{"id":21941,"date":"2012-10-08T12:00:39","date_gmt":"2012-10-08T11:00:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=21941"},"modified":"2012-10-02T21:26:54","modified_gmt":"2012-10-02T20:26:54","slug":"portuguese-no-principio-era-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2012\/10\/portuguese-no-principio-era-portugal\/","title":{"rendered":"(Portuguese) No Princ\u00edpio Era Portugal"},"content":{"rendered":"<p><em>Como pequeno feudo, rebelado contra castelhanos e mouros, guerreou dois s\u00e9culos e abriu caminho para sistema-mundo que perdura at\u00e9 hoje.<\/em><\/p>\n<p>O sistema mundial em que vivemos \u2013 interestatal e capitalista \u2013 surgiu na Europa, e s\u00f3 na Europa, entre 1150 e 1450, de um longo conflito sist\u00eamico entre \u201cfeudos\u201d e \u201ccentros imperiais\u201d de poder, que conseguiram transformar suas \u201ceconomias naturais\u201d em economias capitalistas mais poderosas do que a dos seus rivais. Neste per\u00edodo, a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica cumpriu um papel decisivo, na forma\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio sistema e no in\u00edcio da sua expans\u00e3o para fora da Europa. Os reinos de Castela, Leon e Arag\u00e3o, transformaram-se no n\u00facleo pol\u00edtico do Imp\u00e9rio Habsburgo, que dominou a Europa, durante o s\u00e9culo XVI, sob a batuta de Carlos V e Felipe II. Mas antes dos espanh\u00f3is, foi o reino de Portugal que se estruturou primeiro, como estado nacional, e foi ele tamb\u00e9m que liderou o primeiro s\u00e9culo da expans\u00e3o mundial da Europa, depois da sua conquista de Ceuta, em 1415.<\/p>\n<p>Portugal nasceu de um pequeno \u201cfeudo\u201d \u2013 situado entre os rios Minho e Douro \u2013 que se rebelou contra Leon e Castela, em 1143, e depois travou uma guerra expansiva de mais de dois s\u00e9culos, em duas frentes: contra os mu\u00e7ulmanos, ao sul, e contra os espanh\u00f3is, ao leste. Foi neste per\u00edodo de guerra quase cont\u00ednua com os \u201cmouros\u201d e os \u201ccastelhanos\u201d que se formou o estado portugu\u00eas, depois da \u201creconquista\u201d de Lisboa, em 1147, e da expuls\u00e3o definitiva dos \u00e1rabes, do Algarve, em 1249; e depois da assinatura do Tratado de Paz, de 1432, referendando a separa\u00e7\u00e3o e o reconhecimento m\u00fatuo entre Portugal e Castela, algumas d\u00e9cadas ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de Avis, de 1385.<\/p>\n<p>Mas foi s\u00f3 no s\u00e9culo seguinte \u00e0 expuls\u00e3o mul\u00e7ulmana de 1249 que Portugal criou as estruturas legais, tribut\u00e1rias e administrativas do seu estado moderno. O mesmo estado que seguiu se expandindo, durante mais um s\u00e9culo e meio, depois da paz com os castelhanos, at\u00e9 construir o primeiro grande imp\u00e9rio mar\u00edtimo da hist\u00f3ria moderna. O impulso inicial desta expans\u00e3o \u201cpara fora\u201d n\u00e3o parece ter tido um objetivo nem um sucesso mercantil imediato, e s\u00f3 promoveu a ocupa\u00e7\u00e3o e a coloniza\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios conquistados, depois de 1450, na Ilha da Madeira. Al\u00e9m disto, o empreendimento portugu\u00eas contou com ajuda externa, mas se financiou sobretudo atrav\u00e9s da capacidade tribut\u00e1ria do novo estado, e da riqueza de suas Ordens Militares religiosas \u2013 em particular, os Templ\u00e1rios \u2013 que forjaram em conjunto uma verdadeira m\u00e1quina de guerra, conquista e tributa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na altura de 1147, a economia portuguesa era local, e o seu com\u00e9rcio era feito em esp\u00e9cie. Mas depois de 1249, houve um aumento constante da circula\u00e7\u00e3o nacional de mercadorias, a partir da reforma monet\u00e1ria e do tabelamento de pre\u00e7os, promovido por D. Afonso III, na d\u00e9cada de 1250. Em 1293, D. Diniz criou a primeira Bolsa de Mercadorias do pa\u00eds, com um sistema de seguros para os navios e cargas portuguesas, e durante toda a segunda metade do s\u00e9culo XIII foram criadas mais de quarenta feiras comerciais, respons\u00e1veis pela ativa\u00e7\u00e3o de um incipiente mercado nacional. At\u00e9 o s\u00e9culo XVI, o estado portugu\u00eas foi o maior propriet\u00e1rio de terras do pa\u00eds, e atuou como uma esp\u00e9cie de \u201cbanco de financiamento\u201d das atividades econ\u00f4micas p\u00fablicas e privadas. Foi s\u00f3 em 1500 que o governo portugu\u00eas conseguiu criar o seu sistema de t\u00edtulos da divida p\u00fablica consolidada, e s\u00f3 foi depois de 1540 que esta esp\u00e9cie primitiva de \u201ccapitalismo de estado\u201d foi cedendo lugar ao desenvolvimento de um capitalismo privado de grandes companhias mercantis. Entretanto, este processo foi interrompido em 1580, pela incorpora\u00e7\u00e3o de Portugal pelo imp\u00e9rio espanhol de Felipe II, e depois, pela submiss\u00e3o comercial definitiva de Portugal, \u00e0 Holanda e \u00e0 Inglaterra, a partir de 1640.<\/p>\n<p>Esta hist\u00f3ria pioneira de Portugal deixou algumas li\u00e7\u00f5es sobre a forma\u00e7\u00e3o do sistema inter-estatal e do pr\u00f3prio capitalismo:<\/p>\n<p>i. o primeiro estado nacional europeu j\u00e1 nasceu dentro de um sistema de poderes competitivos ;<\/p>\n<p>ii. suas fronteiras territoriais, sua unidade pol\u00edtica, e sua identidade nacional foram constru\u00eddas por duas guerras que duraram mais de 200 anos;<\/p>\n<p>iii. estas guerras \u201cnacionais\u201d prolongaram-se imediatamente, num movimento de expans\u00e3o \u201cpara fora\u201d, na dire\u00e7\u00e3o da \u00c1frica, \u00c1sia e Am\u00e9rica, que durou ainda mais um s\u00e9culo e meio;<\/p>\n<p>iv. estas guerras e conquistas n\u00e3o tiveram inicialmente um objetivo prioritariamente mercantil, mas assim mesmo, no longo prazo, tiveram um papel decisivo na cria\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o de uma economia de mercado e de um capitalismo nacional incipiente;<\/p>\n<p>v. neste per\u00edodo, esta economia nacional de forte cunho estatal, n\u00e3o chegou a se \u201cprivatizar\u201d, nem a criar um sistema nacional de bancos e cr\u00e9dito capaz de mobilizar o capital financeiro portugu\u00eas, o segredo do sucesso posterior da Holanda e da Inglaterra;<\/p>\n<p>vi. por fim, pode-se dizer que Portugal teve um papel decisivo no \u201cbig-bang\u201d do \u201csistema interestatal capitalista\u201d, que est\u00e1 vivendo uma nova explos\u00e3o expansiva neste in\u00edcio do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>________________________<\/p>\n<p><em>Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori<\/em><em> \u00e9 professor titular de Economia Pol\u00edtica Internacional da UFRJ e coordenador do grupo de pesquisa do CNPQ\/UFRJ \u201cO Poder global e a geopol\u00edtica do capitalismo\u201d.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.outraspalavras.net\/2012\/09\/27\/no-principio-era-portugal\/\" >Go to Original \u2013 outraspalavras.net<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como pequeno feudo, rebelado contra castelhanos e mouros, guerreou dois s\u00e9culos e abriu caminho para sistema-mundo que perdura at\u00e9 hoje.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-21941","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21941","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21941"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21941\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21941"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21941"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21941"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}