{"id":15464,"date":"2011-11-07T12:00:30","date_gmt":"2011-11-07T12:00:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=15464"},"modified":"2011-11-07T11:13:49","modified_gmt":"2011-11-07T11:13:49","slug":"portuguese-os-gatos-mitos-e-fatos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2011\/11\/portuguese-os-gatos-mitos-e-fatos\/","title":{"rendered":"(Portuguese) Os Gatos: Mitos e Fatos"},"content":{"rendered":"<p>Trabalhar com a tem\u00e1tica abolicionista animalista \u00e9 uma teia complexa. As rela\u00e7\u00f5es v\u00e3o desde os animais que est\u00e3o presentes em nosso conv\u00edvio aos que est\u00e3o muito longe. Mas a empatia \u00e9 a mesma. Gato, rato, cachorro, baleia, peixe, porco, papagaio, todos eles nos interessam enquanto indiv\u00edduos. Hoje os gatos ser\u00e3o o pretexto para meu texto.<\/p>\n<p>Escrevo agora, como sempre, tendo por companhia e expectadores, os gatos. Hoje s\u00e3o quatro: um sentado ao lado do computador (Maria), me olhando nos olhos s\u00e9ria e inquisitivamente, e de tempos em tempos colocando a m\u00e3o (ou pata, para quem preferir) no meu rosto como a dizer \u201cchega disso, n\u00e3o\u201d? \u201colha eu aqui\u201d! Outro, dormindo em um arm\u00e1rio acima da minha cabe\u00e7a (Kk\u00ed) e outros dois na janela (Fio e Amai\u00e9iu), \u201cnamorando\u201d os passarinhos l\u00e1 fora. Ao todo, minha fam\u00edlia de n\u00e3o humanos, hoje chega a um total de 25. Todos adotados (23 gatos e 02 cachorros). Muitos em condi\u00e7\u00f5es lament\u00e1veis. N\u00e3o fui atr\u00e1s de nenhum. Todos jogados na porta de casa.<\/p>\n<p>Hoje, s\u00e3o todos castrados. Nenhum obeso. Muito ativos. Com muito espa\u00e7o fora de casa e muitas \u00e1rvores, um quintal onde vivem a dormir, correr, brincar, ca\u00e7ar, enfim, interagir com seus iguais (j\u00e1 dizia Paul Loeb que o melhor exerc\u00edcio para um gato \u00e9 outro gato). Os que querem, tem tr\u00e2nsito livre dentro da minha casa e liberdade inclusive para ir embora.\u00a0 Todos tem o direito de ir e vir. Se bem que, com a vida que levam, ningu\u00e9m nunca \u201cfoi\u201d.\u00a0 N\u00e3o lembro nenhum momento da minha vida que n\u00e3o tenha compartilhado com uma fam\u00edlia n\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de considera\u00e7\u00f5es sobre alguns mitos que os animais humanos disseminam sobre os gatos, pretendo dentro dos limites de minhas leituras e experi\u00eancias, escrever tamb\u00e9m um pouco sobre o comportamento deles. E nenhuma novidade para quem convive com uma ou mais dessas \u201cesculturas vivas\u201d, como diria o escritor Wesley Bates.<\/p>\n<p>Ouso, ao escrever sobre o comportamento deles. Ouso, porque escrevo principalmente com uma base emp\u00edrica de observa\u00e7\u00e3o. Embora possa prescindir de uma leitura mais aprofundada para o n\u00edvel de considera\u00e7\u00f5es que pretendo tecer aqui, j\u00e1 li v\u00e1rias obras, de v\u00e1rios n\u00edveis, sobre os gatos. E apesar de escrever embasada em literatura espec\u00edfica, a maioria das considera\u00e7\u00f5es aqui descritas vem de uma vida toda de conviv\u00eancia com eles. Tenho um laborat\u00f3rio ao ar livre.<\/p>\n<p>Antes, gostaria de fazer duas considera\u00e7\u00f5es que julgo fundamentais:<\/p>\n<p>1. \u00c0 semelhan\u00e7a do que ocorre com os seres humanos, n\u00e3o podemos esquecer que cada ser \u00e9 \u00fanico em sua hist\u00f3ria e ess\u00eancia. Todo ser \u00e9 o resultado do gen\u00f3tipo que se manifesta (hereditariedade) moldado pela influ\u00eancia do meio em que vive (fen\u00f3tipo). Assim, considerando aspectos som\u00e1ticos e comportamentais, n\u00e3o podemos rotular nenhum ser: \u201cos gatos s\u00e3o pregui\u00e7osos\u201d ou \u201cos gatos s\u00e3o mais carinhosos que os cachorros\u201d ou \u201cos seres humanos s\u00e3o est\u00fapidos\u201d. Essas afirma\u00e7\u00f5es refletem um padr\u00e3o geral de comportamento do qual as pessoas t\u00eam refer\u00eancia. Meus gatos s\u00e3o todos diferentes, embora perten\u00e7am \u00e0 mesma esp\u00e9cie: um \u00e9 pregui\u00e7oso, outro \u00e9 hiperativo. Um \u00e9 mais individualista, outro, mais altru\u00edsta; um n\u00e3o gosta de colo, outro n\u00e3o perde a chance de se enrolar quando encontra um; um \u00e9 guloso, outro, faz pacientemente sua refei\u00e7\u00e3o; um gosta de ca\u00e7ar, outro, nem liga\u2026cada um age conforme seu gen\u00f3tipo e seu fen\u00f3tipo. Ao escrever, levo em considera\u00e7\u00e3o tudo isso.<\/p>\n<p>2. Escrever sobre as emo\u00e7\u00f5es dos animais requer uma dose de coragem dentro de nossa sociedade machista, reducionista, utilitarista e instrumental. H\u00e1 muitas coisas sobre as quais temos que nos debru\u00e7ar mais antes de tecer qualquer coment\u00e1rio sobre a inexist\u00eancia de uma racionalidade entre os animais n\u00e3o humanos. Como explicar, por exemplo, o \u201cdom de Oscar\u201d? Oscar era um gato que morava em uma cl\u00ednica de repouso. Quando Oscar deitava aos p\u00e9s do leito de um paciente, este vinha a falecer no mesmo dia. Assim foi com todos os pacientes do Dr. David Dosa, geriatra, que transformou sua hist\u00f3ria em livro.<\/p>\n<p>Como nos lembra Jeffrey Moussaieff, a maioria das pessoas comuns que tem contato direto com os animais, aceita livremente a realidade das emo\u00e7\u00f5es nesses seres. O pesquisador faz um alerta tamb\u00e9m sobre o preconceito de uma ci\u00eancia dominada pelos homens, relegando as mulheres o r\u00f3tulo de \u201cmais prop\u00edcias \u00e0 empatia\u201d. Jane Goodall, Susan McCarthy, Julia Butterfly, entre outras, atrav\u00e9s de seus trabalhos sobre as emo\u00e7\u00f5es dos animais, derrubam os argumentos que embasam esses preconceitos. Jeffrey alerta ainda para os riscos da condena\u00e7\u00e3o do termo \u201cantropomorfismo\u201d no campo das emo\u00e7\u00f5es dos animais.<\/p>\n<p>\u201cda cren\u00e7a que o antropomorfismo \u00e9 um erro terr\u00edvel, um pecado ou uma doen\u00e7a, geram-se mais tabus de pesquisa, incluindo regras que ditam o uso de linguagem. Um macaco n\u00e3o pode estar com raiva: ele exibe agress\u00e3o. Uma gar\u00e7a n\u00e3o sente afei\u00e7\u00e3o: ela mostra cortejamento. Uma chita n\u00e3o \u00e9 assuntada por um le\u00e3o, ela exibe comportamento de fuga\u201d.<\/p>\n<p>Frans de Waal tem sido frequentemente criticado pela comunidade cient\u00edfica ao utilizar a palavra \u201creconcilia\u00e7\u00e3o\u201d referindo-se a chimpanz\u00e9s que voltaram a ficar juntos ap\u00f3s uma briga. Para a \u201ccomunidade cient\u00edfica\u201d o termo correto seria \u201cprimeiro contato p\u00f3s-conflito\u201d.<\/p>\n<p>O bi\u00f3logo Julian Huxley argumenta contra essa ortodoxia cient\u00edfica e defende que a capacidade de se colocar no lugar de qualquer outro animal \u00e9 cientificamente justific\u00e1vel e produtivo ao conhecimento. Os behavioristas inflex\u00edveis que me perdoem. Com rela\u00e7\u00e3o aos animais, sou completamente emp\u00e1tica.<\/p>\n<p>Pelo fato de ter uma conviv\u00eancia grande, em tempo e intensidade com os gatos (e com as pessoas), fico pasma ao ouvir certos coment\u00e1rios sobre esses felinos domesticados. Algumas dessas pessoas era de se esperar que fossem muito bem instru\u00eddas, mas n\u00e3o. Tenho alguns subs\u00eddios para afirmar que apenas seguem o coro hegem\u00f4nico (o \u201cdito desconexo\u201d, de Regan). Algumas afirma\u00e7\u00f5es s\u00e3o meros frutos da desinforma\u00e7\u00e3o. Algumas pessoas repetem o que ouvem sem analisar o que est\u00e1 escrito nas entrelinhas. Outras s\u00e3o supersti\u00e7\u00f5es que as pessoas insistem em disseminar. A cultura especista, que privilegia uma ou mais esp\u00e9cies em detrimento de outras, refor\u00e7a essas afirma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>MITOS SOBRE OS GATOS:<\/strong> Alguns absurdos que tentam justificar maus tratos, neglig\u00eancia e preconceito.<\/p>\n<p>1. \u201ctenho que me desfazer dele (do gato) porque estou gr\u00e1vida\u201d.<br \/>\n&#8211; qual a rela\u00e7\u00e3o fundamentada entre estar gr\u00e1vida e o fato de conviver com gatos ou qualquer outro animal? Aqui, inverto o dito popular. No caso, \u201c\u00e9 melhor remediar (descartar o gato) do que prevenir (tomar os simples e devidos cuidados)\u201d. E \u201cdesfazer\u201d \u00e9 um termo recorrente na boca de quem quer sempre a solu\u00e7\u00e3o mais f\u00e1cil. Pobres pais e m\u00e3es que atrav\u00e9s do exemplo ensinam aos filhos que a vida \u00e9 descart\u00e1vel\u2026muitos pais v\u00e3o parar no asilo futuramente ou ter\u00e3o futuro pior (n\u00e3o \u00e9 praga, \u00e9 infelizmente, constata\u00e7\u00e3o). Porque quando come\u00e7arem a \u201cincomodar\u201d os filhos com as mazelas da senilidade, estes tamb\u00e9m desejar\u00e3o \u201cse desfazer\u201d. E fatalmente o far\u00e3o.<\/p>\n<p>2. \u201cgato \u00e9 perigoso porque transmite toxoplasmose\u201d.<br \/>\n&#8211; juro que n\u00e3o entendo esse rebuli\u00e7o. Algumas pessoas pensam que, por osmose, podem contrair a doen\u00e7a. Assim algumas pessoas tamb\u00e9m pensam e agem com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 AIDS. Com uma certa licen\u00e7a po\u00e9tica, pergunto: \u201cVai comer o coc\u00f4 do gato, por acaso\u201d? Sou bi\u00f3loga e creio que a pessoa que sabe como se adquire a toxoplasmose, sabe tamb\u00e9m o m\u00ednimo sobre no\u00e7\u00f5es de higiene. Na gravidez e fora dela. Alguns m\u00e9dicos mal informados ou temerosos, com a chancela do conhecimento cient\u00edfico especista elitista ajudam a engrossar esse coro.<\/p>\n<p>3. \u201cN\u00e3o posso ter gato porque tenho rinite\u201d.<br \/>\n&#8211; A crise de rinite n\u00e3o \u00e9 desencadeada pelo gato. E sim pelos \u00e1caros que podem estar nos p\u00ealos dele. Assim como podem estar na poeira por toda a casa, roupas e etc.<\/p>\n<p>4. \u201cGato preto d\u00e1 azar\u201d.<br \/>\n&#8211; por mais medieval que soe, h\u00e1 pouco ouvi isso dentro do \u00f4nibus. Algumas pessoas odeiam gato preto. Eles carregam o estigma da Idade M\u00e9dia. Por muito tempo, os gatos foram acusados de serem demon\u00edacos, principalmente os de cor preta. Isso custou a vida de milhares de gatos, que foram cruelmente perseguidos, capturados e jogados \u00e0 fogueira. Sem falar que percebo o preconceito tamb\u00e9m com os malhados (tenho uma, a Tigrinha). Aqueles que s\u00e3o uma mistura de todas as cores. Muitas pessoas confundem com doen\u00e7a de pele. S\u00e3o sempre os \u00faltimos na fila da ado\u00e7\u00e3o. Preconceito com a cor da pele. Qualquer semelhan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia\u2026<\/p>\n<p>5. \u201cO gato \u00e9 trai\u00e7oeiro\u201d:<br \/>\n&#8211; gato n\u00e3o \u00e9 de pel\u00facia. Se ele n\u00e3o gosta que um estranho o pegue no colo, ou pior, se algu\u00e9m fica testando a paci\u00eancia dele atrav\u00e9s de \u201cbrincadeiras\u201d de mau-gosto, \u00e9 certo que ele ir\u00e1 se manifestar. Sua toler\u00e2ncia \u00e9 menor que a do cachorro por exemplo. E essa manifesta\u00e7\u00e3o n\u00e3o amig\u00e1vel \u00e9 encarada como agress\u00e3o gratuita. Muitas vezes o \u201cbrincar\u201d e o \u201ccarinho\u201d deles v\u00eam acompanhados de mordidas e arranh\u00f5es. Assim eles procedem com seus iguais.<\/p>\n<p>6. \u201cQuando o gato mia (ou o cachorro late) embaixo da sua janela \u00e9 porque algu\u00e9m da casa vai morrer\u201d.<br \/>\n&#8211; Juro que ouvi isso. E n\u00e3o foi uma vez s\u00f3. Ent\u00e3o, estou lascada porque a partir das 06:30 da manh\u00e3 j\u00e1 come\u00e7a o coral embaixo da minha janela e na cabeceira da minha cama (acompanhado de leves tapas no rosto quando demoro p acordar) pedindo comida. E eles s\u00e3o extremamente pontuais.<\/p>\n<p>7. \u201cO gato n\u00e3o \u00e9 carinhoso\u201d.<br \/>\n&#8211; mentira. Uns s\u00e3o mais, outros menos chegados a manifesta\u00e7\u00f5es humanas de carinho.\u00a0 Mas eles s\u00e3o muito carinhosos, sim. At\u00e9 exibicionistas quando querem uma co\u00e7adinha na barriga ou atr\u00e1s da orelha. E retribuem ronronando, se esfregando (para deixar seu cheiro que marca sua propriedade), e diria at\u00e9, sorrindo. Quem convive com um gato sabe do que estou falando. Eles nos esperam chegar e nos d\u00e3o carinho gratuito. Claro, o \u201camor\u201d deles aumenta bastante no inverno. Mas isso serve para as outras esp\u00e9cies tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>8. \u201cO gato \u00e9 independente\u201d.<br \/>\n&#8211; essa afirma\u00e7\u00e3o, muitas vezes serve de desculpa para algumas pessoas se omitirem com rela\u00e7\u00e3o aos cuidados de alimenta\u00e7\u00e3o e outros. Em que sentido ele \u00e9 independente? Se deixarmos sem \u00e1gua e comida, ele se vira sozinho? V\u00e1rias vezes ouvi essas afirmativas com essa conota\u00e7\u00e3o. No sentido do apego emocional, o gato \u00e9, sim, menos dependente do que o cachorro. Mas um c\u00e3o muito bem \u201cresolvido\u201d, segundo Cesar Millan, e n\u00e3o frustrado em sua natureza, n\u00e3o exibe esse comportamento de \u201cdepend\u00eancia\u201d de seus tutores.<\/p>\n<p>9. \u201cGato n\u00e3o obedece\u201d.<br \/>\n&#8211; muitas vezes esse coment\u00e1rio vem de tutores de c\u00e3es que sentem um certo prazer em exibir suas habilidades de comando. O gato obedece quando quer, quando \u00e9 do seu interesse. Cesar Milan nos lembra que obedecer a comandos como \u201csenta\u201d, \u201crola\u201d, \u201cpega\u201d n\u00e3o s\u00e3o caracter\u00edsticas de um c\u00e3o disciplinado e saud\u00e1vel. S\u00e3o simples comandos que levam o c\u00e3o, por repeti\u00e7\u00e3o demonstrar antropomorficamente determinados comportamentos. Muitas vezes s\u00e3o transformados em aut\u00f4matos na base do medo ou da recompensa. Na maioria das vezes para a satisfa\u00e7\u00e3o dos egos humanos. O gato simplesmente n\u00e3o se presta a este papel. A\u00ed pode estar a g\u00eanese para a concep\u00e7\u00e3o err\u00f4nea de que \u201cos c\u00e3es s\u00e3o mais amigos\u201d. Os gatos s\u00e3o um pleno exerc\u00edcio de respeito \u00e0s vontades, \u00e0 autonomia e ao espa\u00e7o dos outros.<br \/>\nEssas s\u00e3o apenas algumas frases mais ouvidas por mim. H\u00e1 muitas outras, mas pincei as principais. Quando ouvi, algumas vezes, argumentei. Em outras, apenas lamentei, pois constatei que tais pessoas nunca tiveram a oportunidade de conviver, nem tempo, nem vontade suficiente para entender este ser maravilhoso, o gato.<\/p>\n<p><strong>FATOS SOBRE OS GATOS:<\/strong> Considera\u00e7\u00f5es sobre alguns comportamentos.<\/p>\n<p>1. Eles nos entendem e se fazem entender.<br \/>\n&#8211; os gatos s\u00e3o rotulados de pouco inteligentes pelo senso comum (mas mais comumente, entre os que nunca conviveram tempo suficiente com um). Eu me comunico perfeitamente com meus gatos. Nos comunicamos perfeitamente. Nossa linguagem falada n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica que comunica algo. Darwin em seu livro sobre as emo\u00e7\u00f5es dos animais, nos relata uma s\u00e9rie de sinais que comunicam as inten\u00e7\u00f5es e necessidades dos animais n\u00e3o humanos. S\u00e3o n\u00edtidos os sinais enviados pela linguagem corporal do gato. Tudo nele fala: orelhas, rabo, bigodes, miados. Se \u00e9 um feito para o ser humano, dito racional, letrado e detentor de conhecimentos entender o que um gato comunica, o que se dizer do contr\u00e1rio? Eles tamb\u00e9m interpretam e decodificam nossas mensagens corporais e o tom de nossa voz. Isso \u00e9 de uma intelig\u00eancia not\u00e1vel. N\u00e3o precisa ser nenhum g\u00eanio para perceber a diferen\u00e7a de comportamento do gato quando nos dirigimos a ele com uma voz r\u00edspida e uma voz suave (ou melosa, como eles gostam). Obviamente n\u00e3o \u00e9 o que se diz, e sim como se diz, o que importa. Entender e se fazer entender por outra esp\u00e9cie \u00e9 um feito que n\u00e3o desmerece a intelig\u00eancia do gato.<\/p>\n<p>2. Eles gostam de dormir empoleirados.<br \/>\n&#8211; \u00e0s vezes nos incomodamos com esse h\u00e1bito quando eles resolvem nos incluir nessa maneira peculiar de dormir. Quando em bandos, ou mesmo em dois, os gatos dormem empoleirados. Ficam uns sobre os outros. Se ele quiser dormir na sua cabe\u00e7a, nas suas pernas ou na sua barriga, \u00e9 porque ele o considera um igual. Sinta-se honrado.<\/p>\n<p>3. Eles usam diferentes miados:<br \/>\n&#8211; h\u00e1 os r\u00e1pidos que querem dizer simplesmente \u201coi\u201d! ou um \u201cestou aqui\u201d. H\u00e1 aqueles altos intermitentes e curtos que geralmente \u00e9 um pedido de comida, \u00e1gua ou outra coisa. H\u00e1 aqueles longos e melosos que pedem por alguma coisa que n\u00e3o \u00e9 urgente, como que dizendo \u201cpooorr favooorr\u201d??. H\u00e1 aquele miado longo acompanhado de umas fungadas dizendo que n\u00e3o esta gostando de algo\u2026.h\u00e1 aqueles miados curtos que parecem ter um ponto de interroga\u00e7\u00e3o no final, geralmente como que perguntando: \u201co que \u00e9 isso que voc\u00ea trouxe\u201d? \u201cOlha, o que \u00e9 isso que eu achei\u201d? Outro som \u00e9 algo como \u201cmnh\u00e1\u201d. Afirmativo. Bem curto. Geralmente emitido em situa\u00e7\u00f5es em que voc\u00ea est\u00e1 fazendo algo bom para ele (carinho, comida, \u201cconversando\u201d), como se fosse um sinal de aprova\u00e7\u00e3o dele para voc\u00ea (isso! Sim! muito bem!).<\/p>\n<p>4. Eles nos trazem \u201cpresentes\u201d<br \/>\n&#8211; lagartixa, passarinho, rato, camundongo, borboleta s\u00e3o alguns \u201cpresentes\u201d que j\u00e1 recebi. Ele simplesmente vem e larga o presente a seus p\u00e9s. N\u00e3o pode brigar com ele. Quando n\u00e3o conseguir evitar a morte do animal, pegue o \u201cpresente\u201d e descarte. \u00c9 como se ele dissesse: viu? Quer aprender a ca\u00e7ar tamb\u00e9m? Quando eles s\u00e3o ativos, essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 recorrente. Assim eles agem com seus iguais, principalmente com suas crias (as f\u00eameas ca\u00e7am muito mais que os machos). Sinta-se honrado novamente. Mas \u00e0s vezes eles apenas exercitam o ato da ca\u00e7a e deixam suas \u201cv\u00edtimas\u201d irem embora ilesas com uma majestosa condescend\u00eancia.<\/p>\n<p>5. Nem sempre mordidas e as garras para fora s\u00e3o sinal de defesa.<br \/>\n&#8211; \u00e0s vezes quando acariciamos um gato, ele nos morde ou arranha. \u00c9 uma forma de demonstrar seu limite. Ou de evitar que voc\u00ea pare antes que ele esteja satisfeito. \u00c9 muito comum quando eles est\u00e3o excitados e felizes, mordidinhas e arranh\u00f5es leves no af\u00e3 de demonstrar esse tipo peculiar de carinho. H\u00e1 tamb\u00e9m o chamado ato de \u201camassar p\u00e3o\u201d. Trata-se de uma esp\u00e9cie de pisoteio lento que os gatos executam quando est\u00e3o em um colo que se sentem \u00e0 vontade ou em uma superf\u00edcie macia. \u00c9 semelhante ao ato afetivo ao mamar quando ele era filhote. Talvez ele se sinta aconchegado e muito \u00e0 vontade quando faz isso.<\/p>\n<p>6. Eles adoram sentar sobre o que estamos lendo.<br \/>\n&#8211; Ou sobre o teclado do computador. Ou sobre qualquer coisa que estejamos fazendo que tome nossa aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma forma de chamar a aten\u00e7\u00e3o para si. Para ganhar algum carinho. Particularmente penso que na maioria das vezes est\u00e3o tirando sarro da minha cara mesmo.<\/p>\n<p>7. Eles adoram lugares altos.<br \/>\n&#8211; claro, do alto eles tem uma vis\u00e3o privilegiada de tudo. E se sentem seguros.<\/p>\n<p>8. Eles adoram arranhar os m\u00f3veis.<br \/>\n&#8211; n\u00e3o h\u00e1 um m\u00f3vel em minha casa que n\u00e3o tenha servido de arranhador um dia. H\u00e1 claro, os preferidos como os sof\u00e1s e um balc\u00e3o. M\u00f3veis arranhados fazem parte da decora\u00e7\u00e3o de uma casa onde circulam gatos. Esse ato de arranhar exp\u00f5e as garras novas e faz gastar as velhas. As garras est\u00e3o constantemente se renovando. Arranhar tamb\u00e9m fortalece a musculatura deles. E claro, pode ser uma interessante forma de chamar sua aten\u00e7\u00e3o j\u00e1 que a tend\u00eancia \u00e9 se voltar para ele ao ouvir o barulho dos m\u00f3veis sendo destru\u00eddos. Por isso tamb\u00e9m \u00e9 bom que tenham \u00e1rvores \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. H\u00e1 arranhadores para vender mas n\u00e3o fazem sucesso. Porque tem que ser fixos, que resistam a uma vigorosa sess\u00e3o de arranhadas. Como o sof\u00e1 e as \u00e1rvores.<\/p>\n<p>9. Eles adoram sacos, bolinhas de papel, canudinhos e etc<br \/>\n&#8211; Sacos e caixas s\u00e3o esconderijos perfeitos para espreitar uma v\u00edtima e dar o bote. Seja em outro gato ou em voc\u00ea que anda despreocupadamente pela casa. Al\u00e9m de fazer barulho, o que eles apreciam. Bolinhas de papel, canudinhos, enfim, tudo que possa fazer as vezes de presa em uma brincadeira \u00e9 motivo para festa.<\/p>\n<p>\u00c9 um paradoxo, mas, justamente por ter empatia com eles, os gatos, ao mesmo tempo desejo n\u00e3o tutel\u00e1-los, embora os ame. Explico: ter muitos gatos (e dois cachorros) em casa, a maioria v\u00edtima de maus tratos \u00e9 sinal que algo n\u00e3o vai bem com a humanidade. \u00c9 o mesmo paradoxo desejar que n\u00e3o existissem entidades e outras pessoas que resgatam, cuidam e d\u00e3o uma vida digna para os animais mal tratados e abandonados. Em minha concep\u00e7\u00e3o, uma vida digna \u00e9 garantir a esse animal, o m\u00e1ximo de condi\u00e7\u00f5es para ele exercer saudavelmente suas fun\u00e7\u00f5es de alimenta\u00e7\u00e3o, deslocamento e intera\u00e7\u00e3o com seus iguais e outras esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>Enfim, nada tem a ver com superlota\u00e7\u00e3o e confinamento. Nem com a satisfa\u00e7\u00e3o de um ego de \u201cpossuir\u201d um animal. N\u00e3o consigo conceber, por exemplo, nem gato, nem qualquer outro animal em um apartamento, por exemplo, ilhado de sua ess\u00eancia. Mas no contexto atual, essas pessoas s\u00e3o anjos que muitas vezes abdicam de sua vida pessoal e esgotam suas economias com o \u00fanico objetivo de diminuir o sofrimento de seres inocentes. E se essas pessoas assumem, assim como eu, uma responsabilidade que a principio n\u00e3o era para ser sua, se h\u00e1 animais descartados como lixo e mal tratados \u00e9 porque outro ser humano n\u00e3o assumiu a responsabilidade que lhe cabia. Se tais entidades e pessoas existem, \u00e9 porque, igualmente algo est\u00e1 muito errado na humanidade. Somos um recurso paliativo. Por um lado, um mal menor diante da vida livre que teriam em um passado remoto e por outro, um bem maior, diante do contexto que se apresenta.<\/p>\n<p>Mas o fato ineg\u00e1vel \u00e9 que temos muito a aprender com os gatos e com todos os animais n\u00e3o humanos. Os gatos nos d\u00e3o todos os dias li\u00e7\u00f5es de alteridade, toler\u00e2ncia, respeito, amizade e tamb\u00e9m nos ensinam, \u00e0 sua maneira, a lidar com a morte. Mesmo sua morte nos diz algo. Conscientizamo-nos da transitoriedade. Lembramos da brevidade da vida. E quem dera, pud\u00e9ssemos transferir essas li\u00e7\u00f5es a todas as nossas rela\u00e7\u00f5es humanas.\u00a0 Seria muito bom.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>Anderson, Karen, 1958-<br \/>\nPor que os gatos s\u00e3o assim?\/Karen Anderson; ilustra\u00e7\u00f5es Wendy Christensen; (tradu\u00e7\u00e3o Anna Quirino). \u2013 S\u00e3o Paulo: Publifolha, 2003<\/p>\n<p>Darwin, Charles, 1809 \u2013 1882<br \/>\nA express\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es no homem e nos animais\/ Charles Darwin; (tradu\u00e7\u00e3o Leon Garcia). \u2013 S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2009<\/p>\n<p>Dosa, David<br \/>\nO incr\u00edvel dom de Oscar: como as surpreendentes visitas desse gato mudaram a vida de um m\u00e9dico, seus pacientes e familiares\/ David Dosa; (tradu\u00e7\u00e3o Maria Neilson \u2013 Rio de Janeiro: Ediouro, 2010<\/p>\n<p>GETTY, Hulton. Gatinhos. Sextante: S\u00e3o Paulo, 1982<\/p>\n<p>MASSON, Jeffrey Moussaieff &amp; MacCARTHY, Susan. Quando os elefantes choram: a vida emocional dos animais. S\u00e3o Paulo: Gera\u00e7\u00e3o Editorial, 2001.<\/p>\n<p>Stall, Sam<br \/>\n100 gatos que mudaram a civiliza\u00e7\u00e3o\/Sam Stall (tradu\u00e7\u00e3o Albertina Leite). \u2013 S\u00e3o Paulo: Prumo, 2009.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.anda.jor.br\/03\/11\/2011\/os-gatos-mitos-e-fatos#comment-110574\" >Go to Original \u2013 anda.jor.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eles gostam de dormir empoleirados &#8211; \u00e0s vezes nos incomodamos com esse h\u00e1bito quando eles resolvem nos incluir nessa maneira peculiar de dormir. Quando em bandos, ou mesmo em dois, os gatos dormem empoleirados. Ficam uns sobre os outros. Se ele quiser dormir na sua cabe\u00e7a, nas suas pernas ou na sua barriga, \u00e9 porque ele o considera um igual. Sinta-se honrado.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-15464","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15464","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15464"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15464\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15464"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15464"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15464"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}