{"id":17626,"date":"2012-02-27T12:00:14","date_gmt":"2012-02-27T12:00:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=17626"},"modified":"2012-02-25T15:07:00","modified_gmt":"2012-02-25T15:07:00","slug":"portuguese-metadona-uma-ilusao-cara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2012\/02\/portuguese-metadona-uma-ilusao-cara\/","title":{"rendered":"(Portuguese) Metadona: Uma Ilus\u00e3o Cara"},"content":{"rendered":"<p>Marco Magalh\u00e3es*, de Portim\u00e3o [Portugal], chefe de mesa em barcos de cruzeiro, hoje com 42 anos, injectou hero\u00edna pela primeira vez aos 19. Ap\u00f3s duas d\u00e9cadas a consumir as chamadas drogas duras, j\u00e1 precisava de cerca de 40 contos por dia para alimentar o seu v\u00edcio, o que o levava a roubar e passar droga. Foi preso tr\u00eas vezes. Querendo sair da vida que levava, e depois de ter experimentado v\u00e1rios tipos de tratamentos, dirigiu-se a um Centro de Atendimento a Toxicodependentes (CAT)** em busca de aux\u00edlio. L\u00e1, foi-lhe dada metadona, medicamento que deveria tomar uma vez por dia para eliminar os sintomas da falta de hero\u00edna. \u00abDeixar\u00e1 de injectar hero\u00edna e passar\u00e1 a levar uma vida normal\u00bb, disse-lhe o m\u00e9dico. \u00abAssim poder\u00e1 ser reintegrado na sociedade.\u00bb<\/p>\n<p>Por\u00e9m, incapaz de esquecer a sensa\u00e7\u00e3o de euforia que a hero\u00edna lhe provocava, Marco recome\u00e7ou a injectar-se diariamente e a \u00abcheirar\u00bb coca\u00edna. Assim, tomava metadona juntamente com outras subst\u00e2ncias opi\u00e1ceas. Casos como os de Marco n\u00e3o s\u00e3o raros. Todos os dias, aproximadamente 5000 toxicodependentes recebem doses gratuitas de metadona \u2014 um medicamento opi\u00e1ceo legalizado \u2014 nos CAT, centros de sa\u00fade, hospitais, estabelecimentos prisionais e em 71 farm\u00e1cias de todo o pa\u00eds. \u00abComo as tomas de metadona s\u00e3o di\u00e1rias, temos procurado que o produto esteja dispon\u00edvel o mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel dos consumidores\u00bb, explica Jo\u00e3o Goul\u00e3o, presidente do conselho de administra\u00e7\u00e3o do Servi\u00e7o de Preven\u00e7\u00e3o e Tratamento de Toxicodepend\u00eancia (SPTT), o organismo respons\u00e1vel pelo programa de metadona.<\/p>\n<p>O CAT da Boavista \u00e9 o \u00fanico a aplicar os tr\u00eas programas de metadona existentes: o programa de Alto Limiar, o de Manuten\u00e7\u00e3o e o de Baixo Limiar. Este \u00faltimo destina-se aos toxicodependentes f\u00edsica e psicologicamente incapacitados e sem retaguarda familiar, sendo um programa inicialmente de baixo limiar na exig\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos consumos. \u00abA metadona, para alguns casos, \u00e9 um pretexto para que o doente procure e se mantenha ligado a uma institui\u00e7\u00e3o de sa\u00fade\u00bb, explica Elsa Viegas, m\u00e9dica psiquiatra e directora do CAT da Boavista, no Porto. \u00abEstabelecendo uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a, podemos \u2018estar l\u00e1\u2019 atempadamente, diminuindo os danos aos pr\u00f3prios, aos seus filhos \u2014 durante a gravidez, por exemplo \u2014 e \u00e0 sociedade de uma forma geral.\u00bb No programa de Manuten\u00e7\u00e3o, procura-se que o toxicodependente estabilize do ponto de vista emocional, f\u00edsico e social, trabalhando a motiva\u00e7\u00e3o para o tratamento, a responsabiliza\u00e7\u00e3o e a autonomia, com o objectivo de passar para um programa de alto limiar de exig\u00eancia. O programa de Alto Limiar tem como objectivo a desabitua\u00e7\u00e3o da metadona e a alta do programa.<\/p>\n<p>Convencido de que, ao substituir a hero\u00edna pela metadona administrada oralmente, os toxicodependentes conseguem parar de consumir drogas ilegais e levar vidas normais, sem infrac\u00e7\u00f5es \u00e0 lei, o Estado aumentou o n\u00famero de pacientes submetidos ao \u00abprograma de metadona\u00bb, desde que esta subst\u00e2ncia come\u00e7ou a ser administrada legalmente, em 1977. Segundo Jo\u00e3o Goul\u00e3o, em 1995, havia 1100 toxicodependentes a tomar metadona. Em finais de 1998, este n\u00famero aumentou para 4000 e, actualmente, s\u00e3o cerca de 5000.<\/p>\n<p>O SPTT prev\u00ea que o consumo de metadona aumente substancialmente este ano em rela\u00e7\u00e3o ao anterior, que foi de 90 kg, tendo em conta a expans\u00e3o que os programas t\u00eam tido desde que foram implantados em todo o pa\u00eds. Em 1999, esta pol\u00edtica custou aos contribuintes portugueses 70 000 contos, isto \u00e9, uma despesa m\u00e9dia de 14 contos por doente.<\/p>\n<p>Uma das principais justifica\u00e7\u00f5es para o alargamento deste programa \u00e9 a de que a metadona \u00e9 considerada mais eficaz no controle dos custos pessoais, familiares e sociais. No entanto, segundo Jo\u00e3o Goul\u00e3o, \u00e9 quase imposs\u00edvel saber os custos de uma reabilita\u00e7\u00e3o com metadona. \u00abSe, na maioria dos casos, \u00e9 poss\u00edvel promover uma desabitua\u00e7\u00e3o f\u00edsica atrav\u00e9s do ambulat\u00f3rio e no seio da fam\u00edlia, outras situa\u00e7\u00f5es h\u00e1 em que \u00e9 necess\u00e1rio internamento, por exemplo, nas Comunidades Terap\u00eauticas\u00bb, afirma.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m Elsa Viegas afirma que o tratamento com metadona n\u00e3o se limita \u00e0 prescri\u00e7\u00e3o e administra\u00e7\u00e3o deste f\u00e1rmaco. \u00abExige um trabalho multidisciplinar, com psicoterapia, socioterapia e articula\u00e7\u00e3o permanente com os centros de sa\u00fade, os servi\u00e7os de infecciosas, a seguran\u00e7a social, o instituto de emprego, as juntas de freguesia e as comiss\u00f5es de moradores, para garantir a melhoria da qualidade de vida do doente\u00bb, diz.<\/p>\n<p>Por outro lado, alguns estudos t\u00eam vindo a mostrar que a substitui\u00e7\u00e3o de uma subst\u00e2ncia opi\u00e1cea por outra n\u00e3o ajuda necessariamente os toxicodependentes a deixar de consumir drogas duras. No Centro de Acolhimento do Casal Ventoso, em Lisboa, an\u00e1lises toxicol\u00f3gicas efectuadas, em final de Novembro de 1999, a 186 pacientes submetidos ao programa de metadona de Baixo Limiar, revelaram que 41% continuavam a consumir hero\u00edna e coca\u00edna, 11% apenas coca\u00edna e 4% s\u00f3 hero\u00edna. Tamb\u00e9m as an\u00e1lises toxicol\u00f3gicas efectuadas no CAT das Taipas, em Lisboa, no final do ano passado, a 274 pacientes que seguiam o mesmo programa, revelaram que 12,04% continuavam a consumir hero\u00edna, pelo menos ocasionalmente, e 6,2%, coca\u00edna.<\/p>\n<p>\u00c0 semelhan\u00e7a da hero\u00edna, a metadona \u00e9 um medicamento opi\u00e1ceo que funciona atrav\u00e9s da activa\u00e7\u00e3o dos receptores de narc\u00f3ticos do c\u00e9rebro, despertando um conjunto de efeitos f\u00edsicos que incluem a redu\u00e7\u00e3o das dimens\u00f5es das pupilas, respira\u00e7\u00e3o pouco profunda, al\u00edvio das dores e sensa\u00e7\u00e3o de bem-estar.<\/p>\n<p>Mas quando o efeito da droga passa, as pessoas dependentes sofrem de sintomas de priva\u00e7\u00e3o menos intensos mas mais prolongados do que com a hero\u00edna, tais como febre, arrepios de frio, espirros, dores abdominais e musculares dos membros, ansiedade intensa, v\u00f3mitos e dores de cabe\u00e7a. \u00abComo com qualquer outro opi\u00e1ceo ou seu derivado, quando o efeito da metadona passa, surge uma s\u00edndroma de priva\u00e7\u00e3o\u00bb, refere Jos\u00e9 Manuel Jacob Rom\u00e3o, enfermeiro no CAT de Beja. Que o diga Lu\u00edsa Francisco*, de 35 anos, de Vila Nova de Gaia. Em Mar\u00e7o de 1993, tentou deixar de consumir metadona, recorrendo a um centro de recupera\u00e7\u00e3o. \u00abA \u2018ressaca\u2019 da metadona \u00e9 muito pior do que a das outras drogas, pois \u00e9 mais prolongada e muito intensa\u00bb, afirma Lu\u00edsa, que consumiu metadona durante mais de 10 anos.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras drogas \u00e9 que a metadona evita os sintomas de priva\u00e7\u00e3o durante mais tempo. Enquanto a sensa\u00e7\u00e3o provocada pela hero\u00edna pode durar entre 2 a 8 horas, a dose de metadona adaptada retira o sofrimento por um per\u00edodo de 24 horas, e n\u00e3o provoca euforia como a hero\u00edna. \u00abOs toxicodependentes deixam de ter ansiedade de consumir hero\u00edna ou de cometer actos il\u00edcitos para financiar o seu v\u00edcio, o que contribui para a diminui\u00e7\u00e3o da criminalidade\u00bb, explica Rodrigo Coutinho, m\u00e9dico psiquiatra e coordenador do Gabinete de Apoio ao Toxicodependente (GAT) do Casal Ventoso, em representa\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o de Recupera\u00e7\u00e3o de Toxicodependentes, Ares do Pinhal, na Aldeia de Eiras, junto a Ma\u00e7\u00e3o. \u00abComo possibilita a manuten\u00e7\u00e3o de um estado de consci\u00eancia permanente, conseguem manter os seus empregos e sustentar as suas fam\u00edlias, ou seja, viver em sociedade como qualquer outra pessoa que n\u00e3o seja dependente de drogas.\u00bb<\/p>\n<p>Administrada por via oral, a metadona tamb\u00e9m dissuade os dependentes de hero\u00edna de consumir esta droga, reduzindo assim o n\u00famero de injec\u00e7\u00f5es e o risco de virem a ser contaminados pelo v\u00edrus HIV ou pelos da hepatite B e C (que atacam o f\u00edgado e s\u00e3o potencialmente fatais), transmiss\u00edveis pelo sangue das seringas partilhadas. Al\u00e9m disso, enquanto os dependentes em hero\u00edna se arriscam a morrer de overdose por consumirem droga de m\u00e1 qualidade vendida nas ruas, cuja pureza e pot\u00eancia s\u00e3o desconhecidas, a metadona \u00e9 um narc\u00f3tico puro, receitado pelos m\u00e9dicos em quantidades espec\u00edficas para cada caso. \u00abApenas o m\u00e9dico pode receitar este opi\u00e1ceo\u00bb, refere Lu\u00eds Duarte Patr\u00edcio, m\u00e9dico psiquiatra e director do CAT das Taipas. \u00abTomada de acordo com a prescri\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, a metadona \u00e9 t\u00e3o segura como qualquer outro medicamento.\u00bb<\/p>\n<p>No entanto, uma overdose de metadona pode ser fatal, tal como acontece com a hero\u00edna, embora no nosso pa\u00eds n\u00e3o haja conhecimento da ocorr\u00eancia de nenhum caso. \u00abSubst\u00e2ncias como os tranquilizantes, o \u00e1lcool, os psicotr\u00f3picos e os depressivos podem potenciar o efeito da metadona\u00bb, comenta Jos\u00e9 Jacob Rom\u00e3o. \u00abE, em certos casos, dependendo da dose, a mistura de metadona com hero\u00edna, pode resultar em overdose.\u00bb<\/p>\n<p>Enquanto alguns te\u00f3ricos insistem que n\u00e3o existem provas de que a metadona seja mais viciante que a hero\u00edna, embora possa produzir uma s\u00edndroma de abstin\u00eancia com sintomas mais intensos, os consumidores desta subst\u00e2ncia afirmam o contr\u00e1rio. Ana Margarida Lopes*, da Amadora, come\u00e7ou a consumir hero\u00edna aos 16 anos. Hoje, com 37, est\u00e1 inserida num programa de manuten\u00e7\u00e3o de metadona h\u00e1 mais de um ano, mas a possibilidade de vir a parar de tom\u00e1-la ainda \u00e9 remota. Ana Margarida tem conseguido organizar a sua vida. Parou de injectar-se com hero\u00edna e, em Setembro \u00faltimo, recome\u00e7ou os estudos no liceu. As rela\u00e7\u00f5es com o companheiro, a fam\u00edlia e os amigos melhoraram substancialmente, mas continua dependente de uma subst\u00e2ncia e, por isso, o seu futuro \u00e9 uma inc\u00f3gnita: poder\u00e1 sair do programa de metadona brevemente, daqui a uns anos \u2014 ou nunca.<\/p>\n<p>\u00abOs benef\u00edcios atribu\u00eddos \u00e0 metadona s\u00e3o de certo modo exagerados, uma vez que n\u00e3o \u00e9 um caminho para uma recupera\u00e7\u00e3o, mas uma alternativa\u00bb, refere Marcelo Cunha, psicoterapeuta na \u00e1rea da toxicodepend\u00eancia e do alcoolismo, e director do CRETA \u2014 Centro de Recupera\u00e7\u00e3o para Toxicodependentes e Alco\u00f3licos, na Parede. Porque ser\u00e1 ent\u00e3o que a metadona \u00e9 t\u00e3o amplamente receitada? Porque o Estado optou por um plano que, segundo o relat\u00f3rio anual do GAT do Casal Ventoso, de 1999, \u00abprivilegia mais a interven\u00e7\u00e3o nas consequ\u00eancias do consumo de subst\u00e2ncias do que a paragem dos seus consumos\u00bb. \u00c9 a chamada pol\u00edtica da redu\u00e7\u00e3o de riscos e minimiza\u00e7\u00e3o de danos.<\/p>\n<p>Assim, o governo aceita que o consumo de droga \u00e9 uma realidade, e que o dinheiro destinado a parar a dissemina\u00e7\u00e3o das drogas \u00e9 melhor empregue na melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida e sa\u00fade dos toxicodependentes. \u00abComo existem casos em que h\u00e1 uma impossibilidade por parte do toxicodependente em abandonar o consumo, opta-se por um programa de substitui\u00e7\u00e3o opi\u00e1cea, em que o toxicodependente vai tomando a metadona at\u00e9 decidir, conjuntamente com o m\u00e9dico que o acompanha, que est\u00e1 preparado para larg\u00e1-la\u00bb, diz o psiquiatra e psicoterapeuta Fernando Mendes Coelho, director do CAT da Amadora.<\/p>\n<p>A metadona come\u00e7ou a ser utilizada em Portugal em 1977, no Centro de Estudo e Prolifaxia da Droga, delega\u00e7\u00e3o do Norte, o que \u00e9 hoje o CAT da Boavista, no Porto. At\u00e9 por volta de 1990, apenas estava dispon\u00edvel nesse centro. \u00abFoi, ent\u00e3o, que come\u00e7\u00e1mos com outras experi\u00eancias em outras zonas do pa\u00eds, nomeadamente no Algarve, para dar resposta a indiv\u00edduos de outras nacionalidades, que estavam a fazer programas de metadona nos seus pa\u00edses\u00bb, diz Jo\u00e3o Goul\u00e3o, na altura respons\u00e1vel pelo CAT do Algarve, em Olh\u00e3o. \u00abA partir da\u00ed, a utiliza\u00e7\u00e3o do produto foi-se alastrando progressivamente para os outros CAT do pa\u00eds. Desde o princ\u00edpio, que os programas que envolvem a metadona s\u00e3o custeados pelo Estado.\u00bb<\/p>\n<p>Para conhecer de perto o programa da metadona, visitei o GAT do Casal Ventoso, onde funciona apenas o programa de Baixo Limiar. Esta unidade conta com 13 empregados a tempo inteiro e trata de cerca de 200 pacientes. Aqui, os toxicodependentes respeitam as condi\u00e7\u00f5es de tratamento pela metadona, com an\u00e1lises toxicol\u00f3gicas \u00e0 urina, para se fazer o ponto da situa\u00e7\u00e3o do tratamento. \u00abO nosso objectivo priorit\u00e1rio \u00e9 manter os utentes ligados a este servi\u00e7o, para que possam depois ser encaminhados para um Centro de Acolhimento ou para um CAT, onde o n\u00edvel de exig\u00eancias \u00e9 maior\u00bb, refere Rodrigo Coutinho, o seu coordenador. \u00abA\u00ed, por exemplo, t\u00eam de ir \u00e0s entrevistas com o apoio psico-social para definirem um projecto de vida.\u00bb<\/p>\n<p>Mas, neste n\u00edvel, a metadona n\u00e3o faz que os toxicodependentes deixem de consumir outras drogas, nem que sejam expulsos do programa por causa disso. Carlos Borges*, um toxicodependente de 30 anos, cal\u00e7as de ganga e blus\u00e3o amarelo, estava sentado numa marquesa. Era o seu primeiro dia de tratamento. J\u00e1 tinha vindo a este GAT quando engoliu uma agulha enquanto preparava uma dose de hero\u00edna. Uma enfermeira falou-lhe ent\u00e3o da metadona e ele aceitou aderir ao programa. Filipa Alcobia, a enfermeira de servi\u00e7o, verteu para um copo de pl\u00e1stico 40 mg de metadona, juntou-lhe \u00e1gua e entregou-o ao Carlos. Este bebeu lentamente o conte\u00fado, e foi-se embora.<\/p>\n<p>Mais tarde, a enfermeira disse-me que Carlos estivera, nesse pr\u00f3prio dia, a injectar-se com hero\u00edna, certamente algumas horas antes de l\u00e1 ir. Ent\u00e3o, porque d\u00e3o metadona aos utentes que consomem outras drogas? \u00abPara evitar que consumam ainda mais hero\u00edna\u00bb, explicou Filipa Alcobia. Um problema ao qual \u00e9 preciso estar atento \u00e9 o poss\u00edvel aparecimento de um mercado negro de metadona, que entre outras formas pode ser alimentado pelo desvio dos takeaways, um conjunto de v\u00e1rias doses que determinados toxicodependentes podem levar consigo dos CAT. A decis\u00e3o de atribuir takeaways aos consumidores depende de h\u00e1 quanto tempo seguem o programa e deixaram completamente de consumir drogas. \u00abAs doses que determinados doentes levam para casa d\u00e3o somente para uma semana e s\u00e3o sempre entregues a um familiar ou respons\u00e1vel pelo doente\u00bb, explica Jo\u00e3o Goul\u00e3o. De referir que, vendido na rua, o pre\u00e7o de um frasco de 30 ml de metadona pode custar cerca de 10 contos.<\/p>\n<p>O facto de se poder levar doses de metadona para casa pode ter consequ\u00eancias graves: no ano passado, uma crian\u00e7a de 3 anos tomou inadvertidamente metadona e teve de ser assistida nas urg\u00eancias do hospital de Dona Estef\u00e2nia. O frasco pertencia a um familiar que estava num programa de substitui\u00e7\u00e3o, e a crian\u00e7a, n\u00e3o sabendo que l\u00edquido era aquele, ingeriu-o. O SPTT, ao tomar conhecimento deste caso, passou a distribuir os takeaways em frascos com fecho de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o de Ant\u00f3nio Vieira da Rocha, director do Crato \u2014 Centro de Recupera\u00e7\u00e3o do Alcoolismo e da Toxicodepend\u00eancia, no Porto, \u00abos tratamentos contra h\u00e1bitos de consumo de opi\u00e1ceos, em que se recorre a outros estupefacientes do mesmo tipo, n\u00e3o funcionam, embora possa haver excep\u00e7\u00f5es\u00bb. Por\u00e9m, o Estado n\u00e3o desiste deste tipo de tratamentos, pelo que existem outros estupefacientes viciantes para combater a depend\u00eancia da hero\u00edna, como o LAAM e outros. \u00abEstes medicamentos s\u00e3o t\u00e3o ou mais viciantes que a pr\u00f3pria hero\u00edna\u00bb, acrescenta Vieira da Rocha. \u00abA \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que o LAAM tem um efeito ainda mais prolongado que o da metadona.\u00bb<\/p>\n<p>V\u00e1rios especialistas defendem a teoria de que a \u00fanica op\u00e7\u00e3o que d\u00e1 aos toxicodependentes uma esperan\u00e7a de virem a ter uma vida normal \u00e9 deixarem de consumir qualquer tipo de droga. E a melhor maneira de o conseguirem, segundo especialistas como Ant\u00f3nio Correia, director terap\u00eautico da RAN \u2014 Recupera\u00e7\u00e3o de Alco\u00f3licos e Narc\u00f3ticos, de Vila Real, \u00ab\u00e9 a reabilita\u00e7\u00e3o a longo prazo, durante a qual os pacientes recebem aconselhamento sobre os problemas que os levaram a refugiar-se na droga\u00bb.<\/p>\n<p>De acordo com o psicoterapeuta Marcelo Cunha, \u00aba maioria dos toxicodependentes sofre de falta de auto-estima e dar-lhes metadona s\u00f3 por si \u00e9 um procedimento que em nada atacar\u00e1 a origem dessa mesma falta de auto-estima\u00bb. No Centro de Recupera\u00e7\u00e3o Creta, os pacientes seguem o modelo Minesota. Vivem conjuntamente com outros toxicodependentes por um per\u00edodo de 12 semanas. Depois, t\u00eam um acompanhamento psicol\u00f3gico durante 9 meses. \u00abAssim que aprendem a lidar com os seus sentimentos, muitos deles deixam de sentir necessidade de voltar a consumir drogas\u00bb, afirma Marcelo Cunha. Embora o m\u00e9todo aplicado no Creta nem sempre tenha sucesso \u2014 anualmente, cerca de 70% deixam definitivamente a droga e 30% acabam por voltar a consumir estupefacientes. Marcelo Cunha faz uma distin\u00e7\u00e3o entre as duas formas de tratamento. \u00abA metadona trata das consequ\u00eancias do consumo, n\u00f3s tratamos das causas do consumo\u00bb, refere. \u00abCom o nosso m\u00e9todo, mais de dois ter\u00e7os ficam limpos.\u00bb<\/p>\n<p>Segundo Elsa Viegas, no CAT da Boavista, em 1998, dos 593 doentes em tratamento de substitui\u00e7\u00e3o com metadona, 430 transitaram para o ano de 1999. Dos 160 toxicodependentes que nesse ano sa\u00edram do programa de metadona, 45% tiveram alta, 20% faleceram (por sida, hepatites e outras doen\u00e7as), 17,5% foram transferidos para os CAT da \u00e1rea de resid\u00eancia e 13% abandonaram o programa. O ideal seria que houvesse tratamentos em que n\u00e3o fossem usadas outras subst\u00e2ncias suscept\u00edveis de vir a criar depend\u00eancia, como os programas de metadona, que custam milh\u00f5es de escudos aos contribuintes portugueses. Eis o que poderia ser feito:<\/p>\n<p>\u2022 Aumentar o financiamento ou as conven\u00e7\u00f5es aos programas de reabilita\u00e7\u00e3o com base na abstin\u00eancia, de forma a que estes se tornem a primeira op\u00e7\u00e3o de tratamento dos toxicodependentes, e n\u00e3o uma op\u00e7\u00e3o remota por falta de meios financeiros ou, ainda, por falta de vaga em determinado centro de recupera\u00e7\u00e3o. Na opini\u00e3o de Fernando Mendes Coelho, \u00abainda h\u00e1 falta de Centros de Desabitua\u00e7\u00e3o comparticipados pelo Estado, e tamb\u00e9m do pr\u00f3prio Estado\u00bb.<\/p>\n<p>\u2022 A prazo, reinstaurar a abstin\u00eancia como objectivo para os actuais consumidores de metadona. Fazer cumprir de uma forma r\u00edgida a proibi\u00e7\u00e3o do consumo de outras drogas ilegais durante o tratamento com metadona e controlar os takeaways para evitar trag\u00e9dias e erradicar o mercado negro.<\/p>\n<p>\u2022 Al\u00e9m de ensinar as pessoas como consumir drogas com seguran\u00e7a, devia-se educ\u00e1-las sobre os seus perigos e incentiv\u00e1-las a absterem-se de tom\u00e1-las. Marco Magalh\u00e3es resolveu experimentar o tratamento de um centro de recupera\u00e7\u00e3o, baseado no modelo Minesota, em que a recupera\u00e7\u00e3o assenta, essencialmente, na abstin\u00eancia total de qualquer tipo de subst\u00e2ncia qu\u00edmica. At\u00e9 porque a sua experi\u00eancia com a metadona n\u00e3o tinha sido das melhores. \u00abEstive completamente dependente da metadona entre Julho de 1996 e Julho de 1999\u00bb, refere. \u00abO \u00fanico benef\u00edcio que consigo ver na metadona \u00e9 que me tirava as dores e o mau-estar da ressaca da hero\u00edna. No entanto, a ressaca da metadona foi pior do que todas as que tive com a hero\u00edna. Fiquei cerca de um m\u00eas sem dormir.\u00bb Hoje, Marco sabe que n\u00e3o \u00e9 demasiado tarde para come\u00e7ar uma vida nova, e encontra-se confiante quanto ao seu futuro sem metadona. \u00abAcabei o tratamento no dia 7 de Dezembro de 1999 e vou continuar a frequentar as reuni\u00f5es dos Narc\u00f3ticos An\u00f3nimos. Finalmente, quem controla a minha vida sou eu\u00bb.<\/p>\n<p><strong>NOTAS:<\/strong><\/p>\n<p>* Os nomes foram alterados para protec\u00e7\u00e3o da privacidade.<\/p>\n<p>** Os Centros de Atendimento a Toxicodependenetes (CAT) s\u00e3o unidades de tratamento em ambulat\u00f3rio, que pertencem ao Servi\u00e7o de Preven\u00e7\u00e3o e Tratamento de Toxicodepend\u00eancia (SPTT), do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. O seu acesso \u00e9 gratuito. A rede nacional dos CAT \u2014 49 ao todo \u2014 \u00e9 complementada por Centros de Dia (CD), Centros de Informa\u00e7\u00e3o e Acolhimento (CIAC), Unidades de Desabitua\u00e7\u00e3o (UD) e Comunidades Terap\u00eauticas (CT), que s\u00e3o unidades de tratamento, em regime de internamento prolongado. O acesso \u00e0s 2 CT p\u00fablicas \u00e9 gratuito. Nas CT privadas, o pre\u00e7o m\u00e1ximo praticado, para os 1050 lugares objecto de conven\u00e7\u00e3o, \u00e9 de 165 contos por m\u00eas e por utente, cabendo ao Estado o financiamento de 132 contos mensais, e sendo os restantes 33 contos da responsabilidade das fam\u00edlias ou apoiado pela Seguran\u00e7a Social, nos casos em que a incapacidade financeira \u00e9 comprovada.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.seleccoes.pt\/metadona_uma_ilus%C3%A3o_cara\/\" >Go to Original \u2013 seleccoes.pt<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos os dias, cerca de 5.000 toxicodependentes recebem doses gratuitas de metadona nos hospitais, centros de sa\u00fade, pris\u00f5es, algumas farm\u00e1cias e nos Centros de atendimento para toxicodependentes [em Portugal]. A metadona \u00e9 um medicamento opi\u00e1ceo que activa os receptores narc\u00f3ticos do c\u00e9rebro e que substitui a hero\u00edna. O objectivo dos programas de metadona \u00e9 fazer com que progressivamente os dependentes de drogas duras se desabituem do seu consumo. Mas estes programas t\u00eam sido alvo de alguma pol\u00e9mica.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-17626","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17626","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17626"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17626\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17626"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17626"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17626"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}