{"id":19484,"date":"2012-06-04T12:00:00","date_gmt":"2012-06-04T11:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=19484"},"modified":"2012-06-04T00:18:53","modified_gmt":"2012-06-03T23:18:53","slug":"portuguese-democracia-o-novo-fantasma-dos-mercados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2012\/06\/portuguese-democracia-o-novo-fantasma-dos-mercados\/","title":{"rendered":"(Portuguese) Democracia, o Novo Fantasma dos Mercados"},"content":{"rendered":"<p><em>\u201cO sujeito que odeia os progressistas em Londres, apresenta-se como progressista na \u00c1frica\u201d.<\/em><br \/>\n(Chesterton, 1808, loc. cit.) [1]<\/p>\n<p>Imagine uma cena de um filme dist\u00f3pico que mostre nossa sociedade num futuro pr\u00f3ximo. Guardas uniformizados patrulham ruas semivazias dos centros das cidades, \u00e0 ca\u00e7a de imigrantes, criminosos e desocupados. Os que encontram, os guardas espancam. O que parece fantasia de Hollywood j\u00e1 \u00e9 realidade hoje, na Gr\u00e9cia.\u00a0Durante a noite, vigilantes uniformizados com as camisas negras do partido neofascista Golden Dawn [Aurora Dourada], de negadores do Holocausto \u2013, que receberam 7% dos votos no segundo turno das elei\u00e7\u00f5es gregas e que contam com o apoio, como ouve-se pela cidade, de 50% da pol\u00edcia de Atenas \u2013 patrulham as ruas, espancando todos os imigrantes que cruzem seu caminho: afeg\u00e3os, paquistaneses, argelinos. \u00c9 como a Europa defende-se hoje, na primavera de 2012.<\/p>\n<p>O problema de defender a civiliza\u00e7\u00e3o europeia contra a amea\u00e7a dos imigrantes \u00e9 que a ferocidade com que os defensores europeus defendem-se \u00e9 amea\u00e7a muito maior a qualquer \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d, que qualquer tipo de invas\u00e3o de mu\u00e7ulmanos, e ainda que todos os mu\u00e7ulmanos decidissem mudar-se para a Europa. Com defensores como esses, a Europa n\u00e3o precisa de inimigos.\u00a0H\u00e1 cem anos, G.K. Chesterton deu forma articulada ao impasse em que se metem os que criticam a religi\u00e3o: \u201cHomens que se p\u00f5em a combater igrejas em nome da liberdade e da humanidade espantam de si mesmos a liberdade e a humanidade em nome do combate \u00e0 igreja (\u2026). Os secularistas n\u00e3o provocaram o naufr\u00e1gio das coisas divinas; s\u00f3 fizeram naufragar coisas seculares\u2026 se isso lhes serve de consolo.\u201d [1]<\/p>\n<p>Tantos guerreiros liberais andam t\u00e3o furiosamente decididos a combater o fundamentalismo anti-democr\u00e1tico, que acabam esquecendo qualquer liberdade e qualquer democracia, tudo em nome de combater o terror. Se os \u201cterroristas\u201d est\u00e3o dispostos a destruir nosso mundo por amor a outro mundo, nossos guerreiros antiterror prontificam-se a devastar qualquer democracia, por \u00f3dio ao pr\u00f3ximo mu\u00e7ulmano. Alguns deles amam tanto a dignidade humana que, para defend\u00ea-la, disp\u00f5em-se a legalizar a tortura\u2026 \u00c9 a invers\u00e3o do processo pelo qual os fan\u00e1ticos defensores da religi\u00e3o come\u00e7aram por atacar a cultura secular contempor\u00e2nea e acabaram por sacrificar at\u00e9 as pr\u00f3prias credenciais religiosas, na \u00e2nsia de erradicar todos os aspectos que odeiam no secularismo.<\/p>\n<p>Mas os defensores que insistem em defender a Gr\u00e9cia contra imigrantes n\u00e3o s\u00e3o o principal perigo: n\u00e3o passam de subproduto do perigo muito maior: as pol\u00edticas de austeridade que causaram a desgra\u00e7a da Gr\u00e9cia. As pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es na Gr\u00e9cia est\u00e3o marcadas para dia 17 de junho. O <em>establishment<\/em> europeu alerta que s\u00e3o elei\u00e7\u00f5es cruciais: n\u00e3o estaria em jogo s\u00f3 o destino da Gr\u00e9cia, mas o destino de toda a Europa. Um resultado \u2013 o correto, segundo eles \u2013 levar\u00e1 ao processo doloroso mas necess\u00e1rio de recupera\u00e7\u00e3o. A alternativa \u2013 no caso de vit\u00f3ria do Partido Syriza, de \u201cextrema esquerda\u201d \u2013 seria votar pelo caos, pelo fim do mundo (europeu) como o conhecemos.<\/p>\n<p>Os profetas do apocalipse est\u00e3o corretos, mas n\u00e3o como sup\u00f5em ou pretendem. Cr\u00edticos dos arranjos democr\u00e1ticos hoje vigentes reclamam que as elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o oferecem op\u00e7\u00e3o real: votamos para escolher apenas entre uma centro-direita e uma centro-esquerda cujos programas s\u00e3o quase absolutamente id\u00eanticos. Mas dia 17 de junho, afinal, haver\u00e1 escolha significativa: de um lado o <em>establishment<\/em> (Nova Democracia e Pasok); do outro lado, a Coaliz\u00e3o Syriza. E, como acontece quase sempre em que h\u00e1 escolhas reais no mercado eleitoral, o <em>establishment<\/em> est\u00e1 em p\u00e2nico: caos, pobreza e viol\u00eancia eclodir\u00e3o imediatamente, dizem, se os eleitores escolherem \u201cerrado\u201d. A mera possibilidade de vit\u00f3ria da Coaliz\u00e3o Syriza, como se ouve, j\u00e1 dispara convuls\u00f5es de medo nos mercados. A prosopop\u00e9ia ideol\u00f3gica \u00e9 rampante: os mercados falam como se fossem gente, manifestam \u201cpreocupa\u00e7\u00e3o\u201d pelo que acontecer\u00e1 se as elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o produzirem governo com mandato para manter o programa de austeridade e reformas estruturais de UE-FMI. Os cidad\u00e3os gregos n\u00e3o t\u00eam tempo para pensar nas preocupa\u00e7\u00f5es \u201cdos mercados\u201d: mal conseguem ter tempo para preocupar-se com a sobreviv\u00eancia di\u00e1ria, numa vida que j\u00e1 alcan\u00e7a graus de mis\u00e9ria que n\u00e3o se viam na Europa h\u00e1 d\u00e9cadas.<\/p>\n<h4>Gr\u00e9cia n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o. L\u00e1 se testa um novo modelo socioecon\u00f4mico: uma tecnocracia despolitizada, na qual banqueiros e outros especialistas ganham carta branca para demolir a democracia.<\/h4>\n<p>Todas essas s\u00e3o previs\u00f5es enunciadas para se autocumprirem, causar mais p\u00e2nico e, assim, for\u00e7ar as coisas a andarem na dire\u00e7\u00e3o \u201cprevista\u201d. Se a Coaliz\u00e3o Syriza vencer, o <em>establishment<\/em> europeu ficar\u00e1 \u00e0 espera de que n\u00f3s aprendamos com nossos erros o que acontece quando algu\u00e9m tenta interromper, por via democr\u00e1tica, o ciclo vicioso de cumplicidade bandida, entre os tecnocratas de Bruxelas e a demagogia suicida do populismo anti-imigrantes.<\/p>\n<p>Foi exatamente o que disse Alexis Tsipras, candidato da Coaliz\u00e3o Syriza, em entrevista recente: que sua prioridade absoluta, no caso de sua coaliz\u00e3o vencer as elei\u00e7\u00f5es, ser\u00e1 conter o p\u00e2nico: \u201cOs gregos derrotar\u00e3o o medo. N\u00e3o sucumbir\u00e3o. N\u00e3o se deixar\u00e3o chantagear.\u201d<\/p>\n<p>A tarefa da Coaliz\u00e3o Syriza \u00e9 quase imposs\u00edvel. A coaliz\u00e3o n\u00e3o traz a voz da \u201cloucura\u201d da extrema esquerda, mas a voz do falar racional contra a loucura da ideologia dos mercados. No movimento de prontid\u00e3o para assumir o governo da Gr\u00e9cia, j\u00e1 derrotaram o medo de governar, t\u00e3o caracter\u00edstico entre a esquerda; j\u00e1 mostraram que n\u00e3o temem fazer a faxina do quadro confuso que herdar\u00e3o. Ter\u00e3o de mostrar-se capazes de montar e cumprir uma formid\u00e1vel combina\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios e pragmatismo; de compromisso democr\u00e1tico e presteza para intervir com firmeza onde seja preciso. Para que tenham uma m\u00ednima chance de sucesso, precisar\u00e3o de toda a solidariedade dos povos europeus; n\u00e3o s\u00f3 de respeito e tratamento decente pelos demais pa\u00edses europeus, mas, tamb\u00e9m, de ideias mais criativas \u2013 como a de um \u201cturismo solid\u00e1rio\u201d nesse ver\u00e3o, que j\u00e1 propuseram.<\/p>\n<p>Em suas <em>Notes towards the Definition of Culture<\/em>, T.S. Eliot [2] observou que h\u00e1 momentos em que a \u00fanica escolha \u00e9 entre a heresia e o n\u00e3o crer \u2013 ou seja., quando o \u00fanico meio para manter viva uma religi\u00e3o \u00e9 promover uma divis\u00e3o her\u00e9tica. Essa \u00e9, hoje, a posi\u00e7\u00e3o em que est\u00e1 a Europa. S\u00f3 uma nova \u201cheresia\u201d \u2013 representada hoje pela Coaliz\u00e3o Syriza \u2013 pode salvar o que valha a pena do legado europeu: a democracia, a confian\u00e7a nas pessoas, a solidariedade igualit\u00e1ria etc. A Europa que haver\u00e1 para n\u00f3s, se a Coaliz\u00e3o Syriza for descartada, \u00e9 uma \u201cEuropa com valores asi\u00e1ticos\u201d \u2013 os quais, \u00e9 claro, nada t\u00eam a ver com a \u00c1sia, e tem tudo a ver com a tend\u00eancia do capitalismo contempor\u00e2neo, para suspender a democracia.<\/p>\n<p>Eis o paradoxo que mant\u00e9m o \u201cvoto livre\u201d nas sociedades democr\u00e1ticas: cada um \u00e9 livre para escolher, desde que fa\u00e7a a escolha certa. Por isso, quando se faz a escolha errada (como quando a Irlanda rejeitou a Constitui\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia), a escolha \u00e9 tratada como erro; e o <em>establishment<\/em> imediatamente exige que se repita o processo \u201cdemocr\u00e1tico\u201d, para que o erro seja reparado. Quando George Papandreou, ent\u00e3o primeiro-ministro grego, prop\u00f4s um referendo sobre a proposta de resgate que a eurozona apresentara no final do ano passado, at\u00e9 este foi descartado como falsa escolha.<\/p>\n<p>H\u00e1 duas principais narrativas na m\u00eddia, sobre a crise grega: a narrativa alem\u00e3-europeia (os gregos s\u00e3o irrespons\u00e1veis, pregui\u00e7osos, gastadores, n\u00e3o pagam impostos, etc.; e t\u00eam de ser postos sob controle, com aulas de disciplina financeira); e a narrativa grega (nossa soberania nacional est\u00e1 amea\u00e7ada pelo tecnologia neoliberal imposta por Bruxelas). Quando se tornou imposs\u00edvel ignorar o supl\u00edcio do povo grego, emergiu uma terceira narrativa: os gregos est\u00e3o sendo apresentados hoje como v\u00edtimas de desastre humanit\u00e1rio, carentes de ajuda, como se alguma guerra ou cat\u00e1strofe natural tivesse atingido o pa\u00eds. As tr\u00eas s\u00e3o falsas narrativas, mas a terceira parece ser a mais repugnante. Os gregos n\u00e3o s\u00e3o v\u00edtimas passivas. Os gregos est\u00e3o em guerra contra o <em>establishment<\/em> econ\u00f4mico europeu. Precisam de solidariedade nessa luta, porque a luta dos gregos \u00e9 a luta de todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>A Gr\u00e9cia n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o. \u00c9 mais uma, dentre v\u00e1rias pistas de testes de um novo modelo socioecon\u00f4mico de aplica\u00e7\u00e3o quase ilimitada: uma tecnocracia despolitizada, na qual banqueiros e outros especialistas ganham carta branca para demolir a democracia. Ao salvar a Gr\u00e9cia de seus ditos \u201csalvadores\u201d, salvaremos tamb\u00e9m a Europa.<\/p>\n<p><strong>NOTAS:<\/strong><\/p>\n<p>[1] CHESTERTON, Gilbert K., Orthodoxy [1908], \u201cVIII: The Romance of Orthodoxy\u201d, em <a href=\"http:\/\/www.leaderu.com\/cyber\/books\/orthodoxy\/orthodoxy.html\"  target=\"_blank\">http:\/\/www.leaderu.com\/cyber\/books\/orthodoxy\/orthodoxy.html<\/a> (ing.) [NTs].<\/p>\n<p>[2] ELIOT, T. S. Notas para uma defini\u00e7\u00e3o de cultura. Lisboa: S\u00e9culo XXI, 1996.<\/p>\n<p>____________________<\/p>\n<p><em>O fil\u00f3sofo esloveno Slavoj<\/em><em> \u017di\u017eek \u00e9 o diretor internacional do Instituto Birkbeck para Humanidades, Universidade de Londres. Seu livro mais recente \u00e9 <\/em><em>Less than Nothing: Hegel and the Shadow of Dialectical Materialism<\/em><em>.<\/em><\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Vila Vudu.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.outraspalavras.net\/2012\/05\/29\/democracia-o-novo-fantasma-dos-mercados\/\" >Go to Original \u2013 outraspalavras.net<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num artigo publicado na London Review of Books, o fil\u00f3sofo esloveno sustenta que \u201cs\u00f3 uma nova &#8216;heresia&#8217; \u2013 representada hoje pela Syriza \u2013 pode salvar o que valha a pena do legado europeu: a democracia, a confian\u00e7a nas pessoas, a solidariedade igualit\u00e1ria\u201d. Recordamos que o Manifesto de Solidariedade com a Gr\u00e9cia continua a receber ades\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-19484","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19484","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19484"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19484\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19484"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19484"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19484"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}