{"id":194517,"date":"2021-09-13T12:01:52","date_gmt":"2021-09-13T11:01:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=194517"},"modified":"2021-09-09T09:31:48","modified_gmt":"2021-09-09T08:31:48","slug":"portugues-frei-betto-homenageia-paulo-freire-em-seu-centenario-de-nascimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2021\/09\/portugues-frei-betto-homenageia-paulo-freire-em-seu-centenario-de-nascimento\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Frei Betto Homenageia Paulo Freire em Seu Centen\u00e1rio de Nascimento"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<div id=\"attachment_28487\" style=\"width: 101px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/leonardo.boff_-e1460363303872.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-28487\" class=\"wp-image-28487 size-full\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/leonardo.boff_-e1460363303872.jpg\" alt=\"\" width=\"91\" height=\"135\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-28487\" class=\"wp-caption-text\">L. Boff<\/p><\/div>\n<p><em>7 Setembro 2021 &#8211; <\/em>Frei Betto \u00e9 um dos melhores conhecedores de Paulo Freire. Al\u00e9m de amigo pessoal aplicou o seu m\u00e9todo na educa\u00e7\u00e3o popular que exerce at\u00e9 os dias de hoje. Essa homenagem que ele lhe presta pelos seus 100 anos de nascimento \u00e9 um misto de experi\u00eancias vividas com ele e exposi\u00e7\u00e3o simples e exemplar de seu m\u00e9todo. Unimo-nos a ele nesta celebra\u00e7\u00e3o. Com ele privei quando Paulo compunha o comit\u00e9 cient\u00edfico do grupo de te\u00f3logos e fil\u00f3sofos, dos quais fazia parte, que editavam e ainda editam a Revista Internacional Concilium (em 7 l\u00ednguas). Logo no in\u00edcio surgiu um grande di\u00e1logo, do qual ele era mestre. Conta-se entre os fundadores da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, coisa que ele o dizia com honra. Aqui vai o texto l\u00facido e vivencial de Frei Betto.<\/p>\n<p>&#8212; Leonardo Boff<\/p>\n<p>**************************************************<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_59546\" style=\"width: 160px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/frei-betto.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-59546\" class=\"wp-image-59546\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/frei-betto-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"113\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/frei-betto-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/frei-betto.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-59546\" class=\"wp-caption-text\">Frei Betto &#8211; (Vin\u00edcius Mendes)<\/p><\/div>\n<p>Posso afirmar, sem receio de exagerar, que Paulo Freire \u00e9 raiz da hist\u00f3ria do poder popular brasileiro nos 50 anos entre 1966 e 2016. Esse poder surgiu, como \u00e1rvore frondosa, da esquerda brasileira atuante na segunda metade do s\u00e9culo XX: grupos que lutaram contra a ditadura militar (1964-1985); as Comunidades Eclesiais de Base das Igrejas crist\u00e3s; a abrangente rede de movimentos populares e sociais despontados nos anos 1970; o sindicalismo combativo; e, na d\u00e9cada de 1980, a funda\u00e7\u00e3o da CUT (Central \u00danica dos Trabalhadores); da ANAMPOS (Articula\u00e7\u00e3o Nacional dos Movimentos Populares e Sindicais) e, em seguida, da CMP (Central de Movimentos Populares); do PT (Partidos dos Trabalhadores); e do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra); e de tantos outros movimentos, ONGs e entidades.<\/p>\n<p>Se eu tivesse que responder \u00e0 sugest\u00e3o: \u201cAponte uma pessoa causa de tudo isso.\u201d Eu diria, sem nenhuma d\u00favida: Paulo Freire. Sem a metodologia de educa\u00e7\u00e3o popular de Paulo Freire, n\u00e3o haveria esses movimentos, porque ele nos ensinou algo de muito importante: ver a hist\u00f3ria pela \u00f3tica dos oprimidos e torn\u00e1-los protagonistas das mudan\u00e7as na sociedade.<\/p>\n<h3><strong>\u00a0<em>Os exclu\u00eddos como sujeitos pol\u00edticos<\/em><\/strong><\/h3>\n<p>Ao sair da pris\u00e3o pol\u00edtica, em fins de 1973, tive a impress\u00e3o de que toda luta aqui fora havia acabado por for\u00e7a da repress\u00e3o da ditadura militar, at\u00e9 porque todos n\u00f3s, imbu\u00eddos da pretens\u00e3o de sermos os \u00fanicos entendidos em luta capaz de resgatar a democracia, est\u00e1vamos na cadeia, mortos ou no ex\u00edlio. Qual n\u00e3o foi a minha surpresa ao encontrar uma imensa rede de movimentos populares disseminados por todo o Brasil.<\/p>\n<p>Quando o PT foi fundado, em 1980, vi companheiros de esquerda reagirem: \u201cOper\u00e1rios? N\u00e3o. \u00c9 muita pretens\u00e3o oper\u00e1rios quererem ser a vanguarda do proletariado! Somos n\u00f3s, intelectuais te\u00f3ricos, marxistas, que temos capacidade para dirigir a classe trabalhadora\u201d. No entanto, no Brasil os oprimidos come\u00e7avam a se tornar n\u00e3o s\u00f3 sujeitos hist\u00f3ricos, mas tamb\u00e9m lideran\u00e7as pol\u00edticas, gra\u00e7as ao m\u00e9todo Paulo Freire.<\/p>\n<p>Uma vez, no M\u00e9xico, companheiros de esquerda me perguntaram:<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 Como fazer aqui algo parecido ao processo de voc\u00eas l\u00e1 no Brasil? Porque voc\u00eas t\u00eam um setor de esquerda na Igreja, um sindicalismo combativo, o PT\u2026 Como se obt\u00e9m essa for\u00e7a pol\u00edtica popular?\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 Comecem fazendo educa\u00e7\u00e3o popular \u2013 respondi \u2013 e daqui a trinta anos\u2026\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Eles me interromperam:<\/p>\n<p>\u2014<em> Trinta anos \u00e9 muito! Queremos uma sugest\u00e3o para tr\u00eas anos.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 Para tr\u00eas anos n\u00e3o sei como fazer \u2013 observei -, mas para trinta anos sei o caminho.<\/em><\/p>\n<p>Em resumo, todo o processo de acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as pol\u00edticas populares, que resultou na elei\u00e7\u00e3o de Lula a presidente do Brasil, em 2002, e manteve o PT no governo federal por treze anos, n\u00e3o caiu do c\u00e9u. Tudo foi constru\u00eddo com muita tenacidade a partir da organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o de bases populares pela aplica\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo Paulo Freire.<\/p>\n<div id=\"attachment_56637\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/paulo-freire.png\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-56637\" class=\"size-medium wp-image-56637\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/paulo-freire-300x169.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"169\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/paulo-freire-300x169.png 300w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/paulo-freire.png 587w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-56637\" class=\"wp-caption-text\">Paulo Freire (Arquivo)<\/p><\/div>\n<h3><em><strong>O m\u00e9todo Paulo Freire\u00a0<\/strong><\/em><\/h3>\n<p>Conheci o m\u00e9todo Paulo Freire em 1963. Eu morava no Rio de Janeiro, integrava a dire\u00e7\u00e3o nacional da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica. Ao surgirem os primeiros grupos de trabalho do m\u00e9todo Paulo Freire, engajei-me em uma equipe que, aos s\u00e1bados, subia para Petr\u00f3polis, distante 70km do Rio, para alfabetizar oper\u00e1rios da F\u00e1brica Nacional de Motores. Ali descobri que ningu\u00e9m ensina nada a ningu\u00e9m, uns ajudam os outros a aprenderem.<\/p>\n<p>O que fizemos com os trabalhadores daquela f\u00e1brica de caminh\u00f5es? Fotografamos as instala\u00e7\u00f5es, reunimos os oper\u00e1rios no sal\u00e3o de uma igreja, projetamos diapositivos e fizemos uma pergunta absolutamente simples:<\/p>\n<blockquote><p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<em>\u00a0\u00a0 \u2014 Nesta foto, o que voc\u00eas\u00a0n\u00e3o\u00a0fizeram?<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 Bem,\u00a0n\u00e3o\u00a0fizemos a \u00e1rvore, a mata, a estrada, a \u00e1gua\u2026\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 Isso que voc\u00eas n\u00e3o fizeram \u00e9 natureza \u2013 dissemos.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 E o que o trabalho humano fez? \u2013 indagamos.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 O trabalho humano fez o tijolo, a f\u00e1brica, a ponte, a cerca\u2026\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 Isso \u00e9 cultura \u2013 dissemos. \u2014 E como essas coisas foram feitas?\u00a0<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Eles debatiam e respondiam:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 Foram feitas na medida em que os seres humanos transformaram a natureza em cultura.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Em seguida, aparecia a foto do p\u00e1tio da F\u00e1brica Nacional de Motores ocupado por muitos caminh\u00f5es e as bicicletas dos trabalhadores. Simplesmente pergunt\u00e1vamos:<\/p>\n<blockquote><p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<em>\u00a0\u00a0 \u2014 Nesta foto, o que voc\u00eas fizeram?\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 Os caminh\u00f5es.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 E o que voc\u00eas possuem?\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 As bicicletas.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u2014 Voc\u00eas n\u00e3o estariam equivocados?\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 N\u00e3o, n\u00f3s fabricamos os caminh\u00f5es\u2026<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 E por que n\u00e3o v\u00e3o para casa de caminh\u00e3o? Por que v\u00e3o de bicicleta?\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 Porque o caminh\u00e3o custa caro, e n\u00e3o pertence a n\u00f3s.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 Quanto custa um caminh\u00e3o?\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 Cerca de 40 mil d\u00f3lares.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u2014 Quanto voc\u00eas ganham por m\u00eas?\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 Bem, ganhamos em m\u00e9dia 200 d\u00f3lares.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 Quanto tempo cada um de voc\u00eas precisa trabalhar, sem comer, sem beber, sem pagar aluguel, economizando todo o sal\u00e1rio para, um dia, ser dono do caminh\u00e3o que voc\u00ea faz?\u00a0<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>A\u00ed eles come\u00e7avam a calcular e tomavam consci\u00eancia da ess\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o capital x trabalho, o que \u00e9 mais-valia, explora\u00e7\u00e3o, etc.<\/p>\n<p>As no\u00e7\u00f5es mais elementares do marxismo, enquanto cr\u00edtica do capitalismo, vinham pelo m\u00e9todo Paulo Freire. Com a diferen\u00e7a de que n\u00e3o est\u00e1vamos dando aula, n\u00e3o faz\u00edamos o que Paulo Freire chamava de \u2018educa\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria\u2019, ou seja, enfiar no\u00e7\u00f5es de pol\u00edtica na cabe\u00e7a do trabalhador. O m\u00e9todo era indutivo. Como dizia Paulo, n\u00f3s, professores, n\u00e3o ensin\u00e1vamos, mas ajud\u00e1vamos os alunos a aprenderem.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/220px-Pedagogy_of_the_oppressed-cover-paulo-freire.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-114730\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/220px-Pedagogy_of_the_oppressed-cover-paulo-freire.jpg\" alt=\"\" width=\"220\" height=\"283\" \/><\/a><em><strong>Culturas distintas e complementares<\/strong><\/em><\/h3>\n<p>Quando cheguei a S\u00e3o Bernardo do Campo (SP), em 1980, havia militantes de esquerda que distribu\u00edam jornais entre as fam\u00edlias dos trabalhadores. Certo dia, dona Marta me indagou:<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u2014 O que \u00e9 \u201ccontradi\u00e7\u00e3o de\u00a0crasse\u201d?\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 Dona Marta, esque\u00e7a isso.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 N\u00e3o sou de muita leitura \u2013 justificou-se \u2013 porque minha vista \u00e9 ruim e a letra, pequena.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 Esque\u00e7a isso \u2013 eu disse. \u2014 A esquerda escreve esses textos para ela mesma ler e ficar feliz, achando que est\u00e1 fazendo revolu\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Paulo Freire nos ensinou, n\u00e3o s\u00f3 a falar em linguagem popular, pl\u00e1stica, n\u00e3o academicamente conceitual, mas tamb\u00e9m a aprender com o povo. Ensinou o povo a resgatar sua autoestima.<\/p>\n<p>Ao sair da pris\u00e3o, morei cinco anos em uma favela no Esp\u00edrito Santo. L\u00e1 trabalhei com educa\u00e7\u00e3o popular no m\u00e9todo Paulo Freire. Ao retornar a S\u00e3o Paulo, no fim dos anos 1970, Paulo Freire me prop\u00f4s dar um balan\u00e7o da nossa experi\u00eancia em educa\u00e7\u00e3o e, gra\u00e7as \u00e0 media\u00e7\u00e3o do jornalista Ricardo Kotscho, produzimos o livro chamado \u201c<em>Essa Escola Chamada Vida<\/em>\u201d (\u00c1tica). \u00c9 o seu relato como educador e criador do m\u00e9todo, e da minha experi\u00eancia como educador de base.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/paulo-freire-oxford.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-126834\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/paulo-freire-oxford.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"291\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/paulo-freire-oxford.jpg 540w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/paulo-freire-oxford-300x218.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><\/p>\n<p>No livro, conto que na favela em que eu morava havia um grupo de mulheres gr\u00e1vidas do primeiro filho, assessoradas por m\u00e9dicos da Secretaria Municipal da Sa\u00fade. Perguntei aos m\u00e9dicos por que trabalhar apenas com mulheres gr\u00e1vidas do primeiro filho.<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 N\u00e3o queremos mulheres que j\u00e1 tenham v\u00edcios maternais. \u2013 disseram \u2013 Queremos ensinar tudo.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Pois bem, passados uns meses, bateram na porta do meu barraco.<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014\u00a0 Betto, queremos sua ajuda.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 Minha ajuda?\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 H\u00e1 um curto-circuito entre n\u00f3s e as mulheres. Elas n\u00e3o entendem o que falamos. Voc\u00ea, que tem experi\u00eancia com esse povo, podia nos assessorar.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Fui assistir ao trabalho deles. Ao entrar no Centro de Sa\u00fade do morro, fiquei assustado. Ali estavam mulheres muito pobres, e o Centro havia sido todo enfeitado com cartazes de beb\u00eas Johnson, loirinhos de olhos azuis, propaganda da Nestl\u00e9 etc. Diante daquele visual, reagi:<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 Est\u00e1 tudo errado. Quando as mulheres entram aqui e olham esses beb\u00eas, percebem que isso \u00e9 outro mundo, n\u00e3o tem nada a ver com os beb\u00eas do morro.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Assisti ao trabalho dos m\u00e9dicos. Percebi que falavam em FM e as mulheres estavam sintonizadas em AM. A comunica\u00e7\u00e3o realmente n\u00e3o funcionava. Numa sess\u00e3o, o doutor Raul explicou, em linguagem cient\u00edfica, a import\u00e2ncia do aleitamento materno e, portanto, das prote\u00ednas, para forma\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro humano. Quando ele terminou a exposi\u00e7\u00e3o, as mulheres o fitaram como eu ao abrir um texto em mandarim ou \u00e1rabe: n\u00e3o entendo nada.<\/p>\n<p><em>\u2014 Dona Maria, a senhora entendeu o que doutor Raul falou? \u2013 perguntei.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o entendi, s\u00f3 entendi que ele falou que o leite da gente \u00e9 bom pra cabe\u00e7a das crian\u00e7as.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 E por que a senhora n\u00e3o entendeu?<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 Porque n\u00e3o tenho estudo. Frequentei pouco a escola, nasci pobre na ro\u00e7a. Eu tinha que trabalhar na enxada e ajudar no sustento da fam\u00edlia.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 E por que o doutor Raul soube explicar tudo isso?\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 Porque ele \u00e9 doutor, \u00e9 estudado. Ele sabe e eu n\u00e3o sei.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 Doutor Raul, o senhor sabe cozinhar? \u2013 indaguei.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 Nem caf\u00e9 sei fazer.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0 \u2014 Dona Maria, a senhora sabe cozinhar?<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 Sei.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 Sabe fazer frango ao molho pardo (prato que, no Espirito Santo, e tamb\u00e9m em algumas \u00e1reas do Nordeste, \u00e9 chamado de galinha de cabidela)?<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u2014 Sei.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 Por favor, fica de p\u00e9 \u2013 pedi \u2013 e conta pra gente como se faz um frango ao molho pardo.<\/em><\/p>\n<p>Dona Maria deu uma aula de culin\u00e1ria: como se mata o frango, de que lado se tiram as penas, como preparar a carne e fazer o molho etc.<\/p>\n<p>Quando ela se sentou, falei:<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u2014 Doutor Raul, o senhor sabe fazer um prato desses?\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 De jeito nenhum, at\u00e9 gosto, mas n\u00e3o sei cozinhar.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 Dona Maria \u2013 conclu\u00ed \u2013 a senhora e o doutor Raul, os dois perdidos em uma mata fechada, famintos e, de repente, aparece uma galinha. Ele, com toda cultura, morreria de fome, a senhora n\u00e3o.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>A mulher abriu um sorriso de orelha a orelha. Ela descobriu, naquele momento, um princ\u00edpio fundamental de Paulo Freire: n\u00e3o existe ningu\u00e9m mais culto do que o outro, existem culturas distintas, socialmente complementares. Se pusermos na balan\u00e7a toda minha filosofia e teologia, e a culin\u00e1ria da cozinheira do convento em que vivo, ela pode passar sem meus conhecimentos, mas eu n\u00e3o posso passar sem a cultura dela. Eis a diferen\u00e7a. A cultura de uma cozinheira \u00e9 imprescind\u00edvel para todos n\u00f3s.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Praxis-paulo-freire.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-153948\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Praxis-paulo-freire.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"235\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Praxis-paulo-freire.jpg 850w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Praxis-paulo-freire-300x141.jpg 300w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Praxis-paulo-freire-768x361.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><\/p>\n<h3><em><strong>Paulo Freire e desafios de futuro<\/strong><\/em><\/h3>\n<p>Diante da emerg\u00eancia de tantos governos autorit\u00e1rios e da profus\u00e3o de mensagens antidemocr\u00e1ticas, racistas, homof\u00f3bicas, machistas e negacionistas nas redes digitais, me parece de suma import\u00e2ncia revisitar Paulo Freire nesta data do centen\u00e1rio de seu nascimento.<\/p>\n<p>O refluxo das for\u00e7as progressistas na Am\u00e9rica Latina nos \u00faltimos anos, e o despontar de figuras neofascistas como Bolsonaro no Brasil, nos obrigam a reconhecer que h\u00e1 d\u00e9cadas abandonamos o trabalho de base de organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o populares. Esse vazio junto \u00e0s popula\u00e7\u00f5es da periferia, das favelas, das zonas rurais pobres, vem sendo ocupado pelo fundamentalismo religioso, pelo narcotr\u00e1fico e milicianos.<\/p>\n<p>Em suas obras, Paulo Freire nos ensina que n\u00e3o h\u00e1 mobiliza\u00e7\u00e3o sem pr\u00e9via conscientiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso que as pessoas tenham um \u201cvaral\u201d onde pendurar os conceitos pol\u00edticos e as chaves de an\u00e1lise da realidade. O \u201cvaral\u201d \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o do tempo como hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>H\u00e1 civiliza\u00e7\u00f5es, tribos, grupos, que n\u00e3o t\u00eam percep\u00e7\u00e3o do tempo como hist\u00f3ria. Os gregos antigos, por exemplo, acreditavam que o tempo \u00e9 c\u00edclico. Hoje, o tempo c\u00edclico retorna por meio do esoterismo, do negacionismo, do fatalismo e do fundamentalismo religioso. Mas retorna, sobretudo, pelo neoliberalismo.<\/p>\n<p>A ess\u00eancia do neoliberalismo \u00e9 a\u00a0<em>desistoriza\u00e7\u00e3o do tempo<\/em>. Quando Fukuyama declarou que \u201cahist\u00f3ria acabou\u201d<em>,<\/em>\u00a0ele expressou isto que o neoliberalismo quer nos incutir: Chegamos \u00e0 plenitude dos tempos! O modo neoliberal de produ\u00e7\u00e3o capitalista, baseado na supremacia do mercado, \u00e9 definitivo! Poucos s\u00e3o os escolhidos e, muitos, os exclu\u00eddos. E n\u00e3o adianta mais querer lutar por uma sociedade alternativa, um \u201coutro mundo poss\u00edvel\u201d!<\/p>\n<p>De fato, hoje em dia \u00e9 dif\u00edcil falar em sociedade alternativa. Socialismo ent\u00e3o, nem pensar! Criou-se um pudor, um bloqueio intelectual e emocional. \u201cO socialismo acabou, desabou, ruiu, foi enterrado!\u201d, alardeiam as pitonisas.As alternativas que se colocam s\u00e3o, em geral, intrassist\u00eamicas.<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o\u00a0de que o\u00a0<em>tempo \u00e9 hist\u00f3ria<\/em>\u00a0vem dos persas, repassada aos hebreus e acentuada pela tradi\u00e7\u00e3o judaica. Tr\u00eas grandes paradigmas de nossa cultura s\u00e3o de origem judaica \u2013 Jesus, Marx e Freud \u2013 e, portanto, trabalharam com a categoria\u00a0de tempo como hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o se consegue estudar o marxismo sem aprofundar os modos de produ\u00e7\u00e3o anteriores, para entender como se chegou ao modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. E entender, em seguida, como suas contradi\u00e7\u00f5es poderiam levar aos modos de produ\u00e7\u00e3o socialista e comunista. A an\u00e1lise marxista sup\u00f5e, portanto, o resgate do tempo como hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Se algu\u00e9m faz an\u00e1lise ou terapia, o psicanalista logo pergunta ao paciente sobre o seu passado, sua inf\u00e2ncia, sua cria\u00e7\u00e3o. Se o paciente puder falar sobre sua vida intrauterina, tanto melhor\u2026 Toda a psicologia de Freud \u00e9 um resgate de nossa temporalidade como indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>A perspectiva de Jesus era hist\u00f3rica. O Deus de Jesus se apresenta com curr\u00edculo vitae: n\u00e3o \u00e9 um deus qualquer \u2013 \u00e9 Deus de Abra\u00e3o, Isaac e Jac\u00f3 \u2013 ou seja, um Deus que faz hist\u00f3ria. A categoria principal da prega\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e9 hist\u00f3rica: o Reino de Deus. Embora colocado l\u00e1 em cima pelo discurso eclesi\u00e1stico, teologicamente n\u00e3o se situa l\u00e1 em cima. O Reino \u00e9 algo l\u00e1 na frente, \u00e9 a culmin\u00e2ncia do processo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso que na B\u00edblia a hist\u00f3ria, como fator de identifica\u00e7\u00e3o do tempo, \u00e9 t\u00e3o forte que no relato do\u00a0<em>G\u00eanesis<\/em>\u00a0a Cria\u00e7\u00e3o do mundo j\u00e1 aparece marcada por essa historicidade do tempo antes do aparecimento do ser humano.<\/p>\n<p>Para muitos, hist\u00f3ria \u00e9 aquilo que homens e mulheres fazem. Ent\u00e3o, n\u00e3o haveria hist\u00f3ria antes do surgimento de homens e mulheres, tanto que se fala em pr\u00e9-hist\u00f3ria. Para a B\u00edblia, j\u00e1 h\u00e1 hist\u00f3ria antes do aparecimento do ser humano. Tanto que os gregos consideravam o deus dos hebreus uma entidade muito incompetente. Um verdadeiro deus cria como o Nescaf\u00e9: instant\u00e2neo, e n\u00e3o a prazo, como mostra o relato b\u00edblico. Ora, no relato da Cria\u00e7\u00e3o, em sete dias, j\u00e1 h\u00e1 historicidade. E Paulo Freire, homem de forma\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e militante adepto dos fundamentos do marxismo, soube perceber a import\u00e2ncia da leitura do mundo como condi\u00e7\u00e3o da leitura do texto.<\/p>\n<p>Ao neoliberalismo n\u00e3o conv\u00e9m essa perspectiva. Por isso, n\u00e3o se pode fazer educa\u00e7\u00e3o popular sem ter o \u201cvaral\u201d para dependurar as roupas\u2026 Esse \u201cvaral\u201d \u2013 o tempo enquanto hist\u00f3ria \u2013 \u00e9 fundamental para que se possa visualizar o processo social e pol\u00edtico. Isso acontece tamb\u00e9m na dimens\u00e3o micro de nossas vidas. Por que, hoje, muitos t\u00eam dificuldade de ter projetos de vida? Por que jovens chegam ao 20 anos sem a menor ideia do que pretendem ser ou fazer da vida? Para muitos deles,\u00a0tudo \u00e9 aqui e agora.<\/p>\n<p>Portanto, se queremos resgatar o legado de Paulo Freire, o caminho \u00e9 voltar ao trabalho de base com as classes populares, adotando o seu m\u00e9todo em uma perspectiva hist\u00f3rica, aberta \u00e0s utopias libert\u00e1rias e ao horizonte democr\u00e1tico. Fora do povo n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o. E se acreditamos que a democracia deve ser, de fato, o governo do povo para o povo e com o povo, n\u00e3o resta alternativa sen\u00e3o adotar o processo educativo paulofreiriano que situa os oprimidos como protagonistas pol\u00edticos e hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p>Quando Paulo Freire retornou de 15 anos de ex\u00edlio, em agosto de 1979, nos encontramos em S\u00e3o Paulo. \u00c9ramos vizinhos e, com frequ\u00eancia, eu o visitava. Estreitamos muito as nossas rela\u00e7\u00f5es pessoais.<\/p>\n<p>Assim, termino esta homenagem com este texto que escrevi no dia 2 de maio de 1997, data da transvivencia\u00e7\u00e3o de Paulo Freire:<\/p>\n<blockquote><p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<em>\u201cIvo viu a uva\u201d, ensinavam os manuais de alfabetiza\u00e7\u00e3o. Mas o professor Paulo Freire, com o seu m\u00e9todo de alfabetizar conscientizando, fez adultos e crian\u00e7as, no Brasil e na Guin\u00e9-Bissau, na \u00cdndia, na Nicar\u00e1gua e em tantos outros lugares, descobrirem que Ivo n\u00e3o viu apenas com os olhos. Viu tamb\u00e9m com a mente e se perguntou se uva \u00e9 natureza ou cultura.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;<em>Ivo viu que a fruta n\u00e3o resulta do trabalho humano. \u00c9 Cria\u00e7\u00e3o, \u00e9 natureza. Paulo Freire ensinou a Ivo que semear uva \u00e9 a\u00e7\u00e3o humana na e sobre a natureza. E a m\u00e3o, multiferramenta, desperta as potencialidades do fruto. Assim como o pr\u00f3prio ser humano foi semeado pela natureza em anos e anos de evolu\u00e7\u00e3o do Universo.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;<em>Colher a uva, esmag\u00e1-la e transform\u00e1-la em vinho \u00e9 cultura, assinalou Paulo Freire. O trabalho humaniza a natureza e, ao realiz\u00e1-lo, o homem e a mulher se humanizam. Trabalho que instaura o n\u00f3 de rela\u00e7\u00f5es, a vida social. Gra\u00e7as ao professor, que iniciou sua pedagogia revolucion\u00e1ria com trabalhadores do Sesi de Pernambuco, Ivo viu tamb\u00e9m que a uva \u00e9 colhida por boias-frias, que ganham pouco, e comercializada por atravessadores, que ganham muito mais.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&#8220;<em>Ivo aprendeu com Paulo que, mesmo sem ainda saber ler, ele n\u00e3o \u00e9 uma pessoa ignorante. Antes de aprender as letras, Ivo sabia erguer uma casa, tijolo a tijolo. O m\u00e9dico, o advogado ou o dentista, com todo o seu estudo, n\u00e3o \u00e9 capaz de construir como Ivo. Paulo Freire ensinou a Ivo que n\u00e3o existe ningu\u00e9m mais culto do que o outro, existem culturas paralelas, distintas, que se complementam na vida social.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;<em>Ivo viu a uva e Paulo Freire mostrou-lhe os cachos, a parreira, a planta\u00e7\u00e3o inteira. Ensinou a Ivo que a leitura de um texto \u00e9 tanto melhor compreendida quanto mais se insere o texto no contexto do autor e do leitor. \u00c9 dessa rela\u00e7\u00e3o dial\u00f3gica entre texto e contexto que Ivo extrai o pretexto para agir. No in\u00edcio e no fim do aprendizado \u00e9 a pr\u00e1xis de Ivo que importa. Pr\u00e1xis-teoria-pr\u00e1xis, num processo indutivo que torna o educando sujeito hist\u00f3rico.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;<em>Ivo viu a uva e n\u00e3o viu a ave que, de cima, enxerga a parreira e n\u00e3o v\u00ea a uva. O que Ivo v\u00ea \u00e9 diferente do que v\u00ea a ave. Assim, Paulo Freire ensinou a Ivo um princ\u00edpio fundamental de epistemologia: a cabe\u00e7a pensa onde os p\u00e9s pisam. O mundo desigual pode ser lido pela \u00f3tica do opressor ou pela \u00f3tica do oprimido. Resulta uma leitura t\u00e3o diferente uma da outra como entre a vis\u00e3o de Ptolomeu, ao observar o sistema solar com os p\u00e9s na Terra, e a de Cop\u00e9rnico, ao imaginar-se com os p\u00e9s no Sol.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;<em>Agora Ivo v\u00ea a uva, a parreira e todas as rela\u00e7\u00f5es sociais que fazem do fruto festa no c\u00e1lice de vinho, mas j\u00e1 n\u00e3o v\u00ea Paulo Freire, que mergulhou no Amor, na manh\u00e3 de 2 de maio de 1997. Deixa-nos uma obra inestim\u00e1vel e um testemunho admir\u00e1vel de compet\u00eancia e coer\u00eancia.<\/em><\/p>\n<p>&#8221; <em>Paulo deveria estar em Cuba, onde receberia o t\u00edtulo de\u00a0<\/em>Doutor Honoris Causa<em>, da Universidade de Havana. Ao sentir dolorido seu cora\u00e7\u00e3o que tanto amou, pediu que eu fosse represent\u00e1-lo. De passagem marcada para a Palestina, n\u00e3o me foi poss\u00edvel atend\u00ea-lo. Contudo, antes de embarcar fui rezar com Nita, sua mulher, e os filhos, em torno de seu semblante tranquilo: Paulo via Deus.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*****************************<\/p>\n<\/blockquote>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Paulo-Freire-Pedagogia-do-Oprimido-PDF.pdf\" >Paulo Freire &#8211; Pedagogia do Oprimido PDF<\/a><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/Pedagogy-of-the-Oppressed-Paulo-Freire.pdf\" >Pedagogy of the Oppressed &#8211; Paulo Freire<\/a> (PDF)<\/h2>\n<p><em>_______________________________________________<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/Frei_Betto.gif\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-63704 alignleft\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/Frei_Betto.gif\" alt=\"\" width=\"100\" height=\"97\" \/><\/a><em>Frei Betto \u00e9 escritor, assessor de movimentos sociais e<\/em> <em>autor de:<\/em> Para\u00edso Perdido-Viagens ao Mundo Socialista <em>(Rocco); <\/em>O Diabo na Corte-Leitura Cr\u00edtica do Brasil Atual <em>(Cortez)<\/em>;<em> e<\/em> <em>do romance policial <\/em>Hotel Brasil<em> (Rocco) entre outros livros.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/15342-Leonardo_Boff_bio-e1517222599916.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-105405\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/15342-Leonardo_Boff_bio-e1517222599916.jpg\" alt=\"\" width=\"100\" height=\"75\" \/><\/a>Leonardo Boff \u00e9 um escritor, te\u00f3logo e fil\u00f3sofo brasileiro, professor em\u00e9rito de \u00e9tica e filosofia da religi\u00e3o da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, recebedor do <\/em><strong><em>Pr\u00eamio Nobel Alternativo da Paz<\/em><\/strong><em> do Parlamento sueco [<\/em><strong><em>Right Livelihood Award<\/em><\/strong><em>]em 2001, membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra, e professor visitante em v\u00e1rias universidades estrangeiras como Basel, Heidelberg, Harvard, Lisboa e Salamanca. Expoente da <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teologia_da_Liberta%C3%A7%C3%A3o\" >Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/a><\/em><em> no Brasil, foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. \u00c9 respeitado pela sua hist\u00f3ria de defesa pelas causas sociais e atualmente debate tamb\u00e9m quest\u00f5es ambientais. Colunista do <\/em>Jornal do Brasil<em>, escreveu os livros<\/em> Francisco de Assis: Ternura e Vigor, <em>Vozes 2000; <\/em>\u00a0A Terra na palma da m\u00e3o: uma nova vis\u00e3o do planeta e da humanidade<em>,Vozes 2016;\u00a0 <\/em>Cuidar da Terra \u2013 proteger a vida: como escapar do fim do mundo<em>, Record 2010; <\/em>\u00a0<em>A <\/em>hospitalidade: Direito e dever de todos, <em>Vozes 2005<\/em>; Paix\u00e3o de Cristo, Paix\u00e3o do Mundo<em>, Vozes 2001<\/em>; Brasil: Concluir a refunda\u00e7\u00e3o ou prolongar a depend\u00eancia, <em>Vozes 2018; <\/em><em>\u201cDestino e Desatino da Globaliza\u00e7\u00e3o\u201d em<\/em><em>: Do iceberg \u00e0 Arca de No\u00e9,<\/em><em> Mar de Ideias, Rio 2010 pp. 41-63.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/paulo-freire-obra1.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-55686\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/paulo-freire-obra1-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"100\" height=\"75\" \/><\/a><em>Paulo Freire [19 set 1921 &#8211; 2 mai 1997] nasceu em Recife, Brasil. Em 1947 come\u00e7ou a trabalhar com analfabetos adultos no Nordeste do Brasil e aos poucos foi evoluindo um m\u00e9todo de trabalho ao qual foi associada a palavra conscientiza\u00e7\u00e3o. At\u00e9 1964 foi professor de Hist\u00f3ria e Filosofia da Educa\u00e7\u00e3o na Universidade do Recife e na d\u00e9cada de 1960 esteve envolvido com um movimento de educa\u00e7\u00e3o popular para lidar com o analfabetismo em massa. A partir de 1962, houve experi\u00eancias generalizadas com seu m\u00e9todo e o movimento foi estendido sob o patroc\u00ednio do governo federal. Em 1963-4 havia cursos para coordenadores em todos os estados brasileiros e foi tra\u00e7ado um plano para a implanta\u00e7\u00e3o de 2.000 c\u00edrculos culturais para atingir 2.000.000 de analfabetos! Freire foi preso ap\u00f3s o golpe de Estado de 1964 pelo que o novo regime considerou elementos subversivos em seu ensino. Em seguida, ele apareceu no ex\u00edlio no Chile, onde seu m\u00e9todo foi usado e a Escola de Ci\u00eancias Pol\u00edticas da ONU realizou semin\u00e1rios sobre seu trabalho. Em 1969-70, foi professor visitante no Centro para o Estudo do Desenvolvimento e Mudan\u00e7a Social da Universidade de Harvard. Em seguida, foi para o Conselho Mundial de Igrejas em Genebra, onde, em 1970, assumiu o cargo de consultor especial no Escrit\u00f3rio de Educa\u00e7\u00e3o. Ao longo dos nove anos seguintes nesse cargo, ele aconselhou sobre reforma educacional e iniciou atividades de educa\u00e7\u00e3o popular com uma s\u00e9rie de grupos. Paulo Freire p\u00f4de retornar ao Brasil em 1979. Ele ingressou no Partido dos Trabalhadores em S\u00e3o Paulo e liderou seu projeto de alfabetiza\u00e7\u00e3o de adultos por seis anos. Quando o partido assumiu o controle do munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es de 1988, Paulo Freire foi nomeado Secret\u00e1rio da Educa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo. <\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/leonardoboff.org\/2021\/09\/07\/homenagem-a-paulo-freire-em-seu-centenario-de-nascimentofrei-betto\/\" >Go to Original \u2013 leonardoboff.org<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>7 Setembro 2021 &#8211; Frei Betto \u00e9 um dos melhores conhecedores de Paulo Freire. Al\u00e9m de amigo pessoal aplicou o seu m\u00e9todo na educa\u00e7\u00e3o popular que exerce at\u00e9 os dias de hoje. Essa homenagem que ele lhe presta pelos seus 100 anos de nascimento \u00e9 um misto de experi\u00eancias vividas com ele e exposi\u00e7\u00e3o simples e exemplar de seu m\u00e9todo. Unimo-nos a ele nesta celebra\u00e7\u00e3o. &#8212; L. 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