{"id":176377,"date":"2021-01-04T12:02:33","date_gmt":"2021-01-04T12:02:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=176377"},"modified":"2021-01-02T09:01:43","modified_gmt":"2021-01-02T09:01:43","slug":"portugues-por-que-chegamos-a-jair-bolsonaro-uma-disquisicao-historico-filosofica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2021\/01\/portugues-por-que-chegamos-a-jair-bolsonaro-uma-disquisicao-historico-filosofica\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Por que chegamos a Jair Bolsonaro? Uma disquisi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-filos\u00f3fica"},"content":{"rendered":"<p><em>31 dez 2020 &#8211; <\/em>H\u00e1 um sem n\u00famero de excelentes an\u00e1lises do anti-fen\u00f4meno Jair Messias Bolsonaro, predominando as de ordem sociol\u00f3gica, hist\u00f3rica e econ\u00f4mica. Creio que devemos cavar mais a fundo para captar a irrup\u00e7\u00e3o deste Negativo em nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o ocidental, devido aos limites culturais de nosso arraigado individualismo, quase n\u00e3o desenvolveu categorias anal\u00edticas para analisar totalidades hist\u00f3ricas. A de Hegel em sua <em>Filosofia da Hist\u00f3ria<\/em>, vem eivada de preconceitos,inclusive sobre o Brasil e disp\u00f5em de poucas categorias aproveit\u00e1veis. Arnold Toynbee em seus 10 volumes sobre a hist\u00f3ria mundial trabalha com um esquema fecundo mas limitado: desafio e resposta (<em>challenge and response<\/em>) com o inconveniente de n\u00e3o conferir relev\u00e2ncia aos conflitos de todo tipo, inerentes \u00e0 hist\u00f3ria.A Escola francesa dos <em>Annale<\/em>s,em suas varia\u00e7\u00f5es (Lefbre,, Braudel, Le Goff) inclu\u00ed v\u00e1rias ci\u00eancias mas n\u00e3o nos ofefeceu uma leitura da hist\u00f3ria como totalidade. N\u00e3o deixam de ser inspiradoras as categorias desenvolvidas por Ortga\u00a0 Gasset no seu famoso estudo sobre <em>Esquemas de las crisis y otros ensayos<\/em>(1942).<\/p>\n<p>Temos que tentar pensar por n\u00f3s mesmos e nos perguntar numa atitude fillosofante, vale dizer, que busca causas mais profundas que aquelas meramente anal\u00edticas das ci\u00eancias: <strong>por que o Brasil chegou a este sinistro personagem hist\u00f3rico, como chefe de estado, que desafia qualquer compreens\u00e3o pssicol\u00f3gica,\u00e9tica e pol\u00edtica?<\/strong><\/p>\n<p>De antem\u00e3o devemos dizer que todo existente n\u00e3o \u00e9 fortuito, pois \u00e9 fruto de um pr\u00e9-existente, de larga dura\u00e7\u00e3o, que cabe \u00e0 raz\u00e3o desentranhar. Ademais h\u00e1 que pens\u00e1-lo sempre dialeticamente:junto ao negativo e sombrio acompanham sempre como ac\u00f3litos, as dimens\u00f5es\u00a0 positivas e portadoras de alguma luz. N\u00e3o nos \u00e9 concedido ter apenas luz ou trevas. Todas as realidades s\u00e3o crepusculares, mesclando luz e sombras. Mas o nosso foco nesta reflex\u00e3o se concentra nas sombras, pois s\u00e3o elas as que nos causam problemas.<\/p>\n<p>Vou lan\u00e7a m\u00e3o de algumas categorias: a das sombras recalcadas, a teoria do caos destrutivo e generativo, a compreens\u00e3o transpssoal do karma no di\u00e1logo entre Toynbee e do fil\u00f3sofo japon\u00eas Daisaku Ikeda e os princ\u00edpios do <em>th\u00e1nato<\/em>s e do <em>eros<\/em>, associados \u00e0 <em>condition hum<\/em>aine de seres <em>sapiens<\/em> e simultaneamente <em>demens.<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 As quatro sombras reprimidas pela consci\u00eancia coletiva<\/strong><\/p>\n<p>A consci\u00eancia brasileira \u00e9 dominada por quatro sombras que nunca at\u00e9 o presente foram reconhecidas e integradas. Entendo a categoria \u201csombra\u201d no sentido psicanal\u00edtico da escola de C.G.Jung e disc\u00edpulos,tornada categoria amplamente aceita pelas demais escolas. Sombra seriam os conte\u00fados sombrios e negativos que uma cultura com seu consciente\/inconsciente coletivos se recusa a assimilar e assim os recalca e se esfor\u00e7a por afasta-los da mem\u00f3ria coletiva. Tal repress\u00e3o impede um processo de individua\u00e7\u00e3o nacional coerente e sustentado.<\/p>\n<p>A primeira comparece a sombra do <strong>genoc\u00eddio ind\u00edgena<\/strong>.Segundo Darcy Ribeiro haveria uma popula\u00e7\u00e3o de cerca 5-6 milh\u00f5es de ind\u00edgenas com centenas de l\u00ednguas, fato \u00fanico na hist\u00f3ria mundial. Eles foram praticamene dizimados.Restaram os 900 mil atuais. Lembremos o massacres de Mem de S\u00e1 em 31 de maio de 1580 que liquidou com\u00a0 os Tupiniquim da Capitania de Ilh\u00e9us. Por um quil\u00f4metro e meio ao longo da \u00a0praia numa dist\u00e2ncia de alguns metros uns de outros, jaziam centenas de \u00a0corpos de ind\u00edgenas assassinados, relatados como gl\u00f3ria ao rei de Portugal.<\/p>\n<p>Pior ainda foi a guerra declarada oficialmente por D.Jo\u00e3o VI, mal chegado ao Brasil, fugindo das tropas de Napole\u00e3o, que dizimou os Botocudos (Krenak) no vale do Rio Doce, por acharem que eram inciviliz\u00e1veis e incatequis\u00e1veis. Essa guerra oficial manchar\u00e1 para sempre a mem\u00f3ria nacional. Ailton Krenak, cujos antepassados sobreviveram, nos\u00a0 lembra essa vergonhosa guerra oficial de um imperador impiedoso,tido por bom.<\/p>\n<p>O atual governo de uma ignor\u00e2ncia supina em antropologia, considera os povos ind\u00edgenas origin\u00e1rios como sub-humanos que devem ser for\u00e7ados a entrar nos nossos c\u00f3digos culturais para serem humanos e civilizados. O descuido que mostrou por \u00a0\u00a0suas reservas invadidas e pelo abandono face \u00e0 Covid-19 beira a um genoc\u00eddio,pass\u00edvel de ser levado ao Tribunal Internacional Penal por crimes contra a humanidade.<\/p>\n<p>A\u00a0 segunda\u00a0 sombra \u00e9 nosso <strong>passado colonial<\/strong>. N\u00e3o ocorreu uma descoberta do Brasil mas uma pura e simples invas\u00e3o, destruindo o id\u00edlio inicial pac\u00edfico descrito por Pero Vaz de Caminha. Deu-se um encontr\u00e3o profundamente desigual de civiliza\u00e7\u00f5es. Logo se iniciou o processo de ocupa\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia em fun\u00e7\u00e3o das riquezas aqui existentes. Todo processo colonialista \u00e9 violento. Implica invadir terras, submeter os povos, obriga-los a falar a l\u00edngua do invasor, incorporar suas formas de organiza\u00e7\u00e3o social e a completa submiss\u00e3o desumanizadora dos dominados. Desse processo de submetimento surgiu o complexo do vira-lata, achar que \u00e9 bom s\u00f3 o que vem de fora ou de cima, de abaixar sempre\u00a0 a cabe\u00e7a e abandonar qualquer veleidade de autonomia e de projeto pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>A mentalidade de boa parte dos estratos dirigentes se consideram ainda de certa forma coloniais, por mimetizarem os estilos de vida e a assumiram os valores de seus \u00a0patr\u00f5es que foram variando ao longo de nossa historia. Hoje se constituiu uma express\u00e3o humilhante para toda a na\u00e7\u00e3o, o fato do atual chefe de estado fazer uma viagem especial aos USA, saudar a bandeira norte-americana e prestar\u00a0 um rito expl\u00edcito\u00a0 de vassalagem ao presidente Donad Trump, extravagante, ego-centrado e tido por not\u00e1veis analistas estadounidentes o mais est\u00fapido da hist\u00f3ria pol\u00edtica daquele pa\u00eds.<\/p>\n<p>A terceira sombra, a mais perversa de todas, foi a da <strong>escravid\u00e3o<\/strong><em>.<\/em> O jorrnalista e historiador Laurntino Gomes em seus dois volumes sobre <em>A Escravid\u00e3o<\/em> (2019\/2020) nos narra o inferno desse processo de inumanidade. O Brasil foi campe\u00e3o do escravagismo. S\u00f3 ele importou, a partir de 1538, cerca de 4,9 milh\u00f5es de africanos que foram escravizados aqui. Das 36 mil viagens transatl\u00e2nticas, 14.910 destinavam-se aos portos brasileiros.<\/p>\n<p>Estas pessoas escravizadas eram tratadas como mercadorias, chamadas \u201cpe\u00e7as\u201d. A primeira coisa que o comprador fazia para \u201ctraze-las bem domesticadas e disciplinadas\u201d era castig\u00e1-las, \u201chaja a\u00e7oites, haja correntes e grilh\u00f5es\u201d. A hist\u00f3ria da escravid\u00e3o foi escrita pela\u00a0 m\u00e3o branca, apresentando-a como branda, quando, na verdade, foi crudel\u00edssima e vem prolongada hoje contra a popula\u00e7\u00e3o negra, mulata (54,4% da popula\u00e7\u00e3o) e pobre, como o tem mostrado irrefutavemente Jess\u00e9 Souza em <em>A Elite do Atraso:da escravid\u00e3o a Bolsonaro<\/em> (2020). Feita a aboli\u00e7\u00e3o em 1888 n\u00e3o se lhes fez aos escravos nenhuma compensa\u00e7\u00e3o,foram largados ao deus-dar\u00e1 e comp\u00f5em hoje a maioria das favelas. Nunca se lhes reconheceu a m\u00ednima humanidade. A classe dominante, transferindo o \u00f3dio ao escravo z eles, se acostumou a humilh\u00e1-los, a ofend\u00ea-los at\u00e9 perderem o senso de sua dignidade.<\/p>\n<p>Essa sombra pesa enormemente na consci\u00eancia coletiva e \u00e9 a mais recalcada, na afirma\u00e7\u00e3o mentirosa de aqui aqui n\u00e3o h\u00e1 racismo nem discrimina\u00e7\u00e3o. No atual governo\u00a0 isso foi desmascarado pela viol\u00eancia sistem\u00e1tica contra esta popula\u00e7\u00e3o estimulada pelo pr\u00f3prio chefe de estado que tem conduzido uma pol\u00edtica necr\u00f3fila. Esta sombra por sua desumanidade evocou pessoas sens\u00edveis como o poeta Castro Alvez. Ressoar\u00e3o para sempre seus versos em <em>Vozes d\u2019Africa<\/em>:<\/p>\n<p>\u201c\u00d3 Deus, onde est\u00e1s que n\u00e3o respondes? Em que mundo, em qu\u2019estrela tu t\u2019escondes\/ Embu\u00e7ado nos c\u00e9us? H\u00e1 dois mil anos te mandei meu grito\/ Que esbalde, desde ent\u00e3o, corre o infinito\u2026 \/Onde est\u00e1s, Senhor Deus\u201d Esse grito continua hoje t\u00e3o lancinante com outrora.<\/p>\n<p>Jess\u00e9 Souza, em sua obra j\u00e1 referida, mostrou de forma convincente como a classe dominante, para impedir qualquer avan\u00e7o das maiorias marginalizadas, projetou sobre elas toda a carga de negatividades que acumulou face aos escravos, a essa \u201cmassa damnata\u201d com requintes de exclus\u00e3o, discrimina\u00e7\u00e3o e verdadeiro \u00f3dio que nos espanta e nos revela n\u00edveis inacredit\u00e1veis de desumaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A quarta sombra \u00e9 a constitui\u00e7\u00e3o de <strong>um Brasil s\u00f3 para poucos<\/strong><em>. <\/em>Raymundo Faoro (<em>Os donos do poder<\/em>) e o historiador e acad\u00eamico Jos\u00e9 Hon\u00f3rio Rodrigues (<em>Concilia\u00e7\u00e3o e reforma no Brasil<\/em> \u00a01982) nos t\u00eam narrado a viol\u00eancia com que o povo foi tratado para estabelecer uma ordem, fruto da concilia\u00e7\u00e3o entre as classes opulentas sempre com a exclus\u00e3o intencionada do povo.<\/p>\n<p>Escreve Jos\u00e9 Hon\u00f3rio Rodrigues:\u201dA maioria dominante foi sempre alienada, anti-progressista, antinacional e n\u00e3o contempor\u00e2nea. A lideran\u00e7a nunca se reconciliou com o povo; negou-lhes seus direitos, arrasou sua vida e t\u00e3o logo a viu crescer ela lhe negou pouco a pouco sua aprova\u00e7\u00e3o, conspirou para coloc\u00e1-la de novo na periferia no lugar que julga que lhe pertence\u201d(<em>Reconcilia\u00e7\u00e3o e Reforma o Brasi<\/em>l, 1982, p.16). N\u00e3o foi o que exatamente a maioria dominante e seus aliados fizeram com Dilma Rousseff primeiro e depois com o candidato Lula? Mudam as estrat\u00e9gias mas nunca seus prop\u00f3sitos de um Brasil s\u00f3 para eles.<\/p>\n<p>Nunca houve um projeto nacional que incluisse a todos. Projetou-se um Brasil para poucos. Os outros que se lasquem. Assim surgiu n\u00e3o uma na\u00e7\u00e3o, mas como mostrou detalhadamente Luiz Gonzaga de Souza Lima, num livro que seguramente ser\u00e1 um cl\u00e1ssico, <em>A Refunda\u00e7\u00e3o do Brasil: rumo a uma civiliza\u00e7\u00e3o biocentrada<\/em> ((2011) foi fundada \u00a0a Grande Empresa Brasil, desde os in\u00edcios internacionalizada em fun\u00e7\u00e3o de atender aos mercados mundiais ontem e at\u00e9\u00a0 os tempos atuais.Assim temos um Brasil profundamente cindido entre poucos ricos e as grandes maiorias pobres, um dos pa\u00edses mais desiguais do mundo, o que significa, um pa\u00eds violento e cheio de injusti\u00e7as sociais. Machado de Assis j\u00e1 havia observado que h\u00e1 dois Brasis, o oficial (este de poucos) e o real (das grande maiorias exclu\u00eddas).<\/p>\n<p>Uma sociedade montada numa bifurca\u00e7\u00e3o, sobre uma injusti\u00e7a social perversa nunca\u00a0 criar\u00e1 uma coes\u00e3o interna que lhe permitir\u00e1 um salto rumo a formas mais civilizadas de conviv\u00eancia. Aqui imperou sempre um capitalismo selvagem que nunca conseguiu ser civilizado. E quando os filhos e filhas da pobreza conseguiram acumular uma for\u00e7a pol\u00edtica de base suficiente para chegarem ao poder central e atenderem demandas b\u00e1sicas das popula\u00e7\u00f5es\u00a0 humilhadas e ofendidas, logo os descendentes da Casa Grande e a nova burguesia nacional se organizaram para impossibilitar este tipo de governo de inclus\u00e3o social. Deram-lhe \u00a0um golpe vergonhoso, parlamentar, midi\u00e1tico e jur\u00eddico para desta forma garantirem os n\u00edveis de acumula\u00e7\u00e3o considerados dos mais altos do mundo e manterem os pobres ao lugar que lhes cabe, na periferia e na marginalidade pobre e miser\u00e1vel.<\/p>\n<p>O escritor Luiz Fernando Ver\u00edssimo num twitter de 6 de setembro de 2020 bem resumiu: \u201cO \u00f3dio est\u00e1 no DNA da classe dominante brasileira,que historicamente derruba,pelas armas se for preciso,toda amea\u00e7a ao seu dom\u00ednio, seja qual for sua sigla\u201d.\u00c9 esta classe de abastados que nem elite \u00e9, porque esta sup\u00f5e certo cultivo de humanidade e de cultura, sustenta o atual governo\u00a0 ultra-direitista e fascist\u00f3ide por n\u00e3o lhes amea\u00e7ar a forma abusiva de acumula\u00e7\u00e3o, antes o ministro da Fazenda,Guedes, disc\u00edpulo da escola de Viena e de Chicago comparece como o grande demolidor da soberania nacional. O presidente nada sabe e entende o que seja soberania nacional.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0O caos destrutivo e generativo<\/strong><\/p>\n<p>Outra categoria que nos poderia fazer \u00a0entender melhor nossa atual situa\u00e7\u00e3o sombria \u00e9 aquela <strong>do caos<\/strong> em sua dupla fun\u00e7\u00e3o destrutiva e construtiva.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou com a observa\u00e7\u00e3o de fen\u00f4menos aleat\u00f3rios como a forma\u00e7\u00e3o das nuvens e particularmente o que se veio chamar de <em>efeito borboleta<\/em> (pequenas modifica\u00e7\u00f5es iniciais, como farfalhar das asas de uma borboleta no Brasil que pode, no fim, provocar uma tempestade em Nova York em raz\u00e3o da inter depend\u00eancia de todos os fatores. Al\u00e9m disso faz-se a constata\u00e7\u00e3o da crescente complexidade que est\u00e1 na raiz da emerg\u00eancia de formas de vida cada vez mais altas (cf.J.Gleick<em> Caos: cria\u00e7\u00e3o de uma nova ci\u00eancia,<\/em>1989). O universo se originou de um tremendo caos inicial o <em>big bang<\/em>. A evolu\u00e7\u00e3o se fez e se faz para colocar ordem neste caos.<\/p>\n<p>O sentido origin\u00e1rio \u00e9 o\u00a0 seguinte: o caos possui uma dimens\u00e3o\u00a0 destrutiva: p\u00f5e fim a um certo tipo de ordem que chegou ao seu climax. Mas por detr\u00e1s do caos destrutivo se escondem dimens\u00f5es construtivas de uma nova ordem. E vice-versa, por detr\u00e1s da ordem se escondem dimens\u00f5es de caos de tal forma que a realidade \u00e9 din\u00e2mica e flutuante sempre em busca de um\u00a0 equil\u00edbrio. Ilya Progrine (1917-2993), pr\u00eamio Nobel de Qu\u00edmica em 1977, estudou particularmente as condi\u00e7\u00f5es que permitem a emerg\u00eancia da vida. Segundo este grande cientista,\u00a0 sempre que existir um sistema aberto, sempre que houver uma situa\u00e7\u00e3o de caos, (longe do equil\u00edbrio) e vigorar uma n\u00e3o-lineariedade dos fatores \u00e9 a conectividade entre as partes que gera uma nova ordem (cf. <em>Order out of Chaos,1984)<\/em>. Foi neste contexto que irrompeu a vida como um imperativo c\u00f3smico.<\/p>\n<p>Inegavelmente vivemos no Brasil numa situa\u00e7\u00e3o de grav\u00edssimo caos.No contexto do Covid-19 que est\u00e1 dizimando quase 200 mil vidas,temos um Presidente totalmente omisso e sem qualquer preocupa\u00e7\u00e3o com o destino cruel de seu povo,um negacionista com uma estupidez e arrog\u00e2ncia, pr\u00f3pia de pessoas autorit\u00e1rias com sinais de insanidade mental. Um chefe de estado deve ser uma pessoa de s\u00edntese (sim-b\u00f3lico) e n\u00e3o de divis\u00e3o (dia-b\u00f3lico) e viver pessoalmente as virtudes \u00e9ticas e c\u00edvicas que quer ver nos cidad\u00e3os.Este faz exatamente o contr\u00e1rio, incentiva \u00f3dios, mente descaradamente e perde todo o sentido da dignidade do cargo que ocupa.<\/p>\n<p>As autoridades que t\u00eam poder como o Congresso Nacional, o MPF,o STF e outras revelam-se \u00a0omissas, assistindo inertes e irrespons\u00e1veis o genoc\u00eddio que est\u00e1 ocorrendo. Creio que a hist\u00f3ria\u00a0 ser\u00e1 implac\u00e1vel para com as omiss\u00f5es destas autoridades que nada fizeram face a tanto descaso do destino de milh\u00f5es de fam\u00edlias que choram seus mortos. O atual presidente cometeu tantos casos de grave irresponsabilidade que mereceria juridica e eticamente um impeachment ou uma pura simples destitui\u00e7\u00e3o por um acerto de lideran\u00e7as apoiadas por multid\u00f5es nas ruas.<\/p>\n<p>Consola-nos o fato de que h\u00e1 oculto\u00a0 dentro desse caos humanit\u00e1rio uma ordem mais alta e melhor. Quem vai desentranh\u00e1-la e fazer superar o caos?<\/p>\n<p>Precisamos constituir uma frente ampla de for\u00e7as progressistas e opostas \u00e0s pivatiza\u00e7\u00f5es e da neo-coloniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds para desentranhar a nova ordem, absc\u00f4ndita no caos atual mas que\u00a0 quer nascer. Temos que fazer esse parto mesmo que doloroso. Caso contrario, continuaremos ref\u00e9ns e v\u00edtimas daqueles que sempre pensaram corporativamente s\u00f3 em si, de costas e, como agora, contra o povo.<\/p>\n<p><strong>A interpreta\u00e7\u00e3o ocidental do Karma transpessoal<\/strong><\/p>\n<p>Por fim valho-me de uma categoria, oriunda do Oriente que relida \u00e0 luz das novas ci\u00eancias da Terra e da vida nos podem trazer elementos esclarecedores. Trata-se da categoria do <em>Karma,<\/em> objeto de um de um longo di\u00e1logo \u00a0de tr\u00eas dias entre o historiador Arnold Toynbee e o fil\u00f3sofo japon\u00eas Daisaku Ikeda (cf. (cf.\u00a0<em>Elige la vida<\/em>, Emec\u00e9. Buenos Aires, 2005).<\/p>\n<p>O\u00a0<em>karma<\/em>\u00a0\u00e9 um termo s\u00e2nscrito originalmente significando\u00a0<em>for\u00e7a e movimento<\/em>, concentrado na palavra \u201ca\u00e7\u00e3o\u201d que provoca sua correspondente \u201cre-a\u00e7\u00e3o\u201d. Uma interpreta\u00e7\u00e3o transpessoal parece importante, porque, como j\u00e1 assinalei acima, n\u00e3o dispomos no ocidente de \u00a0categorias conceptuais que deem conta de um sentido de devir hist\u00f3rico, de toda uma comunidade e de suas institui\u00e7\u00f5es nas suas dimens\u00f5es positivas e negativas.<\/p>\n<p>Cada pessoa \u00e9 marcada pelas a\u00e7\u00f5es que praticou em vida. Essa a\u00e7\u00e3o n\u00e3o se restringe \u00e0 pessoa mas conota todo o seu ambiente. Trata-se de uma esp\u00e9cie de conta-corrente \u00e9tica cujo saldo est\u00e1 em constante muta\u00e7\u00e3o consoante as a\u00e7\u00f5es boas ou m\u00e1s \u00a0feitas, vale dizer, os \u201cdebitos e os cr\u00e9ditos\u201d. Mesmo depois da morte, a pessoa, na cren\u00e7a budista, carrega esta conta para que com mais\u00a0\u00a0renascimentos possa ter, at\u00e9 zerar a conta negativa.<\/p>\n<p>O grande historiador e pensador Toynbee d\u00e1-lhe outra vers\u00e3o,nos quadros do paradigma ocidental, que me parece esclarecedora e nos ajuda entender um pouco tamb\u00e9m a nossa hist\u00f3ria. A hist\u00f3ria \u00e9 feita de <em>redes relacionais<\/em> dentro das quais est\u00e1 inserida a cada pessoa, ligada com as que a precederam e com as presentes. H\u00e1 um funcionamento k\u00e1rmico na hist\u00f3ria de um povo e de suas institui\u00e7\u00f5es consoante os n\u00edveis de bondade e justi\u00e7a ou de maldade e injusti\u00e7a que produziram ao largo do tempo. Assim refletiu Toynbee.<\/p>\n<p>Este seria uma esp\u00e9cie de campo m\u00f3rfico que permaneceria impregnando tudo. N\u00e3o se requer a hip\u00f3tese dos muitos renascimentos, como na tradi\u00e7\u00e3o oriental pressup\u00f5e, porque a rede de v\u00ednculos garante a continuidade do destino de um povo (p.384). As realidades k\u00e1rmicas impregnam as institui\u00e7\u00f5es, as paisagens, configuram as pessoas e deixam seus sinais na cultura de um povo. Esta for\u00e7a k\u00e1rmica atua nos processos socio-hist\u00f3ricos, marcando os fatos ben\u00e9ficos ou mal\u00e9ficos. C.G.Jung em sua psicologia arquet\u00edpica notara, de alguma forma,\u00a0\u00a0tal fato.<\/p>\n<p>Apliquemos esta lei k\u00e1rmica \u00e0 nossa situa\u00e7\u00e3o sob a reg\u00eancia nefasta de Bolsonaro. N\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil reconhecer que somos portadores de um pesad\u00edssimo karma, em grande escala, derivado do genoc\u00eddio ind\u00edgena, da super-explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a do trabalho escravo, pela coloniza\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria, pelas injusti\u00e7as perpretadas contra grande parte da popula\u00e7\u00e3o, negra, mesti\u00e7a e pobre pela burguesia endinheirada e insens\u00edvel, jogada na periferia, com fam\u00edlias destru\u00eddas e corro\u00eddas pela fome e pelas doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Tanto Toynbee quanto Ikeda concordam nisso:\u201d<em>a sociedade moderna (n\u00f3s inclu\u00eddos) s\u00f3 pode ser curada de sua carga k\u00e1rmica, atrav\u00e9s de uma revolu\u00e7\u00e3o espiritual no cora\u00e7\u00e3o e na mente <\/em>(p.159), na linha da justi\u00e7a compensat\u00f3ria e de pol\u00edticas sanadoras com institui\u00e7\u00f5es justas como vem apregoando insistentemente o Papa Francisco em suas enc\u00edclicas sociais e ecol\u00f3gicas, <em>Laudato Si e Fratelli tutti<\/em>. Sem esta justi\u00e7a m\u00ednima a carga k\u00e1rmica n\u00e3o se desfar\u00e1.<\/p>\n<p>Mas ela sozinha n\u00e3o \u00e9 suficiente. Faz-se mister\u00a0\u00a0o amor, a solidariedade e uma compaix\u00e3o universal, especialmente \u00a0para com as v\u00edtimas. \u00c9 a proposta central e paradigm\u00e1tica da <em>Fratelli tutti<\/em>. do Papa Francisco. O amor ser\u00e1 o motor mais eficaz porque ele, no fundo \u201c\u00e9 a \u00faltima realidade\u201d(p.387). Uma sociedade incapaz de efetivamente amar e de ser menos malvada, jamais desconstruir\u00e1 uma hist\u00f3ria t\u00e3o marcada pelo karma negativo e desumano, realizado, estranhamente, dentro de uma cultura cunhada pelo cristianismo, diuturnamente tra\u00eddo. Eis o desafio que a atual crise sist\u00eamica nos suscita.<\/p>\n<p>N\u00e3o apregoaram outra coisa os mestres da humanidade, como Jesus,Buda, Isa\u00edas, S\u00e3o Francisco, Dalai Lama, Gandhi, Luther King Jr e o Papa Francisco? S\u00f3 o karma do bem redime a realidade da for\u00e7a k\u00e1rmica do mal.\u00a0E se o Brasil n\u00e3o fizer essa revers\u00e3o k\u00e1rmica permanecer\u00e1 de crise em crise, destruindo seu pr\u00f3prio futuro como o est\u00e1 fazendo, entre mentiras, fake news, ironia e zombaria, o necr\u00f3filo e insano presidente deste pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>\u00a0A fun\u00e7\u00e3o iluminadora dos princ\u00edpios thanatos e demens<\/strong><\/p>\n<p>Estas s\u00e3o express\u00f5es bem conhecidas no Ocidente e n\u00e3o se necessita de maiores explana\u00e7\u00f5es. Vale lembrar que se trata de princ\u00edpios\u00a0 e n\u00e3o simplesmente de dimens\u00f5es acidentais. Princ\u00edpio \u00e9 aquilo que faz ser todos os seres ou sem o qual o seres n\u00e3o irrompem na realidade. Assim foi desenvolvido por Sigmund Freud o princ\u00edpio <em>do th\u00e1nato<\/em>s que acompanha o do <em>eros<\/em> que convivem em cada ser humano. O <em>th\u00e1nato<\/em>s emerege como aquela puls\u00e3o que leva \u00e0 viol\u00eancia, \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o e, no termo, \u00e0 morte. Temos a ver com o Negativo na condi\u00e7\u00e3o humana ao lado do Positivo\u00a0 e do Luminoso, estes assim o cremos, ir\u00e3o finalmente triunfar.<\/p>\n<p>\u00c9 conhecida a troca de cartas entre Freud e Einstein sobre a possibilidade da supera\u00e7\u00e3o viol\u00eancia e da guerra, ainda nos idos de 1932. Freud respondeu que \u00e9 imposs\u00edvel diretamente \u00a0superar \u00a0\u00a0o <em>th\u00e1natos<\/em>, somente refor\u00e7ando o princ\u00edpio do <em>eros<\/em> atrav\u00e9s de la\u00e7os emocionais e pelo trabalho humanizador da cultura. (cf.<em>Obras completas<\/em> III:3,215). Mas termina com uma frase desoladora:\u201desfaimados pensamos no moinho que t\u00e3o lentamente m\u00f3i que podemos morrer de fome antes de receber a farinha\u201d.<\/p>\n<p>Ambos os princ\u00edpios para Freud possuem algo de eterno e deixa em aberto qual princ\u00edpio escrever\u00e1 a \u00faltima\u00a0 p\u00e1gina da vida. Mas o princ\u00edpio do th\u00e1natos pode em momentos da hist\u00f3ria impregnar todo um povo e\u00a0 inundar a consci\u00eancia de seus l\u00edderes produzindo trag\u00e9dias pol\u00edtico-sociais.<\/p>\n<p>Estes comportamentos mostram igualmente o princ\u00edpio demens\u00a0 presente junto com o sapiens no ser humano. Vivemos numa civiliza\u00e7\u00e3o mundializada que est\u00e1 sob o dom\u00ednio do demens. Basta lembrar os 200 milh\u00f5es de mortos nas guerras dos \u00faltimos dois s\u00e9culos e do princ\u00edpio de auto-destrui\u00e7\u00e3o j\u00e1 montado com armas nucleares, qu\u00edmicas e biol\u00f3gicas, capazes de p\u00f4r fm \u00e0 vida humana e \u00e0 nossa civiliza\u00e7\u00e3o, tornando tais armas ineficazes e rid\u00edculas pelo Covid-19.<\/p>\n<p>Esse princ\u00edpio de dem\u00eancia se mostra claro pelos assassinatos intencionados de negros, pobres e outros com outra op\u00e7\u00e3o sexual e um perverso feminic\u00eddio. Tudo isso \u00e9 chancelado por um presidente com claros sintomas de psicopatia, vergonhosamente tolerado por aquelas autoridades que poderiam e deveriam por crimes de responsabilidade social, denunci\u00e1-lo, faz\u00ea-lo renunciar ou democraticamente submet\u00ea-lo a um impeachment jur\u00eddico. Talvez elas mesmas sejam j\u00e1 infectadas pelo v\u00edrus do <em>demens<\/em>, o que explicaria sua leni\u00eancia e culposa omiss\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o: o oculto e o reprimido sa\u00edram dos\u00a0 por\u00f5es e uma luz se acendeu<\/strong><\/p>\n<p>O sentido de nossa disquisi\u00e7\u00e3o possui este significado: tudo o que estava oculto e reprimido em nossa sociedade saiu dos por\u00f5es onde por s\u00e9culos se havia ocultado na v\u00e3 tentativa de neg\u00e1-lo ou torn\u00e1-lo aceit\u00e1vel socialmente, at\u00e9 de pint\u00e1-lo roseamente, como o fazem v\u00e1rios ministros indignos que chegam ver um ganho na escravid\u00e3o e no estado colonial. Mas basta um pouco de luz para desfazer esta densa escurid\u00e3o. Agora se tornou vis\u00edvel e solar. N\u00e3o h\u00e1 mais como escamote\u00e1-la.<\/p>\n<p>Somos uma sociedade contradit\u00f3ria onde encontramos, ao mesmo tempo \u00a0brilhantismo na ci\u00eancia, na literatura, nas artes pl\u00e1sticas ,na m\u00fasica e na riqu\u00edssima cultura popular, geralmente feita \u00e0 revelia de toda a opress\u00e3o e <em>do mainstream<\/em> e em tantos outros campos. E ao mesmo tempo, somos uma sociedade que internalizou o opressor, se fez eco da voz dos donos, conservadora e at\u00e9 atrasada quando comparada com pa\u00edses semelhantes ao nosso. Num certo sentido somos cru\u00e9is e sem piedade para com nossos semelhantes atingidos pelas maldades perpetradas pelos estratos ultra-endinheirados e faltos de qualquer sentido de compaix\u00e3o para com os milh\u00f5es ca\u00eddos na estrada sem que nenhum samaritano se compade\u00e7a deles. Passam ao largo sem v\u00ea-los e o que \u00e9 pior, desprezando-os como se n\u00e3o fossem da mesma na\u00e7\u00e3o ou\u00a0\u00a0 da mesma fam\u00edlia humana.<\/p>\n<p>Esses ainda se confessam crist\u00e3os sem terem nada a ver com\u00a0 a mensagem do Mestre de Nazar\u00e9. Os ateus \u00e9ticos e humanit\u00e1rios est\u00e3o maia pr\u00f3ximos do Deus de Jesus, da ternura dos humildes e defensor dos humilhados e ofendidos, do que estes crist\u00e3os meramente culturais que usam o nome de Deus para defender suas nefastas pol\u00edticas individualistas ou corporativas, de um Brasil s\u00f3 para eles. Eles est\u00e3o longe de Deus por negarem os filhos e filhas de Deus, chamados pelo Juiz supremo de \u201cmeus irm\u00e3os e irm\u00e3s menores\u201d sob os quais ele mesmo se escondia.<\/p>\n<p>Tem muito\u00a0 de verdade o que escreveu a fil\u00f3sofa Marilena Chaui:\u201dA sociedade brasileira \u00e9 uma sociedade autorit\u00e1ria,uma sociedade violenta, possui uma economia predat\u00f3ria de recursos humanos e naturais, convivendo com naturalidade com a injusti\u00e7a, a desigualdade e a aus\u00eancia de liberdade e com os espantosos \u00edndices das v\u00e1rias\u00a0 formas institucionais \u2013 formais e informais \u2013 de exterm\u00ednio f\u00edsico e ps\u00edquico e de exclus\u00e3o social e cultural<em>\u201d( 500 anos<\/em> -cultura e pol\u00edtica no Brasil n.38 p.32-33).\u00a0 O sonho id\u00edlico de Darcy Ribeiro de o Brasil se tornar\u00a0 a Roma tardia e tropical se esvanece nas \u201cvastas sombras\u201d como diz o Papa Francisco <em>nas Fratelli tutti<\/em> (cap.I). Celso Furtado, entristecido, no final\u00a0 da vida escreveu todo um livro: <em>Brasll: a constru\u00e7\u00e3o interrompida<\/em> (1993).<\/p>\n<p>Todas estas nuvens escuras se condensaram nos \u00faltimos anos e ganharam seus sacerdotes e ac\u00f3litos que as assumem conscientemente,querendo levar o Brasil aos tempos pr\u00e9-modernos. Se os levassem pelo menos \u00e0 Idade M\u00e9dia que tinha suas grandezas desde as majestosas catedrais \u00e0s grandes sumas teol\u00f3gicas. O Brasil deste projeto retr\u00f3grado e irrealiz\u00e1vel se tornou uma grotesca farsa e uma irris\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>O conjunto destas sombras vastas e o dom\u00ednio do Negativo se adensaram na figura do atual chefe de estado e de seu governo, associado ao seu projeto. Ele \u00e9 a consequ\u00eancia desta anti-hist\u00f3ria e sua mais perversa corporifica\u00e7\u00e3o. Representa o que de pior ocorreu em nossa hist\u00f3ria e consciente o inconscientemente tenta dar-lhe o acabamento final. Mas n\u00e3o o conseguir\u00e1 porque jamais na hist\u00f3ria os mecanismos de morte e de \u00f3dio lograram realizar seu intento, sequer Hitler com todo o seu poderia militar e cient\u00edfico conseguiu lan\u00e7ar ao fundamentos de um Reino de Mil Anos como sonhava.<\/p>\n<p>Os processos hist\u00f3ricos n\u00e3o s\u00e3o cegos e \u00a0sem destino. Eles guardam um Logos secreto que vai conduzindo o rumo das coisas em conson\u00e2ncia com o processo da cosmog\u00eanese e gera, do meio do caos, ordens superiores com novas possibilidades e horizontes insuspeitados. Qual ser\u00e1 nosso lugar, como povo e como na\u00e7\u00e3o, no conjunto de todos esses processos? Eles marcam a dire\u00e7\u00e3o mas quem tem que percorr\u00ea-la e construi-la somos todos n\u00f3s. N\u00e3o nos \u00e9 permitido pregui\u00e7osamente pisar nas pegadas j\u00e1 feitas, Temos que fazer as nossas pegadas. E tamb\u00e9m n\u00e3o podemos chegar tarde demais, porque desta vez o caminho n\u00e3o tem volta.<\/p>\n<p>Oxal\u00e1 estejamos atentos ao que a hist\u00f3ria, apesar do reacionarismo e protofascismo de Bolsonaro e de seus seguidores, nos exigir\u00e1. Como outrora dizia Plat\u00e3o:\u201dtodas as coisas grandes procedem do caos\u201d.As nossas poder\u00e3o ter\u00a0 a mesma origem.<\/p>\n<p>_________________________________________________<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/leonardo-boff.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-172973\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/leonardo-boff-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"113\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/leonardo-boff-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/leonardo-boff-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/leonardo-boff.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a><\/em><em>Leonardo Boff \u00e9 um escritor, te\u00f3logo e fil\u00f3sofo brasileiro, professor em\u00e9rito de \u00e9tica e filosofia da religi\u00e3o da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, recebedor do <\/em><strong><em>Pr\u00eamio Nobel Alternativo da Paz<\/em><\/strong><em> do Parlamento sueco [<\/em><strong><em>Right Livelihood Award<\/em><\/strong><em>]em 2001, membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra, e professor visitante em v\u00e1rias universidades estrangeiras como Basel, Heidelberg, Harvard, Lisboa e Salamanca. Expoente da <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teologia_da_Liberta%C3%A7%C3%A3o\" >Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/a><\/em><em> no Brasil, foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. \u00c9 respeitado pela sua hist\u00f3ria de defesa pelas causas sociais e atualmente debate tamb\u00e9m quest\u00f5es ambientais. Colunista do <\/em>Jornal do Brasil<em>, escreveu os livros<\/em> Francisco de Assis: Ternura e Vigor, <em>Vozes 2000; <\/em>\u00a0A Terra na palma da m\u00e3o: uma nova vis\u00e3o do planeta e da humanidade<em>,Vozes 2016;\u00a0 <\/em>Cuidar da Terra \u2013 proteger a vida: como escapar do fim do mundo<em>, Record 2010; <\/em>\u00a0<em>A <\/em>hospitalidade: Direito e dever de todos, <em>Vozes 2005<\/em>; Paix\u00e3o de Cristo, Paix\u00e3o do Mundo<em>, Vozes 2001<\/em>; Brasil: Concluir a refunda\u00e7\u00e3o ou prolongar a depend\u00eancia, <em>Vozes 2018; <\/em><em>\u201cDestino e Desatino da Globaliza\u00e7\u00e3o\u201d em<\/em><em>: Do iceberg \u00e0 Arca de No\u00e9,<\/em><em> Mar de Ideias, Rio 2010 pp. 41-63.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/leonardoboff.org\/2020\/12\/31\/por-que-chegamos-a-jair-bolsonaro-uma-disquisicao-historico-filosofica\/\" >Go to Original \u2013 leonardoboff.org<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>31 dez 2020 &#8211; H\u00e1 um sem n\u00famero de excelentes an\u00e1lises do anti-fen\u00f4meno Jair Messias Bolsonaro, predominando as de ordem sociol\u00f3gica, hist\u00f3rica e econ\u00f4mica. 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