{"id":19939,"date":"2012-07-02T12:43:48","date_gmt":"2012-07-02T11:43:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=19939"},"modified":"2012-07-02T12:43:48","modified_gmt":"2012-07-02T11:43:48","slug":"portuguese-falando-um-pouco-sobre-a-economia-da-natureza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2012\/07\/portuguese-falando-um-pouco-sobre-a-economia-da-natureza\/","title":{"rendered":"(Portuguese) Falando Um Pouco Sobre \u201cA Economia da Natureza\u201d"},"content":{"rendered":"<p><em>\u201cPropor o crescimento econ\u00f4mico de forma exponencial s\u00f3 pode ser coisa de um idiota, ou de um economista\u201d.<br \/>\n<\/em>&#8212; Kenneth Boulding<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre a ci\u00eancia econ\u00f4mica e a ecologia tem sido cada vez mais intensa por conta, basicamente, da prerrogativa em torno do crescimento econ\u00f4mico. Essa rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o se desvincula t\u00e3o facilmente. A necessidade de se buscar o crescimento econ\u00f4mico tem sido um dos pontos mais controversos dessa rela\u00e7\u00e3o. O fato \u00e9 que ao longo do tempo, a \u201cconversa\u201d entre a economia e a ecologia n\u00e3o tem sido nada amistosa. A maneira de atuar da economia e da ecologia tem sido antag\u00f4nica, especialmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 problem\u00e1tica do crescimento econ\u00f4mico versus explora\u00e7\u00e3o dos recursos naturais. Visto por outro prisma, estamos nos referindo ao conflito existente entre as \u201cLeis da Economia\u201d versus as \u201cLeis na Natureza\u201d.<\/p>\n<p>De um lado, h\u00e1 os que defendem um crescimento a qualquer custo, vendo nisso uma sa\u00edda eficaz e r\u00e1pida para os graves problemas socioecon\u00f4micos que afeta quase metade da popula\u00e7\u00e3o mundial. Do outro lado, h\u00e1 os que clamam pela interrup\u00e7\u00e3o imediata (propondo at\u00e9 mesmo a pr\u00e1tica do crescimento zero) de um crescimento que tem feito mais estragos, gerando passivos ambientais, do que proporcionado benesses.<\/p>\n<p>O fato ineg\u00e1vel \u00e9 que a atividade econ\u00f4mica tem sido extremamente agressiva desde o ato de extrair recursos, passando pelo processo produtivo e culminando na pr\u00e1tica do consumo final quando solta res\u00edduos, comprometendo assim a capacidade do planeta Terra em lidar com essa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Afora isso, aqueles que pensam que o consumo\/produ\u00e7\u00e3o precisa apresentar modera\u00e7\u00e3o, entendem que n\u00e3o h\u00e1 mais espa\u00e7o f\u00edsico \u2013 nem condi\u00e7\u00f5es para isso &#8211; para se alcan\u00e7ar taxas de \u201ccrescimentos exponenciais\u201d visto que os recursos para tal s\u00e3o inequivocamente de ordem finita.<\/p>\n<p>\u00c9 de fundamental import\u00e2ncia entender que a biosfera \u00e9 finita, limitada e hermeticamente fechada. Conquanto, esse debate, al\u00e9m de interessante, \u00e9 tamb\u00e9m muito pol\u00eamico, uma vez que trata de abordagens extremamente conflitantes.<\/p>\n<p>Para agu\u00e7ar ainda mais esse debate, apresentamos a seguir, em forma de apontamentos, algumas considera\u00e7\u00f5es em torno dessa quest\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Alguns apontamentos pertinentes<\/strong><\/p>\n<p>* Pelo menos desde o Neol\u00edtico (12.000 anos a.C.) todas as sociedades hist\u00f3ricas consomem de forma crescente energias da natureza;<\/p>\n<p>* \u00c9 necess\u00e1rio conciliar a Economia com o Meio Ambiente, tendo em vista que tudo, absolutamente tudo, vem da natureza. N\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel que os economistas, em geral, continuem ignorando essa realidade. A Economia precisa estar em fina sintonia com a Ecologia. Corrobora para esse argumento o fato de que um dos primeiros formuladores do termo Ecologia, Ernst Haeckel (1834-1919), chegou a chamar a ecologia, em certo momento, de \u201ca economia da natureza\u201d;<\/p>\n<p>* O fato mais grave, no entanto, \u00e9 que a teoria econ\u00f4mica tradicional prop\u00f5e o crescimento econ\u00f4mico sem limites, de forma exponencial e ininterrupta, a qualquer custo, e esquece, nesse pormenor, que a biosfera \u00e9 finita, limitada e n\u00e3o aumentar\u00e1 de tamanho. Nesse sentido, \u00e9 absolutamente ignorado pela Economia o pressuposto b\u00e1sico que aponta para um crescimento econ\u00f4mico capaz de produzir passivo ambiental. Essa quest\u00e3o \u00e9 simplista: n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para todos; muito menos h\u00e1 (ou haver\u00e1) recursos dispon\u00edveis (renov\u00e1veis) que seja capaz de oferecer o \u201c\u00c9den\u201d, como querem alguns;<\/p>\n<p>* Gandhi, um dos \u201cIluminados\u201d pensadores que habitou o planeta Terra, a esse respeito, profetizou que: \u201cA Terra \u00e9 suficiente para todos, mas n\u00e3o para os consumistas\u201d;<\/p>\n<p>* Conquanto, de forma est\u00fapida, irracional e pouco inteligente &#8211; para dizer o m\u00ednimo -, a Economia n\u00e3o \u00e9 mais entendida como gest\u00e3o racional da escassez, mas, sim, como a ci\u00eancia capaz de crescer exponencialmente, sendo que esse crescimento ir\u00e1, na opini\u00e3o dos \u201cagentes econ\u00f4micos agressores do meio ambiente\u201d, curar todas as enfermidades do mundo;<\/p>\n<p><strong>O que teremos adiante?<\/strong><\/p>\n<p>* De um lado, temos ent\u00e3o o \u201ccrescimento\u201d das necessidades das pessoas; do outro, a cada ano, presenciamos mais e mais habitantes que v\u00e3o ocupando os mesmos espa\u00e7os do planeta Terra (lembremos: a Terra n\u00e3o aumentar\u00e1 de tamanho). Sobre a quest\u00e3o populacional, \u00e9 oportuno aduzir que descontadas as mortes, a cada dia tem-se 200 mil novas almas chegando ao mundo. Ao ano, s\u00e3o mais de 70 milh\u00f5es de novos habitantes no planeta Terra;<\/p>\n<p>* No entanto, dizem os inconseq\u00fcentes que o mais importante \u00e9 fazer a economia crescer, aumentando a produ\u00e7\u00e3o para o atendimento de toda essa gente nova que est\u00e1 chegando ao planeta Terra. (Apenas para efeito de melhor entendimento, cabe apontar que em apenas 50 anos, de 1950 a 2000, o PIB mundial saltou de 6 trilh\u00f5es de d\u00f3lares para 43 trilh\u00f5es. Portanto, aumentou sete vezes de tamanho. J\u00e1 a popula\u00e7\u00e3o saltou em 1900 de 1,5 bilh\u00e3o de pessoas para 7 bilh\u00f5es na atualidade);<\/p>\n<p>* \u00c9 necess\u00e1rio p\u00f4r fim \u00e0 ideia de se buscar um crescimento econ\u00f4mico infinito e exponencial por dois singelos motivos: 1\u00b0 Esse crescimento n\u00e3o eliminar\u00e1 todos os males do mundo; 2\u00b0 Os limites para tal crescimento s\u00e3o dados pelos recursos finitos da natureza;<\/p>\n<p>* Diante dessa realidade inelut\u00e1vel, \u00e9 poss\u00edvel concluir que a Ci\u00eancia Econ\u00f4mica, desde seu nascimento, se encontra anos-luz de dist\u00e2ncia e totalmente \u201cdesconectada\u201d da realidade ambiental e, al\u00e9m disso, a ci\u00eancia econ\u00f4mica n\u00e3o percebeu ainda os riscos que a insist\u00eancia num crescimento (quantidade ilimitada) sem respeito \u00e0 biosfera est\u00e1 provocando em termos de destrui\u00e7\u00e3o ambiental;<\/p>\n<p>* A atividade econ\u00f4mica que a\u00ed est\u00e1 praticada de forma livre, leve, e solta pelas sociedades modernas e industrializadas, ainda n\u00e3o se deu conta de que se trata apenas de um subsistema da natureza e que depende dessa natureza para tudo, absolutamente para tudo;<\/p>\n<p>* No entanto, os \u201climites\u201d ao crescimento econ\u00f4mico continuam sendo completamente ignorados. Para o crescimento de qualquer economia \u00e9 necess\u00e1rio mat\u00e9ria e energia. Acontece que o animal-homem n\u00e3o pode criar nem mat\u00e9ria e nem energia. A f\u00f3rmula de Einstein, a esse respeito, \u00e9 precisa: a obten\u00e7\u00e3o de mais energia somente \u00e9 poss\u00edvel pela obten\u00e7\u00e3o de mais massa. \u00c9 necess\u00e1rio, portanto, mais mat\u00e9ria e energia para produzir mais mat\u00e9ria e energia;<\/p>\n<p>* \u00c9 assim que se movimenta, grosso modo, toda e qualquer economia \u2013 com massa e energia. Todo o maquin\u00e1rio (bens de capital) \u00e9 produzido com min\u00e9rios e movimentado com combust\u00edveis f\u00f3sseis;<\/p>\n<p>* Entretanto, infelizmente, o sistema econ\u00f4mico sempre viu a natureza e seus recursos naturais como um mero objeto para ser transformado, explorado e sugado. Nunca, em momento algum, esse sistema que \u201cregula\u201d as atividades da economia, que conduz, por sua vez, a busca por taxas de crescimento econ\u00f4mico imperfeitos, falhos e destruidores, olhou para a natureza como algo a ser cuidado e protegido. A l\u00f3gica que prevalece \u00e9 a de sempre: a explora\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>* Diante disso, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que enquanto as leis da Economia continuarem ignorando, por completo, as leis da Natureza, o futuro (o nosso futuro!) estar\u00e1, a cada segundo que se passa, mais e mais comprometido, expondo, por conseq\u00fc\u00eancia, todos n\u00f3s em s\u00e9rio risco;<\/p>\n<p>* Lembremos, uma vez mais: n\u00e3o \u00e9 a Terra que entrar\u00e1 em extin\u00e7\u00e3o com o desajuste entre a atividade produtiva e o sistema ambiental; somos n\u00f3s que sofreremos as consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>* Urge entendermos que \u00e9 necess\u00e1rio trocar o crescimento (quantidade) por desenvolvimento (qualidade);<\/p>\n<p>* Somente quando o colapso ambiental se fizer evidente para todos, \u00e9 que nos lembraremos das s\u00e1bias palavras do cacique Seattle: \u201cQuando a \u00faltima \u00e1rvore for abatida, quando o \u00faltimo rio for envenenado, quando o \u00faltimo peixe for capturado, somente ent\u00e3o nos daremos conta de que n\u00e3o se pode comer dinheiro\u201d.<br \/>\n____________________<\/p>\n<p><em>Marcus Eduardo de Oliveira \u00e9 economista e professor universit\u00e1rio. Mestre pela USP em Integra\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina, especialista em Pol\u00edtica Internacional, com curso pela Universidade de La Habana (Cuba) <a href=\"mailto:prof.marcuseduardo@bol.com.br\">prof.marcuseduardo@bol.com.br<\/a><\/em><em>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto as leis da Economia continuarem ignorando, por completo, as leis da Natureza, o futuro (o nosso futuro!) estar\u00e1 mais e mais comprometido, expondo todos n\u00f3s em s\u00e9rio risco. Somente quando o colapso ambiental se fizer evidente, \u00e9 que nos lembraremos das s\u00e1bias palavras do cacique Seattle: \u201cQuando a \u00faltima \u00e1rvore for abatida, quando o \u00faltimo rio for envenenado, quando o \u00faltimo peixe for capturado, somente ent\u00e3o nos daremos conta de que n\u00e3o se pode comer dinheiro\u201d.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-19939","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19939","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19939"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19939\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19939"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19939"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19939"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}