{"id":18795,"date":"2012-04-23T20:11:23","date_gmt":"2012-04-23T19:11:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=18795"},"modified":"2012-04-23T20:11:23","modified_gmt":"2012-04-23T19:11:23","slug":"portuguese-na-fronteira-brasil-peru-indios-se-mobilizam-contra-obras-binacionais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2012\/04\/portuguese-na-fronteira-brasil-peru-indios-se-mobilizam-contra-obras-binacionais\/","title":{"rendered":"(Portuguese) Na Fronteira Brasil-Peru, \u00cdndios se Mobilizam Contra Obras Binacionais"},"content":{"rendered":"<p>A anexa\u00e7\u00e3o do Acre pelo Brasil em 1904 deixou em pa\u00edses distintos povos que habitavam uma mesma regi\u00e3o. Mas a explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da \u00e1rea tem estimulado a aproxima\u00e7\u00e3o entre esses grupos ind\u00edgenas, em prol de uma estrat\u00e9gia comum na defesa de seus direitos.<\/p>\n<p>Inaugurada em 2011 e batizada de Interoce\u00e2nica, a rodovia que liga o noroeste brasileiro a portos peruanos no Pac\u00edfico foi constru\u00edda com a promessa de desenvolver a regi\u00e3o e \u00e9 o carro-chefe de uma s\u00e9rie de obras destinadas a ampliar a integra\u00e7\u00e3o entre Brasil e Peru nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>\u00cdndios peruanos e brasileiros, por\u00e9m, temem os efeitos que esses empreendimentos possam ter numa das \u00e1reas mais isoladas da Am\u00e9rica do Sul, em territ\u00f3rio ainda largamente coberto pela floresta amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>Eles tamb\u00e9m se dizem preocupados com os projetos de explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s natural nos dois lados da fronteira e com as amea\u00e7as aos \u00edndios isolados da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo o Censo de 2010, h\u00e1 15.921 \u00edndios no Acre. A maioria vive nas cerca de 30 Terras Ind\u00edgenas (TI) no Estado, quase todas na regi\u00e3o de fronteira.<\/p>\n<p>No lado peruano, faltam dados precisos sobre a quantidade de \u00edndios, mas, segundo o Censo de 2007, h\u00e1 cerca de 270 comunidades ind\u00edgenas nos Departamentos (Estados) de Uyacali e Madre de Dios, que fazem fronteira com o Acre.<\/p>\n<p><strong>Migra\u00e7\u00e3o massiva<\/strong><\/p>\n<p>Jaime Corisepa, presidente da Federa\u00e7\u00e3o Nativa do Rio Madre de Dios e Afluentes (Fenamad), principal movimento ind\u00edgena de Madre de Dios, diz que a Interoce\u00e2nica causou um grande impacto na regi\u00e3o, ao permitir a migra\u00e7\u00e3o massiva de moradores da cordilheira dos Andes para a Amaz\u00f4nia peruana.<\/p>\n<p>Atra\u00eddos pelo ouro em Madre de Dios, milhares desses migrantes t\u00eam se instalado em acampamentos \u00e0 beira da rodovia, desmatando a floresta e poluindo os rios com o garimpo.<\/p>\n<p>&#8220;Essa superpopula\u00e7\u00e3o destr\u00f3i o meio ambiente, que \u00e9 nossa fonte de comida&#8221;, afirma. A BBC Brasil visitou alguns desses acampamentos, repletos de bares e casas de prostitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Corisepa defende, no entanto, que os \u00edndios possam explorar ouro em seus territ\u00f3rios, como j\u00e1 t\u00eam feito, para compensar a falta de aten\u00e7\u00e3o governamental. &#8220;As comunidades ind\u00edgenas t\u00eam direito a uma melhor qualidade de vida. O Estado nunca vai investir em educa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, ent\u00e3o temos que ganhar dinheiro para investir.&#8221;<\/p>\n<p>Corisepa diz temer um agravamento das condi\u00e7\u00f5es na regi\u00e3o caso os pr\u00f3ximos projetos de integra\u00e7\u00e3o binacional saiam do papel, como um acordo energ\u00e9tico que prev\u00ea a constru\u00e7\u00e3o de seis hidrel\u00e9tricas no Peru para abastecer o mercado brasileiro.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas desalojadas pelas hidrel\u00e9tricas entrar\u00e3o nas comunidades ind\u00edgenas. N\u00e3o fomos consultados sobre as obras nem informados sobre como elas v\u00e3o nos beneficiar&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos meses, protestos de ind\u00edgenas fizeram o governo suspender o acordo e anunciar que ele s\u00f3 vigorar\u00e1 ap\u00f3s as comunidades tradicionais serem consultadas, conforme determina a Conven\u00e7\u00e3o 169 da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT).<\/p>\n<p><strong>Alcoolismo e prostitui\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Em seu trecho brasileiro, a Interoce\u00e2nica tamb\u00e9m impactou ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Segundo Juan Scalia, coordenador-substituto da Funai (Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio) em Rio Branco, em duas comunidades no Amazonas cortadas pela estrada houve incremento nos casos de alcoolismo entre \u00edndios (h\u00e1 bares a menos de 500 metros das aldeias), de ca\u00e7a e pesca ilegal e na a\u00e7\u00e3o de madeireiros.<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m afirma que, em obras como essa, \u00e9 comum que \u00edndias sejam assediadas por oper\u00e1rios e, n\u00e3o raro, acabem se prostituindo.<\/p>\n<p>Nem todos, por\u00e9m, condenam a estrada. Moradores de aldeias cortadas pela Interoce\u00e2nica dizem que ela barateou produtos nos mercados locais e rompeu o isolamento da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Antes a estrada era s\u00f3 barro e dava v\u00e1rias voltas. Lev\u00e1vamos dois dias e uma noite para percorr\u00ea-la a p\u00e9 at\u00e9 a cidade mais pr\u00f3xima, porque raramente havia transporte&#8221;, diz Emilda Yanarico, comerciante e moradora de I\u00f1apari, cidade peruana na fronteira com o Brasil.<\/p>\n<p>Se os planos de governantes locais forem concretizados, I\u00f1apari ganhar\u00e1 outra estrada nos pr\u00f3ximos anos. A obra a ligaria a Puerto Esperanza, cidade peruana tamb\u00e9m na fronteira com o Brasil, s\u00f3 que mais ao norte.<\/p>\n<p>Embora a estrada s\u00f3 v\u00e1 cortar o territ\u00f3rio peruano, \u00edndios brasileiros da regi\u00e3o fronteiri\u00e7a t\u00eam se mobilizado contra a obra.<\/p>\n<p><strong>Tr\u00e1fico de drogas<\/strong><\/p>\n<p>Lucas Manchineri, morador da Terra \u00cdndigena (TI) Mamoadate, no Acre, diz que a estrada intensificar\u00e1 a a\u00e7\u00e3o de madeireiros e o tr\u00e1fico de drogas na fronteira, problemas que j\u00e1 afetam sua comunidade, segundo ele.<\/p>\n<p>Manchineri afirma que, nos \u00faltimos dez anos, cerca de 50 traficantes foram detidos por \u00edndios enquanto atravessavam sua TI, tendo sido posteriormente entregues a autoridades brasileiras. &#8220;Estamos fazendo o trabalho da Pol\u00edcia Federal e do Ex\u00e9rcito.&#8221;<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m se diz preocupado com as consequ\u00eancias da nova estrada para os \u00edndios n\u00e3o contatados que habitam a regi\u00e3o, estimados em algumas centenas pela Funai. Para Manchineri, com a estrada, essa popula\u00e7\u00e3o buscar\u00e1 ref\u00fagio em \u00e1reas ocupadas por outros ind\u00edgenas, o que pode desencadear conflitos.<\/p>\n<p>Pelas mesmas raz\u00f5es, outra obra planejada na regi\u00e3o fronteiri\u00e7a preocupa \u00edndios dos dois lados: a constru\u00e7\u00e3o de uma estrada ou de uma ferrovia entre Cruzeiro do Sul (AC) e Pucallpa, no Peru.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda temores quanto \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s natural na regi\u00e3o. No lado peruano, v\u00e1rios lotes j\u00e1 foram cedidos a empresas privadas para a prospec\u00e7\u00e3o dos bens. No brasileiro, a Ag\u00eancia Nacional do Petr\u00f3leo (ANP) deve concluir neste ano testes s\u00edsmicos para avaliar a viabilidade da explora\u00e7\u00e3o dos recursos.<\/p>\n<p>&#8220;Para o governo, progresso \u00e9 extrair petr\u00f3leo, abrir estrada, plantar soja, derrubar madeira. A regi\u00e3o vai se tornar um para\u00edso para empresas sujas&#8221;, diz o l\u00edder ind\u00edgena brasileiro Tashka Yawanaw\u00e1.<\/p>\n<p><strong>Reuni\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>A articula\u00e7\u00e3o entre \u00edndios brasileiros e peruanos da regi\u00e3o fronteiri\u00e7a \u00e9 facilitada por fatores hist\u00f3ricos. Marcela Vecchione, consultora da Comiss\u00e3o Pr\u00f3-\u00cdndio (CPI) do Acre, diz que as fronteiras amaz\u00f4nicas foram definidas conforme crit\u00e9rios econ\u00f4micos e n\u00e3o levaram em conta as comunidades ind\u00edgenas presentes, que em muitos casos foram divididas pelos limites nacionais.<\/p>\n<p>Ao longo de v\u00e1rias d\u00e9cadas, segundo Vecchione, esses povos mantiveram rela\u00e7\u00e3o intensa com os do pa\u00eds vizinho, cruzando a fronteira livremente.<\/p>\n<p>Com a demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas pelos governos do Brasil e do Peru nas \u00faltimas d\u00e9cadas, por\u00e9m, esse fluxo foi em larga medida interrompido, embora muitos povos &#8220;binacionais&#8221; (ou at\u00e9 &#8220;trinacionais&#8221;, nos casos em que tamb\u00e9m possuam integrantes na Bol\u00edvia) mantenham alian\u00e7as por meio de casamentos e rela\u00e7\u00f5es de parentesco com \u00edndios do pa\u00eds vizinho.<\/p>\n<p>As amea\u00e7as comuns sofridas nos dois lados da fronteira, no entanto, t\u00eam encorajado uma aproxima\u00e7\u00e3o maior entre esses povos, que promoveram numerosas reuni\u00f5es nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Parte desses encontros tratou da migra\u00e7\u00e3o de \u00edndios peruanos para o Brasil. Em 2004, segundo a CPI-Acre, a extra\u00e7\u00e3o de madeira em territ\u00f3rio ind\u00edgena ashaninka no Peru (atividade permitida naquele pa\u00eds, desde que aprovada pela comunidade ind\u00edgena local) desestabilizou as aldeias e fez muitas fam\u00edlias se mudarem para um territ\u00f3rio ashaninka do lado brasileiro.<\/p>\n<p>Temendo os efeitos dessa migra\u00e7\u00e3o, os ashaninka brasileiros procuram a Funai. Estabeleceu-se, ent\u00e3o, um grupo de trabalho transfronteiri\u00e7o para tratar do assunto, que j\u00e1 se reuniu 13 vezes desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Com as reuni\u00f5es, diz Marcela Vecchione, a migra\u00e7\u00e3o cessou. Al\u00e9m disso, ela diz que os ashaninka peruanos hoje se mostram dispostos a gerir o territ\u00f3rio como os \u00edndios no Brasil, onde a legisla\u00e7\u00e3o impede explora\u00e7\u00e3o de recursos em terras ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Eles tamb\u00e9m passaram a alertar os ashaninka brasileiros sobre viola\u00e7\u00f5es da fronteira por madeireiros, o que, segundo ela, j\u00e1 gerou uma opera\u00e7\u00e3o da PF.<\/p>\n<p><strong>Obst\u00e1culos e estranhamentos<\/strong><\/p>\n<p>A disposi\u00e7\u00e3o em frear a explora\u00e7\u00e3o de madeira, por\u00e9m, n\u00e3o parece ser un\u00e2nime entre \u00edndios peruanos, o que dificulta um maior entendimento com os ind\u00edgenas brasileiros.<\/p>\n<p>Em reuni\u00e3o recente na Bol\u00edvia, Let\u00edcia Yawanaw\u00e1, vice-coordenadora de uma organiza\u00e7\u00e3o de mulheres ind\u00edgenas brasileiras, disse ter sido questionada por \u00edndios peruanos por que os &#8220;parentes&#8221; do Brasil n\u00e3o recorriam \u00e0 venda de madeira para amenizar a pobreza.<\/p>\n<p>&#8220;Eu respondi que hoje eles podem vender, mas e daqui a 50 anos? A floresta acaba. Sa\u00ed triste do encontro, fiquei com d\u00f3 dos parentes.&#8221;<\/p>\n<p>J\u00e1 \u00edndios peruanos afirmam que, no Brasil, o movimento ind\u00edgena parece estar fragmentado e ter menos for\u00e7a do que ONGs ambientalistas.<\/p>\n<p>L\u00edderes ind\u00edgenas dos dois pa\u00edses dizem desejar, contudo, que haja mais di\u00e1logo entre os povos, para afinar o discurso e resolver as diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o dever\u00e1 ser facilitada com a inaugura\u00e7\u00e3o, neste ano, de um pr\u00e9dio na Universidade Federal do Acre que ter\u00e1 como uma de suas fun\u00e7\u00f5es alojar ind\u00edgenas durante reuni\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.bbc.co.uk\/portuguese\/noticias\/2012\/04\/120423_vale_mapa_indios_3.shtml\" >Veja mapa: Conhe\u00e7a pontos de tens\u00e3o para povos ind\u00edgenas na Am\u00e9rica Latina<\/a><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.bbc.co.uk\/portuguese\/noticias\/2012\/04\/120420_indios_obras_jf_ac.shtml\" >Leia mais: Ind\u00edgenas desafiam fronteiras e se unem contra grandes obras na Am\u00e9rica Latina<\/a><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.bbc.co.uk\/portuguese\/noticias\/2012\/04\/120420_indios_brasil_peru_jf_ac.shtml\" >Go to Original \u2013 bbc.co.uk<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A anexa\u00e7\u00e3o do Acre pelo Brasil em 1904 deixou em pa\u00edses distintos povos que habitavam uma mesma regi\u00e3o. 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