{"id":16515,"date":"2011-12-26T12:00:05","date_gmt":"2011-12-26T12:00:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=16515"},"modified":"2011-12-22T01:40:30","modified_gmt":"2011-12-22T01:40:30","slug":"portuguese-che-guevara-de-ernestito-ao-homem-do-seculo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2011\/12\/portuguese-che-guevara-de-ernestito-ao-homem-do-seculo\/","title":{"rendered":"(Portuguese) Che Guevara: De Ernestito ao Homem do S\u00e9culo"},"content":{"rendered":"<p><em>Um homem que cresce, cresce e cresce. E mesmo depois de morto n\u00e3o para de crescer.<\/em><\/p>\n<p>Em 1933, no pequeno munic\u00edpio de Alta Garcia, prov\u00edncia de C\u00f3rdoba na Argentina, Carlos \u201cCalica\u201d Ferrer Zorrilla de quatro anos foi apresentado por seus pais a um amigo de cinco que marcaria para sempre a sua vida, e mais tarde a hist\u00f3ria de toda humanidade: Ernesto Guevara de La Serna, ou apenas Ernestito como era chamado. Como dizia um amigo em comum, Guevara e Calica foram reunidos pelo bacilo de Koch, que provoca asma. No ano de 1932, a fam\u00edlia Guevara mudou- se para a regi\u00e3o serrana em busca de al\u00edvio para o problema respirat\u00f3rio do pequeno Ernesto.<\/p>\n<p>Em seu livro <strong>\u201cDe Ernesto a Che\u201d \u2013 A segunda e \u00faltima viagem de Guevara pela Am\u00e9rica Latina<\/strong>, Calica conta que n\u00e3o se lembra quando conheceu o amigo. Mas com certeza deve ter sido em um dos t\u00edpicos anivers\u00e1rios infantis a que nossas m\u00e3es nos devem ter arrastado, depois de lavados, engomados e emperiquitados como era costume naquele tempo. Com certeza, devem ter dito a Guevara: &#8220;Venha, voc\u00ea vai conhecer o filho do doutor Ferrer, o m\u00e9dico que o atendeu; quem sabe se tornam amigos\u201d.<\/p>\n<p>Na conservadora e provinciana cidade de Alta Garcia, al\u00e9m da asma, os Guevara e os Ferrer tornaram-se pr\u00f3ximos por compartilharem vis\u00f5es progressistas sobre diferentes assuntos e simpatizar ideologicamente com o socialismo cl\u00e1ssico. Um exemplo das posi\u00e7\u00f5es que compartilhavam, estava relacionada \u00e0 situa\u00e7\u00e3o da Espanha na d\u00e9cada de 1930. Ambas as fam\u00edlias declaravam apoio incondicional \u00e0 nova Rep\u00fablica que havia se instalado no pa\u00eds, que logo se explodiria em uma guerra civil e por, consequ\u00eancia, na ditadura fascista de Francisco Franco.<\/p>\n<p>Assim, brincando e brigando como qualquer par de amigos, cresceram juntos. E em 7 de julho 1953, os amigos partiram em uma viagem pela Am\u00e9rica Latina (descrita no livro de Calica).<\/p>\n<p>A viagem, a segunda pelo continente de Ernesto, acabaria transformando o amigo de Calica no Comandante Che Guevara. \u201cMas quando viajamos, Ernesto n\u00e3o sabe que vai chegar a ser Che, isso \u00e9 uma coisa que \u00e9 preciso ter cuidado para n\u00e3o super dimension\u00e1-lo. Para n\u00e3o tir\u00e1-lo da realidade. Che \u00e9 um homem de carne e osso. E quando era crian\u00e7a, adolescente e jovem fez as travessuras que faz qualquer ser humano\u201d.<\/p>\n<p>O escritor acompanhou de perto as transforma\u00e7\u00f5es do amigo. Pode conhec\u00ea- lo intimamente. &#8220;Haver estado viajando com ele por muitas horas, ombro a ombro, e comentar e conversar. Acompanhar e entender. O importante \u00e9 que Che, por ser muito inteligente, foi captando o que ia acontecendo e foi armando um plano em sua mente. Ele percebeu que pelo caminho convencional n\u00e3o conseguiria nada e que era o momento das armas. A Am\u00e9rica Latina, quando n\u00f3s est\u00e1vamos viajando, era um lugar de ditadores: Somoza, Papa Doc, Trujillo, Batista&#8230; Era gente que os norte-americanos manipulavam f\u00e1cil, e assim quando manipulavam um homem, comandavam um pa\u00eds. Ernesto foi desenvolvendo at\u00e9 conhecer Fidel. E depois de Fidel, sim, Ernesto se torna Che\u201d.<\/p>\n<p>Na forma\u00e7\u00e3o de Che, Calica destaca uma pessoa importante. \u201cEu digo que a sua melhor prepara\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 a partir do momento em que ele conhece a sua primeira mulher, Hilda Gadea. Uma mulher que era intelectualmente muito preparada, que realmente o colocou no marxismo. A partir da\u00ed, Ernesto passa a perceber qual pode ser a forma de encarar as coisas para come\u00e7ar o que tinha de ser feito imediatamente: reunir doze tipos para fazer uma revolu\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>Ecos<\/strong><\/p>\n<p>Quarenta e quatro anos depois de sua morte, ainda parece imposs\u00edvel dimensionar o personagem hist\u00f3rico Ernesto \u201cChe\u201d Guevara. Calica cita um outro amigo pessoal de Guevara, o ex-ministro cubano Orlando Borrego, para ajudar a sintetizar a falta de propor\u00e7\u00e3o. \u201cA biografia de Che ainda n\u00e3o est\u00e1 escrita. Todas as boas verdades v\u00e3o se somando pra que ela seja escrita. \u00c9 Fant\u00e1stico imaginar que a vida de um homem de 39 anos, depois de tantas coisas escritas, ainda n\u00e3o se pode condensar o que foi\u201d.<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o do amigo, quando triunfa a revolu\u00e7\u00e3o, Che se consolida como a figura forte, jovem e revolucion\u00e1ria. \u201c\u00c9 importante destacar a idade que tinha. Aos 32 anos era o primeiro comandante. Depois foi Ministro. Instituiu f\u00e1bricas, col\u00e9gios, foi educador. Foi embaixador itinerante da revolu\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Uma outra defini\u00e7\u00e3o lembrada por Calica \u00e9 a do comandante cubano. Em poucas palavras, Fidel Castro definiu Che como um personagem que soube despertar uma chama de insurg\u00eancia e de justi\u00e7a dos latino-americanos e que depois se recorre a outras lugares.<\/p>\n<p><strong>Carne, osso e mito<\/strong><\/p>\n<p>Calica carrega consigo as duas vis\u00f5es de Che, uma de seu amigo e a outra do mito. \u201c\u00c9 uma quest\u00e3o de evolu\u00e7\u00e3o de um amigo que cresce, que cresce, que cresce. E que mesmo depois de morto se engrandece ainda mais. Por um lado, me sinto feliz que assim seja. Dei-me conta que seu exemplo e sua morte tiveram um destino \u00fatil para humanidade.\u201d<\/p>\n<p>Para Calica, mesmo os seus opositores, em sua maioria e de alguma forma, respeitam o revolucion\u00e1rio. \u201cDas pessoas, digamos mais indiferentes, em geral pelo menos reconhecem em Che um homem muito valente, que deu sua vida por um ideal. J\u00e1 os que fazem uma cr\u00edtica implac\u00e1vel como a que sai da cabe\u00e7a de M\u00e1rio Vargas Llosa, que por exemplo vai ao jornal mais conservador da Argentina, La Naci\u00f3n, e publica disparates rid\u00edculos, creio que estes n\u00e3o tenham efeito. \u00c9 t\u00e3o contundente o peso de Che, que para seus detratores n\u00e3o h\u00e1 muitos argumentos\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de escritor, Calica se dedica a estudar e divulgar a mem\u00f3ria do her\u00f3i da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana. Por alguns anos, durante as d\u00e9cadas de 1970,1980 e 1990, a imagem de Che esteve \u201capagada\u201d em seu pa\u00eds de origem. Calica explica que anos de ditadura seguido de anos do governo Carlos Menem foram fundamentais para este quase lapso de mem\u00f3ria \u201cPrimeiro uma ditadura. Depois o medo que ela deixou de a qualquer momento um milico se levantar e novamente assassinar mais 30 mil pessoas. Ent\u00e3o as pessoas n\u00e3o falavam muito de Che. Por fim, \u00e9 preciso entender que os 10 anos de [Carlos] Menem, se n\u00e3o foram t\u00e3o tr\u00e1gicos, foram t\u00e3o ruins quanto a ditadura.\u00a0Vendeu-se e privatizou-se tudo. N\u00e3o era um ambiente prop\u00edcio para pensar que Che poderia ter mais homenagens.\u201d Apesar das ditaduras e dos governos liberais, Calica entende que na Am\u00e9rica Latina de hoje a luta do revolucion\u00e1rio continua tendo reflexos. \u201cPor exemplo, quando falei com Che sobre ir \u00e0 Bol\u00edvia disse: \u2018N\u00e3o! Bol\u00edvia, n\u00e3o\u2019. Porque ali observei um ind\u00edgena manso, castigado.\u00a0E ele pensou o contr\u00e1rio. E a prova est\u00e1 que, pela primeira vez na hist\u00f3ria da Bol\u00edvia, \u00e0 frente est\u00e1 um ind\u00edgena de esquerda. Que pode n\u00e3o ser o ideal, mas que \u00e9 parte de todo um processo que est\u00e1 ocorrendo na Am\u00e9rica. Incluindo Venezuela, Equador&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Das tantas produ\u00e7\u00f5es, \u201cDi\u00e1rios de Motocicleta\u201d de Walter Salles e \u201cChe\u201d partes 1 e 2 de Steven Soderbergh s\u00e3o citados por Calica como bons filmes a respeito do amigo. No entanto, ele diz que n\u00e3o s\u00e3o poucas as vezes que escuta, l\u00ea e v\u00ea bobagens. \u201cTenho escutado cada mentira, que muitas vezes tenho que intervir.\u201d<\/p>\n<p>Com orgulho e saudade, Calica fala do amigo. Mas se perguntado sobre uma autobiografia sua ele responde \u201cVeja bem, se voc\u00ea conhecesse um amigo de Karl Marx, iria querer saber sobre Marx. N\u00e3o sobre o seu amigo\u201d.<em><\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.brasildefato.com.br\/content\/de-ernestito-ao-homem-do-s%C3%A9culo\" >Go to Original \u2013 brasildefato.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em seu livro \u201cDe Ernesto a Che\u201d \u2013 A segunda e \u00faltima viagem de Guevara pela Am\u00e9rica Latina, Calica conta que n\u00e3o se lembra quando conheceu o amigo. Mas com certeza deve ter sido em um dos t\u00edpicos anivers\u00e1rios infantis a que nossas m\u00e3es nos devem ter arrastado, depois de lavados, engomados e emperiquitados como era costume naquele tempo. Com orgulho e saudade, Calica fala do amigo. Mas se perguntado sobre uma autobiografia sua ele responde \u201cVeja bem, se voc\u00ea conhecesse um amigo de Karl Marx, iria querer saber sobre Marx. 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