{"id":211138,"date":"2022-05-09T12:01:18","date_gmt":"2022-05-09T11:01:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=211138"},"modified":"2022-05-09T06:28:58","modified_gmt":"2022-05-09T05:28:58","slug":"portugues-russia-eua-ucrania-o-que-esta-em-jogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2022\/05\/portugues-russia-eua-ucrania-o-que-esta-em-jogo\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) R\u00fassia\/EUA\/Ucr\u00e2nia: O que Est\u00e1 em Jogo"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>3 maio 2022 &#8211;\u00a0<em>Entrevista de Jeffrey Sachs, economista e especialista em desigualdade social, que como poucos articula a economia com a ecologia. Ele cr\u00edticamente esclarece as posi\u00e7\u00f5es dos EUA e da R\u00fassia no contexto do conflito na Ucr\u00e2nia. O que se esconde atr\u00e1s dessa terr\u00edvel trag\u00e9dia que est\u00e1 destruindo todo um pa\u00eds? \u00c9 importante conhecermos os dois lados para n\u00e3o sermos dependentes s\u00f3 da vers\u00e3o EUA-UE.<\/em><br \/>\n&#8212; L. Boff<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_211141\" style=\"width: 309px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Leonardo-Boff-Associacao-Rumos.jpeg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-211141\" class=\"wp-image-211141 size-full\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Leonardo-Boff-Associacao-Rumos.jpeg\" alt=\"\" width=\"299\" height=\"168\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-211141\" class=\"wp-caption-text\">Leonardo Boff<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_211140\" style=\"width: 289px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Jeffrey-Sachs.jpeg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-211140\" class=\"wp-image-211140 size-full\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Jeffrey-Sachs.jpeg\" alt=\"\" width=\"279\" height=\"180\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-211140\" class=\"wp-caption-text\">Jeffrey Sachs<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>********************<\/strong><\/p>\n<p>Jeffrey Sachs \u00e9 diretor do Instituto da Terra da <strong>Universidade de Columbia<\/strong>, <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/614048-o-papa-nomeia-jeffrey-sachs-para-a-pontificia-academia-de-ciencias-sociais-o-ataque-dos-conservadores-ele-tem-posicoes-pro-aborto\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">nomeado em 2021 pelo Papa Francisco para a Pontif\u00edcia Academia de Ci\u00eancias Sociais<\/a>, responde com esta entrevista \u00e0 mat\u00e9ria de 23 de abril em que o <strong>Corriere<\/strong> se pergunta se os erros do <strong>Ocidente<\/strong> nas rela\u00e7\u00f5es com a <strong>R\u00fassia p\u00f3s-sovi\u00e9tica<\/strong>, que experimentou uma dram\u00e1tica crise econ\u00f4mica na d\u00e9cada de 1990, contribu\u00edram para pavimentar o caminho para o <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/617485-o-papa-francisco-nao-menciona-putin-mas-descreve-sua-situacao-e-modo-de-agir-uma-verdadeira-advertencia-aos-tristes-homens-poderosos-presos-a-anacronicas-pretensoes-nacionalistas\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">nacionalismo revanchista de Vladimir Putin<\/a>. <strong>Sachs<\/strong> foi conselheiro econ\u00f4mico do <strong>Kremlin<\/strong> entre 1990 e 1993.<\/p>\n<p>A entrevista \u00e9 de\u00a0<strong>Federico Fubini<\/strong>, publicada por <strong>Corriere della Sera<\/strong>, 01-05-2022 e no Brasil pela IHU de 3 maio 2022.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Eis a entrevista:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">************************<\/p>\n<blockquote><p><strong>A imposi\u00e7\u00e3o de san\u00e7\u00f5es cada vez mais duras \u00e0 R\u00fassia \u00e9 a linha correta?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Ao lado das san\u00e7\u00f5es, precisamos de uma via <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/618148-visao-de-roma-guerra-da-ucrania-doutrina-da-fe-e-a-diplomacia-vaticana-com-os-comunistas\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">diplom\u00e1tica<\/a>. \u00c9 poss\u00edvel negociar a paz com base na independ\u00eancia da <strong>Ucr\u00e2nia<\/strong> e excluindo que fa\u00e7a ades\u00e3o \u00e0 <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/617908-nao-a-guerra-entre-ucrania-otan-e-russia\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">OTAN<\/a>. O grande erro dos estadunidenses \u00e9 acreditar que a <strong>OTAN<\/strong> derrotar\u00e1 a <strong>R\u00fassia<\/strong>: t\u00edpica arrog\u00e2ncia e miopia estadunidense. \u00c9 dif\u00edcil entender o que significa \u2018derrotar a R\u00fassia\u2019, j\u00e1 que <strong>Vladimir Putin<\/strong> controla milhares de <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/617074-pentagono-putin-esta-pronto-para-a-ameaca-nuclear-se-a-guerra-continuar\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ogivas nucleares<\/a>. Os pol\u00edticos estadunidenses t\u00eam um desejo de morte? Conhe\u00e7o bem o meu pa\u00eds. Os l\u00edderes est\u00e3o prontos para lutar at\u00e9 o \u00faltimo ucraniano. Seria muito melhor acertar a paz do que destruir a <strong>Ucr\u00e2nia<\/strong> em nome da \u2018derrota\u2019 de <strong>Putin<\/strong>.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Mas Putin n\u00e3o quer paz. Ele mostrou que n\u00e3o est\u00e1 interessado em negociar e segue com uma guerra total contra a Ucr\u00e2nia, sem fazer distin\u00e7\u00e3o entre militares e civis. Como voc\u00ea acredita que as negocia\u00e7\u00f5es funcionam em tal situa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Minha hip\u00f3tese \u00e9 que os <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/617947-putin-deveria-ser-processado-mas-como-todos-os-poderosos-e-autoimune-entrevista-com-noam-chomsky\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Estados Unidos<\/a> sejam mais relutantes do que a <strong>R\u00fassia<\/strong> para uma paz negociada. A <strong>R\u00fassia<\/strong> quer uma <strong>Ucr\u00e2nia neutra<\/strong> e o acesso aos seus mercados e recursos. Alguns desses objetivos s\u00e3o inaceit\u00e1veis, mas ainda assim s\u00e3o claros em vista de uma negocia\u00e7\u00e3o. Os <strong>Estados Unidos<\/strong> e a <strong>Ucr\u00e2nia<\/strong>, por outro lado, nunca declararam seus termos para negociar. Os <strong>Estados Unidos<\/strong> querem uma <strong>Ucr\u00e2nia<\/strong> no campo euro-estadunidense, em termos militares, pol\u00edticos e econ\u00f4micos. Aqui reside a principal raz\u00e3o para esta guerra. Os <strong>Estados Unidos<\/strong> nunca mostraram um sinal de <strong>compromisso<\/strong>, nem antes do in\u00edcio da guerra, nem depois.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Voc\u00ea pode fornecer elementos concretos do que est\u00e1 dizendo?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Quando <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/616929-zelensky-heroi-iconopolitico-artigo-de-frederic-bisson\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Zelensky<\/a> lan\u00e7ou a ideia de <strong>neutralidade<\/strong>, o <strong>governo dos EUA<\/strong> manteve um sil\u00eancio de tumba. Ora, eles est\u00e3o convencendo os ucranianos de que podem realmente derrotar <strong>Putin<\/strong>. Mas, justamente, at\u00e9 a simples ideia de derrotar um pa\u00eds com tantas armas <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/617296-vamos-nos-concentrar-em-impedir-a-guerra-nuclear-em-vez-de-debater-sobre-a-guerra-justa-entrevista-com-noam-chomsky\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">nucleares<\/a> \u00e9 uma loucura. Todos os dias eu vasculho a m\u00eddia para encontrar pelo menos um caso de um representante dos EUA que aprove o objetivo de <strong>negociar<\/strong> um acordo. Eu n\u00e3o vi uma \u00fanica declara\u00e7\u00e3o sobre isso.<\/p>\n<blockquote><p>\u00a0<strong>Os EUA e a Europa devem discutir com Putin para alcan\u00e7ar a paz ou deveriam esperar o fim de seu regime, porque ele \u00e9 um criminoso de guerra?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Discutir, certamente. Se querem julgar <strong>Putin<\/strong> por <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/617640-o-crime-de-guerra\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">crimes de guerra<\/a>, ent\u00e3o devem acrescentar \u00e0 lista de r\u00e9us <strong>George W. Bush<\/strong> e <strong>Richard Cheney<\/strong> pelo <strong>Iraque<\/strong>, <strong>Barack Obama<\/strong> pela <strong>S\u00edria<\/strong> e <strong>L\u00edbia<\/strong>, <strong>Joe Biden<\/strong> por confiscar as reservas cambiais de <strong>Cabul<\/strong>, alimentando assim a fome no <strong>Afeganist\u00e3o<\/strong>. E a lista n\u00e3o termina a\u00ed. N\u00e3o pretendo exonerar <strong>Putin<\/strong>. Quero enfatizar que a <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/618180-aquelas-perguntas-do-papa-sobre-a-paz\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">paz<\/a> deve ser feita, admitindo que estamos em meio a uma guerra por procura\u00e7\u00e3o entre duas pot\u00eancias expansionistas: <strong>R\u00fassia<\/strong> e <strong>Estados Unidos<\/strong>. N\u00e3o \u00e0 toa, fora dos <strong>Estados Unidos<\/strong> e da <strong>Europa<\/strong>, poucos pa\u00edses est\u00e3o alinhados com o Ocidente quanto a isso. Apenas os aliados dos <strong>Estados Unidos<\/strong>, como <strong>Jap\u00e3o<\/strong> e <strong>Cor\u00e9ia do Sul<\/strong>. Os outros veem a din\u00e2mica das grandes pot\u00eancias em a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>\u00a0<strong>A R\u00fassia, por\u00e9m, aqui \u00e9 a agressora, e nem sofreu provoca\u00e7\u00f5es. N\u00e3o concorda?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>A <strong>R\u00fassia<\/strong> come\u00e7ou esta guerra, \u00e9 claro, mas em grande parte porque viu os <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/617201-estados-unidos-o-unico-vencedor-da-guerra-uma-leitura-geopolitica-artigo-de-ricardo-petrella\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Estados Unidos<\/a> entrarem irreversivelmente na <strong>Ucr\u00e2nia<\/strong>. Em 2021, quando <strong>Putin<\/strong> pedia aos <strong>Estados Unidos<\/strong> que negociassem o alargamento da <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/617577-sobre-o-futuro-da-ucrania-e-as-guerras-interminaveis-da-otan\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">OTAN<\/a> para a <strong>Ucr\u00e2nia<\/strong>, <strong>Biden<\/strong> dobrou a aposta diplom\u00e1tica e militar. N\u00e3o s\u00f3 se recusou a discutir o alargamento da <strong>OTAN<\/strong> com <strong>Moscou<\/strong>, como garantiu que o compromisso da <strong>OTAN<\/strong> a este respeito fosse renovado na c\u00fapula de 2021 e, em seguida, assinou dois acordos com a <strong>Ucr\u00e2nia<\/strong> sobre o tema. Os <strong>Estados Unidos<\/strong> tamb\u00e9m continuaram os <strong>exerc\u00edcios militares<\/strong> e o <strong>envio de armas<\/strong> em grande escala. Al\u00e9m disso, \u00e9 interessante ver como os <strong>Estados Unidos<\/strong> e a <strong>Austr\u00e1lia<\/strong> est\u00e3o se arrancando os cabelos por um pacto de seguran\u00e7a entre a <strong>China<\/strong> e as pequenas <strong>Ilhas Salom\u00e3o<\/strong>, a 3.000 quil\u00f4metros da <strong>Austr\u00e1lia<\/strong>. Este acordo \u00e9 visto como uma terr\u00edvel amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a pelo Ocidente. Como ent\u00e3o a <strong>R\u00fassia<\/strong> deve se sentir sobre o alargamento da <strong>OTAN<\/strong> \u00e0 <strong>Ucr\u00e2nia<\/strong>?<\/p>\n<blockquote><p><strong>Ent\u00e3o o que voc\u00ea sugere?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Para salvar a <strong>Ucr\u00e2nia<\/strong>, devemos <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/618188-a-paz-nao-se-alcanca-com-armas-as-guerras-so-trazem-destruicao-entrevista-com-pietro-parolin-cardeal-secretario-de-estado-do-vaticano\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">acabar com a guerra<\/a> e, para acabar com a guerra, precisamos de um compromisso no qual a <strong>R\u00fassia<\/strong> se retira e a <strong>OTAN<\/strong> n\u00e3o se alarga. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil, mas os <strong>Estados Unidos<\/strong> nem sequer mencionam a ideia, porque s\u00e3o contra. Os <strong>Estados Unidos<\/strong> querem que a <strong>Ucr\u00e2nia<\/strong> lute para proteger as prerrogativas da <strong>OTAN<\/strong>. Isso j\u00e1 \u00e9 um <strong>desastre<\/strong>, mas, sem uma solu\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel e racional, riscos muito maiores nos aguardam.<\/p>\n<blockquote><p><strong>O argumento do alargamento da OTAN pode n\u00e3o ser convincente, professor. Antes da guerra, a Ucr\u00e2nia nem sequer tinha um Plano de A\u00e7\u00e3o para a filia\u00e7\u00e3o (um \u201croteiro\u201d) para a ades\u00e3o. E o chanceler alem\u00e3o Olaf Scholz declarou ao Kremlin, na frente de Putin, que a Ucr\u00e2nia n\u00e3o teria entrado na OTAN \u201cenquanto n\u00f3s dois estivermos no cargo\u201d (ou seja, pelo menos at\u00e9 2036). N\u00e3o parece motivo suficiente para invadir\u2026<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Dizer que a <strong>Ucr\u00e2nia<\/strong> n\u00e3o vai entrar parece um expediente estadunidense. Na realidade, os <strong>Estados Unidos<\/strong> j\u00e1 estavam trabalhando arduamente para alcan\u00e7ar a interoperabilidade militar da <strong>Ucr\u00e2nia<\/strong> com a <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/617605-a-otan-nao-tem-mais-razao-de-existir-entrevista-com-dom-giovanni-ricchiuti\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">OTAN<\/a>, de modo que, em algum momento, o alargamento se tornaria substancialmente um fato consumado. Como o pr\u00f3prio ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da R\u00fassia, <strong>Sergei Lavrov<\/strong>, disse recentemente, o Minist\u00e9rio da Defesa da <strong>Ucr\u00e2nia<\/strong> j\u00e1 estava repleto de conselheiros da <strong>Alian\u00e7a Atl\u00e2ntica<\/strong>. A ideia de que o alargamento n\u00e3o teria ocorrido \u00e9 mais uma opera\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas do que uma verdade. \u00c9 o caminho escolhido pelos <strong>Estados Unidos<\/strong>, como mostra em toda pol\u00edtica de hoje. O ponto fundamental \u00e9 que os <strong>Estados Unidos<\/strong> se recusam a discutir a quest\u00e3o. Isso j\u00e1 \u00e9 uma pista.<\/p>\n<blockquote><p><strong>As san\u00e7\u00f5es devem ser indefinidas ou devem estar vinculadas a resultados tang\u00edveis: talvez prevendo que algumas sejam retiradas se a R\u00fassia aceitar um cessar-fogo ou se retirar da Ucr\u00e2nia?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>As <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/616509-conflito-russia-ucrania-bombardeio-russo-alarme-global-e-mais-retaliacoes-do-ocidente\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">san\u00e7\u00f5es<\/a> deveriam ser revogadas como parte de um <strong>acordo de paz<\/strong>. A guerra na <strong>Ucr\u00e2nia<\/strong> \u00e9 terr\u00edvel, cruel e ilegal, mas n\u00e3o \u00e9 a primeira guerra do tipo. Os <strong>Estados Unidos<\/strong> tamb\u00e9m se envolveram em in\u00fameras aventuras irrespons\u00e1veis: <strong>Vietn\u00e3<\/strong>, <strong>Laos<\/strong>, <strong>Camboja<\/strong>, <strong>Afeganist\u00e3o<\/strong>, <strong>Ir\u00e3<\/strong> (golpe e ditadura de 1953), <strong>Chile<\/strong>, <strong>Iraque<\/strong>, <strong>S\u00edria<\/strong>, <strong>L\u00edbia<\/strong>, <strong>I\u00eamen<\/strong>. Isso apenas para citar alguns, porque haveria muitos mais. No entanto, os <strong>Estados Unidos<\/strong> n\u00e3o foram permanentemente banidos da comunidade das na\u00e7\u00f5es. A <strong>R\u00fassia<\/strong> tamb\u00e9m n\u00e3o deveria ser. Em vez disso, os <strong>Estados Unidos<\/strong> falam em isolar a <strong>R\u00fassia<\/strong> permanentemente. Novamente, \u00e9 a t\u00edpica <strong>arrog\u00e2ncia estadunidense<\/strong>.<\/p>\n<blockquote><p>\u00a0<strong>O que voc\u00ea acha das san\u00e7\u00f5es sobre o petr\u00f3leo e o g\u00e1s russo em discuss\u00e3o na Europa, para paralisar financeiramente a m\u00e1quina militar de Putin?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>A <strong>Uni\u00e3o Europeia<\/strong> deveria agir de forma muito mais decisiva para favorecer um acordo de paz. Um embargo total ao <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/616767-o-calculo-moral-do-ocidente-se-torna-mais-preocupante-conforme-o-genocidio-e-o-preco-do-petroleo-aumentam\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">petr\u00f3leo<\/a> e ao g\u00e1s provavelmente lan\u00e7aria a Europa numa recess\u00e3o. Eu n\u00e3o recomendo. N\u00e3o mudaria o resultado da guerra de forma decisiva e n\u00e3o teria muita influ\u00eancia em um acordo de paz, mas prejudicaria seriamente a <strong>Europa<\/strong>.<\/p>\n<blockquote><p>\u00a0<strong>Voc\u00ea est\u00e1 preocupado que a infla\u00e7\u00e3o possa alimentar o populismo no Ocidente, j\u00e1 que os eleitores culpam as san\u00e7\u00f5es e n\u00e3o a guerra desencadeada por Putin?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Sim, a guerra e as san\u00e7\u00f5es j\u00e1 est\u00e3o criando dificuldades pol\u00edticas em muitos pa\u00edses e um aumento acentuado da <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/617696-o-impacto-da-guerra-na-fome-no-mundo\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">fome<\/a> nos pa\u00edses mais pobres, especialmente na <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/617693-as-criancas-da-africa-e-do-oriente-medio-pagam-os-precos-recordes-pelo-alimento\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u00c1frica<\/a>, que dependem maci\u00e7amente de cereais importados. <strong>Biden<\/strong> tamb\u00e9m pagar\u00e1 um pre\u00e7o pol\u00edtico pelo aumento do custo de vida nas elei\u00e7\u00f5es de novembro. Observe que esses choques do lado da oferta est\u00e3o ocorrendo ap\u00f3s um longo per\u00edodo de expans\u00e3o monet\u00e1ria, portanto, h\u00e1 amplo espa\u00e7o para a infla\u00e7\u00e3o. Espera-nos um per\u00edodo dif\u00edcil no plano macroecon\u00f4mico.<\/p>\n<blockquote><p><strong>At\u00e9 que ponto os fracassos das reformas durante a era Boris Yeltsin abriram caminho para a ditadura de Putin? Foi um fracasso semelhante ao descrito por John Maynard Keynes em 1919 para a Alemanha?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Fui conselheiro econ\u00f4mico de <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/554179-assim-chernobyl-mudou-as-nossas-vidas-artigo-de-mikhail-gorbachev\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mikhail Gorbachev<\/a> em 1991 e de <strong>Yeltsin<\/strong> em 1992-3. Meu principal objetivo era ajudar a <strong>Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica<\/strong>, depois a <strong>R\u00fassia<\/strong> como pa\u00eds independente depois de dezembro de 1991, a superar uma grave crise financeira, de modo a garantir a estabilidade social e melhorar as perspectivas de <strong>paz<\/strong> e reforma a longo prazo. N\u00e3o esque\u00e7amos que a <strong>economia sovi\u00e9tica<\/strong> havia desmoronado e entrado em uma violenta espiral negativa no final dos anos 1980.Naqueles anos, muitas vezes me referia a \u201c<strong><em>As Consequ\u00eancias Econ\u00f4micas da Paz<\/em><\/strong>\u201c, o grande livro de <strong>John Maynard Keynes<\/strong> de 1919. Aquele texto foi provavelmente o mais importante para minha carreira, porque destaca um ponto essencial: para p\u00f4r fim a uma <strong>crise financeira<\/strong> intensa e desestabilizadora em um pa\u00eds, o resto do mundo deve <strong>intervir<\/strong> antes que a situa\u00e7\u00e3o saia do controle. Isso foi verdade ap\u00f3s a <strong>Primeira Guerra Mundial<\/strong>: em vez de impor o pagamento de duras repara\u00e7\u00f5es ao povo alem\u00e3o, a <strong>Europa<\/strong> e os <strong>Estados Unidos<\/strong> deveriam ter se empenhado a cooperar para a recupera\u00e7\u00e3o de toda a <strong>Europa<\/strong>, o que teria contribu\u00eddo a prevenir a <strong>ascens\u00e3o do nazismo<\/strong>.<\/p>\n<blockquote><p>\u00a0<strong>Voc\u00ea quer dizer que a forma como o Ocidente tratou da R\u00fassia no in\u00edcio dos anos 1990 contribuiu para torn\u00e1-la uma esp\u00e9cie de Rep\u00fablica de Weimar 2.0?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Quando propus uma assist\u00eancia financeira internacional para a <strong>Pol\u00f4nia<\/strong> em 1989 \u2013 com um empr\u00e9stimo de emerg\u00eancia, um fundo de estabiliza\u00e7\u00e3o da moeda e a redu\u00e7\u00e3o da d\u00edvida \u2013 meus argumentos foram bem recebidos pela <strong>Casa Branca<\/strong> e pelos pa\u00edses europeus. Quando fiz as mesmas propostas para a <strong>Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica<\/strong> sob <strong>Gorbachev<\/strong> em 1991, e para a <strong>R\u00fassia<\/strong> sob <strong>Yeltsin<\/strong> em 1992-3, a Casa Branca as <strong>rejeitou<\/strong>. O problema era <strong>geopol\u00edtico<\/strong>.<\/p>\n<p>Os <strong>Estados Unidos<\/strong> viam a <strong>Pol\u00f4nia<\/strong> como uma aliada, enquanto erroneamente viam a <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/573167-a-uniao-sovietica-entrou-em-colapso-quando-nao-conseguiu-igualar-os-resultados-do-capitalismo-entrevista-com-alan-woods\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica<\/a> e a rec\u00e9m-independente <strong>R\u00fassia<\/strong> como um inimigo. Foi um <strong>erro enorme<\/strong>. Quando se trata mal outro pa\u00eds ou \u00e9 humilhado, cria-se uma realidade que se autorrealiza: aquele pa\u00eds se tornar\u00e1 realmente um inimigo. Obviamente, n\u00e3o h\u00e1 simples determinismo na hist\u00f3ria, e certamente n\u00e3o num per\u00edodo de trinta anos. O <strong>Tratado de Versalhes<\/strong> de 1919, com sua dureza, n\u00e3o causou sozinho a ascens\u00e3o de <strong>Hitler<\/strong> em 1933. <strong>Hitler<\/strong> ou algu\u00e9m como ele nunca teria chegado ao poder se n\u00e3o fosse pela <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/597672-vivemos-um-vazio-igual-ao-crash-de-1929-entrevista-com-alain-touraine\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Grande Depress\u00e3o de 1929<\/a> e, mesmo ent\u00e3o, sem os terr\u00edveis erros de c\u00e1lculo de <strong>Hindenburg<\/strong> e <strong>von Papen<\/strong> em janeiro de 1933.<\/p>\n<p>Da mesma forma, os <strong>erros financeiros<\/strong> dos <strong>Estados Unidos<\/strong> e da <strong>Europa<\/strong> em rela\u00e7\u00e3o a <strong>Gorbachev<\/strong> e <strong>Yeltsin<\/strong> certamente n\u00e3o ditaram os eventos trinta anos depois. At\u00e9 mesmo sugerir isso \u00e9 absurdo. Mas a dif\u00edcil situa\u00e7\u00e3o financeira da <strong>Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica<\/strong> e da <strong>R\u00fassia<\/strong> no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990 deixou um sabor amargo. Contribuiu para a queda dos reformadores, para a propaga\u00e7\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o e, finalmente, para a ascens\u00e3o de <strong>Putin<\/strong> ao poder. Mas mesmo assim poderia ter se recuperado. No entanto, <strong>Putin<\/strong> poderia ter tido uma abordagem de colabora\u00e7\u00e3o com a <strong>Europa<\/strong>. Um grande problema foi criado pela <strong>arrog\u00e2ncia dos Estados Unidos<\/strong>, que lan\u00e7aram o alargamento da <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/617046-enviar-armas-e-um-ato-formal-de-guerra-da-otan-entrevista-com-franco-cardini\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">OTAN<\/a> para o leste depois de prometer em 1990 que n\u00e3o o fariam.<\/p>\n<p>Depois tamb\u00e9m pela ideia absolutamente perigosa e provocativa de <strong>George W. Bush<\/strong> de prometer que a <strong>OTAN<\/strong> se estenderia \u00e0 <strong>Ge\u00f3rgia<\/strong> e \u00e0 <strong>Ucr\u00e2nia<\/strong>. Essa promessa, de 2008, deteriorou dramaticamente as <strong>rela\u00e7\u00f5es EUA-R\u00fassia<\/strong>. O apoio estadunidense \u00e0 deposi\u00e7\u00e3o do presidente pr\u00f3-R\u00fassia da Ucr\u00e2nia <strong>Viktor Yanukovych<\/strong> em 2014 e o subsequente <strong>rearmamento<\/strong> em larga escala da <strong>Ucr\u00e2nia<\/strong> pelos <strong>Estados Unidos<\/strong> tamb\u00e9m pioraram dramaticamente as <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/616630-a-insanidade-dos-cavaleiros-do-apocalipse-russia-e-usa-artigo-de-leonardo-boff\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">rela\u00e7\u00f5es entre a R\u00fassia e os Estados Unidos<\/a>.<\/p>\n<blockquote><p>\u00a0<strong>Voc\u00ea foi consultor do Kremlin em 1992-93, por meio de seu papel no Instituto de Desenvolvimento Internacional de Harvard. Durante a d\u00e9cada de 1990, o \u201cbig bang\u201d da liberaliza\u00e7\u00e3o do mercado prevaleceu sobre a constru\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es e das estruturas da democracia. Foi um erro?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Essas reclama\u00e7\u00f5es s\u00e3o conversas <strong>acad\u00eamicas<\/strong>, n\u00e3o t\u00eam nada a ver com o mundo real. Meu papel em 1990-1992 foi ajudar a <strong>Pol\u00f4nia<\/strong>, <strong>Est\u00f4nia<\/strong>, <strong>Eslov\u00eania<\/strong> e outros pa\u00edses a evitar uma <strong>cat\u00e1strofe financeira<\/strong>. Esse tamb\u00e9m era meu objetivo para a <strong>Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica<\/strong> e a <strong>R\u00fassia<\/strong>. Recomendei medidas que provaram ser um sucesso em muitos pa\u00edses: <strong>estabiliza\u00e7\u00e3o da moeda<\/strong>, suspens\u00e3o dos vencimentos da <strong>d\u00edvida<\/strong>, diminui\u00e7\u00e3o do \u00f4nus da d\u00edvida a longo prazo, empr\u00e9stimos de emerg\u00eancia, medidas de apoio social tamb\u00e9m de emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>Os <strong>Estados Unidos<\/strong> aceitaram esses argumentos para pa\u00edses como a <strong>Pol\u00f4nia<\/strong>, mas os rejeitaram em favor de <strong>Gorbachev<\/strong> e <strong>Yeltsin<\/strong>. A pol\u00edtica e a <strong>geopol\u00edtica<\/strong>, n\u00e3o a boa pol\u00edtica econ\u00f4mica, dominavam a Casa Branca. A constru\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es e as reformas <strong>democr\u00e1ticas<\/strong> levariam anos, ali\u00e1s, d\u00e9cadas. A <strong>R\u00fassia<\/strong> nunca havia tido uma verdadeira democracia em um mil\u00eanio de hist\u00f3ria. A sociedade civil havia sido destru\u00edda por <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/616581-vladimir-fedorovski-putin-como-stalin-nao-voltara-atras\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Stalin<\/a>. Mas, nesse meio tempo, havia uma forte crise financeira acontecendo. As pessoas precisavam comer, viver, sobreviver, ter abrigo sobre suas cabe\u00e7as, ter assist\u00eancia m\u00e9dica, enquanto as mudan\u00e7as de longo prazo seriam introduzidas gradualmente. \u00c9 por isso que recomendei por muitos anos um <strong>apoio financeiro<\/strong> em grande escala \u00e0 <strong>R\u00fassia<\/strong>. E \u00e9 por isso que continuei citando a <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/558969-equidade-bem-estar-e-keynes-a-receita-da-suecia-onde-apenas-2-ficaram-mais-pobres\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">li\u00e7\u00e3o de Keynes<\/a>.<\/p>\n<blockquote><p>\u00a0<strong>Mas, em retrospectiva, a abordagem da reforma deveria ter sido menos focada na \u201cterapia de choque\u201d?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Mais uma vez, meu papel era lidar com a crise financeira. Eu sabia bem \u2013 da <strong>Pol\u00f4nia<\/strong>, <strong>Tchecoslov\u00e1quia<\/strong> e outros lugares \u2013 que muitas reformas levariam muito tempo. Meu objetivo era <strong>prevenir a hiperinfla\u00e7\u00e3o<\/strong> e um <strong>colapso financeiro<\/strong>. Eu nunca falei a favor de uma privatiza\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, por exemplo. Eu sabia que aquelas pol\u00edticas requerem anos, at\u00e9 d\u00e9cadas para serem conclu\u00eddas.<\/p>\n<blockquote><p><strong>\u00c9 verdade que a Pol\u00f4nia e outros pa\u00edses da Europa Central e Oriental tiveram muito mais sucesso ao aplicar as mesmas receitas que a R\u00fassia. Mas a Pol\u00f4nia recebeu ajuda dos Estados Unidos para estabiliza\u00e7\u00e3o da moeda, depois um fortalecimento institucional e a contribui\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o da UE, voc\u00ea n\u00e3o acha?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Claro, esse \u00e9 o ponto. A capacidade de fazer reformas depende do contexto <strong>internacional<\/strong>. Tudo teria sido muito mais dif\u00edcil na <strong>R\u00fassia<\/strong> do que na <strong>Europa Centro-Oriental<\/strong> por in\u00fameras raz\u00f5es de hist\u00f3ria, pol\u00edtica, geografia econ\u00f4mica, custos de transporte, exist\u00eancia da sociedade civil, geopol\u00edtica. A <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/529384-na-ucrania-a-morte-definitiva-da-uniao-sovietica-a-analise-de-um-jesuita\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica<\/a>, como a da <strong>Iugosl\u00e1via<\/strong>, tamb\u00e9m complicou dramaticamente a situa\u00e7\u00e3o, acrescentando instabilidade e recess\u00e3o. No entanto, por todas essas raz\u00f5es, o <strong>Ocidente<\/strong> deveria ter estado muito mais pronto para <strong>ajudar a R\u00fassia financeiramente<\/strong>, em vez de declarar \u2018vit\u00f3ria\u2019 e ignorar a dureza das condi\u00e7\u00f5es na <strong>R\u00fassia<\/strong>.<\/p>\n<blockquote><p><strong>O problema foi a \u201cterapia de choque\u201d em si ou a recusa da Alemanha em perdoar a d\u00edvida externa da R\u00fassia e dos Estados Unidos em fornecer ajuda como para a Pol\u00f4nia? A \u201cterapia de choque\u201d com pouco apoio financeiro externo foi o mix errado?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>A chamada \u2018<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/617895-russia-da-terapia-do-choque-a-guerra-financeira\"  target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">terapia de choque<\/a>\u2019 significava acabar com os controles sobre os pre\u00e7os no in\u00edcio de 1992, como a <strong>Pol\u00f4nia<\/strong> havia feito em 1990. A raz\u00e3o era que, com o colapso da economia controlada centralmente, com uma maci\u00e7a instabilidade financeira e controles sobre os pre\u00e7os, todas as transa\u00e7\u00f5es aconteciam basicamente no mercado negro. Nem mesmo os g\u00eaneros alimentares chegavam \u00e0s cidades. A <strong>desregulamenta\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os<\/strong> deveria ter sido combinada com apoio financeiro em larga escala dos <strong>Estados Unidos<\/strong> e <strong>Europa<\/strong> e medidas de pol\u00edtica social, como na <strong>Pol\u00f4nia<\/strong>. E isso \u00e9 precisamente o que eu aconselhei, todos os dias. Mas os <strong>Estados Unidos<\/strong> e a <strong>Europa<\/strong> n\u00e3o ouviram. Foi um <strong>fracasso vergonhoso e terr\u00edvel<\/strong> dos governos ocidentais. Se a <strong>estabiliza\u00e7\u00e3o<\/strong> tivesse sido ativamente apoiada pelo Ocidente, teria lan\u00e7ado as bases para os est\u00e1gios subsequentes de reforma, que por sua vez levariam a outras reformas ao longo de anos e d\u00e9cadas.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Andrei Shleifer, ent\u00e3o no Instituto de Desenvolvimento Internacional de Harvard com voc\u00ea, estava encarregado de aconselhar a R\u00fassia sobre o big bang das privatiza\u00e7\u00f5es. Que rela\u00e7\u00e3o voc\u00ea tinha com ele?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Meu papel para <strong>Gorbachev<\/strong> e <strong>Yeltsin<\/strong> era o de consultor macrofinanceiro. Eu dava conselhos sobre como estabilizar uma <strong>economia inst\u00e1vel<\/strong>. N\u00e3o era consultor sobre as <strong>privatiza\u00e7\u00f5es<\/strong>. <strong>Shleifer<\/strong>, sim. No que me diz respeito, n\u00e3o defendi a privatiza\u00e7\u00e3o com o modelo de <em>vouchers<\/em> do in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990 (que criou os primeiros oligarcas, ndr) e n\u00e3o dei conselhos sobre os abusos como \u2018<strong>empr\u00e9stimos por a\u00e7\u00f5es<\/strong>\u2019 (um esquema concebido em 1995 que permitiu que os oligarcas financiassem a reelei\u00e7\u00e3o de <strong>Yeltsin<\/strong> em troca de grandes a\u00e7\u00f5es em empresas de propriedade estatal a pre\u00e7os reduzidos).<\/p>\n<p>Aconselhei <strong>Gorbachev<\/strong> em 1991 e depois <strong>Yeltsin<\/strong> em 1992 e 1993 em quest\u00f5es financeiras. Ap\u00f3s o primeiro ano de tentativas de ajudar a <strong>R\u00fassia<\/strong>, eu renunciei, dizendo que n\u00e3o podia ajudar porque os <strong>EUA n\u00e3o concordavam<\/strong> com o que eu estava recomendando. Minha perman\u00eancia teria sido de apenas um ano, o 1992. Em seguida, foi nomeado um novo ministro das Finan\u00e7as, <strong>Boris Fyodorov<\/strong>. Uma pessoa maravilhosa que morreu jovem. Ele me pediu para continuar como conselheiro para ajud\u00e1-lo. Aceitei, relutantemente, e fiquei mais um ano, apenas para renunciar no final de 1993. Foi um per\u00edodo curto e frustrante, porque fiquei profundamente frustrado com a neglig\u00eancia e incompet\u00eancia tanto da Casa Branca de <strong>Bush pai<\/strong> em 1991-1992, como da Casa Branca de <strong>Clinton<\/strong> em 1993.Quando soube que <strong>Shleifer<\/strong> estava fazendo investimentos pessoais na <strong>R\u00fassia<\/strong>, despedi-o do <strong>Instituto de Desenvolvimento Internacional de Harvard<\/strong>. Naturalmente, eu n\u00e3o tinha nada a ver com suas atividades de investimento ou seus conselhos sobre as privatiza\u00e7\u00f5es russas. Tampouco recebi um \u00fanico copeque pelo meu trabalho, nem um \u00fanico d\u00f3lar. Minhas consultorias para os governos, desde o in\u00edcio h\u00e1 37 anos na <strong>Bol\u00edvia<\/strong>, nunca previram uma compensa\u00e7\u00e3o al\u00e9m do meu sal\u00e1rio acad\u00eamico. N\u00e3o aconselho os governos para obter ganhos pessoais.<\/p>\n<p>_________________________________________________<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Leonardo_Boff_Wilson-Dias_Abr_0-e1507211118491.gif\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-43416\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Leonardo_Boff_Wilson-Dias_Abr_0-300x177.gif\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"118\" \/><\/a> Leonardo Boff \u00e9 um escritor, te\u00f3logo e fil\u00f3sofo brasileiro, professor em\u00e9rito de \u00e9tica e filosofia da religi\u00e3o da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, recebedor do <\/em><strong><em>Pr\u00eamio Nobel Alternativo da Paz<\/em><\/strong><em> do Parlamento sueco [<\/em><strong><em>Right Livelihood Award<\/em><\/strong><em>]em 2001, membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra, e professor visitante em v\u00e1rias universidades estrangeiras como Basel, Heidelberg, Harvard, Lisboa e Salamanca. Expoente da <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teologia_da_Liberta%C3%A7%C3%A3o\" >Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/a><\/em><em> no Brasil, foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. \u00c9 respeitado pela sua hist\u00f3ria de defesa pelas causas sociais e atualmente debate tamb\u00e9m quest\u00f5es ambientais. Colunista do <\/em>Jornal do Brasil<em>, escreveu os livros<\/em> Francisco de Assis: Ternura e Vigor, <em>Vozes 2000; <\/em>\u00a0A Terra na palma da m\u00e3o: uma nova vis\u00e3o do planeta e da humanidade<em>,Vozes 2016;\u00a0 <\/em>Cuidar da Terra \u2013 proteger a vida: como escapar do fim do mundo<em>, Record 2010; <\/em>\u00a0<em>A <\/em>hospitalidade: Direito e dever de todos, <em>Vozes 2005<\/em>; Paix\u00e3o de Cristo, Paix\u00e3o do Mundo<em>, Vozes 2001<\/em>; Brasil: Concluir a refunda\u00e7\u00e3o ou prolongar a depend\u00eancia, <em>Vozes 2018; <\/em><em>\u201cDestino e Desatino da Globaliza\u00e7\u00e3o\u201d em<\/em><em>: Do iceberg \u00e0 Arca de No\u00e9,<\/em><em> Mar de Ideias, Rio 2010 pp. 41-63.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/leonardoboff.org\/2022\/05\/03\/russia-eua-ucraniao-que-esta-em-jogojeffrey-sachs\/\" >Go to Original &#8211; leonardoboff.org<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>3 maio 2022 &#8211; Entrevista de Jeffrey Sachs,  economista e especialista em desigualdade social, que como poucos articula a economia com a ecologia. 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