{"id":146665,"date":"2019-11-04T12:00:14","date_gmt":"2019-11-04T12:00:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=146665"},"modified":"2019-10-31T11:02:45","modified_gmt":"2019-10-31T11:02:45","slug":"portugues-a-vantagem-da-imperfeicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2019\/11\/portugues-a-vantagem-da-imperfeicao\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) A Vantagem da Imperfei\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>30 out 2019 &#8211; <\/em>Em tempos em risco de nossa liberdade, \u00e9 importante pensarmos em sua import\u00e2ncia. Nascemos completos mas imperfeitos. N\u00e3o possu\u00edmos nenhum \u00f3rg\u00e3o especializado, como a maioria dos animais. Para sobreviver, temos que trabalhar e intervir na natureza. Os mitos esclarecem esta asitua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os ind\u00edgenas guaicuru, do Mato Grosso do Sul, perguntaram-se o porqu\u00ea da imperfei\u00e7\u00e3o e do alto significado da liberdade. Demoraram longo tempo para chegar a uma resposta. A explica\u00e7\u00e3o veio pelo seguinte mito, portador de verdade.<\/p>\n<p>O Grande Esp\u00edrito criou todos os seres. Colocou grande cuidado na cria\u00e7\u00e3o dos humanos. Cada grupo recebeu uma habilidade especial para sobreviver sem maiores dificuldades. A alguns deu a arte de cultivar a mandioca e o algod\u00e3o. Assim podiam se alimentar e se vestir. A outros deu a habilidade de fazer canoas leves e o timb\u00f3. Desta forma podiam se locomover rapidamente e pescar.<\/p>\n<p>Assim fez com todo os grupos humanos na medida em que se distribu\u00edam pelo mundo. Mas com os Guaicuru n\u00e3o aconteceu assim. Quando quiseram sair para as vastas terras, o Grande Esp\u00edrito n\u00e3o lhe conferiu nenhuma habilidade. Esperaram, suplicando, por muito tempo e nada lhes foi comunicado. Mesmo assim resolveram partir. Sentiram logo muita dificuldade em sobreviver. Resolveram procurar intermedi\u00e1rios do Grande Esp\u00edrito para receber tamb\u00e9m uma habilidade.<\/p>\n<p>Primeiro, dirigiram-se ao vento, sempre soprando e r\u00e1pido:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cTio vento, tu que sopras pelas campinas, sacodes as matas e passas por cima das montanhas, venha-nos socorrer\u201d<\/em>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas o vento que sacudiu as folhas, sequer ouviu o pedido dos guaicuru. Em seguida, se voltaram para o rel\u00e2mpago que estremece toda a terra.<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cTio rel\u00e2mpago, voc\u00ea que \u00e9 parecido com o Grande Esp\u00edrito, ajude-nos\u201d.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Mas o rel\u00e2mpago passou t\u00e3o r\u00e1pido que sequer escutou o pedido deles.<\/p>\n<p>Assim os guaicuru suplicaram \u00e0s \u00e1rvores mais altas, aos cumes das montanhas, \u00e0s \u00e1guas correntes dos rios, sempre suplicando:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cMeus irm\u00e3os, intercedam por n\u00f3s junto ao Grande Esp\u00edrito para n\u00e3o morrermos de fome.\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Mas nada acontecia.<\/p>\n<p>Meio desesperados vagavam por v\u00e1rias paragens. At\u00e9 que pararam debaixo do ninho de um gavi\u00e3o-real.<\/p>\n<p>Este ouvindo seus lamentos resolveu intervir e disse:<\/p>\n<blockquote><p>\u201c<em>Voc\u00eas, guaicuru, est\u00e3o todos errados e s\u00e3o uns grandes bobos\u201d. \u201cComo assim?\u201d<\/em> responderam juntos<em>. \u201cO Grande Esp\u00edrito se esqueceu de n\u00f3s. Voc\u00ea que \u00e9 feliz, recebeu o dom de um olhar penetrante e perceber um ratinho no boca da toca e ca\u00e7\u00e1-lo\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cVoc\u00eas n\u00e3o entenderam nada da li\u00e7\u00e3o do Grande Esp\u00edrito\u201d <\/em>retrucou o gavi\u00e3o-real.<em> \u201cA habilidade que ele lhes deu est\u00e1 acima de todas as outras. Ele vos deu a liberdade. Com ela voc\u00eas podem fazer o que desejarem fazer.\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Os guaicuru ficaram perplexos e cheios de curiosidade. Pediram ao gavi\u00e3o-real que lhes explicasse melhor esta curiosa habilidade. Ele, cheio de garbo, lhes falou:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cVoc\u00eas podem ca\u00e7ar, pescar, construir malocas, fazer belas flechas, pintar os corpos, os potes, viajar para outros lugares e at\u00e9 decidirem o que voc\u00eas querem de bom para voc\u00eas e para a pr\u00f3pria natureza\u201d.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Os guaicuru se encheram de alegria e diziam uns aos outros:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u00a0\u201cque bobos n\u00f3s fomos, pois nunca discutimos juntos a vantagem de sermos imperfeitos. O Grande Esp\u00edrito nunca se esqueceu de n\u00f3s. Deu-nos a melhor habilidade, de n\u00e3o estarmos presos a nada, mas de podermos inventar coisas novas, sabendo das vantagens de nossa imperfei\u00e7\u00e3o.\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>O cacique guaicuru perguntou ao gavi\u00e3o-real:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cPosso experimentar a liberdade?\u201d \u201cPode\u201d.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>O cacique tomou uma flecha e derrubou do alto de uma jaqueira uma grande fruta de jaca. E todos se deliciaram.<\/p>\n<p>Desde aquele momento, os guaicuru, exerceram a liberdade. Tornaram-se grandes cavaleiros e nunca puderam ser submetidos por nenhum outro povo. A liberdade lhes inspiravam novas formas de se defender e garantir a melhor habilidade dada pelo Grande Esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Os mitos nos inspiram grandes li\u00e7\u00f5es, especialmente nos dias atuais quando for\u00e7as poderosas, nacionais e internacionais, nos querem submeter, limitar e at\u00e9 tirar nossa liberdade. Devemos ser como os guaicuru: saber defender o maior dom que temos, a liberdade. Devemos resistir, nos indignar e nos rebelar. S\u00f3 assim fazemos o nosso pr\u00f3prio caminho como na\u00e7\u00e3o soberana e altiva. E jamais aceitaremos que nos imponham o medo nem que nos roubem a liberdade.<\/p>\n<p>_________________________________________________<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/leonardo-boff-e1504357428786.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-96488\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/leonardo-boff-e1504357428786.jpg\" alt=\"\" width=\"100\" height=\"118\" \/><\/a><\/em><em>Leonardo Boff \u00e9 um escritor, te\u00f3logo e fil\u00f3sofo brasileiro, professor em\u00e9rito de \u00e9tica e filosofia da religi\u00e3o da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, recebedor do <\/em><strong><em>Pr\u00eamio Nobel Alternativo da Paz<\/em><\/strong><em> do Parlamento sueco [<\/em><strong><em>Right Livelihood Award<\/em><\/strong><em>]em 2001, membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra, e professor visitante em v\u00e1rias universidades estrangeiras como Basel, Heidelberg, Harvard, Lisboa e Salamanca. Expoente da <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teologia_da_Liberta%C3%A7%C3%A3o\" >Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/a><\/em><em> no Brasil, foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. \u00c9 respeitado pela sua hist\u00f3ria de defesa pelas causas sociais e atualmente debate tamb\u00e9m quest\u00f5es ambientais. Colunista do <\/em>Jornal do Brasil<em>, escreveu os livros<\/em> Francisco de Assis: Ternura e Vigor, <em>Vozes 2000; <\/em>\u00a0A Terra na palma da m\u00e3o: uma nova vis\u00e3o do planeta e da humanidade<em>,Vozes 2016;\u00a0 <\/em>Cuidar da Terra \u2013 proteger a vida: como escapar do fim do mundo<em>, Record 2010; <\/em>\u00a0<em>A <\/em>hospitalidade: Direito e dever de todos, <em>Vozes 2005<\/em>; Paix\u00e3o de Cristo, paix\u00e3o do mundo<em>, Vozes 2001<\/em>; Brasil: Concluir a refunda\u00e7\u00e3o ou prolongar a depend\u00eancia, <em>Vozes 2018. Boff escreveu <\/em><em>\u201cDestino e Desatino da Globaliza\u00e7\u00e3o\u201d em<\/em><em>: Do iceberg \u00e0 Arca de No\u00e9,<\/em><em> Mar de Ideias, Rio 2010 pp. 41-63.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/leonardoboff.wordpress.com\/2019\/10\/30\/a-vantagem-da-imperfeicao\/\" >Go to Original \u2013 leonardoboff.wordpress.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>30 out 2019 &#8211; Em tempos em risco de nossa liberdade, \u00e9 importante pensarmos em sua import\u00e2ncia. Nascemos completos mas imperfeitos. N\u00e3o possu\u00edmos nenhum \u00f3rg\u00e3o especializado, como a maioria dos animais. Para sobreviver, temos que trabalhar e intervir na natureza. 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