{"id":20138,"date":"2012-07-16T12:00:18","date_gmt":"2012-07-16T11:00:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=20138"},"modified":"2012-07-10T20:05:36","modified_gmt":"2012-07-10T19:05:36","slug":"portuguese-uma-pausa-para-o-luto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2012\/07\/portuguese-uma-pausa-para-o-luto\/","title":{"rendered":"(Portuguese) Uma Pausa Para o Luto"},"content":{"rendered":"<p><em>O irm\u00e3o mais mo\u00e7o, Jaime, de Gabriel Garcia Marquez (84 anos) confirma: o escritor est\u00e1 perdendo a mem\u00f3ria, e n\u00e3o consegue mais escrever. \u00c9 uma perda imensur\u00e1vel, para a literatura e para o jornalismo. Como se isso n\u00e3o bastasse, no fim de semana que passou morreu, aos 95 anos, Ernest Borgnine.<\/em><\/p>\n<p>As not\u00edcias correm c\u00e9leres: o presidente Mohamed Morsi desafia o Conselho Supremo das For\u00e7as Armadas no Cairo e manda reabrir o Parlamento fechado dias atr\u00e1s. Mais adiante a situa\u00e7\u00e3o na S\u00edria continua se atolando mais e mais numa guerra civil sangrenta e patrocinada em todos os lados por interesses amb\u00edguos, para dizer o m\u00ednimo, indo da Ar\u00e1bia Saudita \u00e0 Al-Qaeda, do mesmo lado (!), e a R\u00fassia e o Ir\u00e3, do outro. Assange continua confinado na Embaixada do Equador em Londres. Em Assun\u00e7\u00e3o a Frente Guaz\u00fa tem um novo l\u00edder, que pode substituir Lugo na presid\u00eancia daquele pa\u00eds, se os golpistas n\u00e3o interferirem antes: Mario Ferreiro, que se apresenta como \u201cum homem comum com id\u00e9ias de esquerda\u201d, ex-apresentador de TV.<\/p>\n<p>Mas por ora fa\u00e7amos tamb\u00e9m uma pausa para o luto.<\/p>\n<p>Ou melhor, dois lutos.<\/p>\n<p>1) O irm\u00e3o mais mo\u00e7o, Jaime, de Gabriel Garcia Marquez (84 anos) confirma: o escritor est\u00e1 perdendo a mem\u00f3ria, e n\u00e3o consegue mais escrever. \u00c9 uma perda imensur\u00e1vel, para a literatura e para o jornalismo. Garcia Marquez, que ganhou o pr\u00eamio Nobel, deixou sua marca indel\u00e9vel na cultura mundial com livros como \u201cCem anos de solid\u00e3o\u201d, de 1967, que teve excelente tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas do Brasil, por Eliane Zagury, logo em seguida.<\/p>\n<p>Houve mais: \u201cNingu\u00e9m escreve ao coronel\u201d, \u201cMem\u00f3ria de minhas putas tristes\u201d (\u00faltimo romance), \u201cO amor nos tempos do c\u00f3lera\u201d, \u201cO outono do patriarca\u201d, \u201cCr\u00f4nica de uma morte anunciada\u201d, e muito ainda. Criador da cidade fant\u00e1stica e imagin\u00e1ria Macondo (ele revelou certa vez que uma das suas fontes inspiradoras para a cria\u00e7\u00e3o dessa cidade foi a tamb\u00e9m imagin\u00e1ria Santa F\u00e9, de \u201cO tempo e o vento\u201d, de Erico Verissimo, a literatura de Garcia Marquez, al\u00e9m de ser de alt\u00edssima qualidade, ajudou gera\u00e7\u00f5es de latino-americanos que mergulhavam nas sombrias ditaduras dos anos 60 e 70 a reencontrarem alguma forma de esperan\u00e7a. E t\u00e3o importante quanto sua literatura ficcional, foi seu empenho jornal\u00edstico, cobrindo a Am\u00e9rica Latina, os Estados Unidos, chegando at\u00e9 o Vietn\u00e3 ainda fumegante da guerra com os Estados Unidos. Que Gabo, como \u00e9 conhecido entre os amigos, permane\u00e7a em paz neste que parece ser o portal de seu \u00faltimo empenho pela vida.<\/p>\n<p>2) Como se isso n\u00e3o bastasse, no fim de semana que passou morreu um de meus \u00eddolos cinematogr\u00e1ficos, aos 95 anos: Ernest Borgnine. Filho de imigrantes italianos, Borgnine marcou o cinema com suas interpreta\u00e7\u00f5es de homens dur\u00f5es, \u00e0s vezes de maus bofes, como aquele sargento James \u201cFatso\u201d Judson, de \u201cA um passo da eternidade\u201d (1953), filme de Fred Zinneman que imortalizou o beijo na praia de Burt Lancaster e Deborah Kerr, considerado avan\u00e7ad\u00edssimo para a \u00e9poca, que hoje deve parecer um jogo infantil para as novas gera\u00e7\u00f5es. Outras vezes seus \u201cdur\u00f5es\u201d eram simp\u00e1ticos, embora \u201csin perder la dureza jam\u00e1s\u201d, como o Dutch de \u201cMeu \u00f3dio ser\u00e1 tua heran\u00e7a\u201d, tradu\u00e7\u00e3o absurda para \u201cThe Wild Bunch\u201d (1969), de Sam Peckinpah, o cineasta meio \u00edndio que viveu muitos anos no M\u00e9xico. Borgnine desempenhou pap\u00e9is importantes em muitos outros filmes, cl\u00e1ssicos ou n\u00e3o, como \u201cVera Cruz\u201d, \u201cOs vikings\u201d (onde fez o papel do rei Ragnar, beberr\u00e3o, incontido, corajoso e violento), \u201cJohnny Guitar\u201d (estrelado por Joan Crawford), \u201cOs doze condenados\u201d, e outros e outros mais.<\/p>\n<p>Mas ele ganhou o Oscar de melhor ator com um filme rom\u00e2ntico, Marty, de 1955, dirigido por Delbert Mann (que tamb\u00e9m dirigiria o excelente \u201cThe outsider\u201d, de 1961, sobre a vida do soldado Ira Hayes, um dos seis que figuram na c\u00e9lebre foto dos militares norte-americanos erguendo a bandeira em Iwo Jima). Em \u201cMarty\u201d Borgnine desempenha o papel de um solteir\u00e3o \u2013 de apenas 34 anos, mas isso, na \u00e9poca, era um solteir\u00e3o \u2013 que descobre o amor da sua vida mas tem de enfrentar a oposi\u00e7\u00e3o dos familiares que temem que, se ele se casar, sua m\u00e3e fique sozinha \u2013 ou tenha que ir morar com eles, ao inv\u00e9s de com ele.<\/p>\n<p>Ma\u00e7om, Borgnine criticava os pol\u00edticos norte-americanos, dizendo que eles eram eleitos para representar o povo mas passavam a representar quem lhes financiava as campanhas e os lobbystas de plant\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma grande perda para o cinema.<\/p>\n<p>________________________<\/p>\n<p><em>Fl\u00e1vio Aguiar \u00e9 correspondente internacional da Carta Maior em Berlim.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5674&amp;boletim_id=1275&amp;componente_id=20818\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O irm\u00e3o mais mo\u00e7o, Jaime, de Gabriel Garcia Marquez (84 anos) confirma: o escritor est\u00e1 perdendo a mem\u00f3ria, e n\u00e3o consegue mais escrever. \u00c9 uma perda imensur\u00e1vel, para a literatura e para o jornalismo. 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