{"id":14123,"date":"2011-08-29T12:00:34","date_gmt":"2011-08-29T11:00:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=14123"},"modified":"2011-08-24T02:02:43","modified_gmt":"2011-08-24T01:02:43","slug":"portuguese-para-alem-da-tragedia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2011\/08\/portuguese-para-alem-da-tragedia\/","title":{"rendered":"(Portuguese) Para Al\u00e9m da Trag\u00e9dia"},"content":{"rendered":"<p><em>\u00c9 preciso valorizar a narra\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias no jornalismo, diz o mexicano Juan Villoro.<\/em><em><br \/>\n<\/em><\/p>\n<p>A GUERRA AO narcotr\u00e1fico no M\u00e9xico j\u00e1 causou mais de 35 mil mortes, entre a\u00e7\u00f5es de criminosos e repress\u00e3o do governo, desde que o presidente Felipe Calder\u00f3n assumiu, em 2006. Entre os riscos que um rep\u00f3rter mexicano enfrenta est\u00e3o sequestros, mortes e amea\u00e7as de bomba em reda\u00e7\u00f5es de jornais.<\/p>\n<p>Para o jornalista, escritor e dramaturgo Juan Villoro, 55, outro desafio jornal\u00edstico do momento \u00e9 discutir como e em que linguagem a viol\u00eancia deve ser tratada na imprensa escrita e na internet.<\/p>\n<p>Professor de literatura na Universidade Nacional Aut\u00f4noma do M\u00e9xico (Unam), Villoro colabora com v\u00e1rias revistas, como a peruana &#8220;Etiqueta Negra&#8221; e a colombiano-mexicana &#8220;Gatopardo&#8221;, e \u00e9 colunista dos jornais &#8220;Reforma&#8221; (M\u00e9xico), &#8220;El Mercurio&#8221; (Chile) e &#8220;El Peri\u00f3dico de Catalunya&#8221; (Espanha), al\u00e9m de escrever esporadicamente para &#8220;El Pa\u00eds&#8221;.<\/p>\n<p>Ficcionista premiado, conquistou o prestigioso Herralde, por &#8220;El Testigo&#8221; (2004). Tamb\u00e9m escreve literatura infantil e teatro. At\u00e9 o final do ano, a Companhia das L etras deve lan\u00e7ar sua primeira obra no Brasil, &#8220;O Livro Selvagem&#8221;.<\/p>\n<p>Villoro falou \u00e0 <strong>Folha<\/strong> em Buenos Aires, onde veio assistir \u00e0 estreia de sua pe\u00e7a &#8220;Filosofia de Vida&#8221; num teatro da tradicional avenida Corrientes, e participar de oficina da Fundaci\u00f3n Nuevo Periodismo Iberoamericano.<\/p>\n<p><strong>Folha &#8211; Voc\u00ea diz que o jornalismo est\u00e1 fazendo muitas concess\u00f5es \u00e0 viol\u00eancia. De que modo? <\/strong><strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>Juan Villoro &#8211;<\/strong> No M\u00e9xico h\u00e1 uma grande discuss\u00e3o sobre como retratar a viol\u00eancia do narcotr\u00e1fico, mas acho que ela se aplica a v\u00e1rios pa\u00edses, como a Col\u00f4mbia e o Brasil, por causa do narcotr\u00e1fico e do crime organizado, e at\u00e9 mesmo a Londres, para usar um exemplo mais recente.<\/p>\n<p>\u00c9 inevit\u00e1vel que, ao publicarmos not\u00edcias e fotos, amplifiquemos o efeito de um ato violento. Penso que h\u00e1 limites que deveriam ser discutidos, sob risco de f azermos mais propaganda da viol\u00eancia e aliment\u00e1-la. E o uso da linguagem tem um papel importante nisso.<\/p>\n<p>Por exemplo, em meu pa\u00eds, quando os traficantes dizem que sequestraram algu\u00e9m, usam o termo &#8220;levantado&#8221;. E os jornais passaram a fazer o mesmo. \u00c9 um erro, porque se trata de uma express\u00e3o que ameniza o horror do fato.<\/p>\n<p>Por outro lado, h\u00e1 uma busca pela audi\u00eancia, hoje potencializada pela internet, que faz com que tudo o que tenha sangue seja valorizado. A m\u00e1xima &#8220;if it bleeds, it leads&#8221; [se sangra, tem destaque] nunca foi t\u00e3o verdadeira.<\/p>\n<p>O que muitos editores n\u00e3o se d\u00e3o conta \u00e9 que, se voc\u00ea busca ressaltar apenas o mais sangrento, corre o risco de provocar uma distor\u00e7\u00e3o da verdade, na qual os acontecimentos mais importantes s\u00e3o os violentos.<\/p>\n<p>Na verdade, a viol\u00eancia \u00e9 sempre consequ\u00eancia de alguma coisa, parte de um contexto que precisa ser explicado.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea diz que a internet est\u00e1 fazendo com que o jornalismo f ique cada vez mais homog\u00eaneo. Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>O que constato observando a imprensa europeia, norte-americana e latino-americana \u00e9 que, mais do que nunca, para os ve\u00edculos, parece ser necess\u00e1rio publicar aquilo que todos publicam. O acesso quase geral a informa\u00e7\u00f5es homog\u00eaneas curiosamente criou um p\u00e2nico de sair do homog\u00eaneo.<\/p>\n<p>H\u00e1 um medo generalizado. Os jornalistas n\u00e3o podem se conformar com a ideia de que algo que est\u00e1 na capa de sete jornais n\u00e3o esteja na capa do seu. Ent\u00e3o a rea\u00e7\u00e3o \u00e9 ir atr\u00e1s do mesmo. Trata-se de um impulso de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Isso \u00e9 bom ou ruim?<\/strong><\/p>\n<p>Em certo sentido, \u00e9 bom, porque \u00e9 mais f\u00e1cil que todos fiquem bem informados sobre acontecimentos de alcance mais global. Mas a fortaleza do jornalismo n\u00e3o est\u00e1 a\u00ed, e sim no oposto disso. O jornalismo pode fazer coisas \u00fanicas, tanto no papel como em formato digital, basta que haja investimento. \u00c9 preciso valorizar a narra\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria s, pois elas d\u00e3o sentido ao mundo. Creio que, nesse momento de confus\u00e3o e transi\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso recobrar a confian\u00e7a nos recursos do pr\u00f3prio jornalismo.<\/p>\n<p><strong>Pode dar um exemplo?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel aproveitar essa onda de mudan\u00e7as num sentido positivo. Se \u00e9 mais f\u00e1cil hoje obter as not\u00edcias que todo mundo tem, por que n\u00e3o usamos menos gente nisso, aproveitando mais o material de ag\u00eancias internacionais? Se economizarmos no comum, \u00e9 poss\u00edvel fazer com que a orquestra funcione quase sozinha e investir nos solistas, naqueles jornalistas que far\u00e3o a diferen\u00e7a por sua capacidade de encontrar bons assuntos e narr\u00e1-los bem.<\/p>\n<p>Por um lado, \u00e9 um jornalismo mais caro, gasta-se com a contrata\u00e7\u00e3o de bons profissionais, tempo, viagens. Mas pense que se poderia economizar em outras coisas.<\/p>\n<p><strong>Por isso a sua defesa da cr\u00f4nica?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Quando surgiu a fotografia, a pintura recobrou recursos que a diferenciavam dela. O mesmo se passa com o jornalismo diante das novas tecnologias. E a cr\u00f4nica \u00e9 o melhor recurso que o jornalismo tem para enfrentar esses novos tempos. \u00c9 a mescla da informa\u00e7\u00e3o com a emo\u00e7\u00e3o, do mundo objetivo, p\u00fablico, com o mundo privado ou \u00edntimo. Por meio dela, ao mesmo tempo pode-se descrever a not\u00edcia que afeta uma comunidade e entender sua repercuss\u00e3o individual. E, a partir disso, analisar por que essa not\u00edcia transforma a vida de certas pessoas.<\/p>\n<p>Interessa-me defender a cr\u00f4nica do cotidiano, situa\u00e7\u00f5es, cenas m\u00ednimas, um jornalismo colorido que n\u00e3o \u00e9 o mais urgente nem o mais necess\u00e1rio, mas que sempre permitiu que o jornalismo prosperasse, desde os tempos de Machado de Assis ou Nelson Rodrigues, exemplos brasileiros que adoro.<\/p>\n<p>Mas, apesar disso, as revistas de cr\u00f4nica, que est\u00e3o na moda na Am\u00e9rica Latina, como a &#8220;Etiqueta Negra&#8221; ou a &#8220;Gatopardo&#8221;, sempre amargam dificuldades financeiras.<\/p>\n<p>Sim, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o complexa. A cr\u00f4nic a tem muito prest\u00edgio cultural. Se voc\u00ea perguntar a um ministro da Cultura, a um empres\u00e1rio ou a um leitor comum se eles gostam de cr\u00f4nica, v\u00e3o dizer que sim, porque ela evoca o humano, o real. E ningu\u00e9m vai se dizer contra isso. \u00c9 diferente com rela\u00e7\u00e3o ao teatro ou \u00e0 m\u00fasica cl\u00e1ssica, que t\u00eam p\u00fablicos mais definidos.<\/p>\n<p>No entanto, todas as revistas que se dedicam a cr\u00f4nicas t\u00eam dificuldades para subsistir. \u00c9 muito dif\u00edcil que paguem bem aos cronistas. Muitas, quando pagam, \u00e9 de forma simb\u00f3lica e heroica. Al\u00e9m de n\u00e3o terem verba para te mandarem viajar ou para facilitar que voc\u00ea apure a informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro dia, eu estava olhando o \u00edndice de um livro meu, de cr\u00f4nicas. Notei que 80% delas tinham sa\u00eddo em ve\u00edculos que n\u00e3o existem mais. S\u00e3o publica\u00e7\u00f5es ef\u00eameras, suicidas. N\u00f3s, cronistas, temos prest\u00edgio, mas a nossa transcend\u00eancia n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grande. A sa\u00edda \u00e9 escrever muito, para muitos ve\u00edculos, e escrever livros que tenham poten cial de venda, como no meu caso, que fa\u00e7o livros infantis. Eu posso viver do meu trabalho, mas para isso trabalho o tempo todo.<\/p>\n<p>Mas acho que, se me dessem as condi\u00e7\u00f5es da &#8220;New Yorker&#8221;, eu me sentiria conformado e n\u00e3o faria o mesmo tipo de trabalho. Os cronistas t\u00eam certa dose de masoquismo funcional, o que nos machuca nos fortalece (risos).<\/p>\n<p><strong>Em seu livro &#8220;8.8 &#8211; El Miedo en el Espejo&#8221;, sobre o terremoto do Chile, voc\u00ea faz considera\u00e7\u00f5es sobre a ess\u00eancia dos mexicanos que me fizeram lembrar a busca de Octavio Paz (1914-98) em &#8220;Labirinto da Solid\u00e3o&#8221; (1950). \u00c9 uma influ\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma refer\u00eancia. Nesse livro, Paz tenta fixar uma identidade do mexicano por tr\u00e1s das sucessivas hist\u00f3rias que viveu. Foi um exerc\u00edcio muito interessante, que serviu para que o mexicano se reconhecesse em sua diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Essa era a proposta inicial, mas o pr\u00f3prio Paz percebeu que havia algo redutor nessa busca, porque o mexicano n\u00e3o pode ser se mpre tipicamente da mesma maneira.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ele escreveu um livro, que se chama &#8220;Postdata&#8221; (1950), em que dinamiza essas quest\u00f5es. Diz que o mexicano n\u00e3o \u00e9 uma ess\u00eancia, mas uma hist\u00f3ria. Que n\u00e3o se deve buscar seu verdadeiro rosto, mas entender que esse rosto tem uma hist\u00f3ria e vai mudando.<\/p>\n<p>Sempre que escrevo, estou em busca das caracter\u00edsticas do mexicano, mas gostaria de pensar que n\u00e3o s\u00e3o caracter\u00edsticas definitivas. H\u00e1 muitas maneiras de ser mexicano. Hoje, o mexicano t\u00edpico existe como um recurso folcl\u00f3rico e nada mais.<\/p>\n<p><strong>Em &#8220;8.8&#8221;, voc\u00ea destaca a capacidade, ou mesmo a certeza, de sobreviver.<\/strong><\/p>\n<p>Exato, porque tomo o exemplo de como sobrevivemos ao terremoto de 1986 e de como essa ideia de superar uma trag\u00e9dia se incorporou \u00e0 nossa personalidade.<\/p>\n<p>O mexicano adota no seu dia a dia uma conduta p\u00f3s-apocal\u00edptica. Vemos a realidade desastrosa, por exemplo na Cidade do M\u00e9xico, que \u00e9 contaminada, insegura e chei a dos problemas conhecidos. Isso nos traz uma s\u00e9rie de amea\u00e7as tremendas. Mas n\u00e3o as vemos como o an\u00fancio de algo terr\u00edvel que vai acontecer, e sim como o resultado de algo m\u00edtico, que j\u00e1 passou e do qual j\u00e1 nos salvamos. Estamos sempre al\u00e9m da trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>N\u00e3o passa de autoengano, mas \u00e9 eficaz. Gra\u00e7as a isso, podemos viver. Pensamos: est\u00e1 tudo muito grave, mas continuamos de p\u00e9.<\/p>\n<p><strong>Em um texto para a revista peruana &#8220;Etiqueta Negra&#8221;, voc\u00ea analisou a personalidade e o drama do goleiro alem\u00e3o Robert Enke, que se matou aos 32 anos. Qual \u00e9 o elemento dram\u00e1tico do futebol que te atrai?<\/strong><\/p>\n<p>O futebol me interessa muito, por isso li tanto Nelson Rodrigues. Para um mexicano, o futebol \u00e9 sempre uma trag\u00e9dia. Porque adoramos e ao mesmo tempo jogamos muito mal. O M\u00e9xico sempre tem um plano &#8220;b&#8221; nas copas que \u00e9 torcer para o Brasil. Plano &#8220;b&#8221; para n\u00f3s \u00e9 &#8220;b&#8221; de Brasil.<\/p>\n<p>Escrever cr\u00f4nicas de futebol no M\u00e9xico tem mais a ver com o desejo, com a paix\u00e3o, do que com grandes vit\u00f3rias, pois nunca as tivemos. E eu, mais do que um cronista esportivo, sou um cronista da torcida e da ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>O que me cativa \u00e9 tentar entender por que se enche um est\u00e1dio, por que as pessoas organizam sua vida de maneira ilus\u00f3ria, por que algu\u00e9m se esquece do seu anivers\u00e1rio de casamento, mas n\u00e3o de que, nesse dia, Garrincha fez dois gols em n\u00e3o sei qual time.<\/p>\n<p>Para conhecer uma \u00e9poca, temos que entender como as pessoas se divertiam, e a forma de divers\u00e3o mais organizada do planeta em nosso tempo \u00e9 o futebol.<\/p>\n<p>Foi por isso que me interessou o drama de Enke, um jogador jovem, que atingiu a fama numa das posi\u00e7\u00f5es mais dif\u00edceis e isoladas. E resolveu se matar.<br \/>\n<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/962538-para-alem-da-tragedia.shtml\"><br \/>\nGo to Original \u2013 folha.uol.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para o mexicano Juan Villoro, a imprensa deve repensar a maneira como noticia a viol\u00eancia, sob risco de amplific\u00e1-la. Na renova\u00e7\u00e3o da linguagem jornal\u00edstica que prop\u00f5e para a era da internet, a revaloriza\u00e7\u00e3o da cr\u00f4nica seria an\u00e1loga \u00e0 reinven\u00e7\u00e3o da pintura que ocorreu no s\u00e9culo 19, com o advento da fotografia.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-14123","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14123","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14123"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14123\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14123"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14123"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14123"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}