera\u00e7\u00f5es Atuais Sobre a Guerra e a Morte<\/em><a href=\"#_edn323\" name=\"_ednref323\">[cccxxiii]<\/a>Freud, dizia que se podiam entender e esperar as guerras \u201centre os povos primitivos e os civilizados, entre as ra\u00e7as diferenciadas pela cor da pele, e mesmo entre os povos menos evolu\u00eddos ou n\u00e3o-evolu\u00eddos da Europa\u201d<a href=\"#_edn324\" name=\"_ednref324\">[cccxxiv]<\/a>, mas que era inimagin\u00e1vel e horrendo que \u201cas grandes na\u00e7\u00f5es de ra\u00e7a branca<a href=\"#_edn325\" name=\"_ednref325\">[cccxxv]<\/a>, senhoras do mundo, \u00e0s quais correspondia a guia da humanidade\u201d<a href=\"#_edn326\" name=\"_ednref326\">[cccxxvi]<\/a> n\u00e3o soubessem \u201cresolver de outro modo suas diferen\u00e7as e seus conflitos de interesse\u201d<a href=\"#_edn327\" name=\"_ednref327\">[cccxxvii]<\/a>.<\/p>\n<p>O choque do vil espet\u00e1culo da guerra europ\u00e9ia representou, para Freud, quase aos sessenta anos de idade, a passagem de uma <em>Weltanschauung<\/em> baseada na met\u00e1fora do <em>peixe na rede<\/em>, para uma fundada na imagem do <em>labirinto<\/em>. A guerra n\u00e3o mais acontecia apenas \u201cl\u00e1 fora\u201d, entre os <em>peixes<\/em> \u201cprimitivos\u201d e \u201cmenos evolu\u00eddos\u201d que se debatiam dentro das redes de sua inferioridade. Ela ocorria aqui e agora, numa matan\u00e7a vil e covarde, <em>dentro do labirinto<\/em>. E foi dentro desta nova faceta de sua <em>Weltanschauung<\/em> que Freud se debru\u00e7a sobre a <em>via bloqueada<\/em> da guerra em seus artigos de 1915 e, especialmente, em sua carta de 1932 para Einstein. Ele passa a raciocinar como algu\u00e9m diretamente envolvido nos impasses sofridos pela civiliza\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o como um observador distante e intocado. Abandonando, desta forma, qualquer considera\u00e7\u00e3o sobre uma hipot\u00e9tica inevitabilidade da guerra, Freud, <em>dentro do<\/em> <em>labirinto<\/em>, expressa a Einstein seu cauteloso otimismo de que seja poss\u00edvel &#8220;acabar com a guerra num futuro n\u00e3o muito distante\u201d<a href=\"#_edn328\" name=\"_ednref328\">[cccxxviii]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>4.6\u00a0 As puls\u00f5es de agress\u00e3o e a guerra<\/strong><\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 alguma forma de livrar a humanidade da amea\u00e7a da guerra?\u201d<a href=\"#_edn329\" name=\"_ednref329\">[cccxxix]<\/a> Essa pergunta, lan\u00e7ada por Einstein a Freud logo no primeiro par\u00e1grafo de sua carta, talvez seja o mais fundamental dentre os temas abordados por Einstein e Freud em <em>Warum Krieg?<\/em> Em outras palavras, a quest\u00e3o de fundo, que permeia toda a correspond\u00eancia, \u00e9 se a guerra pode ou n\u00e3o ser evitada, se ela \u00e9 ou n\u00e3o irremedi\u00e1vel. E, no limite, a quest\u00e3o proposta \u00e9 se a guerra faz ou n\u00e3o parte da natureza humana.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 tivemos oportunidade de analisar, ao ingressar nesta arena, tanto Einstein quanto Freud adentram aqueles racioc\u00ednios e argumentos que caracterizam a forma de pacifismo ativo que Norberto Bobbio classifica como \u201c\u00e9tico-finalista\u201d, cujo objetivo \u00e9 obter a paz atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o sobre os seres humanos, que s\u00e3o considerados, em ess\u00eancia, as verdadeiras causas dos conflitos b\u00e9licos, mais do que as institui\u00e7\u00f5es ou as armas. Freud, a quem pertence a absoluta maioria dos conceitos e opini\u00f5es emitidos sobre este assunto em <em>Warum Krieg?<\/em>, adota, por sua vez, uma postura que Bobbio classifica como \u201cpacifismo \u00e9tico-finalista <em>terap\u00eautico<\/em>\u201d<a href=\"#_edn330\" name=\"_ednref330\">[cccxxx]<\/a>, de natureza materialista, baseando-se t\u00e3o somente nas evid\u00eancias e conclus\u00f5es da ci\u00eancia, sem qualquer considera\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica ou religiosa.<\/p>\n<p>Freud ingressa neste tema no par\u00e1grafo nono de sua carta, e logo trata de afirmar que concorda com Einstein quanto \u00e0 exist\u00eancia, no \u00edntimo dos homens, de uma puls\u00e3o \u201cque busca a destrui\u00e7\u00e3o e a morte\u201d, e que pode ser facilmente mobilizada em prol da guerra organizada, e que coexiste com a outra puls\u00e3o, \u201cque preserva e une\u201d<a href=\"#_edn331\" name=\"_ednref331\">[cccxxxi]<\/a>. Freud esclarece, tamb\u00e9m, que tais puls\u00f5es s\u00e3o \u201csimplesmente as transfigura\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas dos bem conhecidos opostos: Amor e \u00d3dio\u201d<a href=\"#_edn332\" name=\"_ednref332\">[cccxxxii]<\/a>, mas que n\u00e3o devem ser julgadas em termos de \u201cbem\u201d e \u201cmal\u201d, uma vez que \u201cCada uma destas puls\u00f5es \u00e9 t\u00e3o essencial quanto a outra, e todos os fen\u00f4menos da vida derivam de sua atividade, seja quando atuam em conjunto, seja em oposi\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn333\" name=\"_ednref333\">[cccxxxiii]<\/a>.<\/p>\n<p>Embora contemporaneamente o termo \u201cer\u00f3tico\u201d tenha clara conota\u00e7\u00e3o sexual, \u00e9 interessante notar que na linguagem original de Freud isso n\u00e3o era assim<a href=\"#_edn334\" name=\"_ednref334\">[cccxxxiv]<\/a>. Para Freud, o \u201cer\u00f3tico\u201d estava muito mais ligado ao \u201camor\u201d do que ao \u201csexo\u201d<a href=\"#_edn335\" name=\"_ednref335\">[cccxxxv]<\/a>. Seria um grande equ\u00edvoco, portanto, pretender que Freud apenas defendesse um fundamento sexual para a puls\u00e3o \u201cque preserva e une\u201d<a href=\"#_edn336\" name=\"_ednref336\">[cccxxxvi]<\/a>. Muito pelo contr\u00e1rio. Ao descrever as \u201cduas esp\u00e9cies\u201d de la\u00e7os que a puls\u00e3o er\u00f3tica produz entre as pessoas, Freud apresenta, \u201cEm primeiro lugar, aquelas rela\u00e7\u00f5es para com um objeto de amor, embora <em>sem conte\u00fado sexual<\/em>\u201d<a href=\"#_edn337\" name=\"_ednref337\">[cccxxxvii]<\/a>. Freud, inclusive, diz que, neste sentido, em vez de falar de \u201cpuls\u00e3o er\u00f3tica\u201d, ou \u201cpuls\u00e3o sexual\u201d, um psic\u00f3logo \u201cn\u00e3o precisa se sentir envergonhado de aqui falar de amor, na mesma linguagem empregada pela religi\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn338\" name=\"_ednref338\">[cccxxxviii]<\/a>. A segunda esp\u00e9cie de la\u00e7os de sentimentos que Freud identifica \u00e9 aquela que se d\u00e1 \u201cpor meio da identifica\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn339\" name=\"_ednref339\">[cccxxxix]<\/a>. E afirma que \u201cTudo o que p\u00f5e em evid\u00eancia as significativas semelhan\u00e7as entre os homens mobiliza este sentimento de comunidade, a identifica\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn340\" name=\"_ednref340\">[cccxl]<\/a>.<\/p>\n<p>Em fun\u00e7\u00e3o da din\u00e2mica das puls\u00f5es, Freud aponta que \u00e9 relativamente f\u00e1cil mobilizar os homens para a guerra, uma vez que o \u201cest\u00edmulo a estas tend\u00eancias destrutivas\u201d<a href=\"#_edn341\" name=\"_ednref341\">[cccxli]<\/a> d\u00e1-se de uma forma adocicada \u201catrav\u00e9s de apelos a outras propens\u00f5es de cunho idealista e er\u00f3tico\u201d<a href=\"#_edn342\" name=\"_ednref342\">[cccxlii]<\/a>. Desta forma, a p\u00edlula amarga da puls\u00e3o de \u00f3dio e destrui\u00e7\u00e3o pode ser envolta no papel dourado das motiva\u00e7\u00f5es nobres, o que \u201ccom certeza facilita sua satisfa\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn343\" name=\"_ednref343\">[cccxliii]<\/a>.<\/p>\n<p>Freud tamb\u00e9m se estende na an\u00e1lise da <em>puls\u00e3o de morte<\/em>, que, segundo ele, \u201ctrabalha dentro de todos os seres vivos buscando sua ru\u00edna, de modo a fazer a vida retornar ao seu estado primitivo de mat\u00e9ria inerte\u201d<a href=\"#_edn344\" name=\"_ednref344\">[cccxliv]<\/a>. Freud havia originalmente desenvolvido esta id\u00e9ia em seu livro <em>Al\u00e9m do Princ\u00edpio do Prazer<\/em>, de 1920<a href=\"#_edn345\" name=\"_ednref345\">[cccxlv]<\/a>, e manteve-se fiel a ela at\u00e9 o final da vida<a href=\"#_edn346\" name=\"_ednref346\">[cccxlvi]<\/a>. Freud sustentava que toda a estrutura an\u00edmica era essencialmente \u201cdualista\u201d, permeada pelo permanente conflito entre <em>Eros<\/em> (a puls\u00e3o de vida) e <em>T\u00e2natos<\/em> (a puls\u00e3o de morte). Na carta a Einstein ele explica de modo abreviado sua teoria sobre a \u201cpuls\u00e3o de morte\u201d, e argumenta que a \u201cpuls\u00e3o de morte se torna puls\u00e3o de destrui\u00e7\u00e3o quando, com a ajuda de outros \u00f3rg\u00e3os, dirige sua a\u00e7\u00e3o para fora, contra objetos externos\u201d<a href=\"#_edn347\" name=\"_ednref347\">[cccxlvii]<\/a>.<\/p>\n<p>Apesar de Freud, na carta a Einstein, alicer\u00e7ar na puls\u00e3o de morte \u201cas justifica\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas de todas aquelas propens\u00f5es feias e perigosas contra as quais lutamos\u201d<a href=\"#_edn348\" name=\"_ednref348\">[cccxlviii]<\/a>, ela n\u00e3o nos interessa demasiado aqui. E isso por duas raz\u00f5es principais. Em primeiro lugar, porque a hip\u00f3tese de que \u201ca meta de toda a vida \u00e9 a morte\u201d<a href=\"#_edn349\" name=\"_ednref349\">[cccxlix]<\/a> e de que existe dentro de todos os organismos vivos um impulso \u201cpara retornar ao inorg\u00e2nico\u201d<a href=\"#_edn350\" name=\"_ednref350\">[cccl]<\/a>, foi lan\u00e7ada por Freud, em 1920, como \u201cpura especula\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn351\" name=\"_ednref351\">[cccli]<\/a>, e, ainda em 1935, apenas quatro anos antes de sua morte, Freud apontava a id\u00e9ia como uma \u201cespecula\u00e7\u00e3o tateante, at\u00e9 que se tenha algo melhor\u201d<a href=\"#_edn352\" name=\"_ednref352\">[ccclii]<\/a>.<a href=\"#_edn353\" name=\"_ednref353\">[cccliii]<\/a>. Em segundo lugar, este argumento n\u00e3o era central para as quest\u00f5es relacionadas \u00e0s possibilidades da paz. Conforme o pr\u00f3prio Freud diz a Einstein, ele estava a tratar t\u00e3o somente de suas \u201cmitol\u00f3gicas li\u00e7\u00f5es das puls\u00f5es\u201d<a href=\"#_edn354\" name=\"_ednref354\">[cccliv]<\/a>, e sabia que Einstein estava \u201cinteressado na preven\u00e7\u00e3o da guerra\u201d e n\u00e3o em suas \u201cteorias\u201d<a href=\"#_edn355\" name=\"_ednref355\">[ccclv]<\/a>.<\/p>\n<p>O que importa, afinal, em toda a longa an\u00e1lise de Freud, n\u00e3o \u00e9 a id\u00e9ia presumivelmente insustent\u00e1vel da <em>puls\u00e3o de morte<\/em>, mas sim as reflex\u00f5es sobre as ineg\u00e1veis <em>puls\u00f5es de agress\u00e3o<\/em>, <em>\u00f3dio<\/em> e <em>destrui\u00e7\u00e3o<\/em>. Com rela\u00e7\u00e3o a elas, Freud emite a conclus\u00e3o categ\u00f3rica de que \u201cn\u00e3o parece haver nenhuma possibilidade de suprimirmos as tend\u00eancias agressivas dos homens\u201d<a href=\"#_edn356\" name=\"_ednref356\">[ccclvi]<\/a>.<a href=\"#_edn357\" name=\"_ednref357\">[ccclvii]<\/a>.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 1915, em seu ensaio <em>Considera\u00e7\u00f5es Atuais Sobre a Guerra e a Morte<\/em><a href=\"#_edn358\" name=\"_ednref358\">[ccclviii]<\/a>, Freud tecia amargas considera\u00e7\u00f5es sobre os impulsos agressivos dos homens. Para ele, a \u00eanfase colocada, em todas as culturas, sobre o mandamento \u201cN\u00e3o matar\u00e1s\u201d \u00e9 justamente o que \u201cnos oferece a seguran\u00e7a de que descendemos de uma extens\u00edssima s\u00e9rie de gera\u00e7\u00f5es de assassinos, que tinham o prazer de matar, como talvez ainda n\u00f3s tenhamos, correndo fundo nas veias\u201d<a href=\"#_edn359\" name=\"_ednref359\">[ccclix]<\/a>.<\/p>\n<p>Para Freud, a realidade \u00e9 que, apesar de todo o refinamento t\u00e9cnico e espiritual trazido pela cultura e pela civiliza\u00e7\u00e3o \u201cn\u00e3o h\u00e1 um exterm\u00ednio do mal\u201d<a href=\"#_edn360\" name=\"_ednref360\">[ccclx]<\/a> na maioria dos homens. O que dever\u00edamos enfrentar de frente \u00e9 a triste realidade de que as for\u00e7as pulsionais do homem dirigidas para o ego\u00edsmo e para a agress\u00e3o s\u00e3o meramente represadas, na maioria das pessoas, pelas exig\u00eancias da vida social, mas n\u00e3o verdadeiramente transmutadas em inclina\u00e7\u00f5es positivas. Submetido \u00e0s exig\u00eancias da vida social, pode at\u00e9 ser que o indiv\u00edduo \u201cresolva se comportar bem, no sentido cultural\u201d<a href=\"#_edn361\" name=\"_ednref361\">[ccclxi]<\/a>, mas ele o faz \u201csem que se tenha cumprido nele um enobrecimento das puls\u00f5es, uma muta\u00e7\u00e3o das tend\u00eancias ego\u00edstas em tend\u00eancias sociais\u201d<a href=\"#_edn362\" name=\"_ednref362\">[ccclxii]<\/a>. Por essa raz\u00e3o, o indiv\u00edduo vive \u201cpsicologicamente falando, muito acima de seus meios e pode ser classificado, objetivamente, de hip\u00f3crita\u201d<a href=\"#_edn363\" name=\"_ednref363\">[ccclxiii]<\/a>.<\/p>\n<p>Enquanto alguns poucos homens \u201cagem sempre bem porque suas inclina\u00e7\u00f5es pulsionais o exigem\u201d<a href=\"#_edn364\" name=\"_ednref364\">[ccclxiv]<\/a>, a grande maioria s\u00f3 \u00e9 boa \u201cporque tal conduta cultural traz vantagens a seus prop\u00f3sitos ego\u00edstas\u201d<a href=\"#_edn365\" name=\"_ednref365\">[ccclxv]<\/a>. Por essa raz\u00e3o, a maior parte do bem que se v\u00ea manifesto na sociedade n\u00e3o \u00e9 bem, mas mal disfar\u00e7ado de bem<a href=\"#_edn366\" name=\"_ednref366\">[ccclxvi]<\/a>. E Freud chega \u00e0 triste conclus\u00e3o de que \u201cH\u00e1, pois, muitos mais hip\u00f3critas da cultura do que homens verdadeiramente civilizados\u201d<a href=\"#_edn367\" name=\"_ednref367\">[ccclxvii]<\/a>, e que \u201ctamb\u00e9m n\u00f3s pr\u00f3prios, se julgados por nossos impulsos pulsionais, somos, como os homens primitivos, uma horda de assassinos\u201d<a href=\"#_edn368\" name=\"_ednref368\">[ccclxviii]<\/a>.<\/p>\n<p>Apesar de alguns, como Roland Clark, considerarem que a carta de Freud a Einstein apresentava \u201cum progn\u00f3stico deprimente\u201d<a href=\"#_edn369\" name=\"_ednref369\">[ccclxix]<\/a> em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s possibilidades da paz entre os homens, oferecendo, quando muito, apenas \u201cuma t\u00eanue esperan\u00e7a\u201d<a href=\"#_edn370\" name=\"_ednref370\">[ccclxx]<\/a> quanto \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o da guerra, cremos que uma leitura mais detalhada dos argumentos de Freud, \u00e0 luz de alguns de seus outros escritos, nos pode oferecer uma perspectiva mais otimista. Em <em>Considera\u00e7\u00f5es Atuais Sobre a Guerra e a Morte <\/em>(1915), Freud, apesar do tom sombrio, afirmava que n\u00e3o podemos duvidar \u201cda for\u00e7a e import\u00e2ncia\u201d das \u201caspira\u00e7\u00f5es \u00e9ticas dos homens\u201d<a href=\"#_edn371\" name=\"_ednref371\">[ccclxxi]<\/a>. Freud considerava que tais aspira\u00e7\u00f5es \u00e9ticas \u201cs\u00e3o uma aquisi\u00e7\u00e3o recente da hist\u00f3ria humana e logo se tornaram, infelizmente numa medida muito vari\u00e1vel, uma propriedade herdada da humanidade de hoje\u201d<a href=\"#_edn372\" name=\"_ednref372\">[ccclxxii]<\/a>. Ele tamb\u00e9m considerava que atualmente as puls\u00f5es agressivas dos seres humanos se encontram bem mais abrandadas do que no passado primitivo<a href=\"#_edn373\" name=\"_ednref373\">[ccclxxiii]<\/a>.<\/p>\n<p>A coloca\u00e7\u00e3o de Breger de que Freud, em seus ensaios de 1915, afirmava que a guerra n\u00e3o poderia ser abolida<a href=\"#_edn374\" name=\"_ednref374\">[ccclxxiv]<\/a> n\u00e3o faz jus ao contexto no qual Freud a colocara, sendo um tanto enganadora. Na verdade, Freud escreve que \u201cAcabar com a guerra, entretanto, \u00e9 imposs\u00edvel; enquanto as condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia dos povos sejam t\u00e3o distintas, e t\u00e3o violentas as avers\u00f5es entre eles, haver\u00e1 a guerra\u201d<a href=\"#_edn375\" name=\"_ednref375\">[ccclxxv]<\/a>. Portanto, Freud contextualiza claramente a afirma\u00e7\u00e3o: a guerra n\u00e3o pode ser abolida <em>enquanto<\/em> houver grande disparidade nas condi\u00e7\u00f5es de vida entre os povos e as avers\u00f5es entre eles forem violentas. N\u00e3o se trata, portanto, de um vatic\u00ednio irredut\u00edvel e sem esperan\u00e7a. Pelo contr\u00e1rio, Freud sempre tratou da guerra de uma forma condicional, embora tomasse incondicionalmente as puls\u00f5es de agress\u00e3o que estavam por detr\u00e1s dela. No artigo de 1915 ele j\u00e1 fazia esta distin\u00e7\u00e3o ao escrever que \u201cPode-se muito bem reconhecer a necessidade biol\u00f3gica e psicol\u00f3gica de sofrimento para a economia da vida humana e, ainda assim, condenar a guerra, seus meios e seus fins, e anelar por sua cessa\u00e7\u00e3o\u201d <a href=\"#_edn376\" name=\"_ednref376\">[ccclxxvi]<\/a>.<\/p>\n<p>Na carta a Einstein, Freud novamente toca nesta mesma tecla, ao dizer que \u201ca total supress\u00e3o das tend\u00eancias agressivas humanas n\u00e3o \u00e9 o que est\u00e1 em quest\u00e3o, mas sim como redirecion\u00e1-las a outras manifesta\u00e7\u00f5es que n\u00e3o a guerra\u201d<a href=\"#_edn377\" name=\"_ednref377\">[ccclxxvii]<\/a>. Como Freud escreveu em <em>Considera\u00e7\u00f5es<\/em>, a tese da natureza dual das puls\u00f5es humanas \u2014 Eros <em>versus<\/em> T\u00e2natos; amor <em>versus<\/em> \u00f3dio; constru\u00e7\u00e3o <em>versus<\/em> destrui\u00e7\u00e3o \u2014 n\u00e3o \u201cimplica a deprecia\u00e7\u00e3o dos sentimentos de amor, nem tem, de modo algum, esta conseq\u00fc\u00eancia\u201d<a href=\"#_edn378\" name=\"_ednref378\">[ccclxxviii]<\/a>. Para Freud,<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que tanto nossa intelig\u00eancia quanto nossos sentimentos resistem de assim aliar o amor e o \u00f3dio; mas a Natureza, trabalhando com este par de elementos antag\u00f4nicos, consegue manter o amor sempre vigilante e renovado, protegendo-o contra o \u00f3dio que, sempre, espreita em suas costas. Pode-se dizer, inclusive, que as mais belas flora\u00e7\u00f5es de nossa vida amorosa s\u00e3o devidas a esta rea\u00e7\u00e3o contra os impulsos hostis que sentimos dentro de n\u00f3s.<a href=\"#_edn379\" name=\"_ednref379\">[ccclxxix]<\/a><\/p>\n<p>Na carta a Einstein, Freud diz que \u201cSe a propens\u00e3o para a guerra emana da puls\u00e3o de destrui\u00e7\u00e3o, temos bem perto seu oponente, Eros [o Amor], para nos ajudar\u201d<a href=\"#_edn380\" name=\"_ednref380\">[ccclxxx]<\/a>. Portanto, Freud n\u00e3o partilhava, como muitos quiseram interpretar, de uma vis\u00e3o absolutamente sombria da natureza das puls\u00f5es humanas. O quadro que emerge de suas pondera\u00e7\u00f5es no tocante ao conflito entre puls\u00f5es de amor e puls\u00f5es de \u00f3dio, em especial no tocante \u00e0 guerra, \u00e9 complexo, dram\u00e1tico, \u00e9pico \u2014 mas de forma alguma funesto.<\/p>\n<p>O que Freud fazia quest\u00e3o de salientar, desde seu ensaio de 1915, \u00e9 que as puls\u00f5es agressivas existem inconscientemente dentro dos seres humanos, e, a menos que sejam reconhecidas e \u201ctrabalhadas\u201d, s\u00e3o capazes de se manifestar das formas mais desastrosas e violentas<a href=\"#_edn381\" name=\"_ednref381\">[ccclxxxi]<\/a>. Freud queria ressaltar n\u00e3o que os homens t\u00eam dentro de si uma viol\u00eancia irremedi\u00e1vel (especialmente contra outros homens), mas sim que as puls\u00f5es agressivas humanas precisam ser reconhecidas para ent\u00e3o serem adequadamente canalizadas<a href=\"#_edn382\" name=\"_ednref382\">[ccclxxxii]<\/a>. E, para Freud, isso era algo que a cultura europ\u00e9ia n\u00e3o havia conseguido fazer, justamente por ignorar as for\u00e7as inconscientes<a href=\"#_edn383\" name=\"_ednref383\">[ccclxxxiii]<\/a>.<\/p>\n<p>Estas conclus\u00f5es de Freud sobre a exist\u00eancia de puls\u00f5es agressivas primitivas que se encontravam por tr\u00e1s de toda a viol\u00eancia humana, inclusive a guerra, eram, como j\u00e1 notamos, tamb\u00e9m desposadas por Einstein na \u00e9poca da correspond\u00eancia, em 1932. Denis Brian, em sua biografia de Einstein, comenta que mais tarde Einstein teria mudado de opini\u00e3o, ap\u00f3s alguns di\u00e1logos com o antrop\u00f3logo e humanista Ashley Montagu<a href=\"#_edn384\" name=\"_ednref384\">[ccclxxxiv]<\/a>, em 1949<a href=\"#_edn385\" name=\"_ednref385\">[ccclxxxv]<\/a>. Segundo Montagu, \u201cEu finalmente o convenci [a Einstein] de que ele estava errado, de que n\u00e3o h\u00e1 um instinto agressivo. Isto, \u00e9 claro, agradou-o bastante, sendo ele o defensor da paz que \u00e9\u201d<a href=\"#_edn386\" name=\"_ednref386\">[ccclxxxvi]<\/a>. Os editores da obra <em>The New Quotable Einstein<\/em><a href=\"#_edn387\" name=\"_ednref387\"><em><strong>[ccclxxxvii]<\/strong><\/em><\/a>, publicada em homenagem aos cem anos da Teoria Especial da Relatividade, em 2005, parecem concordar com a id\u00e9ia de que \u201cEinstein foi finalmente persuadido de que a doutrina da maldade inata do homem n\u00e3o era bem fundada\u201d<a href=\"#_edn388\" name=\"_ednref388\">[ccclxxxviii]<\/a>, atribuindo tal mudan\u00e7a de opini\u00e3o \u00e0 influ\u00eancia de Montagu.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, uma pesquisa mais detalhada das opini\u00f5es expressadas por Einstein tanto em anos anteriores \u00e0 correspond\u00eancia, quanto em anos subseq\u00fcentes ao encontro com Montagu, demonstra claramente que tal n\u00e3o se deu. Em 1915, Einstein havia dito que \u201cAs ra\u00edzes psicol\u00f3gicas da guerra, em minha opini\u00e3o, est\u00e3o fundadas nas caracter\u00edsticas agressivas do sexo masculino\u201d<a href=\"#_edn389\" name=\"_ednref389\">[ccclxxxix]<\/a>, e na carta a Freud, em 1932, havia falado da \u201cnecessidade de \u00f3dio e destrui\u00e7\u00e3o\u201d que atuava dentro do homem e que podia ser mobilizada para a guerra. O relato que temos sobre a argumenta\u00e7\u00e3o de Montagu que teria convencido Einstein da inexist\u00eancia de uma puls\u00e3o agressiva no ser humano \u00e9 datada ou de 1946 ou de 1949<a href=\"#_edn390\" name=\"_ednref390\">[cccxc]<\/a>. V\u00e1rios pronunciamentos de Einstein nos anos subseq\u00fcentes demonstram como, at\u00e9 o fim da vida, ele se manteve convicto de que havia dentro dos homens uma for\u00e7a at\u00e1vica que os inclinava para a viol\u00eancia<a href=\"#_edn391\" name=\"_ednref391\">[cccxci]<\/a>.<\/p>\n<p>Numa mensagem \u00e0 Confer\u00eancia Geral da Igreja Metodista, em 27 de abril de 1952, Einstein comentava as pessoas que n\u00e3o conseguem se comprometer com os esfor\u00e7os em prol da paz, que s\u00e3o a grande maioria, s\u00e3o impedidas disso porque \u201cas paix\u00f5es at\u00e1vicas\u201d dentro delas \u201cs\u00e3o obviamente mais poderosas do que seu desejo de servir \u00e0queles esfor\u00e7os que todos n\u00f3s, em momentos de serena contempla\u00e7\u00e3o, sabemos irem na dire\u00e7\u00e3o certa\u201d<a href=\"#_edn392\" name=\"_ednref392\">[cccxcii]<\/a>. Da mesma forma, a um amigo na It\u00e1lia, em setembro de 1952, Einstein escrevia que \u201cAs na\u00e7\u00f5es continuam a cair na mesma armadilha [da guerra] porque <em>as puls\u00f5es at\u00e1vicas s\u00e3o mais poderosas do que a raz\u00e3o ou do que as convic\u00e7\u00f5es adquiridas<\/em>\u201d<a href=\"#_edn393\" name=\"_ednref393\">[cccxciii]<\/a>. Em 12 de janeiro de 1953, dois anos antes de seu falecimento, Einstein escreveu \u00e0 Rainha-M\u00e3e da B\u00e9lgica que \u201cas pessoas tornam as vidas uma das outras t\u00e3o terrivelmente dif\u00edcil n\u00e3o devido a alguma raz\u00e3o em especial, mas <em>por causa de sua imut\u00e1vel heran\u00e7a<\/em>\u201d <a href=\"#_edn394\" name=\"_ednref394\">[cccxciv]<\/a>.<\/p>\n<p>Embora seja evidente, portanto, que Einstein jamais mudou de opini\u00e3o quanto \u00e0s puls\u00f5es de agress\u00e3o, esses coment\u00e1rios, por\u00e9m, n\u00e3o significam que Einstein tivesse abandonado a confian\u00e7a na possibilidade da paz. Ele apenas, como Freud, percebia que a elimina\u00e7\u00e3o da guerra passava por caminhos menos \u00f3bvios e mais at\u00e1vicos do que a maioria das pessoas estava disposta a reconhecer. Numa entrevista \u00e0 revista <em>Survey Graphic<\/em>, de agosto de 1935, Einstein, ante a pergunta \u201cSer\u00e1 que algum dia seremos capazes de abolir a guerra?\u201d, responde:<\/p>\n<p>Sim, acredito que sim. Na verdade, estou certo disso. Nossa esperan\u00e7a jaz na educa\u00e7\u00e3o dos jovens para uma vis\u00e3o mais s\u00e3 da vida. [&#8230;] A maior aspira\u00e7\u00e3o do ser humano, e sua maior alegria, \u00e9 trazer beleza e fraternidade \u00e0 vida. Isto ser\u00e1 conquistado n\u00e3o atrav\u00e9s do medo, mas desafiando o que h\u00e1 de melhor na natureza humana.<a href=\"#_edn395\" name=\"_ednref395\">[cccxcv]<\/a><\/p>\n<p>Em 28 de maio de 1946, a <em>Columbia Broadcasting System<\/em> veiculou um programa especial sobre a energia at\u00f4mica. Nele, Einstein afirma que a natureza humana \u201cque causa as guerras \u00e9 como um rio\u201d e que \u00e9 \u201cimposs\u00edvel, dentro do tempo geol\u00f3gico, mudar a natureza do rio\u201d. Entretanto, Einstein argumenta que a \u201chabilidade para pensar tamb\u00e9m \u00e9 uma parte da natureza humana\u201d, e que \u201cDa mesma forma como usamos nosso racioc\u00ednio para construir a barragem que possa conter o rio, tamb\u00e9m precisamos construir institui\u00e7\u00f5es que possam refrear os medos e suspeitas e cobi\u00e7as que movem os povos e seus l\u00edderes\u201d. E conclu\u00eda que \u201cprecisamos recordar que se a parte animal da natureza humana \u00e9 nosso inimigo, a parte racional \u00e9 nosso aliado\u201d e que \u201cN\u00e3o precisamos esperar um milh\u00e3o de anos para usar nossa habilidade de racioc\u00ednio\u201d<a href=\"#_edn396\" name=\"_ednref396\">[cccxcvi]<\/a>.<\/p>\n<p>Portanto, fica evidente que tanto Einstein quanto Freud entendiam a natureza humana como dual, com aspectos por assim dizer \u201cpositivos\u201d e \u201cnegativos\u201d. Que o amor fazia parte da natureza humana tanto quanto o \u00f3dio. Tanto a agress\u00e3o quanto a bondade. Tanto a possibilidade de fazer a guerra quanto a de construir a paz. Justamente por assim entenderem \u00e9 que suas posturas pacifistas eram ativas, n\u00e3o passivas. Eles entendiam que algo precisava ser feito para que as puls\u00f5es destrutivas da natureza humana \u2014 dirigidas, atrav\u00e9s do \u00f3dio, para a guerra dos homens uns contra os outros \u2014 pudessem ser restringidas, contidas e controladas.<\/p>\n<p>Para que isso sucedesse, conforme Einstein, t\u00ednhamos que nos apoiar na parte <em>amiga<\/em> da natureza humana: nosso racioc\u00ednio. Para Freud, t\u00ednhamos \u201cTudo o que produz la\u00e7os de afeto entre os homens\u201d<a href=\"#_edn397\" name=\"_ednref397\">[cccxcvii]<\/a> para nos servir \u201ccomo ant\u00eddoto da guerra\u201d<a href=\"#_edn398\" name=\"_ednref398\">[cccxcviii]<\/a>. Apesar de reconhecerem, no homem, a exist\u00eancia de puls\u00f5es agressivas, tanto Einstein quanto Freud acreditavam que a guerra podia ser definitivamente eliminada da experi\u00eancia humana sobre o planeta<a href=\"#_edn399\" name=\"_ednref399\">[cccxcix]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>4.7\u00a0 La\u00e7os de afeto, sentimento de unidade e fraterna solidariedade<\/strong><\/p>\n<p>Embora Denis Brian, em sua aclamada biografia de Einstein, escreva que a carta de Freud \u201cn\u00e3o respondeu a pergunta de Einstein\u201d<a href=\"#_edn400\" name=\"_ednref400\">[cd]<\/a> \u2014 sobre se seria \u201cposs\u00edvel orientar o desenvolvimento ps\u00edquico do homem de modo a faz\u00ea-lo superar a psicose do \u00f3dio e da destrui\u00e7\u00e3o?\u201d<a href=\"#_edn401\" name=\"_ednref401\">[cdi]<\/a> \u2014, uma leitura mais detida da carta de Freud torna evidente que ele n\u00e3o apenas respondeu o questionamento de Einstein como procurou enfatizar, de v\u00e1rias formas, seu pensamento sobre tal possibilidade.<\/p>\n<p>A primeira abordagem de Freud a esse problema, em sua carta a Einstein, encontra-se no par\u00e1grafo quinto. Ali, Freud afirma que \u201cpara que ocorra esta transi\u00e7\u00e3o do reino da for\u00e7a para o do direito, <em>uma certa condi\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica<\/em> precisa antes estabelecer-se\u201d<a href=\"#_edn402\" name=\"_ednref402\">[cdii]<\/a>. Esta condi\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica \u00e9 o \u201c<em>reconhecimento de uma comunidade de interesses<\/em>\u201d<a href=\"#_edn403\" name=\"_ednref403\">[cdiii]<\/a> entre os membros de um grupo, de forma que se produza entre eles \u201cum <em>sentimento de unidade<\/em> e de <em>fraterna solidariedade<\/em>\u201d<a href=\"#_edn404\" name=\"_ednref404\">[cdiv]<\/a>. Freud salienta, ademais, que \u00e9 evidente que a comunidade de interesses que assim se cria, para que possa implantar o reino da lei no lugar do imp\u00e9rio da for\u00e7a, precisa contar com as for\u00e7as da organiza\u00e7\u00e3o e da institucionaliza\u00e7\u00e3o<a href=\"#_edn405\" name=\"_ednref405\">[cdv]<\/a>. Para Freud, o fundamental para que possa nascer a paz ditada pela lei no lugar da guerra ditada pela natureza, \u00e9 que se d\u00ea \u201ca supress\u00e3o da for\u00e7a pela transfer\u00eancia de poder para uma unidade maior, fundada na comunh\u00e3o de sentimentos de seus membros\u201d<a href=\"#_edn406\" name=\"_ednref406\">[cdvi]<\/a>. Freud considera que, dito isso, \u201co essencial j\u00e1 est\u00e1 colocado\u201d<a href=\"#_edn407\" name=\"_ednref407\">[cdvii]<\/a>.<\/p>\n<p>Pode-se identificar, no pensamento de Freud, a apresenta\u00e7\u00e3o de uma sucess\u00e3o de processos emocionais associados a uma amplia\u00e7\u00e3o dos c\u00edrculos de unidade humana. Embora todos esses processos emocionais tenham sua origem em sentimentos libidinais<a href=\"#_edn408\" name=\"_ednref408\">[cdviii]<\/a>, o fato \u00e9 que eles se configuram de formas distintas, dando origem a unidades humanas distintas:<\/p>\n<ol>\n<li>em primeiro lugar, Freud identifica a for\u00e7a unificadora do \u201camor genital\u201d<a href=\"#_edn409\" name=\"_ednref409\">[cdix]<\/a>, o \u201camor plenamente sensual<a href=\"#_edn410\" name=\"_ednref410\">[cdx]<\/a>\u201d<a href=\"#_edn411\" name=\"_ednref411\">[cdxi]<\/a>, que produz a unidade entre homens e mulheres, dando origem \u00e0 subseq\u00fcente unidade familiar. Este amor genital est\u00e1 destinado a transcender os \u201climites da fam\u00edlia\u201d<a href=\"#_edn412\" name=\"_ednref412\">[cdxii]<\/a>, de modo a estabelecer \u201cnovos v\u00ednculos com pessoas anteriormente estranhas\u201d<a href=\"#_edn413\" name=\"_ednref413\">[cdxiii]<\/a>, o que \u201cleva \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de novas fam\u00edlias\u201d<a href=\"#_edn414\" name=\"_ednref414\">[cdxiv]<\/a>;<\/li>\n<li>em segundo lugar, Freud apresenta o \u201camor tolhido de seu alvo<a href=\"#_edn415\" name=\"_ednref415\">[cdxv]<\/a>, ou seja, afeto<a href=\"#_edn416\" name=\"_ednref416\">[cdxvi]<\/a>\u201d<a href=\"#_edn417\" name=\"_ednref417\">[cdxvii]<\/a>, que permite os \u201csentimentos positivos<a href=\"#_edn418\" name=\"_ednref418\">[cdxviii]<\/a> existentes entre pais e filhos e entre irm\u00e3os e irm\u00e3s na fam\u00edlia\u201d<a href=\"#_edn419\" name=\"_ednref419\">[cdxix]<\/a>;<\/li>\n<li>em terceiro lugar, surge um c\u00edrculo ampliado deste amor \u201ctolhido de seu alvo<a href=\"#_edn420\" name=\"_ednref420\">[cdxx]<\/a>\u201d<a href=\"#_edn421\" name=\"_ednref421\">[cdxxi]<\/a>, que tamb\u00e9m transcende \u201cos limites da fam\u00edlia\u201d<a href=\"#_edn422\" name=\"_ednref422\">[cdxxii]<\/a> e estabelece \u201cnovos v\u00ednculos com pessoas anteriormente estranhas\u201d<a href=\"#_edn423\" name=\"_ednref423\">[cdxxiii]<\/a>, dando origem \u00e0s \u201camizades\u201d<a href=\"#_edn424\" name=\"_ednref424\">[cdxxiv]<\/a>;<\/li>\n<li>finalmente, Freud identifica um terceiro processo ps\u00edquico, que amplia os la\u00e7os de unidade a estruturas sociais muito mais amplas, como a cidade, o estado, a na\u00e7\u00e3o e \u2014 potencialmente \u2014 toda a humanidade. Este processo \u00e9 aquele que produz \u201cla\u00e7os de sentimentos \u2014 em termos t\u00e9cnicos: la\u00e7os de identifica\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn425\" name=\"_ednref425\">[cdxxv]<\/a> entre pessoas que nem mesmo se conhecem mutuamente.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Apesar das for\u00e7as pulsionais de agress\u00e3o e viol\u00eancia de uns contra os outros, Freud argumenta que o homem primitivo, \u201cdescobriu que estava literalmente em suas m\u00e3os melhorar seu fado na Terra atrav\u00e9s do trabalho\u201d<a href=\"#_edn426\" name=\"_ednref426\">[cdxxvi]<\/a> e, por esta raz\u00e3o, \u201cn\u00e3o p\u00f4de desconsiderar o fato de que o seu pr\u00f3ximo ou trabalhava com ele ou contra ele\u201d<a href=\"#_edn427\" name=\"_ednref427\">[cdxxvii]<\/a>. A partir dessa percep\u00e7\u00e3o, que Freud toma como inquestion\u00e1vel no desabrochar da consci\u00eancia do homem primitivo, \u201cSeus semelhantes adquirem, ent\u00e3o, a seus olhos, o valor de colaboradores com os quais era \u00fatil viver em comunidade\u201d<a href=\"#_edn428\" name=\"_ednref428\">[cdxxviii]<\/a>. Na vis\u00e3o de Freud, assim, fica claro que \u201cA vida coletiva dos seres humanos teve, portanto, um fundamento duplo: por um lado a obriga\u00e7\u00e3o do trabalho, imposta pelas necessidades exteriores; por outro, o poder do amor\u201d<a href=\"#_edn429\" name=\"_ednref429\">[cdxxix]<\/a>. Assim, conclui Freud, \u201cEros e Ananke<a href=\"#_edn430\" name=\"_ednref430\">[cdxxx]<\/a> [Amor e Necessidade] se tornaram os pais da cultura humana, cuja primeira conquista foi o de permitir que um n\u00famero maior de seres humanos vivesse em comunidade\u201d<a href=\"#_edn431\" name=\"_ednref431\">[cdxxxi]<\/a>.<\/p>\n<p>Embora Freud aponte a necessidade de lutar coletivamente contra a opress\u00e3o da Natureza como um dos pilares da vida em sociedade, ele alerta que ela, por si s\u00f3, n\u00e3o seria capaz de faz\u00ea-lo. O la\u00e7o de amor entre os homens \u00e9 essencial, sem o que a sociedade fragmentar-se-ia. Explorando esse aspecto em <em>O Mal-Estar na Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>, Freud diz que \u201cEm conseq\u00fc\u00eancia dessa m\u00fatua hostilidade primordial entre os homens, a sociedade baseada na cultura<a href=\"#_edn432\" name=\"_ednref432\">[cdxxxii]<\/a> se v\u00ea permanentemente amea\u00e7ada de desintegra\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn433\" name=\"_ednref433\">[cdxxxiii]<\/a>, e que o \u201cinteresse pelo trabalho coletivo n\u00e3o a conseguiria manter unida\u201d<a href=\"#_edn434\" name=\"_ednref434\">[cdxxxiv]<\/a>, porque \u201cas paix\u00f5es pulsionais<a href=\"#_edn435\" name=\"_ednref435\">[cdxxxv]<\/a> s\u00e3o mais fortes que os interesses racionais<a href=\"#_edn436\" name=\"_ednref436\">[cdxxxvi]<\/a>\u201d<a href=\"#_edn437\" name=\"_ednref437\">[cdxxxvii]<\/a>. Por essa raz\u00e3o, Freud considerava que \u201co poder do amor\u201d<a href=\"#_edn438\" name=\"_ednref438\">[cdxxxviii]<\/a> era um dos fundamentos da vida humana em coletividade, e que, apesar de dif\u00edcil, \u00e9 poss\u00edvel uma pessoa aprender a amar \u201cdirigindo seu amor em igual medida a todos os seres<a href=\"#_edn439\" name=\"_ednref439\">[cdxxxix]<\/a>\u201d<a href=\"#_edn440\" name=\"_ednref440\">[cdxl]<\/a> ao inv\u00e9s de express\u00e1-lo de forma restrita em dire\u00e7\u00e3o a apenas alguns<a href=\"#_edn441\" name=\"_ednref441\">[cdxli]<\/a>. Freud via um caminho natural na expans\u00e3o dos sentimentos de amor, argumentando (em <em>O Mal-Estar na Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>), que \u201c[A cultura] constitui um processo a servi\u00e7o de Eros [Amor], cujo prop\u00f3sito \u00e9 agregar os indiv\u00edduos isolados, depois as fam\u00edlias, as ra\u00e7as, os povos e as na\u00e7\u00f5es em uma grande unidade: a humanidade\u201d<a href=\"#_edn442\" name=\"_ednref442\">[cdxlii]<\/a>.<\/p>\n<p>Assim, a resposta de Freud a Einstein sobre a forma de \u201corientar o desenvolvimento ps\u00edquico do homem de modo a faz\u00ea-lo superar a psicose do \u00f3dio e da destrui\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn443\" name=\"_ednref443\">[cdxliii]<\/a>, \u00e9 essencialmente recorrer \u00e0 for\u00e7a do amor, dos la\u00e7os de afeto e fraternidade entre os seres humanos. Como ele diz a Einstein, \u201cTudo o que produz la\u00e7os de afeto entre os homens nos serve como ant\u00eddoto da guerra\u201d<a href=\"#_edn444\" name=\"_ednref444\">[cdxliv]<\/a>, pois, se \u201ca propens\u00e3o para a guerra emana da puls\u00e3o de destrui\u00e7\u00e3o, temos bem perto seu oponente, Eros [o Amor], para nos ajudar\u201d<a href=\"#_edn445\" name=\"_ednref445\">[cdxlv]<\/a>.<\/p>\n<p>Freud considerava que, como o prazer sexual oferece ao homem \u201cas mais intensas experi\u00eancias de satisfa\u00e7\u00e3o<a href=\"#_edn446\" name=\"_ednref446\">[cdxlvi]<\/a>\u201d<a href=\"#_edn447\" name=\"_ednref447\">[cdxlvii]<\/a>, ele se estabelece psiquicamente como um \u201cprot\u00f3tipo de toda felicidade<a href=\"#_edn448\" name=\"_ednref448\">[cdxlviii]<\/a>\u201d<a href=\"#_edn449\" name=\"_ednref449\">[cdxlix]<\/a>. Por essa raz\u00e3o, a cultura precisa aplicar, na vida coletiva, tudo o que permite ao homem sublimar as for\u00e7as de seu amor, originalmente sexual-genital, transformando-as numa forma de amor fraterno<a href=\"#_edn450\" name=\"_ednref450\">[cdl]<\/a>. Agindo dessa forma, os homens evitam o descaminho \u201ccontra o qual os s\u00e1bios de todos os tempos trataram t\u00e3o insistentemente de dissuadir os homens\u201d<a href=\"#_edn451\" name=\"_ednref451\">[cdli]<\/a>, e, evitando \u201cos tumultos<a href=\"#_edn452\" name=\"_ednref452\">[cdlii]<\/a> e os desapontamentos<a href=\"#_edn453\" name=\"_ednref453\">[cdliii]<\/a> do amor genital\u201d<a href=\"#_edn454\" name=\"_ednref454\">[cdliv]<\/a>, alcan\u00e7am um estado de \u201cternura et\u00e9rea e imperturb\u00e1vel<a href=\"#_edn455\" name=\"_ednref455\">[cdlv]<\/a>\u201d<a href=\"#_edn456\" name=\"_ednref456\">[cdlvi]<\/a>, que j\u00e1 \u201cn\u00e3o se parece mais com a agitada e tempestuosa vida amorosa genital\u201d<a href=\"#_edn457\" name=\"_ednref457\">[cdlvii]<\/a> Freud aponta ent\u00e3o o exemplo de S\u00e3o Francisco de Assis, que, na sua opini\u00e3o \u201ctalvez tenha sido quem mais longe foi na utiliza\u00e7\u00e3o do amor para alcan\u00e7ar uma sensa\u00e7\u00e3o de felicidade interior\u201d<a href=\"#_edn458\" name=\"_ednref458\">[cdlviii]<\/a>.<\/p>\n<p>O \u201coutro tipo de la\u00e7o emocional\u201d<a href=\"#_edn459\" name=\"_ednref459\">[cdlix]<\/a>, apontado por Freud \u00e9 aquele que se d\u00e1 \u201cpor meio da identifica\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn460\" name=\"_ednref460\">[cdlx]<\/a>, quando os homens se sentem irmanados ao se reconhecerem como semelhantes. \u00c9 claro que este \u00e9 um la\u00e7o de afeto que se estende para bem al\u00e9m do c\u00edrculo de amizades ou relacionamento, podendo abarcar, potencialmente, toda a humanidade. Para que este sentimento de fraternidade nas\u00e7a no cora\u00e7\u00e3o humano, Freud considera importante empregar \u201cTudo o que p\u00f5e em evid\u00eancia as significativas semelhan\u00e7as entre os homens\u201d<a href=\"#_edn461\" name=\"_ednref461\">[cdlxi]<\/a> \u2014 como s\u00edmbolos, valores, cren\u00e7as, objetivos, etc. \u2014, pois o reconhecimento de sua natureza comum mobiliza nos homens \u201ceste sentimento de comunidade, a identifica\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn462\" name=\"_ednref462\">[cdlxii]<\/a>.<\/p>\n<p>Para Freud, era evidente que estes la\u00e7os de identifica\u00e7\u00e3o tendem a ser mais fortes quando as unidades sociais s\u00e3o menores, pois \u201cas necessidades e h\u00e1bitos compartilhados por aqueles que vivem unidos numa mesma terra tendem a propiciar uma solu\u00e7\u00e3o expedita\u201d<a href=\"#_edn463\" name=\"_ednref463\">[cdlxiii]<\/a> para os conflitos entre as pessoas, de modo que \u201cas possibilidades de solu\u00e7\u00f5es pac\u00edficas progridem continuamente\u201d<a href=\"#_edn464\" name=\"_ednref464\">[cdlxiv]<\/a>. Por\u00e9m, como Freud faz notar a Einstein, a hist\u00f3ria humana demonstra uma s\u00e9rie ininterrupta de conflitos \u201centre uma comunidade e outra, ou entre um grupo e outro, entre unidades maiores e menores, entre cidades, pa\u00edses, ra\u00e7as, tribos e reinos\u201d<a href=\"#_edn465\" name=\"_ednref465\">[cdlxv]<\/a>.<\/p>\n<p>Em <em>O Mal-Estar na Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>, Freud abordava esta quest\u00e3o, argumentando que, como \u00e9 dif\u00edcil ao homem abrir m\u00e3o de suas puls\u00f5es agressivas, a estrutura\u00e7\u00e3o de unidades sociais menores porque \u201cum c\u00edrculo cultural mais restrito<a href=\"#_edn466\" name=\"_ednref466\">[cdlxvi]<\/a> oferece a vantagem, bastante apreciada, de permitir a satisfa\u00e7\u00e3o desta puls\u00e3o<a href=\"#_edn467\" name=\"_ednref467\">[cdlxvii]<\/a> atrav\u00e9s da hostilidade contra os que dele ficaram exclu\u00eddos\u201d<a href=\"#_edn468\" name=\"_ednref468\">[cdlxviii]<\/a>. Freud se referia, ainda, a um peculiar fen\u00f4meno ps\u00edquico que atua como barreira \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de unidades sociais mais amplas, que ele designa de \u201cnarcisismo das pequenas diferen\u00e7as<a href=\"#_edn469\" name=\"_ednref469\">[cdlxix]<\/a>\u201d<a href=\"#_edn470\" name=\"_ednref470\">[cdlxx]<\/a>, atrav\u00e9s do qual \u201cas comunidades vizinhas e tamb\u00e9m mutuamente relacionadas de outras formas, s\u00e3o precisamente as que mais se combatem e se desprezam mutuamente, como, por exemplo, os espanh\u00f3is e os portugueses, os alem\u00e3es do Norte e os alem\u00e3es do Sul, os ingleses e os escoceses, e assim por diante\u201d<a href=\"#_edn471\" name=\"_ednref471\">[cdlxxi]<\/a>.<\/p>\n<p>Einstein, em 26 de novembro de 1938, tamb\u00e9m expressava pensamentos semelhantes, quando escrevia que \u201cConvic\u00e7\u00f5es e metas compartilhadas, interesses semelhantes, em toda sociedade, produzir\u00e3o grupos que, num certo sentido, atuam como unidades. Sempre existir\u00e1 fric\u00e7\u00e3o entre tais grupos \u2014 o mesmo tipo de avers\u00e3o e rivalidade que existe entre os indiv\u00edduos\u201d<a href=\"#_edn472\" name=\"_ednref472\">[cdlxxii]<\/a>.<\/p>\n<p>Freud havia dito a Einstein que \u201c\u00c9 absolutamente claro que as id\u00e9ias nacionalistas, preponderantes hoje em dia entre o povo, operam numa dire\u00e7\u00e3o bem oposta\u201d<a href=\"#_edn473\" name=\"_ednref473\">[cdlxxiii]<\/a> \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de la\u00e7os de sentimento, ou la\u00e7os de identifica\u00e7\u00e3o<a href=\"#_edn474\" name=\"_ednref474\">[cdlxxiv]<\/a> entre os seres humanos numa escala que transcenda a na\u00e7\u00e3o \u2014 la\u00e7os que poderiam atuar como ant\u00eddotos da guerra. Essa percep\u00e7\u00e3o do nacionalismo desenfreado como um empecilho \u00e0 paz, \u00e9 claro, tampouco havia escapado a Einstein<a href=\"#_edn475\" name=\"_ednref475\">[cdlxxv]<\/a>. Em uma entrevista publicada no <em>Saturday Evening Post<\/em> em 26 de outubro de 1929, Einstein dizia que \u201cO nacionalismo \u00e9 uma doen\u00e7a infantil. \u00c9 o sarampo da humanidade\u201d<a href=\"#_edn476\" name=\"_ednref476\">[cdlxxvi]<\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que todas essas considera\u00e7\u00f5es de Freud sobre a amplia\u00e7\u00e3o do amor e dos la\u00e7os de fraternidade na comunidade humana inserem-se naquele segmento do pacifismo que, como j\u00e1 vimos, Norberto Bobbio classifica como \u201c\u00e9tico-finalista\u201d. Mais especificamente, devem ser entendidas como investiga\u00e7\u00f5es do pacifismo \u00e9tico-finalista <em>terap\u00eautico<\/em>, de natureza materialista<a href=\"#_edn477\" name=\"_ednref477\">[cdlxxvii]<\/a>.<\/p>\n<p>Precisamos, agora, analisar um pouco mais em detalhes como Freud entendia o desenvolvimento cultural e sua rela\u00e7\u00e3o com a paz.<\/p>\n<p><strong>4.8\u00a0 Civiliza\u00e7\u00e3o e cultura<\/strong><\/p>\n<p>Em <em>O Futuro de uma Ilus\u00e3o<\/em> (1927), Freud definia cultura como \u201ctudo aquilo em que a vida humana logrou superar suas condi\u00e7\u00f5es zool\u00f3gicas e se distingue da vida dos animais\u201d<a href=\"#_edn478\" name=\"_ednref478\">[cdlxxviii]<\/a>. Esclarecendo que n\u00e3o faz \u201cdistin\u00e7\u00e3o alguma entre os conceitos de cultura e de civiliza\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn479\" name=\"_ednref479\">[cdlxxix]<\/a>, Freud diz que a cultura tem dois aspectos distintos: \u201cPor um lado, compreende todo o saber e todo o poder conquistados pelos homens a fim de dominar as for\u00e7as da Natureza e extrair os bens naturais que satisfa\u00e7am as necessidades humanas\u201d<a href=\"#_edn480\" name=\"_ednref480\">[cdlxxx]<\/a> e, por outro, compreende \u201ctodas as organiza\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para regular as rela\u00e7\u00f5es dos homens entre si, em especial, a distribui\u00e7\u00e3o dos bens naturais dispon\u00edveis\u201d<a href=\"#_edn481\" name=\"_ednref481\">[cdlxxxi]<\/a>.<a href=\"#_edn482\" name=\"_ednref482\">[cdlxxxii]<\/a><\/p>\n<p>Einstein, em <em>Warum Krieg?<\/em>, trabalhando dentro deste contexto da cultura que compreende \u201ctodas as organiza\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para regular as rela\u00e7\u00f5es dos homens entre si\u201d<a href=\"#_edn483\" name=\"_ednref483\">[cdlxxxiii]<\/a>, havia provocado Freud com v\u00e1rias coloca\u00e7\u00f5es referentes \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre a cultura e a paz. Por exemplo, quando prop\u00f5e a necessidade de estabelecer-se, acima das na\u00e7\u00f5es, \u201cuma entidade supranacional competente para impor veredictos de inconteste autoridade e para exigir submiss\u00e3o absoluta \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o de suas decis\u00f5es\u201d<a href=\"#_edn484\" name=\"_ednref484\">[cdlxxxiv]<\/a>; ou quando aborda a quest\u00e3o do \u201cdesejo de poder das classes governantes em cada na\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn485\" name=\"_ednref485\">[cdlxxxv]<\/a>, ou da \u201cluta pelo poder material e econ\u00f4mico\u201d<a href=\"#_edn486\" name=\"_ednref486\">[cdlxxxvi]<\/a> dos fabricantes e comerciantes de armas. Ou, ainda, quando analisa como \u201cclasse dominante det\u00e9m em suas m\u00e3os as escolas, a imprensa e geralmente tamb\u00e9m as organiza\u00e7\u00f5es religiosas\u201d<a href=\"#_edn487\" name=\"_ednref487\">[cdlxxxvii]<\/a>, e como consegue, atrav\u00e9s desses meios, \u201cdominar e governar as emo\u00e7\u00f5es das massas em geral, para manipul\u00e1-las a seu bel-prazer\u201d<a href=\"#_edn488\" name=\"_ednref488\">[cdlxxxviii]<\/a>. Da mesma forma, Einstein est\u00e1 falando de cultura quando aborda a quest\u00e3o da \u201cassim denominada <em>intelligentsia<\/em>\u201d<a href=\"#_edn489\" name=\"_ednref489\">[cdlxxxix]<\/a>, que, na sua experi\u00eancia, \u00e9 \u201cquem mais cede a estas desastrosas sugest\u00f5es coletivas\u201d<a href=\"#_edn490\" name=\"_ednref490\">[cdxc]<\/a> de \u00f3dio e destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Einstein convida Freud a um campo de an\u00e1lise no qual este se fizera mestre. A abordagem psicanal\u00edtica da cultura ocupou uma grande parte das investiga\u00e7\u00f5es e das paix\u00f5es de Freud ao longo de toda a sua vida, e marcou, em especial, seus escritos de maturidade, como <em>Totem e Tabu <\/em>(1912-3), <em>O Futuro de uma Ilus\u00e3o<\/em> (1927) e <em>O Mal-Estar na Civiliza\u00e7\u00e3o <\/em>(1930). Freud aproveita a deixa dada por Einstein de forma plena. Nos poucos par\u00e1grafos de sua carta a Einstein, ele resume os pensamentos de toda uma vida no tocante ao desenvolvimento cultural e sua rela\u00e7\u00e3o com a agress\u00e3o, a guerra e a paz.<\/p>\n<p>Dentro do esquema te\u00f3rico de Norberto Bobbio, Einstein e Freud, ao discutirem os caminhos da cultura em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 paz, est\u00e3o se movendo nos confins do <em>pacifismo institucional<\/em>, tanto em sua vertente <em>jur\u00eddica<\/em> quanto em sua forma <em>social<a href=\"#_edn491\" name=\"_ednref491\"><strong>[cdxci]<\/strong><\/a><\/em>. Por\u00e9m, ao adentrarem nas rela\u00e7\u00f5es entre a cultura e a transforma\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, emocional, do ser humano \u2014 atrav\u00e9s de mecanismos exteriores como a educa\u00e7\u00e3o e as exig\u00eancias morais da sociedade, bem como atrav\u00e9s de mecanismos ps\u00edquicos internos, como o desenvolvimento da consci\u00eancia moral e do o <em>supra-eu<\/em><a href=\"#_edn492\" name=\"_ednref492\">[cdxcii]<\/a> \u2014 ambos criam uma ponte direta entre os interesses e abordagens do pacifismo institucional e aqueles do pacifismo \u00e9tico-finalista. \u00c9 neste caleidosc\u00f3pio de percep\u00e7\u00f5es, justamente, que jaz a maior riqueza e a maior originalidade do pensamento de ambos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s possibilidades da paz mundial.<\/p>\n<p>Ao longo do par\u00e1grafo sexto de sua carta a Einstein, Freud dedica-se a analisar a forma tumultuada pela qual as normas jur\u00eddicas que regem as sociedades evoluem. Por\u00e9m, Freud comenta que \u201cH\u00e1 tamb\u00e9m uma outra fonte de mudan\u00e7a jur\u00eddica, que se expressa numa forma bem mais pac\u00edfica, e que se d\u00e1 atrav\u00e9s da <em>transforma\u00e7\u00e3o cultural<\/em> dos membros da comunidade\u201d<a href=\"#_edn493\" name=\"_ednref493\">[cdxciii]<\/a>. Entretanto, ele deixa o tema em suspenso, dizendo que \u201ceste fator \u00e9 uma circunst\u00e2ncia que s\u00f3 podemos tratar mais adiante\u201d.<\/p>\n<p>Apenas no par\u00e1grafo 17 de sua carta \u00e9 que Freud retoma o tema do desenvolvimento cultural e sua rela\u00e7\u00e3o com a paz, afirmando que \u201cA este processo devemos tudo o que h\u00e1 de melhor em n\u00f3s, mas tamb\u00e9m uma boa medida daquilo que nos faz sofrer\u201d<a href=\"#_edn494\" name=\"_ednref494\">[cdxciv]<\/a>. Este aspecto negativo da cultura<a href=\"#_edn495\" name=\"_ednref495\">[cdxcv]<\/a>, segundo Freud, consiste basicamente num permanente sentimento de culpa que o homem civilizado sente<a href=\"#_edn496\" name=\"_ednref496\">[cdxcvi]<\/a>, devido aos limites que a cultura imp\u00f5e \u00e0s suas puls\u00f5es agressivas e sexuais<a href=\"#_edn497\" name=\"_ednref497\">[cdxcvii]<\/a>. Freud diz que \u201cA liberdade individual n\u00e3o \u00e9 um bem da cultura, pois era m\u00e1xima antes de toda a cultura\u201d<a href=\"#_edn498\" name=\"_ednref498\">[cdxcviii]<\/a>, mas argumenta que este \u00e9 um \u00f4nus necess\u00e1rio, a ser pago pelos grandes ganhos obtidos na vida em sociedade, a qual \u00e9 respons\u00e1vel por \u201ctudo o que h\u00e1 de melhor em n\u00f3s\u201d<a href=\"#_edn499\" name=\"_ednref499\">[cdxcix]<\/a>. Segundo Freud, o indiv\u00edduo se submete \u00e0s for\u00e7as coletivas da sociedade e da cultura porque percebe nisso uma necessidade de sobreviv\u00eancia<a href=\"#_edn500\" name=\"_ednref500\">[d]<\/a>. Einstein, assim como Freud, real\u00e7a tamb\u00e9m esta depend\u00eancia do indiv\u00edduo de seu suporte social. Em seu texto <em>Por que o Socialismo?<\/em> (1949), ele escreve que o indiv\u00edduo \u201cdepende tanto da sociedade \u2014 em sua exist\u00eancia f\u00edsica, intelectual e emocional \u2014 que \u00e9 imposs\u00edvel pensar nele, ou compreend\u00ea-lo, fora da estrutura social\u201d<a href=\"#_edn501\" name=\"_ednref501\">[di]<\/a>.<\/p>\n<p>Vemos assim, que tanto para Freud quanto para Einstein, n\u00e3o havia d\u00favidas quanto aos benef\u00edcios da vida dos homens dentro da cultura e da sociedade. Em <em>O Futuro de Uma Ilus\u00e3o<\/em> (1927), Freud escrevia que \u201cSuprimida a cultura, o que resta \u00e9 o estado de natureza, muito mais dif\u00edcil de suportar\u201d<a href=\"#_edn502\" name=\"_ednref502\">[dii]<\/a>. Em seu texto <em>Sociedade e Personalidade<\/em>, de 1934, Einstein escrevia que \u201cdevemos nossa principal vantagem sobre os animais ao fato de vivermos em uma sociedade humana\u201d<a href=\"#_edn503\" name=\"_ednref503\">[diii]<\/a>, e que cada pessoa \u00e9 o que \u00e9 \u201ce tem o valor que tem n\u00e3o tanto devido \u00e0 sua individualidade, mas antes por ser um membro da grande comunidade humana, que dirige sua exist\u00eancia material e espiritual do ber\u00e7o \u00e0 sepultura\u201d<a href=\"#_edn504\" name=\"_ednref504\">[div]<\/a>.<\/p>\n<p>Ainda que esse ponto fosse tranq\u00fcilo para Freud, seu objetivo era tentar explicitar por que tantos intelectuais criticavam a cultura como se ela fosse um mal em si mesma, e por que, apesar de suas ineg\u00e1veis vantagens para a vida humana, muitos (ou a maioria) sentiam-se desconfort\u00e1veis dentro dela.<\/p>\n<p>No cap\u00edtulo 3 de <em>O Mal-Estar na Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>, Freud aponta que h\u00e1 \u201ctr\u00eas fontes do sofrimento humano: 1) a supremacia da Natureza, 2) a fragilidade de nosso pr\u00f3prio corpo e 3) a inadequa\u00e7\u00e3o de nossos m\u00e9todos para ajustar as rela\u00e7\u00f5es humanas na fam\u00edlia, no Estado e na sociedade\u201d<a href=\"#_edn505\" name=\"_ednref505\">[dv]<\/a>. Justamente devido a esta percept\u00edvel inadequa\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es sociais e dos meios de regula\u00e7\u00e3o social<a href=\"#_edn506\" name=\"_ednref506\">[dvi]<\/a>, alguns, em vez de buscar m\u00e9todos mais adequados, passam a criticar a cultura humana como sendo \u201crespons\u00e1vel pela mis\u00e9ria<a href=\"#_edn507\" name=\"_ednref507\">[dvii]<\/a> que sofremos\u201d<a href=\"#_edn508\" name=\"_ednref508\">[dviii]<\/a>. Para Freud, essa era uma \u201cafirma\u00e7\u00e3o espantosa\u201d<a href=\"#_edn509\" name=\"_ednref509\">[dix]<\/a>, porque, em seu julgamento, \u201cindependente da maneira como possamos definir o conceito de cultura \u2014 \u00e9 ineg\u00e1vel que todos os recursos com os quais buscamos nos proteger dos sofrimentos amea\u00e7adores derivam precisamente dessa mesma cultura\u201d<a href=\"#_edn510\" name=\"_ednref510\">[dx]<\/a>.<\/p>\n<p>Freud entende que \u201cO homem civilizado trocou uma parte de sua poss\u00edvel felicidade por outro tanto de seguran\u00e7a\u201d<a href=\"#_edn511\" name=\"_ednref511\">[dxi]<\/a>. E conclui dizendo que, \u00e0 luz das pesquisas antropol\u00f3gicas com povos primitivos, \u201cde forma alguma \u00e9 invej\u00e1vel a liberdade que usufruem em sua vida pulsional<a href=\"#_edn512\" name=\"_ednref512\">[dxii]<\/a>, pois ela se acha sujeita a restri\u00e7\u00f5es de outra ordem, talvez ainda mais severas do que as impostas ao homem civilizado moderno\u201d<a href=\"#_edn513\" name=\"_ednref513\">[dxiii]<\/a>.<\/p>\n<p>O que Freud considerava necess\u00e1rio, ou, ao menos, aquilo no que colocava a esperan\u00e7a, era que o desenvolvimento cultural da humanidade lograsse \u201cmodifica\u00e7\u00f5es que satisfa\u00e7am melhor nossas necessidades e que escapem \u00e0s cr\u00edticas que lhe s\u00e3o dirigidas\u201d<a href=\"#_edn514\" name=\"_ednref514\">[dxiv]<\/a>, superando os arranjos inadequados, de forma a diminuir o desconforto que o homem sente dentro da civiliza\u00e7\u00e3o. Freud expressa o dilema que est\u00e1 em jogo dizendo que \u201ca quest\u00e3o do destino da esp\u00e9cie humana jaz em se \u2014 e at\u00e9 que ponto \u2014 o desenvolvimento cultural<a href=\"#_edn515\" name=\"_ednref515\">[dxv]<\/a> conseguir\u00e1 dominar as perturba\u00e7\u00f5es da vida coletiva que nascem das puls\u00f5es de agress\u00e3o e de autodestrui\u00e7\u00e3o<a href=\"#_edn516\" name=\"_ednref516\">[dxvi]<\/a>\u201d<a href=\"#_edn517\" name=\"_ednref517\">[dxvii]<\/a>.<\/p>\n<p>Em <em>Warum Krieg?<\/em>, Freud diz a Einstein que as \u201cmudan\u00e7as ps\u00edquicas\u201d<a href=\"#_edn518\" name=\"_ednref518\">[dxviii]<\/a> que acompanham o processo de evolu\u00e7\u00e3o cultural \u201cs\u00e3o not\u00e1veis e inequ\u00edvocas\u201d<a href=\"#_edn519\" name=\"_ednref519\">[dxix]<\/a>, e que elas \u201cconsistem na rejei\u00e7\u00e3o progressiva das metas pulsionais e em um decr\u00e9scimo nas rea\u00e7\u00f5es pulsionais\u201d<a href=\"#_edn520\" name=\"_ednref520\">[dxx]<\/a>. \u00c9 por essa raz\u00e3o que a evolu\u00e7\u00e3o cultural serve como um poderoso aliado na elimina\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia e da guerra, pois a \u201cguerra vai enfaticamente contra o ajustamento ps\u00edquico imposto a n\u00f3s pelo processo cultural\u201d<a href=\"#_edn521\" name=\"_ednref521\">[dxxi]<\/a>. Einstein expressara, numa palestra em 27 de fevereiro de 1932, a mesma opini\u00e3o, dizendo que \u201cO destino da humanidade civilizada depende mais do que nunca das for\u00e7as morais que ela \u00e9 capaz de gerar\u201d<a href=\"#_edn522\" name=\"_ednref522\">[dxxii]<\/a>. E, numa carta de 1951, escrevendo que \u201cSem uma \u2018cultura \u00e9tica\u2019, n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o para a humanidade\u201d<a href=\"#_edn523\" name=\"_ednref523\">[dxxiii]<\/a>.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 vimos anteriormente, Freud considerava que uma das mais fortes puls\u00f5es humanas era a puls\u00e3o de agress\u00e3o, e que, num estado natural (isento de cultura), isso levava os homens a estarem num permanente estado de agress\u00e3o e exterm\u00ednio m\u00fatuos. Em <em>O Futuro de Uma Ilus\u00e3o<\/em>, Freud havia analisado como, sem os ditames da cultura \u201co homic\u00eddio sem fim seria praticado, resultando no exterm\u00ednio m\u00fatuo de todos os homens\u201d<a href=\"#_edn524\" name=\"_ednref524\">[dxxiv]<\/a>. E em <em>O Mal-Estar na Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>, expressava que \u201co natural instinto agressivo do homem, a hostilidade de cada um contra todos e a de todos contra cada um, se op\u00f5e a esse programa da cultura\u201d<a href=\"#_edn525\" name=\"_ednref525\">[dxxv]<\/a>.<\/p>\n<p>Nestas an\u00e1lises, como aponta Peter Gay, Freud segue de perto o \u201cpensamento pol\u00edtico de Thomas Hobbes\u201d<a href=\"#_edn526\" name=\"_ednref526\">[dxxvi]<\/a>, para quem \u201co homem \u00e9 o lobo do homem\u201d, express\u00e3o que Freud tamb\u00e9m emprega para descrever a rela\u00e7\u00e3o natural dos homens entre si enquanto no \u201cestado da natureza\u201d<a href=\"#_edn527\" name=\"_ednref527\">[dxxvii]<\/a>, ou seja, sem os regulamentos das institui\u00e7\u00f5es e padr\u00f5es sociais criadas pela cultura. Para Hobbes<a href=\"#_edn528\" name=\"_ednref528\">[dxxviii]<\/a>, como para Freud, \u201ca humanidade precisa ser domada pelas institui\u00e7\u00f5es\u201d<a href=\"#_edn529\" name=\"_ednref529\">[dxxix]<\/a>, ou como Freud diz a Einstein, \u201cpela transfer\u00eancia de poder para uma unidade maior\u201d<a href=\"#_edn530\" name=\"_ednref530\">[dxxx]<\/a>. Freud entendia que a as rela\u00e7\u00f5es humanas civilizadas s\u00f3 foram poss\u00edveis atrav\u00e9s de um contrato social que conferiu monop\u00f3lio de coer\u00e7\u00e3o ao Estado, retirando totalmente esse direito do indiv\u00edduo, e que \u201cEsta substitui\u00e7\u00e3o do poder individual pelo da comunidade representa o passo decisivo na dire\u00e7\u00e3o da cultura\u201d<a href=\"#_edn531\" name=\"_ednref531\">[dxxxi]<\/a>.<\/p>\n<p>Freud pensava que somente o desenvolvimento cultural podia libertar a humanidade da viol\u00eancia e da guerra. Em certa ocasi\u00e3o \u2014 expressando uma verdade atrav\u00e9s da fina ironia que lhe caracterizava \u2014 Freud disse que o primeiro homem a lan\u00e7ar um insulto ao inimigo, ao inv\u00e9s de uma lan\u00e7a, foi o verdadeiro fundador da civiliza\u00e7\u00e3o!<a href=\"#_edn532\" name=\"_ednref532\">[dxxxii]<\/a> Na carta a Einstein, Freud defende que o \u201cajustamento cultural\u201d<a href=\"#_edn533\" name=\"_ednref533\">[dxxxiii]<\/a> \u00e9 um dos fatores que talvez possam \u201cacabar com a guerra num futuro n\u00e3o muito distante\u201d<a href=\"#_edn534\" name=\"_ednref534\">[dxxxiv]<\/a>. Isso porque, para Freud, \u201cA guerra vai enfaticamente contra o ajustamento ps\u00edquico imposto a n\u00f3s pelo processo cultural; \u00e9 por isso que necessariamente nos opomos a ela e a consideramos totalmente intoler\u00e1vel\u201d<a href=\"#_edn535\" name=\"_ednref535\">[dxxxv]<\/a>.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 tivemos oportunidade de abordar, para Freud o desenvolvimento cultural \u201cconstitui um processo a servi\u00e7o de Eros [Amor], cujo prop\u00f3sito \u00e9 agregar os indiv\u00edduos isolados, depois as fam\u00edlias, as ra\u00e7as, os povos e as na\u00e7\u00f5es em uma grande unidade: a humanidade\u201d<a href=\"#_edn536\" name=\"_ednref536\">[dxxxvi]<\/a>. \u00c9 o instrumento essencial usado pelo Amor, como uma das duas for\u00e7as fundamentais da vida, para evitar a guerra universal.<\/p>\n<p>Em sua investiga\u00e7\u00e3o sobre a atua\u00e7\u00e3o da cultura na restri\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia e da agress\u00e3o, Freud descreve dois est\u00e1gios no desenvolvimento ps\u00edquico do ser humano em dire\u00e7\u00e3o ao bem coletivo, ou, no que se refere ao nosso foco de investiga\u00e7\u00e3o, \u00e0 paz. O primeiro est\u00e1gio se d\u00e1 quando o homem se priva da agress\u00e3o (ou de outras metas pulsionais) for\u00e7ado por uma influ\u00eancia que lhe vem de fora, da fam\u00edlia, dos amigos, da religi\u00e3o, da lei&#8230; Nesse est\u00e1gio, estabelece-se \u201cuma influ\u00eancia alheia e externa, destinada a estabelecer o que se deve considerar como bom ou como mau\u201d<a href=\"#_edn537\" name=\"_ednref537\">[dxxxvii]<\/a>. Neste est\u00e1gio, a motiva\u00e7\u00e3o do ser humano para se submeter \u00e0s regras da cultura prov\u00e9m do \u201cmedo da perda do amor\u201d<a href=\"#_edn538\" name=\"_ednref538\">[dxxxviii]<\/a>. Como o ser humano sabe de \u201cseu desamparo e sua depend\u00eancia dos demais\u201d<a href=\"#_edn539\" name=\"_ednref539\">[dxxxix]<\/a>, ele se sujeita \u00e0s imposi\u00e7\u00f5es da cultura mesmo sem ter sido \u201clevado por sua pr\u00f3pria sensibilidade a tal discrimina\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn540\" name=\"_ednref540\">[dxl]<\/a> entre o \u201ccerto\u201d e o \u201cerrado\u201d.<\/p>\n<p>Freud comenta que se costuma denominar de \u201cm\u00e1 consci\u00eancia\u201d a este est\u00e1gio do desenvolvimento ps\u00edquico, mas argumenta que esse n\u00e3o \u00e9 um nome adequado, pois \u201cneste n\u00edvel o sentimento de culpa, sem d\u00favida alguma, n\u00e3o \u00e9 mais do que o medo de perder o amor, ou seja, ang\u00fastia \u2018social\u2019\u201d<a href=\"#_edn541\" name=\"_ednref541\">[dxli]<\/a>.<\/p>\n<p>O est\u00e1gio superior no desenvolvimento ps\u00edquico, segundo Freud \u2014 em dire\u00e7\u00e3o a uma vida individual e coletiva mais pr\u00f3xima do \u201cideal\u201d \u2014, s\u00f3 acontece quando \u201cse produz uma mudan\u00e7a fundamental\u201d<a href=\"#_edn542\" name=\"_ednref542\">[dxlii]<\/a> na avalia\u00e7\u00e3o que o indiv\u00edduo faz de seus atos. Neste est\u00e1gio, \u201ca autoridade \u00e9 internalizada ao estabelecer-se o \u2018supra-eu\u2019<a href=\"#_edn543\" name=\"_ednref543\">[dxliii]<\/a>. Com isso, os fen\u00f4menos da consci\u00eancia moral s\u00e3o elevados a um novo n\u00edvel, e em princ\u00edpio \u00e9 somente ent\u00e3o que se pode falar de consci\u00eancia moral e sentimento de culpa\u201d<a href=\"#_edn544\" name=\"_ednref544\">[dxliv]<\/a>. Segundo Freud, a import\u00e2ncia deste est\u00e1gio \u00e9 que nesta fase \u201ca autoridade \u00e9 internalizada\u201d<a href=\"#_edn545\" name=\"_ednref545\">[dxlv]<\/a>, de forma que o que atua sobre a consci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 mais \u201co medo de ser flagrado [em delito]\u201d<a href=\"#_edn546\" name=\"_ednref546\">[dxlvi]<\/a>, mas sim um julgamento interior \u00e0 consci\u00eancia que borra \u201ca distin\u00e7\u00e3o entre praticar e querer o mal\u201d<a href=\"#_edn547\" name=\"_ednref547\">[dxlvii]<\/a>, uma vez que \u201cnada se pode ocultar do <em>supra-eu<\/em>, nem mesmo os pensamentos\u201d<a href=\"#_edn548\" name=\"_ednref548\">[dxlviii]<\/a>. Apenas nestas circunst\u00e2ncias, quando o homem introjeta os valores e normas sociais como <em>supra-eu<\/em>, \u00e9 que a verdadeira moralidade se manifesta, para benef\u00edcio da sociedade e \u00e0 custa de algum sacrif\u00edcio do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>O pensamento de Einstein tamb\u00e9m se aproxima destes aspectos da teoria de Freud no tocante \u00e0s limita\u00e7\u00f5es da coibi\u00e7\u00e3o externa para o verdadeiro amadurecimento humano em termos morais. Numa carta de 30 de julho de 1947, Einstein escrevia que \u201cNada verdadeiramente valioso adv\u00e9m da ambi\u00e7\u00e3o ou de um <em>mero senso de dever<\/em>; brota, antes, do amor e da devo\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos seres humanos e \u00e0s coisas objetivas\u201d<a href=\"#_edn549\" name=\"_ednref549\">[dxlix]<\/a>. Ou seja, o mero senso de dever moral, para Einstein como para Freud, n\u00e3o \u00e9 moralidade. O fundamental \u00e9 uma dimens\u00e3o interna de \u201camor e devo\u00e7\u00e3o\u201d que mobilize o ser humano em dire\u00e7\u00e3o ao bem.<\/p>\n<p>Einstein acreditava que a verdadeira distin\u00e7\u00e3o em termos de nobreza humana, n\u00e3o estava na mera conquista intelectual ou cient\u00edfica. Assim como Freud distinguia os homens que \u201cagem sempre bem porque suas inclina\u00e7\u00f5es pulsionais o exigem\u201d<a href=\"#_edn550\" name=\"_ednref550\">[dl]<\/a>, Einstein pensava que \u201cO verdadeiro valor de um ser humano \u00e9 definido primordialmente pelo grau e pela forma em que ele alcan\u00e7ou a liberta\u00e7\u00e3o de si mesmo\u201d<a href=\"#_edn551\" name=\"_ednref551\">[dli]<\/a>. Tais homens s\u00e3o, como Freud os classificava, \u201chomens verdadeiramente civilizados\u201d<a href=\"#_edn552\" name=\"_ednref552\">[dlii]<\/a>.<\/p>\n<p>Em 1927, em <em>O Futuro de uma Ilus\u00e3o<\/em>, Freud afirmava que \u201c\u00c9 incorreto que a alma humana<a href=\"#_edn553\" name=\"_ednref553\">[dliii]<\/a> n\u00e3o tenha realizado progresso algum desde os tempos mais remotos e que [&#8230;] seja hoje a mesma que nos prim\u00f3rdios da Hist\u00f3ria\u201d<a href=\"#_edn554\" name=\"_ednref554\">[dliv]<\/a>. E identificava, como uma caracter\u00edstica dessa evolu\u00e7\u00e3o, a \u201ctransforma\u00e7\u00e3o paulatina da coer\u00e7\u00e3o externa<a href=\"#_edn555\" name=\"_ednref555\">[dlv]<\/a> em coer\u00e7\u00e3o interna atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o de uma inst\u00e2ncia ps\u00edquica<a href=\"#_edn556\" name=\"_ednref556\">[dlvi]<\/a> especial do homem, o <em>supra-eu<\/em>\u201d<a href=\"#_edn557\" name=\"_ednref557\">[dlvii]<\/a><em>.<\/em> Para Freud, \u201cEste fortalecimento do <em>supra-eu<\/em> \u00e9 um dos mais valiosos fatores culturais psicol\u00f3gicos\u201d<a href=\"#_edn558\" name=\"_ednref558\">[dlviii]<\/a>, de tal forma que as pessoas \u201cnas quais isto se cumpriu deixam de ser advers\u00e1rios da cultura e se convertem em seus mais firmes alicerces\u201d<a href=\"#_edn559\" name=\"_ednref559\">[dlix]<\/a>.<\/p>\n<p>Einstein, sem contar com todo o arcabou\u00e7o te\u00f3rico de Freud, tamb\u00e9m expressa essa id\u00e9ia, ainda que de maneira singela e bela, ao escrever que \u201cOnde h\u00e1 amor, n\u00e3o h\u00e1 imposi\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn560\" name=\"_ednref560\">[dlx]<\/a>. Numa confer\u00eancia e Princeton, em 19 de setembro de 1954, Einstein volta a este tema da moralidade interior e do controle das puls\u00f5es ego\u00edstas dizendo, a seu modo, que \u201cOs seres humanos podem atingir uma vida digna e harmoniosa apenas se conseguem libertar-se, dentro dos limites impostos pela natureza humana, das tend\u00eancias para satisfazer seus desejos de natureza f\u00edsica\u201d<a href=\"#_edn561\" name=\"_ednref561\">[dlxi]<\/a>.<\/p>\n<p>Freud assinala uma s\u00e9rie de semelhan\u00e7as entre o <em>supra-eu<\/em> individual e o <em>supra-eu<\/em> coletivo, ressaltando que \u201co <em>supra-eu<\/em> cultural, de modo id\u00eantico ao individual, estabelece r\u00edgidos ideais cuja viola\u00e7\u00e3o \u00e9 castigada com a \u2018angustia da consci\u00eancia\u2019<a href=\"#_edn562\" name=\"_ednref562\">[dlxii]<\/a>\u201d<a href=\"#_edn563\" name=\"_ednref563\">[dlxiii]<\/a>. O problema, para Freud, d\u00e1-se quando os ditames do <em>supra-eu<\/em> cultural est\u00e3o em conflito com as possibilidades de concretiza\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos<a href=\"#_edn564\" name=\"_ednref564\">[dlxiv]<\/a>.<\/p>\n<p>Apesar dessas bem-fundadas ressalvas de Freud com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura, elas n\u00e3o podem ser tomadas como uma rejei\u00e7\u00e3o sua ao valor quer da cultura, quer do <em>supra-eu<\/em> cultural. Como um psic\u00f3logo interessado na investiga\u00e7\u00e3o e no tratamento das patologias ps\u00edquicas, \u00e9 natural que Freud fosse especialmente sens\u00edvel aos desequil\u00edbrios da vida individual ou coletiva que possam contribuir para o sofrimento ps\u00edquico. Da\u00ed seu alerta, muitas vezes repetitivo, sobre os exageros das normas culturais, pois se as exig\u00eancias do <em>supra-eu<\/em> individual ou cultural excedem \u201cdeterminados limites\u201d<a href=\"#_edn565\" name=\"_ednref565\">[dlxv]<\/a> o resultado \u00e9 que \u201cproduz-se no indiv\u00edduo uma rebeli\u00e3o ou uma neurose ou a infelicidade\u201d<a href=\"#_edn566\" name=\"_ednref566\">[dlxvi]<\/a>. Por outro lado, Freud, como j\u00e1 tivemos oportunidade de ver, defendia a cultura como aquele processo coletivo ao qual \u201cdevemos tudo o que h\u00e1 de melhor em n\u00f3s\u201d<a href=\"#_edn567\" name=\"_ednref567\">[dlxvii]<\/a>.<\/p>\n<p>Para Freud, o que caracteriza o processo de evolu\u00e7\u00e3o individual \u00e9 a domin\u00e2ncia \u201cdo princ\u00edpio do prazer, ou seja, a busca da felicidade\u201d<a href=\"#_edn568\" name=\"_ednref568\">[dlxviii]<\/a>, e sua a \u00eanfase cai sobre a \u201ctend\u00eancia <em>ego\u00edsta<\/em>, ou de felicidade\u201d<a href=\"#_edn569\" name=\"_ednref569\">[dlxix]<\/a>. Por outro lado, o processo de evolu\u00e7\u00e3o coletiva p\u00f5e sua \u00eanfase \u201cno desejo de fundir-se com os demais membros da comunidade, que chamamos de <em>altru\u00edsta<\/em>\u201d<a href=\"#_edn570\" name=\"_ednref570\">[dlxx]<\/a>. Assim, embora o indiv\u00edduo busque \u201ca inclus\u00e3o em uma comunidade humana ou a adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 ela\u201d<a href=\"#_edn571\" name=\"_ednref571\">[dlxxi]<\/a>, ele o faz por que isso se lhe apresenta como \u201cum requisito quase inevit\u00e1vel que precisa ser cumprido para alcan\u00e7ar a meta da felicidade\u201d<a href=\"#_edn572\" name=\"_ednref572\">[dlxxii]<\/a>; mas que talvez \u201cfosse muito melhor se esta condi\u00e7\u00e3o pudesse ser eliminada\u201d<a href=\"#_edn573\" name=\"_ednref573\">[dlxxiii]<\/a>. Por outro lado, no desenvolvimento cultural, num movimento contr\u00e1rio, \u201ca felicidade individual, embora ainda subsista, \u00e9 relegada a um segundo plano\u201d<a href=\"#_edn574\" name=\"_ednref574\">[dlxxiv]<\/a>.<\/p>\n<p>Einstein, na mesma linha destas considera\u00e7\u00f5es de Freud, escreveu, em 1949, que \u201cO homem \u00e9, ao mesmo tempo, um ser solit\u00e1rio e um ser social\u201d<a href=\"#_edn575\" name=\"_ednref575\">[dlxxv]<\/a>, que, como ser solit\u00e1rio, \u201cbusca proteger sua pr\u00f3pria exist\u00eancia e a daqueles que lhe s\u00e3o mais pr\u00f3ximos, satisfazer seus desejos pessoais e desenvolver suas habilidades inatas\u201d<a href=\"#_edn576\" name=\"_ednref576\">[dlxxvi]<\/a>. J\u00e1, como ser social, \u201cbusca o reconhecimento e o afeto dos outros seres humanos, quer partilhar de suas alegrias, confort\u00e1-los em suas tristezas e melhorar suas condi\u00e7\u00f5es de vida\u201d<a href=\"#_edn577\" name=\"_ednref577\">[dlxxvii]<\/a>.<\/p>\n<p>Em suas considera\u00e7\u00f5es sobre o conflito de interesses individuais e coletivos, Freud faz quest\u00e3o de destacar que \u201cesta luta entre indiv\u00edduo e sociedade n\u00e3o \u00e9 filha do antagonismo, talvez irreconcili\u00e1vel, entre as protopuls\u00f5es, Eros e Morte\u201d<a href=\"#_edn578\" name=\"_ednref578\">[dlxxviii]<\/a>, mas sim que se trata de um conflito inserido na \u201cpr\u00f3pria economia da libido<a href=\"#_edn579\" name=\"_ednref579\">[dlxxix]<\/a>, conflito compar\u00e1vel \u00e0 disputa na distribui\u00e7\u00e3o da libido entre o <em>eu<\/em><a href=\"#_edn580\" name=\"_ednref580\">[dlxxx]<\/a> e os objetos\u201d<a href=\"#_edn581\" name=\"_ednref581\">[dlxxxi]<\/a>. \u00c9 importante entendermos essa coloca\u00e7\u00e3o de Freud: o que ele nos diz \u00e9 que a disputa entre indiv\u00edduo e sociedade n\u00e3o \u00e9 a disputa <em>entre dois inimigos mortais<\/em>, mas a disputa <em>entre dois irm\u00e3os que se amam<\/em>. O antagonismo n\u00e3o \u00e9 irreconcili\u00e1vel, nem em teoria nem na pr\u00e1tica<a href=\"#_edn582\" name=\"_ednref582\">[dlxxxii]<\/a>. Assim como numa refei\u00e7\u00e3o em fam\u00edlia cuida-se de repartir os alimentos de forma equ\u00e2nime, da mesma forma o <em>eu<\/em> precisa repartir a energia vital da libido entre o uso voltado para si mesmo, e o seu direcionamento para como os outros, \u201cobjetos\u201d de seu amor. Pelo fato de que, para Freud, o amor por si e o amor pelos outros difere \u201capenas em seu objeto, n\u00e3o em sua natureza\u201d<a href=\"#_edn583\" name=\"_ednref583\">[dlxxxiii]<\/a>, a sua \u201cdistribui\u00e7\u00e3o\u201d <a href=\"#_edn584\" name=\"_ednref584\">[dlxxxiv]<\/a> \u00e9 um conflito apenas na \u201ceconomia da libido\u201d<a href=\"#_edn585\" name=\"_ednref585\">[dlxxxv]<\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 por estas raz\u00f5es que Freud consegue acenar com esperan\u00e7a para o conflito entre o <em>ego\u00edsmo<\/em> natural ao indiv\u00edduo e o <em>altru\u00edsmo<\/em> natural \u00e0 cultura. Como se trata de uma quest\u00e3o \u201cde economia dom\u00e9stica\u201d, por assim dizer, da mesma forma como o conflito da reparti\u00e7\u00e3o do amor admite \u201cuma acomoda\u00e7\u00e3o final no indiv\u00edduo\u201d<a href=\"#_edn586\" name=\"_ednref586\">[dlxxxvi]<\/a>, Freud tamb\u00e9m espera que o mesmo venha a suceder \u201cno futuro da cultura, por mais que atualmente essa cultura possa oprimir a vida do indiv\u00edduo\u201d.<\/p>\n<p>O \u201cajustamento ps\u00edquico\u201d<a href=\"#_edn587\" name=\"_ednref587\">[dlxxxvii]<\/a> do qual Freud fala a Einstein \u2014 fruto do \u201cprocesso cultural\u201d<a href=\"#_edn588\" name=\"_ednref588\">[dlxxxviii]<\/a> e necess\u00e1rio para que uma pessoa se torne pacifista \u2014 n\u00e3o \u00e9, para Freud, uma b\u00ean\u00e7\u00e3o universal garantida <em>per se<\/em> pelo desenvolvimento cultural. Freud n\u00e3o tinha a ilus\u00e3o de que todos os europeus, ou todos os alem\u00e3es, ou austr\u00edacos, fossem naturalmente pacifistas, ainda que pudesse considerar nobil\u00edssimas as suas conquistas culturais em outras \u00e1reas<a href=\"#_edn589\" name=\"_ednref589\">[dlxxxix]<\/a>. E, apesar de suas palavras em <em>O Futuro de uma Ilus\u00e3o<\/em>, e de um evidente privil\u00e9gio que Freud dispensa aos intelectuais e homens de cultura, ele n\u00e3o tomava o desenvolvimento intelectual como uma garantia de desenvolvimento moral.<\/p>\n<p>Para Freud, o pacifismo, ou a capacidade de o indiv\u00edduo conter suas puls\u00f5es agressivas, \u00e9 uma <em>forma espec\u00edfica<\/em>, n\u00e3o gen\u00e9rica, de desenvolvimento cultural. O pacifismo no indiv\u00edduo n\u00e3o \u00e9, necessariamente, um fruto da racionalidade ou da ilustra\u00e7\u00e3o, ou do refinamento nas artes, nas ci\u00eancias ou em outros afazeres culturais. Pertence a outra dimens\u00e3o de desenvolvimento pessoal an\u00edmico no seio da cultura, uma dimens\u00e3o que separa os homens entre os verdadeiramente dotados de consci\u00eancia e os que n\u00e3o a possuem; entre os dotados de verdadeira moralidade, e os \u201chip\u00f3critas da cultura\u201d<a href=\"#_edn590\" name=\"_ednref590\">[dxc]<\/a>; entre os que verdadeiramente s\u00e3o senhores de si mesmos, e os que s\u00e3o escravos de suas puls\u00f5es primitivas. Como Freud escreve em <em>Considera\u00e7\u00f5es Atuais Sobre a Guerra e a Morte<\/em>, \u201cas evolu\u00e7\u00f5es an\u00edmicas integram uma peculiaridade que n\u00e3o se encontra em nenhum outro processo evolutivo\u201d<a href=\"#_edn591\" name=\"_ednref591\">[dxci]<\/a>.<\/p>\n<p>Tendo em vista tudo isso, especialmente o fato de que o desenvolvimento cultural por si s\u00f3 n\u00e3o conduz necessariamente a uma consci\u00eancia moral elevada, e ampliando a pergunta original de Einstein a Freud, de \u201c<em>ser\u00e1 <\/em>poss\u00edvel\u201d para \u201c<em>como<\/em> \u00e9 poss\u00edvel\u201d orientar \u201co desenvolvimento ps\u00edquico do homem de modo a faz\u00ea-lo superar a psicose do \u00f3dio e da destrui\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn592\" name=\"_ednref592\">[dxcii]<\/a>, temos em <em>Considera\u00e7\u00f5es Atuais Sobre a Guerra e a Morte<\/em>, de 1915, uma resposta clara:<\/p>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o das puls\u00f5es m\u00e1s \u00e9 obra de dois fatores que atuam no mesmo sentido, um interior e outro exterior. O fator interior \u00e9 o influxo exercido sobre as puls\u00f5es m\u00e1s \u2014 ego\u00edstas \u2014 pelo erotismo; isto \u00e9, pela necessidade humana de amor em seu mais amplo sentido. A combina\u00e7\u00e3o dos componentes er\u00f3ticos transforma os instintos ego\u00edstas em instintos sociais. O sujeito aprende a valorizar o sentir-se amado como uma vantagem pela qual pode renunciar a outras. O fator exterior \u00e9 a coibi\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, que representa as exig\u00eancias da cultura circundante e \u00e9 logo seguida pela a\u00e7\u00e3o direta do mundo civilizado. A civiliza\u00e7\u00e3o foi conquistada por obra da ren\u00fancia \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o das puls\u00f5es e exige de todo novo indiv\u00edduo a repeti\u00e7\u00e3o de tal ren\u00fancia. <a href=\"#_edn593\" name=\"_ednref593\">[dxciii]<\/a><\/p>\n<p>Einstein tamb\u00e9m entendia que o desenvolvimento moral era de uma categoria especial e que, se n\u00e3o estivesse lado-a-lado com o desenvolvimento do intelecto, os resultados eram desastrosos. Einstein tampouco tinha confian\u00e7a nos \u201chomens cultos\u201d e nos que \u201ctrabalham com o intelecto\u201d. Para ele, \u201cmesmo mentes nobres podem se tornar v\u00edtimas de sentimentos barb\u00e1ricos\u201d<a href=\"#_edn594\" name=\"_ednref594\">[dxciv]<\/a>, e dizia n\u00e3o acreditar que \u201catitudes humanas nobres flores\u00e7am nem um pouco mais facilmente nas universidades e academias do que nas lojas dos homens desconhecidos, silenciosos e comuns\u201d<a href=\"#_edn595\" name=\"_ednref595\">[dxcv]<\/a>.<\/p>\n<p>Visto tudo o que se exp\u00f4s acima, podemos entender porque Freud finaliza sua carta a Einstein dizendo que \u201cpodemos ficar certos de que tudo o que promove o desenvolvimento cultural trabalha ao mesmo tempo contra a guerra\u201d<a href=\"#_edn596\" name=\"_ednref596\">[dxcvi]<\/a>. Compreendemos, agora, de qual desenvolvimento cultural fala Freud: aquele especificamente envolvido no processo de aprimoramento da consci\u00eancia moral dos indiv\u00edduos. \u00c9 por isso que Freud coloca tamb\u00e9m sua esperan\u00e7a em Eros, o Amor, que sempre est\u00e1 perto \u201cpara nos ajudar\u201d<a href=\"#_edn597\" name=\"_ednref597\">[dxcvii]<\/a>. \u00c9 por isso que Freud pode afirmar que \u201cTudo o que produz la\u00e7os de afeto entre os homens nos serve como ant\u00eddoto da guerra\u201d<a href=\"#_edn598\" name=\"_ednref598\">[dxcviii]<\/a>. \u00c9 por isso que Freud acredita na for\u00e7a de \u201cTudo o que p\u00f5e em evid\u00eancia as significativas semelhan\u00e7as entre os homens\u201d<a href=\"#_edn599\" name=\"_ednref599\">[dxcix]<\/a>. Todos esses fatores, sem d\u00favida, mobilizam a unidade entre os homens e os sentimentos nobres de amor e fraternidade que podem impedir a \u201cpsicose do \u00f3dio e da destrui\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn600\" name=\"_ednref600\">[dc]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>4.9\u00a0 Desenvolvimento cultural e desenvolvimento org\u00e2nico<\/strong><\/p>\n<p>Em sua carta a Einstein, dentro do bojo de suas considera\u00e7\u00f5es sobre a cultura e a paz, Freud apresenta um outro argumento, bastante curioso e que j\u00e1 rendeu muitas e muitas p\u00e1ginas de an\u00e1lise por diversos autores. Segundo ele, \u201ca principal raz\u00e3o pela qual nos revoltamos contra a guerra \u00e9 que n\u00e3o temos outra escolha. Somos pacifistas porque temos de s\u00ea-lo <em>por raz\u00f5es org\u00e2nicas<\/em>\u201d<a href=\"#_edn601\" name=\"_ednref601\">[dci]<\/a>. Voltando \u00e0 mesma afirma\u00e7\u00e3o no par\u00e1grafo seguinte, Freud diz que para pacifistas como ele<a href=\"#_edn602\" name=\"_ednref602\">[dcii]<\/a> e Einstein<a href=\"#_edn603\" name=\"_ednref603\">[dciii]<\/a>, o rep\u00fadio \u00e0 guerra \u201cn\u00e3o se trata apenas de uma avers\u00e3o intelectual ou afetiva, mas de uma intoler\u00e2ncia constitucional, uma idiossincrasia do tipo mais radical\u201d<a href=\"#_edn604\" name=\"_ednref604\">[dciv]<\/a>.<\/p>\n<p>Em ess\u00eancia, o que Freud apresenta a Einstein \u00e9 o argumento de que o desenvolvimento cultural provoca altera\u00e7\u00f5es \u201corg\u00e2nicas\u201d, \u201cconstitucionais\u201d, de ordem fisiol\u00f3gica, naqueles que a ele est\u00e3o submetidos. Essa id\u00e9ia soa um tanto estranha, n\u00e3o apenas por sua pr\u00f3pria natureza, mas tamb\u00e9m por ser apresentada justamente por Freud, que, em sua epop\u00e9ica elabora\u00e7\u00e3o da Psican\u00e1lise se gloriava de ter \u201cdeliberadamente\u201d distanciado sua ci\u00eancia das \u201cdescobertas da biologia\u201d<a href=\"#_edn605\" name=\"_ednref605\">[dcv]<\/a>.<\/p>\n<p>Na carta a Einstein, Freud diz que o processo de desenvolvimento cultural pode ser comparado \u201caos efeitos da domestica\u00e7\u00e3o de certos animais\u201d<a href=\"#_edn606\" name=\"_ednref606\">[dcvi]<\/a>, e afirma que \u201cele certamente produz mudan\u00e7as na estrutura f\u00edsica\u201d<a href=\"#_edn607\" name=\"_ednref607\">[dcvii]<\/a>. Freud entende que, no processo de evolu\u00e7\u00e3o cultural \u201cSensa\u00e7\u00f5es que deleitavam nossos antepassados tornaram-se neutras ou intoler\u00e1veis para n\u00f3s\u201d <a href=\"#_edn608\" name=\"_ednref608\">[dcviii]<\/a>, e que \u201cse nossos ideais \u00e9ticos e est\u00e9ticos se transformaram, as causas dessa mudan\u00e7a s\u00e3o, em \u00faltima inst\u00e2ncia, org\u00e2nicas\u201d<a href=\"#_edn609\" name=\"_ednref609\">[dcix]<\/a>.<\/p>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o de Freud n\u00e3o leva a uma compreens\u00e3o muito maior do processo. Trata-se mais de uma reafirma\u00e7\u00e3o tautol\u00f3gica do argumento do que de uma explica\u00e7\u00e3o. Certamente Freud sentia que uma explica\u00e7\u00e3o detalhada n\u00e3o caberia no \u00e2mbito da carta, mas o assunto lhe era t\u00e3o caro que ele n\u00e3o podia deixar de inclu\u00ed-lo no contexto da missiva a Einstein. N\u00e3o deixa de ser interessante, neste sentido, uma carta de Einstein a Paul Hutchinson, em julho de 1929, na qual dizia: \u201cMeu pacifismo \u00e9 um sentimento instintivo<a href=\"#_edn610\" name=\"_ednref610\">[dcx]<\/a>, um sentimento que toma conta de mim porque o assassinato de pessoas \u00e9 revoltante. Minha atitude n\u00e3o deriva de nenhuma teoria intelectual, mas fundamenta-se na minha mais radical antipatia por qualquer forma de crueldade ou \u00f3dio\u201d<a href=\"#_edn611\" name=\"_ednref611\">[dcxi]<\/a>.<\/p>\n<p>Apesar de surpreendente, tais afirmativas n\u00e3o estavam em contradi\u00e7\u00e3o com toda a estrutura te\u00f3rica da obra de Freud, ainda que possam soar bizarras. Frank J. Sulloway dedicou um aclamado e controvertido<a href=\"#_edn612\" name=\"_ednref612\">[dcxii]<\/a> livro \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o deste \u00fanico e singular aspecto da teoria freudiana. Nele, ao longo de 518 p\u00e1ginas, Sulloway dedica-se a demonstrar como as \u201c[&#8230;] teorias psicanal\u00edticas de Freud tornaram-se <em>mais<\/em> biol\u00f3gicas, n\u00e3o menos, depois dos cruciais anos de descobrimento (1895-1900), da mesma forma como se tornaram cada vez mais sofisticadas no seu conte\u00fado psicol\u00f3gico\u201d<a href=\"#_edn613\" name=\"_ednref613\">[dcxiii]<\/a>.<\/p>\n<p>Como \u00e9 sabido, ao longo de toda a vida, Freud permaneceu fiel a \u201cv\u00e1rias suposi\u00e7\u00f5es biogen\u00e9ticas<a href=\"#_edn614\" name=\"_ednref614\">[dcxiv]<\/a> e psico-lamarckianas<a href=\"#_edn615\" name=\"_ednref615\">[dcxv]<\/a>\u201d, as quais, como a puls\u00e3o de morte, n\u00e3o foram bem acolhidas pelos sucessores psicanal\u00edticos de Freud<a href=\"#_edn616\" name=\"_ednref616\">[dcxvi]<\/a>. Peter Gay fala sobre esse que \u00e9 \u201cum dos engajamentos intelectuais mais exc\u00eantricos e menos defens\u00e1veis de Freud\u201d<a href=\"#_edn617\" name=\"_ednref617\">[dcxvii]<\/a>, e Louis Breger atribui isso ao fato de que Freud \u201cn\u00e3o se manteve atualizado sobre os avan\u00e7os em outros campos cient\u00edficos\u201d<a href=\"#_edn618\" name=\"_ednref618\">[dcxviii]<\/a>, de forma que algumas id\u00e9ias ultrapassadas permaneceram congeladas em suas teorias psicanal\u00edticas.<\/p>\n<p>Essa cren\u00e7a inabal\u00e1vel de Freud na for\u00e7a irremedi\u00e1vel das bases constitucionais, fisiol\u00f3gicas, do comportamento humano, levou-o, inclusive, j\u00e1 no final da vida, a questionar a efic\u00e1cia terap\u00eautica do processo anal\u00edtico, por acreditar que ele era \u201cseveramente limitado por fatores constitucionais\u201d<a href=\"#_edn619\" name=\"_ednref619\">[dcxix]<\/a>. O psiquiatra Ludwig Binswanger<a href=\"#_edn620\" name=\"_ednref620\">[dcxx]<\/a> relata um di\u00e1logo mantido com Freud em 1936 no qual Freud, para surpresa dele, teria dito \u201cA constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 tudo\u201d<a href=\"#_edn621\" name=\"_ednref621\">[dcxxi]<\/a>.<\/p>\n<p>Freud buscava a g\u00eanese das principais manifesta\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas humanas, patol\u00f3gicas ou n\u00e3o, em duas vertentes l\u00f3gicas: o <em>desenvolvimento ontogen\u00e9tico<\/em>, e o <em>desenvolvimento filogen\u00e9tico<\/em><a href=\"#_edn622\" name=\"_ednref622\">[dcxxii]<\/a>, id\u00e9ias trazidas \u00e0 baila pelo controvertido bi\u00f3logo e fil\u00f3sofo alem\u00e3o Ernst Haeckel<a href=\"#_edn623\" name=\"_ednref623\">[dcxxiii]<\/a> A ontogenia, ou ontog\u00eanese, \u00e9 a ci\u00eancia que estuda o desenvolvimento de um indiv\u00edduo de qualquer esp\u00e9cie desde a concep\u00e7\u00e3o at\u00e9 a idade adulta; a filogenia, por sua vez, estuda a hist\u00f3ria evolutiva de uma esp\u00e9cie, ou o relacionamento evolutivo entre v\u00e1rios grupos de organismos (esp\u00e9cies, popula\u00e7\u00f5es, etc.). A filogen\u00e9tica trata uma esp\u00e9cie como um grupo de indiv\u00edduos ligados na sua linhagem ao longo do tempo. Seu foco \u00e9 o estudo da origem e do desenvolvimento de um grupo de organismos, geralmente da mesma esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>Freud entendia que as crian\u00e7as recorrem a \u201cesta viv\u00eancia filogen\u00e9tica quando sua pr\u00f3pria viv\u00eancia pessoal n\u00e3o \u00e9 suficiente\u201d<a href=\"#_edn624\" name=\"_ednref624\">[dcxxiv]<\/a> e que todo ser humano \u201cpreenche as lacunas da verdade individual com a verdade pr\u00e9-hist\u00f3rica e substitui sua pr\u00f3pria experi\u00eancia pela de seus antepassados\u201d<a href=\"#_edn625\" name=\"_ednref625\">[dcxxv]<\/a>. Freud pensava que o complexo de \u00c9dipo<a href=\"#_edn626\" name=\"_ednref626\">[dcxxvi]<\/a> \u201cque compreende a rela\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a com seus pais, \u00e9 o mais conhecido desses esquemas\u201d<a href=\"#_edn627\" name=\"_ednref627\">[dcxxvii]<\/a> e afirmava que \u201cOnde as viv\u00eancias pessoais n\u00e3o se adaptam ao esquema heredit\u00e1rio, elas passam a ser elaboradas atrav\u00e9s de fantasias\u201d<a href=\"#_edn628\" name=\"_ednref628\">[dcxxviii]<\/a>.<a href=\"#_edn629\" name=\"_ednref629\">[dcxxix]<\/a><\/p>\n<p>Uma conseq\u00fc\u00eancia desse enfoque com bases biogen\u00e9ticas e psico-lamarckianas de Freud, bem como do contexto geral da cultura europ\u00e9ia na qual ele se criou e desenvolveu sua obra, \u00e9 aquilo que, numa perspectiva contempor\u00e2nea, pode soar como um desagrad\u00e1vel subtexto de preconceito e etnocentrismo que permeia os \u00faltimos par\u00e1grafos de sua correspond\u00eancia com Einstein. Um sabor meio amargo daquilo que soa como um ufanismo ps\u00edquico-cultural parece tingir muitas das coloca\u00e7\u00f5es de Freud na carta.<\/p>\n<p>Freud, \u00e9 claro, n\u00e3o se podia beneficiar das cr\u00edticas p\u00f3s-modernas e do relativismo cultural que vieram a dominar muito do cen\u00e1rio intelectual do mundo contempor\u00e2neo. Ele ainda era um europeu que considerava as aquisi\u00e7\u00f5es da cultura europ\u00e9ia como naturalmente superiores. Como j\u00e1 vimos, em seu texto de 1915 sobre a guerra, ele falava, certamente expressando um sentimento que tamb\u00e9m era seu, das \u201cgrandes na\u00e7\u00f5es de ra\u00e7a branca, senhoras do mundo\u201d<a href=\"#_edn630\" name=\"_ednref630\">[dcxxx]<\/a>.<\/p>\n<p>Mas ainda havia mais. Freud tamb\u00e9m considerava que havia uma <em>outra diferen\u00e7a, mais al\u00e9m da cultura material ou intelectual<\/em>. Tratava-se de uma diferen\u00e7a ps\u00edquico-org\u00e2nica de ordem moral, que colocava os homens \u2014 mesmo que pertencentes a uma mesma cultura ou sociedade \u2014 em patamares distintos de evolu\u00e7\u00e3o<a href=\"#_edn631\" name=\"_ednref631\">[dcxxxi]<\/a>. Os que haviam galgado os est\u00e1gios superiores nesta diferencia\u00e7\u00e3o eram <em>naturalmente, organicamente, constitucionalmente<\/em> pacifistas.<a href=\"#_edn632\" name=\"_ednref632\">[dcxxxii]<\/a><\/p>\n<p>Ao analisar a obra de Freud em retrospectiva, especialmente no que tange \u00e0s premissas da filogenia e da biogen\u00e9tica<a href=\"#_edn633\" name=\"_ednref633\">[dcxxxiii]<\/a> e \u00e0s suas teorias sobre o complexo de \u00c9dipo, Peter Kramer, num ensaio intitulado <em>Freud: as Proje\u00e7\u00f5es Atuais<\/em><a href=\"#_edn634\" name=\"_ednref634\">[dcxxxiv]<\/a>, diz que \u201cDesde um ponto de vista moderno, Freud com freq\u00fc\u00eancia est\u00e1 errado, pura e simplesmente\u201d<a href=\"#_edn635\" name=\"_ednref635\">[dcxxxv]<\/a>. Apesar disso, Kramer argumenta que, tiradas todas as falhas e erros em suas teorias, \u201co que resta de Freud ainda \u00e9 psicologia\u201d<a href=\"#_edn636\" name=\"_ednref636\">[dcxxxvi]<\/a>, e agrega, de forma simp\u00e1tica,que, apesar de tudo, \u201cN\u00f3s somos todos freudianos em nosso pensamento di\u00e1rio\u201d<a href=\"#_edn637\" name=\"_ednref637\">[dcxxxvii]<\/a>. Levando em conta nosso tema, dir\u00edamos mais: n\u00f3s todos somos devedores a Freud em nossos esfor\u00e7os pela elimina\u00e7\u00e3o da guerra e pela conquista da paz entre os homens.<\/p>\n<p>Em nosso esfor\u00e7o de identificar como os pensamentos de Einstein e Freud se encaixam no esquema te\u00f3rico de Norberto Bobbio sobre os esfor\u00e7os de paz contempor\u00e2neos, poder\u00edamos dizer que novamente todas estas an\u00e1lises, como aquelas constantes da se\u00e7\u00e3o anterior, lidam tanto com elementos que dizem respeito ao <em>pacifismo institucional \u2014<\/em> quando analisam a cultura \u2014 quanto ao <em>pacifismo \u00e9tico-finalista<\/em>, quando Freud investiga as hipot\u00e9ticas transforma\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas que acompanham o desenvolvimento cultural.<\/p>\n<p>Uma \u00faltima quest\u00e3o, decorrente dos argumentos de Einstein e Freud, nos resta analisar na derradeira se\u00e7\u00e3o deste longo cap\u00edtulo: a complexa intera\u00e7\u00e3o entre l\u00edderes e sociedade, e sua rela\u00e7\u00e3o com a guerra e a paz.<\/p>\n<p><strong>4.10\u00a0 Os l\u00edderes e as massas<\/strong><\/p>\n<p>Ao longo de sua carta, Einstein associa \u00e0s lideran\u00e7as da sociedade alguns dos maiores obst\u00e1culos \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o da guerra. Nos par\u00e1grafos quatro e cinco ele tece uma s\u00e9rie de cr\u00edticas \u00e0 minoria governante, que manipula e usa o povo a seu bel-prazer. Al\u00e9m desses, Einstein entende que o est\u00edmulo \u00e0 guerra tamb\u00e9m prov\u00e9m de uma outra minoria, a \u201cassim denominada <em>intelligentsia<\/em>\u201d<a href=\"#_edn638\" name=\"_ednref638\">[dcxxxviii]<\/a>, ou seja, os eruditos e trabalhadores do intelecto. Einstein acredita que eles s\u00e3o \u201cquem mais cede a estas desastrosas sugest\u00f5es coletivas\u201d<a href=\"#_edn639\" name=\"_ednref639\">[dcxxxix]<\/a> que provocam \u201ca psicose do \u00f3dio e da destrui\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn640\" name=\"_ednref640\">[dcxl]<\/a> que leva \u00e0s guerras.<\/p>\n<p>Freud encontra nas cr\u00edticas de Einstein \u201ca respeito do abuso de autoridade\u201d<a href=\"#_edn641\" name=\"_ednref641\">[dcxli]<\/a> uma \u201csegunda deixa para uma ataque indireto \u00e0 propens\u00e3o para a guerra\u201d<a href=\"#_edn642\" name=\"_ednref642\">[dcxlii]<\/a>, Para Freud, \u00e9 muito claro que \u201cos homens se dividem entre l\u00edderes e liderados\u201d<a href=\"#_edn643\" name=\"_ednref643\">[dcxliii]<\/a> e que isso \u201c\u00e9 apenas mais uma manifesta\u00e7\u00e3o de sua desigualdade inata e irremedi\u00e1vel\u201d<a href=\"#_edn644\" name=\"_ednref644\">[dcxliv]<\/a>. Essa \u201csegunda classe de homens\u201d<a href=\"#_edn645\" name=\"_ednref645\">[dcxlv]<\/a>, os liderados, constitui, obviamente, \u201ca imensa maioria\u201d<a href=\"#_edn646\" name=\"_ednref646\">[dcxlvi]<\/a>. Freud \u00e9 enf\u00e1tico em afirmar que essa massa humana \u201cnecessita de uma autoridade que tome as decis\u00f5es por ela, \u00e0s quais geralmente se curva sem contesta\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn647\" name=\"_ednref647\">[dcxlvii]<\/a>. Devido a esta influ\u00eancia marcante e decisiva dos l\u00edderes sobre o comportamento das massas, Freud via no desenvolvimento ps\u00edquico-cultural dos l\u00edderes um caminho para a paz de todos. Ele diz a Einstein:<\/p>\n<p>Neste contexto, poder\u00edamos dizer que ter\u00edamos que nos empenhar mais do que no passado para criar uma classe superior de pensadores independentes, imunes \u00e0 intimida\u00e7\u00e3o e fervorosos na busca da verdade, cuja fun\u00e7\u00e3o seria guiar as massas dependentes de sua lideran\u00e7a.<a href=\"#_edn648\" name=\"_ednref648\">[dcxlviii]<\/a><\/p>\n<p>Em seu texto de 1921, <em>Psicologia das Massas e An\u00e1lise do Eu<\/em>, Freud se dedicou a analisar as rela\u00e7\u00f5es entre os indiv\u00edduos e a sociedade e, em especial, entre os indiv\u00edduos em posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a e os liderados<a href=\"#_edn649\" name=\"_ednref649\">[dcxlix]<\/a>. Freud prop\u00f5e a hip\u00f3tese de que \u201cna ess\u00eancia da alma coletiva existem tamb\u00e9m rela\u00e7\u00f5es amorosas (ou, para empregar uma express\u00e3o neutra, la\u00e7os afetivos)\u201d<a href=\"#_edn650\" name=\"_ednref650\">[dcl]<\/a>. Tais la\u00e7os de afeto, ainda que nascessem das puls\u00f5es sexuais prim\u00e1rias, transformavam-se de forma a constituir \u201cde um lado, o amor do indiv\u00edduo por si mesmo, e, de outro, o amor paterno e o filial, a amizade e o amor \u00e0 humanidade em geral, a objetos concretos ou a ideais abstratos\u201d<a href=\"#_edn651\" name=\"_ednref651\">[dcli]<\/a>.<\/p>\n<p>Analisando em detalhes o ex\u00e9rcito e a igreja, Freud chega \u00e0 conclus\u00e3o que o elemento aglutinador fundamental de tais massas s\u00e3o os sentimentos libidinais (no sentido de la\u00e7os de amor no seu sentido amplo) que se estabelecem entre os seus integrantes, e entre eles e seu l\u00edder<a href=\"#_edn652\" name=\"_ednref652\">[dclii]<\/a>. Assim, nas massas artificiais \u201co indiv\u00edduo se v\u00ea duplamente ligado por la\u00e7os libidinais; em primeiro lugar ao chefe<a href=\"#_edn653\" name=\"_ednref653\">[dcliii]<\/a> (Cristo, ou o general), e, al\u00e9m disso, aos outros indiv\u00edduos da coletividade\u201d<a href=\"#_edn654\" name=\"_ednref654\">[dcliv]<\/a>.<a href=\"#_edn655\" name=\"_ednref655\">[dclv]<\/a><\/p>\n<p>Contrariando os que pensavam que os sentimentos de medo e p\u00e2nico eram os respons\u00e1veis pela desagrega\u00e7\u00e3o das massas, Freud argumenta o contr\u00e1rio: \u00e9 quando os la\u00e7os libidinais ficam enfraquecidos que se instaura o p\u00e2nico<a href=\"#_edn656\" name=\"_ednref656\">[dclvi]<\/a>. Ou seja, n\u00e3o \u00e9 o p\u00e2nico que desintegra as massas, mas a desintegra\u00e7\u00e3o das massas (sentida inconscientemente como enfraquecimento ou ruptura dos la\u00e7os libidinais que unem a massa ao l\u00edder, ou os indiv\u00edduos entre si) que provoca o p\u00e2nico<a href=\"#_edn657\" name=\"_ednref657\">[dclvii]<\/a>.<\/p>\n<p>Freud aventa a hip\u00f3tese de que nas massas sem lideran\u00e7a \u201co dirigente pode ter sido substitu\u00eddo por uma id\u00e9ia ou abstra\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn658\" name=\"_ednref658\">[dclviii]<\/a>, ou por \u201cuma tend\u00eancia ou um desejo suscet\u00edveis de serem compartilhados por um grande n\u00famero de pessoas\u201d<a href=\"#_edn659\" name=\"_ednref659\">[dclix]<\/a>. De qualquer maneira, Freud claramente aponta para a id\u00e9ia de que as massas guiadas por l\u00edderes s\u00e3o \u201cas mais primitivas e perfeitas\u201d<a href=\"#_edn660\" name=\"_ednref660\">[dclx]<\/a>.<\/p>\n<p>Na concep\u00e7\u00e3o de Freud, \u00e9 um fato que \u201cnenhum homem suporta uma aproxima\u00e7\u00e3o demasiado \u00edntima dos demais\u201d<a href=\"#_edn661\" name=\"_ednref661\">[dclxi]<\/a>, e que \u201cquase todas as rela\u00e7\u00f5es afetivas \u00edntimas de alguma dura\u00e7\u00e3o entre duas pessoas \u2014 o casamento, a amizade, o amor paterno e o filial \u2014 deixam um dep\u00f3sito de sentimentos hostis<a href=\"#_edn662\" name=\"_ednref662\">[dclxii]<\/a>, que precisa, para escapar \u00e0 percep\u00e7\u00e3o, do processo do recalque<a href=\"#_edn663\" name=\"_ednref663\">[dclxiii]<\/a>\u201d<a href=\"#_edn664\" name=\"_ednref664\">[dclxiv]<\/a>. Por\u00e9m, o comportamento do homem integrado nas massas sofre mudan\u00e7as significativas, pois \u201cesta intoler\u00e2ncia desaparece, tempor\u00e1ria ou permanentemente, na massa\u201d<a href=\"#_edn665\" name=\"_ednref665\">[dclxv]<\/a>.<a href=\"#_edn666\" name=\"_ednref666\">[dclxvi]<\/a><\/p>\n<p>Como j\u00e1 vimos quando abordamos a quest\u00e3o dos la\u00e7os de afeto, Freud pensava que a mera uni\u00e3o de homens numa \u201ccomunidade de interesses\u201d n\u00e3o \u00e9 capaz de produzir \u201cuma limita\u00e7\u00e3o permanente do narcisismo e que, neste tipo de grupo, \u201ca toler\u00e2ncia durar\u00e1 t\u00e3o somente enquanto dure o proveito imediato produzido pela colabora\u00e7\u00e3o com os demais\u201d<a href=\"#_edn667\" name=\"_ednref667\">[dclxvii]<\/a>. Por isso, Freud chega a uma grande e significativa conclus\u00e3o:<\/p>\n<p>A libido se ap\u00f3ia na satisfa\u00e7\u00e3o das grandes necessidades individuais e escolhe como primeiros objetos [de afei\u00e7\u00e3o] aquelas pessoas que com ele interv\u00eam. No desenvolvimento da humanidade, como no do indiv\u00edduo, o amor \u00e9 que se revelou ser o principal fator da civiliza\u00e7\u00e3o, quem sabe at\u00e9 o \u00fanico, determinando a passagem do ego\u00edsmo ao altru\u00edsmo. [&#8230;]<\/p>\n<p>Uma vez sedimentada esta vis\u00e3o de que os la\u00e7os que unem os homens entre si quando reunidos em grandes coletividades s\u00e3o, nada mais nada menos, que la\u00e7os de amor, de diversas naturezas<a href=\"#_edn668\" name=\"_ednref668\">[dclxviii]<\/a>, Freud passa a apresentar uma segunda for\u00e7a ps\u00edquica que atua neste sentido, que \u00e9 a for\u00e7a da identifica\u00e7\u00e3o. Freud argumenta que a identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201ca manifesta\u00e7\u00e3o que mais cedo nasce de um la\u00e7o afetivo com outra pessoa\u201d<a href=\"#_edn669\" name=\"_ednref669\">[dclxix]<\/a>, e consiste basicamente no interesse que o menino manifesta por seu pai, sonhando em ser como ele e fazendo dele um ideal<a href=\"#_edn670\" name=\"_ednref670\">[dclxx]<\/a>. Estes tra\u00e7os elementais do complexo de \u00c9dipo, especialmente a introje\u00e7\u00e3o da figura idealizada do pai, que passa a fazer parte de um <em>ideal-de-eu<\/em><a href=\"#_edn671\" name=\"_ednref671\">[dclxxi]<\/a> na crian\u00e7a, Freud v\u00ea acontecer tamb\u00e9m no desenvolvimento coletivo dos homens. \u201cSuspeitamos\u201d, diz ele, \u201cque o enlace rec\u00edproco dos indiv\u00edduos de uma massa \u00e9 da natureza de uma identifica\u00e7\u00e3o desse tipo, baseada em uma ampla comunidade afetiva, e podemos supor que esta comunidade repousa na natureza do la\u00e7o com o l\u00edder\u201d<a href=\"#_edn672\" name=\"_ednref672\">[dclxxii]<\/a>.<\/p>\n<p>Embora Freud comente que estas considera\u00e7\u00f5es est\u00e3o longe de esgotar o fen\u00f4meno da identifica\u00e7\u00e3o [idealiza\u00e7\u00e3o do l\u00edder] como fator coesivo das massas, ele faz notar que estamos diante de um processo de <em>empatia<\/em> (<em>Einfuehlung<\/em>), processo esse do qual depende \u201cem sua maior parte, nossa compreens\u00e3o do eu de outras pessoas\u201d<a href=\"#_edn673\" name=\"_ednref673\">[dclxxiii]<\/a>. \u00c9 interessante ver que Einstein, apesar de n\u00e3o se deter, obviamente, em tais considera\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas, tamb\u00e9m expressa essas id\u00e9ias de empatia e identifica\u00e7\u00e3o quando analisa a import\u00e2ncia dos la\u00e7os de uni\u00e3o entre os homens. Em seu texto de 1951, <em>A Necessidade de uma Cultura \u00c9tica<\/em>, Einstein dizia que \u201c\u00c9 claro que \u00e9 importante <em>compreender<\/em> nossos semelhantes. Mas esta compreens\u00e3o s\u00f3 se torna frut\u00edfera quando \u00e9 sustentada por sentimentos de simpatia na alegria e na tristeza\u201d<a href=\"#_edn674\" name=\"_ednref674\">[dclxxiv]<\/a>.<\/p>\n<p>Freud, em <em>Psicologia das Massas e An\u00e1lise do Eu<\/em>, faz tamb\u00e9m uma distin\u00e7\u00e3o importante entre o processo de identifica\u00e7\u00e3o e o de \u201cfascina\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn675\" name=\"_ednref675\">[dclxxv]<\/a>, ou \u201cservid\u00e3o amorosa\u201d<a href=\"#_edn676\" name=\"_ednref676\">[dclxxvi]<\/a>. Enquanto no processo de identifica\u00e7\u00e3o \u201co <em>eu<\/em> se enriquece com as propriedades do objeto\u201d por t\u00ea-lo introjetado em si mesmo, no caso da \u201cfascina\u00e7\u00e3o\u201d o <em>eu<\/em> se empobrece, entregando-se por inteiro ao objeto e substituindo seu constituinte mais importante pelo objeto<a href=\"#_edn677\" name=\"_ednref677\">[dclxxvii]<\/a>. Aqui encontramos, novamente, o paralelo com Einstein, quando este mostrava rep\u00fadio pela idolatria criada nas massas por l\u00edderes manipuladores das emo\u00e7\u00f5es coletivas. Como Einstein escreveu em 1955, \u201cAs paix\u00f5es pol\u00edticas, alimentadas em todas as partes, exigem suas v\u00edtimas\u201d<a href=\"#_edn678\" name=\"_ednref678\">[dclxxviii]<\/a>.<\/p>\n<p>Assim, Freud consegue detectar, do ponto de vista da psican\u00e1lise, como \u00e9 poss\u00edvel o dom\u00ednio quase hipn\u00f3tico que os l\u00edderes da sociedade exercem sobre as massas. Freud sente que as considera\u00e7\u00f5es apresentadas lhe permitem \u201cestabelecer a f\u00f3rmula da constitui\u00e7\u00e3o libidinal de uma massa humana\u201d<a href=\"#_edn679\" name=\"_ednref679\">[dclxxix]<\/a>, em especial daquela \u201cmassa que possui um l\u00edder, e que n\u00e3o conseguiu ainda funcionar conforme as caracter\u00edsticas de um indiv\u00edduo, por falta de uma \u2018organiza\u00e7\u00e3o\u2019 suficientemente perfeita\u201d<a href=\"#_edn680\" name=\"_ednref680\">[dclxxx]<\/a>. Diz Freud:<\/p>\n<p>Essa massa prim\u00e1ria \u00e9 uma reuni\u00e3o de indiv\u00edduos que substitu\u00edram seu <em>ideal-de-eu<\/em> por um mesmo objeto [o l\u00edder], em conseq\u00fc\u00eancia do qu\u00ea se estabeleceu entre eles uma identifica\u00e7\u00e3o geral e rec\u00edproca do <em>eu<\/em>. <a href=\"#_edn681\" name=\"_ednref681\">[dclxxxi]<\/a><\/p>\n<p>S\u00e3o esses complexos la\u00e7os emocionais de fundo libidinal: das massas pelo l\u00edder, dos indiv\u00edduos uns pelos outros, e das massas pelo <em>l\u00edder idealizado \u2014<\/em> que vem a substituir o <em>eu<\/em> e o <em>ideal-de-eu<\/em> de cada um dos indiv\u00edduos \u2014, que explicam \u201ca falta de independ\u00eancia e iniciativa do indiv\u00edduo, a semelhan\u00e7a de sua rea\u00e7\u00e3o com a de todos os demais e seu rebaixamento, afinal, \u00e0 categoria de uma unidade integrante da comunidade\u201d<a href=\"#_edn682\" name=\"_ednref682\">[dclxxxii]<\/a>. \u00c9 devido a estas constata\u00e7\u00f5es, de 1921, que Freud dizia a Einstein, em 1932, que \u201cA segunda classe de homens constitui a imensa maioria, e necessita de uma autoridade que tome as decis\u00f5es por ela, \u00e0s quais geralmente se curva sem contesta\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn683\" name=\"_ednref683\">[dclxxxiii]<\/a>.<a href=\"#_edn684\" name=\"_ednref684\">[dclxxxiv]<\/a><\/p>\n<p>Por\u00e9m, al\u00e9m dessa depend\u00eancia emocional em rela\u00e7\u00e3o ao l\u00edder, as massas, segundo Freud, tamb\u00e9m sofrem \u201cda sugest\u00e3o rec\u00edproca\u201d, m\u00fatua, de cada indiv\u00edduo sobre todos os demais, de tal forma que uma tend\u00eancia \u00e0 uniformidade e ao conformismo s\u00e3o inevit\u00e1veis<a href=\"#_edn685\" name=\"_ednref685\">[dclxxxv]<\/a>. Segundo Freud, na vida coletiva encontramo-nos numa situa\u00e7\u00e3o \u201cna qual o sentimento individual e o ato intelectual pessoal s\u00e3o demasiadamente fracos para afirmarem-se por si pr\u00f3prios, sem o apoio e as manifesta\u00e7\u00f5es afetivas e intelectuais an\u00e1logas dos demais indiv\u00edduos\u201d<a href=\"#_edn686\" name=\"_ednref686\">[dclxxxvi]<\/a>.<\/p>\n<p>Tais tend\u00eancias, segundo Freud, emanam dos ci\u00fames primitivos sentidos pela crian\u00e7a quando amea\u00e7ada de perder o amor e a aten\u00e7\u00e3o dos pais pelo aparecimento do \u201cirm\u00e3ozinho\u201d<a href=\"#_edn687\" name=\"_ednref687\">[dclxxxvii]<\/a>. Ele entende ent\u00e3o, que \u201ctodas aquelas manifesta\u00e7\u00f5es desta ordem que encontramos posteriormente na sociedade \u2014 o companheirismo<a href=\"#_edn688\" name=\"_ednref688\">[dclxxxviii]<\/a>, <em>l\u2019esprit de corps<\/em>, o sentimento de equipe, etc. \u2014 derivam tamb\u00e9m, incontestavelmente, da inveja primitiva\u201d<a href=\"#_edn689\" name=\"_ednref689\">[dclxxxix]<\/a>. \u00c9 por essa raz\u00e3o que os v\u00ednculos an\u00edmicos entre os indiv\u00edduos na massa da sociedade exigem, como na fam\u00edlia primeva<a href=\"#_edn690\" name=\"_ednref690\">[dcxc]<\/a>, que \u201cningu\u00e9m deve querer salientar-se; todos devem ser e obter o mesmo\u201d<a href=\"#_edn691\" name=\"_ednref691\">[dcxci]<\/a>. Da\u00ed nasce, para Freud, o sentimento de justi\u00e7a social, que \u201csignifica que recusamos a n\u00f3s mesmos muitas coisas para que tamb\u00e9m os demais tenham de renunciar a elas, ou, o que d\u00e1 no mesmo, n\u00e3o possam reclam\u00e1-las\u201d<a href=\"#_edn692\" name=\"_ednref692\">[dcxcii]<\/a>. Por\u00e9m, Freud salienta que \u201ca reivindica\u00e7\u00e3o de igualdade\u201d refere-se \u201ct\u00e3o-somente aos indiv\u00edduos que a constituem, n\u00e3o ao chefe. Todos os indiv\u00edduos querem ser iguais, mas debaixo do dom\u00ednio de um l\u00edder\u201d<a href=\"#_edn693\" name=\"_ednref693\">[dcxciii]<\/a>.<\/p>\n<p>Essa imagem de uma massa uniforme e amorfa, perfeita em sua unidade identificat\u00f3ria, entretanto, n\u00e3o passa de uma generaliza\u00e7\u00e3o. Na realidade, dependendo do grau em que cada indiv\u00edduo mant\u00e9m ou n\u00e3o a identifica\u00e7\u00e3o entre seu <em>eu<\/em> e seu <em>ideal-de-eu<\/em>, os efeitos da domina\u00e7\u00e3o do l\u00edder podem ser distintos, indo desde a identifica\u00e7\u00e3o com ele, at\u00e9 sua idolatria<a href=\"#_edn694\" name=\"_ednref694\">[dcxciv]<\/a>. Freud ent\u00e3o descreve o fen\u00f4meno pelo qual um indiv\u00edduo, em algum momento da hist\u00f3ria, p\u00f4de \u201cseparar-se da massa e assumir o papel do pai [primevo]. Quem o fez foi o primeiro poeta \u00e9pico, e o progresso em quest\u00e3o n\u00e3o se realizou sen\u00e3o na sua fantasia\u201d<a href=\"#_edn695\" name=\"_ednref695\">[dcxcv]<\/a>. Segundo Freud<\/p>\n<p>Este poeta transformou a realidade conforme o sentido de seus desejos e inventou, assim, o mito do her\u00f3i. O her\u00f3i era aquele que, sozinho, havia matado o pai., o qual ainda aparece no mito como um monstro tot\u00eamico. Assim com o pai havia sido o primeiro ideal do adolescente, o poeta criou, agora, com o her\u00f3i que aspira a suplantar o pai, o <em>ideal-de-eu<\/em>.<a href=\"#_edn696\" name=\"_ednref696\">[dcxcvi]<\/a><\/p>\n<p>Para Freud, \u201co mito constitui o passo pelo qual o indiv\u00edduo se separa da psicologia coletiva\u201d<a href=\"#_edn697\" name=\"_ednref697\">[dcxcvii]<\/a>, pois o poeta relata \u00e0s massas as fa\u00e7anhas que sua imagina\u00e7\u00e3o atribui a um her\u00f3i por ele inventado, \u201cher\u00f3i que, no fundo, n\u00e3o \u00e9 outro sen\u00e3o ele mesmo\u201d<a href=\"#_edn698\" name=\"_ednref698\">[dcxcviii]<\/a>.<\/p>\n<p>Um aspecto importante, ainda, nas an\u00e1lises que Freud nos oferece sobre as rela\u00e7\u00f5es entre os l\u00edderes e as massas tem a ver com os fatores de desintegra\u00e7\u00e3o da ordem social a partir do mau \u201cgerenciamento social\u201d por parte dos governantes e das classes dominantes. Para Freud, \u201co primeiro requisito cultural \u00e9 a justi\u00e7a, ou seja, a garantia de que o ordenamento jur\u00eddico, uma vez estabelecido, n\u00e3o mais ser\u00e1 violado em favor de um indiv\u00edduo\u201d<a href=\"#_edn699\" name=\"_ednref699\">[dcxcix]<\/a>. As classes dominantes, apesar de seus naturais abusos de poder, n\u00e3o podem levar tais privil\u00e9gios longe demais, sob pena de perderem a influ\u00eancia na lideran\u00e7a da sociedade<a href=\"#_edn700\" name=\"_ednref700\">[dcc]<\/a>. Freud entende que o \u201cdesenvolvimento ulterior da evolu\u00e7\u00e3o cultural parece tender a que este direito deixe de ser a express\u00e3o da vontade de um pequeno grupo \u2014 casta, tribo, classe social\u201d<a href=\"#_edn701\" name=\"_ednref701\">[dcci]<\/a> e que passe a representar, cada vez mais, as vontades e necessidades de toda sociedade, de tal forma que \u201cO resultado final h\u00e1 de ser o estabelecimento de um ordenamento jur\u00eddico ao qual todos [&#8230;] tenham contribu\u00eddo com o sacrif\u00edcio de suas puls\u00f5es, e que n\u00e3o deixe a nenhum deles [&#8230;] \u00e0 merc\u00ea da for\u00e7a bruta\u201d<a href=\"#_edn702\" name=\"_ednref702\">[dccii]<\/a>.<\/p>\n<p>Einstein, de forma id\u00eantica, coloca na justi\u00e7a as bases fundamentais para a vida social, quando escreve que \u201cO que distingue uma verdadeira rep\u00fablica n\u00e3o \u00e9 apenas a forma de seu governo, mas tamb\u00e9m os sentimentos profundamente arraigados de igual justi\u00e7a para todos e respeito por cada pessoa\u201d<a href=\"#_edn703\" name=\"_ednref703\">[dcciii]<\/a>. Em seu texto de 1937, <em>Sobre a Decad\u00eancia Moral<\/em>, ele dizia:<\/p>\n<p>Sente-se falta da rea\u00e7\u00e3o elementar contra a injusti\u00e7a e a favor da justi\u00e7a \u2014 uma rea\u00e7\u00e3o que, no final das contas, representa a \u00fanica prote\u00e7\u00e3o do homem contra o retorno \u00e0 barb\u00e1rie. Estou firmemente convencido que o desejo apaixonado pela justi\u00e7a e pela verdade fez muito mais pelo aprimoramento da condi\u00e7\u00e3o humana do que a astuta sagacidade pol\u00edtica, que, por fim, gera apenas desconfian\u00e7a generalizada. Quem questionaria o fato de que Mois\u00e9s foi um melhor l\u00edder da humanidade do que Maquiavel?<a href=\"#_edn704\" name=\"_ednref704\">[dcciv]<\/a><\/p>\n<p>Uma vez que \u201cOs povos s\u00e3o representados, at\u00e9 certo ponto, pelos Estados que constituem e estes Estados, por sua vez, pelos governos que os regem\u201d<a href=\"#_edn705\" name=\"_ednref705\">[dccv]<\/a>, Freud percebe que as massas da popula\u00e7\u00e3o ficam definitivamente alteradas quando percebem que as rela\u00e7\u00f5es dos governos e dos Estados entre si n\u00e3o seguem as regras jur\u00eddicas \u00e0s quais todos deveriam submeter-se<a href=\"#_edn706\" name=\"_ednref706\">[dccvi]<\/a>. Ou seja, os liderados percebem que seus l\u00edderes n\u00e3o est\u00e3o obedecendo \u00e0 lei suprema da justi\u00e7a, fonte de ordenamento e unidade social. Nestes casos, Freud sente que a mis\u00e9ria moral se espalha por toda a sociedade, a partir do mau exemplo da lideran\u00e7a social.<a href=\"#_edn707\" name=\"_ednref707\">[dccvii]<\/a><\/p>\n<p>Einstein tamb\u00e9m se referiu a este fen\u00f4meno, num pronunciamento publicado por ocasi\u00e3o de seu sexag\u00e9simo anivers\u00e1rio, em 1939, quando escreveu, que \u201cQuando as pessoas vivem num tempo de desajustamento, quando h\u00e1 tens\u00e3o e desequil\u00edbrio, elas tamb\u00e9m ficam desequilibradas e ent\u00e3o podem seguir um l\u00edder desequilibrado\u201d<a href=\"#_edn708\" name=\"_ednref708\">[dccviii]<\/a>. A conseq\u00fc\u00eancia final dessa falta de justi\u00e7a social, e o julgamento final de Freud em rela\u00e7\u00e3o a isso, nos s\u00e3o dados nestas suas palavras de 1927: \u201cN\u00e3o \u00e9 preciso dizer que uma cultura que n\u00e3o consegue satisfazer um n\u00famero t\u00e3o grande de seus participantes e os incita \u00e0 rebeli\u00e3o, n\u00e3o pode durar muito tempo, nem tampouco o merece\u201d<a href=\"#_edn709\" name=\"_ednref709\">[dccix]<\/a>.<\/p>\n<p>Apesar de todos estes fatos, Freud ainda vislumbra uma esperan\u00e7a, ao escrever que \u201cEstas lament\u00e1veis circunst\u00e2ncias ser\u00e3o, qui\u00e7\u00e1, modificadas por evolu\u00e7\u00f5es posteriores\u201d. Isso porque ele entende que \u201cas na\u00e7\u00f5es\u201d, \u00e0s quais chama de \u201cindividualidades coletivas da humanidade\u201d, tamb\u00e9m passam por processos de evolu\u00e7\u00e3o coletiva, \u00e0 exemplo dos indiv\u00edduos, de modo que sempre se pode esperar mais delas no futuro do que no passado ou no presente. Segundo Freud, as na\u00e7\u00f5es \u201creproduzem, talvez, a evolu\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos e se nos mostram, no presente, em estados muito primitivos de organiza\u00e7\u00e3o para a forma\u00e7\u00e3o de unidades superiores\u201d. \u00c9 por essa raz\u00e3o que ainda n\u00e3o conseguem submeter-se a uma autoridade superior que as una, conforme o insistente conselho de Einstein para a elimina\u00e7\u00e3o da guerra. De qualquer forma, Freud pensa que \u201cum pouco mais de veracidade e de sinceridade nas rela\u00e7\u00f5es dos homens entre si e com aqueles que os governam deveria aplanar o caminho para esta transforma\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn710\" name=\"_ednref710\">[dccx]<\/a>.<\/p>\n<p>Finalmente, para Freud, em fun\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os libidinais e de identifica\u00e7\u00e3o que ligam as massas \u00e0s classes dirigentes, as sociedades n\u00e3o se fragmentam t\u00e3o facilmente quanto seria de se esperar. Apesar de haver um limite para a injusti\u00e7a social, al\u00e9m do qual a ordem estabelecida \u00e9 transformada numa mar\u00e9 revolucion\u00e1ria, o fato \u00e9 que as sociedades tendem a se manter unidas a despeito de muitas disparidades e injusti\u00e7as sociais. Por que \u00e9 que n\u00e3o se v\u00eaem revolu\u00e7\u00f5es sangrentas a cada instante?<\/p>\n<p>Einstein entendia que esse conformismo social era fruto, principalmente, da manipula\u00e7\u00e3o social empreendida pelas classes governantes, que conseguia \u201ca servi\u00e7o de suas ambi\u00e7\u00f5es\u201d<a href=\"#_edn711\" name=\"_ednref711\">[dccxi]<\/a> dominar \u201ca vontade da maioria, que \u00e9 quem perde e sofre com a guerra\u201d<a href=\"#_edn712\" name=\"_ednref712\">[dccxii]<\/a>, por dominar a imprensa, a educa\u00e7\u00e3o e a igreja. Freud, por\u00e9m, encontra raz\u00f5es ainda mais profundas, que jazem na identifica\u00e7\u00e3o afetiva inconsciente das massas com suas lideran\u00e7as, sem o que a unidade social razoavelmente est\u00e1vel n\u00e3o poderia existir<a href=\"#_edn713\" name=\"_ednref713\">[dccxiii]<\/a>.<\/p>\n<p>Freud pensava que as \u201ccondi\u00e7\u00f5es ideais\u201d para a elimina\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia b\u00e9lica \u201cseriam obviamente encontradas em uma comunidade onde cada homem subordinasse sua vida pulsional aos ditames da raz\u00e3o\u201d. Certamente Freud pensava, aqui, naquele segundo est\u00e1gio de desenvolvimento moral que j\u00e1 tivemos oportunidade de analisar antes, qual seja, o est\u00e1gio em que o homem, atrav\u00e9s de um <em>supra-eu<\/em> eficaz atuando dentro de sua alma, desenvolve uma consci\u00eancia moral que o aparta da viol\u00eancia e dos impulsos destrutivos. Freud pensa que \u201cNada menos do que isso poderia criar tal uni\u00e3o completa e duradoura entre os homens, dessa forma garantindo os la\u00e7os emocionais entre eles\u201d. Entretanto, Freud sentia que essa estrat\u00e9gia de se educar e formar l\u00edderes de \u201cuma classe superior de pensadores independentes\u201d, que fossem \u201cimunes \u00e0 intimida\u00e7\u00e3o e fervorosos na busca da verdade\u201d, apesar de extremamente desej\u00e1vel, \u201c\u00e9 muito provavelmente uma esperan\u00e7a ut\u00f3pica\u201d<a href=\"#_edn714\" name=\"_ednref714\">[dccxiv]<\/a>.<\/p>\n<p>Einstein tamb\u00e9m tinha essa percep\u00e7\u00e3o da fragilidade das massas e de como podem ser facilmente manipuladas por seus l\u00edderes<a href=\"#_edn715\" name=\"_ednref715\">[dccxv]<\/a>. Em seu texto <em>Sociedade e Personalidade<\/em>, ele escreveu, em 1934:<\/p>\n<p>Em duas semanas, as massas humanas de qualquer na\u00e7\u00e3o, como um bando de ovelhas, podem ser persuadidas pelos jornais a tal estado de furiosa agita\u00e7\u00e3o que os homens se mostram dispostos a vestir uniformes, matar e morrer, s\u00f3 para atender aos objetivos s\u00f3rdidos de alguns poucos interessados.<a href=\"#_edn716\" name=\"_ednref716\">[dccxvi]<\/a><\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, Einstein sentia, como Freud, a necessidade de que os indiv\u00edduos fossem educados de modo a n\u00e3o se deixarem levar pelas sugest\u00f5es de massa. Por isso, exaltava a posi\u00e7\u00e3o da pessoa de consci\u00eancia livre. Em 1950, escrevendo para a <em>Sociedade Italiana para o Progresso da Ci\u00eancia<\/em>, Einstein afirmava: \u201cConquanto seja verdade que uma pessoa inerentemente livre e escrupulosa possa vir a ser destru\u00edda, tal pessoa jamais poder\u00e1 ser escravizada ou usada como um instrumento cego [pelo Estado]\u201d.<a href=\"#_edn717\" name=\"_ednref717\">[dccxvii]<\/a><\/p>\n<p>Num discurso apresentado \u00e0 <em>Confer\u00eancia de Desarmamento de 1932<\/em>, Einstein fazia men\u00e7\u00e3o a \u201cvelhos ditados\u201d que, para ele, tinham for\u00e7a de verdade eterna: \u201cO Estado \u00e9 feito para o homem, n\u00e3o o homem para o Estado [&#8230;] Ou seja, o Estado deveria ser nosso servo, e n\u00e3o n\u00f3s seus escravos\u201d<a href=\"#_edn718\" name=\"_ednref718\">[dccxviii]<\/a>. \u00c9 claro, como j\u00e1 vimos, que para Einstein o Estado n\u00e3o era uma entidade amorfa e abstrata, mas sim uma institui\u00e7\u00e3o social orientada, basicamente, pelas vontades e interesses das classes governantes e \u201ca servi\u00e7o de suas ambi\u00e7\u00f5es\u201d<a href=\"#_edn719\" name=\"_ednref719\">[dccxix]<\/a>. Essa conex\u00e3o entre povo, Estado e governo tamb\u00e9m era muito clara para Freud, entendendo que \u201cOs povos s\u00e3o representados, at\u00e9 certo ponto, pelos Estados que constituem e estes Estados, por sua vez, pelos governos que os regem\u201d<a href=\"#_edn720\" name=\"_ednref720\">[dccxx]<\/a>.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, uma grande diferen\u00e7a entre as convic\u00e7\u00f5es de Freud e as de Einstein \u00e9 que Freud tinha uma tend\u00eancia de se colocar do lado dos l\u00edderes da sociedade<a href=\"#_edn721\" name=\"_ednref721\">[dccxxi]<\/a>, enquanto Einstein manifestava uma prefer\u00eancia clara pelo povo comum. Peter Gay comenta que \u201cFreud, o liberal \u00e0 antiga e desafiando a \u00edndole democr\u00e1tica de sua \u00e9poca, tra\u00e7ou uma s\u00f3lida distin\u00e7\u00e3o entre o populacho<a href=\"#_edn722\" name=\"_ednref722\">[dccxxii]<\/a> e a elite\u201d<a href=\"#_edn723\" name=\"_ednref723\">[dccxxiii]<\/a>, e informa que \u201cesse ep\u00edteto pejorativo, <em>Gesindel<\/em><a href=\"#_edn724\" name=\"_ednref724\">[dccxxiv]<\/a>, encontrava-se com freq\u00fc\u00eancia na escrita de Freud\u201d<a href=\"#_edn725\" name=\"_ednref725\">[dccxxv]<\/a>. Gay aponta ainda que Freud mantinha um \u201csoberbo desd\u00e9m pelas massas\u201d<a href=\"#_edn726\" name=\"_ednref726\">[dccxxvi]<\/a>.<a href=\"#_edn727\" name=\"_ednref727\">[dccxxvii]<\/a><\/p>\n<p>Enquanto Freud via no povo apenas uma massa de manobra, Einstein insistia em sua capacidade e, conseq\u00fcentemente, em sua responsabilidade, ante o direcionamento da sociedade<a href=\"#_edn728\" name=\"_ednref728\">[dccxxviii]<\/a>. Em seu texto <em>Paz<\/em>, de 1932, Einstein, embora reconhecesse as poderosas influ\u00eancias manipulat\u00f3rias dos grupos dirigentes na sociedade, ressalva a fundamental responsabilidade do povo em exigir de seus l\u00edderes caminhos que levem \u00e0 paz:<\/p>\n<p>Os poderosos grupos industriais ocupados da manufatura de armamentos empenham-se ao m\u00e1ximo, em todos os pa\u00edses, para impedir o ajustamento pac\u00edfico das disputas internacionais, e os governantes apenas podem alcan\u00e7ar este grande prop\u00f3sito se estiverem seguros do apoio vigoroso da maioria de seu povo. Nestes tempos de governo democr\u00e1tico, <em>o destino das na\u00e7\u00f5es est\u00e1 nas m\u00e3os do pr\u00f3prio povo; cada indiv\u00edduo precisa ter sempre isso em mente<\/em>.<a href=\"#_edn729\" name=\"_ednref729\">[dccxxix]<\/a><\/p>\n<p>Se a confian\u00e7a que Freud dedicava \u00e0s massas humanas, ao contr\u00e1rio de Einstein, era peculiarmente negativa, podemos perceber que esse aspecto de sua <em>Weltanschauung<\/em> est\u00e1 intimamente ligado \u00e0 sua <em>Bildung<a href=\"#_edn730\" name=\"_ednref730\"><strong>[dccxxx]<\/strong><\/a><\/em>, sua forma\u00e7\u00e3o, em especial sua cria\u00e7\u00e3o no contexto da inf\u00e2ncia e da juventude, dentro de uma fam\u00edlia e um ambiente onde tanto os aspectos financeiros quanto os relacionamentos eram complexos e cheios de experi\u00eancias traum\u00e1ticas<a href=\"#_edn731\" name=\"_ednref731\">[dccxxxi]<\/a>. Conforme Peter Gay, \u201ca lembran\u00e7a da pobreza de sua fam\u00edlia parece ter sido dolorosa para Freud\u201d<a href=\"#_edn732\" name=\"_ednref732\">[dccxxxii]<\/a>. Tanto que ele chegou a criar para si um \u201cromance familiar\u201d (como ele chamaria mais tarde a tend\u00eancia quase universal de as pessoas fantasiarem seus pais como sendo mais pr\u00f3speros ou famosos do que na realidade), como aparece numa passagem autobiogr\u00e1fica disfar\u00e7ada, de 1899, em que ele atribu\u00eda uma inexistente fortuna perdida \u00e0 fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Estas diferen\u00e7as marcantes nas personalidades<a href=\"#_edn733\" name=\"_ednref733\">[dccxxxiii]<\/a> de Einstein e de Freud s\u00e3o, obviamente, fruto de suas distintas <em>Bildungen<\/em>. Enquanto Einstein foi criado num lar \u201calegre, confort\u00e1vel e animado\u201d<a href=\"#_edn734\" name=\"_ednref734\">[dccxxxiv]<\/a>, Freud, como afirma Max Schur, m\u00e9dico pessoal e seu bi\u00f3grafo, vinha de uma fam\u00edlia que \u201csempre viveu uma exist\u00eancia marginal, ocasionalmente at\u00e9 mesmo bastante prec\u00e1ria.\u201d<a href=\"#_edn735\" name=\"_ednref735\">[dccxxxv]<\/a> Enquanto Einstein desfrutou de um lar cheio de m\u00fasica e com rela\u00e7\u00f5es amorosas e ternas, especialmente com sua irm\u00e3, Maja; na casa dos Freud a m\u00fasica era proibida \u2014 porque Sigmund, desde pequeno, n\u00e3o a tolerava \u2014 e as rela\u00e7\u00f5es fraternas eram dif\u00edceis. Ao longo de dez anos, Freud enfrentou uma seq\u00fc\u00eancia intermin\u00e1vel de irm\u00e3os, que iriam, ao longo de toda a sua inf\u00e2ncia, roubar-lhe o t\u00e3o necessitado aconchego da m\u00e3e<a href=\"#_edn736\" name=\"_ednref736\">[dccxxxvi]<\/a>.<\/p>\n<p>A inf\u00e2ncia e juventude de relativa e at\u00e9 aguda priva\u00e7\u00e3o, e o \u201cmedo \u00e0 pobreza\u201d<a href=\"#_edn737\" name=\"_ednref737\">[dccxxxvii]<\/a>, deixariam marcas que influenciariam n\u00e3o apenas a personalidade de Freud, mas tamb\u00e9m o desenvolvimento te\u00f3rico, social e pol\u00edtico da Psican\u00e1lise. Uma primeira conseq\u00fc\u00eancia das marcas da pobreza e da depend\u00eancia financeira de outros, foi que ao lado da \u201cprofunda autoconfian\u00e7a\u201d<a href=\"#_edn738\" name=\"_ednref738\">[dccxxxviii]<\/a> que Ernest Jones identifica em Freud, haviam \u201cestranhos sentimentos de inferioridade\u201d<a href=\"#_edn739\" name=\"_ednref739\">[dccxxxix]<\/a> que a encobriam. Freud caracterizou-se, mesmo na vida adulta, por aquilo que Paul Roazen<a href=\"#_edn740\" name=\"_ednref740\">[dccxl]<\/a> chama de uma \u201ctend\u00eancia para idolatrar her\u00f3is\u201d<a href=\"#_edn741\" name=\"_ednref741\">[dccxli]<\/a>, e que Ernest Jones aponta como \u201cdepend\u00eancia e um correspondente apre\u00e7o excessivo da outra pessoa\u201d<a href=\"#_edn742\" name=\"_ednref742\">[dccxlii]<\/a>. Jones atribui essa tend\u00eancia de Freud a uma proje\u00e7\u00e3o de \u201cseu inato senso de capacidade e superioridade sobre uma s\u00e9rie de mentores\u201d<a href=\"#_edn743\" name=\"_ednref743\">[dccxliii]<\/a>. Freud se tornaria, ao longo da vida, \u201ccuriosamente dependente de alguns deles para seguran\u00e7a\u201d<a href=\"#_edn744\" name=\"_ednref744\">[dccxliv]<\/a>.<\/p>\n<p>Einstein, pelo contr\u00e1rio, fora criado numa fam\u00edlia que \u201chavia rompido com a autoridade; que discordava, buscava independ\u00eancia e que havia deliberadamente fugido das tradi\u00e7\u00f5es e costumes\u201d<a href=\"#_edn745\" name=\"_ednref745\">[dccxlv]<\/a>. Sempre encorajado \u00e0 independ\u00eancia e \u00e0 auto-sufici\u00eancia em casa, Einstein consolidou, durante sua perman\u00eancia no <em>Luitpold Gymnasium<\/em>, onde ingressou com dez anos de idade, esta atitude de \u201cn\u00e3o estar nem a\u00ed para as cren\u00e7as convencionais\u201d<a href=\"#_edn746\" name=\"_ednref746\">[dccxlvi]<\/a> e uma clara \u201catitude de oposi\u00e7\u00e3o que o acompanharia por toda a vida\u201d<a href=\"#_edn747\" name=\"_ednref747\">[dccxlvii]<\/a>, especialmente no que dizia respeito ao autoritarismo, quer pol\u00edtico, quer educacional<a href=\"#_edn748\" name=\"_ednref748\">[dccxlviii]<\/a>. Embora tivesse sido uma crian\u00e7a com evidentes dificuldades de aprendizagem (n\u00e3o come\u00e7ou a falar sen\u00e3o aos tr\u00eas anos de idade, e aos nove ainda tinha muita dificuldade de se expressar), o carinho e o afeto incondicionais recebidos em casa garantiram-lhe uma personalidade segura de si e independente.<\/p>\n<p>Enquanto Freud buscava energeticamente a fama e o prest\u00edgio, Einstein, que havia granjeado fama ainda jovem, sentia-se incomodado com seu s\u00fabito e universal renome. Como escreveu a Heirich Zangger, em 3 de janeiro de 1920, \u201cDesde que o resultado da deflex\u00e3o da luz<a href=\"#_edn749\" name=\"_ednref749\">[dccxlix]<\/a> se tornou p\u00fablica, um tal culto a meu respeito foi constru\u00eddo, que me sinto um \u00eddolo pag\u00e3o. Mas isso, tamb\u00e9m, se Deus quiser, h\u00e1 de passar\u201d<a href=\"#_edn750\" name=\"_ednref750\">[dccl]<\/a>. E, em <em>Meu Credo<\/em>, 1932, afirmou; \u201cTodos deveriam ser respeitados como pessoa, mas ningu\u00e9m jamais deveria ser idolatrado\u201d<a href=\"#_edn751\" name=\"_ednref751\">[dccli]<\/a>.<\/p>\n<p>Devido a estas diferen\u00e7as radicais em suas <em>Bildungen<\/em> (forma\u00e7\u00f5es), era natural que Einstein e Freud tivessem diferen\u00e7as em suas <em>Weltanschauungen<\/em> (cosmovis\u00f5es) com rela\u00e7\u00e3o aos l\u00edderes e \u00e0s massas. Einstein jamais se permitiu pensar que os grandes l\u00edderes fossem os ardilosos chefes pol\u00edticos e militares, especialmente os que usam a for\u00e7a para impor a ordem. Para ele, \u201cos grandes l\u00edderes\u201d n\u00e3o eram her\u00f3is militares, mas sim os que guiavam a humanidade rumo \u00e0 moralidade e \u00e0 justi\u00e7a.<a href=\"#_edn752\" name=\"_ednref752\">[dcclii]<\/a><\/p>\n<p>Enquanto Freud, com suas identifica\u00e7\u00f5es com grandes her\u00f3is militares<a href=\"#_edn753\" name=\"_ednref753\">[dccliii]<\/a>, chegava a justificar a lideran\u00e7a baseada na for\u00e7a e no regime de exce\u00e7\u00e3o, Einstein jamais se permitiu tais sentimentos. Um exemplo do descompasso pol\u00edtico de Freud diz respeito \u00e0 dedicat\u00f3ria que escreveu num exemplar de <em>Warum Krieg?<\/em> que enviou ao ditador italiano Benito Mussolini, a qual foi muito al\u00e9m do razo\u00e1vel: \u201cA Benito Mussolini, com as respeitosas sauda\u00e7\u00f5es de um homem idoso que reconhece no governante o her\u00f3i da cultura\u201d<a href=\"#_edn754\" name=\"_ednref754\">[dccliv]<\/a>.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de Einstein, que chegou a defender o socialismo abertamente (mas n\u00e3o o regime sovi\u00e9tico, que via como autocr\u00e1tico), Freud jamais se identificou com o socialismo (nem com a social-democracia) ou o comunismo<a href=\"#_edn755\" name=\"_ednref755\">[dcclv]<\/a>. Essa posi\u00e7\u00e3o eq\u00fcidistante de Freud, com algo de frieza e desprezo, manter-se-ia a mesma tanto logo ap\u00f3s a Primeira Grande Guerra quanto logo antes da Segunda. Em 20 de fevereiro de 1934, Freud escreveu a seu filho Ernst comentando a rea\u00e7\u00e3o violenta do governo Dollfuss contra os socialistas em Viena. Dizia que \u201co futuro \u00e9 incerto: ou o fascismo austr\u00edaco ou a su\u00e1stica\u201d<a href=\"#_edn756\" name=\"_ednref756\">[dcclvi]<\/a>. E ent\u00e3o lembra de Shakespeare dizendo: \u201cNossa atitude para com ambas as possibilidades pol\u00edticas [o fascismo austr\u00edaco ou o nazismo] s\u00f3 pode ser resumida pela fala de Merc\u00fario em <em>Romeu e Julieta:<\/em> \u2018Uma praga em ambos vossos lares\u2019\u201d<a href=\"#_edn757\" name=\"_ednref757\">[dcclvii]<\/a>.<\/p>\n<p>Em todas essas an\u00e1lises sobre as rela\u00e7\u00f5es entre os l\u00edderes e as massas, tanto Einstein quanto Freud est\u00e3o investigando os caminhos da paz dentro dos dom\u00ednios do pacifismo institucional social, segundo a categoriza\u00e7\u00e3o de Bobbio, na medida em que buscam os caminhos da paz pela transforma\u00e7\u00e3o social nas rela\u00e7\u00f5es de poder. Da mesma forma, no momento em que investigam a quest\u00e3o da motiva\u00e7\u00e3o, dos valores e da educa\u00e7\u00e3o dos l\u00edderes da sociedade, bem como as causas inconscientes que vinculam os homens entre si e as massas aos l\u00edderes, ambos, especialmente Freud, est\u00e3o apontando para vias de paz que jazem nos territ\u00f3rios do pacifismo \u00e9tico-finalista, especialmente na sua vertente terap\u00eautica.<\/p>\n<p>Da figura tremendamente complexa e din\u00e2mica que surge das inter-rela\u00e7\u00f5es entre os componentes deste quadro: indiv\u00edduos, sociedade, governantes e estados, o que parece ficar claro, tanto da parte de Einstein quanto da de Freud, \u00e9 a necessidade por um lado, de os governantes estarem sinceramente interessados no bem-estar de seus povos \u2014 aplicando e defendendo a justi\u00e7a acima de qualquer interesse, e a paz acima de qualquer vantagem mesquinha \u2014; e por outro, que os povos se empenhem em vigiar e cobrar de seus governantes, mantendo-se l\u00facidos e com independ\u00eancia de julgamento, aquelas medidas mais eficazes para a prote\u00e7\u00e3o e a promo\u00e7\u00e3o da vida coletiva.<\/p>\n<p><strong>6\u00a0 Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n<p><strong>6.1\u00a0 As cartas entre si<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de ter vivido at\u00e9 1939, Freud era um homem do s\u00e9culo XIX, com uma <em>Weltanschauung<\/em> formada basicamente pelo iluminismo alem\u00e3o, que se manteve afastado das principais correntes de inova\u00e7\u00e3o cultural do s\u00e9culo XX, nas artes, na m\u00fasica e mesmo nas ci\u00eancias. Sua perspectiva principal era <em>para dentro<\/em> e <em>para o passado<\/em>. Para dentro do ser humano e para o passado da humanidade.<\/p>\n<p>Einstein, uma gera\u00e7\u00e3o mais jovem do que Freud, era um homem plenamente do s\u00e9culo XX, integrado em suas din\u00e2micas cient\u00edficas, culturais e sociais. Seu enfoque era <em>para fora<\/em> e <em>para o futuro<\/em>. Para fora, em dire\u00e7\u00e3o ao infinito universo que ajudou a melhor esclarecer; e para o futuro, em dire\u00e7\u00e3o a um mundo com mais justi\u00e7a e paz.<\/p>\n<p>As abordagens de Einstein e de Freud sobre a guerra e a paz, em <em>Warum Krieg?<\/em> refletem, naturalmente, estas caracter\u00edsticas de suas respectivas <em>Bildungen<\/em><a href=\"#_edn758\" name=\"_ednref758\">[dcclviii]<\/a> e <em>Weltanschauungen<\/em><a href=\"#_edn759\" name=\"_ednref759\"><em><strong>[dcclix]<\/strong><\/em><\/a>. Enquanto Einstein se ocupa basicamente da guerra e da paz em seus aspectos exteriores \u2014 sociais e institucionais \u2014, Freud privilegia seu foco sobre as din\u00e2micas interiores, psicol\u00f3gicas, tanto individuais quanto coletivas. Em sua vida pessoal, Freud era um homem de cen\u00e1rios dom\u00e9sticos. Einstein tinha como horizonte o mundo inteiro. Ambos, entretanto, eram belos frutos da ilustra\u00e7\u00e3o e da cultura caracter\u00edsticas da tradi\u00e7\u00e3o germ\u00e2nica da <em>Bildung<\/em>. Nem Einstein nem Freud seriam o que chegaram a ser se n\u00e3o estivessem integrados nessa tradi\u00e7\u00e3o, na qualidade de \u201cjudeus assimilados\u201d<a href=\"#_edn760\" name=\"_ednref760\">[dcclx]<\/a>.<\/p>\n<p>Apesar de tamanhas diferen\u00e7as em forma\u00e7\u00e3o, personalidade e percurso de vida, Einstein e Freud, quando falam de guerra e paz, parecem falar em un\u00edssono. Em seus anseios pelo fim dos conflitos b\u00e9licos e pelo estabelecimento da paz universal e definitiva entre os homens, eles falam como que em coro. Ambos trilharam, ao longo da vida, um caminho em prol da paz e do entendimento, assinando manifestos, escrevendo textos, comunicando-se atrav\u00e9s de abundante correspond\u00eancia com grandes e pequenos&#8230; Freud percorreu este caminho de forma mais solit\u00e1ria, em avan\u00e7os graduais e cautelosos, muitas vezes vacilantes, e com um sentimento algo pessimista. Einstein envolveu-se com o mundo \u2014 apesar de amar a solitude \u2014, foi cedo catapultado \u00e0 fama de forma impressionante, e avan\u00e7ou com grande convic\u00e7\u00e3o e um otimismo que chegava \u00e0s raias da pura utopia.<\/p>\n<p>Quando tomadas em retrospectiva, podemos ver que as cartas de Einstein e de Freud em <em>Warum Krieg?<\/em> manifestam a ess\u00eancia de seus pensamentos sobre a guerra e a paz. Ambas as cartas foram escritas em um per\u00edodo de maturidade na vida pessoal e intelectual de ambos e, em muitos sentidos (especialmente a carta de Freud), resumem os pensamentos e as convic\u00e7\u00f5es de toda uma vida. \u00c9 poss\u00edvel retirar quase de cada frase de ambas as cartas, um universo de refer\u00eancias a in\u00fameras outras obras e textos de ambos os autores.<\/p>\n<p>Parece-nos certo afirmar que as cartas refletem o horizonte completo das convic\u00e7\u00f5es de Einstein e Freud com rela\u00e7\u00e3o ao tema da guerra e da paz. Talvez a \u00fanica exce\u00e7\u00e3o seja o movimento de Einstein \u2014 a partir dos horrores impostos ao mundo pela Segunda Grande Guerra, em especial pela atua\u00e7\u00e3o do governo de Hitler \u2014 da posi\u00e7\u00e3o de um pacifismo quase radical para um pacifismo que aceitava o uso da for\u00e7a para evitar o exterm\u00ednio brutal e injusto de seres humanos. Esta mudan\u00e7a de enfoque surgiu em Einstein num per\u00edodo posterior \u00e0 sua carta a Freud (1932) e, por isso, n\u00e3o \u00e9 aparente nela. Fora este \u00fanico aspecto, todos os demais temas e argumentos, hip\u00f3teses e conceitos apresentados por Einstein e Freud em <em>Warum Krieg?<\/em> refletem seus pensamentos de antes e de depois das cartas terem sido escritas.<\/p>\n<p>Enquanto Freud se movimenta mais dentro dos limites te\u00f3ricos que Norberto Bobbio atribui ao <em>pacifismo passivo<\/em>, Einstein se integra de corpo e alma no <em>pacifismo ativo<\/em>. Freud, ao longo de sua vida, tratou muito mais de buscar compreender e explicar a viol\u00eancia e a guerra, do que propriamente de combat\u00ea-las. J\u00e1 Einstein era um pacifista ativista, buscando todos os meios, intelectuais e sociais, de defender a causa da paz.<\/p>\n<p>Nas cartas que trocam, por\u00e9m, tanto Einstein quanto Freud movem-se ao longo de todos os ramos e enfoques que Norberto Bobbio atribui ao <em>pacifismo ativo<\/em>. Eles condenam a corrida armamentista, como incumbe ao <em>pacifismo ativo instrumental<\/em>. Procuram o caminho da paz atrav\u00e9s de um supragoverno mundial e do estabelecimento de uma jurisprud\u00eancia internacional que pro\u00edba a guerra entre as na\u00e7\u00f5es \u2014 e nisso expressam id\u00e9ias ousadas que se inserem no bojo do <em>pacifismo ativo institucional<\/em> em sua vertente <em>jur\u00eddica<\/em>. Tamb\u00e9m denunciam as injusti\u00e7as sociais e a opress\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o das classes governantes como um dos impedimentos da paz, bem como real\u00e7am o valor da cultura na elimina\u00e7\u00e3o da guerra, e, com isso, falam desde um ponto de vista do <em>pacifismo ativo institucional social<\/em>. Finalmente, ao analisarem as necessidades e possibilidades de transforma\u00e7\u00e3o interior do ser humano para evitar o desenlace do conflito b\u00e9lico, ambos ingressam na vasta arena do <em>pacifismo ativo \u00e9tico-finalista<\/em>. Einstein, em sua carta, evoca o tema da influ\u00eancia do psiquismo humano na origem das guerras, e da necessidade de sua apropriada orienta\u00e7\u00e3o para o estabelecimento da paz. Freud analisa detalhadamente esta necessidade, e indica sua possibilidade, com argumentos que Bobbio classifica dentro da \u00f3tica do <em>pacifismo ativo \u00e9tico-finalista terap\u00eautico<\/em>, ou <em>materialista<\/em>.<\/p>\n<p>De uma forma geral, poder-se-ia dizer que a carta de Einstein reflete o moto de que \u201ca paz \u00e9 necess\u00e1ria\u201d, enquanto a carta de Freud diz que \u201ca paz \u00e9 poss\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p><strong>6.2\u00a0 Materialismo <em>versus<\/em> espiritualismo<\/strong><\/p>\n<p>Como sabemos, Freud analisava o mundo desde um ponto de vista puramente materialista, desprezando qualquer tipo de interpreta\u00e7\u00e3o transcendental ou m\u00edstica, quer da natureza, quer dos seres humanos<a href=\"#_edn761\" name=\"_ednref761\">[dcclxi]<\/a>. Einstein, ao contr\u00e1rio, movia-se dentro de uma <em>Weltanschauung<\/em> definitivamente espiritualista<a href=\"#_edn762\" name=\"_ednref762\">[dcclxii]<\/a>, embora n\u00e3o fosse um religioso praticante e conseguisse manter uma atitude cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o a muitos aspectos da religi\u00e3o institucionalizada. Einstein n\u00e3o conseguia conceber um deus pessoal ou antropoformizado, como \u00e9 apresentado por algumas tradi\u00e7\u00f5es religiosas. Mas ele fazia quest\u00e3o de manifestar e justificar seus sentimentos religiosos<a href=\"#_edn763\" name=\"_ednref763\">[dcclxiii]<\/a>.<\/p>\n<p>Apesar de ser judeu, Einstein sentia-se confort\u00e1vel em defender Jesus como uma figura sagrada acima de qualquer possibilidade de um mero mito. Numa entrevista a G. S. Viereck publicada no <em>Saturday Evening Post<\/em> em 26 de outubro de 1929, Einstein dizia: \u201cNingu\u00e9m pode ler os Evangelhos sem sentir a presen\u00e7a real de Jesus. Sua personalidade pulsa em cada palavra. Nenhum mito \u00e9 dotado desta for\u00e7a vital\u201d<a href=\"#_edn764\" name=\"_ednref764\">[dcclxiv]<\/a>. Como o mais renomado e cultuado cientista do s\u00e9culo XX, n\u00e3o sentiu nenhum receio em defender a harmonia essencial entre religi\u00e3o e ci\u00eancia num famoso e longo discurso ante o Semin\u00e1rio Teol\u00f3gico de Princeton, em 19 de maio de 1939, quando afirmou, numa famosa frase, que \u201cA ci\u00eancia sem a religi\u00e3o \u00e9 aleijada; a religi\u00e3o sem a ci\u00eancia \u00e9 cega\u201d<a href=\"#_edn765\" name=\"_ednref765\">[dcclxv]<\/a>.<\/p>\n<p>Levando tudo isso em considera\u00e7\u00e3o, percebe-se que a resposta de Freud \u00e0 pergunta de Einstein \u2014 se seria poss\u00edvel orientar o desenvolvimento ps\u00edquico do homem de modo a evitar a guerra \u2014 s\u00f3 poderia ser uma resposta parcial. Dentro do esquema te\u00f3rico de Norberto Bobbio, percebe-se que Freud apenas conseguia abordar esta quest\u00e3o a partir do ponto de vista do <em>pacifismo \u00e9tico-finalista terap\u00eautico<\/em>, mas nada podia acrescentar da perspectiva do <em>pacifismo \u00e9tico-finalista espiritualista<\/em>. Sua resposta a Einstein, assim, embora fascinante e v\u00e1lida e necess\u00e1ria, \u00e9 claramente incompleta. Ou seja, Einstein somente recebeu de Freud, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s possibilidades de atua\u00e7\u00e3o sobre o ser humano para a constru\u00e7\u00e3o da paz, metade da resposta poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Seria fascinante e enriquecedor explorar este caminho, mas, infelizmente, isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel aqui. Por\u00e9m, \u00e9 importante ressaltar que desenvolvimentos posteriores a Freud, no pr\u00f3prio campo da psicologia, poderiam ter suprido esta lacuna. Em primeiro lugar, nos vem \u00e0 mente a figura de Viktor Frankl, fundador da terceira escola de psicoterapia de Viena, ao lado de outros fundamentais pesquisadores como Abraham Maslow, Carl Rogers e os pr\u00f3prios seguidores de Freud, Alfred Adler e Carl Gustav Jung.<\/p>\n<p>Em suas obras, estes autores apresentam vis\u00f5es da psicologia humana que integram, em muitos sentidos, dimens\u00f5es transcendentais<a href=\"#_edn766\" name=\"_ednref766\">[dcclxvi]<\/a>, por assim dizer, que n\u00e3o estavam contempladas na psicologia de Freud. Suas obras s\u00e3o extremamente l\u00facidas e abrem interessant\u00edssimos caminhos de investiga\u00e7\u00e3o, que poderiam responder de forma mais completa \u00e0 pergunta de Einstein a Freud<a href=\"#_edn767\" name=\"_ednref767\">[dcclxvii]<\/a>. Mas isso j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o objeto de nosso estudo, e devemos nos conter em deixar por aqui estas considera\u00e7\u00f5es, na esperan\u00e7a de que sejam \u00fateis para a forma\u00e7\u00e3o do panorama ao qual nos propusemos.<\/p>\n<p><strong>6.3\u00a0 As cartas e a cultura de paz<\/strong><\/p>\n<p>Em 1999, Einstein foi escolhido pela revista Time como \u201ca pessoa do s\u00e9culo\u201d, o indiv\u00edduo que melhor representa o s\u00e9culo XX. Na cultura popular de milh\u00f5es e milh\u00f5es de pessoas em todo o mundo, ser <em>um Einstein<\/em> \u00e9 sin\u00f4nimo de grandeza intelectual e capacidade de racioc\u00ednio. Ao mesmo tempo, sua figura simp\u00e1tica desperta uma quase irresist\u00edvel atra\u00e7\u00e3o e respeito por sua pessoa. Apesar disso, as gera\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas pouca ou nenhuma informa\u00e7\u00e3o t\u00eam dos pensamentos e a\u00e7\u00f5es de Einstein em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 paz mundial. Pensamos que isso \u00e9 uma lacuna lastim\u00e1vel nos esfor\u00e7os contempor\u00e2neos pela Cultura de Paz. Acreditamos que se as id\u00e9ias e argumentos de Einstein fossem trazidos \u00e0 proemin\u00eancia na m\u00eddia, em confer\u00eancias, semin\u00e1rios e debates, bem como, e especialmente, nas escolas e nas salas de aula onde se promove e estuda a Cultura de Paz, isso representaria um fundamental refor\u00e7o \u00e0s convic\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para tal empreendimento.<\/p>\n<p>De forma semelhante, o mesmo se aplica a Freud. Apesar de todos os desenvolvimentos da psicologia a partir dele, Freud continua sendo o <em>pai<\/em> desta ci\u00eancia. A despeito das importantes contribui\u00e7\u00f5es de Adler, Jung, Frankl, Horney, Maslow, Skinner, Rogers, Klein e tantos outros, \u00e9 ainda \u201cFreud explica!\u201d que se ouve por todas as partes&#8230; Por\u00e9m, assim como as contribui\u00e7\u00f5es de Einstein, as de Freud s\u00e3o lamentavelmente desconhecidas e pouco utilizadas nos esfor\u00e7os educacionais em prol da Cultura de Paz.<\/p>\n<p>Apesar das evid\u00eancias em contr\u00e1rio por parte da ci\u00eancia, a cultura popular parece entender a guerra como algo inevit\u00e1vel, uma esp\u00e9cie de destino natural e irremedi\u00e1vel da natureza humana. Os povos anseiam pela paz, mas duvidam que ela seja poss\u00edvel. Assim se produz uma \u201ccontradi\u00e7\u00e3o paralisante\u201d<a href=\"#_edn768\" name=\"_ednref768\">[dcclxviii]<\/a> nos esfor\u00e7os humanos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 paz. A paz precisa aparecer \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es como uma meta a ser alcan\u00e7ada, n\u00e3o como um mero sonho ou uma ilus\u00e3o: a paz embasada na justi\u00e7a, na liberdade, na unidade na diversidade e em todos os mais elevados ideais e valores que os seres humanos foram capazes de produzir em sua magn\u00edfica jornada cultural ao longo dos mil\u00eanios.<\/p>\n<p>As id\u00e9ias de Einstein e de Freud, expressas em <em>Warum Krieg?<\/em>, oferecem ao mundo contempor\u00e2neo uma ferramenta poderos\u00edssima para uma educa\u00e7\u00e3o que se mova na dire\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o da paz. N\u00e3o apenas porque suas id\u00e9ias e argumentos s\u00e3o abrangentes e profundos, mas, principalmente, porque foram redigidas por <em>Einstein<\/em> e <em>Freud<\/em>. A uni\u00e3o desses dois nomes de maior grandeza em prol da paz mundial pode trazer aos cora\u00e7\u00f5es dos seres humanos em todas as partes, especialmente aos alunos nas escolas e universidades, aquela certeza t\u00e3o vital para os esfor\u00e7os incans\u00e1veis em prol da elimina\u00e7\u00e3o da guerra. Suas palavras e argumentos, em nossos dias, poderiam ter o efeito das grandes descobertas arqueol\u00f3gicas: influir, atrav\u00e9s de tra\u00e7os do passado, a constru\u00e7\u00e3o do presente e do futuro.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p>Adams, David B. The use and misuse of aggression research. In: Brain, P.F. and Benton, D. (Eds.). <em>A Multi-Disciplinary Approach to Aggression Research.<\/em> Elsevier\/North Holland: Biomedical Press, 1981. p. 531-544.<\/p>\n<p>ADAMS, David. B. Why there are so few women warriors. In: <em>Behavior Science Research,<\/em> v. 18, n. 3, p. 196-212, 1983. 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Juli 1932.<\/p>\n<p>Lieber Herr Freud!<\/p>\n<p>(\u00a7E1) Ich bin gl\u00fccklich dar\u00fcber, dass ich durch die Anregung des V\u00f6lkerbundes und seines Internationalen Instituts f\u00fcr geistige Zusammenarbeit in Paris, in freiem Meinungsaustausch mit einer Person meiner Wahl ein frei gew\u00e4hltes Problem zu er\u00f6rtern, eine einzigartige Gelegenheit erhalte, mich mit Ihnen \u00fcber diejenige Frage zu unterhalten, die mir beim gegenw\u00e4rtigen Stande der Dinge als die wichtigste der Zivilisation erscheint: Gibt es einen Weg, die Menschen von dem Verh\u00e4ngnis des Krieges zu befreien? Die Einsicht, dass diese Frage durch die Fortschritte der Technik zu einer Existenzfrage f\u00fcr die zivilisierte Menschheit geworden ist, ist ziemlich allgemein durchgedrungen, und trotzdem sind die hei\u00dfen Bem\u00fchungen um ihre L\u00f6sung bisher in erschreckendem Ma\u00dfe gescheitert.<\/p>\n<p>(\u00a7E2) Ich glaube, dass auch unter den mit diesem Problem praktisch und beruflich besch\u00e4ftigten Menschen, aus einem gewissen Gef\u00fchl der Ohnmacht heraus, der Wunsch lebendig ist, Personen um ihre Auffassung des Problems zu befragen, die durch ihre gewohnte wissenschaftliche T\u00e4tigkeit zu allen Fragendes Lebens eine weitgehende Distanz gewonnen haben. Was mich selber betrifft, so liefert nur die gewohnte Richtung meines Denkens keine Einblicke in die Tiefen des menschlichen Wollens und F\u00fchlens, so dass ich bei dem hier versuchten Meinungsaustausch nicht viel mehr tun kann, als versuchen, die Fragestellung herauszuarbeiten und durch Vorwegnahme der mehr \u00e4u\u00dferlichen L\u00f6sungsversuche Ihnen Gelegenheit zu geben, die Frage vom Standpunkte Ihrer vertieften Kenntnis des menschlichen Trieblebens aus zu beleuchten. Ich vertraue darauf, dass Sie auf Wege der Erziehung werden hinweisen k\u00f6nnen, die auf einem gewisserma\u00dfen unpolitischen Wege psychologische Hindernisse zu beseitigen imstande sind, welche der psychologisch Unge\u00fcbte wohl ahnt, deren Zusammenh\u00e4nge und Wandelbarkeit er aber nicht zu beurteilen vermag.<\/p>\n<p>(\u00a7E3) Weil ich selber ein von Affekten nationaler Natur freier Mensch bin, erscheint mir die \u00e4u\u00dfere beziehungsweise organisatorische Seite des Problems einfach: die Staaten scharfen eine legislative und gerichtliche Beh\u00f6rde zur Schlichtung aller zwischen ihnen entstehenden Konflikte. Sie verpflichten sich, sich den von der legislativen Beh\u00f6rde aufgestellten Gesetzen zu unterwerfen, das Gericht in allen Streitf\u00e4llen anzurufen, sich seinen Entscheidungen bedingungslos zu beugen sowie alle diejenigen Ma\u00dfnahmen durchzuf\u00fchren, welche das Gericht f\u00fcr die Realisierung seiner Entscheidungen f\u00fcr notwendig erachtet. Hier schon sto\u00dfe ich auf die erste Schwierigkeit: Ein Gericht ist eine menschliche Einrichtung, die um so mehr geneigt sein d\u00fcrfte, ihre Entscheidungen au\u00dferrechtlichen Einfl\u00fcssen zug\u00e4nglich zu machen, je weniger Macht ihr zur Verf\u00fcgung steht, ihre Entscheidungen durchzusetzen. Es ist eine Tatsache, mit der man rechnen muss: Recht und Macht sind unzertrennlich verbunden, und die Spr\u00fcche eines Rechtsorgans n\u00e4hern sich um so mehr dem Gerechtigkeitsideal der Gemeinschaft, in deren Namen und Interesse Recht gesprochen wird, je mehr Machtmittel diese Gemeinschaft aufbringen kann, um die Respektierung ihres Gerechtigkeitsideals zu erzwingen. Wir sind aber zur Zeit weit davon entfernt, eine \u00fcberstaatliche Organisation zu besitzen, die ihrem Gericht unbestreitbare Autorit\u00e4t zu verleihen und der Exekution seiner Erkenntnisse absoluten Gehorsam zu erzwingen imstande w\u00e4re. So dr\u00e4ngt sich mir die erste Feststellung auf: Der Weg zur internationalen Sicherheit f\u00fchrt \u00fcber den bedingungslosen Verzicht der Staaten auf einen Teil ihrer Handlungsfreiheit beziehungsweise Souver\u00e4nit\u00e4t, und es d\u00fcrfte unbezweifelbar sein, dass es einen \u00e4ndern Weg zu dieser Sicherheit nicht gibt.<\/p>\n<p>(\u00a7E4) Ein Blick auf die Erfolglosigkeit der zweifellos ernst gemeinten Bem\u00fchungen der letzten Jahrzehnte, dieses Ziel zu erreichen, l\u00e4sst jeden deutlich f\u00fchlen, dass m\u00e4chtige psychologische Kr\u00e4fte am Werke sind, die diese Bem\u00fchungen paralysieren. Einige dieser Kr\u00e4fte liegen offen zutage. Das Machtbed\u00fcrfnis der jeweils herrschenden Schicht eines Staates widersetzt sich einer Einschr\u00e4nkung der Hoheitsrechte desselben. Dieses politische Machtbed\u00fcrfnis wird h\u00e4ufig gen\u00e4hrt aus einem materiell-\u00f6konomisch sich \u00e4u\u00dfernden Machtstreben einer \u00e4ndern Schicht. Ich denke hier vornehmlich an die innerhalb jedes Volkes vorhandene kleine, aber entschlossene, sozialen Erw\u00e4gungen und Hemmungen unzug\u00e4ngliche Gruppe jener Menschen, denen Krieg, Waffenherstellung und handel nichts als eine Gelegenheit sind, pers\u00f6nliche Vorteile zu ziehen, den pers\u00f6nlichen Machtbereich zu erweitern.<\/p>\n<p>(\u00a7E5) Diese einfache Feststellung bedeutet aber nur einen ersten Schritt der Erkenntnis der Zusammenh\u00e4nge. Es erhebt sich sofort die Frage: Wie ist es m\u00f6glich, dass die soeben genannte Minderheit die Masse des Volkes ihren Gel\u00fcsten dienstbar machen kann, die durch einen Krieg nur zu leiden und zu verlieren hat. (Wenn ich von der Masse des Volkes spreche, so schlie\u00dfe ich aus ihr diejenigen nicht aus, die als Soldaten aller Grade den Krieg zum Beruf gemacht haben, in der \u00dcberzeugung, dass sie der Verteidigung der h\u00f6chsten G\u00fcter ihres Volkes dienen und dass manchmal die beste Verteidigung der Angriff ist.) Hier scheint die n\u00e4chstliegende Antwort zu sein: Die Minderheit der jeweils Herrschenden hat vor allem die Schule, die Presse und meistens auch die religi\u00f6sen Organisationen in ihrer Hand. Durch diese Mittel beherrscht und leitet sie die Gef\u00fchle der gro\u00dfen Masse und macht diese zu ihrem willenlosen Werkzeuge.<\/p>\n<p>(\u00a7E6) Aber auch diese Antwort ersch\u00f6pft nicht den ganzen Zusammenhang, denn es erhebt sich die Frage: Wie ist es m\u00f6glich, dass sich die Masse durch die genannten Mittel bis zur Raserei und Selbstaufopferung entflammen l\u00e4sst? Die Antwort kann nur sein: Im Menschen lebt ein Bed\u00fcrfnis zu hassen und zu vernichten. Diese Anlage ist in gew\u00f6hnlichen Zeiten latent vorhanden und tritt dann nur beim Abnormalen zutage; sie kann aber leicht geweckt und zur Massenpsychose gesteigert werden. Hier scheint das tiefste Problem des ganzen verh\u00e4ngnisvollen Wirkungskomplexes zu stecken. Hier ist die Stelle, die nur der gro\u00dfe Kenner der menschlichen Triebe beleuchten kann.<\/p>\n<p>(\u00a7E7) Dies f\u00fchrt auf eine letzte Frage: Gibt es eine M\u00f6glichkeit, die psychische Entwicklung der Menschen so zu leiten, dass sie den Psychosen des Hasses und des Vernichtens gegen\u00fcber widerstandsf\u00e4higer werden? Ich denke dabei keineswegs nur an die sogenannten Ungebildeten. Nach meinen Lebenserfahrungen ist es vielmehr die sogenannte <em>Intelligenz<\/em>, welche den verh\u00e4ngnisvollen Massensuggestionen am leichtesten unterliegt, weil sie nicht unmittelbar aus dem Erleben zu sch\u00f6pfen pflegt, ondern auf dem Wege \u00fcber das bedruckte Papier am bequemsten und vollst\u00e4ndigsten zu erfassen ist.<\/p>\n<p>(\u00a7E8) Zum Schluss noch eins: Ich habe bisher nur vom Krieg zwischen Staaten, also von sogenannten internationalen Konflikten gesprochen. Ich bin mir dessen bewusst, dass die menschliche Aggressivit\u00e4t sich auch im anderen Formen und unter anderen Bedingungen bet\u00e4tigt (z. B. B\u00fcrgerkrieg, fr\u00fcher aus religi\u00f6sen, heute aus sozialen Ursachen heraus, Verfolgung von nationalen Minderheiten). Ich habe aber bewusst die repr\u00e4sentativste und unheilvollste, weil z\u00fcgelloseste Form des Konfliktes unter menschlichen Gemeinschaften hervorgehoben, weil sich an ihr vielleicht am ehesten demonstrieren l\u00e4sst, wie sich kriegerische Konflikte vermeiden lie\u00dfen.<\/p>\n<p>(\u00a7E9) Ich wei\u00df, dass Sie in Ihren Schriften auf alle mit dem uns interessierenden, dr\u00e4ngenden Problem zusammenh\u00e4ngenden Fragen teils direkt, teils indirekt geantwortet haben. Es wird aber von gro\u00dfem Nutzen sein, wenn Sie das Problem der Befriedung der Welt im Lichte Ihrer neuen Erkenntnisse besonders darstellen, da von einer solchen Darstellung fruchtbare Bem\u00fchungen ausgehen k\u00f6nnen.<\/p>\n<p>(\u00a7E10)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Freundlichst gr\u00fc\u00dft Sie<\/p>\n<p>Ihr A. Einstein.<\/p>\n<p>***************<\/p>\n<p>[Sigmund Freud para Albert Einstein]<\/p>\n<p>Wien, im September [1932]<\/p>\n<p>Lieber Herr Einstein!<\/p>\n<p>(\u00a7F1) Als ich h\u00f6rte, dass Sie die Absicht haben, mich zum Gedankenaustausch \u00fcber ein Thema aufzufordern, dem Sie Ihr Interesse schenken und das Ihnen auch des Interesses Anderer w\u00fcrdig erscheint, stimmte ich bereitwillig zu. Ich erwartete, Sie w\u00fcrden ein Problem an der Grenze des heute Wi\u00dfbaren w\u00e4hlen, zu dem ein jeder von uns, der Physiker wie der Psychologe, sich seinen besonderen Zugang bahnen k\u00f6nnte, so dass sie sich von verschiedenen Seiten her auf demselben Boden tr\u00e4fen. Sie haben mich dann durch die Fragestellung \u00fcberrascht, was man tun k\u00f6nne, um das Verh\u00e4ngnis des Krieges von den Menschen abzuwehren. Ich erschrak zun\u00e4chst unter dem Eindruck meiner fast h\u00e4tte ich gesagt: unserer Inkompetenz, denn das erschien mir als eine praktische Aufgabe, die den Staatsm\u00e4nnern zuf\u00e4llt. Ich verstand dann aber, dass Sie die Frage nicht als Naturforscher und Physiker erhoben haben, sondern als Menschenfreund, der den Anregungen des V\u00f6lkerbundes gefolgt war, \u00e4hnlich wie der Polarforscher Fridtjof Nansen es auf sich genommen hatte, den Hungernden und den heimatlosen Opfern des Weltkrieges Hilfe zu bringen. Ich besann mich auch, dass mir nicht zugemutet wird, praktische Vorschl\u00e4ge zu machen, sondern dass ich nur angeben soll, wie sich das Problem der Kriegsverh\u00fctung einer psychologischen Betrachtung darstellt.<\/p>\n<p>(\u00a7F2) Aber auch hier\u00fcber haben Sie in Ihrem Schreiben das meiste gesagt. Sie haben mir gleichsam den Wind aus den Segeln genommen, aber ich fahre gern in Ihrem Kielwasser und bescheide mich damit, alles zu best\u00e4tigen, was Sie vorbringen, indem ich es nach meinem besten Wissen \u2014 oder Vermuten \u2014 breiter ausf\u00fchre.<\/p>\n<p>(\u00a7F3) Sie beginnen mit dem Verh\u00e4ltnis von Recht und Macht. Das ist gewiss der richtige Ausgangspunkt f\u00fcr unsere Untersuchung. Darf ich das Wort <em>Macht <\/em>durch das grellere, h\u00e4rtere Wort <em>Gewalt<\/em> ersetzen? Recht und Gewalt sind uns heute Gegens\u00e4tze. Es ist leicht zu zeigen, dass sich das eine aus dem anderen entwickelt hat, und wenn wir auf die Uranf\u00e4nge zur\u00fcckgehen und nachsehen, wie das zuerst geschehen ist, so f\u00e4llt uns die L\u00f6sung des Problems m\u00fchelos zu. Entschuldigen Sie mich aber, wenn ich im Folgenden allgemein Bekanntes und Anerkanntes erz\u00e4hle, als ob es neu w\u00e4re; der Zusammenhang n\u00f6tigt mich dazu.<\/p>\n<p>(\u00a7F4) Interessenkonflikte unter den Menschen werden also prinzipiell durch die Anwendung von Gewalt entschieden. So ist es im ganzen Tierreich, von dem der Mensch sich nicht ausschlie\u00dfen sollte; f\u00fcr den Menschen kommen allerdings noch Meinungskonflikte hinzu, die bis zu den h\u00f6chsten H\u00f6hen der Abstraktion reichen und eine andere Technik der Entscheidung zu fordern scheinen. Aber das ist eine sp\u00e4tere Komplikation. Anf\u00e4nglich, in einer kleinen Menschenhorde, entschied die st\u00e4rkere Muskelkraft dar\u00fcber, wem etwas geh\u00f6ren oder wessen Wille zur Ausf\u00fchrung gebracht werden sollte. Muskelkraft verst\u00e4rkt und ersetzt sich bald durch den Gebrauch von Werkzeugen; es siegt, wer die besseren Waffen hat oder sie geschickter verwendet. Mit der Einf\u00fchrung der Waffe beginnt bereits die geistige \u00dcberlegenheit die Stelle der rohen Muskelkraft einzunehmen; die Endabsicht des Kampfes bleibt die n\u00e4mliche, der eine Teil soll durch die Sch\u00e4digung, die er erf\u00e4hrt, und durch die L\u00e4hmung seiner Kr\u00e4fte gezwungen werden, seinen Anspruch oder Widerspruch aufzugeben. Dies wird am gr\u00fcndlichsten erreicht, wenn die Gewalt den Gegner dauernd beseitigt, also t\u00f6tet. Es hat zwei Vorteile, dass er seine Gegnerschaft nicht ein andermal wieder aufnehmen kann und dass sein Schicksal andere abschreckt, seinem Beispiel zu folgen. Au\u00dferdem befriedigt die T\u00f6tung des Feindes eine triebhafte Neigung, die sp\u00e4ter erw\u00e4hnt werden muss. Der T\u00f6tungsabsicht kann sich die Erw\u00e4gung widersetzen, dass der Feind zu n\u00fctzlichen Dienstleistungen verwendet werden kann, wenn man ihn eingesch\u00fcchtert am Leben l\u00e4sst. Dann begn\u00fcgt sich also die Gewalt damit, ihn zu unterwerfen, anstatt ihn zu t\u00f6ten. Es ist der Anfang der Schonung des Feindes, aber der Sieger hat von nun an mit der lauernden Rachsucht des Besiegten zu rechnen, gibt ein St\u00fcck seiner eigenen Sicherheit auf.<\/p>\n<p>(\u00a7F5) Das ist also der urspr\u00fcngliche Zustand, die Herrschaft der gr\u00f6\u00dferen Macht, der rohen oder intellektuell gest\u00fctzten Gewalt. Wir wissen, dies Regime ist im Laufe der Entwicklung abge\u00e4ndert worden, es f\u00fchrte ein Weg von der Gewalt zum Recht, aber welcher? Nur ein einziger, meine ich. Er f\u00fchrte \u00fcber die Tatsache, dass die gr\u00f6\u00dfere St\u00e4rke des Einen wettgemacht werden konnte durch die Vereinigung mehrerer Schwachen. <em>L&#8217;union fait la force<\/em>. Gewalt wird gebrochen durch Einigung, die Macht dieser Geeinigten stellt nun das Recht dar im Gegensatz zur Gewalt des Einzelnen. Wir sehen, das Recht ist die Macht einer Gemeinschaft. Es ist noch immer Gewalt, bereit, sich gegen jeden Einzelnen zu wenden, der sich ihr widersetzt, arbeitet mit denselben Mitteln, verfolgt dieselben Zwecke; der Unterschied liegt wirklich nur darin, dass es nicht mehr die Gewalt eines Einzelnen ist, die sich durchsetzt, sondern die der Gemeinschaft. Aber damit sich dieser \u00dcbergang von der Gewalt zum neuen Recht vollziehe, muss eine psychologische Bedingung erf\u00fcllt werden. Die Einigung der Mehreren muss eine best\u00e4ndige, dauerhafte sein. Stellte sie sich nur zum Zweck der Bek\u00e4mpfung des einen \u00dcberm\u00e4chtigen her und zerfiele nach seiner \u00dcberw\u00e4ltigung, so w\u00e4re nichts erreicht. Der n\u00e4chste, der sich f\u00fcr st\u00e4rker h\u00e4lt, w\u00fcrde wiederum eine Gewaltherrschaft anstreben, und das Spiel w\u00fcrde sich endlos wiederholen. Die Gemeinschaft muss permanent erhalten werden, sich organisieren, Vorschriften schaffen, die den gef\u00fcrchteten Auflehnungen vorbeugen, Organe bestimmen, die \u00fcber die Einhaltung der Vorschriften Gesetze\u00a0 wachen und die Ausf\u00fchrung der rechtm\u00e4\u00dfigen Gewaltakte besorgen, f\u00fcr der Anerkennung einer solchen Interessengemeinschaft stellen sich unter den Mitgliedern einer geeinigten Menschengruppe Gef\u00fchlsbindungen her, Gemeinschaftsgef\u00fchle, in denen ihre eigentliche St\u00e4rke beruht.<\/p>\n<p>(\u00a7F6) Damit, denke ich, ist alles Wesentliche bereits gegeben: die \u00dcberwindung der Gewalt durch \u00dcbertragung der Macht an eine gr\u00f6\u00dfere Einheit, die durch Gef\u00fchlsbindungen ihrer Mitglieder zusammengehalten wird. Alles Weitere sind Ausf\u00fchrungen und Wiederholungen. Die Verh\u00e4ltnisse sind einfach, solange die Gemeinschaft nur aus einer Anzahl gleichstarker Individuen besteht. Die Gesetze dieser Vere<a href=\"#_edn770\" name=\"_ednref770\">[dcclxx]<\/a>inigung bestimmen dann, auf welches Ma\u00df von pers\u00f6nlicher Freiheit, seine Kraft als Gewalt anzuwenden, der Einzelne verzichten muss, um ein gesichertes Zusammenleben zu erm\u00f6glichen. Aber ein solcher Ruhezustand ist nur theoretisch denkbar, in Wirklichkeit kompliziert sich der Sachverhalt dadurch, dass die Gemeinschaft von Anfang an ungleich m\u00e4chtige Elemente umfasst, M\u00e4nner und Frauen, Eltern und Kinder, und bald infolge von Krieg und Unterwerfung Siegreiche und Besiegte, die sich in Herren und Sklaven umsetzen. Das Recht der Gemeinschaft wird dann zum Ausdruck der ungleichen Machtverh\u00e4ltnisse in ihrer Mitte, die Gesetze werden von und f\u00fcr die Herrschenden gemacht werden und den Unterworfenen wenig Rechte einr\u00e4umen. Von da an gibt es in der Gemeinschaft zwei Quellen von Rechtsunruhe, aber auch von Rechtsfortbildung. Erstens die Versuche Einzelner unter den Herren, sich \u00fcber die f\u00fcr alle g\u00fcltigen Einschr\u00e4nkungen zu erheben, also von der Rechtsherrschaft auf die Gewaltherrschaft zur\u00fcckzugreifen, zweitens die st\u00e4ndigen Bestrebungen der Unterdr\u00fcckten, sich mehr Macht zu verschaffen und diese \u00c4nderungen im Gesetz anerkannt zu sehen, also im Gegenteil vom ungleichen Recht zum gleichen Recht f\u00fcr alle vorzudringen. Diese letztere Str\u00f6mung wird besonders bedeutsam werden, wenn sich im Inneren des Gemeinwesens wirklich Verschiebungen der Machtverh\u00e4ltnisse ergeben, wie es infolge mannigfacher historischer Momente geschehen kann. Das Recht kann sich dann allm\u00e4hlich den neuen Machtverh\u00e4ltnissen anpassen, oder, was h\u00e4ufiger geschieht, die herrschende Klasse ist nicht bereit, dieser \u00c4nderung Rechnung zu tragen, es kommt zu Auflehnung, B\u00fcrgerkrieg, also zur zeitweiligen Aufhebung des Rechts und zu neuen Gewaltproben, nach deren Ausgang eine neue Rechtsordnung eingesetzt wird. Es gibt noch eine andere Quelle der Rechts\u00e4nderung, die sich nur in friedlicher Weise \u00e4u\u00dfert, das ist die kulturelle Wandlung der Mitglieder des Gemeinwesens, aber die geh\u00f6rt in einen Zusammenhang, der erst sp\u00e4ter ber\u00fccksichtigt werden kann.<\/p>\n<p>(\u00a7F7) Wir sehen also, auch innerhalb eines Gemeinwesens ist die gewaltsame Erledigung von Interessenkonflikten nicht vermieden worden. Aber die Notwendigkeiten und Gemeinsamkeiten, die sich aus dem Zusammenleben auf demselben Boden ableiten, sind einer raschen Beendigung solcher K\u00e4mpfe g\u00fcnstig, und die Wahrscheinlichkeit friedlicher L\u00f6sungen unter diesen Bedingungen nimmt stetig zu. Ein Blick in die Menschheitsgeschichte zeigt uns aber eine unaufh\u00f6rliche Reihe von Konflikten zwischen einem Gemeinwesen und einem oder mehreren anderen, zwischen gr\u00f6\u00dferen und kleineren Einheiten, Stadtgebieten, Landschaf ten, St\u00e4mmen, V\u00f6lkern, Reichen, die fast immer durch die Kraftprobe des Krieges entschieden werden. Solche Kriege gehen entweder in Beraubung oder in volle Unterwerfung, Eroberung des einen Teils, aus. Man kann die Eroberungskriege nicht einheitlich beurteilen. Manche wie die der Mongolen und T\u00fcrken haben nur Unheil gebracht, andere im Gegenteil zur Umwandlung von Gewalt in Recht beigetragen, indem sie gr\u00f6\u00dfere Einheiten herstellten, innerhalb deren nun die M\u00f6glichkeit der Gewaltanwendung aufgeh\u00f6rt hatte und eine neue Rechtsordnung die Konflikte schlichtete. So haben die Eroberungen der R\u00f6mer den Mittelmeerl\u00e4ndern die kostbare pax romana gegeben. Die Vergr\u00f6\u00dferungslust der franz\u00f6sischen K\u00f6nige hat ein friedlich geeinigtes, bl\u00fchendes Frankreich geschaffen. So paradox es klingt, man muss doch zugestehen, der Krieg w\u00e4re kein ungeeignetes Mittel zur Herstellung des ersehnten <em>ewigen <\/em>Friedens, weil er im Stande ist, jene gro\u00dfen Einheiten zu schaffen, innerhalb deren eine starke Zentralgewalt weitere Kriege unm\u00f6glich macht. Aber er taugt doch nicht dazu, denn die Erfolge der Eroberung sind in der Regel nicht dauerhaft; die neu geschaffenen Einheiten zerfallen wieder, meist infolge des mangelnden Zusammenhalts der gewaltsam geeinigten Teile. Und au\u00dferdem konnte die Eroberung bisher nur partielle Einigungen, wenn auch von gr\u00f6\u00dferem Umfang, schaffen, deren Konflikte die gewaltsame Entscheidung erst recht herausforderten. So ergab sich als die Folge all dieser kriegerischen Anstrengungen nur, dass die Menschheit zahlreiche, ja unaufh\u00f6rliche Kleinkriege gegen seltene, aber um so mehr verheerende Gro\u00dfkriege eintauschte.<\/p>\n<p>(\u00a7F8) Auf unsere Gegenwart angewendet, ergibt sich das gleiche Resultat, zu dem Sie auf k\u00fcrzerem Weg gelangt sind. Eine sichere Verh\u00fctung der Kriege ist nur m\u00f6glich, wenn sich die Menschen zur Einsetzung einer Zentralgewalt einigen, welcher der Richtspruch in allen Interessenkonflikten \u00fcbertragen wird. Hier sind offenbar zwei Forderungen vereinigt, dass eine solche \u00fcbergeordnete Instanz geschaffen und dass ihr die erforderliche Macht gegeben werde. Das eine allein w\u00fcrde nicht n\u00fctzen. Nun ist der V\u00f6lkerbund als solche Instanz gedacht, aber die andere Bedingung ist nicht erf\u00fcllt; der V\u00f6lkerbund hat keine eigene Macht und kann sie nur bekommen, wenn die Mitglieder der neuen Einigung, die einzelnen Staaten, sie ihm abtreten. Dazu scheint aber derzeit wenig Aussicht vorhanden. Man st\u00fcnde der Institution des V\u00f6lker Bundes nun ganz ohne Verst\u00e4ndnis gegen\u00fcber, wenn man nicht w\u00fcsste, dass hier ein Versuch vorliegt, der in der Geschichte der Menschheit nicht oft \u2014 vielleicht noch nie in diesem Ma\u00df \u2014gewagt worden ist. Es ist der Versuch, die Autorit\u00e4t \u2014 d. i. den zwingenden Einfluss \u2014, die sonst auf dem Besitz der Macht ruht, durch die Berufung auf bestimmte ideelle Einstellungen zu erwerben. Wir haben geh\u00f6rt, was eine Gemeinschaft zusammenh\u00e4lt, sind zwei Dinge: der Zwang der Gewalt und die Gef\u00fchlsbindungen \u2014 Identifizierungen hei\u00dft man sie technisch \u2014 der Mitglieder. F\u00e4llt das eine Moment weg, so kann m\u00f6glicher Weise das andere die Gemeinschaft aufrecht halten. Jene Ideen haben nat\u00fcrlich nur dann eine Bedeutung, wenn sie wichtigen Gemeinsamkeiten der Mitglieder Ausdruck geben. Es fragt sich dann, wie stark sie sind. Die Geschichte lehrt, dass sie in der Tat ihre Wirkung ge\u00fcbt haben. Die panhellenische Idee z.B., das Bewusstsein, dass man etwas Besseres sei als die umwohnenden Barbaren, das in den Amphiktyonien, den Orakeln und Festspielen so kr\u00e4ftigen Ausdruck fand, war stark genug, um die Sitten der Kriegsf\u00fchrung unter Griechen zu mildern, aber selbstverst\u00e4ndlich nicht im Stande, kriegerische Streitigkeiten zwischen den Partikeln des Griechenvolkes zu verh\u00fcten, ja nicht einmal um eine Stadt oder einen St\u00e4dtebund abzuhalten, sich zum Schaden eines Rivalen mit dem Perserfeind zu verb\u00fcnden. Ebenso wenig hat das christliche Gemeingef\u00fchl, das doch m\u00e4chtig gen\u00fcg war, im Renaissancezeitalter christliche Klein und Gro\u00dfstaaten daran gehindert, in ihren Kriegen miteinander um die Hilfe des Sultans zu werben. Auch in unserer Zeit gibt es keine Idee, der man eine solche einigende Autorit\u00e4t zumuten k\u00f6nnte. Dass die heute die V\u00f6lker beherrschenden nationalen Ideale zu einer gegenteiligen Wirkung dr\u00e4ngen, ist ja allzu deutlich. Es gibt Personen, die vorhersagen, erst das allgemeine Durchdringen der bolschewistischen Denkungsart werde den Kriegen ein Ende machen k\u00f6nnen, aber von solchem Ziel sind wir heute jedenfalls weit entfernt, und vielleicht w\u00e4re es nur nach schrecklichen B\u00fcrgerkriegen erreichbar. So scheint es also, dass der Versuch, reale Macht durch die Macht der Ideen zu ersetzen, heute noch zum Fehlschlagen verurteilt ist. Es ist ein Fehler in der Rechnung, wenn man nicht ber\u00fccksichtigt, dass Recht urspr\u00fcnglich rohe Gewalt war und noch heute der St\u00fctzung durch die Gewalt nicht entbehren kann.<\/p>\n<p>(\u00a7F9) Ich kann nun daran gehen, einen anderen Ihrer S\u00e4tze zu glossieren. Sie verwundern sich dar\u00fcber, dass es so leicht ist, die Menschen f\u00fcr den Krieg zu begeistern, und vermuten, dass etwas in ihnen wirksam ist, ein Trieb zum Hassen und Vernichten, der solcher Verhetzung entgegenkommt. Wiederum kann ich Ihnen nur uneingeschr\u00e4nkt beistimmen. Wir glauben an die Existenz eines solchen Triebes und haben uns gerade in den letzten Jahren bem\u00fcht, seine \u00c4u\u00dferungen zu studieren. Darf ich Ihnen aus diesem Anlass ein St\u00fcck der Trieblehre vortragen, zu der wir in der Psychoanalyse nach vielem Tasten und Schwanken gekommen sind? Wir nehmen an, dass die Triebe des Menschen nur von zweierlei Art sind, entweder solche, die erhalten und vereinigen wollen \u2014 wir hei\u00dfen sie erotische, ganz im Sinne des Eros im Symposion Platos, oder sexuelle mit bewusster \u00dcberdehnung des popul\u00e4ren Begriffs von Sexualit\u00e4t \u2014 und andere, die zerst\u00f6ren und t\u00f6ten wollen; wir fassen diese als Aggressionstrieb oder Destruktionstrieb zusammen. Sie sehen, das ist eigentlich nur die theoretische Verkl\u00e4rung des weltbekannten Gegensatzes von Lieben und Hassen, der vielleicht zu der Polarit\u00e4t von Anziehung und Absto\u00dfung eine Urbeziehung unterh\u00e4lt, die auf Ihrem Gebiet eine Rolle spielt. Nun lassen Sie uns nicht zu rasch mit den Wertungen von Gut und B\u00f6se einsetzen. Der eine dieser Triebe ist ebenso unerl\u00e4sslich wie der andere, aus dem Zusammenund Gegeneinanderwirken der Beiden gehen die Erscheinungen des Lebens hervor. Nun scheint es, dass kaum jemals ein Trieb der einen Art sich isoliert bet\u00e4tigen kann, er ist immer mit einem gewissen Betrag von der anderen Seite verbunden, wie wir sagen: legiert, der sein Ziel modifiziert oder ihm unter Umst\u00e4nden dessen Erreichung erst m\u00f6glich macht. So ist z.B. der Selbsterhaltungstrieb gewiss erotischer Natur, aber grade er bedarf der Verf\u00fcgung \u00fcber die Aggression, wenn er seine Absicht durchsetzen soll. Ebenso ben\u00f6tigt der auf Objekte gerichtete Liebestrieb eines Zusatzes vom Bem\u00e4chtigungstrieb, wenn er seines Objekts \u00fcberhaupt habhaft werden soll. Die Schwierigkeit, die beiden Triebarten in ihren \u00c4u\u00dferungen zu isolieren, hat uns ja so lange in ihrer Erkenntnis behindert.<\/p>\n<p>(\u00a7F10)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Wenn Sie mit mir ein St\u00fcck weitergehen wollen, so h\u00f6ren Sie, dass die menschlichen Handlungen noch eine Komplikation von anderer Art erkennen lassen. Ganz selten ist die Handlung das Werk einer einzigen Triebregung, die an und f\u00fcr sich bereits aus Eros und Destruktion zusammengesetzt sein muss. In der Regel m\u00fcssen mehrere in der gleichen Weise aufgebaute Motive zusammentreffen, um die Handlung zu erm\u00f6glichen. Einer Ihrer Fachgenossen hat das bereits gewusst, ein Prof. G. Ch. Lichtenberg, der zur Zeit unserer Klassiker am G\u00f6ttingen Physik lehrte; aber vielleicht war er als Psychologe noch bedeutender denn als Physiker. Er erfand die Motivenrose, indem er sagte: &#8220;Die Bewegungsgr\u00fcnde (wir sagen heute: Beweggr\u00fcnde), woraus man etwas tut, k\u00f6nnten so wie die 32 Winde geordnet und ihre Namen auf eine \u00e4hnliche Art formiert werden, z. B. Brot-Brot-Ruhm oder Ruhm-Ruhm-Brot.&#8221; Wenn also die Menschen zum Krieg aufgefordert werden, so m\u00f6gen eine ganze Anzahl von Motiven in ihnen zustimmend antworten, edle und gemeine, solche, von denen man laut spricht, und andere, die man beschweigt. Wir haben keinen Anlass, sie alle blo\u00dfzulegen. Die Lust an der Aggression und Destruktion ist gewiss darunter; ungez\u00e4hlte Grausamkeiten der Geschichte und des Alltags bekr\u00e4ftigen ihre Existenz und ihre St\u00e4rke. Die Verquickung dieser destruktiven Strebungen mit anderen erotischen und ideellen erleichtert nat\u00fcrlich deren Befriedigung. Manchmal haben wir, wenn wir von den Gr\u00e4ueltaten der Geschichte h\u00f6ren, den Eindruck, die ideellen Motive h\u00e4tten den destruktiven Gel\u00fcsten nur als Vorw\u00e4nde gedient, andere Male z.B. bei den Grausamkeiten der hl. Inquisition, meinen wir, die ideellen Motive h\u00e4tten sich im Bewusstsein vorgedr\u00e4ngt, die destruktiven ihnen eine unbewusste Verst\u00e4rkung gebracht. Beides ist m\u00f6glich.<\/p>\n<p>(\u00a7F11)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ich habe Bedenken, Ihr Interesse zu missbrauchen, das ja der Kriegsverh\u00fctung gilt, nicht unseren Theorien. Doch m\u00f6chte ich noch einen Augenblick bei unserem Destruktionstrieb verweilen, dessen Beliebtheit keineswegs Schritt h\u00e4lt mit seiner Bedeutung. Mit etwas Aufwand von Spekulation sind wir n\u00e4mlich zu der Auffassung gelangt, dass dieser Trieb innerhalb jedes lebenden Wesens arbeitet und dann das Bestreben hat, es zum Zerfall zu bringen, das Leben zum Zustand der unbelebten Materie zur\u00fcckzuf\u00fchren. Er verdiente in allem Ernst den Namen eines Todestriebes, w\u00e4hrend die erotischen Triebe die Bestrebungen zum Leben repr\u00e4sentieren. Der Todestrieb wird zum Destruktionstrieb, indem er mit Hilfe besonderer Organe nach au\u00dfen, gegen die Objekte, gewendet wird. Das Lebewesen bewahrt sozusagen sein eigenes Leben dadurch, dass es fremdes zerst\u00f6rt. Ein Anteil des Todestriebes verbleibt aber im Innern des Lebewesens t\u00e4tig und wir haben versucht, eine ganze Anzahl von normalen und pathologischen Ph\u00e4nomenen von dieser Verinnerlichung des Destruktionstriebes abzuleiten. Wir haben sogar die Ketzerei begangen, die Entstehung unseres Gewissens durch eine solche Wendung der Aggression nach innen zu erkl\u00e4ren. Sie merken, es ist gar nicht so unbedenklich, wenn sich dieser Vorgang in allzu gro\u00dfem Ausma\u00df vollzieht, es ist direkt ungesund, w\u00e4hrend die Wendung dieser Triebkr\u00e4fte zur Destruktion am der Au\u00dfenwelt das Lebewesen entlastet, wohltuend wirken muss. Das diene zur biologischen Entschuldigung all der h\u00e4sslichen und gef\u00e4hrlichen Strebungen, gegen die wir ank\u00e4mpfen. Man muss zugeben, sie sind der Natur n\u00e4her als unser Widerstand dagegen, f\u00fcr den wir auch noch eine Erkl\u00e4rung finden m\u00fcssen.<\/p>\n<p>(\u00a7F12)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Vielleicht haben Sie den Eindruck, unsere Theorien seien eine Art von Mythologie, nicht einmal eine erfreuliche in diesem Fall. Aber l\u00e4uft nicht jede Naturwissenschaft auf eine solche Art von Mythologie hinaus? Geht es Ihnen heute in der Physik anders?<\/p>\n<p>(\u00a7F13)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Aus dem Vorstehenden entnehmen wir f\u00fcr unsere n\u00e4chsten Zwecke soviel, dass es keine Aussicht hat, die aggressiven Neigungen der Menschen abschaffen zu wollen. Es soll in gl\u00fccklichen Gegenden der Erde, wo die Natur alles, was der Mensch braucht, \u00fcberreichlich zur Verf\u00fcgung stellt, V\u00f6lkerst\u00e4mme geben, deren Leben am Sanftmut verl\u00e4uft, bei denen Zwang und Aggression unbekannt sind. Ich kann es kaum glauben, m\u00f6chte gern mehr \u00fcber diese Gl\u00fccklichen erfahren. Auch die Bolschewisten hoffen, dass sie die menschliche Aggression zum Verschwinden bringen k\u00f6nnen dadurch, dass sie die Befriedigung der materiellen Bed\u00fcrfnisse verb\u00fcrgen und sonst Gleichheit unter den Teilnehmern an der Gemeinschaft herstellen. Ich halte das f\u00fcr eine Illusion. Vorl\u00e4ufig sind sie auf das sorgf\u00e4ltigste bewaffnet und halten ihre Anh\u00e4nger nicht zum Mindesten durch den Hass gegen alle Au\u00dfenstehenden zusammen. \u00dcbrigens handelt es sich, wie Sie selbst bemerken, nicht darum, die menschliche Aggressionsneigung v\u00f6llig zu beseitigen; man kann versuchen sie soweit abzulenken, dass sie nicht ihren Ausdruck im Kriege finden muss.<\/p>\n<p>(\u00a7F14)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Von unserer mythologischen Trieblehre her finden wir leicht eine Formel f\u00fcr die indirekten Wege zur Bek\u00e4mpfung des Krieges. Wenn die Bereitwilligkeit zum Krieg ein Ausfluss des Destruktionstriebes ist, so liegt es nahe, gegen sie den Gegenspieler dieses Triebes, den Eros, anzurufen. Alles, was Gef\u00fchlsbindungen unter den Menschen herstellt, muss dem Krieg entgegenwirken. Diese Bindungen k\u00f6nnen von zweierlei Art sein. Erstens Beziehungen wie zu einem Liebesobjekt, wenn auch ohne sexuelle Ziele. Die Psychoanalyse braucht sich nicht zu sch\u00e4men, wenn sie hier von Liebe spricht, denn die Religion sagt dasselbe: Liebe Deinen N\u00e4chsten wie Dich selbst. Das ist nun leicht gefordert, aber schwer zu erf\u00fcllen. Die andere Art von Gef\u00fchlsbindung ist die durch Identifizierung. Alles was bedeutsame Gemeinsamkeiten unter den Menschen herstellt, ruft solche Gemeingef\u00fchle, Identifizierungen, hervor. Auf ihnen ruht zum guten Teil der Aufbau der menschlichen Gesellschaft.<\/p>\n<p>(\u00a7F15)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Einer Klage von Ihnen \u00fcber den Missbrauch der Autorit\u00e4t entnehme ich einen zweiten Wink zur indirekten Bek\u00e4mpfung der Kriegsneigung. Es ist ein St\u00fcck der angeborenen und nicht zu beseitigenden Ungleichheit der Menschen, dass sie in F\u00fchrer und in Abh\u00e4ngige zerfallen. Die letzteren sind die \u00fcbergro\u00dfe Mehrheit, sie bed\u00fcrfen einer Autorit\u00e4t, welche f\u00fcr sie Entscheidungen f\u00e4llt, denen sie sich meist bedingungslos unterwerfen. Hier w\u00e4re anzukn\u00fcpfen, man m\u00fcsste mehr Sorge als bisher aufwenden, um eine Oberschicht selbst\u00e4ndig Denkender, der Einsch\u00fcchterung unzug\u00e4nglicher, nach Wahrheit ringender Menschen zu erziehen, denen die Lenkung der unselbst\u00e4ndigen Massen zufallen w\u00fcrde. Dass die \u00dcbergriffe der Staatsgewalten und das Denkverbot der Kirche einer solchen Aufzucht nicht g\u00fcnstig sind, bedarf keines Beweises. Der ideale Zustand w\u00e4re nat\u00fcrlich eine Gemeinschaft von Menschen, die ihr Triebleben der Diktatur der Vernunft unterworfen haben. Nichts anderes k\u00f6nnte eine so vollkommene und widerstandsf\u00e4hige Einigung der Menschen hervorrufen, selbst unter Verzicht auf die Gef\u00fchlsbindungen zwischen ihnen. Aber das ist h\u00f6chstwahrscheinlich eine utopische Hoffnung. Die anderen Wege einer indirekten Verhinderung des Krieges sind gewiss eher gangbar, aber sie versprechen keinen raschen Erfolg. Ungern denkt man an<\/p>\n<p>M\u00fchlen, die so langsam mahlen, dass man verhungern k\u00f6nnte, ehe man das Mehl bekommt.<\/p>\n<p>(\u00a7F16)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Sie sehen, es kommt nicht viel dabei heraus, wenn man bei dringenden praktischen Aufgaben den weltfremden Theoretiker zu Rate zieht. Besser, man bem\u00fcht sich in jedem einzelnen Fall der Gefahr zur begegnen mit den Mitteln, die eben zur Hand sind. Ich m\u00f6chte aber noch eine Frage behandeln, die Sie in Ihrem Schreiben nicht aufwerfen und die mich besonders interessiert. Warum emp\u00f6ren wir uns so sehr gegen den Krieg, Sie und ich und so viele andere, warum nehmen wir ihn nicht hin wie eine andere der vielen peinlichen Notlagen des Lebens? Er scheint doch naturgem\u00e4\u00df, biologisch wohl begr\u00fcndet, praktisch kaum vermeidbar. Entsetzen Sie sich nicht \u00fcber meine Fragestellung. Zum Zweck einer Untersuchung darf man vielleicht die Maske einer \u00dcberlegenheit vornehmen, \u00fcber die man in Wirklichkeit nicht verf\u00fcgt. Die Antwort wird lauten, weil jeder Mensch ein Recht auf sein eigenes Leben hat, weil der Krieg hoffnungsvolle Menschenleben vernichtet, den einzelnen Menschen in Lagen bringt, die ihn entw\u00fcrdigen, ihn zwingt, andere zu morden, was er nicht will, kostbare materielle Werte, Ergebnis von Menschenarbeit, zerst\u00f6rt, u. a. mehr. Auch dass der Krieg in seiner gegenw\u00e4rtigen Gestaltung keine Gelegenheit mehr gibt, das alte heldische Ideal zu erf\u00fcllen, und dass ein zuk\u00fcnftiger Krieg infolge der Vervollkommnung der Zerst\u00f6rungsmittel die Ausrottung eines oder vielleicht beider Gegner bedeuten w\u00fcrde. Das ist alles wahr und scheint so unbestreitbar, dass man sich nur verwundert, wenn das Kriegf\u00fchren noch nicht durch allgemeine menschliche \u00dcbereinkunft verworfen worden ist. Man kann zwar \u00fcber einzelne dieser Punkte diskutieren. Es ist fraglich, ob die Gemeinschaft nicht auch ein Recht auf das Leben des Einzelnen haben soll; man kann nicht alle Arten von Krieg in gleichem Ma\u00df verdammen; solange es Reiche und Nationen gibt, die zur r\u00fccksichtslosen Vernichtung anderer bereit sind, m\u00fcssen diese anderen zum Krieg ger\u00fcstet sein. Aber wir wollen \u00fcber all das rasch hinweggehen, das ist nicht die Diskussion, zu der Sie mich aufgefordert haben. Ich ziele auf etwas anderes hin; ich glaube, der Hauptgrund, weshalb wir uns gegen den Krieg emp\u00f6ren, ist, dass wir nicht anders k\u00f6nnen. Wir sind Pazifisten, weil wir es aus organischen Gr\u00fcnden sein m\u00fcssen. Wir haben es dann leicht, unsere Einstellung durch Argumente zu rechtfertigen.<\/p>\n<p>(\u00a7F17)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Das ist wohl ohne Erkl\u00e4rung nicht zu verstehen. Ich meine das Folgende: Seit unvordenklichen Zeiten zieht sich \u00fcber die Menschheit der Proze\u00df der Kulturentwicklung hin. (Ich wei\u00df, andere hei\u00dfen ihn lieber: Zivilisation.) Diesem Proze\u00df verdanken wir das Beste, was wir geworden sind, und ein gut Teil von dem, woran wir leiden. Seine Anl\u00e4sse und Anf\u00e4nge sind dunkel, sein Ausgang ungewiss, einige seiner Charaktere leicht ersichtlich. Vielleicht f\u00fchrt er zum Erl\u00f6schen der Menschenart, denn er beeintr\u00e4chtigt die Sexualfunktion in mehr als einer Weise, und schon heute vermehren sich unkultivierte Rassen und zur\u00fcckgebliebene Schichten der Bev\u00f6lkerung st\u00e4rker als hochkultivierte. Vielleicht ist dieser Proze\u00df mit der Domestikation gewisser Tierarten vergleichbar; ohne Zweifel bringt er k\u00f6rperliche Ver\u00e4nderungen mit sich; man hat sich noch nicht mit der Vorstellung vertraut gemacht, dass die Kulturentwicklung ein solcher organischer Proze\u00df sei. Die mit dem Kulturprozess einhergehenden psychischen Ver\u00e4nderungen sind auff\u00e4llig und unzweideutig. Sie bestehen in einer fortschreitenden Verschiebung der Triebziele und Einschr\u00e4nkung der Triebregungen. Sensationen, die unseren Vorahnen lustvoll waren, sind f\u00fcr uns indifferent oder selbst unleidlich geworden; es hat organische Begr\u00fcndungen, wenn unsere ethischen und \u00e4sthetischen Idealforderungen sich ge\u00e4ndert haben. Von den psychologischen Charakteren der Kultur scheinen zwei die wichtigsten: die Erstarkung des Intellekts, der das Triebleben zu beherrschen beginnt, und die Verinnerlichung der Aggressionsneigung mit all ihren vorteilhaften und gef\u00e4hrlichen Folgen. Den psychischen Einstellungen, die uns der Kulturprozess aufn\u00f6tigt, widerspricht nun der Krieg in der grellsten Weise, darum m\u00fcssen wir uns gegen ihn emp\u00f6ren, wir vertragen ihn einfach nicht mehr, es ist nicht blo\u00df eine intellektuelle und affektive Ablehnung, es ist, bei uns Pazifisten eine konstitutionelle Intoleranz, eine Idiosynkrasie gleichsam in \u00e4u\u00dferster Vergr\u00f6\u00dferung. Und zwar scheint es, dass die \u00e4sthetischen Erniedrigungen des Krieges nicht viel weniger Anteil an unserer Auflehnung haben als seine Grausamkeiten.<\/p>\n<p>(\u00a7F18)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Wie lange m\u00fcssen wir nun warten, bis auch die Anderen Pazifisten werden? Es ist nicht zu sagen, aber vielleicht ist es keine utopische Hoffnung, dass der Einfluss dieser beiden Momente, der kulturellen Einstellung und der berechtigten Angst vor den Wirkungen eines Zukunftskrieges, dem Kriegf\u00fchren in absehbarer Zeit ein Ende setzen wird. Auf welchen Wegen oder Umwegen, k\u00f6nnen wir nicht erraten. Unterdes d\u00fcrfen wir uns sagen: Alles, was die Kulturentwicklung f\u00f6rdert, arbeitet auch gegen den Krieg.<\/p>\n<p>(\u00a7F19)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ich gr\u00fc\u00dfe Sie herzlich und bitte Sie um Verzeihung, wenn meine Ausf\u00fchrungen Sie entt\u00e4uscht haben.<\/p>\n<p>Ihr Sigmund Freud<\/p>\n<p><strong>NOTAS:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> O historiador ingl\u00eas Arnold Toynbee, refletindo sobre as caracter\u00edsticas das novas condi\u00e7\u00f5es da atividade b\u00e9lica escrevia, j\u00e1 na d\u00e9cada de 1970, que \u201ca bomba at\u00f4mica e nossas in\u00fameras outras armas de morte s\u00e3o capazes de liquidar, em outra guerra, n\u00e3o somente os beligerantes, mas a totalidade da ra\u00e7a humana\u201d (Toynbee, 1976, p.35).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> Norberto Bobbio chama de <em>consci\u00eancia at\u00f4mica<\/em> \u00e0 \u201cconscientiza\u00e7\u00e3o da novidade absoluta da guerra nuclear em rela\u00e7\u00e3o a todas as guerras do passado\u201d. (Bobbio, 2003, p. 26.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a> Bobbio, 2003, p. 26.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a> Em 1968 o Tratado de N\u00e3o-Prolifera\u00e7\u00e3o Nuclear (TNP, ou TNPN) limitou a cinco o n\u00famero de pa\u00edses chamados \u201cestados militarmente nucleares\u201d: EUA, R\u00fassia (ent\u00e3o URSS), Inglaterra, Fran\u00e7a e China. Eram todos os que j\u00e1 haviam realizado testes nucleares anteriores a 1\u00ba de janeiro de 1967. Por\u00e9m, muitos pa\u00edses n\u00e3o assinaram o Tratado (a Fran\u00e7a e China s\u00f3 o assinariam em 1992, e o Brasil em 1998). A Cor\u00e9ia do Norte j\u00e1 admitiu possuir armas nucleares, o Ir\u00e3 \u00e9 acusado de possu\u00ed-las. Israel e \u00c1frica do Sul provavelmente as possuem. A Ucr\u00e2nia, a Bielor\u00fassia e o Cazaquist\u00e3o possu\u00edam arsenais nucleares sob a antiga URSS. N\u00e3o se sabe ao certo o paradeiro dessas armas. (Vide NUCLEARFILES.ORG-timeline.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[v]<\/a> ONU-ASSEMBL\u00c9IA GERAL, 2002.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[vi]<\/a> NUCLEARFILES.ORG-<em>Arms Control?<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[vii]<\/a> Bobbio, 2002, p. 20.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[viii]<\/a> Mad Max 2, de 1982, e \u201cMad Max: Al\u00e9m da C\u00fapula do Trov\u00e3o\u201d, de 1985.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[ix]<\/a> Esse \u00e9 um tema central na correspond\u00eancia entre Einstein e Freud que vamos analisar.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[x]<\/a> Adams, 1987, p. 3.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[xi]<\/a> ADAMS, 1987, p. 3.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\">[xii]<\/a> ONU, (1945).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref13\" name=\"_edn13\">[xiii]<\/a> O nome completo \u00e9 D\u00e9cada Internacional da Cultura de Paz e N\u00e3o-Viol\u00eancia para as Crian\u00e7as do Mundo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref14\" name=\"_edn14\">[xiv]<\/a> ONU, 1999.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref15\" name=\"_edn15\">[xv]<\/a> ONU, 1999.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref16\" name=\"_edn16\">[xvi]<\/a> A ONU define Cultura de Paz da seguinte forma: \u201cUma Cultura de Paz \u00e9 um conjunto de valores, atitudes, tradi\u00e7\u00f5es, comportamentos e estilos de vida baseados: a)No respeito \u00e0 vida, no fim da viol\u00eancia e na promo\u00e7\u00e3o e pr\u00e1tica da n\u00e3o-viol\u00eancia por meio da educa\u00e7\u00e3o, do di\u00e1logo e da coopera\u00e7\u00e3o; b)No pleno respeito aos princ\u00edpios de soberania, integridade territorial e independ\u00eancia pol\u00edtica dos Estados e de n\u00e3o inger\u00eancia nos assuntos;\u00a0 c)que s\u00e3o, essencialmente, de jurisdi\u00e7\u00e3o interna dos Estados, em conformidade com a Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas e o direito internacional; d)No pleno respeito e na promo\u00e7\u00e3o de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais; e)No compromisso com a solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica dos conflitos; f)Nos esfor\u00e7os para satisfazer as necessidades de desenvolvimento e prote\u00e7\u00e3o do meio-ambiente para as gera\u00e7\u00f5es presente e futuras; g)No respeito e promo\u00e7\u00e3o do direito ao desenvolvimento; h)No respeito e fomento \u00e0 igualdade de direitos e oportunidades de mulheres e homens; i)No respeito e fomento ao direito de todas as pessoas \u00e0 liberdade de express\u00e3o, opini\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o; j)Na ades\u00e3o aos princ\u00edpios de liberdade, justi\u00e7a, democracia, toler\u00e2ncia, solidariedade, coopera\u00e7\u00e3o, pluralismo, diversidade cultural, di\u00e1logo e entendimento em todos os n\u00edveis da sociedade e entre as na\u00e7\u00f5es; e animados por uma atmosfera nacional e internacional que favore\u00e7a a paz. ONU, 1999.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref17\" name=\"_edn17\">[xvii]<\/a> <em>Por que a Guerra?<\/em>, em portugu\u00eas.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref18\" name=\"_edn18\">[xviii]<\/a> HOBSBAWM, 2000, p. 23.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref19\" name=\"_edn19\">[xix]<\/a> Gilles Lipovetsky comenta que ao longo da segunda metade do s\u00e9culo XX a l\u00f3gica do consumo de massa criou \u201cuma cultura em que a felicidade se sobrep\u00f5e \u00e0 ordem moral\u201d (LIPOVETSKY, 2005, p. 29).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref20\" name=\"_edn20\">[xx]<\/a> LIPOVETSKY, 2005, p. 29.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref21\" name=\"_edn21\">[xxi]<\/a> Id. Ibid., p. 29.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref22\" name=\"_edn22\">[xxii]<\/a> Nos Estados Unidos, segundo David Adams, \u201cO movimento pacifista americano foi virtualmente destru\u00eddo pelo anticomunismo dos anos cinq\u00fcenta\u201d (ADAMS, 1985, p. 12).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref23\" name=\"_edn23\">[xxiii]<\/a> Wallace foi vice de Roosevelt at\u00e9 1944, sendo substitu\u00eddo por Henry Truman. Com a morte de Roosevelt, algumas semanas antes da rendi\u00e7\u00e3o alem\u00e3 em 1945, Truman assumiu a presid\u00eancia e reelegeu-se na campanha eleitoral de 1948, derrotando Wallace que, com uma campanha de plataforma pacifista, conseguiu apenas um milh\u00e3o de votos. A sucess\u00e3o de Truman a Roosevelt havia gerado a bomba em Hiroxima e Nagazaki, e sua vit\u00f3ria em 1948 \u201cesquentaria a Guerra Fria\u201d (ADAMS, 1985, p. 11).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref24\" name=\"_edn24\">[xxiv]<\/a> Especialmente na Europa, a partir de 1950, com a forma\u00e7\u00e3o do Conselho da Paz Mundial, em Vars\u00f3via.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref25\" name=\"_edn25\">[xxv]<\/a> Bobbio, 2003, p. 26.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref26\" name=\"_edn26\">[xxvi]<\/a> HOBSBAWM, 2000, p. 58.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref27\" name=\"_edn27\">[xxvii]<\/a> Id. Ibid., p. 58.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref28\" name=\"_edn28\">[xxviii]<\/a> Id. Ibid., p. 20.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref29\" name=\"_edn29\">[xxix]<\/a> Id. Ibid., p. 20.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref30\" name=\"_edn30\">[xxx]<\/a> Id. Ibid., p. 20.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref31\" name=\"_edn31\">[xxxi]<\/a> Id. Ibid., p. 20.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref32\" name=\"_edn32\">[xxxii]<\/a> Id. Ibid., p. 20.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref33\" name=\"_edn33\">[xxxiii]<\/a> <em>Weltanschauung<\/em>, no plural <em>Weltanshcauungen<\/em>, \u00e9 um termo em alem\u00e3o j\u00e1 incorporado \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o erudita de outras l\u00ednguas, inclusive o portugu\u00eas. Trata-se da uni\u00e3o de duas palavras, como \u00e9 t\u00edpico no alem\u00e3o, para a constru\u00e7\u00e3o de um significado que vai al\u00e9m de ambas. Por um lado temos <em>Welt<\/em>, que significa <em>mundo<\/em>. Por outro, temos <em>Anschauung<\/em>, que pode ser vertido por\u00a0 vista; vis\u00e3o; olhar; perspectiva, panorama; contempla\u00e7\u00e3o; percep\u00e7\u00e3o, compreens\u00e3o; concep\u00e7\u00e3o; opini\u00e3o, ponto de vista; intui\u00e7\u00e3o; convic\u00e7\u00e3o; conclus\u00e3o; id\u00e9ia&#8230; Assim podemos entender por <em>Weltanschauung<\/em> uma concep\u00e7\u00e3o do universo e da rela\u00e7\u00e3o do ser humano com ele, especialmente uma concep\u00e7\u00e3o formulada a partir de um ponto de vista espec\u00edfico, individual ou coletivo. Tamb\u00e9m encontramos as palavras <em>cosmovis\u00e3o<\/em>, <em>mundivis\u00e3o<\/em> ou <em>mundivid\u00eancia<\/em> como tradu\u00e7\u00f5es do termo.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"#_ednref34\" name=\"_edn34\">[xxxiv]<\/a> O Google oferece uma rela\u00e7\u00e3o das principais universidades e institui\u00e7\u00f5es que oferecem cursos em educa\u00e7\u00e3o para a paz em seu diret\u00f3rio sobre Peace Studies. Dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/www.google.com\/Top\/Society\/Issues\/Peace\/Peace_Studies\/\" >http:\/\/www.google.com\/Top\/Society\/Issues\/Peace\/Peace_Studies\/<\/a>. Acesso em 10\/12\/05. No Brasil, a Universidade Federal de Sergipe oferece um programa de mestrado em Educa\u00e7\u00e3o para a Paz, em conv\u00eanio com a Universidade da Paz, da \u00c1ustria.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref35\" name=\"_edn35\">[xxxv]<\/a> Realizada em 18 de novembro de 2005, a partir do Google.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref36\" name=\"_edn36\">[xxxvi]<\/a> Estudos da paz.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref37\" name=\"_edn37\">[xxxvii]<\/a> Educa\u00e7\u00e3o para a paz.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref38\" name=\"_edn38\">[xxxviii]<\/a> Cultura de paz.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref39\" name=\"_edn39\">[xxxix]<\/a> Acesso em 10\/12\/05.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"#_ednref40\" name=\"_edn40\">[xl]<\/a> Principalmente junto \u00e0 comunidade bah\u00e1\u2019\u00ed (<a href=\"http:\/\/www.bahai.org\/\" >www.bahai.org<\/a>; <u>www.bahai.org..br<\/u>), como consultor da ONU e do MEC, e como integrante de v\u00e1rias iniciativas n\u00e3o-governamentais pela paz, como a Redepaz (<u>www.redepaz.org<\/u>), o Conselho para a Educa\u00e7\u00e3o Global (<u>www.globaleducation.org<\/u>) e o Instituto Anima Mundi (<u>www.animamundi.org.br<\/u>).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref41\" name=\"_edn41\">[xli]<\/a> Analytical framework.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref42\" name=\"_edn42\">[xlii]<\/a> US DEPARTMENTO OF ENERGY.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref43\" name=\"_edn43\">[xliii]<\/a> Em alem\u00e3o: \u201cPor que a Guerra?\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref44\" name=\"_edn44\">[xliv]<\/a> Einstein, 1932, par\u00e1grafo 6. Iremos aqui fazer refer\u00eancia a estes par\u00e1grafos apenas com atrav\u00e9s do c\u00f3digo \u00a7E1 ou \u00a7F1 onde \u201cE\u201d identifica os par\u00e1grafos da carta de Einstein e \u201cF\u201d os de Freud. O n\u00famero que se segue \u00e0s iniciais dos dois autores identifica o par\u00e1grafo, excluindo-se as invoca\u00e7\u00f5es de ambas as cartas, conformes apresentadas na \u00edntegra no cap\u00edtulo 3.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref45\" name=\"_edn45\">[xlv]<\/a> \u00a7E6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref46\" name=\"_edn46\">[xlvi]<\/a> \u00a7E6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref47\" name=\"_edn47\">[xlvii]<\/a> Gay, 2004, p. 415-6;<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref48\" name=\"_edn48\">[xlviii]<\/a> \u00a7F12 e \u00a7F14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref49\" name=\"_edn49\">[xlix]<\/a> Como colocou o historiador ingl\u00eas J.M. Roberts, Freud \u201cmerece um lugar na hist\u00f3ria da cultura ao lado de Newton ou Darwin, porque ele alterou a maneira como as pessoas instru\u00eddas pensam de si mesmas\u201d (Roberts, 1993, p. 757).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref50\" name=\"_edn50\">[l]<\/a> \u00a7F1.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref51\" name=\"_edn51\">[li]<\/a> \u00a7F1.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref52\" name=\"_edn52\">[lii]<\/a> Max Schur, m\u00e9dico e bi\u00f3grafo de Freud, aponta este seu tra\u00e7o caracter\u00edstico como evid\u00eancia do \u201clugar que a escrita ocupava em seu sistema mental\u201d. Vide SCHUR, 1972, p. 416.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref53\" name=\"_edn53\">[liii]<\/a> \u00a7F19.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref54\" name=\"_edn54\">[liv]<\/a> Nathan e Norden, 1981, p. 191<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref55\" name=\"_edn55\">[lv]<\/a> Id. Ibid, p. 191.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref56\" name=\"_edn56\">[lvi]<\/a> \u00a7F14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref57\" name=\"_edn57\">[lvii]<\/a> \u00a7F14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref58\" name=\"_edn58\">[lviii]<\/a> \u00a7F14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref59\" name=\"_edn59\">[lix]<\/a> Nathan e Norden, 1981, caps. 3 e 8.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref60\" name=\"_edn60\">[lx]<\/a> Embora Einstein tenha aceitado prontamente o convite para fazer parte deste destacado grupo de intelectuais em 1922, sua participa\u00e7\u00e3o passou por altos e baixos, inclusive por um per\u00edodo de desligamento entre mar\u00e7o de 1923 e julho de 1924, devido ao seu descr\u00e9dito na capacidade da Liga das Na\u00e7\u00f5es para evitar a guerra. Mas Einstein nutria a esperan\u00e7a de que o Comit\u00ea pudesse, de alguma forma, influenciar a cultura e a pol\u00edtica na dire\u00e7\u00e3o da paz e, por isso, passou a valorizar cada vez mais o trabalho do Comit\u00ea (Nathan e Norden, 1981, p. 65).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref61\" name=\"_edn61\">[lxi]<\/a> Einstein escreveu que \u201ca melhor maneira de servir a causa da paz \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o pacifista militante, composta por eminentes artistas e eruditos\u201d, e imaginava que tal grupo \u201cindubitavelmente exerceria grande influ\u00eancia\u201d (Apud. Nathan e Norden, 1981, p. 183). Em v\u00e1rias outras correspond\u00eancias e pronunciamentos Einstein retomaria esta id\u00e9ia (Vide, em especial, Nathan e Norden, 1981, p. 183-4).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref62\" name=\"_edn62\">[lxii]<\/a> 1922-1930.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref63\" name=\"_edn63\">[lxiii]<\/a> Nathan e Norden, 1981, p. 183-4.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref64\" name=\"_edn64\">[lxiv]<\/a> Logo ap\u00f3s sua forma\u00e7\u00e3o, o Comit\u00ea recebera da Liga a incumb\u00eancia de \u201cencorajar uma troca de cartas entre l\u00edderes do pensamento, nos moldes do que sempre ocorrera nas grandes \u00e9pocas da hist\u00f3ria europ\u00e9ia; escolher os mais adequados assuntos para atender aos interesses comuns da Liga das Na\u00e7\u00f5es e da vida intelectual da humanidade; e a publicar esta correspond\u00eancia de tempos em tempos\u201d (Apud. Clark, 1972, p. 441-2. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref65\" name=\"_edn65\">[lxv]<\/a> Clark, 1972, p. 442<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref66\" name=\"_edn66\">[lxvi]<\/a> Por\u00e9m a correspond\u00eancia com Langevin nunca chegou a se concretizar.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref67\" name=\"_edn67\">[lxvii]<\/a> Clark, 1972, p. 197.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref68\" name=\"_edn68\">[lxviii]<\/a> Nathan e Norden, 1981, p. 112.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref69\" name=\"_edn69\">[lxix]<\/a> Outra interessante circunst\u00e2ncia \u00e9 relatada por Ronald Clark. Segundo ele, a id\u00e9ia de iniciar uma maior aproxima\u00e7\u00e3o com Freud deve ter sido \u201csemeada um tempo antes\u201d, depois de uma das reuni\u00f5es do Comit\u00ea de Coopera\u00e7\u00e3o Internacional. Num jantar, o Dr. Ernst Jackh, ex-diretor da <em>Hochschule f\u00fcr Politik <\/em>(Escola Superior de Pol\u00edtica) de Berlim, segundo seu pr\u00f3prio relato, perguntou a Einstein se ele \u201cconcordaria que n\u00e3o \u00e9 por simples acaso que sua Teoria da Relatividade, a Psican\u00e1lise do Professor Freud, a Liga das Na\u00e7\u00f5es e sua Corte Mundial, e outros desenvolvimentos de nossa \u00e9poca tenham todos acontecido em conjunto: que sejam todos express\u00e3o de uma mesma fase revolucion\u00e1ria pela qual o mundo atual est\u00e1 passando?\u201d Einstein, no momento, comentou que \u201cEsta vis\u00e3o assim sint\u00e9tica \u00e9 nova para mim\u201d, e pediu um tempo para pensar. O Dr. Jackh ent\u00e3o escreve que: \u201cAo observ\u00e1-lo durante o jantar, percebi que n\u00e3o comia nem bebia nada, mas ficava olhando para o vazio \u00e0 sua frente, meditando. Depois do jantar ele veio a mim e disse: <em>Voc\u00ea est\u00e1 muito certo: eu concordo com seu Holismo<\/em>\u201d (Cita\u00e7\u00f5es: Apud. Clark, 1972, p. 443. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref70\" name=\"_edn70\">[lxx]<\/a> Clark, 1972, p. 445-6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref71\" name=\"_edn71\">[lxxi]<\/a> Para Einstein, a grande fama internacional veio em novembro de 1919, quando a <em>Royal Society of London <\/em>anunciou que medi\u00e7\u00f5es e c\u00e1lculos feitos no eclipse solar de 29 de maio daquele ano haviam confirmado as predi\u00e7\u00f5es feitas por Einstein em sua <em>Teoria Geral da Relatividade<\/em>, sobre a curvatura da luz ao atravessar um forte campo gravitacional. Em 1921 Einstein recebeu o pr\u00eamio Nobel de F\u00edsica. Freud, por sua vez, passou a ser cada vez mais citado e aceito mesmo nos meios intelectuais antes avessos a suas id\u00e9ias. Suas teorias haviam encontrado um cen\u00e1rio extremamente acolhedor no p\u00f3s-guerra, por explicarem, em grande medida, a irracionalidade da destrui\u00e7\u00e3o ocorrida na guerra. Como afirma o historiador J. M. Roberts, ele \u201cdeu ao s\u00e9culo XX uma linguagem\u201d (Roberts, 1993, p. 757).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref72\" name=\"_edn72\">[lxxii]<\/a> Apud. Clark, 1972, p. 197. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref73\" name=\"_edn73\">[lxxiii]<\/a> Fora as cartas p\u00fablicas sobre a guerra e a paz, a correspond\u00eancia entre ambos, at\u00e9 onde se pode saber, foi quase que exclusivamente restrita a troca de \u201cinteressantes mensagens por ocasi\u00e3o de anivers\u00e1rios e outras ocasi\u00f5es especiais\u201d (Nathan e Norden, 1981, p. 185. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa). Entretanto, o coment\u00e1rio mais longo sobre o sionismo, por parte de Freud, encontra-se justamente numa carta dele a Einstein, datada de 26 de fevereiro de 1930. Aparentemente, Einstein solicitara a Freud que fizesse uma declara\u00e7\u00e3o p\u00fablica sobre o assunto, mas ele n\u00e3o aceitou, argumentando que \u201cQuem quer influenciar uma multid\u00e3o deve ter algo ressonante, entusi\u00e1stico para dizer, e minha s\u00f3bria avalia\u00e7\u00e3o do sionismo n\u00e3o permite isso\u201d (Apud. Gay, 2004, p. 541, nota).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref74\" name=\"_edn74\">[lxxiv]<\/a> O primeiro dos dois encontros pessoais registrados com seguran\u00e7a deu-se no inverno europeu de 1926-27. Freud e sua esposa haviam viajado a Berlim no Natal, retornando para Viena em 2 de janeiro. O objetivo era visitar dois de seus filhos e os quatro netos que residiam em Berlim. Freud e Martha estavam hospedado na casa de seu filho mais mo\u00e7o, Ernst, e foi visitados por Einstein e sua segunda esposa, Elsa. O encontro durou cerca de duas horas e parece ter sido agrad\u00e1vel para ambos (Jones, 1963, v. 3, p. 131). Em uma carta a George Sylvester Viereck, de 6 de novembro de 1929, Freud menciona que \u201cH\u00e1 v\u00e1rios anos atr\u00e1s tive uma longa conversa com ele [Einstein], durante a qual foi divertido perceber que ele n\u00e3o conhece mais de psicologia do que eu de matem\u00e1tica\u201d (Apud. Nathan e Norden, 1981, p. 185. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa). Muito provavelmente, Freud se referia ent\u00e3o a este encontro na virada de 1926-1927.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref75\" name=\"_edn75\">[lxxv]<\/a> Eduard (1910-1965), o <em>Tete<\/em>, filho mais mo\u00e7o de Einstein, ao contr\u00e1rio do pai, era um admirador inveterado de Freud. Ele manifestava a mesma paix\u00e3o pela psicologia que sua m\u00e3e, Mileva, primeira esposa de Einstein, havia demonstrado em sua juventude. Com cerca de 15 anos de idade, Tete expunha entusiasticamente as teorias de Freud a seus amigos. Mantinha uma foto de seu her\u00f3i sobre a cama e o considerava um daqueles grandes g\u00eanios que conseguiam, \u201catrav\u00e9s de poucas palavras, expor verdades profundas que convidavam a horas de reflex\u00e3o\u201d (Apud. Highfield e Carter, 1994, p. 233.). Por\u00e9m, quando <em>Tete<\/em>, em 1929, foi cursar medicina na Universidade de Zurique, com a clara inten\u00e7\u00e3o de se tornar um psiquiatra, Einstein desaprovou as inten\u00e7\u00f5es do filho, dizendo que \u201chavia lido os escritos de Freud, mas n\u00e3o se tinha convencido, e que acreditava que seus m\u00e9todos eram duvidosos \u2500 at\u00e9 enganadores\u201d (Apud. Id. Ibid., 1994, p. 233.). Tamb\u00e9m em 1929, numa entrevista publicada em 26 de outubro, Einstein comenta n\u00e3o estar \u201cpreparado para aceitar todas as suas conclus\u00f5es, mas considero seu trabalho uma contribui\u00e7\u00e3o imensamente valiosa para a ci\u00eancia do comportamento humano\u201d (Apud. Calaprice, 2005, p. 78-9). (A tradu\u00e7\u00e3o das cita\u00e7\u00f5es \u00e9 nossa.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref76\" name=\"_edn76\">[lxxvi]<\/a> Escrevendo a Meng em 15 de fevereiro de 1928, ele dizia n\u00e3o poder oferecer nenhum parecer confi\u00e1vel sobre a verdade da doutrina de Freud, \u201cmuito menos oferecer um veredicto que tivesse alguma autoridade para outros\u201d. Ademais, Einstein advertia que lhe parecia dif\u00edcil que um psic\u00f3logo como Freud pudesse ser eleg\u00edvel para o Pr\u00eamio Nobel de Medicina, \u201cque suponho, \u00e9 o \u00fanico que poderia ser considerado\u201d (Apud. Gay, 2004, p. 416n.). O grande romancista alem\u00e3o, Thomas Mann, tamb\u00e9m havia condicionado seu apoio \u00e0 indica\u00e7\u00e3o de Freud para o pr\u00eamio de medicina. Ironicamente, esta era uma categoria imposs\u00edvel para sua nomea\u00e7\u00e3o, pois o psiquiatra perito consultado pela Academia havia descartado Freud como um embusteiro e uma \u201camea\u00e7a\u201d (Gay, 2004, p. 416n.). Por isso, a \u00fanica categoria que restaria seria a literatura. Como sabemos, Freud acabou falecendo sem ter seu nome elevado ao pante\u00e3o dos recebedores do Nobel, apesar de ter recebido o prestigiado Pr\u00eamio Goethe, na Alemanha, justamente por sua per\u00edcia liter\u00e1ria.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref77\" name=\"_edn77\">[lxxvii]<\/a> Todas as cita\u00e7\u00f5es apud. Gay, 2004, p. 520.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref78\" name=\"_edn78\">[lxxviii]<\/a> Schur, 1972, p. 479.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref79\" name=\"_edn79\">[lxxix]<\/a> Cosmovis\u00e3o; mundivis\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref80\" name=\"_edn80\">[lxxx]<\/a> Em tradu\u00e7\u00f5es mais antigas e inadequadas, a palavra seria \u201crepress\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref81\" name=\"_edn81\">[lxxxi]<\/a> Cita\u00e7\u00f5es apud. Jones, 1963, p. 203.; Freud, E., 1964, p. 428. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref82\" name=\"_edn82\">[lxxxii]<\/a> Cita\u00e7\u00f5es apud. Jones, 1963, v. 3, p. 203-4. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref83\" name=\"_edn83\">[lxxxiii]<\/a> Numa carta para A. Bacharach, de 25 de julho de 1949, Einstein dizia que \u201co velho senhor [&#8230;] tinha uma vis\u00e3o agu\u00e7ada; nenhuma ilus\u00e3o o embalava, a n\u00e3o ser uma f\u00e9 seguidamente exagerada em suas pr\u00f3prias id\u00e9ias\u201d. E menos de um ano e meio antes de falecer, ele diria a uma amiga, Johanna Fantova: \u201cFreud era brilhante, mas muito de sua teoria \u00e9 tolice, e \u00e9 por isso que sou contr\u00e1rio a que voc\u00ea fa\u00e7a an\u00e1lise\u201d. (Cita\u00e7\u00f5es apud. Calaprice, 2005, p. 79. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref84\" name=\"_edn84\">[lxxxiv]<\/a> Tanto a carta de Einstein quanto a de Freud est\u00e3o aqui sendo traduzidas por n\u00f3s diretamente do alem\u00e3o, com consulta a tradu\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis para o ingl\u00eas e o espanhol. H\u00e1 muito est\u00e1vamos inteirados, pela obra de Bruno Bettelheim publicada em ingl\u00eas como <em>Freud &amp; Man\u2019s Soul<\/em>, de1982, a respeito dos problemas de tradu\u00e7\u00e3o da obra de Freud para o ingl\u00eas, uma tradu\u00e7\u00e3o que serviu de base para a vers\u00e3o em portugu\u00eas da Edi\u00e7\u00e3o <em>Standard<\/em> das obras completas de Freud. Portanto, se n\u00e3o pod\u00edamos nos basear com confian\u00e7a na tradu\u00e7\u00e3o inglesa, tampouco era poss\u00edvel faz\u00ea-lo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vers\u00e3o em portugu\u00eas que brotara dela. A carta de Einstein pode ser encontrada em portugu\u00eas em algumas vers\u00f5es na Internet (n\u00e3o a encontramos em nenhum dos livros dispon\u00edveis em portugu\u00eas), por\u00e9m elas apresentavam defeitos de tradu\u00e7\u00e3o semelhantes \u00e0queles que gostar\u00edamos de corrigir nas tradu\u00e7\u00f5es de Freud. Al\u00e9m disso, o fato de n\u00e3o existirem tradu\u00e7\u00f5es da carta de Freud e da de Einstein pelo mesmo tradutor faz com que existam naturais disparidades nos crit\u00e9rios de tradu\u00e7\u00e3o, o que inevitavelmente acarreta d\u00favidas sobre os conceitos expressos por ambos. Assim, se tom\u00e1ssemos as tradu\u00e7\u00f5es existentes, j\u00e1 come\u00e7ar\u00edamos com uma assimetria indesej\u00e1vel. Por essas raz\u00f5es, sentimos ser necess\u00e1rio empreender a tradu\u00e7\u00e3o de ambas as cartas a partir dos originais em alem\u00e3o, apesar dos riscos inerentes a esta tarefa. O fato de termos forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica em tradu\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o, com v\u00e1rios anos de experi\u00eancia no campo e com v\u00e1rios livros traduzidos deu-nos coragem suficiente para empreender a tarefa. Os equ\u00edvocos de tradu\u00e7\u00e3o que buscamos remediar baseiam-se principalmente nos argumentos de Bruno Bettelheim, eminente psic\u00f3logo e fluente em alem\u00e3o, e de Luiz Alberto Hanns, respons\u00e1vel por excelentes estudos e novas vers\u00f5es dos textos de Freud em portugu\u00eas. Para um aprofundamento nessa quest\u00e3o, vide BETTELHEIM, 2002 e HANNS, 1996, 2004a, 2004b.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref85\" name=\"_edn85\">[lxxxv]<\/a> A numera\u00e7\u00e3o dos par\u00e1grafos \u00e9 nossa e objetiva facilitar a refer\u00eancia. Usamos o esquema (\u00a7E1 ou \u00a7F1) no in\u00edcio de cada par\u00e1grafo, onde \u201cE\u201d identifica os par\u00e1grafos da carta de Einstein e \u201cF\u201d os de Freud. O n\u00famero que se segue \u00e0s iniciais dos dois autores identifica o par\u00e1grafo, excluindo-se as invoca\u00e7\u00f5es de ambas as cartas. Uma nota de rodap\u00e9 com a indica\u00e7\u00e3o de \u00a7F12, por exemplo, \u00e9 uma refer\u00eancia ao par\u00e1grafo 12 da carta de Freud; \u00a7E4 indica o quarto par\u00e1grafo da carta de Einstein.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref86\" name=\"_edn86\">[lxxxvi]<\/a> <em>Trieblebens<\/em>. N\u00e3o podemos concordar com a tradu\u00e7\u00e3o de <em>Trieblebens<\/em> como \u201cinstinctive life\u201d (NATHAN e NORDEN, 1981, p. 188), ou \u201cvida instintiva\u201d como seguem algumas das tradu\u00e7\u00f5es baseadas na vers\u00e3o <em>standard<\/em> dos escritos de Freud no ingl\u00eas. Em toda nossa tradu\u00e7\u00e3o sempre verteremos <em>Trieb<\/em> como \u201cpuls\u00e3o\u201d, ao inv\u00e9s de \u201cinstinto\u201d, conforme as vers\u00f5es contempor\u00e2neas mais cuidadosas fazem. Isso porque no conceito de <em>instinto<\/em> est\u00e1 impl\u00edcita uma impossibilidade de controle consciente, enquanto que em <em>puls\u00e3o<\/em> n\u00e3o. Em alem\u00e3o, <em>Trieb<\/em> \u00e9 um termo que associa uma for\u00e7a inconsciente a uma decis\u00e3o consciente do sujeito, assumindo, assim, um contexto complexo em termos de origem e efeito. Vide BETTELHEIM, 2002, e HANNS, 1996, 2004a, 2004b.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref87\" name=\"_edn87\">[lxxxvii]<\/a> <em>Handlungensfreiheit<\/em>. Liberdade de a\u00e7\u00e3o; no caso dos Estados: soberania.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref88\" name=\"_edn88\">[lxxxviii]<\/a> \u201cA uni\u00e3o faz a for\u00e7a\u201d. Em franc\u00eas no original.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref89\" name=\"_edn89\">[lxxxix]<\/a> <em>Strebungen<\/em>. Vertemos por <em>tend\u00eancias<\/em>, ou <em>propens\u00f5es<\/em>, em vez de <em>impulsos<\/em>, pois <em>impulso<\/em> tem uma conota\u00e7\u00e3o de ser repentino e incontrol\u00e1vel, id\u00e9ias essas n\u00e3o existentes no original alem\u00e3o, e que contrariam a inten\u00e7\u00e3o de Freud, que permeia toda a sua carta, de mostrar justamente que as tend\u00eancias agressivas podem e devem ser controladas (embora n\u00e3o possam ser eliminadas). Vide coment\u00e1rios detalhados em BETTELHEIM, 2002 e HANNS, 1996, no respectivo voc\u00e1bulo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref90\" name=\"_edn90\">[xc]<\/a> Guerra e Paz, Livro III, Primeira Parte, I.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref91\" name=\"_edn91\">[xci]<\/a> GANDHI, 1968, p. 155. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref92\" name=\"_edn92\">[xcii]<\/a> BOBBIO, 2003.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref93\" name=\"_edn93\">[xciii]<\/a> EINSTEIN, 1932, \u00a7E1. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa. Todas as cita\u00e7\u00f5es de Einstein e de Freud referentes a <em>Warum Krieg?<\/em> , indicadas pela classifica\u00e7\u00e3o dos par\u00e1grafos que adotamos neste trabalho s\u00e3o tradu\u00e7\u00f5es nossas, conforme apresentadas nas se\u00e7\u00f5es 3.1 e 3.2. Por essa raz\u00e3o, iremos aqui fazer refer\u00eancia a estes par\u00e1grafos apenas, sem repetir, a cada refer\u00eancia de cita\u00e7\u00e3o, o ma\u00e7ante \u201ca tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref94\" name=\"_edn94\">[xciv]<\/a> \u00c9 interessante e importante essa delimita\u00e7\u00e3o proposta por Einstein. Norberto Bobbio, ao discorrer sobre a id\u00e9ia da paz e o pacifismo, justamente estabelece que \u201cNum discurso geral sobre a paz, os problemas a tratar s\u00e3o essencialmente dois: o da defini\u00e7\u00e3o (da paz) e o da avalia\u00e7\u00e3o\u201d (BOBBIO, 2003, p. 137).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref95\" name=\"_edn95\">[xcv]<\/a> \u00a7E8.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref96\" name=\"_edn96\">[xcvi]<\/a> \u00a7E8.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref97\" name=\"_edn97\">[xcvii]<\/a> \u00a7E8.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref98\" name=\"_edn98\">[xcviii]<\/a> BOBBIO, 2003, p. 137.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref99\" name=\"_edn99\">[xcix]<\/a> Id. Ibid., p. 138.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref100\" name=\"_edn100\">[c]<\/a> Id. Ibid., p.138.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref101\" name=\"_edn101\">[ci]<\/a> BOBBIO, 2003, p. 145.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref102\" name=\"_edn102\">[cii]<\/a> Ibid., p. 145.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref103\" name=\"_edn103\">[ciii]<\/a> BOBBIO, 2003, p. 155.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref104\" name=\"_edn104\">[civ]<\/a> Obtida na rela\u00e7\u00e3o entre estados soberanos.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref105\" name=\"_edn105\">[cv]<\/a> Esta modalidade de paz refere-se ao \u201cequil\u00edbrio do terror\u201d, ou \u201cd\u00e9tente\u201d, situa\u00e7\u00e3o especificamente criada pela possibilidade de aniquila\u00e7\u00e3o m\u00fatua atrav\u00e9s do uso de armamentos nucleares. Bobbio argumenta que, em vez de \u201cpaz de impot\u00eancia\u201d, na verdade poder-se-ia falar de \u201cpaz de superpot\u00eancia\u201d (BOBBIO, 2003, p. 154).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref106\" name=\"_edn106\">[cvi]<\/a> Em sua classifica\u00e7\u00e3o, Raymond Aron n\u00e3o relaciona nem a paz de exterm\u00ednio nem a confederativa, que s\u00e3o agregadas por Bobbio. Al\u00e9m disso, Bobbio considera a modalidade \u201cpaz de impot\u00eancia\u201d, apresentada por Aron, um pouco for\u00e7ada. Acreditamos que a tabela seja auto-explicativa, sem ser necess\u00e1rio apresentar cada uma das defini\u00e7\u00f5es em detalhes, pois n\u00e3o \u00e9 esse nosso foco aqui. Vide BOBBIO, 2003, p. 155.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref107\" name=\"_edn107\">[cvii]<\/a> \u00a7F7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref108\" name=\"_edn108\">[cviii]<\/a> Provavelmente Freud est\u00e1-se referindo \u00e0s invas\u00f5es dos turcos (s\u00e9culo X) e dos mong\u00f3is (s\u00e9culo XIII) ao imp\u00e9rio persa, e o longo per\u00edodo de decad\u00eancia que se seguiu na antiga Mesopot\u00e2mia.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref109\" name=\"_edn109\">[cix]<\/a> \u00a7F7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref110\" name=\"_edn110\">[cx]<\/a> CLARK, 1972, p. 427 et seq.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref111\" name=\"_edn111\">[cxi]<\/a> EINSTEIN, 1994, p. 148.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref112\" name=\"_edn112\">[cxii]<\/a> Id. Ibid., p. 148.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref113\" name=\"_edn113\">[cxiii]<\/a> Ambas as cita\u00e7\u00f5es de \u00a7E3.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref114\" name=\"_edn114\">[cxiv]<\/a> \u00a7E4.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref115\" name=\"_edn115\">[cxv]<\/a> \u00a7E4.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref116\" name=\"_edn116\">[cxvi]<\/a> FRANK, 2002, p. 147. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref117\" name=\"_edn117\">[cxvii]<\/a> \u00a7F8.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref118\" name=\"_edn118\">[cxviii]<\/a> \u00a7F8.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref119\" name=\"_edn119\">[cxix]<\/a> Erforderliche Macht.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref120\" name=\"_edn120\">[cxx]<\/a> \u00a7E4.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref121\" name=\"_edn121\">[cxxi]<\/a> \u00a7E4.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref122\" name=\"_edn122\">[cxxii]<\/a> FREUD, [1915b], p. 2109-10. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref123\" name=\"_edn123\">[cxxiii]<\/a> Id. Ibid., p. 2109-10. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref124\" name=\"_edn124\">[cxxiv]<\/a> \u00a7F8.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref125\" name=\"_edn125\">[cxxv]<\/a> \u00a7F8.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref126\" name=\"_edn126\">[cxxvi]<\/a> \u00a7F8.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref127\" name=\"_edn127\">[cxxvii]<\/a> \u00a7F8.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref128\" name=\"_edn128\">[cxxviii]<\/a> FREUD, [1915b], p. 2109-10. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref129\" name=\"_edn129\">[cxxix]<\/a> FREUD, [1915b], p. 2109-10. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref130\" name=\"_edn130\">[cxxx]<\/a> FREUD, 1996, v. 3, p. 2584.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref131\" name=\"_edn131\">[cxxxi]<\/a> Id. Ibid., v. 3, p. 2584.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref132\" name=\"_edn132\">[cxxxii]<\/a> FREUD, [1915b], p. 2109-10. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref133\" name=\"_edn133\">[cxxxiii]<\/a> Id. Ibid., p. 2109-10. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref134\" name=\"_edn134\">[cxxxiv]<\/a> FREUD, [1927], p. 334; [1927a], p. 2966. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref135\" name=\"_edn135\">[cxxxv]<\/a> FREUD, [1930], p. 474; [1930a], p. 3048. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref136\" name=\"_edn136\">[cxxxvi]<\/a> FREUD, [1927], p. 335; [1927a], p. 2967. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref137\" name=\"_edn137\">[cxxxvii]<\/a> BOBBIO, 2003, p. 93-115.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref138\" name=\"_edn138\">[cxxxviii]<\/a> Id. Ibid., p. 22.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref139\" name=\"_edn139\">[cxxxix]<\/a> Id. Ibid., p. 75.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref140\" name=\"_edn140\">[cxl]<\/a> Claro que existiam outras filosofias da hist\u00f3ria, como as religiosas (crist\u00e3, judaica, etc.), ou as idealistas (Hegel, Fichte), mas devemos lembrar que tanto Einstein quanto Freud (ainda mais que Einstein) eram profundamente influenciados, em suas forma\u00e7\u00f5es (<em>Bildungen<\/em>), n\u00e3o por concep\u00e7\u00f5es religiosas ou rom\u00e2nticas, mas pelo pensamento racionalista, laico e \u201ccient\u00edfico\u201d, que tinha no iluminismo, no positivismo e no marxismo seus expoentes m\u00e1ximos. Peter Gay fala de como Freud identificava-se com as \u201caspira\u00e7\u00f5es positivistas\u201d daqueles que tinham sido seus mestres, e como \u201cse empenhava em concretizar\u201d suas \u201cesperan\u00e7as e fantasias\u201d, raz\u00e3o pela qual \u201cnunca abandonou sua ambi\u00e7\u00e3o de fundar uma psicologia cient\u00edfica\u201d. (GAY, 2004, p. 88) Ronald Clark (1972, p. 34) salienta como Einstein, com apenas 13 anos de idade, apreciava Kant, e como \u201cKant passou a ser o fil\u00f3sofo preferido de Albert [Einstein]\u201d. (A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref141\" name=\"_edn141\">[cxli]<\/a> BOBBIO, 2003, p. 161.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref142\" name=\"_edn142\">[cxlii]<\/a> Segundo Bobbio, o iluminismo, o positivismo e o marxismo concordavam em \u201cconsiderar a paz o resultado inevit\u00e1vel do processo hist\u00f3rico e considerar esse processo uma forma de progresso, porque nele est\u00e1 inscrita como resultado necess\u00e1rio a transi\u00e7\u00e3o para uma sociedade na qual reinar\u00e1, embora por quest\u00f5es diversas, a paz perp\u00e9tua\u201d (BOBBIO, 2003, p. 162-3).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref143\" name=\"_edn143\">[cxliii]<\/a> Como coloca Bobbio, o procedimento intelectual t\u00edpico que caracteriza o pacifismo passivo \u00e9 \u201ca explica\u00e7\u00e3o e a interpreta\u00e7\u00e3o dos fatos\u201d, buscando, acima de tudo, \u201centender e fazer entender como se passam as coisas\u201d. Por isso, \u201cesgotou sua tarefa quando conseguiu demonstrar que a guerra n\u00e3o era mais necess\u00e1ria\u201d (Cita\u00e7\u00f5es de BOBBIO, 2003, p. 75).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref144\" name=\"_edn144\">[cxliv]<\/a> \u00a7F18.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref145\" name=\"_edn145\">[cxlv]<\/a> BOBBIO, 2003, p. 75.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref146\" name=\"_edn146\">[cxlvi]<\/a> Id. Ibid., p. 75.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref147\" name=\"_edn147\">[cxlvii]<\/a> Id. Ibid., p. 75.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref148\" name=\"_edn148\">[cxlviii]<\/a> Id. Ibid., p. 75.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref149\" name=\"_edn149\">[cxlix]<\/a> EINSTEIN, 2005, p. 161. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa. A \u00eanfase \u00e9 do autor.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref150\" name=\"_edn150\">[cl]<\/a> Como est\u00e1 expl\u00edcito na carta de Freud, ele confirma a tese central de Einstein, dizendo que \u201cCom rela\u00e7\u00e3o ao mundo de hoje [1932], s\u00f3 <em>existe realmente uma forma segura de se eliminar a guerra<\/em>: o estabelecimento volunt\u00e1rio de um poder central que tenha a palavra final em todas as disputas entre na\u00e7\u00f5es\u201d (\u00a7F8. A \u00eanfase \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref151\" name=\"_edn151\">[cli]<\/a> EINSTEIN, 2005, p. 93-115.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref152\" name=\"_edn152\">[clii]<\/a> Armamentos.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref153\" name=\"_edn153\">[cliii]<\/a> Estas tr\u00eas formas de pacifismo, ou de <em>vias para a paz<\/em>, na feliz express\u00e3o de Eco, n\u00e3o se excluem mutuamente, \u00e9 claro. Pelo contr\u00e1rio: o pacifismo institucional at\u00e9 mesmo exige o pacifismo instrumental, ou a pol\u00edtica do desarmamento; e encoraja, e at\u00e9 exige, o pacifismo \u00e9tico (BOBBIO, 2003, p. 22).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref154\" name=\"_edn154\">[cliv]<\/a> BOBBIO, 2003, p. 108.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref155\" name=\"_edn155\">[clv]<\/a> Id. Ibid., p. 108.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref156\" name=\"_edn156\">[clvi]<\/a> A possibilidade e facilidade de atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref157\" name=\"_edn157\">[clvii]<\/a> O poder para obter os resultados esperados.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref158\" name=\"_edn158\">[clviii]<\/a> BOBBIO, 2003, p. 112.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref159\" name=\"_edn159\">[clix]<\/a> Id. Ibid., p. 21.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref160\" name=\"_edn160\">[clx]<\/a> Id. Ibid., p. 112.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref161\" name=\"_edn161\">[clxi]<\/a> \u00a7E4.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref162\" name=\"_edn162\">[clxii]<\/a> \u00a7E5.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref163\" name=\"_edn163\">[clxiii]<\/a> \u00a7E2.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref164\" name=\"_edn164\">[clxiv]<\/a> \u00a7E4.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref165\" name=\"_edn165\">[clxv]<\/a> \u00a7E2.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref166\" name=\"_edn166\">[clxvi]<\/a> \u00a7E2.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref167\" name=\"_edn167\">[clxvii]<\/a> \u00a7E2.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref168\" name=\"_edn168\">[clxviii]<\/a> S\u00e3o dois \u201cmodos tradicionalmente recorrentes e contrapostos de considerar a natureza do homem, que apenas para nos entendermos chamaremos espiritualismo e materialismo\u201d (BOBBIO, 2003, p. 106).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref169\" name=\"_edn169\">[clxix]<\/a> BOBBIO, 2003, p. 106.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref170\" name=\"_edn170\">[clxx]<\/a> \u00c9 necess\u00e1rio apontar tamb\u00e9m, que o pacifismo \u00e9tico-religioso n\u00e3o se fundamenta exclusivamente em vis\u00f5es religiosas. Ele pode ser tamb\u00e9m explicado pelos modelos conceituais de uma \u00e9tica naturalista ou racionalista. Ou seja, o pacifismo \u00e9tico religioso n\u00e3o pressup\u00f5e, necessariamente, uma \u00e9tica religiosa, mas tamb\u00e9m se expressa em termos laicos, quase sempre de natureza idealista.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref171\" name=\"_edn171\">[clxxi]<\/a> BOBBIO, 2003, p. 106.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref172\" name=\"_edn172\">[clxxii]<\/a> BOBBIO, 2003, p. 22.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref173\" name=\"_edn173\">[clxxiii]<\/a> CLARK, 1972, p. 446.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref174\" name=\"_edn174\">[clxxiv]<\/a> Id. Ibid., p. 446. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref175\" name=\"_edn175\">[clxxv]<\/a> Women\u2019s International League for Peace and Freedom.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref176\" name=\"_edn176\">[clxxvi]<\/a> Einstein, apud. CLARK, 1972, p. 446-7. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref177\" name=\"_edn177\">[clxxvii]<\/a> Einstein, apud. CLARK, 1972, A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref178\" name=\"_edn178\">[clxxviii]<\/a> EINSTEIN, 1954, p. 94. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref179\" name=\"_edn179\">[clxxix]<\/a> Id. Ibid. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref180\" name=\"_edn180\">[clxxx]<\/a> Todas as cita\u00e7\u00f5es de \u00a7F7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref181\" name=\"_edn181\">[clxxxi]<\/a> Ronald Clark escreve que, na \u00e9poca da correspond\u00eancia com Freud, \u201cA id\u00e9ia da paz pela amea\u00e7a do terror n\u00e3o era bem acolhida por Einstein\u201d (CLARK, 1972, p. 445. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref182\" name=\"_edn182\">[clxxxii]<\/a> BOBBIO, 2003, p. 86.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref183\" name=\"_edn183\">[clxxxiii]<\/a> Sendo Joseph de Maistre (1753-1821) seu principal representante, especialmente nas passagens sobre a guerra em <em>As Noites de S\u00e3o Petesburgo<\/em> (1821). BOBBIO, Id. Ibid., p. 86-7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref184\" name=\"_edn184\">[clxxxiv]<\/a> BOBBIO, 2003, p. 87.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref185\" name=\"_edn185\">[clxxxv]<\/a> Id. Ibid., p. 76<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref186\" name=\"_edn186\">[clxxxvi]<\/a> Id. Ibid., p. 87-8.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref187\" name=\"_edn187\">[clxxxvii]<\/a> Principais representantes s\u00e3o: Nietzsche e Georges Sorel (1847-1922). BOBBIO, 2003, p. 93.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref188\" name=\"_edn188\">[clxxxviii]<\/a> Ou sociologia <em>desmistificadora<\/em>. Principais representantes: Gumplowicz (1838-1909) e Pareto (1848-1923). BOBBIO, 2003, p. 93.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref189\" name=\"_edn189\">[clxxxix]<\/a> Para Bobbio (2003), o pacifismo ativo coincide com o surgimento da consci\u00eancia at\u00f4mica (p. 95), e se apresenta sob a forma de pacifismo instrumental (p. 97-101); institucional (p. 101-4) e \u00e9tico-finalista (p. 104-8). Vide maiores detalhes sobre as formas de pacifismo ativo nos quadros 2 e 3 acima.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref190\" name=\"_edn190\">[cxc]<\/a> BOBBIO, 2003, p. 79-80.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref191\" name=\"_edn191\">[cxci]<\/a> Id. Ibid., p. 89.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref192\" name=\"_edn192\">[cxcii]<\/a> BOBBIO, 2003, p. 89-90.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref193\" name=\"_edn193\">[cxciii]<\/a> Id. Ibid., p. 86.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref194\" name=\"_edn194\">[cxciv]<\/a> Segundo Bobbio (2003, p. 90-92), os principais representantes da defesa da guerra para o progresso moral s\u00e3o: Wilhelm von Humboldt (1767-1835) , Hegel (1770-1831) e Nietzsche (1844-1900). Entre os que a defendiam como necess\u00e1ria para o progresso civil temos Carlo Cattaneo (1801-1869) e Victor Cousin (1792-1867). J\u00e1 a guerra como instrumento necess\u00e1rio do progresso t\u00e9cnico tem como principal representante Herbert Spencer (1820-1903).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref195\" name=\"_edn195\">[cxcv]<\/a> BOBBIO, 2003, p. 93.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref196\" name=\"_edn196\">[cxcvi]<\/a> Ou seja, a hist\u00f3ria ou a cultura s\u00e3o vistas como extens\u00e3o da natureza, buscando-se na natureza as leis fundamentais que guiam o desenvolvimento hist\u00f3rico e cultural. BOBBIO, 2003, p. 93.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref197\" name=\"_edn197\">[cxcvii]<\/a> Id. Ibid., p. 93.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref198\" name=\"_edn198\">[cxcviii]<\/a> Quando surgiu o belicista <em>Manifesto de Fulda<\/em>, tamb\u00e9m conhecido por \u201cManifesto ao Mundo Civilizado\u201d ou \u201cApelo ao Mundo da Cultura\u201d, publicado em outubro de 1914, logo ap\u00f3s o in\u00edcio da guerra, Einstein recusou-se a subscrev\u00ea-loEra um texto panflet\u00e1rio que buscava desacreditar as not\u00edcias atrozes da guerra (como a destrui\u00e7\u00e3o da Biblioteca de Leuven, na B\u00e9lgica, pelas for\u00e7as alem\u00e3s) e colocar a intelectualidade ao lado do militarismo alem\u00e3o. O <em>Manifesto de Fulda<\/em> foi subscrito por 93 intelectuais alem\u00e3es, muitos deles cientistas ilustres. O documento afirmava que \u201ca ci\u00eancia alem\u00e3 deveria estar a servi\u00e7o da p\u00e1tria e de suas for\u00e7as armadas\u201d. Num movimento diametralmente oposto, Georg Friedrich Nicolai, destacado pacifista e renomado m\u00e9dico da Universidade de Berlim, redigiu, alguns dias depois da publica\u00e7\u00e3o do <em>Manifesto de Fulda<\/em>, um contra-manifesto, intitulado \u201cO Internacionalismo e a Paz\u201d ou &#8220;Manifesto aos Europeus&#8221;. Nele, chamava os l\u00edderes educados da Europa \u2014 especificamente os cientistas e artistas \u2014 a abandonarem qualquer \u201cpaix\u00e3o nacionalista\u201d em prol do bem comum da cultura europ\u00e9ia e de uma alian\u00e7a transnacional[cxcviii]. Na carregada atmosfera do in\u00edcio da Primeira Guerra Mundial, t\u00e3o bem ilustrada pelos termos do <em>Manifesto de Fulda<\/em>, a iniciativa de Nicolai era verdadeiramente perigosa. Apenas tr\u00eas homens tiveram a convic\u00e7\u00e3o e a coragem para assinar o documento: o pr\u00f3prio Nicolai, F. W. F\u00f6rster e Albert Einstein. Nathan e Norden comentam que este pode ser considerado o primeiro documento pol\u00edtico assinado por Einstein. (NATHAN e NORDEN, 1981, p. 4)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref199\" name=\"_edn199\">[cxcix]<\/a> CLARK, 1972, p. 446.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref200\" name=\"_edn200\">[cc]<\/a> Lorde Brockway. Apud. CLARK, 1972, p. 448, e EINSTEIN, 2005, p. 157. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref201\" name=\"_edn201\">[cci]<\/a> No More War movement.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref202\" name=\"_edn202\">[ccii]<\/a> Einstein. Apud. CLARK, 1972, p. 447. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref203\" name=\"_edn203\">[cciii]<\/a> Einstein, citado por Lorde Brockway. Apud. CLARK, 1972, p. 448, e EINSTEIN, 2005, p. 157. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref204\" name=\"_edn204\">[cciv]<\/a> CLARK, 1972, p. 447.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref205\" name=\"_edn205\">[ccv]<\/a> Einstein, citado por Lorde Brockway. Apud. CLARK, 1972, p. 448, e EINSTEIN, 2005, p. 157. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref206\" name=\"_edn206\">[ccvi]<\/a> EINSTEIN, 2005, p. 158. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref207\" name=\"_edn207\">[ccvii]<\/a> Segundo Roland Clark (1972, p. 448), \u00e9 poss\u00edvel entender esta evolu\u00e7\u00e3o no pensamento pacifista de Einstein, pois, como ele coloca, \u201ctalvez no pacifismo, como no espa\u00e7o, n\u00e3o deveriam existir absolutos\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref208\" name=\"_edn208\">[ccviii]<\/a> FRANK, 2002, p. 154.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref209\" name=\"_edn209\">[ccix]<\/a> CLARK, 1972, p. 446.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref210\" name=\"_edn210\">[ccx]<\/a> Id. Ibid., p. 446.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref211\" name=\"_edn211\">[ccxi]<\/a> Id. Ibid., p. 158. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref212\" name=\"_edn212\">[ccxii]<\/a> Vide quadro n\u00famero 1.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref213\" name=\"_edn213\">[ccxiii]<\/a> NATHAN e NORDEN, 1981, p.252-3. Em 14 de julho de 1941, numa carta a um estudante da Universidade de Missouri, Einstein escreveu que \u201cPoder organizado somente pode ser combatido com poder organizado. Por mais que eu lamente isso, n\u00e3o h\u00e1 outra sa\u00edda\u201d (Einstein, apud. NATHAN e NORDEN, 1981, p. 319. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref214\" name=\"_edn214\">[ccxiv]<\/a> EINSTEIN, 2005, p. 158-9. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref215\" name=\"_edn215\">[ccxv]<\/a> Id. Ibid., p. 161. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa. As \u00eanfases s\u00e3o do autor.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref216\" name=\"_edn216\">[ccxvi]<\/a> Id. Ibid., p. 161. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa. As \u00eanfases s\u00e3o do autor.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref217\" name=\"_edn217\">[ccxvii]<\/a> Id. Ibid., p. 161. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa. As \u00eanfases s\u00e3o do autor.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref218\" name=\"_edn218\">[ccxviii]<\/a> CLARK, 1972, p. 659-710.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref219\" name=\"_edn219\">[ccxix]<\/a> Id. Ibid., p. 667. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref220\" name=\"_edn220\">[ccxx]<\/a> O Projeto <em>Manhattan<\/em> assumiu, no outono setentrional de 1942, o controle de todas as pesquisas sobre fiss\u00e3o nuclear que ocorriam nos EUA desde 1939. As pesquisas, antes sediadas em diversas universidades, foram assumidas pelo governo americano, com colabora\u00e7\u00e3o do Reino Unido e do Canad\u00e1. Em apenas tr\u00eas anos, o projeto Manhattan conseguiu garantir o desenho, a produ\u00e7\u00e3o e a detona\u00e7\u00e3o de tr\u00eas bombas nucleares em 1945: uma testada no deserto do Novo M\u00e9xico e duas detonadas sobre o Jap\u00e3o. No seu auge, em 1945, o projeto Manhattan empregou mais de 130.000 pessoas a um custo de dois bilh\u00f5es de d\u00f3lares, equivalentes a 20 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em 2004.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref221\" name=\"_edn221\">[ccxxi]<\/a> CLARK, 1972, p. 667. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref222\" name=\"_edn222\">[ccxxii]<\/a> Em 18 de maio de 1954, um ano antes de sua morte, ele escreveu a H. Herbert Fox: \u201cEu sempre fui um pacifista, ou seja, sempre me recusei a reconhecer a for\u00e7a bruta como um meio para a solu\u00e7\u00e3o de conflitos internacionais. Apesar disso, n\u00e3o me parece razo\u00e1vel o apego incondicional a este princ\u00edpio. Uma necess\u00e1ria exce\u00e7\u00e3o precisa ser feita quando um poder hostil amea\u00e7a a destrui\u00e7\u00e3o em massa do grupo ao qual se pertence\u201d (EINSTEIN, 2005, p. 161-2. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref223\" name=\"_edn223\">[ccxxiii]<\/a> EINSTEIN, 2005, p. 161. A tradu\u00e7\u00e3o e as \u00eanfases s\u00e3o nossas.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref224\" name=\"_edn224\">[ccxxiv]<\/a> Id. Ibid., p. 161-2. A tradu\u00e7\u00e3o e as \u00eanfases s\u00e3o nossas.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref225\" name=\"_edn225\">[ccxxv]<\/a> Einstein, apud. NATHAN e NORDEN, 1981, p. 278-9. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref226\" name=\"_edn226\">[ccxxvi]<\/a> Einstein, apud. Id. Ibid., p. 278-9. A tradu\u00e7\u00e3o e a \u00eanfase s\u00e3o nossas.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref227\" name=\"_edn227\">[ccxxvii]<\/a> Numa mensagem enviada a um encontro pela paz realizado no <em>Madison Square Garden<\/em> em 5 de abril de 1938, ele escreveu: \u201cMuitos americanos, mesmo pacifistas, est\u00e3o pensando e dizendo: \u201cdeixem que a Europa caia; ela merece tal destino; n\u00f3s devemos ficar de fora e n\u00e3o nos envolver nisso\u201d. Acredito que esta atitude seja n\u00e3o apenas indigna para os americanos, como tamb\u00e9m m\u00edope. \u00c9 indigno para uma grande na\u00e7\u00e3o cruzar os bra\u00e7os enquanto pequenos pa\u00edses de grande cultura est\u00e3o sendo destru\u00eddos num desprezo c\u00ednico pela justi\u00e7a. Tal atitude \u00e9 m\u00edope at\u00e9 mesmo do ponto de vista dos pr\u00f3prios interesses americanos, se vistos de forma esclarecida. O triunfo da barb\u00e1rie e da desumanidade s\u00f3 pode conduzir a uma situa\u00e7\u00e3o no mundo na qual a Am\u00e9rica ser\u00e1 for\u00e7ada a lutar, e em condi\u00e7\u00f5es muito mais desfavor\u00e1veis do que a maioria das pessoas pode sequer imaginar hoje em dia\u201d (Einstein, apud. NATHAN e NORDEN, 1981, p. 279. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref228\" name=\"_edn228\">[ccxxviii]<\/a> BOBBIO, 2003, p. 76.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref229\" name=\"_edn229\">[ccxxix]<\/a> Id. Ibid., p. 76.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref230\" name=\"_edn230\">[ccxxx]<\/a> Einstein, apud. NATHAN e NORDEN, 1981, p. 278-9. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref231\" name=\"_edn231\">[ccxxxi]<\/a> Segundo sua vis\u00e3o, algumas das guerras expansionistas \u201capressaram a transi\u00e7\u00e3o da for\u00e7a para a lei, pois criaram unidades sociais maiores, dentro de cujos limites o uso da for\u00e7a era proibido e um novo regime de direito resolvia as disputas\u201d. Assim, Freud consegue ver uma \u201cbonan\u00e7a\u201d na <em>pax romana<\/em>, e enxerga as origens de \u201cuma nova Fran\u00e7a, que floresceu em paz e unidade\u201d na \u201csede de grandeza dos reis franceses\u201d. (Cita\u00e7\u00f5es de \u00a7F7.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref232\" name=\"_edn232\">[ccxxxii]<\/a> \u00a7F7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref233\" name=\"_edn233\">[ccxxxiii]<\/a> \u00a7F7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref234\" name=\"_edn234\">[ccxxxiv]<\/a> Vide quadro 4 e texto correspondente.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref235\" name=\"_edn235\">[ccxxxv]<\/a> \u00a7F7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref236\" name=\"_edn236\">[ccxxxvi]<\/a> GAY, 2004, p. 324; BREGER, 2002, p. 238.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref237\" name=\"_edn237\">[ccxxxvii]<\/a> At\u00e9 1914, afirma Eric Hobsbawm, \u201ca paz era o quadro normal e esperado das vidas europ\u00e9ias. Desde 1815 n\u00e3o houvera nenhuma guerra envolvendo as pot\u00eancias europ\u00e9ias\u201d (HOBSBAWM, 2005, p. 418). Por essa raz\u00e3o, \u201ca cren\u00e7a de que uma guerra mundial n\u00e3o podia \u2018realmente\u2019 acontecer estava profundamente enraizada no tecido da vida\u201d (Id. Ibid., p. 450).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref238\" name=\"_edn238\">[ccxxxviii]<\/a> Louis Breger (2002, p.234) comenta que \u201ccenas de j\u00fabilo dominavam as capitais dos pa\u00edses beligerantes\u201d e que, neste ardor patri\u00f3tico, \u201cmesmo pacifistas e socialistas, que se haviam oposto \u00e0 Guerra e \u00e0 corrida armamentista europ\u00e9ia, fizeram coro nas amplas manifesta\u00e7\u00f5es de patriotismo\u201d (Id. Ibid., p.234. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref239\" name=\"_edn239\">[ccxxxix]<\/a> HOBSBAWM, 2005, p. 450.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref240\" name=\"_edn240\">[ccxl]<\/a> GAY, 2004, p. 323.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref241\" name=\"_edn241\">[ccxli]<\/a> Id. Ibid., p. 323.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref242\" name=\"_edn242\">[ccxlii]<\/a> Apesar de n\u00e3o se ter rendido \u201ctotalmente \u00e0 exalta\u00e7\u00e3o irracional, de cariz religioso, de um Rilke ou um Mann\u201d (GAY, 2004, p. 324), Freud tamb\u00e9m via na guerra \u201cuma tempestade\u201d que livraria a \u00c1ustria-Hungria de seus insalubres \u201cmiasmas\u201d (BREGER, 2000, p. 236. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa). Em 26 de julho de 1914, Freud escreveria a seu colega Karl Abraham que \u201cpela primeira vez em trinta anos eu me sinto um austr\u00edaco e penso em dar a este Imp\u00e9rio n\u00e3o muito promissor mais uma chance. O estado de \u00e2nimo, em todas as partes, est\u00e1 excelente!\u201d (Freud, apud. ROAZEN, 1971, p. 26; SCHUR, 1972, p. 289. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref243\" name=\"_edn243\">[ccxliii]<\/a> BREGER, 2000, p. 236; GAY, 2004, p. 323; HOBSBAWM, 2005, p. 448-9.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref244\" name=\"_edn244\">[ccxliv]<\/a> Freud, apud. BREGER, 2002, p. 237. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref245\" name=\"_edn245\">[ccxlv]<\/a> GAY, 2004, p. 324.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref246\" name=\"_edn246\">[ccxlvi]<\/a> Id. Ibid., p. 320.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref247\" name=\"_edn247\">[ccxlvii]<\/a> Para Freud, a <em>libido<\/em> \u00e9 a energia ou for\u00e7a pulsional da vida, basicamente de car\u00e1ter sexual. Gustav Jung, disc\u00edpulo e dissidente de Freud, deu-lhe significado mais amplo, entendendo a <em>libido<\/em> como uma energia ps\u00edquica, livre e criativa, que cada pessoa deve empregar no seu processo de auto-desenvolimento. Para Freud, a libido, contida no inconsciente do \u201cisso\u201d (ou, em tradu\u00e7\u00f5es antigas, \u201cid\u201d), pode entrar em conflito com as conven\u00e7\u00f5es da sociedade civilizada, donde adv\u00e9m as tens\u00f5es e perturba\u00e7\u00f5es que afetam tanto o indiv\u00edduo quanto a sociedade.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref248\" name=\"_edn248\">[ccxlviii]<\/a> Freud, apud. BREGER, 2000, p. 234; JONES, 1963, p. 171. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref249\" name=\"_edn249\">[ccxlix]<\/a> Erudito, s\u00e1bio. Em franc\u00eas no originial.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref250\" name=\"_edn250\">[ccl]<\/a> JONES, 1963, v. 2, p. 171. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref251\" name=\"_edn251\">[ccli]<\/a> HOBSBAWM, 2005, p. 449.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref252\" name=\"_edn252\">[cclii]<\/a> \u00a7F7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref253\" name=\"_edn253\">[ccliii]<\/a> \u00a7F16.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref254\" name=\"_edn254\">[ccliv]<\/a> \u00a7F16.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref255\" name=\"_edn255\">[cclv]<\/a> \u00a7E4.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref256\" name=\"_edn256\">[cclvi]<\/a> \u00a7E4.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref257\" name=\"_edn257\">[cclvii]<\/a> \u00aaE5.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref258\" name=\"_edn258\">[cclviii]<\/a> \u00a7E5.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref259\" name=\"_edn259\">[cclix]<\/a> \u00a7E7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref260\" name=\"_edn260\">[cclx]<\/a> \u00a7E7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref261\" name=\"_edn261\">[cclxi]<\/a> \u00a7E8.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref262\" name=\"_edn262\">[cclxii]<\/a> \u00a7F5.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref263\" name=\"_edn263\">[cclxiii]<\/a> Entendemos aqui sociedade como um \u201cconjunto de pessoas que vivem em certa faixa de tempo e espa\u00e7o, seguindo normas comuns, e que s\u00e3o unidas pelo sentimento de grupo\u201d, ou \u201cum grupo de indiv\u00edduos que vivem, por vontade pr\u00f3pria, sob normas comuns\u201d, conforme defini\u00e7\u00f5es provenientes da sociologia e apontadas pelo Dicion\u00e1rio Houaiss da L\u00edngua Portuguesa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref264\" name=\"_edn264\">[cclxiv]<\/a> \u00a7F5.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref265\" name=\"_edn265\">[cclxv]<\/a> \u00a7F5.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref266\" name=\"_edn266\">[cclxvi]<\/a> \u00a7F5.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref267\" name=\"_edn267\">[cclxvii]<\/a> \u00a7F6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref268\" name=\"_edn268\">[cclxviii]<\/a> \u00a7F6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref269\" name=\"_edn269\">[cclxix]<\/a> \u00a7F7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref270\" name=\"_edn270\">[cclxx]<\/a> \u00a7F6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref271\" name=\"_edn271\">[cclxxi]<\/a> \u00a7F6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref272\" name=\"_edn272\">[cclxxii]<\/a> \u00a7F6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref273\" name=\"_edn273\">[cclxxiii]<\/a> \u00a7F6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref274\" name=\"_edn274\">[cclxxiv]<\/a> \u00a7F6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref275\" name=\"_edn275\">[cclxxv]<\/a> Freud, claramente, est\u00e1 se referindo \u00e0queles per\u00edodos de <em>revolu\u00e7\u00e3o social<\/em> caracterizados por Marx em <em>Para a Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica<\/em>, quando escreveu: \u201cEm uma certa etapa de seu desenvolvimento, as for\u00e7as produtivas materiais da sociedade entram em contradi\u00e7\u00e3o com as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o existentes ou, o que nada mais \u00e9 do que a sua express\u00e3o jur\u00eddica, com as rela\u00e7\u00f5es de propriedade dentro das quais at\u00e9 ent\u00e3o se tinham movido. De formas de desenvolvimento das for\u00e7as produtivas estas rela\u00e7\u00f5es se transformam em seus grilh\u00f5es. <em>Sobrev\u00e9m, ent\u00e3o, uma \u00e9poca de revolu\u00e7\u00e3o social.<\/em> Com a transforma\u00e7\u00e3o da base econ\u00f4mica toda a enorme superestrutura se transforma com maior ou menor rapidez&#8230;\u201d. (MARX, [1859], p. 530-1).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref276\" name=\"_edn276\">[cclxxvi]<\/a> \u00a7F6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref277\" name=\"_edn277\">[cclxxvii]<\/a> \u00a7F6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref278\" name=\"_edn278\">[cclxxviii]<\/a> \u00a7F6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref279\" name=\"_edn279\">[cclxxix]<\/a> \u00a7F6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref280\" name=\"_edn280\">[cclxxx]<\/a> \u00a7F6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref281\" name=\"_edn281\">[cclxxxi]<\/a> BOBBIO, 2003, p. 101-104.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref282\" name=\"_edn282\">[cclxxxii]<\/a> Einstein, citado por Lorde Brockway. Apud. CLARK, 1972, p. 448, e EINSTEIN, 2005, p. 157. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref283\" name=\"_edn283\">[cclxxxiii]<\/a> LEDERACH, 1996, 2003. Segundo o autor, \u201cTransforma\u00e7\u00e3o de conflitos \u00e9 <em>visionar<\/em> o fluxo e refluxo de conflito social \u2014 <em>agindo em conseq\u00fc\u00eancia dele<\/em> \u2014 como <em>oportunidades estimulantes<\/em> para a cria\u00e7\u00e3o de <em>processos de mudan\u00e7a construtivos<\/em> que <em>reduzam a viol\u00eancia<\/em>, <em>aumentem a justi\u00e7a<\/em> tanto nas <em>rela\u00e7\u00f5es diretas<\/em> quanto nas <em>estruturas sociais<\/em>, e que sejam sens\u00edveis aos problemas nas <em>rela\u00e7\u00f5es humanas<\/em> existentes na vida real\u201d (LEDERACH, 2003, p. 14. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa. As \u00eanfases s\u00e3o do autor).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref284\" name=\"_edn284\">[cclxxxiv]<\/a> Johan Galtung, considerado o \u201cpai\u201d dos estudos sobre a constru\u00e7\u00e3o da paz, define viol\u00eancia como \u201co <em>dano evit\u00e1vel causado a necessidades humanas fundamentais <\/em>ou, para colocar em termos mais gerais, o dano \u00e0 <em>vida <\/em>humana, que diminua o grau efetivo no qual algu\u00e9m \u00e9 capaz de satisfazer suas necessidades para aqu\u00e9m daquele que de outra forma seria <em>poss\u00edvel<\/em>. A <em>amea\u00e7a <\/em>de viol\u00eancia \u00e9 tamb\u00e9m viol\u00eancia\u201d (GALTUNG, 1993, p. 106. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa). A divis\u00e3o b\u00e1sica que Galtung prop\u00f5e \u00e9 entre <em>viol\u00eancia direta<\/em> e <em>viol\u00eancia estrutural<\/em>. Enquanto a viol\u00eancia direta \u00e9 aquela causada pelas a\u00e7\u00f5es danosas de indiv\u00edduos ou grupos sociais claramente identific\u00e1veis, a viol\u00eancia estrutural nasce das caracter\u00edsticas embutidas na estrutura social de forma que n\u00e3o se podem identificar seus perpetradores. Entretanto, tendo em mente a defini\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia como algo \u201cevit\u00e1vel\u201d que prejudica a vida humana, Galtung argumenta que a viol\u00eancia estrutural tamb\u00e9m \u00e9 evit\u00e1vel, pois a sociedade pode ser estruturada de forma alternativa, de modo a evitarem-se os danos estruturais \u00e0 vida. Segundo Galtung, a viol\u00eancia estrutural est\u00e1 impregnada no sistema social e se expressa atrav\u00e9s da distribui\u00e7\u00e3o desigual de poder e, como resultado, de oportunidades, como, por exemplo, no acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, ao emprego, \u00e0 renda, \u00e0 moradia, etc. Neste sentido, a defini\u00e7\u00e3o de <em>viol\u00eancia estrutural<\/em> proposta por Galtung \u00e9 sin\u00f4nimo de <em>injusti\u00e7a social<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref285\" name=\"_edn285\">[cclxxxv]<\/a> Em 1935, Einstein (2005, p. 159) salientava que o pacifismo n\u00e3o chega a lugar algum se n\u00e3o \u201cenfrentar as causas econ\u00f4micas da guerra\u201d. Em 1952, ele dizia que, embora se identificasse quase completamente com as posturas de Gandhi em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da paz, ele \u201cresistiria com viol\u00eancia (individual e coletiva) a qualquer tentativa de matar a mim ou ao meu povo, ou de nos privar dos meios b\u00e1sicos de subsist\u00eancia\u201d (Id. Ibid., p. 160). \u00c9 evidente que \u201cas causas econ\u00f4micas das guerras\u201d e a priva\u00e7\u00e3o dos \u201cmeios b\u00e1sicos de subsist\u00eancia\u201d s\u00e3o elementos da <em>viol\u00eancia estrutural<\/em> apontada por Galtung, os quais apenas atrav\u00e9s de um processo de transforma\u00e7\u00e3o de conflitos podem chegar a evitar a guerra. (A tradu\u00e7\u00e3o das cita\u00e7\u00f5es \u00e9 nossa.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref286\" name=\"_edn286\">[cclxxxvi]<\/a> \u00a7F7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref287\" name=\"_edn287\">[cclxxxvii]<\/a> \u00a7F7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref288\" name=\"_edn288\">[cclxxxviii]<\/a> FREUD, [1915], p. 2101. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref289\" name=\"_edn289\">[cclxxxix]<\/a> Id. Ibid., p. 2117. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref290\" name=\"_edn290\">[ccxc]<\/a> Id. Ibid., p. 160. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref291\" name=\"_edn291\">[ccxci]<\/a> Id. Ibid., p. 160. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref292\" name=\"_edn292\">[ccxcii]<\/a> LEDERACH, 1996, 2003.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref293\" name=\"_edn293\">[ccxciii]<\/a> Vide Quadro 1 e an\u00e1lises subseq\u00fcentes.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref294\" name=\"_edn294\">[ccxciv]<\/a> Norberto Bobbio (2003, p. 26.) chama de <em>consci\u00eancia at\u00f4mica<\/em> \u00e0 \u201cconscientiza\u00e7\u00e3o da novidade absoluta da guerra nuclear em rela\u00e7\u00e3o a todas as guerras do passado\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref295\" name=\"_edn295\">[ccxcv]<\/a> BOBBIO, 2003, p. 53-62.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref296\" name=\"_edn296\">[ccxcvi]<\/a> Bobbio (2003, p. 53) define uma \u201cvia bloqueada\u201d no desenvolvimento hist\u00f3rico como \u201cuma via sem sa\u00edda, que n\u00e3o leva \u00e0 meta proposta e como tal deve ser abandonada\u201d. Tal no\u00e7\u00e3o de uma via hist\u00f3rica bloqueada, como a escravid\u00e3o, por exemplo, n\u00e3o expressa um conceito, mas uma imagem aproximativa, uma vez que a hist\u00f3ria humana \u201c\u00e9 t\u00e3o complicada que, n\u00e3o podendo exp\u00f4-la por conceitos, devemos contentar-nos com imagens aproximativas\u201d (Id. Ibid., p. 53), mas conscientes da diferen\u00e7a que passa entre uma imagem e um conceito. A aceita\u00e7\u00e3o de que a Hist\u00f3ria tenha vias bloqueadas, diante das quais a humanidade ou teve que, ou quis, interromper sua caminhada, para buscar um outro caminho melhor, como num labirinto, implica a aceita\u00e7\u00e3o de duas hip\u00f3teses \u201cambas n\u00e3o provadas e [n\u00e3o] prov\u00e1veis\u201d (Id. Ibid., p. 55): a) que o curso da hist\u00f3ria est\u00e1 em processo e b) que este processo \u00e9 irrevers\u00edvel. As v\u00e1rias filosofias historicistas (iluminista, rom\u00e2ntica, positivista, marxista, etc.) aceitam essa interpreta\u00e7\u00e3o. Contra ela se op\u00f5em as filosofias que concebem a hist\u00f3ria como uma absoluta conting\u00eancia, sem finalidade ou prop\u00f3sito que n\u00e3o a simples sucess\u00e3o de fatos (Id. Ibid., p. 55). \u00c9 claro que tanto Einstein quanto Freud t\u00eam o historicismo como parte de suas <em>Weltanschauungen<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref297\" name=\"_edn297\">[ccxcvii]<\/a> BOBBIO, 2003, p. 54.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref298\" name=\"_edn298\">[ccxcviii]<\/a> \u00a7E1.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref299\" name=\"_edn299\">[ccxcix]<\/a> \u00a7E1.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref300\" name=\"_edn300\">[ccc]<\/a> \u00a7F18.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref301\" name=\"_edn301\">[ccci]<\/a> EINSTEIN, 2005, p. 174. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref302\" name=\"_edn302\">[cccii]<\/a> Id. Ibid., p. 174. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref303\" name=\"_edn303\">[ccciii]<\/a> EINSTEIN, 1954, p. 94. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref304\" name=\"_edn304\">[ccciv]<\/a> Id. Ibid., p. 51. O autor salienta que estas tr\u00eas met\u00e1foras correspondem a \u201ctr\u00eas filosofias t\u00edpicas da hist\u00f3ria\u201d (Ibid. p. 51), mas que elas \u201cNaturalmente, n\u00e3o s\u00e3o as \u00fanicas\u201d (Ibid. p. 51). Bobbio deixa de fora \u201cnuma e noutra extremidade\u201d a \u201cconcep\u00e7\u00e3o religiosa, ou melhor, crist\u00e3, da hist\u00f3ria, para a qual a solu\u00e7\u00e3o [para a guerra] existe, mas est\u00e1 fora da hist\u00f3ria e o \u00fanico espectador \u00e9 Deus; e a concep\u00e7\u00e3o pessimista radical (<em>patragismo<\/em>), para a qual n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o existe solu\u00e7\u00e3o final, como n\u00e3o existem sequer solu\u00e7\u00f5es parciais, e n\u00e3o h\u00e1 outra condi\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser o sofrimento in\u00fatil, nem outra atitude poss\u00edvel a n\u00e3o ser a indiferen\u00e7a ou o desespero; e posto que haja um espectador, este ou est\u00e1 desatento ou \u00e9 impotente\u201d (Ibid. p. 51).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref305\" name=\"_edn305\">[cccv]<\/a> Bobbio (2003, p. 49) retira esta imagem de Wittgenstein, para quem \u201ca tarefa da filosofia \u00e9 ensinar a mosca a sair da garrafa\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref306\" name=\"_edn306\">[cccvi]<\/a> Bobbio coloca a guerra nuclear como uma das vias bloqueadas da hist\u00f3ria. Outras seriam a escravid\u00e3o, e, no Ocidente, a inferioridade institucionalizada da mulher.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref307\" name=\"_edn307\">[cccvii]<\/a> BOBBIO, 2003, p. 50.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref308\" name=\"_edn308\">[cccviii]<\/a> \u00a7E3.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref309\" name=\"_edn309\">[cccix]<\/a> CLARK, 1972, p. 713. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref310\" name=\"_edn310\">[cccx]<\/a> \u00a7E3.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref311\" name=\"_edn311\">[cccxi]<\/a> Como coloca Denis Brian, \u201cA partir de 1919, ele [Einstein] era, sem qualquer d\u00favida, o mais famoso e festejado cientista em todo o mundo, o mais amado e o mais odiado\u201d (BRIAN, 1996, p. 104. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref312\" name=\"_edn312\">[cccxii]<\/a> CLARK, 1972, p. 716.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref313\" name=\"_edn313\">[cccxiii]<\/a> \u00a7E2.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref314\" name=\"_edn314\">[cccxiv]<\/a> \u00a7E7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref315\" name=\"_edn315\">[cccxv]<\/a> <em>Zeitgem\u00e4sses \u00fcber Krieg und Tod<\/em>. FREUD, [1915b], 1996, v. 2, p. 2101-2117. O artigo era uma elabora\u00e7\u00e3o da palestra que Freud dera em 16 de fevereiro de 1915 na associa\u00e7\u00e3o judaica B\u2019nai B\u2019rith (BREGER, 2002, p. 240).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref316\" name=\"_edn316\">[cccxvi]<\/a> FREUD, 1996, v.2, p. 2104. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref317\" name=\"_edn317\">[cccxvii]<\/a> Id. Ibid., p. 2104. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref318\" name=\"_edn318\">[cccxviii]<\/a> FREUD, 1996, v.2, p. 2107. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref319\" name=\"_edn319\">[cccxix]<\/a> BREGER, 2002, p. 242. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref320\" name=\"_edn320\">[cccxx]<\/a> GAY, 2004, p. 324.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref321\" name=\"_edn321\">[cccxxi]<\/a> BREGER, 2002, p. 234. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref322\" name=\"_edn322\">[cccxxii]<\/a> Como coloca Breger, \u201cA guerra total teve o potencial de minar uma forma de pensamento que o havia animado e que representava uma parte central de sua identidade\u201d (BREGER, 2002, p. 240), fazendo surgir uma \u201cnova consci\u00eancia\u201d (Id. Ibid., p. 238) em Freud. (A tradu\u00e7\u00e3o das cita\u00e7\u00f5es \u00e9 nossa.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref323\" name=\"_edn323\">[cccxxiii]<\/a> FREUD, [1915b], 1996, v. 2, p. 2101-2117.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref324\" name=\"_edn324\">[cccxxiv]<\/a> Id. Ibid., p. 2102.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref325\" name=\"_edn325\">[cccxxv]<\/a> Causa um grande desconforto, hoje em dia, o despudor com que Freud fala da superioridade da ra\u00e7a branca e da cultura europ\u00e9ia, mas devemos lembrar que isso fazia parte integral da <em>Weltanschauung<\/em> da maioria dos pensadores no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. O <em>relativismo cultural<\/em>, a partir de Franz Boas, ficaria restrito \u00e0 academia durante boa parte dos anos 20 e 30. O <em>multiculturalismo<\/em> somente fincaria p\u00e9 no mundo a partir da d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref326\" name=\"_edn326\">[cccxxvi]<\/a> FREUD, 1996, v. 2, p. 2102.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref327\" name=\"_edn327\">[cccxxvii]<\/a> Id. Ibid., p. 2102.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref328\" name=\"_edn328\">[cccxxviii]<\/a> \u00a7F18.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref329\" name=\"_edn329\">[cccxxix]<\/a> \u00a7E1.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref330\" name=\"_edn330\">[cccxxx]<\/a> BOBBIO, 2003, p. 104-6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref331\" name=\"_edn331\">[cccxxxi]<\/a> \u00a7F9.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref332\" name=\"_edn332\">[cccxxxii]<\/a> \u00a7F9.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref333\" name=\"_edn333\">[cccxxxiii]<\/a> \u00a7F9.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref334\" name=\"_edn334\">[cccxxxiv]<\/a> Vide BETTELHEIM, 2002.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref335\" name=\"_edn335\">[cccxxxv]<\/a> Ele diz a Einstein que usa o termo <em>puls\u00e3o er\u00f3tica<\/em> \u201cno sentido do Eros nos Di\u00e1logos de Plat\u00e3o\u201d (\u00a7F9), nos quais Eros era muito mais do que simples atra\u00e7\u00e3o sexual. O sin\u00f4nimo <em>puls\u00e3o sexual<\/em>, \u00e9 apresentado, segundo Freud, \u201cnuma consciente amplia\u00e7\u00e3o do sentido popular de sexualidade\u201d (\u00a7F9).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref336\" name=\"_edn336\">[cccxxxvi]<\/a> \u00a7F9.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref337\" name=\"_edn337\">[cccxxxvii]<\/a> \u00a7F14. A \u00eanfase \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref338\" name=\"_edn338\">[cccxxxviii]<\/a> \u00a7F14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref339\" name=\"_edn339\">[cccxxxix]<\/a> \u00a7F14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref340\" name=\"_edn340\">[cccxl]<\/a> \u00a7F14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref341\" name=\"_edn341\">[cccxli]<\/a> \u00a7F10.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref342\" name=\"_edn342\">[cccxlii]<\/a> \u00a7F10.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref343\" name=\"_edn343\">[cccxliii]<\/a> \u00a7F10.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref344\" name=\"_edn344\">[cccxliv]<\/a> \u00a7F11.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref345\" name=\"_edn345\">[cccxlv]<\/a> GAY, 2004, p. 362-70.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref346\" name=\"_edn346\">[cccxlvi]<\/a> Id. Ibid., p. 368-9.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref347\" name=\"_edn347\">[cccxlvii]<\/a> \u00a7F11.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref348\" name=\"_edn348\">[cccxlviii]<\/a> \u00a7F11.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref349\" name=\"_edn349\">[cccxlix]<\/a> FREUD, [1920], p. 2526.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref350\" name=\"_edn350\">[cccl]<\/a> Id. Ibid., p. 2526.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref351\" name=\"_edn351\">[cccli]<\/a> Id. Ibid., p. 2517.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref352\" name=\"_edn352\">[ccclii]<\/a> Freud, a Ernest Jones, apud. GAY, 2004, p. 369. Contudo, Freud nunca desenvolveu \u201calgo melhor\u201d e entregou-se a seu dualismo, Eros <em>versus<\/em> T\u00e2natos, \u201ccom toda a energia de que dispunha\u201d (Id. Ibid., p. 369), defendendo-o enfaticamente mesmo contra a resist\u00eancia de seus colegas analistas (Id. Ibid., p. 369). O problema \u00e9 que Freud, em <em>Al\u00e9m do Princ\u00edpio do Prazer<\/em> demonstrou-se \u201cmenos disposto a apresentar material cl\u00ednico do que na maioria de seus outros textos\u201d (Id. Ibid., p. 367), e Peter Gay comenta qu\u00e3o \u201cdesconcertantes s\u00e3o os v\u00f4os de imagina\u00e7\u00e3o a que Freud se entregou\u201d (Id. Ibid., p. 366). O pr\u00f3prio Max Schur, que \u201cn\u00e3o pode ser acusado de ler Freud de maneira desfavor\u00e1vel\u201d (Id. Ibid., p. 366. Nota de rodap\u00e9), escreveu que as conclus\u00f5es de Freud a respeito da puls\u00e3o de morte \u201cs\u00e3o um exemplo de racioc\u00ednio <em>ad hoc<\/em> para provar uma hip\u00f3tese pr\u00e9-concebida\u201d (Max Schur, apud. GAY, 2004, p. 366, nota de rodap\u00e9). Louis Breger, num olhar psicanal\u00edtico contempor\u00e2neo sobre a teoria da puls\u00e3o de morte, aponta para os v\u00e1rios \u201csaltos te\u00f3ricos\u201d (BREGER, 2000, p. 266. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa) dados por Freud em <em>Al\u00e9m do Princ\u00edpio do Prazer<\/em>, a ponto de revelar \u201cuma mir\u00edade de dificuldades l\u00f3gicas e factuais\u201d (Id. Ibid., p. 266. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa), de modo que sua proposi\u00e7\u00e3o de que \u201ca agress\u00e3o deriva de uma puls\u00e3o de morte simplesmente n\u00e3o funciona\u201d (Id. Ibid., p. 267. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa). Frank Sulloway faz uma retrospectiva da cr\u00edtica de v\u00e1rios autores ao longo das d\u00e9cadas, e diz que Ernest Becker resume o consenso contempor\u00e2neo sobre o assunto ao declarar que \u201cAs formula\u00e7\u00f5es tortuosas de Freud a respeito da puls\u00e3o de morte podem agora ser seguramente relegadas \u00e0 lata de lixo da hist\u00f3ria\u201d (SULLOWAY, 1979, p. 393-4. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref353\" name=\"_edn353\">[cccliii]<\/a> Para Peter Gay (2004, p. 364) e Louis Breger (2000, p. 267) a principal raz\u00e3o para Freud apresentar uma id\u00e9ia t\u00e3o radical como a da puls\u00e3o de morte parece ter sido, na verdade, de ordem pessoal. Como alguns psicanalistas, como Sabina Spielrein e Alfred Adler, j\u00e1 haviam exposto a id\u00e9ia de um impulso agressivo inato ao ser humano, Freud n\u00e3o teria querido aceitar uma posi\u00e7\u00e3o subalterna no desenvolvimento dos conceitos associados a uma puls\u00e3o destrutiva e, por isso \u201cprecisou fundamentar sua teoria naquilo que tinha a apar\u00eancia de princ\u00edpios <em>cient\u00edfico-biol\u00f3gicos<\/em>\u201d (Id. Ibid., p. 267. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref354\" name=\"_edn354\">[cccliv]<\/a> Mytologischen Trieblehre. \u00a7F14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref355\" name=\"_edn355\">[ccclv]<\/a> \u00a7F11.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref356\" name=\"_edn356\">[ccclvi]<\/a> \u00a7F13.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref357\" name=\"_edn357\">[ccclvii]<\/a> Como comenta Paul Roazen, \u201cFreud opunha-se \u00e0 nega\u00e7\u00e3o da inevitabilidade do egocentrismo e da legitimidade da agress\u00e3o\u201d (ROAZEN, 1971, p. 24. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref358\" name=\"_edn358\">[ccclviii]<\/a> FREUD, [1915b], p. 2104-17.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref359\" name=\"_edn359\">[ccclix]<\/a> Id. Ibid., p. 2114. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref360\" name=\"_edn360\">[ccclx]<\/a> Id. Ibid., p. 2105. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref361\" name=\"_edn361\">[ccclxi]<\/a> Id. Ibid., p. 2106-7. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref362\" name=\"_edn362\">[ccclxii]<\/a> Id. Ibid., p. 2106-7. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref363\" name=\"_edn363\">[ccclxiii]<\/a> Id. Ibid., p. 2107. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref364\" name=\"_edn364\">[ccclxiv]<\/a> Id. Ibid., p. 2107. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref365\" name=\"_edn365\">[ccclxv]<\/a> Id. Ibid., p. 2107. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref366\" name=\"_edn366\">[ccclxvi]<\/a> Freud alerta que \u201cas for\u00e7as pulsionais n\u00e3o s\u00e3o, em si, nem boas nem m\u00e1s. N\u00f3s as classificamos assim, e a suas manifesta\u00e7\u00f5es, segundo sua rela\u00e7\u00e3o com as necessidades e exig\u00eancias da comunidade humana\u201d (FREUD, [1915b], p. 2105. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref367\" name=\"_edn367\">[ccclxvii]<\/a> Id. Ibid., p. 2107. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref368\" name=\"_edn368\">[ccclxviii]<\/a> Id. Ibid., p. 2115. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref369\" name=\"_edn369\">[ccclxix]<\/a> CLARK, 1972, p. 445. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref370\" name=\"_edn370\">[ccclxx]<\/a> Id. Ibid., p. 445. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref371\" name=\"_edn371\">[ccclxxi]<\/a> FREUD, [1915b], p. 2114. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref372\" name=\"_edn372\">[ccclxxii]<\/a> Id. Ibid., p. 2114. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref373\" name=\"_edn373\">[ccclxxiii]<\/a> Id. Ibid., p. 2115.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref374\" name=\"_edn374\">[ccclxxiv]<\/a> BREGER, 2002, p. 242.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref375\" name=\"_edn375\">[ccclxxv]<\/a> FREUD, [1915b], p. 2117. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref376\" name=\"_edn376\">[ccclxxvi]<\/a> FREUD, [1915b], p. 2101. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref377\" name=\"_edn377\">[ccclxxvii]<\/a> \u00a7F13.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref378\" name=\"_edn378\">[ccclxxviii]<\/a> FREUD, [1915b], p. 2116. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref379\" name=\"_edn379\">[ccclxxix]<\/a> Id. Ibid., p. 2116. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref380\" name=\"_edn380\">[ccclxxx]<\/a> \u00a7F14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref381\" name=\"_edn381\">[ccclxxxi]<\/a> FREUD, [1915b], p. 2105.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref382\" name=\"_edn382\">[ccclxxxii]<\/a> Freud analisa que estes impulsos primitivos \u201cpassam por um longo caminho evolutivo antes de se manifestarem no ser humano adulto\u201d (FREUD, [1915b], p. 2105). Eles podem ser \u201cinibidos, dirigidos no sentido de outras finalidades e outros campos, mesclam-se, alteram seus objetos e revertem, at\u00e9 certo ponto, a seu possuidor\u201d (FREUD, [1915c], p. 147). Devido a esta longa e complexa g\u00eanese e matura\u00e7\u00e3o, das puls\u00f5es primitivas, Freud conclui que \u201cRaramente um ser humano \u00e9 totalmente bom ou mau; via de regra ele \u00e9 <em>bom<\/em> em rela\u00e7\u00e3o a determinada coisa e <em>mau<\/em> em rela\u00e7\u00e3o a outra, ou <em>bom<\/em> em certas circunst\u00e2ncias externas e decididamente <em>mau <\/em>em outras\u201d (FREUD, [1915b], p. 2105. As \u00eanfases s\u00e3o do autor). (A tradu\u00e7\u00e3o das cita\u00e7\u00f5es \u00e9 nossa.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref383\" name=\"_edn383\">[ccclxxxiii]<\/a> NATHAN e NORDEN, 1981, p. 377-9l.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref384\" name=\"_edn384\">[ccclxxxiv]<\/a> 1905-1999.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref385\" name=\"_edn385\">[ccclxxxv]<\/a> Entretanto, parece haver, em todo o relato de Montagu, uma s\u00e9rie de distor\u00e7\u00f5es e mal-entendidos. Em primeiro lugar, ao contr\u00e1rio do que Montagu expressa, Einstein n\u00e3o foi levado a crer numa puls\u00e3o de agress\u00e3o no ser humano por influ\u00eancia de Freud, mas, ao contr\u00e1rio, foi ele quem levantou, em sua carta a Freud, a hip\u00f3tese de que, ante a insanidade da guerra, a \u00fanica explica\u00e7\u00e3o \u00e9 que os seres humanos t\u00eam dentro de si impulsos dirigidos para o \u00f3dio e a destrui\u00e7\u00e3o (\u00a7E6). Em segundo lugar, em nenhum momento Freud ou Einstein falaram de <em>instintos<\/em> humanos, mas de <em>puls\u00f5es<\/em> humanas. A diferen\u00e7a conceitual entre estes termos parece ter escapado a Montagu, uma vez que a tradu\u00e7\u00e3o das obras de Freud para o ingl\u00eas cometia este equ\u00edvoco (Vide BETTELHEIM, 2002; HANNS, 1996, 2004a, 2004b).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref386\" name=\"_edn386\">[ccclxxxvi]<\/a> Ashley Montagu, apud. BRIAN, 1996, p. 377. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref387\" name=\"_edn387\">[ccclxxxvii]<\/a> EINSTEIN, 2005.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref388\" name=\"_edn388\">[ccclxxxviii]<\/a> Nota editorial, em: EINSTEIN, 2005, p. 165. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref389\" name=\"_edn389\">[ccclxxxix]<\/a> EINSTEIN, 2005, p. 165. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref390\" name=\"_edn390\">[cccxc]<\/a> BRIAN, 1996, p. 377-78. Os editores de <em>The New Quotable Einstein<\/em> (EINSTEIN, 2005) datam esta hipot\u00e9tica mudan\u00e7a de opini\u00e3o por parte de Einstein \u00e0 conversas mantidas com Montagu j\u00e1 em 1946, enquanto Denis Brian a localiza em 1949..<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref391\" name=\"_edn391\">[cccxci]<\/a> Numa carta de fevereiro de 1946, Einstein escrevia que \u201cDe fato, n\u00e3o tenho d\u00favidas de que as causas da guerra est\u00e3o profundamente arraigadas na natureza humana. Pode-se dizer, sem exagero, que a guerra \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o normal na vida dos povos primitivos\u201d (Einstein, apud. NATHAN e NORDEN, 1981, p. 369). Em fevereiro de 1948, respondendo a uma s\u00e9rie de perguntas que lhe foram feitas por um jornalista h\u00fangaro, Einstein reiterou sua cren\u00e7a na necessidade de um governo mundial, e que, se as medidas adequadas contra a guerra n\u00e3o fossem tomadas \u201ca natureza humana, sendo o que \u00e9, talvez tenda sempre para a guerra\u201d (Einstein, apud. Id. Ibid., p. 467). Numa longa carta a um correspondente em Nova Iorque, de 8 de julho de 1951, Einstein dizia que seu interlocutor n\u00e3o tinha \u201ca menor id\u00e9ia de como as pessoas realmente funcionam\u201d (Einstein, apud. Id. Ibid., p. 556-7) e que \u201cElas s\u00e3o governadas por paix\u00f5es, entre as quais o \u00f3dio e o ego\u00edsmo m\u00edope s\u00e3o dominantes\u201d \u00a0(Einstein, apud. Id. Ibid., p. 556-7). E completava afirmando que, embora as pessoas temam a guerra, \u201co fato \u00e9 que, devido \u00e0 sua estrutura psicol\u00f3gica inata, elas podem ser facilmente levadas a cometer qualquer loucura\u201d (Einstein, apud. Id. Ibid., p. 556-7) (A tradu\u00e7\u00e3o das cita\u00e7\u00f5es \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref392\" name=\"_edn392\">[cccxcii]<\/a> Einstein, apud. NATHAN e NORDEN, 1981, p. 566. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref393\" name=\"_edn393\">[cccxciii]<\/a> Einstein, apud. NATHAN e NORDEN, 1981, p. 568. A tradu\u00e7\u00e3o e a \u00eanfase s\u00e3o nossas.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref394\" name=\"_edn394\">[cccxciv]<\/a> Einstein, apud. Id. Ibid., p. 591. A tradu\u00e7\u00e3o e a \u00eanfase s\u00e3o nossas.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref395\" name=\"_edn395\">[cccxcv]<\/a> Einstein, apud. Id. Ibid., p. 261. A tradu\u00e7\u00e3o e a \u00eanfase s\u00e3o nossas.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref396\" name=\"_edn396\">[cccxcvi]<\/a> Todas as cita\u00e7\u00f5es do par\u00e1grafo s\u00e3o de Einstein, apud. NATHAN e NORDEN, 1981, p. 377-379. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref397\" name=\"_edn397\">[cccxcvii]<\/a> \u00a7F14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref398\" name=\"_edn398\">[cccxcviii]<\/a> \u00a7F14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref399\" name=\"_edn399\">[cccxcix]<\/a> Einstein, em seu texto <em>Por que o Socialismo?<\/em> (1949) escreve: \u201c\u00c9 nisso que aqueles que est\u00e3o lutando por melhorar a sorte do homem podem fundar suas esperan\u00e7as: os seres humanos <em>n\u00e3o<\/em> est\u00e3o condenados, em fun\u00e7\u00e3o de sua constitui\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, a aniquilar uns aos outros ou a ficar \u00e0 merc\u00ea de um cruel destino auto-infligido\u201d (EINSTEIN, c. 1954, p. 127. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa. A \u00eanfase \u00e9 do autor).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref400\" name=\"_edn400\">[cd]<\/a> BRIAN, 1996, p. 233. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref401\" name=\"_edn401\">[cdi]<\/a> \u00a7E7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref402\" name=\"_edn402\">[cdii]<\/a> \u00a7F5. A \u00eanfase \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref403\" name=\"_edn403\">[cdiii]<\/a> \u00a7F5. A \u00eanfase \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref404\" name=\"_edn404\">[cdiv]<\/a> \u00a7F5. A \u00eanfase \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref405\" name=\"_edn405\">[cdv]<\/a> \u00a7F5.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref406\" name=\"_edn406\">[cdvi]<\/a> \u00a7F6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref407\" name=\"_edn407\">[cdvii]<\/a> \u00a7F6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref408\" name=\"_edn408\">[cdviii]<\/a> FREUD, [1930], p. 481; [1930a], p. 3052; [1930b], p. 66.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref409\" name=\"_edn409\">[cdix]<\/a> Id. Ibid., p. 461; [1930a], p. 3040. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref410\" name=\"_edn410\">[cdx]<\/a> Vollsinnliche Liebe.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref411\" name=\"_edn411\">[cdxi]<\/a> FREUD, [1930], p. 461-2; [1930a], p. 3040-1. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref412\" name=\"_edn412\">[cdxii]<\/a> FREUD, [1930], p. 461-2; [1930a], p. 3040-1. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref413\" name=\"_edn413\">[cdxiii]<\/a> Id. Ibid., p. 461-2; [1930a], p. 3040-1. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref414\" name=\"_edn414\">[cdxiv]<\/a> Id. Ibid., p. 461-2; [1930a], p. 3040-1. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref415\" name=\"_edn415\">[cdxv]<\/a> Zielgehemmte Liebe.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref416\" name=\"_edn416\">[cdxvi]<\/a> Z\u00e4rtlichkeit<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref417\" name=\"_edn417\">[cdxvii]<\/a> FREUD, [1930], p. 461-2; [1930a], p. 3040-1. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref418\" name=\"_edn418\">[cdxviii]<\/a> Positiven Gef\u00fchle.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref419\" name=\"_edn419\">[cdxix]<\/a> FREUD, [1930], p. 461-2; [1930a], p. 3040-1. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref420\" name=\"_edn420\">[cdxx]<\/a> Zielgehemmte Liebe.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref421\" name=\"_edn421\">[cdxxi]<\/a> FREUD, [1930], p. 461-2; [1930a], p. 3040-1. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref422\" name=\"_edn422\">[cdxxii]<\/a> Id. Ibid., p. 461-2; [1930a], p. 3040-1. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref423\" name=\"_edn423\">[cdxxiii]<\/a> Id. Ibid., p. 461-2; [1930a], p. 3040-1. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref424\" name=\"_edn424\">[cdxxiv]<\/a> Id. Ibid., p. 461-2; [1930a], p. 3040-1. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref425\" name=\"_edn425\">[cdxxv]<\/a> \u00a7F8.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref426\" name=\"_edn426\">[cdxxvi]<\/a> FREUD, [1930], p. 458; [1930a], p. 3038. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref427\" name=\"_edn427\">[cdxxvii]<\/a> FREUD, [1930], p. 458; [1930a], p. 3038. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref428\" name=\"_edn428\">[cdxxviii]<\/a> Id. Ibid., p. 458; [1930a], p. 3038. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref429\" name=\"_edn429\">[cdxxix]<\/a> Id. Ibid., p. 460; [1930a], p. 3039. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref430\" name=\"_edn430\">[cdxxx]<\/a> Na mitologia grega, Ananke era a personifica\u00e7\u00e3o do destino, da necessidade e fado inalter\u00e1veis. Na mitologia romana, ela era chamada <em>Necessitas<\/em>, ou seja, <em>Necessidade<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref431\" name=\"_edn431\">[cdxxxi]<\/a> FREUD, [1930], p. 460; [1930a], p. 3039. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref432\" name=\"_edn432\">[cdxxxii]<\/a> Kulturgesellschaft. A tradu\u00e7\u00e3o por \u201csociedade civilizada\u201d, como alguns querem, poderia implicar uma conota\u00e7\u00e3o valorativa, enquanto que o que Freud diz em alem\u00e3o se aplica a qualquer grupo humano que mantenha la\u00e7os coletivos baseados em valores culturais, como tradi\u00e7\u00f5es ancestrais, princ\u00edpios religiosos, etc.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref433\" name=\"_edn433\">[cdxxxiii]<\/a> FREUD, [1930], p. 471; [1930a], p. 3046. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref434\" name=\"_edn434\">[cdxxxiv]<\/a> Id. Ibid., p. 471; [1930a], p. 3046. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref435\" name=\"_edn435\">[cdxxxv]<\/a> Triebhafte Leidenschaften.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref436\" name=\"_edn436\">[cdxxxvi]<\/a> Vern\u00fcnftige Interessen.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref437\" name=\"_edn437\">[cdxxxvii]<\/a> FREUD, [1930], p. 471; [1930a], p. 3046. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref438\" name=\"_edn438\">[cdxxxviii]<\/a> Macht der Liebe. FREUD, [1930], p. 460; [1930a], p. 3039. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref439\" name=\"_edn439\">[cdxxxix]<\/a> Indem sie ihre Liebe [&#8230;] in gleichem Masse auf alle Menschen richten.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref440\" name=\"_edn440\">[cdxl]<\/a> FREUD, [1930], p. 461; [1930a], p. 3040. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref441\" name=\"_edn441\">[cdxli]<\/a> Id. Ibid., p. 461; [1930a], p. 3040; [1930b], p. 56.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref442\" name=\"_edn442\">[cdxlii]<\/a> Id. Ibid., p. 481; [1930a], p. 3052. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref443\" name=\"_edn443\">[cdxliii]<\/a> \u00a7E7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref444\" name=\"_edn444\">[cdxliv]<\/a> \u00a7F14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref445\" name=\"_edn445\">[cdxlv]<\/a> \u00a7F14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref446\" name=\"_edn446\">[cdxlvi]<\/a> St\u00e4rkeste Befriedigungsgrebe.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref447\" name=\"_edn447\">[cdxlvii]<\/a> FREUD, [1930], p. 460; [1930a], p. 3040. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref448\" name=\"_edn448\">[cdxlviii]<\/a> Vorbild f\u00fcr alles Gl\u00fcck.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref449\" name=\"_edn449\">[cdxlix]<\/a> FREUD, [1930], p. 460; [1930a], p. 3040. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref450\" name=\"_edn450\">[cdl]<\/a> Id. Ibid. p. 461; [1930a], p. 3040; [1930b], p. 56.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref451\" name=\"_edn451\">[cdli]<\/a> Id. Ibid. p. 460-1; [1930a], p. 3040. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref452\" name=\"_edn452\">[cdlii]<\/a> Schwankungen.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref453\" name=\"_edn453\">[cdliii]<\/a> Entt\u00e4uschungen.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref454\" name=\"_edn454\">[cdliv]<\/a> FREUD, [1930], p. 461; [1930a], p. 3040. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref455\" name=\"_edn455\">[cdlv]<\/a> Eines gleichschwebenden, unbeirrbaren, z\u00e4rlichen Empfindens.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref456\" name=\"_edn456\">[cdlvi]<\/a> FREUD, [1930], p. 461; [1930a], p. 3040. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref457\" name=\"_edn457\">[cdlvii]<\/a> Id. Ibid., p. 461; [1930a], p. 3040. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref458\" name=\"_edn458\">[cdlviii]<\/a> Id. Ibid., p. 461; [1930a], p. 3040. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref459\" name=\"_edn459\">[cdlix]<\/a> \u00a7F14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref460\" name=\"_edn460\">[cdlx]<\/a> \u00a7F14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref461\" name=\"_edn461\">[cdlxi]<\/a> \u00a7F14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref462\" name=\"_edn462\">[cdlxii]<\/a> \u00a7F14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref463\" name=\"_edn463\">[cdlxiii]<\/a> \u00a7F7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref464\" name=\"_edn464\">[cdlxiv]<\/a> \u00a7F7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref465\" name=\"_edn465\">[cdlxv]<\/a> \u00a7F7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref466\" name=\"_edn466\">[cdlxvi]<\/a> Kleineren Kulturkreises.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref467\" name=\"_edn467\">[cdlxvii]<\/a> Trieb.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref468\" name=\"_edn468\">[cdlxviii]<\/a> FREUD, [1930], p. 473; [1930a], p. 3047-8]. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref469\" name=\"_edn469\">[cdlxix]<\/a> Narzissmus der kleinen Differenzen.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref470\" name=\"_edn470\">[cdlxx]<\/a> FREUD, [1930], p. 474; [1930a], p. 3048. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref471\" name=\"_edn471\">[cdlxxi]<\/a> Id. Ibid., p. 473; [1930a], p. 3048. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref472\" name=\"_edn472\">[cdlxxii]<\/a> EINSTEIN, 2005, p. 116-7<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref473\" name=\"_edn473\">[cdlxxiii]<\/a> \u00a7F8.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref474\" name=\"_edn474\">[cdlxxiv]<\/a> \u00a7F8.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref475\" name=\"_edn475\">[cdlxxv]<\/a> Em seu texto de 1934 sobre <em>As Escolas e o Problema da Paz<\/em>, Einstein diz que, na educa\u00e7\u00e3o, \u201cO esp\u00edrito de solidariedade internacional tamb\u00e9m deveria ser fortalecido e o chauvinismo nacional, combatido como uma for\u00e7a prejudicial que impede o progresso\u201d (EINSTEIN, 1996, p. 208). Em 3 de outubro de 1933, num discurso no Royal Albert Hall, em Londres, ele colocava que \u201cO nacionalismo, na minha opini\u00e3o, nada mais \u00e9 do que uma racionaliza\u00e7\u00e3o idealista para o militarismo e a agress\u00e3o\u201d (Id. Ibid., p. 181). Salientando essa necessidade de enfocar a identifica\u00e7\u00e3o entre os homens para al\u00e9m das fronteiras nacionais, Einstein, em uma entrevista publicada pelo <em>Survey Graphic<\/em> em agosto de 1935, dizia que \u201cA lealdade nacional \u00e9 limitada; os homens precisam ser ensinados a pensar em termos mundiais\u201d (Id. ibid, p. 181). (A tradu\u00e7\u00e3o das cita\u00e7\u00f5es \u00e9 nossa.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref476\" name=\"_edn476\">[cdlxxvi]<\/a> EINSTEIN, 1996, p. 180. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref477\" name=\"_edn477\">[cdlxxvii]<\/a> Vide Quadro 4.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref478\" name=\"_edn478\">[cdlxxviii]<\/a> FREUD, [1927], p. 326; [1927a], p. 2961. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref479\" name=\"_edn479\">[cdlxxix]<\/a> Id. Ibid. p. 326; [1927a], p. 2961. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref480\" name=\"_edn480\">[cdlxxx]<\/a> Id. Ibid. p. 326; [1927a], p. 2961. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref481\" name=\"_edn481\">[cdlxxxi]<\/a> Id. Ibid. p. 326; [1927a], p. 2961. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref482\" name=\"_edn482\">[cdlxxxii]<\/a> Em <em>O Mal-Estar na Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> (1930), Freud retoma esta defini\u00e7\u00e3o, com palavras apenas um pouco distintas. Ele diz que \u201c[&#8230;] o termo <em>cultura<\/em> designa a soma total das conquistas e institui\u00e7\u00f5es que distanciam nossa vida da de nossos ancestrais animais, e que servem para dois prop\u00f3sitos: proteger o homem contra a Natureza e regular as rela\u00e7\u00f5es dos homens entre si\u201d (FREUD, [1930], p. 448-9; [1930a], p. 3033. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref483\" name=\"_edn483\">[cdlxxxiii]<\/a> FREUD, [1927], p. 326; [1927a], p. 2961. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref484\" name=\"_edn484\">[cdlxxxiv]<\/a> \u00a7E3.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref485\" name=\"_edn485\">[cdlxxxv]<\/a> \u00a7E4.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref486\" name=\"_edn486\">[cdlxxxvi]<\/a> \u00a7E4.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref487\" name=\"_edn487\">[cdlxxxvii]<\/a> \u00a7E5.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref488\" name=\"_edn488\">[cdlxxxviii]<\/a> \u00a7E5.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref489\" name=\"_edn489\">[cdlxxxix]<\/a> \u00a7E7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref490\" name=\"_edn490\">[cdxc]<\/a> \u00a7E7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref491\" name=\"_edn491\">[cdxci]<\/a> Vide Quadro 4 e an\u00e1lises subseq\u00fcentes.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref492\" name=\"_edn492\">[cdxcii]<\/a> Na teoriza\u00e7\u00e3o de Freud sobre a estrutura ps\u00edquica do ser humano est\u00e3o seus conceitos fundantes de <em>eu<\/em>, <em>isso<\/em> e <em>supra-eu<\/em> (em tradu\u00e7\u00f5es antigas e inadequadas: <em>ego<\/em>, <em>id<\/em> e <em>superego<\/em>). Como j\u00e1 \u00e9 fato bem conhecido, Freud concebe o <em>isso<\/em> como a regi\u00e3o do inconsciente, a matriz natural e cong\u00eanita das puls\u00f5es vitais no ser humano. O <em>isso<\/em> \u00e9 regido pelo <em>princ\u00edpio do prazer<\/em>. Do <em>isso<\/em>, duas outras estruturas ps\u00edquicas emergem: o <em>eu<\/em> e o <em>supra-eu<\/em>. O <em>eu<\/em> \u00e9 concebido como aquela dimens\u00e3o do psiquismo respons\u00e1vel pelos pensamentos racionais e pela persegui\u00e7\u00e3o do <em>princ\u00edpio da realidade<\/em>. O <em>supra-eu<\/em>, que julga e critica o <em>eu<\/em>, representa os ideais e padr\u00f5es sociais introjetados pelo indiv\u00edduo, incluindo a\u00ed o <em>ideal-de-eu <\/em>(aquela s\u00e9rie de representa\u00e7\u00f5es idealizadas que o <em>eu<\/em> internaliza e torna parte de si). A partir de 1923, com a publica\u00e7\u00e3o de <em>O Eu e o Isso<\/em> (<em>O Ego e o Id<\/em>), o ideal-de-eu foi reconceitualizado num todo mais completo como <em>supra-eu<\/em> (<em>superego<\/em>).Vide GAY, 2004, p. 373 e seguintes.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref493\" name=\"_edn493\">[cdxciii]<\/a> \u00a7F6. A \u00eanfase \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref494\" name=\"_edn494\">[cdxciv]<\/a> \u00a7F17.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref495\" name=\"_edn495\">[cdxcv]<\/a> O aspecto negativo da cultura \u00e9 algo que foi detalhadamente explorado por Freud em obras anteriores, especialmente em <em>O Futuro de Uma Ilus\u00e3o<\/em> (1927) e <em>O Mal-Estar na Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> (que, numa tradu\u00e7\u00e3o mais correta dever-se-ia chamar <em>O Mal-Estar na Cultura<\/em>), de 1930.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref496\" name=\"_edn496\">[cdxcvi]<\/a> Freud entende que \u201cse algu\u00e9m tem um sentimento de culpa depois de haver cometido uma falta, e justamente por causa dela, este sentimento dever-se-ia chamar, mais apropriadamente, de <em>arrependimento<\/em>\u201d<em> (<\/em>FREUD, [1930], p. 491; [1930a], p. 3058). Para que este arrependimento exista, de qualquer maneira, \u00e9 necess\u00e1rio que \u201cantes dele existisse uma disposi\u00e7\u00e3o para sentir-se culpado, ou seja, uma <em>consci\u00eancia moral<\/em>\u201d (Id. Ibid., p. 491; [1930a], p. 3059). Por\u00e9m, Freud indica que o <em>sentimento de culpa<\/em> propriamente dito, que n\u00e3o \u00e9 conseq\u00fc\u00eancia direta de um delito cometido, mas de uma percep\u00e7\u00e3o abrangente das puls\u00f5es agressivas dentro do indiv\u00edduo e das demandas de unidade impostas pela cultura, tem uma origem diferente. Freud, como j\u00e1 podemos adivinhar, atribui esta for\u00e7a purificadora da consci\u00eancia moral, atrav\u00e9s do sentimento de culpa, em sua dimens\u00e3o social, ao complexo de \u00c9dipo passado culturalmente pela heran\u00e7a filogen\u00e9tica. Diz ele: \u201cN\u00e3o podemos evitar a suposi\u00e7\u00e3o de que o sentimento de culpa da esp\u00e9cie humana procede do complexo de \u00c9dipo e foi adquirido ao ser assassinado o pai [primitivo] pela coaliz\u00e3o dos irm\u00e3os. Nesta ocasi\u00e3o, a agress\u00e3o n\u00e3o foi suprimida, sen\u00e3o que executada: a mesma agress\u00e3o que, ao ser bloqueada, deve provocar na crian\u00e7a o sentimento de culpa\u201d (Id. Ibid., p. 490-1; [1930a], p. 3058). \u00c9 assim que Freud chega a compreender \u201cclaramente duas coisas: a participa\u00e7\u00e3o do amor na g\u00eanese da consci\u00eancia e o car\u00e1ter fatalmente inevit\u00e1vel do sentimento de culpa\u201d (Id. Ibid., p. 492; [1930a], p. 3059). (Todas as tradu\u00e7\u00f5es das cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o nossas.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref497\" name=\"_edn497\">[cdxcvii]<\/a> FREUD, [1930]; [1930a]; [1930b].<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref498\" name=\"_edn498\">[cdxcviii]<\/a> Id. Ibid., p. 455; [1930a], p. 3037. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref499\" name=\"_edn499\">[cdxcix]<\/a> \u00a7F17.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref500\" name=\"_edn500\">[d]<\/a> FREUD, [1930], p. 660; [1930a], p. 3039; [1930b], p. 55.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref501\" name=\"_edn501\">[di]<\/a> EINSTEIN, c. 1954, p. 126. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref502\" name=\"_edn502\">[dii]<\/a> FREUD, [1927], p. 336; [1927a], p. 2967. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref503\" name=\"_edn503\">[diii]<\/a> EINSTEIN, c. 1954, p. 13. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref504\" name=\"_edn504\">[div]<\/a> Id. Ibid., p. 13. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref505\" name=\"_edn505\">[dv]<\/a> FREUD, [1930a], p. 3031. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref506\" name=\"_edn506\">[dvi]<\/a> Aqui entendidos basicamente como todas as rela\u00e7\u00f5es de propriedade, bem como a jurisprud\u00eancia, as leis e costumes e as normas religiosas e morais. Enfim, aquilo que Marx colocava como elementos da superestrutura social.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref507\" name=\"_edn507\">[dvii]<\/a> Elend.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref508\" name=\"_edn508\">[dviii]<\/a> FREUD, [1930], p. 445; [1930a], p. 3031. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref509\" name=\"_edn509\">[dix]<\/a> Id. Ibid., p. 445; [1930a], p. 3031. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref510\" name=\"_edn510\">[dx]<\/a> Id. Ibid., p. 445; [1930a], p. 3031. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref511\" name=\"_edn511\">[dxi]<\/a> Id. Ibid., p. 474; [1930a], p. 3048. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref512\" name=\"_edn512\">[dxii]<\/a> Trieblebens.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref513\" name=\"_edn513\">[dxiii]<\/a> FREUD, [1930], p. 475; [1930a], p. 3048. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref514\" name=\"_edn514\">[dxiv]<\/a> Id. Ibid., p. 475; [1930a], p. 3048. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref515\" name=\"_edn515\">[dxv]<\/a> Kulturentwicklung.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref516\" name=\"_edn516\">[dxvi]<\/a> Aggressions und Selbstvernichtungstrieb.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref517\" name=\"_edn517\">[dxvii]<\/a> FREUD, [1930], p. 506; [1930a], p. 3067. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa. A edi\u00e7\u00e3o em espanhol das obras completas de Freud informa, em nota de rodap\u00e9, que, segundo Strachey, esta \u00faltima frase foi escrita por Freud em 1931, no momento em que a amea\u00e7a de Hitler se fazia evidente. (FREUD, [1930a], p. 3067)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref518\" name=\"_edn518\">[dxviii]<\/a> \u00a7F17.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref519\" name=\"_edn519\">[dxix]<\/a> \u00a7F17.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref520\" name=\"_edn520\">[dxx]<\/a> \u00a7F17.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref521\" name=\"_edn521\">[dxxi]<\/a> \u00a7F17.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref522\" name=\"_edn522\">[dxxii]<\/a> EINSTEIN, c. 1954, p. 94. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref523\" name=\"_edn523\">[dxxiii]<\/a> Id. Ibid., p. 52. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa. A \u00eanfase \u00e9 do autor.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref524\" name=\"_edn524\">[dxxiv]<\/a> FREUD, [1927], p. 364; [1927a], p. 2983. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref525\" name=\"_edn525\">[dxxv]<\/a> Id. Ibid., p. 481; [1930a], p. 3052. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref526\" name=\"_edn526\">[dxxvi]<\/a> GAY, 2005, p. 495.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref527\" name=\"_edn527\">[dxxvii]<\/a> FREUD, [1930], p. 470-1; [1930a], p. 3046.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref528\" name=\"_edn528\">[dxxviii]<\/a> Thomas Hobbes (1588-1679) em seu cl\u00e1ssico <em>Leviat\u00e3<\/em>[dxxviii], descreveu a rela\u00e7\u00e3o entre a falta de institui\u00e7\u00f5es que garantam a unidade social com o estado de guerra perp\u00e9tua, \u201cuma guerra que \u00e9 de todos os homens contra todos os homens\u201d (HOBBES, [1651], cap. XIII, p. 75-6).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref529\" name=\"_edn529\">[dxxix]<\/a> GAY, 2005, p. 495.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref530\" name=\"_edn530\">[dxxx]<\/a> \u00a7F6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref531\" name=\"_edn531\">[dxxxi]<\/a> FREUD, [1930], p. 454-5; [1930a], p. 3036. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref532\" name=\"_edn532\">[dxxxii]<\/a> GAY, 2005, p. 495.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref533\" name=\"_edn533\">[dxxxiii]<\/a> \u00a7F18.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref534\" name=\"_edn534\">[dxxxiv]<\/a> \u00a7F18.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref535\" name=\"_edn535\">[dxxxv]<\/a> \u00a7F17.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref536\" name=\"_edn536\">[dxxxvi]<\/a> FREUD, [1930], p. 481; [1930a], p. 3052. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref537\" name=\"_edn537\">[dxxxvii]<\/a> Id. Ibid., p. 483; [1930a], p. 3054. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref538\" name=\"_edn538\">[dxxxviii]<\/a> Id. Ibid., p. 483; [1930a], p. 3054. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref539\" name=\"_edn539\">[dxxxix]<\/a> Id. Ibid., p. 483; [1930a], p. 3054. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref540\" name=\"_edn540\">[dxl]<\/a> Id. Ibid., p. 483; [1930a], p. 3054. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref541\" name=\"_edn541\">[dxli]<\/a> FREUD, [1930], p. 484; [1930a], p. 3054. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa. A \u00eanfase \u00e9 do autor.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref542\" name=\"_edn542\">[dxlii]<\/a> Id. Ibid., p. 484; [1930a], p. 3054. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref543\" name=\"_edn543\">[dxliii]<\/a> Tradu\u00e7\u00f5es antigas usavam o termo \u201csuperego\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref544\" name=\"_edn544\">[dxliv]<\/a> FREUD, [1930], p. 484; [1930a], p. 3054. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa. A \u00eanfase \u00e9 do autor.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref545\" name=\"_edn545\">[dxlv]<\/a> Id. Ibid., p. 484; [1930a], p. 3054. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa. A \u00eanfase \u00e9 do autor.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref546\" name=\"_edn546\">[dxlvi]<\/a> Id. Ibid., p. 484; [1930a], p. 3054. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa. A \u00eanfase \u00e9 do autor.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref547\" name=\"_edn547\">[dxlvii]<\/a> Id. Ibid., p. 484; [1930a], p. 3054. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa. A \u00eanfase \u00e9 do autor.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref548\" name=\"_edn548\">[dxlviii]<\/a> Id. Ibid., p. 484; [1930a], p. 3054. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa. A \u00eanfase \u00e9 do autor.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref549\" name=\"_edn549\">[dxlix]<\/a> EINSTEIN, 2005, p. 251. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref550\" name=\"_edn550\">[dl]<\/a> FREUD, [1915b], p. 2107. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref551\" name=\"_edn551\">[dli]<\/a> EINSTEIN, 2005, p. 115. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref552\" name=\"_edn552\">[dlii]<\/a> FREUD, [1915b], p. 2107. A tradu\u00e7\u00e3o e a \u00eanfase s\u00e3o nossas.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref553\" name=\"_edn553\">[dliii]<\/a> Menschliche Seele.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref554\" name=\"_edn554\">[dliv]<\/a> FREUD, [1927], p. 332; [1930a], p. 2965. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref555\" name=\"_edn555\">[dlv]<\/a> \u00c4usserer Zwang.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref556\" name=\"_edn556\">[dlvi]<\/a> Seelische Instanz.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref557\" name=\"_edn557\">[dlvii]<\/a> FREUD, [1927], p. 332; [1930a], p. 2965. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa. A \u00eanfase \u00e9 do autor.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref558\" name=\"_edn558\">[dlviii]<\/a> Id. Ibid., p. 332; [1930a], p. 2965. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa. A \u00eanfase \u00e9 do autor.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref559\" name=\"_edn559\">[dlix]<\/a> Id. Ibid., p. 332; [1930a], p. 2965. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref560\" name=\"_edn560\">[dlx]<\/a> EINSTEIN, 2005, p. 270. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref561\" name=\"_edn561\">[dlxi]<\/a> Id. Ibid., 2005, p. 272. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref562\" name=\"_edn562\">[dlxii]<\/a> Gewissenangst.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref563\" name=\"_edn563\">[dlxiii]<\/a> FREUD, [1930], p. 502; [1930a], p. 3065. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa. A \u00eanfase \u00e9 do autor.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref564\" name=\"_edn564\">[dlxiv]<\/a> Id. Ibid., p. 503; [1930a], p. 3066.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref565\" name=\"_edn565\">[dlxv]<\/a> FREUD, [1930], p. 503; [1930a], p. 3066. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref566\" name=\"_edn566\">[dlxvi]<\/a> Id. Ibid., p. 503; [1930a], p. 3066. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref567\" name=\"_edn567\">[dlxvii]<\/a> \u00a7F17.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref568\" name=\"_edn568\">[dlxviii]<\/a> FREUD, [1930], p. 500; [1930a], p. 3064. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref569\" name=\"_edn569\">[dlxix]<\/a> Id. Ibid., p. 500; [1930a], p. 3064. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa. A \u00eanfase \u00e9 do autor.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref570\" name=\"_edn570\">[dlxx]<\/a> Id. Ibid., p. 500; [1930a], p. 3064. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa. A \u00eanfase \u00e9 do autor.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref571\" name=\"_edn571\">[dlxxi]<\/a> Id. Ibid., p. 500; [1930a], p. 3064. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref572\" name=\"_edn572\">[dlxxii]<\/a> FREUD, [1930], p. 500; [1930a], p. 3064. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref573\" name=\"_edn573\">[dlxxiii]<\/a> Id. Ibid., p. 500; [1930a], p. 3064. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref574\" name=\"_edn574\">[dlxxiv]<\/a> Id. Ibid., p. 500; [1930a], p. 3064. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref575\" name=\"_edn575\">[dlxxv]<\/a> EINSTEIN, c. 1954, p. 153. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref576\" name=\"_edn576\">[dlxxvi]<\/a> Id. Ibid., p. 153. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref577\" name=\"_edn577\">[dlxxvii]<\/a> EINSTEIN, c. 1954, p. 153. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref578\" name=\"_edn578\">[dlxxviii]<\/a> FREUD, [1930], p. 501; [1930a], p. 3065. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref579\" name=\"_edn579\">[dlxxix]<\/a> Para Freud, a <em>libido<\/em> \u00e9 a energia ou for\u00e7a pulsional da vida, basicamente de car\u00e1ter sexual, ou er\u00f3tico, de tal forma que, em seus escritos, <em>libido<\/em> e <em>puls\u00e3o sexual<\/em> podem ser lidas como sin\u00f4nimos. Peter Gay escreve que \u201cFreud considerava que o que unia os grupos, multid\u00f5es, turbas fossem ef\u00eameros ou est\u00e1veis, eram emo\u00e7\u00f5es sexuais difusas \u2014 a libido cuja \u2018meta foi inibida\u2019 \u2014, semelhantes \u00e0s paix\u00f5es que unem as fam\u00edlias\u201d (GAY, 2005, p. 372).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref580\" name=\"_edn580\">[dlxxx]<\/a> Ou, como as tradu\u00e7\u00f5es antigas colocavam, \u201cego\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref581\" name=\"_edn581\">[dlxxxi]<\/a> FREUD, [1930], p. 501; [1930a], p. 3065. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref582\" name=\"_edn582\">[dlxxxii]<\/a> \u201cFreud por muito tempo insinuara, deixando expl\u00edcita em 1910, a concep\u00e7\u00e3o de que as puls\u00f5es humanas podem ser divididas nitidamente em duas categorias: as puls\u00f5es do ego [eu] e as puls\u00f5es sexuais [libido]. As primeiras s\u00e3o respons\u00e1veis pela auto-preserva\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, e n\u00e3o t\u00eam nada a ver com o er\u00f3tico. As segundas fazem press\u00e3o para obter satisfa\u00e7\u00e3o er\u00f3tica e servem \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie\u201d (GAY, 2005, p. 316). Por\u00e9m, em 1914, quando publicou seu texto sobre o narcisismo, Freud indicou que o eu \u201cpode se escolher, e de fato se escolhe como objeto er\u00f3tico, tanto quanto escolhe a outros. Existe, em suma, uma \u2018libido do ego [eu]\u2019, tanto quanto uma \u2018libido de objeto\u2019\u201d (GAY, 2005, p. 315). Na sua nova concep\u00e7\u00e3o, que Freud desenvolvera a partir de seu texto sobre o narcisismo, \u201co fato \u00e9 que o amor por si e o amor por outros diferem apenas em seu objeto, n\u00e3o em sua natureza\u201d (GAY, 2005, p. 317).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref583\" name=\"_edn583\">[dlxxxiii]<\/a> GAY, 2005, p. 317.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref584\" name=\"_edn584\">[dlxxxiv]<\/a> FREUD, [1930], p. 501; [1930a], p. 3065. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref585\" name=\"_edn585\">[dlxxxv]<\/a> Id. Ibid., p. 501; [1930a], p. 3065. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref586\" name=\"_edn586\">[dlxxxvi]<\/a> Id. Ibid., p. 501; [1930a], p. 3065. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref587\" name=\"_edn587\">[dlxxxvii]<\/a> \u00a7F17.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref588\" name=\"_edn588\">[dlxxxviii]<\/a> \u00a7F17.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref589\" name=\"_edn589\">[dlxxxix]<\/a> Vide, em especial, os argumentos de Freud em <em>Considera\u00e7\u00f5es Atuais Sobre a Guerra e a Morte<\/em> (FREUD, [1915b]) p\u00e1ginas 2101 e 2104.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref590\" name=\"_edn590\">[dxc]<\/a> FREUD, [1915b], p. 2107. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref591\" name=\"_edn591\">[dxci]<\/a> Id. Ibid., p. 2108. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa. Freud toca tamb\u00e9m este ponto em <em>O Mal-Estar na Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>, quando comenta que somente podemos considerar algu\u00e9m como verdadeiramente transformado pela cultura quando esta pessoa internaliza as demandas \u00e9ticas da civiliza\u00e7\u00e3o na forma de um <em>supra-eu<\/em>. \u201cCom isso\u201d, diz Freud, \u201cos fen\u00f4menos da consci\u00eancia moral s\u00e3o elevados a um novo n\u00edvel, e em princ\u00edpio \u00e9 somente ent\u00e3o que se pode falar de consci\u00eancia moral e sentimento de culpa\u201d (FREUD, [1930], p. 484; [1930a], p. 3054). Freud comenta que tais indiv\u00edduos verdadeiramente morais se caracterizam \u201cprecisamente por sua consci\u00eancia moral mais vigilante, e, se os santos se acusam de pecadores, n\u00e3o \u00e9 sem raz\u00e3o que o fazem, tendo em conta as tenta\u00e7\u00f5es de satisfazer suas puls\u00f5es\u201d (Id. Ibid., p. 485; [1930a], p. 3054). Nesta \u201csegunda fase evolutiva\u201d da consci\u00eancia moral, Freud identifica \u201cuma particularidade que faltava na primeira\u201d, e esta \u00e9 justamente a mais severa atua\u00e7\u00e3o do <em>supra-eu<\/em> na consci\u00eancia do indiv\u00edduo. Esta caracter\u00edstica \u201cse comporta tanto mais severa e desconfiadamente quanto mais virtuoso \u00e9 o homem, de modo que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, aqueles que mais longe chegaram no caminho da santidade s\u00e3o precisamente os que se acusam da pior pecaminosidade\u201d (Id. Ibid., p. 485; [1930a], p. 3054. As tradu\u00e7\u00f5es das cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o nossas).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref592\" name=\"_edn592\">[dxcii]<\/a> \u00a7E7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref593\" name=\"_edn593\">[dxciii]<\/a> FREUD, [1915b], p. 2106. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref594\" name=\"_edn594\">[dxciv]<\/a> Einstein, apud. Nathan e Norden, 1981, p.82.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref595\" name=\"_edn595\">[dxcv]<\/a> Einstein, apud. Id. Ibid., p.82. Para mais manifesta\u00e7\u00f5es de Einstein nesse sentido, vide EINSTEIN, c. 1954, p. 3; Nathan e Norden, 1981, p.77; EINSTEIN, 2005, p. 110, 113 e 266; \u00a7E6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref596\" name=\"_edn596\">[dxcvi]<\/a> \u00a7F18.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref597\" name=\"_edn597\">[dxcvii]<\/a> \u00a7F14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref598\" name=\"_edn598\">[dxcviii]<\/a> \u00a7F14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref599\" name=\"_edn599\">[dxcix]<\/a> \u00a7F14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref600\" name=\"_edn600\">[dc]<\/a> \u00a7E7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref601\" name=\"_edn601\">[dci]<\/a> \u00a7F16. A \u00eanfase \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref602\" name=\"_edn602\">[dcii]<\/a> Entretanto, Freud estava longe de ser um pacifista \u201cnatural\u201d como Einstein. Na inf\u00e2ncia e juventude, Freud ficava entusiasmado com fardas, ex\u00e9rcitos, desfiles militares, hinos, bandeiras e toda a parafern\u00e1lia simb\u00f3lica de exalta\u00e7\u00e3o patri\u00f3tica, enquanto Einstein, desde pequeno, mostrava o maior desprezo por tais manifesta\u00e7\u00f5es patri\u00f3ticas. Em Freud, o pacifismo n\u00e3o parecia ser nada \u201cconstitucional\u201d nem \u201corg\u00e2nico\u201d. Sua atitude a respeito da guerra somente viria a se transformar com quase sessenta anos de idade. At\u00e9 a Primeira Guerra Mundial, ele, assim como a grande maioria dos intelectuais e das massas populares na Europa, ainda nutria os ideais cavalheirescos da guerra e uma vis\u00e3o ass\u00e9ptica da matan\u00e7a militar. Na inf\u00e2ncia, nas obras e na correspond\u00eancia de Freud as fantasias e o jarg\u00e3o militar estavam sempre presentes (BREGER, 2000, pp. 188, 192-93, 209, 210, 233-34, 238, 239). Freud acompanhou com emo\u00e7\u00e3o patri\u00f3tica e entusiasmo as \u201cviris\u201d mobiliza\u00e7\u00f5es iniciais da Primeira Grande Guerra (JONES, 1963, v. 1, p. 23; BREGER, 2000, p. 234; GAY, 319-24). Como milh\u00f5es de europeus \u2014 n\u00e3o apenas as massas populares, mas intelectuais, artistas, escritores, poetas, cientistas, religiosos e compositores \u2014 Freud foi acometido pelo patriotismo ext\u00e1tico e retumbante (BREGER, 2000, p. 233-251; GAY, 2004, p. 320-22). Ernest Jones relata, sobre a juventude de Freud e sua rela\u00e7\u00e3o com a guerra: \u201cA guerra franco-prussiana, que estourou quando ele tinha 14 anos, despertou seu profundo interesse. Suas irm\u00e3s contam como ele mantinha um grande mapa sobre sua escrivaninha e como acompanhava a campanha em detalhes com o aux\u00edlio de pequenas bandeiras. Ele [Freud] costumava dar palestras para suas irm\u00e3s sobre a guerra de maneira geral e sobre a relev\u00e2ncia das v\u00e1rias manobras dos combatentes. Seus sonhos de se tornar, ele mesmo, um grande general, entretanto, gradualmente se desvaneceram\u201d (JONES, 1963, v. 1, p. 23. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref603\" name=\"_edn603\">[dciii]<\/a> Bem ao contr\u00e1rio de Freud na Primeira Grande Guerra, Einstein, desde as primeiras manifesta\u00e7\u00f5es de uma possibilidade de conflito, se havia mobilizado para conscientizar tantos quantos pudesse a respeito de sua temeridade. Ele e mais tr\u00eas intelectuais alem\u00e3es (embora uma centena fosse convidada a assinar o documento), foram os \u00fanicos a condenar a invas\u00e3o da B\u00e9lgica pela Alemanha em 3 de agosto de 1914, num manifesto pacifista que opunha-se a 93 dos mais destacados cientistas alem\u00e3es, que, num manifesto anterior, defendiam o conflito b\u00e9lico.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref604\" name=\"_edn604\">[dciv]<\/a> \u00a7F17.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref605\" name=\"_edn605\">[dcv]<\/a> FREUD, apud. SULLOWAY, 1979, p. 421. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref606\" name=\"_edn606\">[dcvi]<\/a> \u00a7F17.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref607\" name=\"_edn607\">[dcvii]<\/a> \u00a7F17.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref608\" name=\"_edn608\">[dcviii]<\/a> \u00a7F17.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref609\" name=\"_edn609\">[dcix]<\/a> \u00a7F17.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref610\" name=\"_edn610\">[dcx]<\/a> Sobre este pacifismo \u201cinato\u201d de Einstein, Philipp Frank relata \u201cDesde sua inf\u00e2ncia, Einstein sentia-se profundamente deprimido ao ver pessoas sendo treinadas para se tornarem aut\u00f4matos, fossem eles soldados marchando pelas ruas, ou estudantes aprendendo latim durante o gin\u00e1sio. Sua avers\u00e3o pelo treinamento \u201crobotizante\u201d combinava-se nele com uma extrema repulsa por todo tipo de viol\u00eancia, e ele via na guerra a ep\u00edtome de tudo o que era odioso: brutalidade automatizada\u201d (FRANK, 2002, p. 153-4). Frank relata um acontecimento da primeira inf\u00e2ncia de Einstein, que, al\u00e9m de significativo, identifica uma caracter\u00edstica que o acompanharia por toda a vida: \u201cQuando os soldados marchavam pelas ruas de Munique, acompanhados pelo rufar de tambores e pelo assovio estridente dos p\u00edfaros \u2014 uma combina\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica do ex\u00e9rcito alem\u00e3o, que confere \u00e0 m\u00fasica um ritmo animado e arrebatador, com uma qualidade tonal selvagem \u2014, e quanto o cal\u00e7amento e as janelas tremiam com o compasso dos cascos dos cavalos, as crian\u00e7as animadamente se integravam \u00e0 parada e tentavam marchar junto com os soldados. Por\u00e9m, quando o pequeno Albert, acompanhado por seus pais, passava por um destes desfiles militares, ele come\u00e7ava a chorar. Em Munique os pais frequentemente diziam a seus filhos: \u201cAlgum dia, quando voc\u00ea crescer, voc\u00ea tamb\u00e9m poder\u00e1 marchar no desfile militar\u201d, e a maioria dos meninos era estimulado a esfor\u00e7os maiores e mais ambiciosos por causa dessa perspectiva. Albert, entretanto, disse a seus pais: \u2018Quando eu crescer, n\u00e3o quero ser uma dessas pobres pessoas\u2019. Enquanto a maioria contemplava o ritmo de um movimento alegre, ele observava a coer\u00e7\u00e3o imposta aos soldados; ele via os desfiles militares como um movimento de pessoas compelidas a serem m\u00e1quina\u201d (FRANK, 2002, p. 8). (As tradu\u00e7\u00f5es s\u00e3o nossas.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref611\" name=\"_edn611\">[dcxi]<\/a> EINSTEIN, 2005, p. 156. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref612\" name=\"_edn612\">[dcxii]<\/a> O t\u00edtulo da obra, nunca traduzida para o portugu\u00eas, \u00e9 bastante revelador: <em>Freud: Biologist of the Mind<\/em> (Freud: Bi\u00f3logo da Mente). Destacados cientistas elogiaram a obra como \u201ccolossal\u201d (Dr. Donald Fleming, Universidade de Harvard), \u201cextraordinariamente significativa\u201d (Robert R. Holt, da Universidade de Nova Iorque), \u201cextraordinariamente original\u201d (Edward O. Wilson, da Universidade de Harvard) e \u201cdestacada, perspicaz\u201d (Jerome Kagan, Universiade de Harvard). Donald Fleming chega a dizer que \u201ca totalidade da literatura existente sobre Freud tornou-se obsoleta [pela publica\u00e7\u00e3o do livro]\u201d. Apesar disso, Sulloway foi rotulado como um daqueles pesquisadores que, em tempos mais recentes e contrariando o status-quo psicanal\u00edtico, dedicaram-se a \u201cmalhar Freud\u201d (<em>Freud bashing<\/em>). Quando se trata de Freud, h\u00e1 uma tend\u00eancia ao radicalismo tanto no ataque quanto na defesa, quer de suas teorias, quer de sua pessoa. Uma leitura desapaixonada do livro de Sulloway, por\u00e9m, n\u00e3o pode deixar de mostrar uma sincera busca pela compreens\u00e3o da origem de muitas das ambig\u00fcidades e incorre\u00e7\u00f5es existentes na obra de Freud. Em nossa opini\u00e3o, trata-se de leitura essencial e de um livro solidamente fundamentado e de argumentos elegantemente bem apresentados.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref613\" name=\"_edn613\">[dcxiii]<\/a> SULLOWAY, 1979, p. 391. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa. A \u00eanfase \u00e9 do autor.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref614\" name=\"_edn614\">[dcxiv]<\/a> A teoria biogen\u00e9tica, ou lei da biogen\u00e9tica, foi proposta pelo bi\u00f3logo alem\u00e3o Ernst Haeckel na qual sugere que o desenvolvimento das ra\u00e7as e grupos humanos assemelhava-se ao desenvolvimento dos indiv\u00edduos, ou seja, passando por est\u00e1gios de menor para maior maturidade. Assim, defendia a id\u00e9ia de que as \u201cra\u00e7as primitivas\u201d estavam na sua inf\u00e2ncia desenvolvimental e necessitavam de \u201csupervis\u00e3o\u201d ou \u201cprote\u00e7\u00e3o\u201d por parte das sociedades mais \u201cmaduras\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref615\" name=\"_edn615\">[dcxv]<\/a> Em sua ess\u00eancia, a teoria de Jean-Baptiste Lamark (1744-1829) estabelecia que as caracter\u00edsticas adquiridas por um organismo podem ser transmitidas aos seus descendentes, e que tamb\u00e9m a experi\u00eancia, n\u00e3o apenas a biologia, pode mudar e dessa maneira influenciar a transmiss\u00e3o gen\u00e9tica. A forma psico-lamarkiana de explicar a evolu\u00e7\u00e3o leva justamente em conta este \u00faltimo aspecto: as transforma\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas sofridas pelos indiv\u00edduos, especialmente quando a experi\u00eancia cognitiva ou emocional \u00e9 traum\u00e1tica ou repetitiva, acabam se estabelecendo como uma caracter\u00edstica transmitida para futuras gera\u00e7\u00f5es, e mesmo como uma caracter\u00edstica ps\u00edquica da esp\u00e9cie.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref616\" name=\"_edn616\">[dcxvi]<\/a> SULLOWAY, 1979, p. 414; GAY, 2005. p. 271, nota de rodap\u00e9; BREGER, 2000, 337.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref617\" name=\"_edn617\">[dcxvii]<\/a> GAY, 2005. p. 271, nota de rodap\u00e9.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref618\" name=\"_edn618\">[dcxviii]<\/a> BREGER, 2000, 337. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref619\" name=\"_edn619\">[dcxix]<\/a> ROAZEN, 1971, p. 171. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref620\" name=\"_edn620\">[dcxx]<\/a> 1881-1966, considerado o pai da psicologia existencial.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref621\" name=\"_edn621\">[dcxxi]<\/a> ROAZEN, 1971, p. 172. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa. O interessante, \u00e9 que, conforme aponta o Dr. Jim Hopkins, do <em>King\u2019s College London<\/em>, Freud concebia tal estrutura ps\u00edquica como uma \u201chipot\u00e9tica estrutura neural\u201d, ou \u201cparte funcional da mente\u201d. \u201cDe uma forma geral\u201d, diz Hopkins, \u201cparece que Freud concebia o <em>eu<\/em>, o <em>supra-eu<\/em> e o <em>isso<\/em> como sistemas neurais funcionais\u201d (HOPKINS, 2004, p. 12. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref622\" name=\"_edn622\">[dcxxii]<\/a> SULLOWAY, 1979, p. 259.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref623\" name=\"_edn623\">[dcxxiii]<\/a> Ernst Heinrich Phillip August Haeckel (tamb\u00e9m von Haeckel) (1834-1919) foi um eminente bi\u00f3logo e fil\u00f3sofo alem\u00e3o que promoveu grandemente o trabalho de Darwin na Alemanha. Haeckel era zo\u00f3logo, mas tamb\u00e9m um talentoso artista e ilustrador. Atuou como professor universit\u00e1rio de anatomia comparativa. Foi um dos primeiros a considerar a psicologia como um ramo da fisiologia. Cunhou v\u00e1rios termos ainda hoje empregados na ci\u00eancia, tais como \u201contogenia\u201d, \u201cfilogenia\u201d, \u201cfilo\u201d e \u201cecologia\u201d. Seu principal interesse era a evolu\u00e7\u00e3o e os processos de desenvolvimento da vida em geral. Haeckel prop\u00f4s a \u201cteoria recapitulacionista\u201d, na qual lan\u00e7ava a hip\u00f3tese de uma liga\u00e7\u00e3o entre ontogenia (desenvolvimento da forma) e filogenia (descend\u00eancia evolutiva), resumida no famoso <em>dictum<\/em> \u201ca ontogenia recapitula a filogenia\u201d. Haeckel procurou apoiar sua teoria em abundantes desenhos que mostravam o desenvolvimento embrion\u00e1rio e como, na evolu\u00e7\u00e3o do embri\u00e3o humano, por exemplo, ele passa por uma fase em que apresenta guelras e cauda. Embora os desenhos tenham erros e sua teoria, na sua forma original, em geral n\u00e3o seja mais aceita, acusada de simplifica\u00e7\u00e3o excessiva, a maioria dos bi\u00f3logos contempor\u00e2neos reconhece v\u00e1rias conex\u00f5es entre ontogenia e filogenia, e as explicam atrav\u00e9s da teoria evolucionista. Haeckel tamb\u00e9m \u00e9 conhecido por sua teoria biogen\u00e9tica, ou lei da biogen\u00e9tica, na qual sugere que o desenvolvimento das ra\u00e7as e grupos humanos assemelhava-se ao desenvolvimento dos indiv\u00edduos, ou seja, passando por est\u00e1gios de menor para maior maturidade. Assim, defendia a id\u00e9ia de que as \u201cra\u00e7as primitivas\u201d estavam na sua inf\u00e2ncia desenvolvimental e necessitavam de \u201csupervis\u00e3o\u201d ou \u201cprote\u00e7\u00e3o\u201d por parte das sociedades mais \u201cmaduras\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref624\" name=\"_edn624\">[dcxxiv]<\/a> FREUD, 1996, v. 2, p. 1994. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref625\" name=\"_edn625\">[dcxxv]<\/a> Id. Ibid., p. 1995. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref626\" name=\"_edn626\">[dcxxvi]<\/a> Freud escolheu esse nome numa refer\u00eancia ao mito grego, dramatizado por S\u00f3focles em <em>\u00c9dipo Rei<\/em>, no qual \u00c9dipo, sem saber, cumpre a profecia do or\u00e1culo da qual tentava fugir e mata seu pai para ent\u00e3o desposar sua m\u00e3e. Numa carta de Freud a Wilhelm Fliess em outubro de 1897 ele escreve \u201cA lenda grega se baseia numa compuls\u00e3o que todas as pessoas reconhecem porque sentem-na existir dentro de si. Todos, na fantasia, [&#8230;] j\u00e1 foram uma vez um \u00c9dipo a desabrochar (Freud, apud. Brunner, 2000, p. 81. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref627\" name=\"_edn627\">[dcxxvii]<\/a> Id. Ibid., p. 2007. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref628\" name=\"_edn628\">[dcxxviii]<\/a> Id. Ibid., p. 2007. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref629\" name=\"_edn629\">[dcxxix]<\/a> Para uma maior aproxima\u00e7\u00e3o desses argumentos filogen\u00e9ticos de Freud, vide sua obra <em>Hist\u00f3ria de uma Neurose Infantil<\/em> (<em>O Caso do Homem dos Lobos<\/em>), de 1918 (FREUD, 1996, v. 2, p. 1994), suas <em>Confer\u00eancias Introdut\u00f3rias sobre Psican\u00e1lise<\/em> (1916-17) (FREUD, 1996, v.2, p. 2343-4), <em>Totem e Tabu<\/em> (1912-13) (FREUD, [1912-3], p. 1847.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref630\" name=\"_edn630\">[dcxxx]<\/a> FREUD, [1915b], p. 2102. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref631\" name=\"_edn631\">[dcxxxi]<\/a> Vide <em>O Futuro de uma Ilus\u00e3o<\/em> (FREUD, [1927], p. 362; [1927a], p. 2982).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref632\" name=\"_edn632\">[dcxxxii]<\/a> Apesar das afirma\u00e7\u00f5es de Freud em <em>O Futuro de uma Ilus\u00e3o<\/em> citadas acima e de sua tremenda valoriza\u00e7\u00e3o do intelecto, da racionalidade e da cultura, ele tampouco estava muito distante das conclus\u00f5es de Einstein. J\u00e1 em 1915, em seu ensaio <em>Considera\u00e7\u00f5es Atuais Sobre a Guerra e a Morte<\/em>, Freud argumentara que algumas pessoas, submetidas \u00e0s exig\u00eancias da vida em comunidade, podem chegar a se \u201ccomportar bem, no sentido cultural\u201d (FREUD, [1915b], p. 2106-7), mas elas n\u00e3o o fazem por convic\u00e7\u00e3o interior. Um indiv\u00edduo assim pode se comportar bem, ou pacificamente, \u201csem que se tenha cumprido nele um enobrecimento das puls\u00f5es, uma muta\u00e7\u00e3o das tend\u00eancias ego\u00edstas em tend\u00eancias sociais\u201d (Id. Ibid., p. 2106-7). Freud entende que \u201cn\u00e3o h\u00e1 um exterm\u00ednio do mal\u201d (Id. Ibid., p. 2105) na maioria dos homens inseridos na cultura. Para ele, a grande maioria das pessoas s\u00f3 \u00e9 boa \u201cporque tal conduta cultural traz vantagens a seus prop\u00f3sitos ego\u00edstas\u201d (Id. Ibid., p. 2107). Freud chama a estes de \u201chip\u00f3critas da cultura\u201d (Id. Ibid., p. 2107). Em contraposi\u00e7\u00e3o a esses, Freud identifica uma minoria de homens que \u201cagem sempre bem porque suas inclina\u00e7\u00f5es pulsionais o exigem\u201d (Id. Ibid., p. 2107). Tais homens s\u00e3o os \u201chomens verdadeiramente civilizados\u201d (Id. Ibid., p. 2107). Entre estes est\u00e3o, segundo seus coment\u00e1rios na carta a Einstein, aqueles que de cora\u00e7\u00e3o e consci\u00eancia lutam contra a guerra. (Todas as tradu\u00e7\u00f5es das cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o nossas)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref633\" name=\"_edn633\">[dcxxxiii]<\/a> Apesar do descr\u00e9dito contempor\u00e2neo quanto ao desenvolvimento psico-lamarckiano e \u00e0 lei da biogen\u00e9tica, seria interessante pesquisar de que forma as suposi\u00e7\u00f5es filogen\u00e9ticas de Freud se encaixam dentro das hip\u00f3teses da \u201cResson\u00e2ncia M\u00f3rfica\u201d e do \u201cCampo Morfogen\u00e9tico\u201d, como apresentadas pelo bi\u00f3logo Rupert Sheldrake, de Cambridge e Harvard. Suas id\u00e9ias fundamentais podem ser encontradas no livro <em>The Presence of the Past<\/em>, publicado em 1995 pela Park Street Press, de Rochester, Vermont.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref634\" name=\"_edn634\">[dcxxxiv]<\/a> Elaborado em concomit\u00e2ncia com a exposi\u00e7\u00e3o <em>Freud: Conflito e Cultura<\/em>, elaborada pela Biblioteca do Congresso Americano.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref635\" name=\"_edn635\">[dcxxxv]<\/a> KRAMER, 2000, p. 202. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref636\" name=\"_edn636\">[dcxxxvi]<\/a> Id. Ibid., p. 205. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref637\" name=\"_edn637\">[dcxxxvii]<\/a> Id. Ibid., p. 205. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref638\" name=\"_edn638\">[dcxxxviii]<\/a> \u00a7E7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref639\" name=\"_edn639\">[dcxxxix]<\/a> \u00a7E7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref640\" name=\"_edn640\">[dcxl]<\/a> \u00a7E7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref641\" name=\"_edn641\">[dcxli]<\/a> \u00a7F15.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref642\" name=\"_edn642\">[dcxlii]<\/a> \u00a7F15.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref643\" name=\"_edn643\">[dcxliii]<\/a> \u00a7F15.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref644\" name=\"_edn644\">[dcxliv]<\/a> \u00a7F15.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref645\" name=\"_edn645\">[dcxlv]<\/a> \u00a7F15.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref646\" name=\"_edn646\">[dcxlvi]<\/a> \u00a7F15.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref647\" name=\"_edn647\">[dcxlvii]<\/a> \u00a7F15. Era caracter\u00edstico, em Freud, uma postura de extremo descr\u00e9dito quanto \u00e0 capacidade das massas para promoverem algum avan\u00e7o social na aus\u00eancia de l\u00edderes. Em <em>O Futuro de uma Ilus\u00e3o<\/em>, ele escreve que \u201cO dom\u00ednio das massas por uma minoria mostrar-se-\u00e1 sempre t\u00e3o imprescind\u00edvel quanto a imposi\u00e7\u00e3o coercitiva do trabalho cultural, pois <em>as massas s\u00e3o pregui\u00e7osas e ignorantes<\/em>, n\u00e3o aceitam de bom-grado a ren\u00fancia \u00e0s puls\u00f5es, sendo in\u00fateis quaisquer argumentos que se lhes apresentem para convenc\u00ea-las da inevitabilidade dessa ren\u00fancia, e seus membros ap\u00f3iam-se mutuamente na toler\u00e2ncia de seu desenfreio\u201d (FREUD, [1927], p. 475; [1927a], p. 2963. A tradu\u00e7\u00e3o e a \u00eanfase s\u00e3o nossas).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref648\" name=\"_edn648\">[dcxlviii]<\/a> \u00a7F15.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref649\" name=\"_edn649\">[dcxlix]<\/a> Freud parte do \u201cfato fundamental de que o indiv\u00edduo integrado em uma multid\u00e3o \u00e9 influenciado por ela de modo a experimentar uma modifica\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes muito profunda, em sua atividade an\u00edmica\u201d. O que ocorre com o indiv\u00edduo perdido no meio da massa humana \u00e9 que \u201csua afetividade se intensifica extraordinariamente, e, em compensa\u00e7\u00e3o, sua atividade intelectual fica notavelmente limitada\u201d. Estes fatores, por\u00e9m, podem ser \u201cneutralizados, ao menos em parte, por uma organiza\u00e7\u00e3o superior das massas\u201d (Todas as cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o de FREUD, 1996, v. 3, p. 2575. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref650\" name=\"_edn650\">[dcl]<\/a> FREUD, 1996, v. 3, p. 2577. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref651\" name=\"_edn651\">[dcli]<\/a> Id. Ibid., p. 2577. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref652\" name=\"_edn652\">[dclii]<\/a> Freud entende que em tais \u201cmassas artificiais, duradouras e altamente organizadas\u201d, o que mant\u00e9m as pessoas unidas \u00e9 \u201ca ilus\u00e3o da presen\u00e7a vis\u00edvel ou invis\u00edvel de um chefe (Cristo, na igreja cat\u00f3lica, e o comandante-em-chefe, no ex\u00e9rcito), que ama com igual amor a todos os membros da coletividade. Desta ilus\u00e3o depende tudo, e seu desaparecimento traria consigo a desintegra\u00e7\u00e3o da igreja e do ex\u00e9rcito\u201d (Todas as cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o de FREUD, 1996, v. 3, p. 2578. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref653\" name=\"_edn653\">[dcliii]<\/a> Da for\u00e7a desses la\u00e7os, Freud depreende \u201ca import\u00e2ncia do dirigente para a psicologia das massas\u201d. Freud argumenta que a influ\u00eancia dos l\u00edderes sobre as massas \u00e9 t\u00e3o grande, que pode subsistir mesmo sem \u201cid\u00e9ias de p\u00e1tria, de gl\u00f3ria nacional, etc., t\u00e3o importantes para a coes\u00e3o do ex\u00e9rcito\u201d. Ele afirma que \u201cos exemplos de grandes capit\u00e3es, como C\u00e9sar, Wallenstein e Napole\u00e3o demonstram que tais id\u00e9ias n\u00e3o s\u00e3o indispens\u00e1veis para a manuten\u00e7\u00e3o da unidade de um ex\u00e9rcito\u201d (Todas as cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o de FREUD, 1996, v. 3, p. 2579. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref654\" name=\"_edn654\">[dcliv]<\/a> FREUD, 1996, v. 3, p. 2579. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref655\" name=\"_edn655\">[dclv]<\/a> Peter Gay comenta que em <em>Psicologia das Massas<\/em> Freud, \u201cao indicar novas formas de se pensar a mente em sociedade, lan\u00e7a sugest\u00f5es que ainda n\u00e3o foram plenamente exploradas. Mas a rapidez quase esbaforida com que Freud abordou quest\u00f5es complexas de coes\u00e3o social d\u00e1 ao estudo um ar de improvisa\u00e7\u00e3o\u201d (GAY, 2004, p. 373). Para Louis Breger, faltava a Freud a experi\u00eancia de primeira m\u00e3o com os grupos que ele estava procurando analisar, o ex\u00e9rcito e a igreja (BREGER, 2000, p. 271). Entretanto, ele tinha experi\u00eancia \u00edntima com um grupo que poderia bem ter sido usado para suas an\u00e1lises: o movimento psicanal\u00edtico. Por\u00e9m, Freud estava incapacitado, por suas pr\u00f3prias resist\u00eancias neur\u00f3ticas, de faz\u00ea-lo (Id. Ibid., p. 271). Por esta raz\u00e3o, Freud buscou suas explica\u00e7\u00f5es nas teorias do desenvolvimento filogen\u00e9tico do complexo de \u00c9dipo e dos la\u00e7os libidinais das hordas primitivas.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref656\" name=\"_edn656\">[dclvi]<\/a> Freud d\u00e1 como exemplo a seguinte imagem: \u201cNesta par\u00f3dia, grita um guerreiro: \u2018O chefe foi decapitado\u2019, e todos os ass\u00edrios debandam em fuga. Sem que o perigo aumente, basta a perda do chefe \u2014 em qualquer sentido \u2014 para que surja o p\u00e2nico. Com o la\u00e7o que os ligava ao chefe desaparecem geralmente os que ligavam os indiv\u00edduos entre si, e a massa se pulveriza [&#8230;]\u201d (FREUD, 1996, v. 3, p. 2581. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref657\" name=\"_edn657\">[dclvii]<\/a> FREUD, 1996, v. 3, p. 2580.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref658\" name=\"_edn658\">[dclviii]<\/a> Id. Ibid., p. 2582. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref659\" name=\"_edn659\">[dclix]<\/a> Id. Ibid., p. 2582. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref660\" name=\"_edn660\">[dclx]<\/a> Id. Ibid., p. 2582. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref661\" name=\"_edn661\">[dclxi]<\/a> Id. Ibid., p. 2583.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref662\" name=\"_edn662\">[dclxii]<\/a> Como j\u00e1 tivemos oportunidade de analisar, Freud atribu\u00eda esta \u201chostilidade\u201d contra pessoas amadas, a \u201cambival\u00eancia afetiva\u201d, a uma disposi\u00e7\u00e3o \u201celemental\u201d para \u201co \u00f3dio e a agressividade\u201d (FREUD, 1996, v. 3, p. 2583. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref663\" name=\"_edn663\">[dclxiii]<\/a> Em outras tradu\u00e7\u00f5es, vertido por \u201crepress\u00e3o\u201d. O termo \u201cVerdr\u00e4ngen\u201d admite melhor a vers\u00e3o mais contempor\u00e2nea, como proposta por Luiz Alberto Hanns. Vide HANNS, 1996, p. 355-63.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref664\" name=\"_edn664\">[dclxiv]<\/a> FREUD, 1996, v. 3, p. 2583.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref665\" name=\"_edn665\">[dclxv]<\/a> FREUD, 1996, v. 3, p. 2583.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref666\" name=\"_edn666\">[dclxvi]<\/a> Freud entendia que \u201cEnquanto a forma\u00e7\u00e3o coletiva se mant\u00e9m, os indiv\u00edduos se comportam como que talhados num mesmo padr\u00e3o: toleram todas as particularidades dos outros, consideram-se iguais a eles e n\u00e3o sentem o menor tra\u00e7o de avers\u00e3o. Segundo nossas teorias, tal restri\u00e7\u00e3o do narcisismo n\u00e3o pode ser provocada sen\u00e3o por um \u00fanico fator: pelo enlace libidinoso a outras pessoas. O ego\u00edsmo encontra uma barreira: o amor aos demais [&#8230;]\u201d (FREUD, 1996, v. 3, p. 2583. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref667\" name=\"_edn667\">[dclxvii]<\/a> FREUD, 1996, v. 3, p. 2584.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref668\" name=\"_edn668\">[dclxviii]<\/a> \u201cAssim, pois, quando observamos que na massa surgem restri\u00e7\u00f5es ao ego\u00edsmo narcisista, inexistente fora dela, devemos considerar este fato como uma prova de que a ess\u00eancia da forma\u00e7\u00e3o coletiva repousa na forma\u00e7\u00e3o de novos la\u00e7os libidinais entre seus membros\u201d (FREUD, 1996, v. 3, p. 2584. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref669\" name=\"_edn669\">[dclxix]<\/a> FREUD, 1996, v. 3, p. 2585. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref670\" name=\"_edn670\">[dclxx]<\/a> Id. Ibid., p. 2585.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref671\" name=\"_edn671\">[dclxxi]<\/a> I <em>ideal-de-eu<\/em>, como aquela s\u00e9rie de representa\u00e7\u00f5es idealizadas que o <em>eu<\/em> internaliza e torna parte de si, seria, a partir de 1923, com a publica\u00e7\u00e3o de <em>O Eu e o Isso<\/em> (<em>O Ego e o Id<\/em>), reconceitualizado num todo mais completo como <em>supra-eu<\/em> (<em>superego<\/em>).Vide GAY, 2004, p. 373 e seguintes.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref672\" name=\"_edn672\">[dclxxii]<\/a> FREUD, 1996, v. 3, p. 2587. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref673\" name=\"_edn673\">[dclxxiii]<\/a> Id. Ibid., p. 2587. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref674\" name=\"_edn674\">[dclxxiv]<\/a> EINSTEIN, c. 1954, p. 53. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref675\" name=\"_edn675\">[dclxxv]<\/a> FREUD, 1996, v. 3, p. 2590. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref676\" name=\"_edn676\">[dclxxvi]<\/a> Id. Ibid., p. 2590. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref677\" name=\"_edn677\">[dclxxvii]<\/a> Freud explica que no caso da identifica\u00e7\u00e3o, \u201co objeto desaparece ou \u00e9 abandonado, sendo logo reconstru\u00eddo dentro do eu, que se modifica parcialmente, segundo o modelo do objeto perdido\u201d. No caso da idolatria, ou fascina\u00e7\u00e3o, \u201co objeto[dclxxvii] subsiste, mas o <em>eu<\/em> lhe confere todas as qualidades, \u00e0 custa de si mesmo\u201d, ou, numa coloca\u00e7\u00e3o melhor formulada, \u201co objeto[dclxxvii] invade o lugar do <em>eu<\/em> e do <em>ideal-de-eu<\/em>\u201d (Todas as cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o de FREUD, 1996, v. 3, p. 2590. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref678\" name=\"_edn678\">[dclxxviii]<\/a> EINSTEIN, 2005, p. 188. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref679\" name=\"_edn679\">[dclxxix]<\/a> FREUD, 1996, v. 3, p. 2592. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref680\" name=\"_edn680\">[dclxxx]<\/a> Id. Ibid., p. 2592. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref681\" name=\"_edn681\">[dclxxxi]<\/a> Id. Ibid., p. 2592. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref682\" name=\"_edn682\">[dclxxxii]<\/a> Id. Ibid., p. 2592. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref683\" name=\"_edn683\">[dclxxxiii]<\/a> \u00a7F15.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref684\" name=\"_edn684\">[dclxxxiv]<\/a> Segundo Louis Breger: \u201cAo discutir o poder de l\u00edderes de massa tais como generais ou Cristo, Freud abordou o perene desejo humano por figuras ideais. Essa era uma necessidade que desempenhava um papel imenso em sua pr\u00f3pria vida, como atesta seu afastamento de seu fracassado pai em troca de uma s\u00e9rie de \u00eddolos masculinos\u201d (BREGER, 2000, p. 270). Breger pensa que essa tamb\u00e9m era uma for\u00e7a poderosa dentro do pr\u00f3prio movimento psicanal\u00edtico \u201conde colegas mais jovens olhavam para ele [Freud] como seu comandante-em-chefe\u201d. Entretanto, apesar dessa onipresen\u00e7a dos sentimentos de busca por imagens ideais, Freud \u201cafastou-se do anseio humano por figuras ideais e interpretou as rela\u00e7\u00f5es entre l\u00edderes e seguidores quase que inteiramente como lutas de poder motivadas pela competi\u00e7\u00e3o e pela inveja\u201d (Id. Ibid., p. 271) Freud deu \u00e0 inteira quest\u00e3o da psicologia das massas a explica\u00e7\u00e3o do complexo de \u00c9dipo filogeneticamente transmitido, j\u00e1 que, como ele diz: \u201ca massa se nos apresenta, pois, como uma ressurrei\u00e7\u00e3o da horda primitiva\u201d (FREUD, 1996, v. 3, p. 2596). Para Breger, nessa an\u00e1lise de Freud sobre os l\u00edderes e as massas, as suas pr\u00f3prias frustra\u00e7\u00f5es e seus traumas \u2014 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua inf\u00e2ncia de priva\u00e7\u00f5es, \u00e0 vergonha de seu pai e \u00e0 busca compensat\u00f3ria de her\u00f3is idealizados e de patronos intelectuais e financeiros, \u00e0 competi\u00e7\u00e3o com os irm\u00e3os pelo carinho e aten\u00e7\u00e3o da m\u00e3e, e ao r\u00edgido senso de autocr\u00edtica, enfim, todos estes elementos \u2014impediam Freud de enxergar outros aspectos que n\u00e3o aqueles explicados pelo complexo de \u00c9dipo. Breger diz que, como era caracter\u00edstico, seu relato \u201ctamb\u00e9m negligenciava as m\u00e3es e a generalizada necessidade humana de la\u00e7os \u00edntimos e rela\u00e7\u00f5es duradouras\u201d (BREGER, 2000, p. 271). (A tradu\u00e7\u00e3o das cita\u00e7\u00f5es \u00e9 nossa.).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref685\" name=\"_edn685\">[dclxxxv]<\/a> FREUD, 1996, v. 3, p. 2592-6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref686\" name=\"_edn686\">[dclxxxvi]<\/a> Id. Ibid., p. 2593. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref687\" name=\"_edn687\">[dclxxxvii]<\/a> Id. Ibid., p. 2594-5.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref688\" name=\"_edn688\">[dclxxxviii]<\/a> Gemeinsgeist.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref689\" name=\"_edn689\">[dclxxxix]<\/a> FREUD, 1996, v. 3, p. 2595. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref690\" name=\"_edn690\">[dcxc]<\/a> Freud encontra, nessa din\u00e2mica da vida coletiva dos homens, a manifesta\u00e7\u00e3o filogen\u00e9tica do pacto primevo dos irm\u00e3os parricidas, que ap\u00f3s assassinarem e devorarem o pai, estabelecem a lei fundamental da igualdade fraterna. Como Freud escreve, \u201cA massa se nos apresenta, pois, como uma ressurrei\u00e7\u00e3o da horda primitiva. Assim como o homem primitivo sobrevive virtualmente em cada pessoa, tamb\u00e9m toda massa humana pode reconstruir a horda primitiva\u201d (FREUD, 1996, v. 3, p. 2596). Aqui, outra vez, encontramos o onipresente complexo de \u00c9dipo, em sua dimens\u00e3o social, na raiz das explica\u00e7\u00f5es de Freud para as din\u00e2micas do psiquismo individual e coletivo. A forma como ele resume este entendimento tamb\u00e9m pode ser encontrado em <em>Psicologia das Massas e An\u00e1lise do Eu<\/em>: \u201c[&#8230;] o pai primitivo impedia a seus filhos a satisfa\u00e7\u00e3o de suas tend\u00eancias sexuais diretas; impunha-lhes a abstin\u00eancia e, por conseguinte, como conseq\u00fc\u00eancia, o estabelecimento de la\u00e7os afetivos que os ligavam a ele, em primeiro lugar, e, em seguida, uns aos outros. Pode-se deduzir que lhes imp\u00f4s a psicologia coletiva e que esta psicologia n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o, em \u00faltima an\u00e1lise, produto de seus ci\u00fames sexuais e sua intoler\u00e2ncia\u201d (Id.Ibid., p. 2597. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa) E conclui: \u201cO car\u00e1ter inquietante e coercitivo das forma\u00e7\u00f5es [humanas] coletivas, que se manifesta em seus fen\u00f4menos de sugest\u00e3o [coletiva], pode ser atribu\u00eddo, portanto, \u00e0 afinidade da massa com a horda primitiva, da qual descende. O l\u00edder \u00e9 ainda o temido pai primitivo. A massa quer sempre ser dominada por um poder ilimitado. \u00c1vida de autoridade, tem, segundo as palavras de Gustave Le Bon, uma inesgot\u00e1vel sede de submiss\u00e3o. O pai primitivo \u00e9 o ideal da massa, e esse ideal domina o indiv\u00edduo, substituindo nele o seu <em>ideal-de-eu<\/em>\u201d (Id. Ibid., p. 2599). (A tradu\u00e7\u00e3o das cita\u00e7\u00f5es \u00e9 nossa.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref691\" name=\"_edn691\">[dcxci]<\/a> FREUD, 1996, v. 3, p. 2595. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref692\" name=\"_edn692\">[dcxcii]<\/a> Id. Ibid., p. 2595. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref693\" name=\"_edn693\">[dcxciii]<\/a> FREUD, 1996, v. 3, p. 2595. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref694\" name=\"_edn694\">[dcxciv]<\/a> Id. Ibid., p. 2600-1.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref695\" name=\"_edn695\">[dcxcv]<\/a> Id. Ibid., p. 2604. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref696\" name=\"_edn696\">[dcxcvi]<\/a> Id. Ibid., p. 2604. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref697\" name=\"_edn697\">[dcxcvii]<\/a> Id. Ibid., p. 2605. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref698\" name=\"_edn698\">[dcxcviii]<\/a> Id. Ibid., p. 2604. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref699\" name=\"_edn699\">[dcxcix]<\/a> FREUD, [19307], p. 455; [19307a], p. 3036-7. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref700\" name=\"_edn700\">[dcc]<\/a> Freud entende que o descr\u00e9dito das lideran\u00e7as sociais pode levar a um \u201ctem\u00edvel perigo que amea\u00e7a a cultura\u201d, aquilo que ele chamou de \u201cmis\u00e9ria psicol\u00f3gica das massas\u201d. Segundo Freud, \u201cEsse perigo \u00e9 mais eminente quando as for\u00e7as sociais de coes\u00e3o consistem primordialmente de identifica\u00e7\u00f5es m\u00fatuas entre os indiv\u00edduos de um grupo, enquanto os personagens dirigentes n\u00e3o assumem o papel importante que deveriam desempenhar na forma\u00e7\u00e3o da massa\u201d. Ou seja, quando os la\u00e7os amorosos que unem os indiv\u00edduos <em>horizontalmente<\/em> superam os la\u00e7os que os unem <em>verticalmente<\/em> aos l\u00edderes da sociedade. Em tais casos, segundo Freud, a unidade social de desmancha no p\u00e2nico de uma massa ac\u00e9fala, a exemplo do ex\u00e9rcito ass\u00edrio que debanda quando se v\u00ea sem lideran\u00e7a (Todas as cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o de FREUD, [1930], p. 475; [1930a], p. 3049. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref701\" name=\"_edn701\">[dcci]<\/a> FREUD, [19307], p. 455; [19307a], p. 3036-7. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref702\" name=\"_edn702\">[dccii]<\/a> Id. Ibid., p. 455; [19307a], p. 3036-7. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref703\" name=\"_edn703\">[dcciii]<\/a> EINSTEIN, 2005, p. 181. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref704\" name=\"_edn704\">[dcciv]<\/a> EINSTEIN, 1996, p. 8. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref705\" name=\"_edn705\">[dccv]<\/a> FREUD, [1915b], p. 2104. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref706\" name=\"_edn706\">[dccvi]<\/a> Esta desilus\u00e3o dos povo em rela\u00e7\u00e3o aos seus governantes, que pode provocar a \u201cmis\u00e9ria psicol\u00f3gica das massas\u201d, \u00e9 basicamente disparada pelo sentimento de que a justi\u00e7a n\u00e3o \u00e9 igual para todos. Freud ponderava sobre a Primeira Grande Guerra: \u201cO cidad\u00e3o, como indiv\u00edduo, comprova com espanto, nesta guerra, algo que j\u00e1 conseguia vislumbrar na paz; comprova que o Estado proibiu ao indiv\u00edduo a pr\u00e1tica da injusti\u00e7a n\u00e3o porque a quisera abolir, mas sim porque pretendia t\u00ea-la como monop\u00f3lio seu [&#8230;] O Estado combatente se permite todas as injusti\u00e7as e todas as viol\u00eancias que causariam desonra ao indiv\u00edduo\u201d. A mis\u00e9ria moral dos indiv\u00edduos e a bancarrota da sociedade adv\u00eam desse descr\u00e9dito que o Estado se auto-infligiu atrav\u00e9s da pr\u00e1tica da injusti\u00e7a. Freud segue na sua an\u00e1lise: \u201cO Estado exige de seus cidad\u00e3os o m\u00e1ximo de obedi\u00eancia e de abnega\u00e7\u00e3o, mas os incapacita ao encobertar excessivamente a verdade e ao censurar a intercomunica\u00e7\u00e3o e a livre express\u00e3o de suas opini\u00f5es, de tal forma que as pessoas assim intelectualmente oprimidas ficam com o \u00e2nimo indefeso ante toda situa\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel e todo rumor desastroso. O Estado abdica de todas as garantias e todos os conv\u00eanios que havia concertado com outros Estados e confessa abertamente sua cobi\u00e7a e sua \u00e2nsia de poder, \u00e0s quais o indiv\u00edduo precisa, em nome do patriotismo, dar sua san\u00e7\u00e3o\u201d (Todas as cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o de FREUD, [1915b], p. 2104. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref707\" name=\"_edn707\">[dccvii]<\/a> Em 1915, nas <em>Considera\u00e7\u00f5es Atuais Sobre a Guerra e a Morte<\/em>, ele escrevia: \u201cN\u00e3o devemos tampouco ficar surpreendidos se o relaxamento das rela\u00e7\u00f5es morais entre os povos tenha repercutido na moralidade do indiv\u00edduo, pois nossa consci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 o juiz incorrupt\u00edvel que os moralistas sup\u00f5em ser; ela \u00e9 t\u00e3o somente, em sua origem, \u2018ang\u00fastia social\u2019, e nada mais. Quando a comunidade abre m\u00e3o de todas as censuras, cessa tamb\u00e9m o controle \u00e0s m\u00e1s paix\u00f5es, e os homens cometem atos de crueldade, mal\u00edcia, trai\u00e7\u00e3o e brutalidade cuja possibilidade se julgaria incompat\u00edvel com seu n\u00edvel cultural\u201d (FREUD, [1915b], p. 2104. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref708\" name=\"_edn708\">[dccviii]<\/a> EINSTEIN, 2005, p. 181. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref709\" name=\"_edn709\">[dccix]<\/a> FREUD, [1927], p. 333; [1927a], p. 2966. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref710\" name=\"_edn710\">[dccx]<\/a> Todas as cita\u00e7\u00f5es neste par\u00e1grafo s\u00e3o de FREUD, [1915b], p. 2109-10. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref711\" name=\"_edn711\">[dccxi]<\/a> \u00a7E5.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref712\" name=\"_edn712\">[dccxii]<\/a> \u00a7E5.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref713\" name=\"_edn713\">[dccxiii]<\/a> Em <em>O Futuro de uma Ilus\u00e3o<\/em> (1927), ele escreve: \u201cEsta identifica\u00e7\u00e3o entre os oprimidos com a classe que os oprime e os explora, entretanto, n\u00e3o \u00e9 mais do que um fragmento de um todo mais amplo, pois, al\u00e9m disso, os oprimidos podem sentir-se afetivamente ligados a seus opressores e, apesar de sua hostilidade, ver em seus amos seu ideal. Se n\u00e3o existissem tais rela\u00e7\u00f5es, que no fundo s\u00e3o satisfat\u00f3rias, seria incompreens\u00edvel que certas civiliza\u00e7\u00f5es se tenham conservado por tanto tempo, apesar da justificada hostilidade de grandes massas de homens\u201d (FREUD, [1927], p. 335; [1927a], p. 2966. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref714\" name=\"_edn714\">[dccxiv]<\/a> Todas as cita\u00e7\u00f5es neste par\u00e1grafo s\u00e3o de \u00a7F15.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref715\" name=\"_edn715\">[dccxv]<\/a> Por ocasi\u00e3o de seu octog\u00e9simo anivers\u00e1rio, ele afirmou que \u201cPoucas pessoas s\u00e3o capazes de expressar com equanimidade alguma opini\u00e3o que difira dos preconceitos de seu ambiente social. A maior parte das pessoas s\u00e3o mesmo incapazes de formar tais opini\u00f5es\u201d (EINSTEIN, 2005, p. 120-1). Einstein considerava que este comportamento escravo era especialmente marcante no comportamento coletivo, de massa. Para ele, \u201cComunidades tendem a ser menos guiadas pela consci\u00eancia e pelo senso de responsabilidade do que os indiv\u00edduos\u201d (EINSTEIN, c. 1954, p. 54). (A tradu\u00e7\u00e3o das cita\u00e7\u00f5es \u00e9 nossa.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref716\" name=\"_edn716\">[dccxvi]<\/a> EINSTEIN, c. 1954, p. 14-5. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref717\" name=\"_edn717\">[dccxvii]<\/a> EINSTEIN, 2005, p. 266. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa. Einstein sentia que o que \u00e9 \u201cverdadeiramente valioso no cortejo da vida humana n\u00e3o \u00e9 o estado pol\u00edtico, mas o indiv\u00edduo criativo e consciente, a personalidade; somente ele cria o nobre e o sublime, enquanto a boiada, como tal, permanece obtusa no pensar e no sentir\u201d (Id. Ibid.,p. 265). Em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, ele encorajou seus ouvintes e correspondentes a sempre adotarem uma postura independente e cr\u00edtica ante a realidade social e os dogmas culturais, especialmente os pol\u00edticos. Ele os orientava a nunca fazerem nada \u201cque v\u00e1 contra sua consci\u00eancia, mesmo que o Estado o exija\u201d (Id. Ibid.,p. 259). Dizia que \u201cA <em>indigna paix\u00e3o do conformismo adaptativo<\/em>, demonstrada por muitos dentre meu povo, sempre me foi muito repulsiva\u201d (Id. Ibid., p. 259). Para ele \u201cUma <em>f\u00e9 tola na autoridade<\/em> \u00e9 o pior inimigo da verdade\u201d (Id. Ibid., p. 253), e acreditava que \u201cA sa\u00fade da sociedade, por isso, depende tanto da <em>independ\u00eancia dos indiv\u00edduos<\/em> que a comp\u00f5em quanto da \u00edntima coes\u00e3o social entre eles\u201d (EINSTEIN, c. 1954, p. 14).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref718\" name=\"_edn718\">[dccxviii]<\/a> EINSTEIN, 2005, p. 180. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref719\" name=\"_edn719\">[dccxix]<\/a> \u00a7E5.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref720\" name=\"_edn720\">[dccxx]<\/a> FREUD, [1915b], p. 2104. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref721\" name=\"_edn721\">[dccxxi]<\/a> Freud apresentava uma tend\u00eancia marcante para se identificar e simpatizar com a classe burguesa e aristocr\u00e1tica, apesar de suas origens humildes, ou, talvez, justamente por causa delas. Segundo v\u00e1rios bi\u00f3grafos de Freud, uma conseq\u00fc\u00eancia dos anos de pobreza e priva\u00e7\u00e3o de sua inf\u00e2ncia e juventude foi a busca de um ref\u00fagio na seguran\u00e7a e conservadorismo de uma vida burguesa, \u00e0 qual ele finalmente atingiu em seus anos de maturidade. Luis Breger comenta que \u201cDentro do c\u00edrculo \u00edntimo da fam\u00edlia, Freud manifestava os valores e gostos mais patriarcais e comuns da classe m\u00e9dia. Estas predile\u00e7\u00f5es vinham, em parte, de sua necessidade de acertar contas com a pobreza e o caos de seus primeiros anos&#8230;\u201d (BREGER, 2000, p. 289). Paul Roazen escreve que um dos muitos aspectos da complexa personalidade de Freud era ser \u201cum cavalheiro burgu\u00eas com muitos dos preconceitos de seu tempo\u201d (ROAZEN, 1971, p. xix ). (As tradu\u00e7\u00f5es de todas as cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o nossas.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref722\" name=\"_edn722\">[dccxxii]<\/a> Ao contr\u00e1rio de v\u00e1rios intelectuais europeus, e mesmo colegas e amigos, que simpatizavam com as for\u00e7as de transforma\u00e7\u00e3o social do primeiro quartel do s\u00e9culo XX, como o socialismo e o feminismo, Freud sempre permaneceu um conservador, inclusive em termos de ascens\u00e3o social e enriquecimento pessoal. Louis Breger comenta: \u201cOs Freud eram judeus assimilados de sucesso, com dois caminhos abertos diante deles. Poderiam permanecer em contato com sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria e simpatizar com os trabalhadores e os pobres, ou identificar-se com as classes mais altas. A rea\u00e7\u00e3o de Freud era complexa; alguns de seus coment\u00e1rios revelavam uma percep\u00e7\u00e3o das dificuldades da pobreza de sua juventude e mostravam simpatia pelos estratos mais baixos da sociedade. Mas tais coment\u00e1rios eram raros; na maior parte das vezes, ele se distanciava daqueles que ele frequentemente tratava de<em> Gesindel \u2014 a gentalha, a massa, ou ral\u00e9 \u2014 <\/em>e se identificava com aqueles que ele considerava respeit\u00e1veis e poderosos. Em 1917, ele escreveu a Lou Andr\u00e9as-Salom\u00e9 sobre <em>das bl\u00f6de Volk <\/em>\u2014 <em>o povo imbecil<\/em>\u201d (BREGER, 2000, p. 292). (A tradu\u00e7\u00e3o das cita\u00e7\u00f5es \u00e9 nossa.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref723\" name=\"_edn723\">[dccxxiii]<\/a> GAY, 2004, p. 480.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref724\" name=\"_edn724\">[dccxxiv]<\/a> Em alem\u00e3o: ral\u00e9, gentalha, populacho, plebe.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref725\" name=\"_edn725\">[dccxxv]<\/a> GAY, 2004, p. 480.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref726\" name=\"_edn726\">[dccxxvi]<\/a> Id. Ibid., p. 480.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref727\" name=\"_edn727\">[dccxxvii]<\/a> Segundo Louis Breger, tanto Adler quanto Ferenczi, disc\u00edpulos, colegas analistas, e depois desafetos de Freud \u201cdemonstravam uma compaix\u00e3o especial pelos pobres, algo notavelmente ausente no trabalho do pr\u00f3prio Freud\u201d (BREGER, 2000, p. 340). Uma investiga\u00e7\u00e3o sobre a classe social dos pacientes de Adler e de Freud evidencia bem esta diferen\u00e7a. Enquanto que 74% dos pacientes de Freud eram ricos, 33% classe m\u00e9dia e apenas 3% da classe trabalhadora, no caso de Adler 25% eram classe alta, 39% classe m\u00e9dia e 35% classe baixa (Id. Ibid., p. 196). (As tradu\u00e7\u00f5es das cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o nossas.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref728\" name=\"_edn728\">[dccxxviii]<\/a> Em 1944, escrevendo sobre os her\u00f3is do Gueto de Vars\u00f3via, para o Boletim da Sociedade de Judeus Poloneses, Einstein dizia: \u201cOs alem\u00e3es, como um povo, s\u00e3o respons\u00e1veis por esses assassinatos em massa e como um povo precisam ser punidos [&#8230;] Por tr\u00e1s do partido nazista est\u00e1 o povo alem\u00e3o, que elegeu Hitler depois de ele ter deixado claras suas vergonhosas inten\u00e7\u00f5es, sem qualquer margem para d\u00favidas, em seu livro e em seus discursos\u201d (EINSTEIN, 2005, p. 109.). Em 1931, em seu texto sobre a Confer\u00eancia de Desarmamento da Lida das Na\u00e7\u00f5es, que ocorreria em 1932, Einstein lembrava seus leitores que \u201c\u00e9 dever de todas as pessoas inteligentes e respons\u00e1veis fazer o m\u00e1ximo empenho para recordar a opini\u00e3o p\u00fablica, repetidas vezes, sobre a import\u00e2ncia da Confer\u00eancia de 1932. Apenas se os governantes puderem se apoiar no desejo de paz de uma decisiva maioria em seus respectivos pa\u00edses \u00e9 que eles poder\u00e3o alcan\u00e7ar este grande objetivo, e, para a forma\u00e7\u00e3o dessa opini\u00e3o p\u00fablica, cada um de n\u00f3s \u00e9 respons\u00e1vel em suas palavras e atos\u201d (EINSTEIN, c. 1954, p. 99). (Todas as tradu\u00e7\u00f5es e \u00eanfases s\u00e3o nossas.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref729\" name=\"_edn729\">[dccxxix]<\/a> EINSTEIN, 2005, p. 167. A tradu\u00e7\u00e3o e a \u00eanfase s\u00e3o nossas.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref730\" name=\"_edn730\">[dccxxx]<\/a> <em>Bildung<\/em> \u00e9 um conceito central na cultura e na teoria da educa\u00e7\u00e3o alem\u00e3. A palavra, como muitas da filosofia e da cultura alem\u00e3s, desafia uma defini\u00e7\u00e3o precisa e categ\u00f3rica. Klaus Prange afirma que \u201cO termo cobre uma ampla gama de conota\u00e7\u00f5es e aplica\u00e7\u00f5es que desafiam a defini\u00e7\u00e3o\u201d (PRANGE, 2004, p. 501). Prange lista um grande n\u00famero de palavras que, no ingl\u00eas e no franc\u00eas, aproximam-se do conceito de <em>Bildung:<\/em> \u201cforma\u00e7\u00e3o\u201d, \u201ccrescimento\u201d, \u201cforma\u201d, \u201ctreinamento\u201d, \u201ceduca\u00e7\u00e3o\u201d, \u201ccultura\u201d; e tamb\u00e9m \u201ceduca\u00e7\u00e3o superior\u201d, \u201ccultura superior\u201d, \u201crefinamento\u201d, \u201cboa cria\u00e7\u00e3o\u201d; e, correspondentemente, em franc\u00eas: \u201cculture\u201d, \u201ccivilisation\u201d, \u201cformation\u201d, \u201cfa\u00e7onnement\u201d, \u201cdiscipline intellectuelle\u201d. Victor Hell sintetiza a id\u00e9ia de <em>Bildung<\/em> como \u201cforma\u00e7\u00e3o intelectual, est\u00e9tica e moral\u201d (HELL, 1989, p. 70).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref731\" name=\"_edn731\">[dccxxxi]<\/a> Breger entende que a imagem depreciativa das \u201cmassas\u201d que caracterizava a <em>Weltanschauung<\/em> de Freud prejudicou sua an\u00e1lise, uma vez que as via como um grupo de \u201ccriaturas movidas por suas puls\u00f5es ego\u00edstas\u201d (BREGER, 2000, p. 271), que necessitava, ou mesmo exigia \u201cum l\u00edder forte que as mantivesse sob controle\u201d (Id. Ibid., p. 271). Nesta an\u00e1lise das massas, Freud foi influenciado pelo trabalho de Gustave Le Bon, e fala de \u201cseu quadro brilhantemente executado da mente coletiva\u201d (Freud, apud. Id. Ibid., p. 271). Por\u00e9m, Breger nos informa que Le Bon era um \u201cmis\u00f3gino e um racista not\u00f3rio\u201d (Id. Ibid., p. 271). Sua outra influ\u00eancia foi seu pr\u00f3prio trabalho, <em>Totem e Tabu<\/em> (1913), no qual apresentou o \u201cmito cient\u00edfico\u201d (Id. Ibid., p.271) sobre a origem da sociedade humana \u2014 a horda primitiva e a rebeli\u00e3o dos filhos contra o pai primitivo, e sua repercuss\u00e3o filogen\u00e9tica (ao que j\u00e1 tivemos oportunidade de nos referir v\u00e1rias vezes). Breger coloca que \u201cEmbora Freud tentasse desarmar o leitor chamando <em>Totem e Tabu<\/em> de um \u2018mito\u2019, em ensaios posteriores, como <em>Psicologia das Massas<\/em>, este mito se tornou sua verdade, usada para explicar coisas como os v\u00ednculos entre soldados ou os la\u00e7os entre os crentes religiosos\u201d (Id. Ibid., p. 271). Jos\u00e9 Brunner concorda com esta an\u00e1lise de Breger e diz que \u201cPara Freud todas as rela\u00e7\u00f5es sociais, tanto privadas quanto p\u00fablicas, escondem uma tipicalidade edipiana que subjaz suas v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es. Ele tomou este postulado do n\u00facleo edipiano inconsciente das rela\u00e7\u00f5es sociais como o derradeiro ponto de refer\u00eancia da an\u00e1lise social, que somente poderia ser alcan\u00e7ado pela investiga\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica\u201d (BRUNNER, 2000, p. 81-2). Louis Breger argumenta ainda: \u201cA hist\u00f3ria oferece abundantes exemplos de competi\u00e7\u00e3o, inveja e viol\u00eancia grupal, mas as teorias de Freud e Le Bon pouco oferecem para explicar esses fen\u00f4menos. Os soldados na Primeira Guerra Mundial certamente n\u00e3o eram uma \u2018massa\u2019 que amava seus generais ou uma multid\u00e3o controlada por um l\u00edder na forma como a horda primitiva era supostamente comandada por um pai poderoso. Tampouco se pode explicar tudo na religi\u00e3o atrav\u00e9s do amor das massas cegas pelas figuras santas, ou por Deus\u201d (BREGER, 2000, p. 271). (A tradu\u00e7\u00e3o das cita\u00e7\u00f5es \u00e9 nossa.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref732\" name=\"_edn732\">[dccxxxii]<\/a> Gay, 2004, p. 25.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref733\" name=\"_edn733\">[dccxxxiii]<\/a> Enquanto a vida pessoal e p\u00fablica de Freud era circunspecta e cheia de cerim\u00f4nia, especialmente no falar e no vestir, Einstein n\u00e3o poderia ser mais desleixado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua apar\u00eancia, nem menos preocupado com a fama e o dinheiro. Todas as fotografias de Freud, mesmo em ambiente dom\u00e9stico, refletem este ar de cuidadosa eleg\u00e2ncia e refinamento. Como diz Peter Gay, \u201cO Freud mais conhecido, aquele que aparece carrancudo nas fotografias, n\u00e3o \u00e9 ilus\u00f3rio\u201d (GAY, 2004, p. 158), e, para milh\u00f5es de pessoas, o retrato de Freud \u00e9 o de \u201cum cavalheiro idoso e austero, cuidadosamente vestido, com olhos penetrantes e o indefect\u00edvel charuto\u201d (GAY, 2004, p. 158). J\u00e1 as imagens de Einstein revelam o oposto. N\u00e3o se pode imaginar uma foto de Freud como as que temos de Einstein: os cabelos desgrenhados, a roupa deselegante, as rid\u00edculas sand\u00e1lias na praia, amontoando em cima de uma bicicleta, ou \u2014 a mais famosa \u2014 mostrando a l\u00edngua! Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua apar\u00eancia pessoal, dois momentos na vida de Einstein revelam bem sua atitude. Certa vez, quando sua esposa lhe pediu que se vestisse com mais aprumo quando fosse para seu escrit\u00f3rio na universidade, ele respondeu: \u201cPor que deveria? Todo mundo me conhece l\u00e1!\u201d. Em outra ocasi\u00e3o, quando solicitado a se vestir com eleg\u00e2ncia para sua primeira grande confer\u00eancia, sua resposta foi: \u201cPor que deveria? Ningu\u00e9m me conhece l\u00e1!\u201d (EINSTEIN, 2005, p. 258. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref734\" name=\"_edn734\">[dccxxxiv]<\/a> CLARK, 1972, p. 33. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref735\" name=\"_edn735\">[dccxxxv]<\/a> SCHUR, 1972, p. 22. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref736\" name=\"_edn736\">[dccxxxvi]<\/a> Em Freiberg nasceram Julius (1857-1858) e Anna (1858-1955). Em Viena, Rosa (1860-1942), Marie (1861-1942), Adolfine (1862-1942), Pauline (1863-1942) e Alexander (1866-1943). Julius, o segundo filho de Jacob e Amalia, os pais de Freud, morreu de uma complica\u00e7\u00e3o intestinal com cerca de sete meses, (Freud tinha dois anos), e recebeu o nome do irm\u00e3o mais mo\u00e7o de Am\u00e1lia, que falecera, aos vinte anos, um m\u00eas antes do nascimento do irm\u00e3ozinho de Freud. Louis Breger comenta que \u201cA combina\u00e7\u00e3o do sofrimento de sua m\u00e3e, em conseq\u00fc\u00eancia das mortes de seu irm\u00e3o e seu segundo filho, e suas aparentemente intermin\u00e1veis gesta\u00e7\u00f5es associadas \u00e0s exig\u00eancias dos novos beb\u00eas, significaram que o jovem Freud p\u00f4de desfrutar muito pouco do tempo, da aten\u00e7\u00e3o e do cuidado dela [sua m\u00e3e]\u201d (BREGER, 2000, p. 14.). Ent\u00e3o, quando Freud tinha menos de dois anos e meio, a situa\u00e7\u00e3o se complicou ainda mais com o nascimento de sua irm\u00e3 Anna, em 1858. Os sentimentos de ci\u00fames e rivalidade extrema foram inevit\u00e1veis em Freud. Como escreveu Ernest Jones, \u201cA experi\u00eancia parece ter tido um efeito duradouro, pois Freud nunca viria a gostar dessa irm\u00e3.\u201d (JONES, 1963, v. 1, p. 10). (Todas as tradu\u00e7\u00f5es das cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o nossas.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref737\" name=\"_edn737\">[dccxxxvii]<\/a> Freud a Fliess em 7\/5\/1900. Apud. GAY, 2004, p. 136.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref738\" name=\"_edn738\">[dccxxxviii]<\/a> JONES, 1963, v. 2, p. 3. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref739\" name=\"_edn739\">[dccxxxix]<\/a> Id. Ibid., p. 3. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref740\" name=\"_edn740\">[dccxl]<\/a> ROAZEN, 1971, p. 70. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref741\" name=\"_edn741\">[dccxli]<\/a> Freud, devido a \u201cestranhos sentimentos de inferioridade\u201d (JONES, 1963, v. 2, p. 3), provavelmente devido \u00e0 imensa cobran\u00e7a de alto desempenho que lhe fora imposta pela fam\u00edlia, associada \u00e0 falta de aconchego do lar, procurou superar sua inf\u00e2ncia de priva\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s da identifica\u00e7\u00e3o com grandes her\u00f3is militares, algo que surgiu j\u00e1 muito cedo em sua vida. Conforme analisa Louis Breger, isso era uma conseq\u00fc\u00eancia natural da fuga compensat\u00f3ria de Freud de sua realidade pobre e traum\u00e1tica. Como ele coloca, \u201cAssim como muitas crian\u00e7as espertas em circunst\u00e2ncias similares, ele buscou ref\u00fagio no mundo de sua imagina\u00e7\u00e3o\u201d (BREGER, 2000, p. 2). Nessa fuga compensat\u00f3ria ao mundo dos her\u00f3is, era vis\u00edvel a identifica\u00e7\u00e3o preferencial de Freud com os her\u00f3is militares: \u201cA figura her\u00f3ica que mais o seduzia era a do conquistador, o general que conduz seu ex\u00e9rcito para a vit\u00f3ria no combate. Alexandre, o Grande; Napole\u00e3o e o cartagin\u00eas An\u00edbal, que cruzou os Alpes para atacar o poder de Roma, eram os homens que despertavam seu ardor\u201d (BREGER, 2000, p. 3). Ernest Jones, o mais elogioso bi\u00f3grafo de Freud, comenta: \u201cDurante seu amadurecimento Freud passou por uma fase inequivocamente militarista, a qual ele relacionava com suas batalhas com o sobrinho na primeira inf\u00e2ncia. Um dos primeiros livros que lhe caiu nas m\u00e3os infantis, ap\u00f3s ter aprendido a ler, foi o <em>Consulado e Imp\u00e9rio<\/em>, de Thier [A. Thiers: <em>Hist\u00f3ria do Consulado e do Imp\u00e9rio na Fran\u00e7a sob Napole\u00e3o<\/em>]. Ele [Freud] nos conta como colava pequenas etiquetas nas costas de seus soldadinhos de chumbo com os nomes dos oficiais de Napole\u00e3o. Seu favorito era Mass\u00e9na, que se acreditava ter sido judeu; ele [Freud] era auxiliado neste culto ao her\u00f3i pela circunst\u00e2ncia de terem nascido na mesma data, com cem anos de diferen\u00e7a\u201d (JONES, 1963, v. 1, p. 23). (A tradu\u00e7\u00e3o das cita\u00e7\u00f5es \u00e9 nossa.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref742\" name=\"_edn742\">[dccxlii]<\/a> JONES, 1963, v. 2, p. 420. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref743\" name=\"_edn743\">[dccxliii]<\/a> JONES, 1963, v. 2, p. 3. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref744\" name=\"_edn744\">[dccxliv]<\/a> Id. Ibid., p. 3. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref745\" name=\"_edn745\">[dccxlv]<\/a> CLARK, 1972, p. 26. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref746\" name=\"_edn746\">[dccxlvi]<\/a> Id. Ibid., p. 26. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref747\" name=\"_edn747\">[dccxlvii]<\/a> Id. Ibid., p. 26. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref748\" name=\"_edn748\">[dccxlviii]<\/a> Em seu texto de 1931, <em>Como Vejo o Mundo<\/em>, Einstein manifestou enfaticamente esta repulsa de toda uma vida: \u201cEste t\u00f3pico me conduz \u00e0quele que \u00e9 o pior fruto da vida em rebanho: o sistema militar, que eu detesto. Que um homem possa sentir prazer em desfilar marchando aos acordes de uma banda \u00e9 suficiente para que eu o despreze. Foi somente por engano que ele ganhou um c\u00e9rebro grande; a medula espinhal lhe seria o suficiente. Dever\u00edamos abolir com a m\u00e1xima presteza este c\u00e2ncer da civiliza\u00e7\u00e3o. Hero\u00edsmo obrigat\u00f3rio, viol\u00eancia gratuita e toda aquela nauseabunda tolice que passa pelo nome de patriotismo \u2014 qu\u00e3o passionalmente eu os odeio! Qu\u00e3o vil e desprez\u00edvel me parece a guerra. Preferiria ser esquartejado do que participar de tamanha ignom\u00ednia\u201d (EINSTEIN, c. 1954, p. 10. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref749\" name=\"_edn749\">[dccxlix]<\/a> Refere-se \u00e0 pesquisa feita por cientistas ingleses que provou, no eclipse solar de 1919, a curvatura da luz causada pelo campo gravitacional do sol, assim confirmando empiricamente elementos fundamentais da Teoria da Relatividade, que havia sido publicada por Einstein em 1905.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref750\" name=\"_edn750\">[dccl]<\/a> EINSTEIN, 2005, p. 5. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref751\" name=\"_edn751\">[dccli]<\/a> EINSTEIN, 2005, p. 265. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref752\" name=\"_edn752\">[dcclii]<\/a> Em um pronunciamento de setembro de 1937, Einstein escreveu: \u201cA humanidade tem todos os motivos para colocar os proclamadores dos altos padr\u00f5es e valores morais acima dos descobridores da verdade objetiva. O que a humanidade deve a personalidades como Buda, Mois\u00e9s e Jesus parece-me estar muito acima de todas as conquistas das mentes investigativas e criadoras\u201d (EINSTEIN, 2005, p. 274). Em seu texto sobre a Decad\u00eancia Moral, de 1937, da mesma forma, ele dizia: \u201cEstou firmemente convencido que o desejo apaixonado pela justi\u00e7a e pela verdade fez muito mais pelo aprimoramento da condi\u00e7\u00e3o humana do que a astuta sagacidade pol\u00edtica, que, por fim, gera apenas desconfian\u00e7a generalizada. Quem questionaria o fato de que Mois\u00e9s foi um melhor l\u00edder da humanidade do que Maquiavel?\u201d (EINSTEIN, 1996, p. 8). (A tradu\u00e7\u00e3o das cita\u00e7\u00f5es \u00e9 nossa.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref753\" name=\"_edn753\">[dccliii]<\/a> Freud, ao longo da vida, manteve identifica\u00e7\u00f5es grandiosas com grandes her\u00f3is militares e guerreiros (BREGER, 2000, pp. 2-3, 27-28, 31, 42, 48, 88, 137, 160-62, 205, 240. GAY, 2004, pp. 28-9, 36, 134, 140, 141, 295, 546, 547). Peter Gay aponta um acontecimento na inf\u00e2ncia que, entre outros, teria dado origem a essas identifica\u00e7\u00f5es compensat\u00f3rias. Segundo Gay, Freud sentira uma amea\u00e7adora vergonha ao escutar um relato de como seu pai se havia humilhado ante um crist\u00e3o e, assim, \u201cAguilhoado pelo espet\u00e1culo de um judeu covarde [seu pai!] rebaixando-se frente a um crist\u00e3o, Freud desenvolveu fantasias de vingan\u00e7a. Identificou-se com o magn\u00edfico e intr\u00e9pido semita An\u00edbal, que jurara vingar Cartago, por mais poderosos que fossem os romanos\u201d (GAY, 2004, p. 28). Ao longo de toda sua vida, Freud manteria este tipo de identifica\u00e7\u00e3o grandiosa com figuras hist\u00f3ricas. Como Peter Gay coloca, Freud \u201ctinha algo de um her\u00f3i consciente de si mesmo, identificando-se com gigantes da hist\u00f3ria universal como Leonardo da Vinci e An\u00edbal, sem citar Mois\u00e9s\u201d (GAY, 2004, p. 141).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref754\" name=\"_edn754\">[dccliv]<\/a> Apud. ROAZEN, 1971, p. 534. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref755\" name=\"_edn755\">[dcclv]<\/a> Na an\u00e1lise de Peter Gay, ao longo de toda a vida Freud manteve-se um liberal de centro, sem nunca apoiar explicitamente nem as for\u00e7as conservadoras do imp\u00e9rio austro-h\u00fangaro, nem as for\u00e7as revolucion\u00e1rias de direita ou de esquerda. Em 1920, numa carta a Kata Levy, uma amiga e ex-analisanda h\u00fangara, Freud escreveu: \u201ca onda reacion\u00e1ria deve se instalar por aqui tamb\u00e9m, depois que a revolucion\u00e1ria n\u00e3o trouxe nada de agrad\u00e1vel. Qual \u00e9 a pior esc\u00f3ria? Certamente sempre a que est\u00e1 por cima\u201d (Apud. Gay, 2004, p. 356).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref756\" name=\"_edn756\">[dcclvi]<\/a> Freud, Ernst, 1964, p. 420. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref757\" name=\"_edn757\">[dcclvii]<\/a> Id. Ibid., p. 420. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref758\" name=\"_edn758\">[dcclviii]<\/a> <em>Bildung<\/em>: \u201cforma\u00e7\u00e3o intelectual, est\u00e9tica e moral\u201d (HELL, 1989, p. 70).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref759\" name=\"_edn759\">[dcclix]<\/a> Cosmovis\u00e3o, mundivis\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref760\" name=\"_edn760\">[dcclx]<\/a> A tradi\u00e7\u00e3o de <em>Bildung<\/em> alem\u00e3, de maneira geral, e sua for\u00e7a e preponder\u00e2ncia no s\u00e9culo XIX \u2014 o s\u00e9culo da <em>Bildung<\/em> \u2014 , \u00e9 foi de grande influ\u00eancia sobre a comunidade judaica, ou pelo menos sobre aquela parcela na qual Einstein e Freud estavam inseridos. Ela oferecia um ambiente favor\u00e1vel e um instrumento importante para aqueles judeus que aspiravam integrar-se na vida social, pol\u00edtica e econ\u00f4mica do mundo alem\u00e3o, os assim chamados <em>judeus assimilados<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref761\" name=\"_edn761\">[dcclxi]<\/a> No ano anterior \u00e0 sua morte, Freud sentiu a necessidade de dizer que: \u201cNem em minha vida privada, nem em meus textos jamais fiz segredo se ser um descrente rematado\u201d (Freud, apud. GAY, 2004, p. 477). Esta postura claramente at\u00e9ia remontava aos anos de juventude. Peter Gay diz que Freud \u201cFora um ate\u00edsta coerente e militante desde os dias de estudante, zombando de Deus e da religi\u00e3o, n\u00e3o poupando o deus e a religi\u00e3o de sua fam\u00edlia\u201d (Freud, apud. GAY, 2004, p. 477). Ao longo dos anos, Freud nunca deixou de dar aten\u00e7\u00e3o ao fen\u00f4meno religioso, sempre com a inten\u00e7\u00e3o de atac\u00e1-lo. Como escreve Gay: \u201cDemolir a religi\u00e3o com armas psicanal\u00edticas estava, pois, h\u00e1 muitos anos, na agenda de Freud\u201d (Freud, apud. GAY, 2004, p. 478).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref762\" name=\"_edn762\">[dcclxii]<\/a> Numa carta de 14 de janeiro de 1920 a Georg, Conde de Arco, Einstein escreveu: \u201cEstou convencido de que o conte\u00fado suprapessoal transmitido pela religi\u00e3o, ainda que seja primitivo em sua forma, \u00e9 mais valioso do que o materialismo de Haeckel. Acredito que mesmo em nossos dias a elimina\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es sagradas ainda resultaria num empobrecimento espiritual e moral \u2014 por mais torpes e vis que as atitudes e a\u00e7\u00f5es do clero possam ser em muitos aspectos\u201d (EINSTEIN, 2005, p. 193. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref763\" name=\"_edn763\">[dcclxiii]<\/a> Em 1927, numa carta a um banqueiro no Colorado, EUA, Einstein expressou: \u201cMinha religiosidade consiste numa humilde admira\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito infinitamente superior que se revela mesmo naquele pouco que podemos compreender do universo que pode ser conhecido. Esta convic\u00e7\u00e3o profundamente emocional da presen\u00e7a de um poder racional superior, que se revela no universo incompreens\u00edvel, constitui minha id\u00e9ia de Deus\u201d (EINSTEIN, 2005, p. 195-6. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref764\" name=\"_edn764\">[dcclxiv]<\/a> EINSTEIN, 2005, p. 196. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref765\" name=\"_edn765\">[dcclxv]<\/a> EINSTEIN, c. 1954, p. 46. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref766\" name=\"_edn766\">[dcclxvi]<\/a> O seguinte excerto de Frankl pode mostrar o que Einstein poderia ter recebido a mais para sua pergunta: \u201cComo a exist\u00eancia humana \u00e9 exist\u00eancia espiritual [&#8230;] o crit\u00e9rio real da exist\u00eancia humana aut\u00eantica est\u00e1 apenas em discernir se determinado fen\u00f4meno \u00e9 instintual ou espiritual [&#8230;] a linha divis\u00f3ria entre o espiritual \u2014 aquilo que h\u00e1 de humano no homem \u2014 e o instintual n\u00e3o pode ser subestimada. De fato, podemos conceb\u00ea-la como um hiato [&#8230;] que separa as duas regi\u00f5es fundamentalmente distintas dentro da estrutura total do ser humano. [&#8230;] O corpo e a psique podem formar uma unidade \u2014 uma unidade psicof\u00edsica \u2014 mas esta unidade ainda n\u00e3o representa o todo do homem. Sem o espiritual como base essencial, esta unidade n\u00e3o pode existir. Enquanto falarmos apenas do corpo e psique, a integridade ainda n\u00e3o est\u00e1 dada\u201d (FRANKL, 1985, p. 23-5).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref767\" name=\"_edn767\">[dcclxvii]<\/a> Um outro texto que merece ser o mais amplamente disseminado e estudado poss\u00edvel \u00e9 a <em>Declara\u00e7\u00e3o de Sevilha<\/em>, adotada pela UNESCO em 1989. Ela se constitui, desde sua formula\u00e7\u00e3o, um dos fundamentos para a Cultura de Paz. Representa a tomada de posi\u00e7\u00e3o por parte de um eminente grupo de cientistas de renome mundial, no sentido de que a guerra se funda em fatores culturais, e n\u00e3o em fatores biol\u00f3gicos. Todos eles concordaram que dentro da Biologia n\u00e3o se conhece qualquer fato que impe\u00e7a a aboli\u00e7\u00e3o da guerra. A guerra n\u00e3o \u00e9 parte da natureza humana, mas uma inven\u00e7\u00e3o que pode ser colocada de lado, como obsoleta e in\u00fatil.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref768\" name=\"_edn768\">[dcclxviii]<\/a> CASA UNIVERSAL DE JUSTI\u00c7A, 1988, p. 3.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"#_ednref769\" name=\"_edn769\">[dcclxix]<\/a> Dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/www.sozialistische-klassiker.org\/Einstein\/Einstein02.pdf\" >www.sozialistische-klassiker.org\/Einstein\/Einstein02.pdf<\/a>. Acesso em 23\/11\/04.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref770\" name=\"_edn770\"><\/a>_____________________________________________________<\/p>\n<h3>Baixe o ficheiro em PDF:<\/h3>\n<h3><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Einstein-e-Freud-Guerra-e-Paz-num-Di\u00e1logo-Interdisciplinar.pdf\" >Einstein e Freud: Guerra e Paz num Di\u00e1logo Interdisciplinar<\/a><\/h3>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/luis_henrique.beust_-e1550234798197.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-128033\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/luis_henrique.beust_-e1550234798197.jpg\" alt=\"\" width=\"100\" height=\"100\" \/><\/a><\/em><em>Luis Henrique Beust nasceu em Porto Alegre, Brasil em 1958. Beust \u00e9 consultor em desenvolvimento humano e social junto \u00e0 ONU &#8211; PNUD (Programa de Desenvolvimento das Na\u00e7\u00f5es Unidas), tendo atuado em mais de 30 pa\u00edses nas tr\u00eas Am\u00e9ricas, Europa, Oriente M\u00e9dio e \u00c1sia. Tamb\u00e9m atua como consultor junto a empresas, \u00f3rg\u00e3os governamentais e n\u00e3o-governamentais no Brasil e no exterior. Estudou Arquitetura e Urbanismo, Agronomia e Hist\u00f3ria ainda em seu estado natal. \u00c9 Mestre em Desenvolvimento Social (Mestrado Latino-americano de Desenvolvimento Social: Chile\/Colombia\/ Bolivia); e Mestre em Educa\u00e7\u00e3o, Arte e Hist\u00f3ria da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie, S\u00e3o Paulo). Tamb\u00e9m realizou v\u00e1rios cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, entre eles Planejamento do Desenvolvimento (University College, Londres); Gest\u00e3o de Assentamentos Humanos (Faculdad Latinoamericana de Ciencias Sociales, FLACSO-UNESCO). Desde 1977 \u00e9 membro da comunidade bah\u00e1\u2019\u00ed, tendo atuado em \u00f3rg\u00e3os locais, regionais e nacionais ao longo das d\u00e9cadas. Como todos os bah\u00e1\u2019\u00eds, acredita que \u201ca paz \u00e9 n\u00e3o apenas poss\u00edvel, mas inevit\u00e1vel\u201d. Que a paz mundial \u00e9 o pr\u00f3ximo est\u00e1gio da vida coletiva do homem neste planeta. Tem atuado como docente em cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no Brasil e no exterior e tem v\u00e1rios textos e livros publicados, inclusive de poesias. Seu livro <\/em>Educar por Inteiro<em>, publicado originalmente pela ONU, pode ser encontrado em formato eletr\u00f4nico no site do Anima Mundi (<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.animamundi.org.br)\" >www.animamundi.org.br)<\/a>; e sua publica\u00e7\u00e3o mais recente <\/em>Afinal, Por Que Sofremos?<em> pode ser obtida no mesmo site. Sua obra, <\/em>Como se Constr\u00f3i a Paz<em>, em parceria com a Dra. Silmara Casadei, voltado para o p\u00fablico pr\u00e9-jovem, tem sido adotada em in\u00fameras escolas no Brasil. Beust mant\u00e9m tr\u00eas blogs (em portugu\u00eas): <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/lhb-educacao.blogspot.com\/\" >lhb-educacao<\/a>, <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/lhb-religiao.blogspot.com\/\" >lhb-religiao<\/a>, <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/lhb-poesia.blogspot.com\/p\/blog-page.html\" >lhb-poesia<\/a>.<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presente trabalho busca situar a relev\u00e2ncia das ideias de Albert Einstein e de Sigmund Freud sobre a guerra e a paz para os esfor\u00e7os contemporaneos de constru\u00e7\u00e3o de uma Cultura de Paz. Argumenta-se que suas contribui\u00e7\u00f5es s\u00e3o especialmente relevantes para fortalecer a ideia fundamental por tr\u00e1s dos esfor\u00e7os de educa\u00e7\u00e3o para tal Cultura, qual seja, de que a guerra n\u00e3o \u00e9 intr\u00ednseca \u00e0 natureza humana, e que, portanto, pode ser eliminada. <\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":95877,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-128107","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/128107","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=128107"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/128107\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media\/95877"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=128107"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=128107"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=128107"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}