{"id":1821,"date":"2009-01-26T00:00:00","date_gmt":"2009-01-26T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost\/wordpress\/2009\/01\/portuguese-cronica-de-um-suicidio-anunciado-o-caso-de-israel\/"},"modified":"2009-01-26T00:00:00","modified_gmt":"2009-01-26T00:00:00","slug":"portuguese-cronica-de-um-suicidio-anunciado-o-caso-de-israel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2009\/01\/portuguese-cronica-de-um-suicidio-anunciado-o-caso-de-israel\/","title":{"rendered":"(PORTUGUESE)   CRONICA DE UM SUICIDIO ANUNCIADO: O CASO DE ISRAEL"},"content":{"rendered":"<p>O Estado de Israel proclamou a sua independ&ecirc;ncia &agrave; meia-noite de 15 de Maio de 1948. As Na&ccedil;&otilde;es Unidas tinham aprovado o estabelecimento de dois estados no territ&oacute;rio que fora a Palestina sob mandato brit&acirc;nico. <\/p>\n<p>A cidade de Jerusal&eacute;m devia supostamente ser uma zona internacional sob jurisdi&ccedil;&atilde;o da ONU. A resolu&ccedil;&atilde;o da ONU tinha amplo apoio, e especificamente o dos Estados Unidos e da Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica. Os estados &aacute;rabes todos votaram contra. <\/p>\n<p>Nos 60 anos da sua exist&ecirc;ncia, o Estado de Israel dependeu para a sua sobreviv&ecirc;ncia e expans&atilde;o de uma estrat&eacute;gia global que combinava tr&ecirc;s elementos: militarismo &quot;macho&quot;, alian&ccedil;as geopol&iacute;ticas e rela&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas. <\/p>\n<p>O militarismo &quot;macho&quot; (chamado pelo actual primeiro-ministro Ehud Olmert de &quot;punho de ferro&quot;) tornou-se poss&iacute;vel pelo fervor nacionalista dos judeus israelitas, e finalmente (apesar de n&atilde;o no in&iacute;cio) pelo forte apoio de comunidades judaicas no resto do mundo. <\/p>\n<p>Geopoliticamente, Israel primeiro forjou uma alian&ccedil;a com a Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica (que foi breve mas crucial), depois com a Fran&ccedil;a (que durou mais tempo e permitiu que Israel se tornasse uma pot&ecirc;ncia nuclear), e finalmente (e mais importante) com os Estados Unidos. <\/p>\n<p>Estes aliados, que foram tamb&eacute;m patronos, ofereceram um importante apoio militar atrav&eacute;s do fornecimento de armas. Mas tamb&eacute;m ofereceram apoio diplom&aacute;tico\/pol&iacute;tico, e, no caso dos Estados Unidos, consider&aacute;vel apoio econ&oacute;mico. <\/p>\n<p>As rela&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas tinham como objectivo obter simpatia e apoio de uma ampla fatia da opini&atilde;o p&uacute;blica mundial, baseada, nos primeiros anos, numa imagem de Israel como um David pioneiro contra um Golias retr&oacute;grado, e nos &uacute;ltimos 40 anos, no sentimento de culpa e de compaix&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o ao exterm&iacute;nio nazi maci&ccedil;o dos judeus europeus durante a Segunda Guerra Mundial. <\/p>\n<p>Todos estes elementos da estrat&eacute;gia israelita funcionaram bem de 1948 at&eacute; os anos 80. Na verdade, foram crescentemente eficientes. Mas, algures nos anos 80, o uso de cada uma das tr&ecirc;s t&aacute;cticas come&ccedil;ou a ser contraproducente. Israel entrou agora numa fase de precipitado decl&iacute;nio da sua estrat&eacute;gia. <\/p>\n<p>Pode ser tarde demais para Israel procurar qualquer estrat&eacute;gia alternativa e, nesse caso, ter&aacute; cometido um suic&iacute;dio geopol&iacute;tico. Vejamos como os tr&ecirc;s elementos desta estrat&eacute;gia interagiram, primeiro durante a fase de sucesso e depois durante o lento decl&iacute;nio do poder israelita. <\/p>\n<p>Durante os primeiros 25 anos da sua exist&ecirc;ncia, Israel entrou em quatro guerras com estados &aacute;rabes. A primeira foi a guerra de 1948-1949 para instaurar o estado judeu. A declara&ccedil;&atilde;o israelita de um estado independente n&atilde;o teve equival&ecirc;ncia numa declara&ccedil;&atilde;o palestiniana a estabelecer um estado. Em vez disso, alguns governos &aacute;rabes declararam guerra a Israel. Inicialmente, <\/p>\n<p>Israel encontrou-se em dificuldades militares. Contudo, os militares israelitas estavam de longe mais bem treinados que os dos estados &aacute;rabes, com a excep&ccedil;&atilde;o da Transjord&acirc;nia. E, o que foi crucial, obtiveram armas da Checoslov&aacute;quia, que actuou como agente da Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica. <\/p>\n<p>Na altura da tr&eacute;gua de 1949, a disciplina das for&ccedil;as israelitas combinada com as armas checas permitiu que Israel conquistasse um territ&oacute;rio consider&aacute;vel que n&atilde;o constava das propostas de parti&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, incluindo Jerusal&eacute;m ocidental. As outras &aacute;reas foram incorporadas pelos estados &aacute;rabes. <\/p>\n<p>Muitos &aacute;rabes palestinianos fugiram ou foram for&ccedil;ados a fugir das &aacute;reas sob controlo dos israelitas e tornaram-se refugiados nos vizinhos pa&iacute;ses &aacute;rabes, onde os seus descendentes ainda vivem, em grande parte, hoje. A terra que eles possu&iacute;am foi tomada pelos judeus israelitas. <\/p>\n<p>Cedo a Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica deixou cair Israel. Provavelmente isto aconteceu principalmente porque os seus l&iacute;deres logo ficaram com medo do impacto da cria&ccedil;&atilde;o do estado nas atitudes dos judeus sovi&eacute;ticos, que pareciam demasiado entusi&aacute;sticos e, assim, potencialmente subversivos do ponto de vista de Estaline. <\/p>\n<p>Em contrapartida, Israel abandonou qualquer simpatia pelo campo socialista na Guerra Fria, e deixou claro o seu fervente desejo de ser considerado um membro de pleno direito do mundo Ocidental, pol&iacute;tica e culturalmente. <\/p>\n<p>A Fran&ccedil;a nessa altura estava confrontada com movimentos de liberta&ccedil;&atilde;o nacional nas suas tr&ecirc;s col&oacute;nias do Norte de &Aacute;frica, e viu em Israel um aliado &uacute;til. Isto foi especialmente verdade depois de os argelinos terem desencadeado a sua guerra de independ&ecirc;ncia em 1954. A Fran&ccedil;a come&ccedil;ou a ajudar Israel a armar-se. <\/p>\n<p>Especialmente, a Fran&ccedil;a, que estava a desenvolver as suas pr&oacute;prias armas nucleares (contra os desejos dos EUA), ajudou Israel a fazer o mesmo. Em 1956, Israel juntou-se &agrave; Fran&ccedil;a e &agrave; Gr&atilde;-Bretanha numa guerra contra o Egipto. Infelizmente para Israel, esta guerra foi lan&ccedil;ada com a oposi&ccedil;&atilde;o dos EUA, e Washington for&ccedil;ou as tr&ecirc;s pot&ecirc;ncias a p&ocirc;r-lhe um fim. <\/p>\n<p>Depois da independ&ecirc;ncia da Arg&eacute;lia em 1962, a Fran&ccedil;a perdeu o interesse na liga&ccedil;&atilde;o a Israel, que agora atrapalhava as suas tentativas de renovar as rela&ccedil;&otilde;es com os tr&ecirc;s novos estados norte-africanos. Foi neste ponto que os Estados Unidos e Israel come&ccedil;aram a forjar rela&ccedil;&otilde;es pr&oacute;ximas. Em 1967, rebentou a guerra de novo entre o Egipto e Israel, e os outros estados &aacute;rabes apoiaram o Egipto. Nesta chamada Guerra dos Seis Dias, os Estados Unidos pela primeira vez forneceram armamento a Israel. <\/p>\n<p>A vit&oacute;ria israelita mudou a situa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica em muitos aspectos. Israel tinha ganho a guerra com facilidade, ocupando todas as partes do mandato brit&acirc;nico que ocupara antes, mais a pen&iacute;nsula eg&iacute;pcia do Sinai e as colinas do Gol&atilde; s&iacute;rias. Juridicamente, havia agora um Estado de Israel mais os territ&oacute;rios ocupados por Israel. Israel come&ccedil;ou uma pol&iacute;tica de estabelecer colonatos judaicos nos territ&oacute;rios ocupados. <\/p>\n<p>A vit&oacute;ria israelita transformou a atitude dos judeus no mundo, que ent&atilde;o superaram quaisquer reservas que tivessem tido em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; cria&ccedil;&atilde;o do Estado de Israel. Ganharam enorme orgulho em rela&ccedil;&atilde;o aos feitos israelitas e come&ccedil;aram a empreender grandes campanhas pol&iacute;ticas nos Estados Unidos e na Europa ocidental para garantir apoio pol&iacute;tico a Israel. A imagem de Israel pioneiro, com &ecirc;nfase nas virtudes dos kibbutz, foi abandonada a favor de uma &ecirc;nfase no Holocausto como justifica&ccedil;&atilde;o fundamental para o apoio mundial a Israel. <\/p>\n<p>Em 1973, os estados &aacute;rabes procuraram corrigir a situa&ccedil;&atilde;o militar na chamada guerra do Yom Kippur. Desta vez, de novo, Israel venceu a guerra, com o apoio das armas norte-americanas. A guerra de 1973 marcou o fim do papel central central dos estados &aacute;rabes. Israel continuou a tentar obter o reconhecimento de estados &aacute;rabes, e finalmente conseguiu-o, tanto com o Egipto quanto com a Jord&acirc;nia, mas j&aacute; era demasiado tarde para que essa fosse a forma de assegurar a exist&ecirc;ncia de Israel. <\/p>\n<p>Nesta altura, emergiu um movimento pol&iacute;tico &aacute;rabe palestiniano, a Organiza&ccedil;&atilde;o para a Liberta&ccedil;&atilde;o da Palestina (OLP), que era agora a principal oposi&ccedil;&atilde;o a Israel, aquela com quem Israel precisava chegar a acordo. Durante muito tempo, Israel recusou-se a lidar com a OLP e o seu l&iacute;der Yasser Arafat, preferindo usar o punho de ferro. E, num primeiro momento, teve sucesso militar. <\/p>\n<p>Os limites da pol&iacute;tica de punho de ferro foram postos em evid&ecirc;ncia pela primeira intifada, um levantamento espont&acirc;neo dos &aacute;rabes palestinianos dentro dos territ&oacute;rios ocupados, que come&ccedil;ou em 1987 e durou seis anos. A intifada teve duas conquistas. For&ccedil;ou os israelitas e os Estados Unidos a falar com a OLP, um longo processo que levou aos chamados Acordos de Oslo de 1993, que conduziram &agrave; cria&ccedil;&atilde;o da Autoridade Palestiniana em parte dos territ&oacute;rios ocupados. <\/p>\n<p>A longo prazo, os Acordos de Oslo foram geopoliticamente menos importantes que o impacto da intifada na opini&atilde;o p&uacute;blica. Pela primeira vez, a imagem de David e Golias tornou-se invertida. Pela primeira vez, come&ccedil;ou a haver s&eacute;rio apoio no mundo ocidental &agrave; chamada solu&ccedil;&atilde;o de dois estados. <\/p>\n<p>Pela primeira vez, come&ccedil;ou a haver cr&iacute;ticas s&eacute;rias em rela&ccedil;&atilde;o ao punho de ferro e &agrave;s suas pr&aacute;ticas em rela&ccedil;&atilde;o aos &aacute;rabes-palestinianos. Tivesse Israel sido s&eacute;rio em rela&ccedil;&atilde;o a uma solu&ccedil;&atilde;o de dois estados baseada na chamada Linha Verde &#8211; a linha de divis&atilde;o no fim da guerra de 1948-1949 &#8211; e teria sido poss&iacute;vel chegar a um entendimento. <\/p>\n<p>Mas Israel estava sempre um passo atr&aacute;s. Quando podia ter negociado com Nasser, n&atilde;o o fez. Quando podia ter negociado com Arafat, n&atilde;o o fez. Quando Arafat morreu e foi sucedido pelo in&uacute;til Mahmud Abbas, o mais militante Hamas venceu as elei&ccedil;&otilde;es parlamentares em 2006. Israel recusou-se a falar com o Hamas. <\/p>\n<p>Agora, Israel invadiu Gaza, procurando destruir o Hamas. Se conseguir, que organiza&ccedil;&atilde;o vir&aacute; a seguir? Se, o que &eacute; mais prov&aacute;vel, n&atilde;o conseguir destruir o Hamas, uma solu&ccedil;&atilde;o de dois estados &eacute; agora poss&iacute;vel? Tanto a opini&atilde;o p&uacute;blica palestiniana quanto a mundial est&aacute; a mover-se para uma solu&ccedil;&atilde;o de um estado. E isto &eacute;, evidentemente, o fim do projecto sionista. <\/p>\n<p>A estrat&eacute;gia de tr&ecirc;s elementos de Israel est&aacute; a decompor-se. O punho de ferro j&aacute; n&atilde;o funciona, tal como n&atilde;o funcionou no caso de George W. Bush no Iraque. A liga&ccedil;&atilde;o com os Estados Unidos vai permanecer firme? Duvido. E a opini&atilde;o p&uacute;blica mundial vai continuar a olhar simpaticamente para Israel? Parece que n&atilde;o. <\/p>\n<p>Pode Israel mudar agora para uma estrat&eacute;gia alternativa, de negocia&ccedil;&atilde;o com os militantes representantes dos &aacute;rabes palestinianos, como parte integrante do M&eacute;dio Oriente, e n&atilde;o como um posto avan&ccedil;ado da Europa? Parece muito tarde para isso, possivelmente demasiado tarde. Portanto, eis a cr&oacute;nica de um suic&iacute;dio anunciado. <br \/><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.esquerda.net\/index.php?option=com_content&amp;task=view&amp;id=10459&amp;Itemid=130\" ><br \/>GO TO ORIGINAL<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Estado de Israel proclamou a sua independ&ecirc;ncia &agrave; meia-noite de 15 de Maio de 1948. As Na&ccedil;&otilde;es Unidas tinham aprovado o estabelecimento de dois estados no territ&oacute;rio que fora a Palestina sob mandato brit&acirc;nico. A cidade de Jerusal&eacute;m devia supostamente ser uma zona internacional sob jurisdi&ccedil;&atilde;o da ONU. 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