{"id":19658,"date":"2012-06-18T12:00:16","date_gmt":"2012-06-18T11:00:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=19658"},"modified":"2012-06-10T18:01:15","modified_gmt":"2012-06-10T17:01:15","slug":"portuguese-a-ausencia-de-uma-nova-narrativa-na-rio20-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2012\/06\/portuguese-a-ausencia-de-uma-nova-narrativa-na-rio20-2\/","title":{"rendered":"(Portuguese) A Aus\u00eancia de Uma Nova Narrativa na Rio+20"},"content":{"rendered":"<p><em>O vazio b\u00e1sico do documento da ONU para a Rio+20 reside numa completa aus\u00eancia de uma nova narrativa ou de uma nova cosmologia que poderia garantir a esperan\u00e7a de um \u201cfuturo que queremos\u201d lema do grande encontro. A narrativa atual \u00e9 a da conquista do mundo em vista do progresso e do crescimento ilimitado. <\/em><\/p>\n<p>O vazio b\u00e1sico do documento da ONU para a Rio+20 reside numa completa aus\u00eancia de uma nova narrativa ou de uma nova cosmologia que poderia garantir a esperan\u00e7a de um \u201cfuturo que queremos\u201d lema do grande encontro. Assim como est\u00e1, nega qualquer futuro promissor.<\/p>\n<p>Para seus formuladores, o futuro depende da economia, pouco importa o adjetivo que se lhe agregue: sustent\u00e1vel ou verde. Especialmente a economia verde opera o grande assalto ao \u00faltimo reduto da natureza: transformar em mercadoria e colocar pre\u00e7o \u00e0quilo que \u00e9 comum, natural, vital e insubstitu\u00edvel para a vida como a \u00e1gua, solos, fertilidade, florestas, genes etc. O que pertence \u00e0 vida \u00e9 sagrado e n\u00e3o pode ir para o mercado dos neg\u00f3cios. Mas est\u00e1 indo, sob o imperativo categ\u00f3rico: apropia-te de tudo, fa\u00e7a com\u00e9rcio com tudo , especialmente com a natureza e com seus bens e servi\u00e7os.<\/p>\n<p>Eis aqui o supremo egocentrismo e a arrog\u00e2ncia dos seres humanos, chamado tamb\u00e9m de antropocentrismo. Estes veem a Terra como um armaz\u00e9m de recursos s\u00f3 para eles, sem se dar conta de que n\u00e3o somos os \u00fanicos a habitar a Terra nem somos seus propriet\u00e1rios; n\u00e3o nos sentimos parte da natureza, mas fora e acima dela como seus \u201cmestres e donos\u201d. Esquecemos, entretanto, que existe toda a comunidade de vida vis\u00edvel (5% da biosfera) e os quintilh\u00f5es de quintilh\u00f5es de microrganismos invis\u00edveis (95%) que garantem a vitalidade e fecundidade da Terra. Todos estes pertencem ao condom\u00ednio Terra e t\u00eam direito de viver e conviver conosco. Sem as rela\u00e7\u00f5es de interdepend\u00eancia com eles, sequer poder\u00edamos existir. O documento desconsidera tudo isso. Podemos ent\u00e3o dizer: Com ele n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o. Ele abre o caminho para o abismo. Enquanto tivermos tempo, urge evit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Tal vazio se deriva da velha narrativa ou cosmologia. Por narrativa ou cosmologia entendemos a vis\u00e3o do mundo que subjaz \u00e0s id\u00e9ias, \u00e0s pr\u00e1ticas, aos h\u00e1bitos e aos sonhos de uma sociedade. Por ela se procura explicar a origem, a evolu\u00e7\u00e3o e o prop\u00f3sito do universo, da hist\u00f3ria e o lugar do ser humano.<\/p>\n<p>A nossa atual \u00e9 a narrativa ou a cosmologia da conquista do mundo em vista do progresso e do crescimento ilimitado. Caracteriza-se por ser mecanicista, determin\u00edstica, atom\u00edstica e reducionista. Por for\u00e7a desta narrativa 20% da popula\u00e7\u00e3o mundial controla e consome 80% de todos os recursos naturais; metade das grandes florestas foram destru\u00eddas, 65% das terras agricult\u00e1veis, perdidas, cerca de 27 a cem mil esp\u00e9cies de seres vivos desaparecem por ano (Wilson) e mais de mil agentes qu\u00edmicos sint\u00e9ticos, a maioria t\u00f3xicos, s\u00e3o lan\u00e7ados na natureza. Constru\u00edmos armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa, capazes de eliminar toda vida humana. O efeito final \u00e9 o desequil\u00edbrio do sistema-Terra que se expressa pelo aquecimento global. Com os gases j\u00e1 acumulados, at\u00e9 2035 fatalmente se chegar\u00e1 a 3-4 graus Celsius, o que tornar\u00e1 a vida, assim como a conhecemos praticamente imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>A atual crise econ\u00f4mico-financeira que mergulha na\u00e7\u00f5es inteiras na mis\u00e9ria nos fazem perder a percep\u00e7\u00e3o do risco e conspiram contra qualquer mudan\u00e7a necess\u00e1ria de rumo.<\/p>\n<p>Em contraposi\u00e7\u00e3o, surge a narrativa ou a cosmologia do cuidado e da responsabilidade universal, potencialmente salvadora. Ela ganhou sua melhor express\u00e3o na Carta da Terra. Situa nossa realidade dentro da cosmog\u00eanese, aquele imenso processo de evolu\u00e7\u00e3o que se iniciou h\u00e1 13,7 bilh\u00f5es de anos. O universo est\u00e1 continuamente se expandindo, se auto-organizando e se autocriando. Nele tudo \u00e9 rela\u00e7\u00e3o em redes e nada existe fora desta rela\u00e7\u00e3o. Por isso todos os seres s\u00e3o interdependentes e colaboram entre si para garantirem o equil\u00edbrio de todos os fatores. Miss\u00e3o humana reside em cuidar e manter essa harmonia sinf\u00f4nica. Precisamos produzir, n\u00e3o para a acumula\u00e7\u00e3o e enriquecimento privado mas para o suficiente e decente para todos, respeitando os limites e ciclos da natureza.<\/p>\n<p>Por detr\u00e1s de todos os seres atua a Energia de fundo que deu origem e sustenta o universo permitindo emerg\u00eancias novas. A mais espetacular delas \u00e9 a Terra viva e os humanos como a por\u00e7\u00e3o consciente dela, com a miss\u00e3o de cuid\u00e1-la e de responsabilizar-se por ela.<\/p>\n<p>Esta nova narrativa garante \u201co futuro que queremos\u201d. Do contr\u00e1rio seremos empurrados fatalmente ao caos coletivo com consequ\u00eancias funestas. Ela se revela inspiradora. Ao inv\u00e9s de fazer neg\u00f3cios com a natureza, nos colocamos no seio dela em profunda sintonia e sinergia, respeitando seus limites e buscando o &#8220;bem viver&#8221; que \u00e9 a harmonia entre todos e com a m\u00e3e Terra. Caracter\u00edstica desta nova cosmologia \u00e9 o cuidado no lugar da domina\u00e7\u00e3o, o reconhecimento do valor intr\u00ednseco de cada ser e n\u00e3o sua mera utiliza\u00e7\u00e3o humana, o respeito por toda a vida e dos direitos da natureza e n\u00e3o sua explora\u00e7\u00e3o e a articula\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a ecol\u00f3gica com a social.<\/p>\n<p>Esta narrativa est\u00e1 mais de acordo com as reais necessidades humanas e com a l\u00f3gica do pr\u00f3prio universo. Se o documento Rio+20 a adotasse, como pano de fundo, criar-se-ia a oportunidade de uma civiliza\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria na qual o cuidado, a coopera\u00e7\u00e3o, o amor, o respeito, a alegria e espiritualidade ganhariam centralidade. Tal op\u00e7\u00e3o apontaria, n\u00e3o para o abismo, mas para o \u201co futuro que queremos\u201d: uma biociviliza\u00e7\u00e3o da boa esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>______________________<\/p>\n<p><em>Leonardo Boff \u00e9 te\u00f3logo e escritor.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5621&amp;boletim_id=1223&amp;componente_id=19762\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O vazio b\u00e1sico do documento da ONU para a Rio+20 reside numa completa aus\u00eancia de uma nova narrativa ou de uma nova cosmologia que poderia garantir a esperan\u00e7a de um \u201cfuturo que queremos\u201d lema do grande encontro. 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