{"id":130094,"date":"2019-04-01T12:00:16","date_gmt":"2019-04-01T11:00:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=130094"},"modified":"2019-03-27T15:53:12","modified_gmt":"2019-03-27T15:53:12","slug":"portugues-trabalhar-abatendo-animais-pode-alterar-a-personalidade-humana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2019\/04\/portugues-trabalhar-abatendo-animais-pode-alterar-a-personalidade-humana\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Trabalhar Abatendo Animais Pode Alterar a Personalidade Humana"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_130095\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/slaughterhousehand-matadouro-animal.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-130095\" class=\"wp-image-130095\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/slaughterhousehand-matadouro-animal.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"242\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/slaughterhousehand-matadouro-animal.jpg 650w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/slaughterhousehand-matadouro-animal-300x145.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-130095\" class=\"wp-caption-text\">Eu n\u00e3o sinto mais nada, mas no come\u00e7o foi muito ruim\u201d, frisou um homem identificado apenas como RP9.\u00a0(Foto: Vegan Australia)<\/p><\/div>\n<p><em>26 mar 2019 &#8211; <\/em>Recentemente, o professor do Departamento de Psicologia Organizacional e Industrial da Universidade da \u00c1frica do Sul, Antoni Barnard, <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC4841092\/\" >republicou um estudo conclu\u00eddo em 2016 sobre o impacto psicol\u00f3gico e emocional de se trabalhar em matadouros.<\/a><\/p>\n<p>Para a realiza\u00e7\u00e3o do trabalho, ele entrevistou dezenas de magarefes, pessoas que matam animais criados para consumo. Todos disseram que jamais se esqueceram da primeira vez que abateram um animal. Al\u00e9m do desconforto, muitos relataram tremores, tristeza, afli\u00e7\u00e3o e vergonha.<\/p>\n<p>\u201cEu estava com muito medo, mesmo segurando uma arma\u201d, disse um dos entrevistados. Um dos maiores pontos de estranhamento foi reconhecer que estava trabalhando em um local por onde centenas de animais entram a cada dia e n\u00e3o saem de l\u00e1 com vida.<\/p>\n<p>\u201cA primeira vez que matei n\u00e3o foi f\u00e1cil. Eu sinto vergonha disso. S\u00f3 queria fechar os olhos, me virar e fugir. Foi muito triste, mas quanto mais voc\u00ea faz, mais f\u00e1cil fica. Ontem, por exemplo, tive que atirar na cabe\u00e7a de algumas vacas. Eu n\u00e3o sinto mais nada, mas no come\u00e7o foi muito ruim\u201d, frisou um homem identificado apenas como RP9.<\/p>\n<p>Barnardi conta que nos primeiros meses, os funcion\u00e1rios de matadouros costumam ter sonhos v\u00edvidos e pesadelos paranoicos repletos de medo e ansiedade. Alguns citaram experi\u00eancias em que eram perseguidos pelos animais que mataram; outros os viam em um sofrimento que parecia n\u00e3o ter fim, agonizando incessantemente. Sentimentos de culpa, medo e vergonha s\u00e3o os mais comuns na \u201cfase de adapta\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Um participante declarou que sonhou que uma vaca saltava da caixa de abate e o perseguia. Outros lembram de experi\u00eancias em que os animais se comunicavam com eles, perguntando algo como: \u201cPor que voc\u00ea est\u00e1 me matando?\u201d<\/p>\n<p>As respostas emotivas s\u00e3o bastante intensas durante um per\u00edodo que pode variar muito de pessoa para pessoa, mas h\u00e1 uma certa unanimidade em rela\u00e7\u00e3o ao fato de que seus dias fora do matadouro tamb\u00e9m s\u00e3o tomados por emo\u00e7\u00f5es negativas em decorr\u00eancia da preval\u00eancia da raiva e do temor. O entrevistado RP9 revelou que come\u00e7ou a se tornar mais impaciente e explosivo. Se algu\u00e9m o magoa, \u201cseus punhos balan\u00e7am\u201d.<\/p>\n<p>Por outro lado: \u201cOs funcion\u00e1rios de matadouros transmitem uma preocupa\u00e7\u00e3o moral, acreditando que ter\u00e3o que responder por suas a\u00e7\u00f5es quando morrerem. Sentimentos de tristeza tamb\u00e9m s\u00e3o frequentemente mencionados em hist\u00f3rias de abate\u201d, destacou o pesquisador.<\/p>\n<p>Outro entrevistado, RP10, contou que quando chegava para trabalhar o seu encarregado dizia que ele deveria abater uma grande quantidade de animais, e quando ele olhava para os bovinos, grandes e fortes, aquilo parecia errado e o deprimia.<\/p>\n<p>O estudo tamb\u00e9m apontou que quem trabalha diretamente no abate de animais acaba desenvolvendo baixa toler\u00e2ncia \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o e, em decorr\u00eancia disso, seus n\u00edveis de irrita\u00e7\u00e3o aumentam. RP8 segredou que nunca havia agredido um animal como um c\u00e3o ou gato, mas desde que come\u00e7ou a matar bovinos ele j\u00e1 n\u00e3o sente a mesma inibi\u00e7\u00e3o de antes:<\/p>\n<p>\u201cEu acredito que posso chutar se eu quiser porque eu mato boi todos os dias. Chutar um c\u00e3o ou gato e jog\u00e1-lo para longe j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o.\u201d Relatos como esse s\u00e3o consequ\u00eancias da mudan\u00e7a de personalidade que os funcion\u00e1rios do matadouro experimentam quando o cotidiano se resume a tirar vidas.<\/p>\n<p>Mesmo que n\u00e3o falem abertamente a respeito com qualquer pessoa, os participantes da pesquisa deixaram claro que perceberam tanto mudan\u00e7as em si mesmos quanto nos colegas de trabalho ao longo do tempo:<\/p>\n<p>\u201cOs participantes narram que o abate afeta suas capacidades de pensar com clareza e percebem que se sentem \u2018loucos\u2019. Fazer o trabalho de abate tamb\u00e9m impacta de uma forma que eles parecem se tornar mais agressivos do que antes, com uma atitude descuidada no que diz respeito \u00e0s consequ\u00eancias de suas a\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o a outras pessoas.\u201d<\/p>\n<p>As emo\u00e7\u00f5es intensificadas de medo, ansiedade, culpa, vergonha e tristeza diminuem com o tempo. Algumas at\u00e9 mesmo desaparecem, mas a adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade do matadouro como algo banal n\u00e3o impede que ningu\u00e9m que ganhe a vida matando animais passe por um embrutecimento que pode ter consequ\u00eancias sociais. E isso \u00e9 parte da realidade de quem vive nesse universo.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia:<\/strong><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC4841092\/\" >Barnard, Antoni; Victor, Karen. Slaughtering for a living: A hermeneutic phenomenological perspective on the well-being of slaughterhouse employees. International Journal of Qualitative Studies in Health and Well-being (2016).<\/a><\/p>\n<p><em>_____________________________________________<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/david-arioch.jpeg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-116472\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/david-arioch.jpeg\" alt=\"\" width=\"96\" height=\"96\" \/><\/a><\/em><em>David Arioch \u00e9 jornalista profissional, historiador e especialista em jornalismo cultural, hist\u00f3rico e liter\u00e1rio<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/vegazeta.com.br\/matadouros-podem-alterar-a-personalidade-humana\/\" >Go to Original \u2013 vegazeta.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>26 mar 2019 &#8211; O professor Antoni Barnard, da Universidade da \u00c1frica do Sul, republicou um estudo sobre o impacto psicol\u00f3gico e emocional de se trabalhar em matadouros. 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