{"id":13264,"date":"2011-07-04T12:00:45","date_gmt":"2011-07-04T11:00:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=13264"},"modified":"2011-07-04T14:32:48","modified_gmt":"2011-07-04T13:32:48","slug":"portuguese-o-pi-e-coisa-e-tau-uma-cronica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2011\/07\/portuguese-o-pi-e-coisa-e-tau-uma-cronica\/","title":{"rendered":"(Portuguese) O Pi e coisa e Tau (uma cronica)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><strong>\u201c<\/strong>Assim era Paris antigamente quando \u00e9ramos muito jovens e muito felizes.\u201d Se voc\u00ea nunca foi Ernest Hemingway na vida e n\u00e3o chegou sequer a escrever <em>Uma Festa M\u00f3vel<\/em>, n\u00e3o fique chateado. H\u00e1 75% de probabilidades de que voc\u00ea passou os olhos ao menos uma vez no fabuloso <em>Almanaque do Biot\u00f4nico Fontoura<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">De certa maneira, ele foi nossa, e continua a ser, nos sebos de boa categoria, <em>Festa M\u00f3vel<\/em>. O almanaque teve origem em 1920, com destaque para a atua\u00e7\u00e3o \u00e0 sua frente do infatig\u00e1vel mulato racista Monteiro Lobato, que colaborava com muitas coisas, dos hor\u00f3scopos, fases da lua, dias adequados para a pesca, passatempos v\u00e1rios, contos m\u00ednimos e li\u00e7\u00f5es de outra de suas cria\u00e7\u00f5es imortais, o Jeca Tatu.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Li muitos, guardei um ou dois, que est\u00e3o c\u00e1 comigo em Londres, onde, como um No\u00e9 das publica\u00e7\u00f5es a que chamam de menores e desimportantes (<em>Ele e Ela<\/em>, <em>Capricho<\/em>,<em> Querida<\/em>, <em>Meia-Noite<\/em> etc) procurei trazer, j\u00e1 que sabia que vinha de vez, n\u00e3o digo um casal mas ao menos um exemplar de cada uma. N\u00e3o sei para que servem. Mas sab\u00ea-las dentro de uma velha arca de madeira ao lado de gibis e outras velharias me reconfortam e tornam mais leve o tempo que me resta nesta terra. Invertendo a batida letra do samba, eu era feliz e tinha plena consci\u00eancia disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O <em>Almanaque do Biot\u00f4nico Fontoura<\/em>, entre os anos 30 e 70, distribu\u00eddo gratuitamente, chegou a tirar 2 milh\u00f5es e meio de exemplares. Em 1982 (sim, ele resistiu, talvez gra\u00e7as ao efeitos ben\u00e9ficos do Biot\u00f4nico), teve uma tiragem de 10 milh\u00f5es de exemplares. N\u00e3o se sabe porque n\u00e3o foi eleito ou sequer homenageado pela Academia Brasileira de Letras.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Abri a arca e fui l\u00e1 conferir algo que me ocupava a cabe\u00e7a, ali\u00e1s cada vez mais desocupada: lembrava-me vagamente de um cartum em que uma menina, no quadro-negro, acabara de escrever com o giz Pi (a 16\u00aa. do alfabeto grego, aquela que parece dois b\u00eabados se apoiando um no outro debaixo de um toldo tentando fugir da chuva) e, em seguida, sua equival\u00eancia, ou seja, <em>igual a = 3,1518<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Debaixo a legenda puro <em>AlmanaqueBiot\u00f4nico Fontoura<\/em>: \u201c<em>A menina em Pi&#8230; errou!<\/em>\u201d Ah, Hemingway, voc\u00ea n\u00e3o sabe o que era este Brasil a que voc\u00ea preteriu por Cuba. Aquela menina, aquelas retic\u00eancias, o jogo de palavras com uma fantasia rom\u00e2ntica que acabou juntamente com Colombinas, Arlequins, confete, serpentina e lan\u00e7a-perfume.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Meu assunto, meu tema, \u00e9 o que passou. Tudo que tenha passado. Em qualquer lugar, em qualquer l\u00edngua. Mas, principalmente, que digam que tenham chegado ao passado (para ser franco, n\u00e3o acredito que as coisas passem; h\u00e1 apenas festas im\u00f3veis, com todo mundo parado posando para uma c\u00e2mera invis\u00edvel). Da\u00ed meu objetivo em catar o Almanaque. Eu queria ter certeza. De qu\u00ea? Por qu\u00ea?<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Porque h\u00e1 por aqui, l\u00e1 no norte, em Leeds, uma chusma de matem\u00e1ticos que resolveu que Pi, ou para dar seu nome (incompleto), 3,14159265358979323846264338327950288441971693993993751058, seguindo-se mais 52 casas decimais, se quiserem, para c\u00e1lculos ainda mais precisos, n\u00e3o \u00e9 nada disso que h\u00e1 s\u00e9culos se calculava.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Isso para os tolos que insistem em designar a circunfer\u00eancia do c\u00edrculo. Claro que, hoje em dia, h\u00e1 computadores que calculam at\u00e9 bilh\u00f5es o valor de Pi, ou dos dois caneados gregos fugindo da chuva. N\u00e3o vos reconforta saber disso?<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Acontece que os matem\u00e1ticos decidiram que Pi n\u00e3o tem nada a ver, est\u00e1 completamente por fora. O neg\u00f3cio agora \u00e9 Tau (\u00e9 pedra, \u00e9 o fim do caminho), que \u00e9 a 19\u00aa letra do alfabeto grego e lembra um s\u00f3 camaradinha grego de porre debaixo do toldo. O l\u00edder dos palermas de Leeds, Kevin \u201cde Tau\u201d Houston quer reescrever todos os tomos matem\u00e1ticos, como se fosse, sozinho, uma reforma gr\u00e1fica \u00e0 brasileira, e pior ainda, por ser burro, sem \u201clevar nenhum nessa jogada\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A n\u00e3o ser a gl\u00f3ria de que quarta-feira, dia 28 de junho foi o Dia Tau. Porque Tau, escrito \u00e0 maneira americana (<em>why?)<\/em> \u00e9 6,28 ( junho, 28, confere?) e, sim, o senhor acertou, duas vezes 3,14. Vai da\u00ed que a propor\u00e7\u00e3o da circunfer\u00eancia do c\u00edrculo a seu di\u00e2metro vai, se depender de Kevin e seus asseclas, dobrar, o que, para eles, tornar\u00e1 tudo mais simples.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Portanto, a velha f\u00f3rmula para se encontrar a circunfer\u00eancia do c\u00edrculo danou-se. N\u00e3o \u00e9 mais 2 vezes Pi vezes o raio da bruta. Passar\u00e1 a ser, se adotarem o tal do Tau, Tau vezes raio, ou seja, 6,28 x 4.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">E a menina do quadro-negro do <em>Almanaque Biot\u00f4nico Fontoura<\/em>, como se restituindo a l\u00f3gica ao Universo, ou mais um verso a um poema de Fernando Pessoa, continuar\u00e1, ao p\u00e9 de um velho quadro-negro, errando em Pi, bendita seja.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.bbc.co.uk\/portuguese\/noticias\/2011\/07\/110701_ivanlessa_tp.shtml\" > <\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.bbc.co.uk\/portuguese\/noticias\/2011\/07\/110701_ivanlessa_tp.shtml\" >Go to Original \u2013 bbc.co.uk<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cAssim era Paris antigamente quando \u00e9ramos muito jovens e muito felizes.\u201d Se voc\u00ea nunca foi Ernest Hemingway na vida e n\u00e3o chegou sequer a escrever Uma Festa M\u00f3vel, n\u00e3o fique chateado. 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