{"id":20135,"date":"2012-07-16T12:00:46","date_gmt":"2012-07-16T11:00:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=20135"},"modified":"2012-07-10T20:01:59","modified_gmt":"2012-07-10T19:01:59","slug":"portuguese-o-capitalismo-neoliberal-esta-morto-que-venha-o-capitalismo-regulado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2012\/07\/portuguese-o-capitalismo-neoliberal-esta-morto-que-venha-o-capitalismo-regulado\/","title":{"rendered":"(Portuguese) O Capitalismo Neoliberal Est\u00e1 Morto; Que Venha o Capitalismo Regulado"},"content":{"rendered":"<p><em>O cora\u00e7\u00e3o do sistema, os bancos, j\u00e1 n\u00e3o funciona. E n\u00e3o h\u00e1 como faz\u00ea-lo voltar segundo a f\u00f3rmula tradicional, antes da libera\u00e7\u00e3o financeira, de capta\u00e7\u00e3o de recursos no mercado a curto prazo e financiamento do sistema produtivo a longo prazo. Para reconciliar o sistema produtivo com o sistema financeiro, algu\u00e9m ter\u00e1 de pagar o custo da especula\u00e7\u00e3o exacerbada.<\/em><\/p>\n<p>O capitalismo neoliberal est\u00e1 morto. Seus matadores n\u00e3o s\u00e3o as correntes de esquerda tradicional, mas aquilo que Marx chamava, num n\u00edvel de abstra\u00e7\u00e3o acima da esfera pol\u00edtica, de suas contradi\u00e7\u00f5es internas. A revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que Marx previu n\u00e3o aconteceu \u2013 ou pelo menos n\u00e3o aconteceu no capitalismo maduro, como havia imaginado -, mas est\u00e1 acontecendo sob nossos olhos a desagrega\u00e7\u00e3o do capitalismo liberal enquanto uma estrutura funcional de gera\u00e7\u00e3o e de acumula\u00e7\u00e3o de capital.<\/p>\n<p>No capitalismo, a gera\u00e7\u00e3o do valor se d\u00e1 na esfera produtiva, e n\u00e3o na esfera dos servi\u00e7os. Entretanto, um servi\u00e7o em particular \u00e9 fundamental para o desenvolvimento do setor produtivo: o de intermedia\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria. O crescimento econ\u00f4mico depende fundamentalmente de cr\u00e9dito, assim como a pr\u00f3pria acumula\u00e7\u00e3o de capital. \u00c9 verdade que as grandes corpora\u00e7\u00f5es investem a partir sobretudo de recursos pr\u00f3prios. Assim mesmo dependem de bancos para complement\u00e1-los ou para obter outros servi\u00e7os, como a coloca\u00e7\u00e3o de b\u00f4nus.<\/p>\n<p>Contudo, uma depend\u00eancia relativamente pequena das grandes corpora\u00e7\u00f5es de financiamento banc\u00e1rio n\u00e3o elimina o fato de que, na economia americana, a esmagadora maioria das pequenas e m\u00e9dias empresas, que respondem por 65% do emprego, dependem fundamentalmente do cr\u00e9dito banc\u00e1rio para se expandirem. O mesmo se reproduz na Europa. Isso d\u00e1 a dimens\u00e3o da depend\u00eancia do capital do sistema banc\u00e1rio. Na verdade, ele \u00e9 o pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o do sistema, bombeando cr\u00e9dito para o resto do corpo econ\u00f4mico. E o emprego acaba sendo uma fun\u00e7\u00e3o de ambos.<\/p>\n<p>A crise atual, por\u00e9m, provocou um impasse. Na medida em que as hienas do sistema banc\u00e1rio promoveram a mais escandalosa farra especulativa de todos os tempos na esfera financeira, aproveitando-se da liberaliza\u00e7\u00e3o do sistema, a esfera financeira descolou-se da esfera produtiva numa escala jamais vista. Nas v\u00e9speras da explos\u00e3o da crise em 2008, o valor nocional dos derivativos, segundo o BIS, ultrapassava os 700 trilh\u00f5es de d\u00f3lares, o que se comparava a um PIB mundial, na \u00e9poca, da ordem de 60 trilh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>A despeito das tentativas de reforma financeira nos EUA e na Europa, a mesma marcha especulativa foi retomada nos tr\u00eas \u00faltimos anos. Continua a farra dos derivativos e a especula\u00e7\u00e3o desenfreada, que, quando d\u00e1 errado, leva a perdas gigantescas que p\u00f5em em risco a estabilidade de todo o sistema, como ocorreu recentemente com o Morgan \u2013 que pode se dar ao luxo dessas perdas porque \u00e9 grande demais para quebrar. Contudo, isso ainda n\u00e3o \u00e9 a ess\u00eancia da contradi\u00e7\u00e3o entre o sistema banc\u00e1rio e a funcionalidade do capital. A contradi\u00e7\u00e3o fundamental \u00e9 que os grandes bancos j\u00e1 n\u00e3o podem dar cr\u00e9dito.<\/p>\n<p>Tome-se o sistema norte-americano. Focando apenas no mercado hipotec\u00e1rio, existem no sistema financeiro cerca de 6 trilh\u00f5es de d\u00f3lares em t\u00edtulos em circula\u00e7\u00e3o. Destes, cerca de 3,5 trilh\u00f5es s\u00e3o de recebimento duvidoso (dependendo do comportamento do mercado imobili\u00e1rio real) e 1,5 trilh\u00e3o \u00e9 de perda certa. As ag\u00eancias reguladoras permitiram que os bancos conservem os t\u00edtulos em carteira at\u00e9 o vencimento, portanto, sem reconhecer antecipadamente a perda. Isso apenas retarda o momento da verdade, que vai se revelar no vencimento.<\/p>\n<p>Para se preparar para as perdas no vencimento, os bancos n\u00e3o podem estender empr\u00e9stimos a empresas produtivas, ou reduzem seus empr\u00e9stimos a um m\u00ednimo, porque o retorno \u00e9 demorado. Preferem ficar no mercado especulativo e de curt\u00edssimo prazo, para gerar lucros imediatos e evitar a quebra. Assim, operam preferencialmente no mercado cambial (4 trilh\u00f5es de d\u00f3lares ao dia, quase 1 quatrilh\u00e3o de d\u00f3lares ao ano), na arbitragem com t\u00edtulos p\u00fablicos (tomam cr\u00e9dito no Fed a zero por cento e aplicam em t\u00edtulos p\u00fablicos a 3,5%), na coloca\u00e7\u00e3o de b\u00f4nus de grandes corpora\u00e7\u00f5es e em outras atividades com rentabilidade imediata. Do ponto de vista do cr\u00e9dito, trata-se do chamado empo\u00e7amento do dinheiro.<\/p>\n<p>Esta \u00e9, em s\u00edntese, e de um ponto de vista pr\u00e1tico, a grande contradi\u00e7\u00e3o atual do sistema capitalista liberal. O cora\u00e7\u00e3o do sistema, os bancos, j\u00e1 n\u00e3o funciona. E n\u00e3o h\u00e1 como faz\u00ea-lo voltar segundo a f\u00f3rmula tradicional, antes da libera\u00e7\u00e3o financeira, de capta\u00e7\u00e3o de recursos no mercado a curto prazo e financiamento do sistema produtivo a longo prazo. Em outras palavras, para reconciliar o sistema produtivo com o sistema financeiro, algu\u00e9m ter\u00e1 de pagar o custo da especula\u00e7\u00e3o exacerbada. Isso pode vir atrav\u00e9s do reconhecimento de quebras gigantescas do lado financeiro, que abalariam toda a civiliza\u00e7\u00e3o, ou mediante um mecanismo mais civilizado de estatiza\u00e7\u00e3o do sistema banc\u00e1rio, algo j\u00e1 ensaiado nos pa\u00edses industrializados avan\u00e7ados em 2008 e 2009 com v\u00e1rios grandes bancos (e que \u00e9 uma realidade permanente na China e na \u00cdndia, e uma realidade parcial no Brasil).<\/p>\n<p>______________________<\/p>\n<p><em>J. Carlos de Assis: economista e professor da UEPB, presidente do Intersul, autor junto com o matem\u00e1tico Francisco Antonio Doria do rec\u00e9m-lan\u00e7ado \u201c<\/em>O Universo Neoliberal em Desencanto<em>\u201d, Ed. Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5673&amp;boletim_id=1275&amp;componente_id=20823\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cora\u00e7\u00e3o do sistema, os bancos, j\u00e1 n\u00e3o funciona. E n\u00e3o h\u00e1 como faz\u00ea-lo voltar segundo a f\u00f3rmula tradicional, antes da libera\u00e7\u00e3o financeira, de capta\u00e7\u00e3o de recursos no mercado a curto prazo e financiamento do sistema produtivo a longo prazo. 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