{"id":15664,"date":"2011-11-14T12:00:35","date_gmt":"2011-11-14T12:00:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=15664"},"modified":"2011-11-10T17:32:42","modified_gmt":"2011-11-10T17:32:42","slug":"portuguese-retirada-dos-eua-e-derrota-no-iraque","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2011\/11\/portuguese-retirada-dos-eua-e-derrota-no-iraque\/","title":{"rendered":"(Portuguese) Retirada dos EUA e Derrota no Iraque"},"content":{"rendered":"<p><em>A retirada marca o culminar da derrota americana no Iraque, apenas compar\u00e1vel \u00e0 derrota dos Estados Unidos no Vietname. <\/em><\/p>\n<p>Agora \u00e9 oficial. Todas as tropas dos Estados Unidos v\u00e3o retirar do Iraque at\u00e9 31 de Dezembro de 2011. H\u00e1 duas formas de interpretar esta decis\u00e3o. Uma \u00e9 a do presidente Barack Obama, que afirma estar assim a cumprir uma promessa eleitoral de 2008. A segunda \u00e9 a dos candidatos presidenciais republicanos, que condenaram Obama por n\u00e3o ter feito o que o Ex\u00e9rcito dos Estados Unidos, segundo eles, queria: manter algumas tropas depois de 31 de Dezembro para \u201ctreinar\u201d os militares iraquianos. Segundo Mitt Romney, a decis\u00e3o de Obama foi \u201cou a consequ\u00eancia de um puro c\u00e1lculo pol\u00edtico, ou simplesmente a total in\u00e9pcia para negociar com o governo iraquiano\u201d.<\/p>\n<p>As duas afirma\u00e7\u00f5es s\u00e3o disparatadas, e representam meros argumentos auto-justificativos para o eleitorado americano. Obama empenhou-se fortemente, e em total conjuga\u00e7\u00e3o com os comandantes do Ex\u00e9rcito e com o Pent\u00e1gono para manter as tropas norte-americanas depois de 31 de Dezembro. Fracassou, n\u00e3o por in\u00e9pcia, mas porque os l\u00edderes pol\u00edticos do Iraque for\u00e7aram os Estados Unidos a sair. A retirada marca o culminar da derrota americana no Iraque, apenas compar\u00e1vel \u00e0 derrota dos Estados Unidos no Vietname.<\/p>\n<p>O que aconteceu realmente? Nos \u00faltimos dezoito meses, pelo menos, as autoridades de Washington tentaram empenhadamente negociar um acordo com os iraquianos que superasse o que foi assinado pelo presidente George W. Bush, que se comprometia com a retirada total das tropas em 31 de Dezembro de 2011. Fracassaram, mas n\u00e3o foi por falta de esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>Sob qualquer ponto de vista, os grupos mais pr\u00f3-americanos s\u00e3o os sunitas liderados por Ayad Allawi, um homem com rela\u00e7\u00f5es notoriamente pr\u00f3ximas \u00e0 CIA, e o partido de Jalal Talebani, o presidente curdo do Iraque. Os dois homens acabaram por dizer, sem d\u00favida com relut\u00e2ncia, que era melhor que as tropas americanas deixassem o pa\u00eds.<\/p>\n<p>O l\u00edder iraquiano que mais esfor\u00e7o empregou para chegar a um acordo que mantivesse as tropas norte-americanas foi o primeiro-ministro Nouri al-Malaki. Obviamente, ele acreditava que a pouca capacidade do ex\u00e9rcito iraquiano para manter a ordem levaria o pa\u00eds a novas elei\u00e7\u00f5es, nas quais a sua posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica estaria muito enfraquecida e ele, provavelmente, perderia o cargo de primeiro-ministro.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos fizeram concess\u00e3o atr\u00e1s de concess\u00e3o, reduzindo constantemente o n\u00famero de soldados que manteriam no Iraque. No final, o ponto de atrito foi a insist\u00eancia do Pent\u00e1gono para que fosse garantida a imunidade jur\u00eddica dos soldados americanos (e dos mercen\u00e1rios), perante a jurisdi\u00e7\u00e3o iraquiana, por qualquer crime que cometessem no pa\u00eds. Maliki estava pronto a concordar com isso, mas ficou isolado. Os sadristas, em particular, amea\u00e7aram retirar o seu apoio ao governo, se Maliki aceitasse as condi\u00e7\u00f5es de Washington. E sem os votos dos sadristas, Maliki n\u00e3o tinha a maioria necess\u00e1ria no parlamento.<\/p>\n<p>Quem ganhou ent\u00e3o? A retirada foi uma vit\u00f3ria do nacionalismo iraquiano. E a pessoa que incarna o nacionalismo iraquiano \u00e9 nada menos que Moqtada al-Sadr. \u00c9 verdade que al-Sadr lidera um movimento xiita que sempre foi violentamente contr\u00e1rio aos partidos baathistas \u2013 o que, para os seus seguidores, costuma significar ser contra mu\u00e7ulmanos sunitas. Mas al-Sadr h\u00e1 muito que se afastou da sua posi\u00e7\u00e3o inicial, para se converter, a si pr\u00f3prio e ao seu movimento, nos grandes defensores da retirada dos Estados Unidos. Ele aproximou-se dos l\u00edderes sunitas e curdos na esperan\u00e7a de criar uma frente nacionalista pan-iraquiana, centrada na restaura\u00e7\u00e3o da total autonomia do Iraque. E venceu.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que al-Sadr, assim como Maliki e outros pol\u00edticos xiitas, passou uma grande parte da sua vida exilado no Ir\u00e3o. A sua vit\u00f3ria \u00e9, ent\u00e3o, o triunfo do Ir\u00e3o? N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que o Ir\u00e3o ampliou a sua credibilidade no interior do Iraque. Mas seria um grande erro anal\u00edtico acreditar que o Ir\u00e3o substituiu os Estados Unidos no dom\u00ednio da cena pol\u00edtica iraquiana.<\/p>\n<p>Existem tens\u00f5es fundamentais entre os xiitas iranianos e os xiitas iraquianos. Por um lado, os iraquianos sempre consideraram o Iraque, e n\u00e3o o Ir\u00e3o, como o centro espiritual do mundo xiita. \u00c9 verdade que, nos \u00faltimos 50 anos, as transforma\u00e7\u00f5es do cen\u00e1rio geopol\u00edtico permitiram que os ayatollahs do Ir\u00e3o parecessem dominar o universo religioso do xiismo.<\/p>\n<p>Mas isso \u00e9 parecido ao que aconteceu na rela\u00e7\u00e3o entre os Estados Unidos e a Europa Ocidental depois de 1945. A for\u00e7a geopol\u00edtica dos Estados Unidos provocou um deslocamento na rela\u00e7\u00e3o cultural entre dois lados do Atl\u00e2ntico. A Europa Ocidental teve de aceitar o novo dom\u00ednio cultural e pol\u00edtico dos Estados Unidos, mas nunca gostou disso. Tenta agora retomar a sua predomin\u00e2ncia cultural. O mesmo acontece com o Ir\u00e3o e o Iraque. Nos \u00faltimos 50 anos, os xiitas iraquianos tiveram de aceitar o dom\u00ednio cultural iraniano, mas nunca gostaram disso. E agora v\u00e3o esfor\u00e7ar-se por reconquistar o seu predom\u00ednio cultural.<\/p>\n<p>Apesar das declara\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, tanto Barack Obama quanto os republicanos sabem que os Estados Unidos foram derrotados. Os \u00fanicos norte-americanos que n\u00e3o acreditam nisso s\u00e3o uma pequena franja da esquerda que, de algum modo, n\u00e3o pode aceitar que os Estados Unidos n\u00e3o ven\u00e7am sempre e em todos os lugares. Esta pequena franja est\u00e1 t\u00e3o empenhada em denunciar os Estados Unidos que n\u00e3o tolera a realidade de que o pa\u00eds est\u00e1 em s\u00e9rio decl\u00ednio.<\/p>\n<p>Este grupo marginal argumenta que nada mudou, porque os Estados Unidos apenas passaram a agir atrav\u00e9s do Departamento de Estado, em vez do Pent\u00e1gono, fazendo duas coisas: trazer mais fuzileiros navais para garantir a seguran\u00e7a da Embaixada dos Estados Unidos e contratar especialistas para treinar as for\u00e7as policiais iraquianas. Mas trazer mais fuzileiros \u00e9 um sinal de fraqueza, n\u00e3o de for\u00e7a. Significa que at\u00e9 mesmo a bem guardada embaixada norte-americana n\u00e3o est\u00e1 suficientemente segura dos ataques. Pela mesm\u00edssima raz\u00e3o, os Estados Unidos cancelaram os planos de abrir mais consulados no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Quanto aos especialistas, estamos a falar de aproximadamente 115 conselheiros que precisam de ser \u201cprotegidos\u201d por milhares de seguran\u00e7as privados. Eu diria que os conselheiros ser\u00e3o muito cautelosos sempre que sa\u00edrem das instala\u00e7\u00f5es da embaixada, e que vai ser dif\u00edcil contratar seguran\u00e7as privados em n\u00famero suficiente, dado que deixaram de ter imunidade jur\u00eddica.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m se deve surpreender se, depois das pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es no Iraque, o primeiro-ministro for Moqtada al-Sadr. Nem os Estados Unidos nem o Ir\u00e3o v\u00e3o rejubilar.<\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o, revista pelo autor, de Luis Leiria para o Esquerda.net.<\/em><\/p>\n<p>_______________________<\/p>\n<p><em>Immanuel Wallerstein, sociologo e professor universit\u00e1rio norte-americano, interessou-se pela pol\u00edtica internacional quando ainda era adolescente, acompanhando a actua\u00e7\u00e3o do movimento anticolonialista na India. Obteve os graus de B.A. (1951), M.A. (1954) e Ph.D. (1959) na Universidade de Columbia, Nova Iorque, onde ensinou at\u00e9 1971. Tornou-se depois professor de Sociologia na Universidade McGill, Montreal, at\u00e9 1976, e na Universidade de Binghamton, Nova York, de 1976 a 1999. Foi tamb\u00e9m professor visitante em v\u00e1rias universidades do mundo.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.esquerda.net\/opiniao\/retirada-dos-eua-e-derrota-no-iraque\" >Go to Original \u2013 esquerda.net<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A retirada marca o culminar da derrota americana no Iraque, apenas compar\u00e1vel \u00e0 derrota dos Estados Unidos no Vietname. Ningu\u00e9m se deve surpreender se, depois das pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es no Iraque, o primeiro-ministro for Moqtada al-Sadr. 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