{"id":15830,"date":"2011-11-21T12:00:23","date_gmt":"2011-11-21T12:00:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=15830"},"modified":"2011-11-19T00:06:09","modified_gmt":"2011-11-19T00:06:09","slug":"portuguese-mente-animal-e-tolerancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2011\/11\/portuguese-mente-animal-e-tolerancia\/","title":{"rendered":"(Portuguese) Mente Animal e Toler\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<p><em>\u201cB\u00e1rbaros agarram esse c\u00e3o, que t\u00e3o prodigiosamente vence o homem em amizade, pregam-no em cima de uma mesa e dissecam-no vivo para mostrarem-te suas veias mesent\u00e9ricas. Descobres nele todos os mesmos \u00f3rg\u00e3os de sentimentos de que te gabas.\u00a0 Responde-me maquinista, teria a natureza entrosado nesse animal todos os \u00f3rg\u00e3os do sentimento sem objetivo algum?\u00a0 Ter\u00e1 nervos para ser insens\u00edvel?\u00a0 N\u00e3o inquines \u00e0 natureza t\u00e3o impertinente contradi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/em> (Voltaire)<\/p>\n<p>O \u201cmaquinista\u201d a que Voltaire se refere na cita\u00e7\u00e3o acima \u00e9 Ren\u00e9 Descartes, que disseminou o conceito de animais como m\u00e1quinas em meados de 1630. Descartes defendia a tese de que os animais eram meros aut\u00f4matos, tal como os rel\u00f3gios, \u201cdesprovidos da mente e alma\u201d e \u201cincapazes de ter sensa\u00e7\u00f5es\u201d (Thomas, 2010 p. 43).<\/p>\n<p>A doutrina Cartesiana conseguiu degradar os animais n\u00e3o humanos. E os seguidores de Descartes, no mesmo s\u00e9culo, foram ainda mais longe ao afirmar que \u201cos bichos n\u00e3o sentem dor. O gemido de um c\u00e3o que apanha n\u00e3o constitui prova do sofrimento animal, assim como o som de um \u00f3rg\u00e3o n\u00e3o atesta que o instrumento sente dor quando tocado\u201d.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s de Aquino pregava que a chamada \u201cprud\u00eancia\u201d dos animais n\u00e3o passava de um \u201cinstinto implantado por Deus\u201d. O Cartesianismo, ao negar que animais tivessem mente e alma, era conveniente por negar a exist\u00eancia de um Deus capaz de permitir as atrocidades que se cometiam com os animais n\u00e3o humanos. Qualquer vis\u00e3o alternativa que dissesse que os animais realmente sofriam e sentiam inevitavelmente declarava o ser humano culpado e colocava em cheque a absolvi\u00e7\u00e3o de Deus por permitir tal sofrimento.<\/p>\n<p>Embora pense que seja uma discuss\u00e3o pertinente e necess\u00e1ria, n\u00e3o pretendo aqui, pela brevidade da reflex\u00e3o, escrever um tratado sobre as diferen\u00e7as e interfaces entre os termos consci\u00eancia, emo\u00e7\u00f5es, alma e sentimentos nos animais n\u00e3o humanos. Mas colocar em perspectiva as consequ\u00eancias para o movimento animalista abolicionista, da nega\u00e7\u00e3o dessas faculdades em animais n\u00e3o humanos.<\/p>\n<p>Todos esses termos, embora possuam diferentes significados e conota\u00e7\u00f5es, trazem impl\u00edcita uma afirma\u00e7\u00e3o que, por incr\u00edvel que pare\u00e7a aos meus olhos e ouvidos bioc\u00eantricos, incomoda muitos (ainda) seguidores de Descartes no s\u00e9culo atual: a possibilidade de, como esp\u00e9cie humana, sermos colocados no mesmo n\u00edvel que os animais n\u00e3o humanos com rela\u00e7\u00e3o a sentimentos e emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Seja alma, mente, sentimentos ou consci\u00eancia, qualquer termo que ouse equiparar animais n\u00e3o humanos e humanos traz um inc\u00f4modo generalizado. E torna mais dif\u00edcil, diria, injustific\u00e1vel, a manuten\u00e7\u00e3o da liberdade e da consci\u00eancia tranquila dos seres humanos ao impor todo o tipo de crueldade aos animas: da divers\u00e3o (rodeios, rinhas, circos, farra do boi, zool\u00f3gicos, ocean\u00e1rios) \u00e0 mesa; da tutela irrespons\u00e1vel \u00e0 ind\u00fastria de pele e couro; da vivissec\u00e7\u00e3o nas institui\u00e7\u00f5es de ensino e na ind\u00fastria ao uso de animais de tra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em meu <a href=\"http:\/\/www.anda.jor.br\/2011\/03\/08\/passeio-ao-zoologico-sob-outra-etica\/\"  target=\"_blank\">artigo sobre Zool\u00f3gicos<\/a>, publicado aqui na ANDA,\u00a0 me referi ao <em>Ensaio sobre a Cegueira<\/em>, de Saramago (\u201ccegos que vendo, n\u00e3o veem\u201d). Fa\u00e7o, aqui, men\u00e7\u00e3o novamente, sobre a cegueira coletiva (ou seletiva?) que dificulta uma discuss\u00e3o mais profunda sobre a mente dos animais, nos setores citados acima.<\/p>\n<p>Vejam o paradoxo: por um lado, as pessoas negam a exist\u00eancia de sentimentos entre os animais. Por outro, h\u00e1 o favorecimento da cultura do \u201cn\u00e3o quero saber\u201d e do \u201cn\u00e3o quero ver\u201d quando se diz respeito \u00e0s crueldades imputadas pelo ser humano, aos animais.<\/p>\n<p>\u00c0 exce\u00e7\u00e3o dos s\u00e1dicos, a maioria das pessoas \u00e9 tomada por um certo p\u00e2nico na imin\u00eancia de presenciar cenas de barb\u00e1rie animal, seja em um document\u00e1rio, ou em outra situa\u00e7\u00e3o. Viram o rosto. Isso constitui uma das provas contundentes da exist\u00eancia de identifica\u00e7\u00e3o imediata com o animal que sofre, atrav\u00e9s de se colocar no lugar do outro.<\/p>\n<p>S\u00e3o verdades dolorosas de se ver, por\u00e9m, verdades. Mais dolorosas ainda se atribu\u00edrmos aos animais o que a Ci\u00eancia nega: sentimentos, consci\u00eancia, mente. A nega\u00e7\u00e3o de uma mente nega tamb\u00e9m que os animais t\u00eam direitos e s\u00e3o \u201csujeitos de uma vida\u201d (Regan, 2007).\u00a0 \u00c9 por isso que acredito na miss\u00e3o dos abolicionistas que \u00e9, segundo Regan, \u201ctornar vis\u00edvel o invis\u00edvel\u201d. O autor afirma, ainda, que o reconhecimento dos direitos animais traz em seu bojo uma implica\u00e7\u00e3o simples e profunda: simples, porque diz que os animais devem ser tratados com respeito. E profunda porque as consequ\u00eancias desse respeito acarretam modifica\u00e7\u00f5es amplas no mundo em que vivemos:<\/p>\n<p><em>\u201cVamos ter que parar de cri\u00e1-los por causa de sua carne<br \/>\nVamos ter que parar de mat\u00e1-los por causa de sua pele<br \/>\nVamos ter de parar de trein\u00e1-los para que nos divirtam<br \/>\nVamos ter de parar de us\u00e1-los em pesquisas cient\u00edficas\u201d<br \/>\n<\/em>(Regan, 2006 p. 12)<\/p>\n<p>Essa discuss\u00e3o tem a ver com a capacidade de aceitar que somos diferentes, n\u00e3o superiores aos demais animais. Um paradigma a ser superado, principalmente pela Ci\u00eancia tradicional (ou convencional para os moldes especistas). E essa discuss\u00e3o, para que avance e seja significativa, precisa ser feita embasada em muita leitura, aprofundamento e tamb\u00e9m muita toler\u00e2ncia.<\/p>\n<p>N\u00e3o me refiro \u00e0 toler\u00e2ncia que se assemelha \u00e0 indulg\u00eancia que um indiv\u00edduo deve ter para com outro. N\u00e3o acredito que quem tolera presta um favor ao tolerado, como que perdoando sua inferioridade e ignor\u00e2ncia. Entendida dessa forma, a toler\u00e2ncia implica\u00a0uma condi\u00e7\u00e3o superior especista, racista, sexista, social, intelectual\u00a0etc. do tolerante, pois, nessa concep\u00e7\u00e3o, o tolerado pode ou deve ser grato a quem o tolera.<\/p>\n<p>Para explicitar melhor o uso que fa\u00e7o da palavra toler\u00e2ncia, recorro a Paulo Freire. O educador diz que \u201cningu\u00e9m \u00e9 verdadeiramente tolerante se se admite o direito de dizer do outro: o m\u00e1ximo que posso fazer \u00e9 toler\u00e1-lo, aguenta-lo\u201d (Freire, 1997, p. 24). Se nos falta essa concep\u00e7\u00e3o de toler\u00e2ncia, acabamos por nos tornar algozes do especismo e do preconceito.<\/p>\n<p>Para Paulo Freire, a toler\u00e2ncia verdadeira n\u00e3o \u00e9 condescend\u00eancia nem favor que o tolerante faz ao tolerado. E que ainda, na toler\u00e2ncia verdadeira, n\u00e3o h\u00e1 tolerante, nem tolerado: ambos se toleram.<\/p>\n<p>Ao escrever esse texto, me v\u00eam \u00e0 mente duas faces da toler\u00e2ncia no sentido freiriano, extremamente necess\u00e1rias para a manuten\u00e7\u00e3o e o avan\u00e7o da causa animalista abolicionista: uma, da toler\u00e2ncia que precisamos demonstrar cotidianamente a fim de manter nossa postura abolicionista frente a argumentos e atitudes especistas eletivas e elitistas. E outra, relacionada \u00e0 toler\u00e2ncia necess\u00e1ria ao meio acad\u00eamico e n\u00e3o acad\u00eamico como instrumento de aceita\u00e7\u00e3o e reconhecimento de animais n\u00e3o humanos como seres dotados de mente e emo\u00e7\u00f5es. Ambas trazem impl\u00edcita a ideia da aceita\u00e7\u00e3o do diferente. Desenvolverei um pouquinho, cada uma delas:<\/p>\n<p>&#8211; Da toler\u00e2ncia \u00e0s posi\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias ao abolicionismo: Tom Regan menciona as tr\u00eas principais raz\u00f5es que afastam as pessoas do movimento animalista devido \u00e0 imagem negativa que suscitam: certeza exagerada da pr\u00f3pria virtude, apela\u00e7\u00f5es de mau gosto e ativismo irrespons\u00e1vel (Regan, 2006, p. 07). Tom deixa claro que tais atitudes existem, dentro do movimento animalista, mas s\u00e3o a minoria. N\u00e3o vou me deter a pormenorizar cada uma delas, mas na minha interpreta\u00e7\u00e3o, consigo relacionar essas causas elencadas por Regan \u00e0 toler\u00e2ncia freiriana. N\u00e3o nos faltam exemplos em nosso cotidiano para ilustrar o quanto temos que ser tolerantes com pessoas desinformadas e at\u00e9 agressivas ao colocar um ponto de vista diferente do nosso. Argumentos insustent\u00e1veis que fazem o sangue ferver, mas, \u00e0s vezes, a voz silenciar diante de concep\u00e7\u00f5es arraigadas e esculpidas pelo antropocentrismo. Respeito. E penso: \u201cgame over\u201d, \u201ccaso perdido\u201d. E tor\u00e7o para que essa pessoa n\u00e3o tenha muito poder, nem muito dinheiro porque, quando aliados \u00e0 ignor\u00e2ncia, formam a mistura mais bomb\u00e1stica que existe.<\/p>\n<p>Por outro lado, Paulo Freire nos socorre e tranq\u00fciliza: sermos tolerantes n\u00e3o implica em sermos \u201cbonzinhos e condescendentes\u201d. N\u00e3o implica, em nenhum momento, concordar com o ponto de vista do tolerado. T\u00e3o pouco esse tipo de toler\u00e2ncia n\u00e3o nos pede que estimemos ou sejamos estimados.<\/p>\n<p>&#8211; Da toler\u00e2ncia sobre a igualdade das emo\u00e7\u00f5es entre animais humanos e n\u00e3o humanos:<\/p>\n<p>Esta coluna chama-se Consci\u00eancia Animal por tal express\u00e3o abarcar alguns significados. E claro, o leitor \u00e9 convidado a somar com outras interpreta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Um deles diz respeito \u00e0 nossa consci\u00eancia, enquanto animais humanos respons\u00e1veis por escolhas que tem e ter\u00e3o sempre conseq\u00fc\u00eancias sobre uma s\u00e9rie de outros seres. A express\u00e3o \u201cConsci\u00eancia Animal\u201d nos chama \u00e0 responsabilidade e da nossa consci\u00eancia, portanto, para com as demais esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>Outro significado pode remeter \u00e0 grandiosidade e \u00e0 nobreza que a palavra \u201canimal\u201d traduz (para mim). \u00c9 necess\u00e1rio uma Consci\u00eancia \u201canimal\u201d para reconhecer que os animais n\u00e3o humanos tamb\u00e9m t\u00eam sentimentos, no seu contexto, iguais aos nossos.<\/p>\n<p>E um terceiro significado, diz respeito \u00e0 Consci\u00eancia Animal mesmo, dos animais n\u00e3o humanos. Diz respeito a um assunto que tenho me debru\u00e7ado com um pouco mais de aten\u00e7\u00e3o ultimamente: a nega\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de consci\u00eancia em animais n\u00e3o humanos por parte da Ci\u00eancia convencional\/tradicional.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou ing\u00eanua ao ponto de acreditar que \u201cdescobrir\u201d que os animais possuem uma cultura pr\u00f3pria e uma mente que raciocina, decide, decodifica sentimentos como raiva, medo, empatia, frustra\u00e7\u00e3o, carinho e outras, seja um freio \u00e0s barb\u00e1ries cometidas contra eles nas ind\u00fastrias, na academia, e na sociedade em geral.<\/p>\n<p>Em todos os segmentos, essa nega\u00e7\u00e3o me incomoda. Mas na Ci\u00eancia me incomoda mais, porque enquanto inst\u00e2ncia n\u00e3o neutra de forma\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o, informa\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o do conhecimento, tem enorme responsabilidade na dissemina\u00e7\u00e3o de conceitos especistas e no desencadeamento de a\u00e7\u00f5es que promovem um desservi\u00e7o \u00e0 causa animalista.<\/p>\n<p>A m\u00eddia e a ind\u00fastria tamb\u00e9m comp\u00f5e o cartel da explora\u00e7\u00e3o. Mas essas, pelo vi\u00e9s econ\u00f4mico. Essas duas inst\u00e2ncias, tamb\u00e9m s\u00e3o alvos mais vulner\u00e1veis a questionamentos. Mas, quem ousa questionar a \u201cCi\u00eancia\u201d? Sobre isso, Jane Goodall (1990), primeira pesquisadora a estudar o comportamento animal em habitat natural e dar nomes aos seus primatas, argumenta muito bem:<\/p>\n<p><em>Se vemos um velho burro puxando uma carro\u00e7a abarrotada, e um campon\u00eas acoitando-o, for\u00e7ando o animal a levar uma carga muito alem de suas for\u00e7as, ficamos chocados e nos sentimos ultrajados. No entanto, se um beb\u00ea chimpanz\u00e9 \u00e9 retirado dos bra\u00e7os de sua m\u00e3e, trancado em um laborat\u00f3rio, e nele s\u00e3o injetadas doen\u00e7as humanas, em nome da Ci\u00eancia, isso n\u00e3o \u00e9 considerado crueldade. Em uma \u00faltima an\u00e1lise, ambos: o burro e o chimpanz\u00e9 s\u00e3o explorados para o benef\u00edcio dos humanos. O que faz um mais cruel que outro? Apenas o fato de a Ci\u00eancia ser venerada, gerando a cren\u00e7a de que os cientistas trabalham para o bem da humanidade, enquanto o campon\u00eas \u00e9 acusado de ego\u00edsta por punir um pobre animal para seu benef\u00edcio.<\/em><\/p>\n<p>Refuto, desde sempre e cotidianamente, a tese de que somos diferentes no campo das emo\u00e7\u00f5es. Antes, por intui\u00e7\u00e3o. Agora, com respaldo cient\u00edfico.<\/p>\n<p>Frans de Waal \u00e9 estudioso dos primatas e confere a estes faculdades emocionais como aos animais humanos. Em Minding Animals,\u00a0 (Bekoff, 2002, p. 102) nos brinda com uma p\u00e9rola: <em>\u201c\u00e0s vezes eu leio sobre algu\u00e9m dizendo com grande autoridade que os animais n\u00e3o tem inten\u00e7\u00f5es nem sentimentos e pergunto: esse garoto nunca teve um cachorro\u201d?\u00a0 .<\/em><\/p>\n<p>Infelizmente a Ci\u00eancia que reconhece os animais como seres dotados de consci\u00eancia ainda \u00e9 incipiente no Brasil, por parte de Bi\u00f3logos\/pesquisadores. Basta uma consulta aos principais artigos sobre o tema, para constatar que as principais produ\u00e7\u00f5es voltadas para essa \u00e1rea, dizem respeito a estudos comportamentais envolvendo priva\u00e7\u00e3o de alimento, de cuidados maternos e outras atrocidades cometidas \u201cem nome da Ci\u00eancia\u201d. A maioria esmagadora dos bi\u00f3logos, et\u00f3logos e outros que estudam a mente animal, tem seus estudos voltados para o pesquisas question\u00e1veis sob meu ponto de vista bioc\u00eantrico. E outra afirma\u00e7\u00e3o que sustento, apesar dos olhares de reprova\u00e7\u00e3o ou do chacoalhar de cabe\u00e7a semelhante ao de um m\u00e9dico que \u201cdesengana\u201d um paciente: pesquisas desnecess\u00e1rias, que em nada contribuem para ningu\u00e9m (a n\u00e3o ser para manter verbas de pesquisa). Se a intencionalidade de tais pesquisas \u00e9 gerar dados acerca da mente animal, tais dados s\u00e3o facilmente refut\u00e1veis pelo simples fato de o comportamento em cativeiro ser bem diverso daquele que o animal apresentaria em seu meio natural. Coerente seria ent\u00e3o, colocar as neuroses de cativeiro como resultados da pesquisa. Mas isso d\u00e1 outra discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Como Bi\u00f3loga, tive uma forma\u00e7\u00e3o antropoc\u00eantrica, cartesiana e especista.. Tive e tenho que recorrer constantemente a outras \u00e1reas como Filosofia, Hist\u00f3ria, Sociologia, Etologia e etc., para dar entender quest\u00f5es dentro do Abolicionismo animal, que a Biologia, por si, n\u00e3o esclarece. E refutar alguns argumentos. Um dos motivos que me lava a recorrer a outros campos de conhecimento, \u00e9 a especificidade da \u00e1rea de Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas. Outro motivo deve-se \u00e0s limita\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas sobre Biocentrismo que meus colegas de profiss\u00e3o, salvo raras exce\u00e7\u00f5es, em sua maioria, n\u00e3o conhecem, nem querem discutir, muito menos produzir intelectualmente a respeito. Estes permanecem endossando (e endeusando) a Ci\u00eancia tradicional.<\/p>\n<p>Por essas e outras, pretendo desenvolver aqui, nesta coluna, entremeadas por outras tem\u00e1ticas, algumas reflex\u00f5es com base em pesquisadores que vem se dedicando exaustivamente ao estudo da mente e das emo\u00e7\u00f5es dos animais n\u00e3o humanos em seu habitat natural e os colocar em p\u00e9 de igualdade conosco, animais humanos.<\/p>\n<p>Tais pesquisadores dedicam-se tamb\u00e9m a refutar a ci\u00eancia tradicional cartesiana, especista, antropoc\u00eantrica, cruel. Entre eles, Frans de Waal e Jane Goodall com seus estudos sobre a mente e o comportamento dos primatas e outros animais, Marc Bekoff e Jeffrey Moussaieff, sobre as emo\u00e7\u00f5es nos animais (Moussaieff j\u00e1 foi brilhantemente resenhado pelos parceiros do GEDA aqui na ANDA: <a href=\"http:\/\/www.anda.jor.br\/2011\/05\/28\/emocoes-nos-animais-uma-ponte-para-a-etica\/\"  target=\"_blank\">http:\/\/www.anda.jor.br\/2011\/05\/28\/emocoes-nos-animais-uma-ponte-para-a-etica\/<\/a>), Tom Regan, Julian Huxley, Keith Thomas, Irene Pepperberg, entre outros. Cada um a seu modo, respaldam e inspiram nossas concep\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Acredito muito na Era da Empatia, de Frans de Waal, que desmonta os argumentos especistas e reinterpreta a Teoria da Evolu\u00e7\u00e3o sob a perspectiva das mentes de animais n\u00e3o humanos. Acredito na for\u00e7a dos argumentos bioc\u00eantricos e anti-especistas para avan\u00e7ar na quebra da supremacia dessa Ci\u00eancia que tem deformado mentes de animais humanos e n\u00e3o humanos. Estes, \u00faltimos, \u00e0 sua revelia.<\/p>\n<p>Para encerrar, parafraseio Jane Goodall, com o objetivo de deixar uma reflex\u00e3o: se a atual Ci\u00eancia diz que n\u00e3o h\u00e1 argumentos que provem a exist\u00eancia de mente e emo\u00e7\u00f5es nos animais n\u00e3o humanos, t\u00e3o pouco ela apresenta argumentos para provar que eles n\u00e3o as tem.<\/p>\n<p>E uma observa\u00e7\u00e3o que, espero, n\u00e3o comprometa o conceito de toler\u00e2ncia que reinterpretei \u00e0 luz do Abolicionismo Animal: Paulo Freire concebe a toler\u00e2ncia como uma inst\u00e2ncia exclusiva da exist\u00eancia humana:<\/p>\n<p><em>s\u00f3 entre mulheres e homens, seres finitos e conscientes de sua finitude, seres que, por natureza, s\u00e3o substantivamente iguais, \u00e9 que se pode falar em toler\u00e2ncia ou intoler\u00e2ncia. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel conjecturar em torno da toler\u00e2ncia entre tigres. (Freire, 2004, p.24)<\/em><\/p>\n<p>Com plena consci\u00eancia da pequenez do meu discurso diante da grandeza da intelectualidade de Paulo Freire: nesse ponto, com base em tudo o que foi escrito acima sobre a mente dos animais e principalmente no que acredito, sou obrigada a discordar do pensador. Veementemente.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>BEKOFF, Marc. Minding Animals: awareness, emotions and heart. New York: Oxford University Press, 2002.<\/p>\n<p>FREIRE, Paulo. Pedagogia da Toler\u00e2ncia. Org. Ana Maria Ara\u00fajo Freire. S\u00e3o Paulo: Editora UNESP, 2004.<\/p>\n<p>GOODALL, J. Through a window: my thitty years with the chimpanzees of Gombe. Boston: Houghton Mifflin, 1990.<\/p>\n<p>MASSON, Jeffrey Moussaieff &amp; MacCARTHY, Susan. Quando os elefantes choram: a vida emocional dos animais. S\u00e3o Paulo: Gera\u00e7\u00e3o Editorial, 2001.<\/p>\n<p>THOMAS, Keith. O homem e o mundo natural: mudan\u00e7as de atitude em rela\u00e7\u00e3o as plantas e aos animais. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010.<\/p>\n<p>WAAL, Frans de. A era da empatia: li\u00e7\u00f5es da natureza para uma sociedade mais gentil. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010.<\/p>\n<p>DICION\u00c1RIO FILOS\u00d3FICO. O grande Fil\u00f3sofo Voltaire e os animais. S\u00e3o Paulo: Martin Claret, 2004.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.anda.jor.br\/01\/07\/2011\/mente-animal-e-tolerancia\" >Go to Original \u2013 anda.jor.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Descartes [em 1630] defendia a tese de que os animais eram meros aut\u00f4matos, tal como os rel\u00f3gios, \u201cdesprovidos da mente e alma\u201d e \u201cincapazes de ter sensa\u00e7\u00f5es\u201d (Thomas, 2010 p. 43).<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-15830","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15830","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15830"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15830\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15830"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15830"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15830"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}