{"id":203846,"date":"2022-01-24T12:00:59","date_gmt":"2022-01-24T12:00:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=203846"},"modified":"2022-01-24T05:15:01","modified_gmt":"2022-01-24T05:15:01","slug":"portugues-eu-so-sou-eu-atraves-de-voce-ubuntu-uma-saida-da-barbarie","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2022\/01\/portugues-eu-so-sou-eu-atraves-de-voce-ubuntu-uma-saida-da-barbarie\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) \u201cEu s\u00f3 sou eu atrav\u00e9s de voc\u00ea\u201d. Ubuntu: Uma Sa\u00edda da Barb\u00e1rie"},"content":{"rendered":"<p><em>18 Jan 2022 &#8211; <\/em>A pandemia mostrou uma abissal desigualdade mundial e uma falta cruel de solidariedade para com aqueles que n\u00e3o podem fazer o distanciamento social e deixar de trabalhar sen\u00e3o n\u00e3o t\u00eam o que comer. Para sermos concretos: n\u00e3o abandonamos ainda o mundo da barb\u00e1rie e se j\u00e1 a hav\u00edamos deixado, retornamos a ele. O nosso mundo n\u00e3o pode ser chamado de civilizado porque um ser humano n\u00e3o reconhece e acolhe outro ser humano, independente do dinheiro que carrega no bolso ou tem depositado no banco ou de sua vis\u00e3o de mundo e de sua inscri\u00e7\u00e3o religiosa.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/ubuntu-africa.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-203847\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/ubuntu-africa.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"377\" \/><\/a><\/p>\n<p>A civiliza\u00e7\u00e3o surge quando os seres humanos se entendem iguais e decidem conviver pacificamente. Se isso \u00e9 assim, estamos ainda na antessala da civiliza\u00e7\u00e3o e navegamos em plena barb\u00e1rie. Esse cen\u00e1rio \u00e9 dominante no mundo de hoje, agravado ainda mais pela intrus\u00e3o do Covid-19.Ele ganhou sua mais perversa express\u00e3o pela cultura do capital,competitiva,pouco solid\u00e1ria, individualista, materialista e sem nenhuma compaix\u00e3o para com a natureza.<\/p>\n<p>Neste contexto vexaminoso duas alternativas nos podem salvar: a solidariedade e o internacionalismo.<\/p>\n<p>A <em>solidariedade<\/em> pertence \u00e0 ess\u00eancia do humano, pois se n\u00e3o tivesse havido um m\u00ednimo de solidariedade e de compaix\u00e3o, ningu\u00e9m de n\u00f3s estaria aqui falando destas coisas. Foi necess\u00e1rio que nossas m\u00e3es nos tivessem solidariamente acolhido, nos abra\u00e7ado, alimentado e amado para podermos existir. Sabemos pela bioantropologia que foi a solidariedade de nossas ancestrais antropoides que se tornaram humanos e, com isso, civilizados, quando come\u00e7aram a trazer a comida ao grupo, repartirem-na solidariamente entre si e exercerem a comensalidade. Esta a\u00e7\u00e3o continua ainda hoje, quando muitos grupos, especialmente os Sem Terra, se mostraram solid\u00e1rios distribuindo dezenas de toneladas de agro alimentos e muitas centenas de marmitas para saciar a fome de milhares nas ruas e periferias de nossas cidades.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/ubuntu-africa2.jpeg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-203848\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/ubuntu-africa2.jpeg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/ubuntu-africa2.jpeg 225w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/ubuntu-africa2-150x150.jpeg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O <em>internacionalismo<\/em> acompanha a solidariedade.Ele parece \u00f3bvio: se o problema \u00e9 internacional,deveria haver tamb\u00e9m uma solu\u00e7\u00e3o internacionalmente consertada. Mas quem cuida do internacional? Cada pa\u00eds cuida de sei mesmo como se n\u00e3o houvesse nada para al\u00e9m de suas fronteiras. Ocorre que atualmente inauguramos a fase nova da hist\u00f3ria da Terra e da Humanidade: a fase planet\u00e1ria, a da \u00fanica Casa Comum. Os v\u00edrus n\u00e3o respeitam as fronteiras nacionais. O Covid-19 atacou a Terra inteira e amea\u00e7a a\u00a0 todos os pa\u00edses sem exce\u00e7\u00e3o. As soberanias mostraram-se obsoletas. Que seria dos velhinhos da It\u00e1lia, gravemente infectados pelo Covid-19, se n\u00e3o fosse a solidariedade de Angela Merkel da Alemanha que salvou a grande maioria deles? Mas isso foi uma exce\u00e7\u00e3o para mostrar que \u00e9 pela supera\u00e7\u00e3o do nacionalismo envelhecido em nome do internacionalismo solid\u00e1rio que poder\u00e1 ser encontrado um caminho de sa\u00edda para a nossa barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>\u00c9 nesta perspectiva que consideramos inspiradora uma categoria fundamental, vinda da \u00c1frica. Muito mais pobre que n\u00f3s, \u00a0ela \u00e9 \u00a0mais rica em <em>solidariedad<\/em>e. Esta vem expressa pela palavra <em>Ubuntu<\/em>, que significa<em>: eu s\u00f3 sou eu atrav\u00e9s de voc\u00ea<\/em>. O outro, portanto, \u00e9 essencial para que eu exista enquanto humano e civilizado. Inspirado pelo <em>Ubuntu<\/em>, o rec\u00e9m-falecido arcebispo anglicano Desmond Tutu encontrou, para a \u00c1frica do Sul, uma chave para a reconcilia\u00e7\u00e3o entre brancos e negros, na Comiss\u00e3o da Verdade e da Reconcilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como ilustra\u00e7\u00e3o como o Ubuntu est\u00e1 enraizado na culturas africanas, consideremos este pequeno testemunho: um viajante europeu e branco\u00a0 se extasiou com o fato de que, sendo mais pobres que a maioria, os africanos eram menos desiguais. Quis saber o porqu\u00ea. Idealizou um teste. Viu um grupo de jovens jogando futebol num campo cercado de \u00e1rvores. Comprou um bela cesta de diversos e coloridos frutos e a colocou no alto de um pequeno morro. Chamou os jovens e lhes disse: \u201cL\u00e1 no alto h\u00e1 uma cesta cheia de saborosos frutos. Vamos fazer uma aposta: voc\u00eas se coloquem todos em fila e quando der o sinal, comecem\u00a0 correr. Quem chegar primeiro l\u00e1 no alto, ganhou a cesta de frutos e poder\u00e1 comer sozinho quanto quiser\u201d.<\/p>\n<p>Deu o sinal de partida. Coisa curiosa: todos se deram as m\u00e3os e juntos correram para o alto, onde estava a cesta. Come\u00e7aram a saborear solidariamente os frutos.<\/p>\n<p>O europeu, estupefacto, perguntou: por que fizeram isso? N\u00e3o era o primeiro a chegar e poder comer sozinho os frutos? Todos gritaram unanimemente: <em>Ubuntu! Ubuntu! <\/em>E um jovem, um pouco mais idoso, lhe explicou:<em>\u201cComo um de n\u00f3s poderia ficar feliz sozinho se todos os demais ficariam tristes<\/em>?\u201d E acrescentou<em>:<\/em><\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cMeu senhor, a palavra <strong>Ubuntu <\/strong>significa isso para n\u00f3s<strong>: <\/strong>\u201cEu s\u00f3 posso ser eu por meio do outro\u201d. \u201cSem o outro eu n\u00e3o sou nada e ficaria sempre sozinho. Sou quem sou porque sou atrav\u00e9s dos outros. Por isso que repartimos tudo entre n\u00f3s, colaboramos uns com os outros e assim ningu\u00e9m fica de fora e triste. Assim fizemos com a sua proposta. Comemos todos juntos. Todos ganhamos a corrida e juntos desfrutamos dos bons frutos que nos trouxe. Entendeu agora?<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Este pequeno relato \u00e9 o contr\u00e1rio da cultura capitalista. Esta imagina que algu\u00e9m \u00e9 tanto mais feliz quanto mais pode acumular individualmente e usufruir sozinho. Por causa desta atitude reina a barb\u00e1rie, h\u00e1 tanto ego\u00edsmo, falta de generosidade e aus\u00eancia de colabora\u00e7\u00e3o entre as pessoas. A alegria (falsa) \u00e9 de poucos ao lado da tristeza (verdadeira) de muitos.Para viver bem, em nossa cultura, muitos t\u00eam que viver mal.<\/p>\n<p>Entretanto, por todas as partes na humanidade, est\u00e3o fermentando grupos e movimentos que ensaiam viver essa nova civiliza\u00e7\u00e3o da solidariedade entre os humanos e tamb\u00e9m para com a natureza. Cremos que come\u00e7ou a constru\u00e7\u00e3o da Arca de No\u00e9. Ela nos poder\u00e1 salvar se o Universo e o Criador nos concederem o tempo necess\u00e1rio.Fora da solidariedade e o do sentido internacionalista pereceremos em nossa barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>_________________________________________________<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Leonardo_Boff_Wilson-Dias_Abr_0-e1507211118491.gif\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-43416\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Leonardo_Boff_Wilson-Dias_Abr_0-300x177.gif\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"118\" \/><\/a> Leonardo Boff \u00e9 um escritor, te\u00f3logo e fil\u00f3sofo brasileiro, professor em\u00e9rito de \u00e9tica e filosofia da religi\u00e3o da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, recebedor do <\/em><strong><em>Pr\u00eamio Nobel Alternativo da Paz<\/em><\/strong><em> do Parlamento sueco [<\/em><strong><em>Right Livelihood Award<\/em><\/strong><em>]em 2001, membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra, e professor visitante em v\u00e1rias universidades estrangeiras como Basel, Heidelberg, Harvard, Lisboa e Salamanca. Expoente da <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teologia_da_Liberta%C3%A7%C3%A3o\" >Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/a><\/em><em> no Brasil, foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. \u00c9 respeitado pela sua hist\u00f3ria de defesa pelas causas sociais e atualmente debate tamb\u00e9m quest\u00f5es ambientais. Colunista do <\/em>Jornal do Brasil<em>, escreveu os livros<\/em> Francisco de Assis: Ternura e Vigor, <em>Vozes 2000; <\/em>\u00a0A Terra na palma da m\u00e3o: uma nova vis\u00e3o do planeta e da humanidade<em>,Vozes 2016;\u00a0 <\/em>Cuidar da Terra \u2013 proteger a vida: como escapar do fim do mundo<em>, Record 2010; <\/em>\u00a0<em>A <\/em>hospitalidade: Direito e dever de todos, <em>Vozes 2005<\/em>; Paix\u00e3o de Cristo, Paix\u00e3o do Mundo<em>, Vozes 2001<\/em>; Brasil: Concluir a refunda\u00e7\u00e3o ou prolongar a depend\u00eancia, <em>Vozes 2018; <\/em><em>\u201cDestino e Desatino da Globaliza\u00e7\u00e3o\u201d em<\/em><em>: Do iceberg \u00e0 Arca de No\u00e9,<\/em><em> Mar de Ideias, Rio 2010 pp. 41-63.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/leonardoboff.org\/2022\/01\/18\/eu-so-sou-eu-atraves-de-voceubuntu-uma-saida-da-barbarie\/\" >Go to Original \u2013 leonardoboff.org<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>18 Jan 2022 &#8211; A pandemia mostrou uma abissal desigualdade mundial e uma falta cruel de solidariedade. 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