{"id":134446,"date":"2019-06-03T12:01:38","date_gmt":"2019-06-03T11:01:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=134446"},"modified":"2019-06-03T09:23:16","modified_gmt":"2019-06-03T08:23:16","slug":"portugues-as-corporacoes-alimentam-a-ultra-direita-mundial-jean-ziegler","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2019\/06\/portugues-as-corporacoes-alimentam-a-ultra-direita-mundial-jean-ziegler\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) As corpora\u00e7\u00f5es alimentam a ultra-direita mundial: Jean Ziegler"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><em>26 maio 2019 &#8211; <\/em>Jean Ziegler sui\u00e7o, professor universit\u00e1rio e pesquisador,ocupa hoje a vice-presid\u00eancia do Comit\u00ea Consultivo do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Possui vasta experi\u00eancia internacional, conhece muito a realidade brasileira, tendo escrito estudos sobre ela. Vale a pena ler o texto pois nos ajuda a entender a real situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica do mundo, especialmente para os pobres e os que passam\u00a0fome permanentemente.<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_134447\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/jean-ziegler.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-134447\" class=\"wp-image-134447\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/jean-ziegler.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"266\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/jean-ziegler.jpg 800w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/jean-ziegler-300x199.jpg 300w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/jean-ziegler-768x510.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-134447\" class=\"wp-caption-text\">Jean Ziegler, entrevistado por Jamil Chade, SWI Brasil\u00a0<br \/>Imagem: Laurent Gillieron<\/p><\/div>\n<p><strong>*********************<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>Pergunta: Vemos em diferentes partes do mundo uma rea\u00e7\u00e3o popular contra partidos tradicionais e contra a pol\u00edtica. Tamb\u00e9m vemos a vit\u00f3ria de pol\u00edticos como Orban, Trump, Salvini e Bolsonaro. Por qual motivo o sr. acredita que estamos vendo essa onda?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Resposta: <\/strong>O mundo se tornou incompreens\u00edvel para o cidad\u00e3o, que n\u00e3o mais consegue ler o mundo. As 500 empresas multinacionais privadas t\u00eam 52% do PIB do mundo (todos os setores reunidos, bancos, servi\u00e7os e empresas). Elas monopolizam um poder econ\u00f4mico-financeiro, ideol\u00f3gico e pol\u00edtico que jamais um imperador ou papa teve na hist\u00f3ria da humanidade. Eles escapam de todos os controles de estado, parlamentares, sindicais ou qualquer outro controle social. Eles t\u00eam uma estrat\u00e9gia s\u00f3: maximiza\u00e7\u00e3o dos lucros, no tempo mais curto e n\u00e3o importa a qual pre\u00e7o humano.<\/p>\n<p>Elas s\u00e3o respons\u00e1veis, sem d\u00favida, por um processo de inven\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, eletr\u00f4nica e tecnol\u00f3gica sem precedentes, e de fato extraordin\u00e1rio. At\u00e9 o fim da\u00a0URSS, um ter\u00e7o dos habitantes do mundo vivia sob algum tipo de regime comunista. Havia a bipolaridade da sociedade dos Estados. O capitalismo\u00a0estava regionalmente limitado.<\/p>\n<p>A partir de 1991, o capitalismo se espalhou como fogo de palha por todo o planeta e instaurou uma s\u00f3 inst\u00e2ncia reguladora: a m\u00e3o invis\u00edvel do mercado. Isso tamb\u00e9m produziu uma ideologia que totalmente alienou a consci\u00eancia pol\u00edtica dos homens. H\u00e1, hoje, uma ideologia que d\u00e1 legitimidade a uma s\u00f3 inst\u00e2ncia de regula\u00e7\u00e3o: o neoliberalismo. Esse sistema sustenta que n\u00e3o s\u00e3o os homens, mas os mercados que fazem a hist\u00f3ria e que as for\u00e7as do mercado obedecem \u00e0s leis da natureza.<\/p>\n<blockquote><p><strong>E qual \u00e9 a implica\u00e7\u00e3o disso para o cidad\u00e3o?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>R: <\/strong>As for\u00e7as do mercado trabalham com as for\u00e7as da natureza e o homem \u00e9 dito que n\u00e3o \u00e9 mais o sujeito da hist\u00f3ria. No neoliberalismo, n\u00e3o \u00e9 mais o homem que \u00e9 o sujeito da hist\u00f3ria. Cabe ao homem se adaptar a esse mundo.<\/p>\n<p>De fato, entre o fim da URSS no come\u00e7o dos anos 1990, e o ano de 2000, o PIB mundial dobrou. O volume do com\u00e9rcio se multiplicou por tr\u00eas e o consumo de energia dobrou em quatro anos. Isso \u00e9 um dinamismo formid\u00e1vel. Mas isso tudo ocorreu de uma forma concentrada e nas m\u00e3os de um n\u00famero reduzido de pessoas.<\/p>\n<p>Se considerarmos a fortuna pessoal dos 36 indiv\u00edduos mais ricos do mundo, segundo a Oxfam, ela \u00e9 igual \u00e0 renda dos 4,7 bilh\u00f5es de pessoas mais pobres\u00a0da humanidade. A cada cinco segundos, uma crian\u00e7a com menos de dez anos morre de fome ou de suas consequ\u00eancias imediatas.<\/p>\n<p>E no mesmo relat\u00f3rio sobre a inseguran\u00e7a alimentar\u00a0no mundo da FAO (Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura) diz: no atual estado de seu desenvolvimento, a agricultura mundial\u00a0poderia alimentar normalmente 12 bilh\u00f5es de seres humanos. Ou seja, quase o dobro da humanidade \u2013 somos 7,7 bilh\u00f5es de pessoas hoje. N\u00e3o h\u00e1 fatalidade. A fome \u00e9 feita pelas m\u00e3os do homem e pode ser eliminada pelos homens. Uma crian\u00e7a que morre de fome \u00e9 assassinada.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Isso \u00e9 sustent\u00e1vel?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>R: <\/strong>De forma alguma. A desigualdade n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 moralmente vergonhosa. Mas ela tamb\u00e9m faz com que o estado social seja esvaziado. Os mais ricos n\u00e3o pagam impostos como deveriam. Os para\u00edsos fiscais, o sigilo banc\u00e1rio su\u00ed\u00e7o \u2013 que continua \u2013 isso tudo ainda permite uma enorme opacidade. Empresas s\u00e3o contratadas para criar estruturas que impedem que os reais donos do dinheiro sejam encontrados em sociedades <em>offshore<\/em>. Os documentos revelados pelos Panama Papers\u00a0mostram muito bem isso. Portanto, podemos dizer que as maiores fortunas do mundo e as maiores multinacionais pagam os impostos que querem.<\/p>\n<blockquote><p><strong>E qual a consequ\u00eancia disso?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>R: <\/strong>O fato que os mais ricos pilham o pa\u00eds e n\u00e3o pagam impostos gera duas situa\u00e7\u00f5es: esvaziam a capacidade social de resposta dos governos e impedem contribui\u00e7\u00f5es obrigat\u00f3rias dos pa\u00edses mais ricos \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es especializadas da ONU que lutam contra a mis\u00e9ria no mundo. Portanto, esse sistema mata.<\/p>\n<p>No fundo, essa ditadura do mercado\u00a0faz com que os cidad\u00e3os entendam que n\u00e3o \u00e9 o governo pelo qual eu votei que tem o poder de definir o destino. Isso cria uma inseguran\u00e7a completa e a desigualdade n\u00e3o \u00e9 control\u00e1vel. Se n\u00e3o bastasse, o cidad\u00e3o \u00e9 informado que seu emprego passa por um per\u00edodo profundo de flexibiliza\u00e7\u00e3o. A Fran\u00e7a, a segunda maior economia da Europa, tem 9 milh\u00f5es de desempregados e tr\u00eas quartos dos empregos no setor privado s\u00e3o contratos de dura\u00e7\u00e3o limitada (CDD, contrato de dura\u00e7\u00e3o determinada). Outros milh\u00f5es vivem de forma prec\u00e1ria, como a maioria dos aposentados.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Quem s\u00e3o, portanto, os atores que influenciam o destino econ\u00f4mico de um pa\u00eds?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>R: <\/strong>Vou dar um exemplo. <em>As sociedades multinacionais privadas s\u00e3o as verdadeiras donas do mundo.<\/em> Nos EUA, sob a administra\u00e7\u00e3o Obama, foi criado uma lei que proibia o acesso ao mercado americano de minerais que tenham sido extra\u00eddos por crian\u00e7as em suas minas, principalmente do Congo. O cobalto, por exemplo, foi um deles.<\/p>\n<p>Essa lei gerou a mobiliza\u00e7\u00e3o de Glencore, RioTinto e tantas outras, denunciando que era inaceit\u00e1vel, pois era contra a liberdade dos mercados. Uma das primeiras medidas que Donald Trump tomou ao assumir o governo, em janeiro de 2017, foi a de acabar com essa lei. Como este, existem muitos outros exemplos no meu livro.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Em quais setores?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>R: <\/strong>A agricultura \u00e9 outro. Em 2011, tr\u00eas semanas antes da reuni\u00e3o do G7 em Cannes, o ent\u00e3o presidente da Fran\u00e7a, Nicolas Sarkozy, foi \u00e0 televis\u00e3o e declarou que iria propor que a especula\u00e7\u00e3o nas bolsas e no mercado financeiro fosse proibida, principalmente sobre o arroz, milho e trigo e outros produtos agr\u00edcolas de base. Isso seria uma forma de lutar contra o aumento de pre\u00e7os dos alimentos b\u00e1sicos, especialmente nos pa\u00edses mais pobres.<\/p>\n<p>Faltando poucos dias para o G7, a Fran\u00e7a retirou sua proposta, depois de ter sido pressionada pelas grandes empresas do setor, como Unilever, Nestl\u00e9 e outras. Essa mobiliza\u00e7\u00e3o impediu uma a\u00e7\u00e3o do presidente da Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Portanto, voltando ao ponto inicial: o capitalismo\u00a0\u00e9 o modo de produ\u00e7\u00e3o que mais mostrou vitalidade nos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos e de inova\u00e7\u00e3o e tem uma produtividade muito superior a qualquer outro do passado, incluindo o da escravid\u00e3o. Mas, ao mesmo tempo, o modelo capitalista escapa de todo o controle pol\u00edtico, sindical ou da ONU. Eu insisto: ele funciona sob apenas um princ\u00edpio, que \u00e9 o da maximiza\u00e7\u00e3o dos lucros, no tempo mais curto poss\u00edvel e a qualquer pre\u00e7o.<\/p>\n<blockquote><p><strong>E o que isso significa para uma democracia?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>R: <\/strong>\u00c9 um sistema que priva o cidad\u00e3o, mesmo numa democracia, de todo tipo de resposta efetiva \u00e0 precariedade, \u00e0 desigualdade que destr\u00f3i o estado social. E \u00e9 nesse contexto que se cria uma esp\u00e9cie de desespero silencioso e secreto entre os cidad\u00e3os. E, como sempre ocorreu na hist\u00f3ria e como ocorreu nos anos 30 na Alemanha, \u00e9 neste momento que v\u00eam os grupos de extrema-direita\u00a0com sua estrat\u00e9gia de criar um bode expiat\u00f3rio.<\/p>\n<blockquote><p><strong>De que forma?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>R: <\/strong>O discurso \u00e9 simples. Eles chegam a declaram ao cidad\u00e3o: sim, sua situa\u00e7\u00e3o \u00e9 insuport\u00e1vel. Voc\u00ea tem raz\u00e3o. N\u00e3o falam como outros que tentam dar esperan\u00e7as ou dizer que as coisas v\u00e3o melhorar. Mas, num segundo momento, o que fazem? Apresentam um bode expiat\u00f3rio para essa crise. Na Europa, eles s\u00e3o os imigrantes e os refugiados.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Justamente, em comum, esses movimentos denunciam a entrada de estrangeiros em seus pa\u00edses. Como o senhor avalia?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>R: <\/strong>S\u00e3o governos europeus que cometem crimes contra a humanidade, ao recusar de examinar os pedidos de asilo dos refugiados. O direito a pedir asilo \u00e9 uma conven\u00e7\u00e3o internacional de 1951, ratificada por todos os pa\u00edses, e os governos s\u00e3o obrigados a receber os pedidos.<\/p>\n<p>Os eslovacos, por exemplo, aceitaram apenas 285 refugiados, sob a condi\u00e7\u00e3o de que sejam crist\u00e3os. Em outros locais, como na Hungria, crian\u00e7as est\u00e3o na pris\u00e3o. Mas mesmo assim esses governos continuam sendo sancionados pela UE, que continua a lhes enviar dinheiro. S\u00f3 Viktor Orban (primeiro-ministro h\u00fangaro) recebeu 18 bilh\u00f5es de euros no ano passado em fundos de solidariedade da Europa. As san\u00e7\u00f5es, portanto, s\u00e3o inexistentes.<\/p>\n<blockquote><p><strong>E qual tem sido o resultado dessa estrat\u00e9gia desses grupos populistas na Europa?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>R: <\/strong>Eles mudam de paradigma e ganham for\u00e7a. Basta ver os resultados do partido Alternativa para a Alemanha (AfD). Hoje, eles t\u00eam o mesmo n\u00famero de representantes no Parlamento que o tradicional SPD, o partido social democrata alem\u00e3o que j\u00e1 nos deu pol\u00edticos como Willy Brandt. O mesmo ocorreu com Matteo Salvini na It\u00e1lia, Viktor Orban na Hungria, e ainda na Holanda, na \u00c1ustria. A estrat\u00e9gia do bode expiat\u00f3rio \u00e9 uma estrat\u00e9gia que tem funcionado. Al\u00e9m disso, a consci\u00eancia coletiva est\u00e1 sendo cimentada por uma ideologia neoliberal de que o homem n\u00e3o \u00e9 mais o sujeito da hist\u00f3ria e que apenas pode se adaptar \u00e0 situa\u00e7\u00e3o e \u00e0s for\u00e7as do mercado, que obedecem \u00e0s leis naturais.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Mas, voltando ao ponto da representatividade, tal cen\u00e1rio n\u00e3o amea\u00e7a minar a pr\u00f3pria democracia?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>R: <\/strong>Jean Jacques Rousseau\u00a0publicou seu livro O Contrato Social em 1762, que foi a B\u00edblia para a revolu\u00e7\u00e3o francesa. Ele descreveu a soberania popular e o fato de dar a voz a algu\u00e9m para me representar. A delega\u00e7\u00e3o \u00e9 um pilar do contrato social. Mas esse contrato social, que \u00e9 a funda\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, est\u00e1 esgotado. <em>Essa democracia representativa est\u00e1 esgotada<\/em>.<\/p>\n<p>O povo n\u00e3o acredita mais nela. O povo v\u00ea que, ao votar em um deputado, n\u00e3o \u00e9 ele que toma decis\u00f5es, mas <em>a ditadura mundial das oligarquias do capital financeiro globalizado.<\/em> Portanto, h\u00e1 uma percep\u00e7\u00e3o de que ela n\u00e3o serve para nada. N\u00e3o \u00e9 ele quem vai garantir meu trabalho.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, esse povo n\u00e3o est\u00e1 disposto a abrir m\u00e3o de seu poder e nem de sua capacidade de interven\u00e7\u00e3o. No caso dos Coletes Amarelos, na Fran\u00e7a, um dos pontos principais \u00e9 o apelo por um referendo popular como mecanismo. O que eles est\u00e3o dizendo: o Parlamento faz o que quer. Queremos ter o direito de propor leis, de votar por elas. Hoje, a democracia representativa n\u00e3o funciona, num per\u00edodo de total aliena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Quais s\u00e3o as respostas poss\u00edveis?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>R: <\/strong>Retirar essa placa de cimento das consci\u00eancias, que foi imposta. Liberar a consci\u00eancia dos homens que \u00e9, por natureza, uma consci\u00eancia de identidade. Se uma pessoa, seja de qual classe social ele for ou de qualquer religi\u00e3o, vir diante dele ou dela uma crian\u00e7a martirizada, algo de si afunda. Ele se reconhece imediatamente nela. Somos a \u00fanica criatura na terra com essa consci\u00eancia de identidade. E \u00e9 por isso que milh\u00f5es de jovens na Europa e na Am\u00e9rica do Norte se mobilizam em imensos cortejos, todas as semanas, pela sobreviv\u00eancia do planeta e contra o capitalismo. O que eles est\u00e3o dizendo aos seus governos? Que assim n\u00e3o podemos continuar. Fa\u00e7am algo contra essa ordem canibal do mundo.<\/p>\n<blockquote><p><strong>A quest\u00e3o clim\u00e1tica pode ser decisiva nesse contexto para modificar a forma de pensamento?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>R: <\/strong>Pelo Acordo de Paris, cada um dos 190 estados que assinaram assumiu obriga\u00e7\u00f5es precisas para limitar as emiss\u00f5es de CO2 na atmosfera. 85% do CO2 emitido vem de energias f\u00f3sseis. O acordo pede que as cinco maiores empresas de petr\u00f3leo reduzam 50% de suas emiss\u00f5es at\u00e9 2030 e de dar parte dos lucros ao desenvolvimento de energia alternativas, como solar, e\u00f3lica e outras.<\/p>\n<p>Mas o que \u00e9 que ocorreu desde 2015? As cinco grandes empresas de petr\u00f3leo do mundo aumentaram, em m\u00e9dia, sua produ\u00e7\u00e3o em 18%. E financiaram energias alternativas somente em 5%. Os jovens dizem: isso n\u00e3o funcionar\u00e1.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Ent\u00e3o, existe esperan\u00e7a?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>R: <\/strong>Por anos, fui membro do Conselho Executivo da Internacional Socialista. Seu presidente, Willy Brandt, dizia a n\u00f3s jovens, como eu, Brizola e Jospin: n\u00e3o se preocupem. A cada vota\u00e7\u00e3o, vamos avan\u00e7ar aos poucos e as pessoas v\u00e3o se dar conta. Lei por lei, vamos instaurar uma democracia social, igualdade de oportunidades e justi\u00e7a social. Mas isso n\u00e3o ocorreu. No lugar do progresso da democracia social, o que vimos foi <em>a instaura\u00e7\u00e3o da ditadura mundial de oligarquias do capital financeiro globalizado que d\u00e1 suas ordens, mesmo aos estados mais poderosos.<\/em><\/p>\n<p>Desde a queda do Muro de Berlim em 1989, a liberaliza\u00e7\u00e3o do mercado e a perda do poder normativo dos estados avan\u00e7ou mais que nunca e, ao mesmo tempo, a desigualdade social\u00a0aumentou. Mas Brandt tamb\u00e9m nos dizia: quando voc\u00eas falarem publicamente, \u00e9 necess\u00e1rio dar esperan\u00e7a. O discurso deve ser analiticamente exato. Mas ele precisa ser conclu\u00eddo com uma afirma\u00e7\u00e3o de esperan\u00e7a. Caso contr\u00e1rio, \u00e9 melhor ficar em casa.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Mas onde est\u00e1 essa esperan\u00e7a?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>R: <\/strong>\u00c9 a sociedade civil planet\u00e1ria. \u00c9 a misteriosa fraternidade da noite, a mir\u00edade de movimentos sociais \u2013 Greenpeace, Anistia Internacional, movimento antirracista, de luta pela terra \u2013 que lutam contra a ordem canibal do mundo, cada qual em seu dom\u00ednio. S\u00e3o entidades que n\u00e3o obedecem a um comit\u00ea central ou a uma linha de partido, e que funcionam por um s\u00f3 princ\u00edpio: o imperativo categ\u00f3rico.<\/p>\n<p>Emmanuel Kant dizia: <em>\u201ca desumanidade infligida a um outro humano destr\u00f3i a humanidade em mim\u201d<\/em>. Eu sou o outro e outro sou eu. Essa consci\u00eancia, em termos pol\u00edticos, cria uma pr\u00e1tica de solidariedade entre os indiv\u00edduos e reciprocidade entre povos. Mas essa sociedade \u00e9 invis\u00edvel. N\u00e3o tem uma sede. Ela \u00e9 vis\u00edvel cinco dias por ano, no F\u00f3rum Social Mundial, organizado pelos brasileiros em Porto Alegre.<\/p>\n<p>O escritor franc\u00eas George Bernanos\u00a0escreveu: <em>\u201cDeus n\u00e3o tem outra m\u00e3o que seja a nossa\u201d.<\/em> Ou somos n\u00f3s que mudaremos essa ordem canibal do mundo, ou ningu\u00e9m o far\u00e1.<\/p>\n<p>_________________________________________________<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/leonardo.boff_-e1460363303872.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-28487\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/leonardo.boff_-e1460363303872.jpg\" alt=\"\" width=\"91\" height=\"135\" \/><\/a><\/em><em>Leonardo Boff \u00e9 um escritor, te\u00f3logo e fil\u00f3sofo brasileiro, professor em\u00e9rito de \u00e9tica e filosofia da religi\u00e3o da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, recebedor do <\/em><strong><em>Pr\u00eamio Nobel Alternativo da Paz<\/em><\/strong><em> do Parlamento sueco [<\/em><strong><em>Right Livelihood Award<\/em><\/strong><em>]em 2001, membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra, e professor visitante em v\u00e1rias universidades estrangeiras como Basel, Heidelberg, Harvard, Lisboa e Salamanca. Expoente da <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teologia_da_Liberta%C3%A7%C3%A3o\" >Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/a><\/em><em> no Brasil, foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. \u00c9 respeitado pela sua hist\u00f3ria de defesa pelas causas sociais e atualmente debate tamb\u00e9m quest\u00f5es ambientais. Colunista do <\/em>Jornal do Brasil<em>, escreveu os livros<\/em> Francisco de Assis: Ternura e Vigor, <em>Vozes 2000; <\/em>\u00a0A Terra na palma da m\u00e3o: uma nova vis\u00e3o do planeta e da humanidade<em>,Vozes 2016;\u00a0 <\/em>Cuidar da Terra \u2013 proteger a vida: como escapar do fim do mundo<em>, Record 2010; <\/em>\u00a0<em>A <\/em>hospitalidade: Direito e dever de todos, <em>Vozes 2005<\/em>; Paix\u00e3o de Cristo, paix\u00e3o do mundo<em>, Vozes 2001<\/em>; Brasil: Concluir a refunda\u00e7\u00e3o ou prolongar a depend\u00eancia, <em>Vozes 2018. Boff escreveu <\/em><em>\u201cDestino e Desatino da Globaliza\u00e7\u00e3o\u201d em<\/em><em>: Do iceberg \u00e0 Arca de No\u00e9,<\/em><em> Mar de Ideias, Rio 2010 pp. 41-63.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/leonardoboff.wordpress.com\/2019\/05\/26\/as-corporacoes-alimentam-a-ultra-direita-mundial-jean-ziegler\/\" >Go to Original \u2013 leonardoboff.wordpress.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>26 maio 2019 &#8211; Jean Ziegler sui\u00e7o, professor universit\u00e1rio e pesquisador,ocupa a vice-presid\u00eancia do Comit\u00ea Consultivo do Conselho de Direitos Humanos da ONU. O texto nos ajuda a entender a real situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica do mundo, especialmente para os pobres e os que passam fome permanentemente. 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