{"id":21436,"date":"2012-09-10T12:13:19","date_gmt":"2012-09-10T11:13:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=21436"},"modified":"2012-09-10T12:13:19","modified_gmt":"2012-09-10T11:13:19","slug":"portuguese-sobre-ombros-de-gigantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2012\/09\/portuguese-sobre-ombros-de-gigantes\/","title":{"rendered":"(Portuguese) Sobre Ombros de Gigantes"},"content":{"rendered":"<p><em>H\u00e1 um tempo em que \u00e9 preciso abandonar as roupas usadas, que j\u00e1 tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. \u00c9 o tempo da travessia: e, se n\u00e3o ousarmos faz\u00ea-la, teremos ficado, para sempre, \u00e0 margem de n\u00f3s mesmos. (Fernando Pessoa)<\/em><\/p>\n<p>Semana passada [16 Aug 2012], ministrei um mini curso na UEL \u2013 Universidade Estadual de Londrina \u2013 Pr, durante o II Encontro de Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas. Dessa vez, trabalhei o tema Vivissec\u00e7\u00e3o no Ensino e na Pesquisa.<\/p>\n<p>Obviamente, o mini curso aconteceu pelo vi\u00e9s da anti-vivissec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por mais que tenhamos seguran\u00e7a ao tratar certos temas publicamente, pensar a respeito de quem ser\u00e3o nossos interlocutores, sempre gera uma expectativa. Mas munidos de muita leitura, muita did\u00e1tica e muita coragem no sentido Socr\u00e1tico, l\u00e1 fui eu, mais uma vez, para a arena. N\u00e3o se trata de uma arena no seu sentido literal, com conota\u00e7\u00e3o negativa, mas uma arena onde sempre h\u00e1 um embate no n\u00edvel das id\u00e9ias e um certo grau de exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao trabalhar qualquer tema que envolva o abolicionismo do uso de animais (ensino, pesquisa, alimenta\u00e7\u00e3o, vestimenta, competi\u00e7\u00e3o, e tantos etc) \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o fazer refer\u00eancia impl\u00edcita ou expl\u00edcita ao nosso posicionamento e conduta. Se impl\u00edcita, a justificativa pela op\u00e7\u00e3o de um estilo de vida fica clara nas entrelinhas de tudo o que falamos durante uma exposi\u00e7\u00e3o como essa e em nossa postura. Trabalhar tais temas \u00e9 essencialmente, se expor.<\/p>\n<p>Entre os participantes do mini curso, havia professores e estudantes da \u00e1rea de Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas e Biom\u00e9dicas. Quatro vivisseccionistas que, como os demais, ouviam tudo atentamente. No in\u00edcio, os interlocutores mostram-se um tanto reticentes nos coment\u00e1rios e questionamentos. Alguns desconfiados. Normal. Mas \u00e0 medida que os di\u00e1logos iam acontecendo, a teia do especismo, da m\u00eddia, dos h\u00e1bitos impostos, da tradi\u00e7\u00e3o, da hegemonia da explora\u00e7\u00e3o animal foi sendo aos poucos desemaranhada, revelando um cen\u00e1rio bem escondido. N\u00e3o \u00e9 mais surpresa constatar o quanto as pessoas demoram a ver o \u00f3bvio. O apogeu de encontros como esses \u00e9 sempre o momento de discuss\u00e3o, desconstru\u00e7\u00e3o e deslocamentos de pensamento. Argumentos, contra argumentos, posicionamentos opostos e refuta\u00e7\u00f5es. Se bem embasado, o discurso desconstr\u00f3i argumentos que nem mesmo chegam a ser colocados.<\/p>\n<p>As sucessivas interven\u00e7\u00f5es nos levam a prever na maioria das vezes (n\u00e3o em todas) qual pergunta ser\u00e1 feita, qual a provoca\u00e7\u00e3o da vez. E antecipar. Ao final do curso\/palestra\/mini curso\/interven\u00e7\u00e3o, vem o relaxamento e a sensa\u00e7\u00e3o de ter provocado os interlocutores a pensar em algo que n\u00e3o haviam pensado antes. A\u00ed reside a mola propulsora de qualquer atividade educativa.<\/p>\n<p>Ao final desse mini curso da UEL, alguns j\u00e1 n\u00e3o se apresentavam t\u00e3o convictos assim. Alguma coisa aconteceu. N\u00e3o deduzi pelas suas express\u00f5es, mas por suas falas. Inclusive dos vivisseccionistas. Maior prova de que a m\u00e1gica da educa\u00e7\u00e3o acontece em momentos como esse. Vi l\u00e1grimas, caras de espanto, indigna\u00e7\u00e3o, indiferen\u00e7a. N\u00e3o sou ing\u00eanua ao ponto de pensar que uma fala de quatro horas pode gerar transforma\u00e7\u00f5es significativas para sempre. Mas se o que falamos tem fundamento, sempre fica uma mensagem para se pensar al\u00e9m.<\/p>\n<p>N\u00e3o apresentei nada apelativo, apenas verdades dos bastidores da pesquisa e do ensino baseados na vivissec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Muitas vezes o curso acaba mas a discuss\u00e3o continua. Na sala mesmo ou, conforme as circunst\u00e2ncias, segue para o boteco\/restaurante mais pr\u00f3ximo ou outro ambiente.<\/p>\n<p>Rubem Alves em seu texto \u201cSobre Moluscos e Homens\u201d, faz uma compara\u00e7\u00e3o do ato educativo com o ato sexual e diz: <em>\u201c(\u2026) \u00e9 o desafio vital que excita o pensamento. E nisso o pensamento se parece com o p\u00eanis. N\u00e3o \u00e9 por acidente que os escritos b\u00edblicos d\u00e3o ao ato sexual o nome de \u2018conhecimento\u2019\u2026 sem excita\u00e7\u00e3o, a intelig\u00eancia permanece pendente, fl\u00e1cida, in\u00fatil, boba, impotente. Alguns h\u00e1 que, diante dessa intelig\u00eancia fl\u00e1cida, rotulam o aluno de \u2018burrinho\u2019\u2026 N\u00e3o, ele n\u00e3o \u00e9 burrinho. Ele \u00e9 inteligente. E sua intelig\u00eancia se revela precisamente no ato de recusar-se a ficar excitada por algo que n\u00e3o \u00e9 vital\u201d<\/em>. N\u00e3o pude tamb\u00e9m, deixar de comparar o ato educativo ao ato sexual: preliminares, \u00e1pice e relaxamento. Preliminares: apresenta\u00e7\u00e3o de argumentos, leis, teorias, embasamento te\u00f3rico, o que j\u00e1 foi estudado, principais estudiosos\/pesquisadores e suas descobertas, um coment\u00e1rio aqui, outro ali, pausadamente, com cautela, timidez. Provoca\u00e7\u00e3o. Depois vem o \u00c1pice: discuss\u00f5es, contra-argumentos, \u00e2nimos exaltados, revela\u00e7\u00f5es, desconstru\u00e7\u00f5es, e sempre com a cautela de nunca partir para a agressividade. Um embate de id\u00e9ias, n\u00e3o de pessoas. Por fim, o relaxamento: sensa\u00e7\u00e3o de ter mudado algo na mente e no cora\u00e7\u00e3o. Paz, tranq\u00fcilidade. Coment\u00e1rios aqui e ali. Para alguns foi bom, para outros, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Por vezes, em uma atividade educativa s\u00f3 h\u00e1 as preliminares, sem \u00e1pice e sem relaxamento. Talvez n\u00e3o tenhamos caprichado tanto ou os interlocutores n\u00e3o est\u00e3o receptivos ou preparados\u2026e nunca conseguimos atingir a todos.<\/p>\n<p>Nesse processo valem muito os depoimentos e as avalia\u00e7\u00f5es escritas que sempre fa\u00e7o e leio depois. Duas coisas ficam claras: (1) a maioria dos participantes n\u00e3o tem id\u00e9ia do holocausto animal que acontece todos os dias; (2) constata-se mais uma vez o grande poder de engodo da ind\u00fastria da explora\u00e7\u00e3o animal. Nesses cursos os participantes s\u00e3o munidos de informa\u00e7\u00e3o. Mas a informa\u00e7\u00e3o sozinha n\u00e3o produz consci\u00eancia cr\u00edtica. Por isso sempre torcemos para que essa informa\u00e7\u00e3o gere conhecimento capaz de transformar suas mentes e vidas. Em cursos como esse, n\u00e3o podemos acompanhar a evolu\u00e7\u00e3o dos participantes, como acompanhamos por vezes, na escola e na universidade. Mas a semente \u00e9 sempre lan\u00e7ada.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s mais esse mini-curso ministrado na UEL (com direito a preliminares, \u00e1pice e relaxamento), fiz uma retrospectiva dos cursos anteriores e aulas e palestras e etc e pensei que nunca vou para a \u201carena\u201d sozinha.<\/p>\n<p>A frase de Newton que d\u00e1 t\u00edtulo ao presente texto \u00e9 emblem\u00e1tica: \u201cse eu vi mais longe, foi por estar em p\u00e9 em ombros de gigantes\u201d. Durante todo o processo de planejamento, execu\u00e7\u00e3o e auto avalia\u00e7\u00e3o, procuro estar na companhia de gigantes o tempo todo. Na companhia dos trabalhos desses gigantes.<\/p>\n<p>Se consigo hoje, transpor e defender uma id\u00e9ia animalista abolicionista ao ponto de colocar outras pessoas para pensar \u00e9 porque o meu conhecimento foi constru\u00eddo sobre o trabalho de outras pessoas que fizeram da causa abolicionista, vegana, animalista, um nobre prop\u00f3sito de suas vidas.<\/p>\n<p>Certa vez, conversando com S\u00f4nia Felipe, ela usou uma met\u00e1fora que achei muito interessante: um muro separando a luz (conhecimento) das trevas (falta de). Os desbravadores abrem um furo nesse muro e iluminam o caminho para que outras pessoas possam enxergar. E aos poucos o furo vai aumentando. E mais pessoas enxergando. \u00c9 o que acontece comigo: exer\u00e7o minha autonomia de educadora, pesquisadora, cidad\u00e3 e etc. Mas enxergo os caminhos devido ao feixe de luz que essas outras pessoas v\u00e3o lan\u00e7ando.<\/p>\n<p>Essas pessoas s\u00e3o muitas. E elas tem nome. No curso sobre vivissec\u00e7\u00e3o por exemplo, me apoiei nos ombros de gigantes como Tom Regan, S\u00f4nia Felipe, Nina Rosa, Jo\u00e3o Epif\u00e2nio R\u00e9gis Lima, Thales Tr\u00e9z e tantos outros. Sou muito grata a todos.<\/p>\n<p>N\u00e3o nasci vegana. Por mais paradoxo que soe, hoje, aos meus ouvidos, j\u00e1 fui a circos, j\u00e1 vi rodeios, j\u00e1 quis comprar cachorrinho no pet shop, j\u00e1 usei bota de couro, achava que comer ovos e leite n\u00e3o tinha nada de mais, entre tantas coisas. O que aconteceu? Onde iniciou e como, um processo que pauta todas as minhas atitudes e escolhas? Analisando o processo, (sim, porque \u00e9 um processo, est\u00e1 sendo um processo), n\u00e3o posso dizer que houve um fator apenas a determinar essas escolhas, mas v\u00e1rios, em diferentes momentos. E todos se deram pela via da leitura e da busca de informa\u00e7\u00e3o. Foi meu \u201cmomento damasceno\u201d. Para dar conta desse processo, preciso me apoiar nos ombros tamb\u00e9m de gigantes como Gary Francione, Peter Singer, Carol Adams, e colegas de profiss\u00e3o como o pioneiro Leon Denis, Andresa Jacobs, Aleluia Heringuer, entre outros. Me apoio (de novo) nos ombros de S\u00f4nia Felipe e Nina Rosa, (duas grandes respons\u00e1veis pelo meu e tantos outros processos damascenos). Me apoio no ombro de gigantes como a ANDA (em todos os colunistas, reportagens, v\u00eddeos, not\u00edcias) desde o tempo que eu era leitora cada vez mais ass\u00eddua e mais indignada.<\/p>\n<p>Se hoje posso ver al\u00e9m do que me foi imposto com rela\u00e7\u00e3o ao tratamento e destino dos animais, foi porque algu\u00e9m veio antes desbravando o caminho. E, embora eu n\u00e3o seja gigante, tenho tido a oportunidade em minhas aulas e onde mais sou convidada a falar, de oferecer meus ombros para quem estiver disposto a enxergar um pouquinho al\u00e9m.<\/p>\n<p>Por mim e principalmente pelos animais n\u00e3o humanos, agrade\u00e7o aqui a todos os nominados e n\u00e3o nominados (s\u00e3o muitos) que me ofereceram e oferecem seus ombros como apoio t\u00e9cnico, cient\u00edfico e moral. Que fizeram o furo no muro. E que continuam a iluminar os caminhos.<\/p>\n<p>________________________<\/p>\n<p><em>Marcela Teixeira Godoy. Bi\u00f3loga, Professora da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Coordena e trabalha com projetos de Ensino, Pesquisa e Extens\u00e3o voltados para o abolicionismo animal. Doutoranda em Ensino de Ci\u00eancias na Universidade Estadual de Londrina.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.anda.jor.br\/16\/08\/2012\/sobre-ombros-de-gigantes\" >Go to Original \u2013 anda.jor.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Semana passada [16 Aug 2012], ministrei um mini curso na Universidade Estadual de Londrina, Paran\u00e1-Brasil, durante o II Encontro de Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas. Dessa vez, trabalhei o tema Vivissec\u00e7\u00e3o no Ensino e na Pesquisa. Obviamente, o mini curso aconteceu pelo vi\u00e9s da anti-vivissec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-21436","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21436","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21436"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21436\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21436"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21436"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21436"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}