{"id":20215,"date":"2012-07-23T12:00:53","date_gmt":"2012-07-23T11:00:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=20215"},"modified":"2012-07-23T12:03:45","modified_gmt":"2012-07-23T11:03:45","slug":"portuguese-lembrando-da-memoria-de-garcia-marquez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2012\/07\/portuguese-lembrando-da-memoria-de-garcia-marquez\/","title":{"rendered":"(Portuguese) Lembrando da Mem\u00f3ria de Garc\u00eda M\u00e1rquez"},"content":{"rendered":"<p>Ningu\u00e9m combinou nada com ningu\u00e9m, nada foi pedido a quem quer que fosse, mas existia uma esp\u00e9cie de pacto silencioso: n\u00e3o mencionar, fora de c\u00edrculos absolutamente restritos e da mais rigorosa confian\u00e7a, que Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez perdia, pouco a pouco no princ\u00edpio, e rapidamente depois, a mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou h\u00e1 alguns anos. Mas foi a partir dos \u00faltimos quatro que o processo se acelerou. As declara\u00e7\u00f5es emocionadas de seu irm\u00e3o ca\u00e7ula, Jaime, na semana passada, correram mundo e acabaram escancarando o assunto. Ele n\u00e3o foi o primeiro a romper aquele pacto n\u00e3o declarado: um m\u00eas antes, o jornalista colombiano Pl\u00ednio Apuleyo Mendoza mencionou a perda de mem\u00f3ria do escritor.<\/p>\n<p>H\u00e1 algum tempo circulam rumores sobre o estado de sa\u00fade de Garc\u00eda M\u00e1rquez. S\u00e3o especula\u00e7\u00f5es de todo tipo, e o que fizeram Pl\u00ednio Apuleyo Mendoza primeiro, e Jaime depois, serve ao menos para esclarecer alguns pontos.<\/p>\n<p>O jornalista, amigo de Garc\u00eda M\u00e1rquez h\u00e1 mais de meio s\u00e9culo, seu compadre, foi mais contido. Relatou que durante um longo tempo os dois se falavam por telefone quase todas as semanas. E que, a partir de determinada \u00e9poca \u2013 ele n\u00e3o disse quando \u2013 Garc\u00eda M\u00e1rquez deixou de ligar. Da\u00ed em diante, j\u00e1 n\u00e3o se falaram. Sempre que ele telefonava para o M\u00e9xico, ouvia alguma desculpa delicada e vi\u00e1vel. A explica\u00e7\u00e3o veio, enfim, de um dos filhos de Garc\u00eda M\u00e1rquez, que contou que seu pai n\u00e3o reconhecia mais as pessoas pela voz, s\u00f3 pessoalmente. E que por isso j\u00e1 n\u00e3o atendia as liga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Jaime foi caudaloso em suas declara\u00e7\u00f5es. Contou que ele e o irm\u00e3o mais velho se falam por telefone quase todos os dias, e que o tema das conversas \u00e9 recorrente: Garc\u00eda M\u00e1rquez pede que o ajude a lembrar fatos passados.<\/p>\n<p>Disse que o irm\u00e3o sofre de dem\u00eancia senil, um mal comum na fam\u00edlia. Afirmou que h\u00e1 anos ele n\u00e3o escreve nada, e que n\u00e3o tornar\u00e1 a escrever.<\/p>\n<p>Estive com Jaime em Cartagena das \u00cdndias outubro de 2010. Numa de nossas muitas conversas ele me disse que a doen\u00e7a do irm\u00e3o estava em estado avan\u00e7ado.<\/p>\n<p>Menos de um ano depois, estive com Mercedes e Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, em sua casa na Cidade do M\u00e9xico. Foi uma conversa longa, de quase tr\u00eas horas. Durante esse tempo, ele falou muito pouco. Entrava em longos sil\u00eancios, mas cada vez que eu pressentia que estava alheio ao que Mercedes e eu diz\u00edamos, ele intervinha. Eram coment\u00e1rios curtos, disparados entre sorrisos. A certa altura, perguntou por qu\u00ea meu filho Felipe, que estava comigo no M\u00e9xico e ele conhece desde os quatro anos de idade, n\u00e3o tinha ido v\u00ea-lo. E voltou a um sil\u00eancio profundo e prolongado.<br \/>\nN\u00e3o ouvi de ningu\u00e9m, de nenhum dos amigos realmente pr\u00f3ximos, men\u00e7\u00e3o alguma a dem\u00eancia senil. O que sim, sei, \u00e9 que aquela mem\u00f3ria prodigiosa de Garc\u00eda M\u00e1rquez n\u00e3o existe mais, e faz tempo.<\/p>\n<p>Conta Jaime, agora, exatamente o que me contou em Cartagena: o prolongado e intenso tratamento com quimioterapia ao qual Garc\u00eda M\u00e1rquez se submeteu para superar um c\u00e2ncer linf\u00e1tico que o afetou em 1999 acabou de prejudicar de vez sua mem\u00f3ria. Os efeitos come\u00e7aram a se fazer sentir aos poucos, e se agravaram nos \u00faltimos seis anos.<\/p>\n<p>Na verdade, tem sido f\u00e1cil constatar isso. Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez sempre foi dono de uma mem\u00f3ria sem limites, e essa mem\u00f3ria se desvaneceu.<\/p>\n<p>Lembro das muitas vezes que vi como ele interrogava algu\u00e9m sobre determinado tema \u2013 volta e meia aconteceu comigo \u2013 e, anos depois, era capaz de rearmar a hist\u00f3ria ouvida como se tivesse sido vivida por ele dois dias antes. Era capaz de descrever determinada rua de alguma cidade como se estivesse chegando de l\u00e1. Discutir com ele era, na imensa maioria das vezes, perder tempo: acabava sempre achando alguma prova inconteste de que sua mem\u00f3ria era imbat\u00edvel.<\/p>\n<p>Assim ele escreveu tudo que escreveu. Disse, ao longo da vida, que n\u00e3o h\u00e1 uma s\u00f3 linha, em toda a sua obra, que n\u00e3o tivesse como ponto de partida um dado da realidade. Ou seja: um dado guardado, intacto, em sua mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Bem: essa mem\u00f3ria se acabou. E, com ela, se acabou a escrita mais luminosa das \u00faltimas muitas d\u00e9cadas da literatura feita na Am\u00e9rica de todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Numa tarde de novembro de 2008 ele me disse, no jardim da sua casa: \u2018N\u00e3o escrevo mais porque j\u00e1 n\u00e3o tenho id\u00e9ias para escrever\u2019. Brinquei, dizendo que era a mesma coisa que ele havia me dito ao longo de mais de vinte anos.<\/p>\n<p>J\u00e1 contei essa hist\u00f3ria em alguns textos que escrevi sobre ele. O que n\u00e3o contei, por\u00e9m, conto agora: ao ouvir meu coment\u00e1rio, Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez me olhou e disse num fio de voz: \u2018Id\u00e9ias, eu at\u00e9 que tenho, ou devo ter. S\u00f3 que na hora de escrever n\u00e3o me lembro de nenhuma\u2019.<\/p>\n<p>Foi quando entendi que j\u00e1 n\u00e3o haveria mais livros do autor que certa vez disse que escrevia para que os amigos gostassem mais dele.<\/p>\n<p>O pacto que nunca existiu volta a existir. Jaime Garc\u00eda M\u00e1rquez disse o que achou que devia dizer. Nos dias seguintes, Jaime Abello, diretor da Funda\u00e7\u00e3o do Novo Jornalismo, criada e mantida por Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, resolveu acabar com essa hist\u00f3ria toda. Negou que o escritor pade\u00e7a de dem\u00eancia senil, disse que n\u00e3o h\u00e1 nenhum diagn\u00f3stico m\u00e9dico indicando a doen\u00e7a, e que Garc\u00eda M\u00e1rquez, aos seus 85 anos de vida, \u00e9 apenas um anci\u00e3o esquecedi\u00e7o (a palavra, em castelhano, foi \u2018olvidadizo\u2019), e que continua desfrutando dele como amigo.<\/p>\n<p>Melhor assim. Em algum lugar de seus longos sil\u00eancios Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez deve abrigar, em vez daquela mem\u00f3ria sem fim, a nostalgia de um tempo em que recordar era viver.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=20564&amp;boletim_id=1280&amp;componente_id=20904\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez sempre foi dono de uma mem\u00f3ria sem limites, e, agora, essa mem\u00f3ria se desvaneceu. 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