{"id":178493,"date":"2021-02-01T12:00:26","date_gmt":"2021-02-01T12:00:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=178493"},"modified":"2021-02-01T09:37:05","modified_gmt":"2021-02-01T09:37:05","slug":"portugues-no-corredor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2021\/02\/portugues-no-corredor\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) No Corredor"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p class=\"td-post-sub-title\"><em>&#8220;Fico pensando comigo mesmo como \u00e9 interessante o fim de ciclos em nossas vidas, como nos causam ansiedade&#8221;<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Caminho lentamente pelo corredor, seguido por mais alguns colegas. Sim, permanecemos calmos apesar da euforia interna que nos domina, pois finalmente poderemos seguir pelo corredor e j\u00e1 sentimos o cheiro da liberdade que nos aguarda atrav\u00e9s da \u00faltima porta.<\/p>\n<p>Fico pensando comigo mesmo como \u00e9 interessante o fim de ciclos em nossas vidas, como nos causam ansiedade. Talvez seja normal, por isso minhas pernas tremem \u00e0 cada passo que dou e o frio na barriga n\u00e3o deve ter outro motivo se n\u00e3o este tamb\u00e9m. Como devem estar as coisas l\u00e1 fora?<\/p>\n<p>Afinal, o \u00fanico contato que tenho tido com o lado de l\u00e1 \u00e9 atrav\u00e9s do ar puro que trago com for\u00e7a quando estamos na parte aberta, que adentra por meus pulm\u00f5es e se espalha por todo o meu corpo, trazendo os aromas de outros lugares al\u00e9m das cercas que me aprisionam h\u00e1 tanto tempo, mas s\u00f3 por mais alguns instantes.<\/p>\n<p>J\u00e1 estive do lado de l\u00e1, e recordo com cada cent\u00edmetro de meu ser a alegria do contato com o resto do mundo. Aconteceu quando fui transferido, e a sensa\u00e7\u00e3o de saber que o mundo n\u00e3o termina em uma cerca \u00e9 extremamente fascinante. A \u00fanica inten\u00e7\u00e3o inicial \u00e9 absorver tudo o quanto for poss\u00edvel de toda a informa\u00e7\u00e3o que chega aos seus olhos atrav\u00e9s das janelas do transporte e, como vim de muito longe e a viagem durou dias, eu pude apreciar desde o raiar do sol at\u00e9 o anoitecer.<\/p>\n<p>Apreciei a natureza linda e pura como tamb\u00e9m as luzes artificiais das cidades e seus sons, \u00e0s vezes perturbadores, mas que indicavam a vida que ali acontecia. Muitas vezes cheguei a me questionar se n\u00e3o teria sido melhor n\u00e3o ter tido essa experi\u00eancia e apenas ter ficado no meu local de origem caso pudesse fazer essa escolha, pois a depress\u00e3o vem, e voc\u00ea sente a impot\u00eancia, a limita\u00e7\u00e3o, as mem\u00f3rias a lhe ensurdecer com os sussurros de tudo o que voc\u00ea n\u00e3o pode ter.<\/p>\n<p>\u00c9 como voc\u00ea pensar em ser desprovido da vis\u00e3o, ou da audi\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea preferiria j\u00e1 ter visto ou ouvido o mundo afim de que lhe lembre o que voc\u00ea n\u00e3o tem mais, ou ter nascido desta forma para ent\u00e3o n\u00e3o poder sentir saudade do que nunca teve e apenas imaginar? Pois este foi meu grande dilema nos \u00faltimos anos, pelo menos at\u00e9 agora.<\/p>\n<p>N\u00e3o fomos avisados com anteced\u00eancia de que hoje seria o dia que atravessar\u00edamos o corredor. Todos sab\u00edamos que este dia chegaria e essa espera \u00e9 que motiva muitos de n\u00f3s, mas nem todos. Alguns de meus companheiros, devido ao tempo incont\u00e1vel de espera, ficam desprovidos de f\u00e9, e esta \u00e9 fundamental para mantermos a raz\u00e3o, a sua car\u00eancia abre portas para a ansiedade descontrolada, que \u00e9 capaz de enlouquecer at\u00e9 os mais fortes do grupo.<\/p>\n<p>Afirmo isso por testemunhar alguns casos, mas que prefiro n\u00e3o recordar agora, pois este \u00e9 um momento de celebra\u00e7\u00e3o. A d\u00favida que me atormenta agora \u00e9 o que vou fazer do lado de l\u00e1 da cerca? N\u00e3o tenho familiares a me esperar, pois a maioria destes seguiu o mesmo caminho que o meu, mas sem a mesma sorte de ter um corredor para a liberdade como este em que sigo agora. E amigos, s\u00f3 tenho os que fiz aqui, e acreditem, s\u00e3o os melhores e para sempre habitar\u00e3o em meu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O 307, que depois da transfer\u00eancia passou a ser o 1.801, \u00e9 meu primeiro e melhor amigo. Lembro de quando nos conhecemos, ainda na inf\u00e2ncia, no c\u00e1rcere anterior. \u00c9 isso mesmo, esse \u00e9 o motivo da minha ansiedade em passar pelo corredor da liberdade, eu j\u00e1 nasci atr\u00e1s das grades. Minha m\u00e3e me trouxe ao mundo quando estava encarcerada, e me criou ali, por pouco tempo, pois era uma pris\u00e3o exclusiva para o sexo feminino.<\/p>\n<p>Acredito eu que aquela era uma pris\u00e3o de alta seguran\u00e7a para as que cometeram crimes mais do que b\u00e1rbaros. Minha m\u00e3e nunca me contou qual foi seu crime, talvez por eu ser ainda muito novo quando nos separaram, mas n\u00e3o importa para quem eu perguntasse, aparentemente nenhuma delas havia cometido crime algum.<\/p>\n<p>Deduzo que os crimes cometidos pelas encarceradas fossem os piores poss\u00edveis devido ao tratamento que recebiam no local, bem diferente do tratamento que recebemos aqui, pois a comida \u00e9 de alta qualidade, o atendimento m\u00e9dico e cuidados com nossa sa\u00fade s\u00e3o incr\u00edveis, mas as cercas\u2026 ah as cercas! Nenhum zelo com nossas vidas compensa a exist\u00eancias destas.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o posso reclamar, pois as poucas lembran\u00e7as que tenho de minha m\u00e3e e suas companheiras de cela me atormentam at\u00e9 hoje. Lembro-me delas sendo torturadas com aparelhos presos a elas por horas durante o dia, banhos, quando tinham, eram com mangueiras de alta press\u00e3o, e o pior, eram constantemente violentadas sexualmente pelos funcion\u00e1rios do local, n\u00e3o somente por homens, mas inclusive por mulheres.<\/p>\n<p>Nunca entendi como uma mulher poderia fazer isso, pareciam que estavam cegas, hipnotizadas a ponto de n\u00e3o sobrar uma gota da \u00e1gua divina da empatia em seus cora\u00e7\u00f5es. Fiscaliza\u00e7\u00e3o? Tinha sim, mas achavam todas essas atrocidades parte da rotina normal. E o que mais aterrorizava as detentas era o fato de saberem que na planta desta pris\u00e3o n\u00e3o foi inclu\u00eddo um corredor igual a este em que me encontro agora.<\/p>\n<p>Com certeza hoje minha m\u00e3e n\u00e3o est\u00e1 mais neste mundo. Ela sempre me dizia para ser corajoso e nunca revidar caso fosse maltratado, pois tinha a certeza dentro dela de que j\u00e1 t\u00ednhamos passado por este mundo outras vezes e tornar\u00edamos a passar, e cada vez com uma vida diferente, \u00e0s vezes melhor, \u00e0s vezes pior dependendo de como trilh\u00e1ssemos nosso caminho.<\/p>\n<p>E ela chorou quando nos separaram durante v\u00e1rios dias sem que deixassem que ela me alimentasse. Lembro de tamb\u00e9m ter chorado muito com a separa\u00e7\u00e3o, afinal, qual crian\u00e7a n\u00e3o chora ao ser separada de sua m\u00e3e? E qual adulto n\u00e3o tem sonhos terr\u00edveis do lugar onde sua m\u00e3e ficou? Foi ent\u00e3o que fui transferido e, no transporte, conheci o 1.801 que estava t\u00e3o aterrorizado quanto eu. Nossas hist\u00f3rias eram semelhantes, m\u00e3es que erraram e que estavam pagando por seus erros, e n\u00f3s, filhos sozinhos no mundo, \u00e0 espera do corredor.<\/p>\n<p>Nossas vidas se entrela\u00e7aram de tal forma que n\u00e3o nos sentimos mais sozinhos, nossa amizade nos deu o suporte necess\u00e1rio para crescermos juntos para nossa liberdade. E agora estamos eu e o 1.801 no corredor, e eu n\u00e3o poderia querer mais nada nesta vida do que a alegria de podermos continuar nossa jornada juntos do lado de l\u00e1.<\/p>\n<p>Ele est\u00e1 t\u00e3o ou mais empolgado do que eu e inclusive cortou agora mesmo a minha frente na fila, e eu n\u00e3o ouso reclamar, afinal \u00e9 o dia mais esperado de toda a nossa vida e ele deve estar faminto, pois n\u00e3o nos deram alimentos nas \u00faltimas horas, acredito que deve ser para ningu\u00e9m botar nada pra fora no caminho, pois realmente \u00e9 um momento muito emocionante.<\/p>\n<p>Ao final do corredor a porta da liberdade se abre, e veja minha surpresa, ela n\u00e3o d\u00e1 exatamente para o lado de fora, ela d\u00e1 em outra sala, veja s\u00f3, por essa eu n\u00e3o esperava. Estamos agora os dez sortudos dentro da sala, ela \u00e9 fria, as paredes s\u00e3o cinzentas e o cheiro \u00e9 horr\u00edvel.<\/p>\n<p>Minhas pernas voltam a tremer descontroladamente, as batidas de meu cora\u00e7\u00e3o aceleram a<br \/>\nponto de eu imaginar que todos ao redor estavam conseguindo ouvir. Olho para o 1.801 e ele parece estar t\u00e3o nervoso quanto eu, seus olhos est\u00e3o arregalados e sua mand\u00edbula tensa. Ent\u00e3o chega um dos funcion\u00e1rios do c\u00e1rcere e nos encaminha por outro corredor estreito, mas j\u00e1 n\u00e3o sei se quero continuar, sinto que algo n\u00e3o est\u00e1 certo, ser\u00e1 que erraram o caminho?<\/p>\n<p>Come\u00e7amos a nos agitar, e somos obrigados a seguir pelo corredor estreito. Meu amigo na frente, eu em segundo e os demais logo atr\u00e1s de mim, em uma fila indiana que n\u00e3o quer seguir por vontade pr\u00f3pria. Mais \u00e0 frente vejo o funcion\u00e1rio apontar uma pistola na testa do meu amigo, que n\u00e3o percebeu at\u00e9 o encostarem, pois estava com o horror em seus olhos me fitando.<\/p>\n<p>Eu grito, mas j\u00e1 \u00e9 tarde, a pistola \u00e9 acionada e meu amigo perde a consci\u00eancia, mas n\u00e3o vejo sangue, nem perfura\u00e7\u00e3o em seu cr\u00e2nio, apenas visualizo seu corpo inerte sendo transportado por uma esteira que eu n\u00e3o tinha notado at\u00e9 aquele momento.<\/p>\n<p>Um gancho ergue meu querido amigo ainda inconsciente, outro funcion\u00e1rio se aproxima e vejo algo brilhar, uma l\u00e2mina, e agora sim vejo seu sangue. Estou t\u00e3o aterrorizado com a cena que n\u00e3o percebo a pistola em minha testa, olho uma \u00faltima vez para o funcion\u00e1rio, uma l\u00e1grima corre pelo meu rosto, n\u00e3o percebo nenhum tra\u00e7o de incomodo nas fei\u00e7\u00f5es dele, apenas fecho os olhos e corro para a poss\u00edvel liberdade em uma pr\u00f3xima vida.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/vaca-cow-slaughterhouse-matadouro.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-178494\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/vaca-cow-slaughterhouse-matadouro.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"281\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/vaca-cow-slaughterhouse-matadouro.jpg 696w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/vaca-cow-slaughterhouse-matadouro-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote><p><strong><em>Segundo a autora, a escrita \u00e9 um meio de externar suas convic\u00e7\u00f5es e despertar no outro um olhar mais cr\u00edtico e empatia para quest\u00f5es controversas que ainda s\u00e3o aceitas pelo senso comum.<\/em><\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>________________________________________________<\/p>\n<div class=\"-vDIg\">\n<p class=\"rhpdm\" style=\"padding-left: 40px;\"><em>Luana S S &#8211; Amante das Artes, Escritora, M\u00e3e da Cacau e da Pa\u00e7oca. Brasil \ud83c\udde7\ud83c\uddf7<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/vegazeta.com.br\/no-corredor\/?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=no-corredor\" >Go to Original &#8211; vegazeta.com.br<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Fico pensando comigo mesmo como \u00e9 interessante o fim de ciclos em nossas vidas, como nos causam ansiedade&#8221;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":178494,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[1208,846,831,991],"class_list":["post-178493","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-original-languages","tag-animal-cruelty","tag-meat-industry","tag-veganism","tag-vegetarianism"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/178493","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=178493"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/178493\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media\/178494"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=178493"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=178493"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=178493"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}