{"id":20131,"date":"2012-07-16T12:00:50","date_gmt":"2012-07-16T11:00:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=20131"},"modified":"2012-07-10T19:59:49","modified_gmt":"2012-07-10T18:59:49","slug":"portuguese-do-que-um-cao-nao-precisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2012\/07\/portuguese-do-que-um-cao-nao-precisa\/","title":{"rendered":"(Portuguese) Do Que Um C\u00e3o N\u00e3o Precisa"},"content":{"rendered":"<p><em>\u00a0\u201cEra verdade. Durante uns dias o c\u00e3o n\u00e3o falou. Digo bem: n\u00e3o falou. A fala \u00e9 muito complicada. Est\u00e1 antes da palavra, como a poesia. E aquele c\u00e3o falava. Falava com os seus v\u00e1rios modos de sil\u00eancio, falava com os olhos, falava, at\u00e9, com o rabo, falava com o andar, com as inclina\u00e7\u00f5es de cabe\u00e7a, com o levantar ou baixar as orelhas. Daquela vez calou-se por completo. N\u00e3o falou com nenhum de seus sinais. Nem sequer com o seu sil\u00eancio\u201d. <\/em><br \/>\n(Manuel Alegre)<\/p>\n<p>Do que um c\u00e3o n\u00e3o precisa? Essa pergunta pode suscitar discuss\u00e3o, algumas reflex\u00f5es e um bocado de pol\u00eamica. A resposta nem sempre pode ser aquela que desejamos ouvir. O que estamos fazendo com eles no sentido de deformar suas mentes e corpos para adapt\u00e1-los \u00e0 conveni\u00eancia dos padr\u00f5es humanos? At\u00e9 que ponto o que \u00e9 bom para o ser humano pode beneficiar o c\u00e3o de alguma maneira? Por isso, mais do que refletir sobre o que um c\u00e3o precisa, faz-se necess\u00e1rio lan\u00e7ar uma luz tamb\u00e9m sobre aquilo que um c\u00e3o n\u00e3o precisa e que \u00e9 imposto a ele pelos \u201cdescachorradores\u201d que existem aos milhares.<\/p>\n<p>Na verdade, eu estava escrevendo sobre o que um c\u00e3o precisa para exercer sua identidade saud\u00e1vel e equilibrada de c\u00e3o. Mas come\u00e7aram a aparecer nesse contexto tantas coisas que ele n\u00e3o precisa para ser um c\u00e3o, que resolvi dividir o texto. Portanto, oportunamente publicarei \u201cdo que um c\u00e3o precisa\u201d.<\/p>\n<p>Seria necess\u00e1rio um grande esfor\u00e7o para pelo menos tentarmos imaginar o mundo sob a perspectiva canina. Como somos falhos nessa tarefa, al\u00e9m da intui\u00e7\u00e3o de uma vida de conviv\u00eancia com eles, recorro \u00e0 leitura e \u00e0 informa\u00e7\u00e3o para tecer algumas considera\u00e7\u00f5es preliminares a respeito do que um c\u00e3o N\u00c3O precisa.<\/p>\n<p><strong>Antropomorfiza\u00e7\u00e3o:<\/strong><\/p>\n<p>Antes de entrar no m\u00e9rito do que um c\u00e3o n\u00e3o precisa, h\u00e1 que se considerar brevemente, dois aspectos da antropomorfiza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que o termo ser\u00e1 mencionado algumas vezes. Segundo Moussaieff e McCarthy, a antropomorfiza\u00e7\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es pode assumir a conota\u00e7\u00e3o de empatia quando considera que os animais humanos e n\u00e3o humanos podem senti-las. Em sua obra Quando os Elefantes Choram, os autores analisam emo\u00e7\u00f5es como medo, raiva, inveja, carinho, repulsa e etc. em animais n\u00e3o humanos. Seria, segundo os autores, uma esp\u00e9cie de antropomorfismo positivo reconhecer emo\u00e7\u00f5es at\u00e9 ent\u00e3o consideradas humanas em animais n\u00e3o humanos. Os autores n\u00e3o levam em considera\u00e7\u00e3o os desencadeadores das emo\u00e7\u00f5es, que, por raz\u00f5es \u00f3bvias, variam segundo quem presencia e traduz os fen\u00f4menos apresentados entre os animais. Mas defendem que seres humanos e n\u00e3o humanos possuem a mesma gama de emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por outro lado, a antropomorfiza\u00e7\u00e3o pode assumir uma conota\u00e7\u00e3o de desrespeito quando h\u00e1 a imposi\u00e7\u00e3o de h\u00e1bitos e fen\u00f4menos exclusivamente humanos a animais n\u00e3o humanos. \u00c9 a esse segundo tipo de antropomorfiza\u00e7\u00e3o que me refiro no presente texto.<\/p>\n<p>Millan (2006, p. 146) afirma que<\/p>\n<p><em>Quando os seres humanos adotam c\u00e3es e os levam para seu ambiente e seu lar, na maioria das vezes procuram fazer tudo pensando no <span style=\"text-decoration: underline;\">bem estar<\/span> (grifo nosso) do animal. Tentamos dar ao c\u00e3o o que achamos que ele precisa. O problema \u00e9 que n\u00e3o pensamos no que os c\u00e3es precisam, mas no que o ser humano precisa para viver. Ao humanizarmos o animal, n\u00f3s o prejudicamos psicologicamente.<\/em><\/p>\n<p>Quem trabalha com a tem\u00e1tica animalista abolicionista ou quem tem empatia pelos animais n\u00e3o humanos, percebe que, na maioria das vezes, a antropomorfiza\u00e7\u00e3o imposta aos animais n\u00e3o humanos atinge o status de bizarrice.<br \/>\nTais bizarrices constituem um triste cen\u00e1rio para os c\u00e3es e para quem tem alguma empatia com eles. Falo da empatia de quem v\u00ea o c\u00e3o como um c\u00e3o, n\u00e3o como um humano de quatro patas. Os c\u00e3es s\u00e3o os animais n\u00e3o humanos mais pr\u00f3ximos do nosso conv\u00edvio, portanto, os mais sujeitos a essa antropomorfiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cDescachorrar\u201d \u00e9 o termo utilizado por Horowitz (2010) para definir algumas tentativas que o ser humano faz de impor seus h\u00e1bitos aos c\u00e3es. De tirar deles os h\u00e1bitos e modos de viver que fazem dele um c\u00e3o. Quanto mais parecidos com os humanos, \u201cmelhor\u2019. H\u00e1 muita \u201cbizarrice\u201d praticada contra os c\u00e3es. Mas hoje me deterei apenas em algumas delas que trazem impl\u00edcita ou explicitamente a inten\u00e7\u00e3o de \u201cdescachorr\u00e1-los\u201d. E que, claro, movimentam uma ind\u00fastria bilion\u00e1ria mundial: acess\u00f3rios, mot\u00e9is, festinhas de anivers\u00e1rio, ofur\u00f4 e cheiros artificiais.<\/p>\n<p>&#8211; ACESS\u00d3RIOS: os acess\u00f3rios que visam suprir uma necessidade ou prover um conforto maior para o c\u00e3o s\u00e3o diferentes dos acess\u00f3rios para satisfazer o ego do dono. Isso fica evidente quando nos deparamos com pessoas que se orgulham de ostentar em nome do seu c\u00e3ozinho, por exemplo, uma jaqueta de 1.000 (mil)! reais comprada na rua mais cara e famosa de S\u00e3o Paulo . Ou uma coleira assinada por determinado artista pl\u00e1stico para seu \u201cbeb\u00ea\u201d. Ou ainda uma coroa cravejada de diamantes para sua \u201cprincesa\u201d. N\u00e3o questiono aqui, o valor pago ou o status subjetivamente envolvido. Mas beira a insanidade quando os donos orgulhosos dizem que seu c\u00e3o se sentir\u00e1 \u201cmais amado\u201d com um acess\u00f3rio de grife. Unhas e p\u00ealos pintados, t\u00eanis, j\u00f3ias, escova progressiva em poodle, balas de menta, c\u00edlios posti\u00e7os, bindis e gravatas aplicados com cola quente, engrossam esse coro de aberra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A palavra \u201cagress\u00e3o\u201d possui uma pesada conota\u00e7\u00e3o, pois geralmente remete a castigos f\u00edsicos, maus-tratos expl\u00edcitos e etc. J\u00e1 fui rotulada de \u201cradical\u201d pelos descachorradores ortodoxos quando disse (e continuo pensando e dizendo) que essas s\u00e3o agress\u00f5es expl\u00edcitas \u00e0 dignidade do animal. A barreira que separa a necessidade do c\u00e3o do exibicionismo do dono, para mim, \u00e9 perfeitamente vis\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; MOTEL: a primeira vez que ouvi a express\u00e3o \u201cmotel para cachorros\u201d, pensei que fosse algo como um ambiente aberto, natural, que favorecesse a tamb\u00e9m natural aproxima\u00e7\u00e3o no cio, algo do g\u00eanero. Mas n\u00e3o me surpreendi ao constatar que se trata, sim, de um motel para c\u00e3es. S\u00f3 que nos moldes humanos. Esses \u201cmot\u00e9is para c\u00e3es\u201d possuem cama redonda e espelho no teto. Len\u00e7\u00f3is com muitos fios, luz de velas e m\u00fasica rom\u00e2ntica. N\u00e3o estou brincando. Na cidade onde trabalho, h\u00e1 uma ag\u00eancia especializada em viabilizar os encontros caninos nesse tipo de motel. Os \u201cdonos\u201d marcam um encontro pela internet e papo vai, papo vem, combinam um encontro. Geralmente o acasalamento (dos cachorros) resulta mais tarde em lucro com venda e usurpa\u00e7\u00e3o de filhotes. Quem n\u00e3o acredita, consulte tamb\u00e9m o \u201cpai dos burros moderno\u201d, o Google.<\/p>\n<p>&#8211; FESTINHA DE ANIVERS\u00c1RIO: s\u00e3o umas \u201craves\u201d para os cachorros que acontecem na ocasi\u00e3o de seus anivers\u00e1rios. Geralmente em tendas ou em sal\u00f5es de festa alugados. Claro, ao som de m\u00fasica eletr\u00f4nica. M\u00fasica alta, luzes estrobosc\u00f3picas, globo e gelo seco. Isso quando n\u00e3o tem banda ao vivo. Os \u201cdonos\u201d curtem cada momento. Mas quanta agress\u00e3o aos sentidos caninos\u2026 J\u00e1 se sabe tanto sobre a sensibilidade auditiva canina e as pessoas continuam expondo e impondo a seus c\u00e3es, agress\u00f5es de tal natureza. De quebra, bolo e brigadeiro (o buffets \u00e9 \u201cespecializado\u201d). Fot\u00f3grafos, lembrancinhas personalizadas e para completar, chapeuzinhos humanos que, claro, n\u00e3o param na cabe\u00e7a por causa das orelhas na hora do \u201cparab\u00e9ns pra voc\u00ea\u201d de luz apagada. Os convidados caninos nem s\u00e3o amigos do aniversariante. Alguns, meros desconhecidos. E quando chegam n\u00e3o podem nem cumprimentar o aniversariante se cheirando, que s\u00e3o logo repreendidos. Mas os \u201cdonos\u201d j\u00e1 se conhecem. E s\u00e3o um cap\u00edtulo \u00e0 parte. Seria c\u00f4mico se n\u00e3o fosse tr\u00e1gico, v\u00ea-los segurar as patinhas de seus respectivos c\u00e3es numa tentativa de faz\u00ea-los bater palmas na hora do \u201cparab\u00e9ns\u201d. Penso que alguns acreditam que seu \u201cbeb\u00ea\u201d \u00e9 capaz de assoprar a velinha e a l\u00edngua de sogra. N\u00e3o tirei esses fatos da minha imagina\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tem nada de f\u00e9rtil. Apenas relato o que j\u00e1 vi, ou, para minha infelicidade, presenciei.<\/p>\n<p>&#8211; OFUR\u00d4: Ok. Ofur\u00f4 pode, sim, ser relaxante para o c\u00e3o. Desde que ele entre na \u00e1gua voluntariamente e l\u00e1 permane\u00e7a o quanto quiser. Um dos meus cachorros adora se jogar na \u00e1gua quando est\u00e1 quente. Outro tem pavor. Mas j\u00e1 vi muito cachorrinho sendo for\u00e7ado ao \u201crelaxante\u201d banho de ofur\u00f4. Voa p\u00e9tala de rosa e \u00e1gua com sais de banho pra tudo que \u00e9 lado. Ganidos e esperneios ao som de \u00cania.<\/p>\n<p>&#8211; CHEIROS ARTIFICIAIS: deterei-me um pouquinho mais nesse quesito porque o olfato \u00e9 o sentido mais agredido do c\u00e3o, por ser seu mais sens\u00edvel, elaborado e apurado mecanismo de leitura de mundo. O mundo do c\u00e3o \u00e9, antes de tudo, um espectro de cheiros. N\u00f3s humanos, que somos obcecados e paradoxalmente \u201ccegados\u201d pelo sentido da vis\u00e3o, n\u00e3o costumamos dar aten\u00e7\u00e3o aos cheiros. Perto dos c\u00e3es somos an\u00f3smicos (n\u00e3o sentimos cheiro). Nosso prec\u00e1rio sentido olfativo nos faz pensar que estamos em um mundo inodoro. S\u00f3 percebemos quando o cheiro \u00e9 bom ou ruim. E os conceitos de bom ou ruim s\u00e3o essencialmente diferentes em c\u00e3es e humanos. Segundo Horowitz (2010), os narizes humanos possuem seis milh\u00f5es de s\u00edtios olfativos. O sistema olfativo do sheepdog, uns duzentos milh\u00f5es. O do beagle, mais de trezentos milh\u00f5es. Ap\u00f3s aspirado, o ar, no sistema olfativo do c\u00e3o, entra em contato com uma vasta e intrincada rede de tecidos e receptores nasais, muito mais complexa que a existente nos humanos. Essa diferen\u00e7a entre humanos e caninos no \u201csimples\u201d ato de cheirar \u00e9 significativamente exponencial. As empresas, endossadas pela m\u00eddia e propaganda, defendem que o perfuminho e o talquinho s\u00e3o feitos \u201cespecialmente para seu c\u00e3o\u201d. N\u00e3o vou discutir aqui, quais par\u00e2metros e crit\u00e9rios utilizados para tal afirma\u00e7\u00e3o. Mas se tem cheiro, agride sim. N\u00e3o interessa se \u00e9 de \u201cflores do campo\u201d ou de \u201ccamomila da relva\u201d. E se n\u00e3o tem cheiro, \u00e9 para os olfatos humanos. O perfume, o talquinho e afins, verdadeiras obsess\u00f5es dos pet shops, podem nos parecer muito agrad\u00e1veis. Mas s\u00e3o uma agress\u00e3o sem tamanho para o c\u00e3o. Assim como v\u00f4mito, bosta e urina podem ser para eles, coquet\u00e9is de sensa\u00e7\u00f5es e informa\u00e7\u00f5es, para n\u00f3s, chegam a dar n\u00e1usea. As subst\u00e2ncias qu\u00edmicas artificiais afetam negativamente seu sentido primeiro, anulando a capacidade do c\u00e3o de ler o mundo com o focinho. Ent\u00e3o, rec\u00e9m sa\u00eddo do banho, quando tem a chance, vai se esfregar na grama, na bosta, no barro. Ele faz isso para se secar, ou algumas vezes para esconder o pr\u00f3prio cheiro em situa\u00e7\u00f5es em que age como predador (sapo e barata morta s\u00e3o \u00f3timos). Mas tamb\u00e9m \u00e9 uma tentativa de tirar o cheiro das subst\u00e2ncias qu\u00edmicas que o agridem, que o cegam para mundo. E \u00e9 duramente recriminado. Assim como \u00e9 recriminado quando toca a urina de outros c\u00e3es com o focinho para sentir os ferorm\u00f4nios (a urina conduz todos os cheiros para fora do organismo junto a uma s\u00e9rie de informa\u00e7\u00f5es). O melhor perfume para um cachorro \u00e9 o do tutor. Mas seu cheiro natural. Aquele que tentamos camuflar com desodorantes, pasta de dente, sabonetes e afins. Segundo Horowitz, o \u201csovaco\u201d humano \u00e9 uma das fontes mais fortes de odor produzido por qualquer animal. Para o c\u00e3o, vivemos secretando cheiros. Recrimin\u00e1-los quando v\u00e3o cheirar a boca, os genitais e os sovacos da visitas \u00e9 outro ponto de discuss\u00e3o. Dependendo do humano que visita sua casa, isso pode ser nada, pouco ou muito constrangedor. Por isso Horowitz sugere que deixemos pelo menos o c\u00e3o cheirar as m\u00e3os ou a nuca (dos mais familiarizados) de quem chega a seu territ\u00f3rio, pois n\u00e3o faz\u00ea-lo \u00e9 equivalente a colocar uma venda nos olhos de um humano para abrir a porta de casa para algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Quando tocamos um objeto, deixamos nosso cheiro nele. Se for um objeto de uso freq\u00fcente, poroso como um chinelo, por exemplo, esse objeto \u00e9 uma extens\u00e3o do nosso corpo para essa criatura com focinho. Da\u00ed a obsess\u00e3o por chinelos e outros.<\/p>\n<p>Todos os cheiros fornecem aos c\u00e3es, um retrato scanneado do mundo e trazem informa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas e singulares sobre o que comemos, quem beijamos, por onde passamos, se pegamos outro c\u00e3ozinho ou gato no colo e etc. Eles cheiram tamb\u00e9m as nossas emo\u00e7\u00f5es: raiva, medo, ang\u00fastia. N\u00e3o \u00e9 preciso apelar \u00e0 paranormalidade para saber que subst\u00e2ncias qu\u00edmicas das mais diversas s\u00e3o produzidas involuntariamente nas mais diversas situa\u00e7\u00f5es e liberam odores capt\u00e1veis pelos focinhos. O que cheira a limpeza para nossos narizes humanos, cheira para os c\u00e3es a qu\u00edmica artificial. As subst\u00e2ncias qu\u00edmicas utilizadas para a limpeza da casa, especialmente do nicho que o c\u00e3o passa a maior parte do tempo merecem uma aten\u00e7\u00e3o mais criteriosa. N\u00e3o estou sugerindo que passemos a viver no que n\u00f3s humanos chamamos de sujeira. Mas que olhemos com mais carinho para os focinhos caninos.<\/p>\n<p>Essas considera\u00e7\u00f5es d\u00e3o apenas uma id\u00e9ia da extens\u00e3o da import\u00e2ncia do sentido do olfato para os c\u00e3es. E podem dar a extens\u00e3o do quanto eles s\u00e3o agredidos. Qualquer interfer\u00eancia nessa recep\u00e7\u00e3o e decodifica\u00e7\u00e3o distorcer\u00e1 a leitura do mundo para o c\u00e3o. Quem desejar uma leitura mais profunda sobre os sentidos dos c\u00e3es, recomendo a leitura de Millan e Horowitz, ao final deste texto.<\/p>\n<p>A lista de bizarrices vai longe. Mas paro por aqui e convido o leitor a contribuir com algumas, pois sempre nos surpreendemos em se tratando de alguns seres humanos.<\/p>\n<p>Millan diz que o maior erro que cometemos em nossos relacionamentos com os c\u00e3es (e entre homens e mulheres) \u00e9 achar que pensamos da mesma maneira. A maioria das pessoas insiste em se relacionar com os c\u00e3es desta forma porque a psicologia humana \u00e9 a refer\u00eancia de base. Somos criados para acreditar que tudo nos pertence ou pode ser como quisermos. Mas por mais inteligentes que sejamos, nunca conseguiremos anular totalmente o instinto inerente \u00e0 natureza de um c\u00e3o. Algumas pessoas tentam. E percebemos claramente um c\u00e3o lesado em sua identidade atrav\u00e9s da sua linguagem corporal ou pelos dist\u00farbios comportamentais que apresentam. O autor alerta que humanizar um c\u00e3o \u00e9 hoje, a fonte de muitos problemas que geram um c\u00e3o desequilibrado e insatisfeito, conduzindo a um comportamento problem\u00e1tico.<\/p>\n<p>As breves considera\u00e7\u00f5es aqui apresentadas podem parecer \u00f3bvias para grande parte das pessoas que tem verdadeira empatia por todos os animais n\u00e3o humanos, entre eles, os c\u00e3es. Mas basta um olhar em volta para percebermos todos os dias, repetidamente, esses e outros fen\u00f4menos que envolvem antropomorfiza\u00e7\u00e3o. Fen\u00f4menos que se traduzem para o dono em status, orgulho e uma ostenta\u00e7\u00e3o f\u00fatil que chega a ser rid\u00edcula. E sempre quem paga, com sua sa\u00fade mental e a perda de sua identidade, \u00e9 o c\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 que se fazer a distin\u00e7\u00e3o fundamental entre o que \u00e9 bom para si e o que \u00e9 bom para o c\u00e3o. Al\u00e9m de satisfazer os egos humanos e por vezes, mentes vazias, talvez no fundo (ou n\u00e3o t\u00e3o no fundo) esses poucos exemplos citados, sejam frustradas tentativas de compensar a falta de liberdade e a falta de tempo com eles. Como acontece com filhos mimados que, materialmente falando t\u00eam tudo o que querem e mais do que precisam. Menos carinho, aten\u00e7\u00e3o e limites.<\/p>\n<p>Tenho consci\u00eancia de que os fen\u00f4menos aqui descritos s\u00e3o total ou parcialmente pass\u00edveis de outras interpreta\u00e7\u00f5es. Os argumentos aqui apresentados podem ser controversos para algumas pessoas. Portanto, sujeitos ao debate. Mas em minha concep\u00e7\u00e3o, respeitar o c\u00e3o \u00e9, antes de tudo, atend\u00ea-lo em suas necessidades de c\u00e3o. E tudo o que est\u00e1 fora disso e segue o sentido da antropomorfiza\u00e7\u00e3o, da explora\u00e7\u00e3o e do exibicionismo pode ser considerado algo que o c\u00e3o n\u00e3o precisa para exercer sua identidade com corpo e mente saud\u00e1veis.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; ALEGRE, Manuel. C\u00e3o como n\u00f3s. Rio de Janeiro: Agir, 2007<\/p>\n<p>&#8211; HOROWITZ, Alexandra. A cabe\u00e7a do cachorro. Tradu\u00e7\u00e3o: Lourdes Sette. Rio de Janeiro: Best Seller, 2010.<\/p>\n<p>&#8211; MASSON, Jeffrey Moussaieff &amp; MacCARTHY, Susan. Quando os elefantes choram: a vida emocional dos animais. S\u00e3o Paulo: Gera\u00e7\u00e3o Editorial, 2001.<\/p>\n<p>&#8211; MILLAN, Cesar &amp; PELTIER, Melissa. O encantador de c\u00e3es. Tradu\u00e7\u00e3o: Carolina Coelho. Campinas : Verus, 2007.<\/p>\n<p>_____________________<\/p>\n<p><em>Marcela Teixeira Godoy. Bi\u00f3loga, Professora da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Coordena e trabalha com projetos de Ensino, Pesquisa e Extens\u00e3o voltados para o abolicionismo animal. Doutoranda em Ensino de Ci\u00eancias na Universidade Estadual de Londrina-Paran\u00e1, Brasil.<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.anda.jor.br\/01\/03\/2012\/do-que-um-cao-nao-precisa\" >Go to Original \u2013 anda.jor.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do que um c\u00e3o n\u00e3o precisa? Essa pergunta pode suscitar discuss\u00e3o, algumas reflex\u00f5es e um bocado de pol\u00eamica. A resposta nem sempre pode ser aquela que desejamos ouvir. O que estamos fazendo com eles no sentido de deformar suas mentes e corpos para adapt\u00e1-los \u00e0 conveni\u00eancia dos padr\u00f5es humanos?<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-20131","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20131","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20131"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20131\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20131"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20131"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20131"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}