{"id":19663,"date":"2012-06-11T12:00:30","date_gmt":"2012-06-11T11:00:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=19663"},"modified":"2012-06-10T17:59:39","modified_gmt":"2012-06-10T16:59:39","slug":"portuguese-rio20-em-busca-de-um-civismo-planetario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2012\/06\/portuguese-rio20-em-busca-de-um-civismo-planetario\/","title":{"rendered":"(Portuguese) Rio+20: Em Busca de Um Civismo Planet\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p><em>O coordenador executivo da Rio+20, Brice Lalonde analisa, em entrevista especial, os desafios e obst\u00e1culos que est\u00e3o colocados para a confer\u00eancia. Apesar de todas as adversidades, ele n\u00e3o aposta em fracasso. &#8220;Uma das grandes dificuldades que temos hoje est\u00e1 em que dentro da cada pa\u00eds h\u00e1 pouqu\u00edssimos negociadores que pensam no planeta, na humanidade em seu conjunto. Eles pensam em seus pa\u00edses e em seus interesses nacionais. H\u00e1 muito civismo nacional e pouco civismo planet\u00e1rio&#8221;, diz Lalonde. <\/em><\/p>\n<p>Um m\u00eas e meio antes do in\u00edcio da confer\u00eancia Rio+20, as perspectivas de que se consiga no Rio de Janeiro uma mudan\u00e7a decisiva para combater os males ambientais do planeta e a pobreza n\u00e3o s\u00e3o muito animadoras. Especialistas de todo o planeta temem que a humanidade seja incapaz de colocar fim \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da Terra. Os cientistas que participaram de uma confer\u00eancia pr\u00e9via a Rio+20, realizada em Londres, em mar\u00e7o passado, disseram que a meta da ONU de limitar o aquecimento global a dois graus Celsius \u2013 adotada h\u00e1 menos de 18 meses \u2013 j\u00e1 \u00e9 inalcan\u00e7\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u201cTemos que nos dar conta de que estamos observando uma perda de biodiversidade sem precedentes nos \u00faltimos 65 milh\u00f5es de anos. Estamos entrando claramente na sexta extin\u00e7\u00e3o em massa do planeta\u201d, disse Bob Watson, ex-chefe do painel clim\u00e1tico da ONU e principal assessor do minist\u00e9rio brit\u00e2nico do Meio Ambiente.<\/p>\n<p>A confer\u00eancia tem tr\u00eas objetivos: combater esta crise ambiental, erradicar a pobreza e colocar o crescimento em um caminho sustent\u00e1vel, com medidas para estimular a economia verde. Mas, ao contr\u00e1rio do que ocorreu em 1992, ningu\u00e9m espera um plano global de amplo alcance. As crises financeiras no Ocidente, o quase fiasco da c\u00fapula do clima de Copenhague, em 2009, e as mudan\u00e7as geopol\u00edticas, com a emerg\u00eancia de China, \u00cdndia e Brasil, antecipam um evento de baixo perfil.<\/p>\n<p>No entanto, apesar de todas essas adversidades, Brice Lalonde n\u00e3o aposta em fracasso. Este pol\u00edtico franc\u00eas foi nomeado pelo secret\u00e1rio geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas como coordenador executivo da Rio+20. Sobre ele recai a responsabilidade de tentar colocar todo mundo de acordo. A busca de consensos em um mar t\u00e3o agitado est\u00e1 longe de ser um passeio. Militante ecologista, encarregado franc\u00eas das negocia\u00e7\u00f5es sobre o clima entre 2007 e 2011, ministro de Meio Ambiente nos governos socialistas entre 1988 e 1992, Brice Lalonde oferece aqui as pautas e os obst\u00e1culos de uma c\u00fapula onde, diz, a \u201cno\u00e7\u00e3o simplista\u201d do capitalismo dificulta os poss\u00edveis progressos.<\/p>\n<p><strong><em>O Brasil organiza em junho a confer\u00eancia Rio+20 sobre o desenvolvimento sustent\u00e1vel. A c\u00fapula ser\u00e1 realizada vinte anos depois da C\u00fapula da Terra, realizada tamb\u00e9m no Rio de Janeiro, em 1992, quando as Na\u00e7\u00f5es Unidas criaram dois f\u00f3runs para enfrentar a mudan\u00e7a clim\u00e1tica e a perda de biodiversidade. Duas d\u00e9cadas mais tarde, o que \u00e9 preciso fazer para evitar que esse encontro termine sem resultados?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A pergunta que devemos nos fazer consiste em saber se as institui\u00e7\u00f5es, a economia e o grande giro que se deu na prote\u00e7\u00e3o do planeta e na luta contra a pobreza podem seguir a evolu\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica. Em 1992, havia uma situa\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica muito especial: o Muro de Berlim acabava de cair e ainda n\u00e3o havia ocorrido a ascens\u00e3o mundial de China, \u00cdndia e Brasil. Hoje, a situa\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica \u00e9 muito diferente em fun\u00e7\u00e3o dessa novidade. Tamb\u00e9m temos agora o retorno de guerras e conflitos, assim como a crise econ\u00f4mica que nos afeta, o que mostra que as dificuldades s\u00e3o complexas no novo sistema mundial da economia. Outro elemento novo em rela\u00e7\u00e3o a 1992 \u00e9 a internet e a tecnologia. Em suma, trata-se de saber se podemos adaptar novas institui\u00e7\u00f5es \u00e0s mudan\u00e7as da geopol\u00edtica e responder as perguntas que s\u00e3o as mesmas que foram feitas em 1992: como vencer a pobreza e proteger o meio ambiente.<\/p>\n<p><strong><em>A Rio+20 suscita muitas expectativas. No entanto, os observadores mais atentos asseguram que a c\u00fapula servir\u00e1 apenas para propor algumas pistas. Voc\u00ea disse inclusive que o texto que estava sendo discutido carecia de ambi\u00e7\u00e3o.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O que vamos fazer talvez seja abrir uma fase para um novo modo de desenvolvimento. Mas, sim, \u00e9 verdade, falta ambi\u00e7\u00e3o ao texto. Creio que devemos ir mais r\u00e1pido, com mais for\u00e7a. Uma das grandes dificuldades que temos hoje est\u00e1 em que dentro da cada pa\u00eds h\u00e1 pouqu\u00edssimos negociadores que pensam no planeta, na humanidade em seu conjunto.<\/p>\n<p><strong><em>Essa \u00e9 a grande dificuldade?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Sim. Os negociadores pensam em seus pa\u00edses, defendem seus interesses nacionais. Mas em todo esse processo n\u00e3o h\u00e1 um piloto para o planeta. Isso \u00e9 o que me d\u00e1 medo. Algum dia ser\u00e1 preciso inventar algo para que nos ocupemos daquilo que temos em comum, ou seja, a atmosfera, os oceanos e at\u00e9 o pr\u00f3prio conhecimento. H\u00e1 muitos, muitos temas que est\u00e3o mais al\u00e9m da esfera dos interesses nacionais e que o sistema internacional atual n\u00e3o consegue tratar.<\/p>\n<p><strong><em>Isso significa que, apesar de todas as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e da consci\u00eancia cotidiana do que ocorre, ainda n\u00e3o h\u00e1 uma tomada de consci\u00eancia global de que o planeta \u00e9 uma hist\u00f3ria comum e n\u00e3o uma quest\u00e3o meramente territorial?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. Em muitos governos ainda n\u00e3o h\u00e1 um civismo planet\u00e1rio. H\u00e1 muito civismo nacional, muita lealdade nacional, mas a lealdade planet\u00e1ria n\u00e3o est\u00e1 muito presente. No entanto, entre os jovens encontramos muitas pessoas muito comprometidas.<\/p>\n<p><strong><em>Uma pergunta sobressai deste cen\u00e1rio: a crise ou o planeta? Por acaso a crise carregar\u00e1 o planeta ou este salvar\u00e1 a crise?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O problema est\u00e1 talvez no fato de que esta crise prov\u00e9m de um sistema econ\u00f4mico que n\u00e3o responde \u00e0 situa\u00e7\u00e3o. Uma parte da resposta \u00e0 crise est\u00e1 no que se chama de desenvolvimento sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong><em>Os temas fortes da c\u00fapula s\u00e3o a economia verde e a luta contra a pobreza. Quais s\u00e3o as duas frentes antag\u00f4nicas e em torno de que pontos gira a controv\u00e9rsia?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Ah..N\u00e3o h\u00e1 dois campos n\u00edtidos ou afirmados. Dependendo do tema, h\u00e1 maiorias, minorias e oposi\u00e7\u00f5es. Mas h\u00e1 uma primeira divis\u00e3o cl\u00e1ssica entre os pa\u00edses desenvolvidos e os pa\u00edses em desenvolvimento. A isto se agrega agora um terceiro ator, que s\u00e3o os pa\u00edses emergentes. Por exemplo, as pequenas cidades africanas n\u00e3o defendem os mesmos interesses que os grandes pa\u00edses como a China defendem. No que diz respeito \u00e0 economia verde, h\u00e1 v\u00e1rios pa\u00edses que n\u00e3o s\u00e3o nem um pouco entusiastas. N\u00e3o gostam da express\u00e3o, preferindo desenvolvimento sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Em suma, muitos pa\u00edses querem evitar que a economia verde se transforme em uma forma de levantar obst\u00e1culos ao com\u00e9rcio internacional ou que estabele\u00e7a novas condi\u00e7\u00f5es para a ajuda ao desenvolvimento. Associado a isso est\u00e1 o tema da governabilidade, mas esse ponto n\u00e3o traz demasiados problemas. Eu diria que a divis\u00e3o mais clara est\u00e1 entre os partid\u00e1rios do desenvolvimento e os que afirmam que n\u00e3o pode se continuar assim, que \u00e9 preciso salvar o planeta. Estamos em busca de uma f\u00f3rmula que concilie o desenvolvimento e o meio ambiente. Esta \u00e9 a discuss\u00e3o mais importante e mais dif\u00edcil de resolver porque est\u00e1 em jogo o meio ambiente mundial e a possibilidade de chegar a um ponto sem retorno. A discuss\u00e3o envolve tamb\u00e9m aqueles que dizem que o priorit\u00e1rio \u00e9 a luta contra a pobreza, ou seja, o crescimento econ\u00f4mico, e que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel seguir acumulando tantas desigualdades. Este campo argumenta que a quest\u00e3o do planeta tem que ser o passo seguinte.<\/p>\n<p><strong><em>Mas quem diz crescimento est\u00e1 dizendo consumo dos recursos do planeta. Al\u00e9m disso, no que diz respeito \u00e0 economia verde, seus cr\u00edticos advertem, e n\u00e3o sem raz\u00e3o, que isso equivale a introduzir o mercado na ecologia.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Ah! O mercado \u00e9 um bom servidor, mas um mau chefe. Toda a quest\u00e3o est\u00e1 nisso, em nossa capacidade de organizar o mercado, de fixar regras. N\u00e3o h\u00e1 mercado sem regras. No momento, h\u00e1 muitas coisas que n\u00e3o est\u00e3o sendo feitas. Estamos tratando de terminar com os subs\u00eddios aos combust\u00edveis f\u00f3sseis, o que \u00e9 uma forma de intervir nos mercados, mas n\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Por exemplo, quando se suspende um subs\u00eddio desses \u00e9 preciso recuperar o dinheiro que o Estado dava e dirigi-lo para a ajuda aos mais pobres. O tema dos mercados implica saber como se administram os recursos mais escassos.<br \/>\nNa verdade, \u00e9 preciso sair do capitalismo mais b\u00e1sico: \u00e9 preciso dizer que o capital mais importante \u00e9 o povo e a natureza. O povo e a natureza s\u00e3o os elementos n\u00famero um do capital. N\u00e3o se deve sacrificar esse capital em benef\u00edcio do pequeno capital monet\u00e1rio das empresas. Como voc\u00ea sabe, existem muitas empresas que financiam campanhas contra o desenvolvimento sustent\u00e1vel. H\u00e1 uma enorme batalha em torno disso. Existem interesses econ\u00f4micos que trabalham no curto prazo e que devem ser combatidos.<\/p>\n<p><strong><em>Mas, 20 anos depois da confer\u00eancia do Rio, hoje h\u00e1 um poderoso ator que antes n\u00e3o existia: a sociedade civil.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A sociedade civil \u00e9 um grande aliado, tanto para mim como para o Brasil, que organiza a confer\u00eancia. Temos uma necessidade absoluta da sociedade civil. Associa\u00e7\u00f5es, cientistas, professores, em suma, todos aqueles que trabalham pelo planeta s\u00e3o essenciais. Mas tamb\u00e9m as regi\u00f5es, as municipalidades e as cidades ocupam um lugar destacado neste trabalho. Quando uma cidade fixa as regras urbanistas, isso tamb\u00e9m \u00e9 importante. A sociedade civil ser\u00e1 ent\u00e3o um ator muito importante, n\u00e3o s\u00f3 porque estar\u00e1 presente, mas tamb\u00e9m porque vai participar de um novo caminho de negocia\u00e7\u00e3o. Trata-se dos \u201cdi\u00e1logos sobre o desenvolvimento sustent\u00e1vel\u201d. O Brasil e a ONU fizeram um grande esfor\u00e7o para criar um novo tipo de confer\u00eancia onde n\u00e3o estejam s\u00f3 os diplomatas de cada pa\u00eds, mas a sociedade civil em seu conjunto.<\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Katarina Peixoto<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=20090&amp;boletim_id=1223&amp;componente_id=19761\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O coordenador executivo da Rio+20, Brice Lalonde analisa, em entrevista especial, os desafios e obst\u00e1culos que est\u00e3o colocados para a confer\u00eancia. &#8220;Uma das grandes dificuldades que temos hoje est\u00e1 em que dentro da cada pa\u00eds h\u00e1 pouqu\u00edssimos negociadores que pensam no planeta, na humanidade em seu conjunto. 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