{"id":1626,"date":"2008-12-11T00:00:00","date_gmt":"2008-12-11T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost\/wordpress\/2008\/12\/portuguese-meu-nome-e-crise\/"},"modified":"2008-12-11T00:00:00","modified_gmt":"2008-12-11T00:00:00","slug":"portuguese-meu-nome-e-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2008\/12\/portuguese-meu-nome-e-crise\/","title":{"rendered":"(PORTUGUESE)  MEU NOME \u00c9 CRISE"},"content":{"rendered":"<p>H&aacute; tempos n&atilde;o se falava tanto de mim como agora. Tudo por causa de uma crise no sistema financeiro. A &Aacute;frica anda, tamb&eacute;m h&aacute; tempos, em crise cr&ocirc;nica &#8211; de democracia, de alimentos, de recursos; quem fala disso? <\/p>\n<p>Existe amea&ccedil;a de crise do petr&oacute;leo; governantes e empres&aacute;rios parecem em p&acirc;nico frente &agrave; possibilidade de n&atilde;o poder alimentar 800 milh&otilde;es de ve&iacute;culos automotores que rodam sobre a face da Terra.<\/p>\n<p>No &uacute;ltimo ano, devido ao aumento do pre&ccedil;o dos alimentos, o n&uacute;mero de famintos cr&ocirc;nicos subiu de 840 milh&otilde;es para 950 milh&otilde;es, segundo a FAO; mas quem se preocupa em alimentar miser&aacute;veis?<\/p>\n<p>Meu nome deriva do grego kr&iacute;sis, discernir, escolher, distinguir &#8211; enfim, ter olhos cr&iacute;ticos. Trago tamb&eacute;m familiaridade com o verbo acrisolar, purificar. Ao contr&aacute;rio do que sup&otilde;e o senso comum, n&atilde;o sou, em si, negativa. Fa&ccedil;o parte da evolu&ccedil;&atilde;o da natureza.<\/p>\n<p>Houve uma crise c&oacute;smica quando uma velha estrela, paradoxalmente chamada supernova, explodiu h&aacute; 5 bilh&otilde;es de anos; seus cacos, arremessados pelo espa&ccedil;o, deram origem ao sistema solar. O sol &eacute; um peda&ccedil;o de supernova dotado de calor pr&oacute;prio. A Terra e os demais planetas, cacos incandescentes que, aos poucos, se resfriaram. Daqui a 5 bilh&otilde;es de anos o sol, agonizante, tamb&eacute;m ver&aacute; sua obesidade dilatada at&eacute; se esfacelar nos abismos siderais.<\/p>\n<p>Todos n&oacute;s, leitores, passamos pela crise da puberdade. Doeu ver-nos expulsos do reino da fantasia, a inf&acirc;ncia, para abra&ccedil;ar o da realidade! Nem todos, entretanto, fazem essa travessia sem riscos. H&aacute; adolescentes de tal modo submersos na fantasia que, frente aos ind&iacute;cios da idade adulta, que consiste em encarar a realidade, preferem se refugiar nas drogas. E h&aacute; adultos que, desprovidos do senso de rid&iacute;culo, vivem em crise de adolesc&ecirc;ncia&#8230;<\/p>\n<p>Resulto da contradi&ccedil;&atilde;o inerente aos seres humanos. N&atilde;o h&aacute; quem n&atilde;o traga em si o seu oposto. Quantas vezes, no tr&acirc;nsito, o mais am&aacute;vel cidad&atilde;o arremessa o carro sobre a faixa de pedestres; a gentil donzela enfia a m&atilde;o na buzina; o aplicado estudante acelera al&eacute;m da conveni&ecirc;ncia! N&atilde;o &eacute; f&aacute;cil conciliar o modo de pensar com o modo de agir.<\/p>\n<p>Estou muito presente nas rela&ccedil;&otilde;es conjugais desprovidas de valores arraigados. Sobretudo quando a nudez de corpos n&atilde;o traduz a de esp&iacute;ritos e o n&atilde;o-dito prevalece sobre o dito. Felizmente muitos casais conseguem me superar atrav&eacute;s do di&aacute;logo, da terapia, da descoberta de que o amor &eacute; um exerc&iacute;cio cotidiano de doa&ccedil;&atilde;o rec&iacute;proca. O pr&iacute;ncipe e a fada encantados habitam o ilus&oacute;rio castelo da imagina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Agora, assusto o cassino global da especula&ccedil;&atilde;o financeira. Acreditou-se que o capitalismo fosse inabal&aacute;vel, sobretudo em sua vers&atilde;o neoliberal religiosamente apoiada em dogmas de f&eacute;: o livre mercado, a m&atilde;o invis&iacute;vel, a capacidade de auto-regula&ccedil;&atilde;o, a privatiza&ccedil;&atilde;o do patrim&ocirc;nio p&uacute;blico etc.<\/p>\n<p>Dezenove anos ap&oacute;s fazer estremecer o socialismo europeu, eis-me a gerar inquieta&ccedil;&atilde;o ao mercado. A l&oacute;gica do bem-estar n&atilde;o lida com o imprevisto, o fracasso, o inusitado, essas coisas que decorrem de minha presen&ccedil;a. Os governantes se apressam em tentar acalmar os &acirc;nimos como a tripula&ccedil;&atilde;o do Titanic, enquanto a &aacute;gua inundava a quilha, ordenou &agrave; orquestra prosseguir a m&uacute;sica&#8230;<\/p>\n<p>Tenho duas faces. Uma, traz &agrave;s minhas v&iacute;timas desespero, medo, inquieta&ccedil;&atilde;o. Atinge aquelas pessoas que n&atilde;o acreditavam em minha exist&ecirc;ncia ou me encaravam como se eu fosse uma bruxa &#8211; figura mitol&oacute;gica do passado que j&aacute; n&atilde;o representa nenhuma amea&ccedil;a.<\/p>\n<p>Minha outra face, a positiva, &eacute; a que a &aacute;guia conhece aos 40 anos: as penas est&atilde;o velhas, as garras desgastadas, o bico trincado. Ent&atilde;o ela se isola durante 150 dias e arranca as penas, as garras, e quebra o bico. Espera, pacientemente, a renova&ccedil;&atilde;o. Em seguida, voa saud&aacute;vel rumo a mais 30 anos de vida.<\/p>\n<p>Sou presen&ccedil;a frequente na experi&ecirc;ncia da f&eacute;. Muitos, ao passar de uma f&eacute; infantil &agrave; adulta, confundem o desmoronar da primeira com a inexist&ecirc;ncia da segunda; tornam-se ateus, indiferentes ou agn&oacute;sticos. N&atilde;o fazem a passagem do Deus &quot;l&aacute; em cima&quot; para o Deus &quot;aqui dentro&quot; do cora&ccedil;&atilde;o. Associam f&eacute; &agrave; culpa e n&atilde;o ao amor.<\/p>\n<p>Acredito que este abalo na especula&ccedil;&atilde;o financeira trar&aacute; novos paradigmas &agrave; humanidade: menos consumismo e mais mod&eacute;stia no padr&atilde;o de vida; menos competi&ccedil;&atilde;o e mais solidariedade entre pessoas e empreendimentos; menos obsess&atilde;o por dinheiro e mais por qualidade de vida.<\/p>\n<p>Todas as vezes que irrompo na hist&oacute;ria ou na vida das pessoas, trago um recado: &eacute; hora de come&ccedil;ar de novo. Quem puder entender, entenda.<br \/>________________________________________<\/p>\n<p><em>Frei Betto &eacute; escritor, autor de &quot;Cartas da Pris&atilde;o&quot; (Agir), entre outros livros<br \/><\/em><\/p>\n<p><em>&copy; 1999-2006. &laquo;PRAVDA.Ru&raquo; <\/em><\/p>\n<p><em>No acto de reproduzir nossos materiais na &iacute;ntegra ou em parte, deve fazer refer&ecirc;ncia &agrave; PRAVDA.Ru As opini&otilde;es e pontos de vista dos autores nem sempre coincidem com os dos editores.<\/em><br \/><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/port.pravda.ru\/mundo\/20-11-2008\/25354-freibettonomecrise-0\" ><br \/>GO TO ORIGINAL<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H&aacute; tempos n&atilde;o se falava tanto de mim como agora. Tudo por causa de uma crise no sistema financeiro. A &Aacute;frica anda, tamb&eacute;m h&aacute; tempos, em crise cr&ocirc;nica &#8211; de democracia, de alimentos, de recursos; quem fala disso? 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