{"id":163280,"date":"2020-06-22T12:00:35","date_gmt":"2020-06-22T11:00:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=163280"},"modified":"2020-06-21T08:00:39","modified_gmt":"2020-06-21T07:00:39","slug":"portugues-a-transicao-ecologica-para-uma-sociedade-biocentrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2020\/06\/portugues-a-transicao-ecologica-para-uma-sociedade-biocentrada\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) A Transi\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica para uma Sociedade Biocentrada"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/terra-earth.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-112580\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/terra-earth-250x300.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"240\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/terra-earth-250x300.jpg 250w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/terra-earth.jpg 605w\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>19 jun 2020<\/em> &#8211; O ataque do coronav\u00edrus contra toda a humanidade nos obrigou a nos concentrar no v\u00edrus, no hospital, no paciente, no poder da ci\u00eancia e da t\u00e9cnica e na corrida desenfreada por uma vacina eficaz e no confinamento e distanciamento social Tudo isso \u00e9 indispens\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mas para apreendermos o significado do coronav\u00edrus, precisamos enquadr\u00e1-lo em seu devido contexto e\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 n\u00e3o v\u00ea-lo isoladamente. Ele expressa a l\u00f3gica do capitalismo global que, h\u00e1 s\u00e9culos, conduz uma guerra sistem\u00e1tica contra a natureza e contra a Terra.<\/p>\n<h3><strong>O capitalismo neoliberal gravemente ferido<\/strong><\/h3>\n<p>O capitalismo se caracteriza pela exacerbada explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, pela utiliza\u00e7\u00e3o dos saberes produzidos pela tecnoci\u00eancia, pela pilhagem dos bens e servi\u00e7os da natureza, pela coloniza\u00e7\u00e3o e ocupa\u00e7\u00e3o de todos os territ\u00f3rios acess\u00edveis. Por fim, pela mercantiliza\u00e7\u00e3o de todas as coisas. De uma <em>economia de mercado<\/em> passamos para uma <em>sociedade de mercado<\/em>.<\/p>\n<p>Nela, as coisas inalien\u00e1veis se transformaram em mercadoria. Karl Marx em sua <em>Mis\u00e9ria da Filosofia<\/em> de 1874 profetizou: \u201cTudo o que os homens consider\u00e1vel inalien\u00e1vel, coisas trocadas e dadas mas jamais vendidas\u2026.tudo se tornou venal como a virtude, o amor, a opini\u00e3o, a ci\u00eancia e a consci\u00eancia\u2026 tudo foi\u00a0 levado ao mercado e ganhou seu pre\u00e7o\u201d. A isso ele denominou o \u201c<em>tempo da corrup\u00e7\u00e3o geral e da venalidade universa<\/em>l\u201d(ed.Vozes 2019,p.54-55).\u00c9 o que estamos vivendo desde o fim da segunda guerra mundial.<\/p>\n<p>O capitalismo quebrou todos os la\u00e7os com natureza, a transformou num ba\u00fa de recursos, tidos ilusoriamente ilimitados, em fun\u00e7\u00e3o de uma crescimento tamb\u00e9m tido ilusoriamente ilimitado. Ocorre que um planeta j\u00e1 velho e limitado n\u00e3o suporta um crescimento ilimitado.<\/p>\n<p>Politicamente o neoliberalismo confere centralidade ao lucro, ao mercado, ao Estado m\u00ednimo, \u00e0s privatiza\u00e7\u00f5es de bens p\u00fablicos e uma exacerba\u00e7\u00e3o da concorr\u00eancia e do individualismo, a ponto de Reagan e Thatcher dizerem que a sociedade n\u00e3o existe, apenas indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>A Terra viva, Gaia, um superorganismo que articula todos fatores para continuar viva e produzir e reproduzir sempre todo tipo de vida, come\u00e7ou a reagir e contra-atacar: pelo aquecimento global, pela eros\u00e3o da biodiversidade, pela desertifica\u00e7\u00e3o crescente, pelos eventos extremos e pelo envio de suas armas letais que s\u00e3o os v\u00edrus e bact\u00e9rias (gripe su\u00edna, avi\u00e1ria, H1N1, zika, chikungunya, SARS, ebola e outros) e agora o covid-19, invis\u00edvel e letal. Colocou a todos de joelhos, especialmente as pot\u00eancias militaristas cujas armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa (que poderiam destruir toda a vida, v\u00e1rias vezes) se mostraram totalmente sup\u00e9rfluas e rid\u00edculas. Agora passamos do capitalismo do <em>desastre<\/em> para o capitalismo do <em>caos,<\/em>como diz a cr\u00edtica do sistema capitalista Naomi Klein.<\/p>\n<p>Uma coisa ficou clara a prop\u00f3sito do covid-19: caiu um meteoro rasante em cima do capitalismo neoliberal desmantelando seu ide\u00e1rio: o lucro, a acumula\u00e7\u00e3o privada, a concorr\u00eancia, o individualismo, o consumismo, o estado m\u00ednimo e a privatiza\u00e7\u00e3o da coisa p\u00fablica e dos <em>commons<\/em>. Ele foi gravemente ferido. O fato \u00e9 que produziu demasiada iniquidade humana, social e ecol\u00f3gica, a ponto de p\u00f4r em risco o futuro do sistema-vida e do sistema-Terra.<\/p>\n<p>Ele, entretanto, colocou inequivocamente a disjuntiva: <em>vale mais o lucro ou a vida? O que vem antes: salvar a economia ou salvar vidas humanas?<\/em><\/p>\n<p>Pelo ide\u00e1rio do capitalismo, a disjuntiva seria salvar a economia em primeiro lugar e em seguida vidas humanas. Mas releva reconhecer que \u00e9 o que nos est\u00e1 salvando \u00e9 aquilo que inexiste nele: a solidariedade, a coopera\u00e7\u00e3o, a interdepend\u00eancia entre todos, a generosidade e o cuidado m\u00fatuo pela vida de uns e de outros.<\/p>\n<h3><strong>Alternativas para o p\u00f3s-coronav\u00edrus<\/strong><\/h3>\n<p>O grande desafio colocado a todos, a grande interroga\u00e7\u00e3o especialmente, aos donos dos grandes conglomerados multinacionais \u00e9: <em>Como continuar? Voltar ao que era antes? Recuperar o tempo e o lucros perdidos?<\/em><\/p>\n<p>Muitos dizem: voltar simplesmente ao que era antes, seria um suic\u00eddio. Pois a Terra poderia novamente contra-atacar com v\u00edrus mais violentos e mortais. Cientistas j\u00e1 advertiram que poderemos, dentro de pouco, sofrer com um ataque ainda mais feroz, caso n\u00e3o tenhamos aprendido a li\u00e7\u00e3o de cuidar da natureza e de desenvolver uma rela\u00e7\u00e3o amig\u00e1vel para com a M\u00e3e Terra.<\/p>\n<p>Elenco aqui algumas alternativas, pois os senhores do capital e das finan\u00e7as est\u00e3o numa furiosa articula\u00e7\u00e3o entre eles para salvaguardar seus interesses, fortunas e poder de press\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A <em>primeira<\/em> seria a volta ao sistema capitalista neoliberal extremamente radical. Seria 0,1% da humanidade, bilhard\u00e1rios, que utilizariam a intelig\u00eancia artificial com capacidade de controlar cada pessoa do planeta, desde sua vida \u00edntima, privada e p\u00fablica. Seria um <em>despotismo<\/em> de outra ordem, cibern\u00e9tico, sob a \u00e9gide do total controle\/domina\u00e7\u00e3o da vida das popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Este n\u00e3o aprendeu nada do covid-19, nem incorporou o fator ecol\u00f3gico. Pela press\u00e3o geral, talvez assuma uma responsabilidade socio-<em>ecol\u00f3gica<\/em> para n\u00e3o perder lucros e frequezes. Mas seguramente haver\u00e1 grande resist\u00eancia e at\u00e9 rebeli\u00f5es provocadas pela fome e pelo desespero.<\/p>\n<p>A <em>segunda<\/em> alternativa seria o <em>capitalismo verde<\/em> que tirou as li\u00e7\u00f5es do coronav\u00edrus e incorporou o fator ecol\u00f3gico: reflorestar o devastado e conservar ao m\u00e1ximo a natureza. Mas n\u00e3o mudaria o modo de produ\u00e7\u00e3o e a busca do lucro. O capitalismo verde n\u00e3o discute a desigualdade social perversa e faria de tudo da natureza, ocasi\u00e3o de ganho. Exemplo: n\u00e3o apenas ganhar com o mel das abelhas, mas tamb\u00e9m sobre sua capacidade de polinizar outras flores. A rela\u00e7\u00e3o para com a natureza e a Terra continuaria utilitarista e n\u00e3o lhe reconheceria direitos,como declarou a ONU e seu valor intr\u00ednseco, independente do ser humano.<\/p>\n<p>A <em>terceira<\/em> seria o <em>comunism<\/em>o de terceira gera\u00e7\u00e3o que nada teria com as anteriores, colocando os bens e servi\u00e7os do planeta sob a administra\u00e7\u00e3o plural e global para redistribui-los equitativamene a todos. Poderia ser poss\u00edvel, mas sup\u00f5e uma nova consci\u00eancia ecol\u00f3gica, al\u00e9m de\u00a0 dar centralidade \u00e0 vida em todas as suas formas. Seria ainda antropoc\u00eantrico. \u00c9 pouco representado, pelos fil\u00f3sofox Zizek e Badiou al\u00e9m da carga negativa das experi\u00eancias anteriores e mal sucedidas.<\/p>\n<p>A <em>quarta<\/em>, seria o <em>eco-socialismo<\/em> com maiores possibilidades. Sup\u00f5e um contrato social mundial com um centro plural de governan\u00e7a para resolver os problemas globais da humanidade. Os bens e servi\u00e7os naturais seriam equitativamente distribu\u00eddos a todos, num consumo decente e s\u00f3brio que incluiria tamb\u00e9m toda a comunidade de vida. Ela tamb\u00e9m precisa de meios de vida e de reprodu\u00e7\u00e3o como \u00e1gua, climas e nutrientes. Esta alternativa estaria dentro das possibilidades humanas, desde que superasse o sociocentrismo e incorporasse os dados da nova cosmologia e biologia, que consideram a Terra como momento do grande processo cosmog\u00eanico,biog\u00eanico e antropog\u00eanico.<\/p>\n<p>A <em>quinta<\/em> alternativa <em>seria o bem viver e conviver<\/em> ensaiada por s\u00e9culos pelos andinos. Ela \u00e9 profundamente ecol\u00f3gica, pois considera todos os seres como portadores de direitos. O eixo articulador \u00e9 a harmonia que come\u00e7a com a fam\u00edlia, com a comunidade, com a natureza, com o inteiro universo, com os ancestrais e com a Divindade. Esta alternativa possui alto grau de utopia, Talvez, quando a humanidade se descobrir como esp\u00e9cie, habitando numa \u00fanica Casa Comum, teria condi\u00e7\u00f5es de realizar o bem-viver e o bem conviver.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong> desta parte: ficou evidente que o centro de tudo \u00e9 a vida, a sa\u00fade e os meios de vida e n\u00e3o o lucro e o desenvolvimento (in)sustent\u00e1vel. Vai se exigir mais Estado com mais seguran\u00e7a sanit\u00e1ria para todos, um Estado que satisfa\u00e7a as demandas coletivas e promova um desenvolvimento que obede\u00e7a os ritmos e os limites da natureza. N\u00e3o ser\u00e1 a austeridade que vai resolver os problemas sociais que t\u00eam beneficiados ao j\u00e1 ricos, e penalizado os mais pobres. A solu\u00e7\u00e3o se deriva da justi\u00e7a social e distributiva, onde todos participam do \u00f4nus e do b\u00f4nus da ordem social.<\/p>\n<p>Como o problema do coronav\u00edrus foi global, torna-se necess\u00e1rio um contrato social global para implementar solu\u00e7\u00f5es globais. Tal transforma\u00e7\u00e3o demandar\u00e1 uma <em>descoloniza\u00e7\u00e3o<\/em> de vis\u00f5es de muno e de conceitos, como a voracidade pelo lucro e o consumismo, que foram inculcados pela cultura do capital. O p\u00f3s-coronav\u00edrus nos obrigar\u00e1 conferir centralidade \u00e0 natureza e \u00e0 Terra. Ou salvamos a natureza e a Terra ou engrossaremos o cortejo dos que rumam para o abismo.<\/p>\n<h3><strong>Como buscar uma transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, exigida pela a\u00e7\u00e3o mort\u00edfera do covid-19? Por onde come\u00e7ar?<\/strong><\/h3>\n<p>N\u00e3o podemos subestimar o poder do \u201cg\u00eanio\u201d do capitalismo neoliberal: ele \u00e9 capaz de incorporar os dados novos, transform\u00e1-los em seu benef\u00edcio privado e para isso usar todos os meios modernos da robotiza\u00e7\u00e3o, da intelig\u00eancia artificial com seus bilh\u00f5es de algoritmos e eventualmente as guerras h\u00edbridas. Sem piedade podem conviver, indiferentes, aos milh\u00f5es e milh\u00f5es de esfaimados e lan\u00e7ados na mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Por outra parte os que buscam uma transi\u00e7\u00e3o paradigm\u00e1tica, dentro do qual eu mesmo me situo, devem propor outra forma de habitar a Casa Comum, com uma conviv\u00eancia respeitosa para com a natureza e um cuidado com todos os ecossistemas. Devem gerar na base social outro n\u00edvel de consci\u00eancia e novos sujeitos sociais, portadores desta alternativa. Para isso, cabe enfatizar, devemos passar por um processo de descoloniza\u00e7\u00e3o de vis\u00f5es de mundo e de ideias inculcadas pela cultura do capital. Devemos ser anti-sistema e alternativos.<\/p>\n<h3><strong>Pressupostos para uma transi\u00e7\u00e3o bem sucedida<\/strong><\/h3>\n<p><strong>Primeiro pressuposto<\/strong>: a <em>vulnerabilidade<\/em> da condi\u00e7\u00e3o humana, exposta a ser atacada por enfermidades, bact\u00e9rias e v\u00edrus. dos ecossistemas e a alimenta\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Fundamentalmente dois outros fatores est\u00e3o na origem da invas\u00e3o de micro-organismos letais: a excessiva <em>urbaniza\u00e7\u00e3o humana<\/em> que avan\u00e7ou sobre os espa\u00e7os da natureza, destruindo os habitats naturais dos v\u00edrus e bact\u00e9rias: saltaram para outros animais ou para o corpo humano. 83% da humanidade vive em cidades.<\/p>\n<p>O segundo fator \u00e9 a <em>desfloresta\u00e7\u00e3o<\/em> sistem\u00e1tica devida \u00e0 voracidade do capital que busca riqueza com a monocultura da soja, da cana, do girasol ou com a minera\u00e7\u00e3o e a produ\u00e7\u00e3o de prote\u00ednas animais (gado), devastando florestas e desequilibrando o regime de umidade e de chuvas de vastas regi\u00f5es como \u00e9 o caso da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p><strong>Segundo pressuposto<\/strong>: a <em>interdepend\u00eancia<\/em> entre todos os seres, especialmente entre os seres humanos. Somos, por natureza, um n\u00f3 de rela\u00e7\u00e3o, voltado para todas as dire\u00e7\u00f5es. A bioantropologia e a psicologia evolutiva deixaram claro que \u00e9 da ess\u00eancia espec\u00edfica do ser humano a coopera\u00e7\u00e3o e a rela\u00e7\u00e3o de todos com todos. N\u00e3o existe o <em>gene ego\u00edsta<\/em>, formulado por Dawkins no fins dos anos 60 do s\u00e9culo passado sem nenhuma base emp\u00edrica. Todos os genes se interligam entre si e dentro das c\u00e9lulas. Todos os seres est\u00e3o inter-retro-relacionados e ningu\u00e9m est\u00e1 fora da rela\u00e7\u00e3o. Nesse sentido o individualismo, valor supremo da cultura do capital, \u00e9 anti-natural e n\u00e3o possui nenhuma base biol\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>Terceiro pressuposto: <\/strong> a <em>solidariedade<\/em> como op\u00e7\u00e3o consciente. A solidariedade est\u00e1 na base de nossa humanidade. Os bio-antrop\u00f3logos nos revelaram que este dado \u00e9 essencial ao ser humano. Quando nossos ancestrais buscavam seus alimentos, n\u00e3o os comiam sozinhos. Levavam-nos ao grupo e serviam a todos come\u00e7ando com os mais novos, depois com os mais idosos e por fim a todos. Da\u00ed surgiu a comensalidade e o sentido de coopera\u00e7\u00e3o e solidariedade. Foi a solidariedade que nos permitiu o salto da animalidade para a humanidade. O que valeu ontem, vale tamb\u00e9m para hoje.<\/p>\n<p>A sociedade vive e subsiste porque seus cidad\u00e3os comparecem como seres cooperativos e solid\u00e1rios, superando conflito de interesses para ter uma conviv\u00eancia minimamente humana e pac\u00edfica e juntos construir o bem comum. Esta solidariedade n\u00e3o vigora apenas entre os humanos. \u00c9 uma constante cosmol\u00f3gica: todos os seres convivem, est\u00e3o envolvidos em redes de de rela\u00e7\u00f5es de reciprocidade e de solidariedade de forma que todos se entre-ajudam para viver e co-evoluir. Tamb\u00e9m o mais fraco, com a colabora\u00e7\u00e3o dos outros, subsiste e tem o seu lugar no conjunto dos seres e co-evolui.<\/p>\n<p>O sistema do capital n\u00e3o conhece a solidariedade, apenas a competi\u00e7\u00e3o que produz tens\u00f5es, rivalidades e verdadeiras destrui\u00e7\u00f5es de outros concorrentes em fun\u00e7\u00e3o de uma maior acumula\u00e7\u00e3o e, se poss\u00edvel, estabelecer o monop\u00f3lio de um produto ou de uma f\u00f3rmula cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Hoje o maior problema da humanidade n\u00e3o \u00e9 nem o econ\u00f4mico,\u00a0nem o pol\u00edtico nem o cultural, nem o religioso, mas \u00e9 a falta de solidariedade para com outros seres humanos que est\u00e3o ao nosso lado. No capitalismo ele \u00e9 visto como um eventual consumidor, n\u00e3o como uma pessoa humana com suas preocupa\u00e7\u00f5es, suas alegrias e padecimentos.<\/p>\n<p>Foi a solidariedade que nos est\u00e1 salvando face ao ataque do coronav\u00edrus, a come\u00e7ar pelos operadores da sa\u00fade que generosamente arriscam suas vidas para salvar vidas. Assistimos atitudes de solidariedade em toda a sociedade mas especialmente nas periferias onde as pessoas n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de fazerem o isolamento social e n\u00e3o possuem reservas de alimenta\u00e7\u00e3o. Muitas fam\u00edlias que recebiam as cestas b\u00e1sicas, as repartiam entre outros mais necessitados.<\/p>\n<p>Refer\u00eancia especial merece o MST (Movimento dos Sem Terra) que forneceu toneladas alimenta\u00e7\u00e3o org\u00e2nica para os mais vulner\u00e1veis.N\u00e3o d\u00e3o o que lhes sobra, mas o que t\u00eam. Outras ONGs organizaram a\u00e7\u00f5es de solidariedade para atenderem aos mais carentes. Mesmo as grande empresas mostraram solidariedade, doando alguns milh\u00f5es que lhes sobraram para enfrentar o covid-19.<\/p>\n<p>N\u00e3o basta que a solidariedade seja um gesto pontual. Ele deve ser uma <em>atitude b\u00e1sica<\/em>, porque \u00e9\u00a0 um dado de nossa natureza. Temos que fazer uma op\u00e7\u00e3o consciente para sermos solid\u00e1rios a partir dos \u00faltimos e invis\u00edveis, para aqueles que n\u00e3o contam para o sistema imperante e s\u00e3o considerados prescind\u00edveis e zeros econ\u00f4micos. S\u00f3 assim ela deixa de ser eletiva e engloba a todos, pois todos somos co-iguais e nos unem\u00a0 la\u00e7os objetivos de fraternidade.<\/p>\n<p><strong>Quarto pressuposto<\/strong>: o <em>cuidado essencial<\/em> para com tudo o que vive e existe, especialmente entre os seres humanos. Pertence \u00e0 ess\u00eancia do humano, o cuidado sem o qual nenhum ser vivo subsistiria. N\u00f3s estamos vivos porque tivemos o infinito cuidado de nossas m\u00e3es. Deixados no ber\u00e7o, n\u00e3o saber\u00edamos como buscar nosso alimento e dentro de pouco tempo morrer\u00edamos.<\/p>\n<p>Ademais cuidado \u00e9 al\u00e9m disso uma constante cosmol\u00f3gica como o mostraram Stephan Hawking e Brian Swimme entre outros: as quatro for\u00e7as que sustentam o universo (a gravitacional, a eletromagn\u00e9tica, a nuclear franca e forte) agem sinergeticamente com extremo cuidado sem o qual n\u00e3o estar\u00edamos aqui refletindo sobre estas coisas.<\/p>\n<p>O cuidado representa uma rela\u00e7\u00e3o amiga da vida, protetora de todos os seres pois os v\u00ea como um valor em si mesmo, independente do uso humano. Foi a falta de cuidado para com a natureza, devastando-a, que os v\u00edrus perderam seu habitat, conservado em milhares de anos e passaram a outro animal ou ao ser humano para poder sobreviver devorando\u00a0 nossas c\u00e9lulas. O ecofeminismo trouxe uma expressiva contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o da vida e da natureza com a \u00e9tica do cuidado, desenvolvida por elas, pois o cuidado \u00e9 de todos os humanos, mas ganha especial densidade nas mulheres<\/p>\n<h3><strong>A transi\u00e7\u00e3o para a uma civiliza\u00e7\u00e3o biocentrada<\/strong><\/h3>\n<p>Toda crise faz pensar e projetar novas janelas de possibilidades. O coronav\u00edrus nos deu esta li\u00e7\u00e3o: a Terra, a natureza, a vida, em toda sua diversidade, a interdepend\u00eancia, a coopera\u00e7\u00e3o e a solidariedade devem possuir a centralidade na nova civiliza\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o quisermos ser mais atacados por v\u00edrus letais.<\/p>\n<p>Parto da seguinte interpreta\u00e7\u00e3o: n\u00e3o s\u00f3 n\u00f3s agredimos por s\u00e9culos a natureza e a M\u00e3e Terra. Agora \u00e9 a Terra ferida e a natureza devastada que est\u00e3o nos contra-atacando e fazendo sua repres\u00e1lia. S\u00e3o entes vivos e como vivos sentem e reagem \u00e0s agress\u00f5es.<\/p>\n<p>A multiplica\u00e7\u00e3o de sinais que a Terra nos enviou, a come\u00e7ar pelo aquecimento global, a eros\u00e3o da biodiversidade na ordem de 70-100 mil esp\u00e9cies por ano (estamos dentro da sexta extin\u00e7\u00e3o em massa na era do antropoceno e do necroceno) e outros eventos extremos, devem ser tomados absolutamente a s\u00e9rio e interpretados. Ou n\u00f3s mudamos nossa rela\u00e7\u00e3o para com a Terra e a natureza, num sentido de sinergia, de cuidado e de respeito ou a Terra pode n\u00e3o nos mais querer sobre sua superf\u00edcie. Desta vez n\u00e3o h\u00e1 uma arca de No\u00e9 que salva alguns e deixa perecer os outros. Ou nos salvamos todos ou engrossaremos o cortejo daqueles que rumam para a sua pr\u00f3pria sepultura.<\/p>\n<p>Quase todas as an\u00e1lises do covid-19 focaram a t\u00e9cnica, a medicina, a vacina salvadora, o isolamento social, o distanciamento e o uso de m\u00e1scaras para nos proteger e n\u00e3o contaminar os outros. Raramente se falou de natureza, pois, o v\u00edrus veio da natureza. Por que ele passou da natureza a n\u00f3s? J\u00e1 o tentamos explicar anteriormente.<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o de uma <em>sociedade capitalista<\/em> de superprodu\u00e7\u00e3o bens materiais para uma sociedade\u00a0\u00a0<em> de sustenta\u00e7\u00e3o de toda a vida<\/em> com valores humano-espirituais como a solidariedade, a compaix\u00e3o, a interdepend\u00eancia, a justa medida, o respeito e o cuidado e, n\u00e3o em \u00faltimo lugar, o o amor, n\u00e3o se far\u00e1 de um dia para o outro.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 um processo dif\u00edcil que exige, nas palavras do Papa Francisco na enc\u00edclica \u201csobre o Cuidado da Casa Comum\u201d uma \u201c<em>radical convers\u00e3o ecol\u00f3gica<\/em>\u201d. Vale dizer, devemos introduzir rela\u00e7\u00f5es de cuidado, de prote\u00e7\u00e3o e de coopera\u00e7\u00e3o. Um desenvolvimento feito com a naturezas e n\u00e3o contra a natureza.<\/p>\n<p>O sistema imperante pode conhecer uma longa agonia. Mas n\u00e3o ter\u00e1 futuro. H\u00e1 uma grande acumula\u00e7\u00e3o de cr\u00edtica e de pr\u00e1ticas humanas que sempre resistiram \u00e0 explora\u00e7\u00e3o capitalista. Segundo minha opini\u00e3o, quem o vencer\u00e1 definitivamente nem seremos s\u00f3 n\u00f3s, mas a pr\u00f3pria Terra, negando-lhe as condi\u00e7\u00f5es de sua reprodu\u00e7\u00e3o pelos limites dos bens e servi\u00e7os da Terra superpovoada.<\/p>\n<h3><strong>O novo paradigma cosmol\u00f3gico e biol\u00f3gico<\/strong><\/h3>\n<p>Para uma sociedade p\u00f3s-Covid-19 imp\u00f5e-se a assun\u00e7\u00e3o das contribui\u00e7\u00f5es do novo paradigma cosmol\u00f3gico que j\u00e1 possui um s\u00e9culo de exist\u00eancia. Lamentavelmente at\u00e9 agora n\u00e3o conseguiu conquistar a consci\u00eancia coletiva nem a intelig\u00eancia acad\u00eamica, muito menos a cabe\u00e7a dos \u201cdecisons makers\u201d pol\u00edticos parte de que tudo se originou a partir do big bang, ocorrido h\u00e1 13,7 bih\u00f5es de anos. De sua explos\u00e3o surgiram as grandes estrelas vermelhas e com a explos\u00e3o destas, as gal\u00e1xias, as estrelas, os planetas, a Terra e e n\u00f3s mesmos. Somos todos feitos do p\u00f3 c\u00f3smico.<\/p>\n<p>A Terra que j\u00e1 tem 4,3 bilh\u00f5es de anos e a vida cerca de 3,8 bilh\u00f5es de anos s\u00e3o vivos. A Terra, isso \u00e9 um dado de ci\u00eancia j\u00e1 aceito pela comunidade cient\u00edfica, n\u00e3o s\u00f3 possui viva sobre ela mas \u00e9 viva e produz toda sorte de vidas.<\/p>\n<p>O ser humano que surgiu j\u00e1 h\u00e1 uns 10 milh\u00f5es de anos h\u00e1 100 mil ano como <em>sapiens sapiens<\/em> \u00e9 a por\u00e7\u00e3o da Terra que num momento de alta complexidade come\u00e7ou a sentir, a pensar, a amar e a cuidar. Por isso homem vem de h\u00famus, terra boa.<\/p>\n<p>Inicialmente possu\u00eda uma rela\u00e7\u00e3o de <em>conviv\u00eancia<\/em> com a natureza, depois passou de <em>interven\u00e7\u00e3o<\/em> mediante a agricultura de irriga\u00e7\u00e3o e nos \u00faltimos s\u00e9culos de <em>agress\u00e3o <\/em>sistem\u00e1tica mediante a tecnoci\u00eancia. Essa agress\u00e3o foi levada a todas as frentes a ponto de colocar em risco o equil\u00edbrio da Terra e at\u00e9 uma amea\u00e7a de auto-destrui\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie humana com armas nucleares, qu\u00edmicas e biol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o de agress\u00e3o subjaz \u00e0 atual crise sanit\u00e1ria. Levada avante, a agress\u00e3o poder\u00e1 nos trazer crises mais agudas at\u00e9 aquilo que os bi\u00f3logos temem <em>The Next Big One<\/em>: aquele pr\u00f3ximo e grande v\u00edrus, inatac\u00e1vel e fatal que poder\u00e1 levar a esp\u00e9cie humana a desaparecer da face da Terra.<\/p>\n<p>Para obviar este poss\u00edvel armagedom ecol\u00f3gico, urge renovar o <em>contrato natural<\/em> violado com a Terra viva: ela nos d\u00e1 tudo o que precisamos e garante a sustentabilidade dos ecossistemas. Nos,\u00a0 contratualmente, ter\u00edamos que lhe devolver cuidado, respeito a seus ciclos e lhe damos tempo para regenerar o que lhe tiramos. Este contrato natural foi rompido por aquele estrato da humanidade (e sabemos quem \u00e9) que explora os bens e servi\u00e7os, desfloresta, contamina as \u00e1guas e os mares.<\/p>\n<p>\u00c9 decisivo renovar o contrato natural e articul\u00e1-lo com o <em>contrato socia<\/em>l: uma sociedade que se sente parte da Terra e da natureza, que assume coletivamente a preserva\u00e7\u00e3o de toda vida, mant\u00e9m em p\u00e9 suas florestas que garante a \u00e1gua necess\u00e1ria para todo tipo de vida e regenera o que foi degradado e fortalece o que j\u00e1 \u00e9 preservado.<\/p>\n<h3><strong>A import\u00e2ncia da regi\u00e3o: o bioregionalismo<\/strong><\/h3>\n<p>A ONU reconheceu a Terra como M\u00e3e Terra e a natureza como titulares de direitos. Isso implica que a democracia dever\u00e1 incorporar como novos cidad\u00e3os, as florestas, as montanhas, os rios, as paisagens. A democracia seria socio-ecol\u00f3gica.<\/p>\n<p>A vida ser\u00e1 o farol orientador e a pol\u00edtica e a economia estar\u00e3o a servi\u00e7o, n\u00e3o da acumula\u00e7\u00e3o e do mercado mas da vida. O consumo, para que seja universalizado, ser\u00e1 s\u00f3brio, frugal e solid\u00e1rio. Destarte, a sociedade seria suficiente e decentemente abastecida.<\/p>\n<p>O acento n\u00e3o se dar\u00e1 \u00e0 planetiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico-financeira que seguir\u00e1 o seu curso, mas \u00e0 regi\u00e3o. A ponta mais avan\u00e7ada da reflex\u00e3o ecol\u00f3gica atualmente se realiza em torno do <em>bio-regionalismo<\/em>.<\/p>\n<p>Tomar a regi\u00e3o, n\u00e3o como vem definida arbitrariamente pela administra\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica mas com a configura\u00e7\u00e3o que a natureza fez, com seus rios, montanhas, floresta, plan\u00edcies, fauna e flora e especialmente com os habitantes que a\u00ed moram.Na bioregi\u00e3o poder-se-\u00e1 verdadeiramente criar um desevolvimento sustent\u00e1vel que n\u00e3o seja meramente ret\u00f3rico. As empresas ser\u00e3o preferentemente m\u00e9dias e pequenas, dar-se-\u00e1 prefer\u00eancia \u00e0 agroecologia, evitar-se-\u00e3o os transportes para regi\u00f5es distantes, a cultura ser\u00e1 o cimento de coes\u00e3o: as festas, as tradi\u00e7\u00f5es, a mem\u00f3ria das pessoas not\u00e1veis, a presen\u00e7a das igrejas ou das religi\u00f5es, os v\u00e1rios tipos de escolas e outros meios modernos de difus\u00e3o de conhecimento e de encontros entre as pessoas.<\/p>\n<p>A Terra ser\u00e1 como\u00a0um mosaico feito de distintas pe\u00e7as cm cores diferentes: s\u00e3o as distintas regi\u00f5es e os ecossistemas, diversos e singulares, mas todos compondo um s\u00f3 mosaico, a Terra.<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o se far\u00e1 por processos que v\u00e3o crescendo e se articulando a n\u00edvel nacional, regional e mundial, fazendo crescer a consci\u00eancia de nossa responsabilidade coletiva de salvarmos a Casa Comum e tudo o que a ela pertence.<\/p>\n<p>A acumula\u00e7\u00e3o de nova consci\u00eancia permitir\u00e1 um salto para um outro n\u00edvel em que seremos amigos da vida, abra\u00e7aremos cada ser pois todos possu\u00edmos o mesmo c\u00f3digo gen\u00e9tico de base, desde a bact\u00e9ria origin\u00e1ria, passando pelas grandes florestas, os dinossauros, os cavalos, os beija-flores e n\u00f3s mesmo.\u00a0 Somos constru\u00eddos por 20 amino\u00e1cidos e por 4 bases nitrogenadas ou fosfatadas. Quer dizer, somos todos parentes uns dos outros numa real fraternidade terrenal.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 a civiliza\u00e7\u00e3o \u201cda felicidade poss\u00edvel\u201d e da \u201calegre celebra\u00e7\u00e3o da vida\u201d.<\/p>\n<h3><strong>Brasil, nosso sonho bom: a sua refunda\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>O Brasil, por suas riquezas ecol\u00f3gicas, geogr\u00e1ficas e populacionais, tem todas as condi\u00e7\u00f5es de come\u00e7ar a colocar os fundamentos de uma civiliza\u00e7\u00e3o biocentrada.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje vivemos na depend\u00eancias de outros centros hegem\u00f4nicos. Est\u00e1 madurando, especialmente nas bases, a ideia da refunda\u00e7\u00e3o de um outro Brasil.<\/p>\n<p>Tr\u00eas pilastras podem dar corpo a esse sonho, por mim exposto com mais detalhe no livro: <em>Brasil: concluir a refunda\u00e7\u00e3o ou prolongar a depend\u00eancia<\/em>\u201d(Vozes 2019). Sem entrar em detalhes direi:<\/p>\n<p><strong>A natureza<\/strong>, das mais ricas do planeta em biodiversidade, em florestas \u00famidas e em \u00e1gua. Podemos ser a mesa posta para as fomes e sedes do mundo inteiro.<\/p>\n<p>A <strong>cultura<\/strong> que configura a rela\u00e7\u00e3o do ser humano com a natureza e com outros seres humanos, diversa, rica em criatividade nas artes, na m\u00fasica, na arquitetura,nas dan\u00e7as e em certos ramos da ci\u00eancia, n\u00e3o obstante o racismo visceral e as amea\u00e7as \u00e0s culturas origin\u00e1rias e outras exclus\u00f5es sociais, refor\u00e7adas pela atual pol\u00edtica de ultra-direita e de vi\u00e9s fascit\u00f3ide.<\/p>\n<p><strong>O povo brasileiro<\/strong> ainda em fazimento, plasmado por gentes que vieram de 60 pa\u00edses diferentes. A cultura multi\u00e9tnica e multireligiosa, a cultura relacional, o senso l\u00fadico, a hospitalidade, a alegria de viver e sua criatividade s\u00e3o caracter\u00edsticas entre outras de nosso povo.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 a maior na\u00e7\u00e3o neolatina do mundo e temos tudo para ser a maior civiliza\u00e7\u00e3o dos tr\u00f3picos. Para essa utopia vi\u00e1vel, temos que retrabalhar no consciente e no inconsciente coletivo, as sombras que nos pesam fortemente: do etnoc\u00eddio ind\u00edgena, da coloniza\u00e7\u00e3o, da escravid\u00e3o e da domina\u00e7\u00e3o das oligarquias, herdeiras da Casa Grande e de um governo atual anti-Brasil, anti-vida e anti-povo com tra\u00e7os claros de despotismo que pretende conduzir o pa\u00eds a fases superadas pela humanidade, ao ante iluminismo, ao mundo do atraso, avesso ao saber e aos valores civilizat\u00f3rios que s\u00e3o j\u00e1 bens comuns das sociedades mundiais.<\/p>\n<p>Para terminar, tomo como refer\u00eancia a proposta do Papa Francisco, qui\u00e7\u00e1 o maior l\u00edder \u00e9tico-pol\u00edtico da humanidade. Na reuni\u00e3o com dezenas de movimentos sociais populares em 2015 ao visitar a Bol\u00edvia. Na cidade de Santa Cruz de la Sierra disse:<\/p>\n<p>Voc\u00eas t\u00eam que garantir os tr\u00eas <strong>Ts<\/strong> :<em>Terra<\/em> para morar nela e trabalhar. <em>Teto<\/em> para morar porque n\u00e3o s\u00e3o animais que vivem ao relento. <em>Trabalho <\/em> com o qual voc\u00eas se autorealizam e conquistam tudo o que precisam.<\/p>\n<p>Em seguida continuou: \u201cN\u00e3o esperem nada de cima. Pois vem sempre mais do mesmo e geralmente ainda pior. Sejam voc\u00eas mesmos os protagonistas de um novo tipo de mundo, de uma nova democracia participativa e popular, com uma economia solid\u00e1ria, com uma agroecologia com produtos s\u00e3os e livres de transg\u00eanicos. Sejam os poetas da nova sociedade.<\/p>\n<p>Lutem para que a <em>ci\u00eanci<\/em>a sirva \u00e0 <em>vida<\/em> e n\u00e3o ao mercado. Empenhem-se pela <em>justi\u00e7a social<\/em> sem a qual n\u00e3o h\u00e1 <em>paz<\/em>. Por fim, cuidem da <em>M\u00e3e<\/em> <em>Terra<\/em> sem a qual nenhum projeto ser\u00e1 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Aqui estamos diante de um programa m\u00ednimo para um novo tipo de sociedade e de humanidade.<\/p>\n<p>O futuro nos assinala que n\u00e3o iremos ao encontro do capitalismo neoliberal, embora teime em se imp\u00f4r. Ele n\u00e3o deu certo: acumulou demasiada riqueza em poucas m\u00e3os \u00e0 custa do sacrif\u00edcio de milh\u00f5es e milh\u00f5es vivendo em condi\u00e7\u00f5es sub-humanas e junto a isso devastou a maioria dos ecossistemas e colocou a Terra numa emerg\u00eancia ecol\u00f3gica.<\/p>\n<p>A travessia para uma sociedade ecologicamente sustentada com uma cultura, uma pol\u00edtica e economia compat\u00edveis \u00e9 a grande utopia vi\u00e1vel da humanidade e dos grupos progressistas do Brasil.<\/p>\n<p>Cremos e esperamos que esse sonho n\u00e3o seja uma fantasmagoria, mas uma realidade poss\u00edvel que se adequa \u00e0 l\u00f3gica do universo, feito n\u00e3o pela soma de seus corpos celestes, mas pelo conjunto das redes de suas rela\u00e7\u00f5es dentro das quais n\u00f3s tamb\u00e9m estamos envolvidos. Para citar Paulo Freire, diria: precisamos construir uma eco-sociedade na qual n\u00e3o seja t\u00e3o dif\u00edcil o amor.<\/p>\n<p>O Brasil, libertado de suas sombras hist\u00f3ricas, pode ser um embri\u00e3o da nova sociedade, una, diversa dentro da \u00fanica Casa Comum, a M\u00e3e Terra.<\/p>\n<p>_________________________________________________<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/15342-Leonardo_Boff_bio-e1517222599916.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-105405\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/15342-Leonardo_Boff_bio-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><\/em><em>Leonardo Boff \u00e9 um escritor, te\u00f3logo e fil\u00f3sofo brasileiro, professor em\u00e9rito de \u00e9tica e filosofia da religi\u00e3o da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, recebedor do <\/em><strong><em>Pr\u00eamio Nobel Alternativo da Paz<\/em><\/strong><em> do Parlamento sueco [<\/em><strong><em>Right Livelihood Award<\/em><\/strong><em>]em 2001, membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra, e professor visitante em v\u00e1rias universidades estrangeiras como Basel, Heidelberg, Harvard, Lisboa e Salamanca. Expoente da <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teologia_da_Liberta%C3%A7%C3%A3o\" >Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/a><\/em><em> no Brasil, foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. \u00c9 respeitado pela sua hist\u00f3ria de defesa pelas causas sociais e atualmente debate tamb\u00e9m quest\u00f5es ambientais. Colunista do <\/em>Jornal do Brasil<em>, escreveu os livros<\/em> Francisco de Assis: Ternura e Vigor, <em>Vozes 2000; <\/em>\u00a0A Terra na palma da m\u00e3o: uma nova vis\u00e3o do planeta e da humanidade<em>,Vozes 2016;\u00a0 <\/em>Cuidar da Terra \u2013 proteger a vida: como escapar do fim do mundo<em>, Record 2010; <\/em>\u00a0<em>A <\/em>hospitalidade: Direito e dever de todos, <em>Vozes 2005<\/em>; Paix\u00e3o de Cristo, Paix\u00e3o do Mundo<em>, Vozes 2001<\/em>; Brasil: Concluir a refunda\u00e7\u00e3o ou prolongar a depend\u00eancia, <em>Vozes 2018; <\/em><em>\u201cDestino e Desatino da Globaliza\u00e7\u00e3o\u201d em<\/em><em>: Do iceberg \u00e0 Arca de No\u00e9,<\/em><em> Mar de Ideias, Rio 2010 pp. 41-63.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/leonardoboff.org\/2020\/06\/19\/a-transicao-ecologica-para-uma-sociedade-biocentrada\/\" >Go to Original \u2013 leonardoboff.wordpress.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>19 jun 2020 &#8211; Cientistas j\u00e1 advertiram que poderemos, dentro de pouco, sofrer com um ataque ainda mais feroz, caso n\u00e3o tenhamos aprendido a li\u00e7\u00e3o de cuidar da natureza e de desenvolver uma rela\u00e7\u00e3o amig\u00e1vel para com a M\u00e3e Terra. Elenco aqui algumas alternativas, pois os senhores do capital e das finan\u00e7as est\u00e3o numa furiosa articula\u00e7\u00e3o entre eles para salvaguardar seus interesses, fortunas e poder de press\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":105405,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[1829,1868,519,401,618,380],"class_list":["post-163280","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-original-languages","tag-coronavirus","tag-covid-19","tag-ecology","tag-environment","tag-gaia","tag-solutions"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/163280","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=163280"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/163280\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media\/105405"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=163280"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=163280"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=163280"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}