{"id":219995,"date":"2022-09-26T12:01:38","date_gmt":"2022-09-26T11:01:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=219995"},"modified":"2022-09-23T05:43:13","modified_gmt":"2022-09-23T04:43:13","slug":"portugues-onze-pistas-falsas-sobre-o-clima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2022\/09\/portugues-onze-pistas-falsas-sobre-o-clima\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Onze Pistas Falsas sobre o Clima"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>17 set 2022 <em>&#8211; Michael, soci\u00f3logo, brasileiro-franc\u00eas, grande conhecedor da realidade brasileiro tamb\u00e9m da teologia da liberta\u00e7\u00e3so, embora vivendo na Fran\u00e7a como pesquisador no CNRS, com este estudo desfaz lugares comuns e nos leva \u00e0 racionalidade.Se n\u00e3o mudarmos de paradigma com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza, n\u00e3o evitaremos os eventos extremos. Esse \u00e9 o ponto que Michael com raz\u00e3o enfatiza. H\u00e1 v\u00e1rias propostss, mas certamente,o ecosocialismo por ele proposta\u00a0\u00a0 (foi importante no encontro sobre o clima em Copenhagen quando ele junto com outros lan\u00e7ou a proposta e o texto fundador) \u00e9 o caminho mais promissor. Vale ler este texto por nos tirar as ilus\u00f5es sobre este grave problema no qual o sistema-vida est\u00e1 sendo gravemene afetado. &#8212; LBoff<\/em><\/p>\n<p>***********************************<\/p><\/blockquote>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>Contesta\u00e7\u00e3o de lugares-comuns que dificultam o combate \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica<\/strong><\/h3>\n<p>Encontramos um grande n\u00famero de lugares-comuns nos v\u00e1rios discursos sobre o clima, repetidos mil vezes em todos os matizes, que constituem pistas falsas, que levam, voluntariamente ou n\u00e3o, a ignorar as verdadeiras quest\u00f5es, ou a acreditar em pseudossolu\u00e7\u00f5es. N\u00e3o me refiro aqui aos discursos negacionistas, mas \u00e0queles que se dizem \u201cverdes\u201d ou \u201csustent\u00e1veis\u201d. Estas s\u00e3o afirma\u00e7\u00f5es de natureza muito diversa: algumas s\u00e3o verdadeiras manipula\u00e7\u00f5es, <em>fake news<\/em>, mentiras, mistifica\u00e7\u00f5es; outras s\u00e3o meias-verdades, ou um quarto de verdade. Muitas est\u00e3o cheias de boa vontade e de boas inten\u00e7\u00f5es \u2013 e, como sabemos, delas o inferno est\u00e1 cheio. \u00c9 neste caminho que estamos: se continuarmos com o <em>business as usual<\/em> \u2013 mesmo que pintado de verde \u2013 dentro de algumas d\u00e9cadas, nos encontraremos numa situa\u00e7\u00e3o muito pior do que a maioria dos c\u00edrculos do inferno descritos por Dante Alighieri na sua<em> Divina Com\u00e9dia<\/em>. Os onze exemplos seguintes s\u00e3o apenas alguns desses lugares-comuns a evitar.<\/p>\n<p><strong>O planeta tem que ser salvo<\/strong><\/p>\n<p>Isto est\u00e1 por todo lado: em cartazes, na imprensa, em revistas, em declara\u00e7\u00f5es de l\u00edderes pol\u00edticos, etc. Na verdade, \u00e9 um disparate: o planeta Terra n\u00e3o est\u00e1 em perigo! Qualquer que seja o clima, ele continuar\u00e1 girando tranquilamente ao redor do sol durante os pr\u00f3ximos milh\u00f5es de anos. O que est\u00e1 amea\u00e7ado pelo aquecimento global s\u00e3o as m\u00faltiplas formas de vida neste planeta, incluindo a nossa: a esp\u00e9cie <em>Homo Sapiens<\/em>.<\/p>\n<p>\u201cSalvar o planeta\u201d d\u00e1 a falsa impress\u00e3o de que se trata de algo externo a n\u00f3s, que se encontra em algum lugar, e que n\u00e3o nos diz respeito diretamente. N\u00e3o pedimos \u00e0s pessoas que se preocupem com suas vidas, ou com a vida de seus filhos, mas sim com uma vaga abstra\u00e7\u00e3o, \u201co planeta\u201d. N\u00e3o \u00e9 surpresa que as pessoas menos politizadas reajam dizendo: eu estou muito ocupado com meus pr\u00f3prios problemas para me preocupar com \u201co planeta\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u00a0Fa\u00e7amos algo para salvar o planeta<\/strong><\/p>\n<p>Este lugar-comum, infinitamente saturado, \u00e9 uma variante da f\u00f3rmula anterior. Ele cont\u00e9m uma meia-verdade: todos devem contribuir pessoalmente para evitar a cat\u00e1strofe. Mas transmite a ilus\u00e3o de que \u00e9 suficiente acumular \u201cpequenos gestos\u201d \u2013 desligar as luzes, fechar a torneira, etc. \u2013 para evitar o pior. Assim, conscientemente ou n\u00e3o, descartamos a necessidade de mudan\u00e7as estruturais profundas no modo de produ\u00e7\u00e3o e consumo atual; mudan\u00e7as que colocam em quest\u00e3o os pr\u00f3prios fundamentos do sistema capitalista, que se baseia num \u00fanico crit\u00e9rio: a maximiza\u00e7\u00e3o do lucro.<\/p>\n<p><strong>O urso polar est\u00e1 em perigo<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma imagem que est\u00e1 por todo lado, repetida \u00e0 saciedade: um pobre urso polar que tenta sobreviver no meio de <em>icebergs<\/em> \u00e0 deriva. Certamente, a vida do urso polar \u2013 e de muitas outras esp\u00e9cies nas regi\u00f5es polares \u2013 est\u00e1 amea\u00e7ada. Esta imagem pode suscitar a compaix\u00e3o de algumas almas generosas, mas, para a maioria da popula\u00e7\u00e3o, \u00e9 um assunto que n\u00e3o lhes diz respeito.<\/p>\n<p>Pois bem, o derretimento das calotas polares \u00e9 uma amea\u00e7a n\u00e3o apenas para o bravo urso polar, mas, a longo prazo, para metade, se n\u00e3o mais, da humanidade que vive em grandes cidades \u00e0 beira-mar. O derretimento das enormes geleiras na Groenl\u00e2ndia e na Ant\u00e1rtica pode elevar o n\u00edvel do mar em algumas dezenas de metros. Mas s\u00e3o necess\u00e1rios apenas alguns metros para que cidades como Veneza, Amsterd\u00e3, Londres, Nova Iorque, Rio de Janeiro, Xangai e Hong Kong fiquem submersas. Claro que isto n\u00e3o acontecer\u00e1 no ano que vem, mas os cientistas podem observar que o derretimento destas geleiras est\u00e1 acelerando\u2026 \u00c9 imposs\u00edvel prever a rapidez com que isso ocorrer\u00e1, pois muitos fatores s\u00e3o dif\u00edceis de calcular neste momento.<\/p>\n<p>Ao enfatizarmos unicamente o pobre urso polar, ocultamos o fato de que se trata de um caso aterrador que diz respeito a todos n\u00f3s\u2026<\/p>\n<p><strong>Bangladesh corre o risco de sofrer muito com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/strong><\/p>\n<p>Trata-se de uma meia-verdade, cheia de boa vontade: o aquecimento global afetar\u00e1 principalmente os pa\u00edses pobres do Sul, que s\u00e3o os menos respons\u00e1veis pelas emiss\u00f5es de CO<sub>2<\/sub>. \u00c9 verdade que estes pa\u00edses ser\u00e3o os mais atingidos por cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas, furac\u00f5es, seca, redu\u00e7\u00e3o de fontes de \u00e1gua, etc. Mas \u00e9 falso que os pa\u00edses do Norte n\u00e3o ser\u00e3o afetados, em grande medida, por estes mesmos perigos: n\u00e3o assistimos a terr\u00edveis inc\u00eandios florestais nos EUA, Canad\u00e1, Austr\u00e1lia? As ondas de calor n\u00e3o causaram numerosas v\u00edtimas na Europa? Poder\u00edamos multiplicar os exemplos.<\/p>\n<p>Se mantivermos a impress\u00e3o de que estas amea\u00e7as s\u00f3 dizem respeito aos povos do Sul, conseguiremos mobilizar apenas uma minoria de internacionalistas convictos. Contudo, mais cedo ou mais tarde, \u00e9 o conjunto da humanidade que ser\u00e1 confrontado com cat\u00e1strofes sem precedentes. \u00c9 necess\u00e1rio explicar aos povos do Norte que esta amea\u00e7a tamb\u00e9m pesa sobre eles, bem diretamente.<\/p>\n<p><strong>At\u00e9 o ano 2100 a temperatura poder\u00e1 subir at\u00e9 3,5 graus (acima do per\u00edodo pr\u00e9-industrial)<\/strong><\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o que \u00e9 encontrada lamentavelmente em muitos documentos s\u00e9rios. Isto me parece ser um duplo erro.<\/p>\n<p>Do ponto de vista cient\u00edfico, sabemos que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas n\u00e3o s\u00e3o um processo linear: podem sofrer \u201csaltos\u201d e acelera\u00e7\u00f5es s\u00fabitas. Muitas dimens\u00f5es do aquecimento se retroalimentam, e as consequ\u00eancias disto s\u00e3o imprevis\u00edveis. Por exemplo: os inc\u00eandios florestais emitem enormes quantidades de CO<sub>2<\/sub>, que contribuem para o aquecimento, intensificando, assim, os inc\u00eandios florestais. Assim, \u00e9 muito dif\u00edcil prever o que acontecer\u00e1 dentro de quatro ou cinco anos, ent\u00e3o como \u00e9 poss\u00edvel prever o que ocorrer\u00e1 daqui a um s\u00e9culo?<\/p>\n<p>De um ponto de vista pol\u00edtico: at\u00e9 o final do s\u00e9culo, n\u00f3s todos estaremos mortos, assim como nossos filhos e netos. Como podemos mobilizar a aten\u00e7\u00e3o e o engajamento das pessoas por um futuro que n\u00e3o lhes diz respeito, nem de perto nem de longe? Ent\u00e3o devemos preocupar-nos com as gera\u00e7\u00f5es futuras? Um pensamento nobre, longamente defendido pelo fil\u00f3sofo Hans Jonas: nosso dever moral para com aqueles que ainda n\u00e3o nasceram. Uma pequena minoria de pessoas muito respeit\u00e1veis poderia ser tocada por este argumento. Para o comum dos mortais, o que acontecer\u00e1 em 2100 n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de grande interesse.<\/p>\n<p><strong>Em 2050 atingiremos a neutralidade de carbono<\/strong><\/p>\n<p>Esta promessa da Uni\u00e3o Europeia e de v\u00e1rios governos na Europa e em outros lugares n\u00e3o corresponde a uma meia-verdade, nem a uma ing\u00eanua boa vontade: \u00e9 pura e simples mistifica\u00e7\u00e3o. Por duas raz\u00f5es.<\/p>\n<p>Em vez de comprometerem-se agora, imediatamente, com as mudan\u00e7as urgentes exigidas pela comunidade cient\u00edfica (o IPCC) para os pr\u00f3ximos 3 a 4 anos, nossos governantes prometem maravilhas para 2050. Isto \u00e9 obviamente demasiado tarde. Al\u00e9m disso, como os governos mudam a cada 4 ou 5 anos, que garantia h\u00e1 para estes compromissos fict\u00edcios em 30 anos? \u00c9 uma forma grotesca de justificar a presente ina\u00e7\u00e3o com uma vaga promessa vinda de longe.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a \u201cneutralidade de carbono\u201d n\u00e3o significa uma redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica das emiss\u00f5es, bem ao contr\u00e1rio! \u00c9 um c\u00e1lculo enganador baseado em <em>offsets<\/em>, em \u201cmecanismos de compensa\u00e7\u00e3o\u201d: a empresa XY continua emitindo CO<sub>2<\/sub>, mas planta uma floresta na Indon\u00e9sia, que supostamente absorver\u00e1 o equivalente a este CO<sub>2<\/sub> \u2013 se ela n\u00e3o se incendiar. As ONGs ambientalistas j\u00e1 denunciaram suficientemente a farsa dos <em>offsets<\/em>, n\u00e3o vou insistir. Mas isto mostra a perfeita mistifica\u00e7\u00e3o contida na promessa de \u201cneutralidade de carbono\u201d.<\/p>\n<p><strong>Nosso banco (ou companhia petrol\u00edfera, etc.) financia as energias renov\u00e1veis e participa assim na transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica<\/strong><\/p>\n<p>Este lugar-comum do<em> green-washing <\/em>[maquiagem verde] tamb\u00e9m faz parte da engana\u00e7\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro que os bancos e as multinacionais tamb\u00e9m investem em energias renov\u00e1veis, mas estudos precisos da ATTAC e de outras ONGs mostraram que se trata de uma pequena \u2013 por vezes min\u00fascula \u2013 parte de suas opera\u00e7\u00f5es financeiras: o grosso continua indo para o petr\u00f3leo, carv\u00e3o, g\u00e1s\u2026 \u00c9 uma simples quest\u00e3o de rentabilidade e de competi\u00e7\u00e3o por fra\u00e7\u00f5es de mercado.<\/p>\n<p>Todos os governos \u201crazo\u00e1veis\u201d \u2013 ao contr\u00e1rio de Donald Trump, Jair Bolsonaro e cia. \u2013 juram tamb\u00e9m, em todos os matizes, que est\u00e3o empenhados na transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e nas energias renov\u00e1veis. Mas assim que h\u00e1 um problema com o fornecimento de um combust\u00edvel f\u00f3ssil \u2013 recentemente o g\u00e1s \u2013, devido \u00e0 agressiva pol\u00edtica russa \u2013 refugiam-se no carv\u00e3o, reativando centrais el\u00e9tricas a carv\u00e3o mineral, ou imploram \u00e0 (sangrenta) fam\u00edlia real da Ar\u00e1bia Saudita para aumentarem a produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>Toda o belo discurso sobre a \u201ctransi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica\u201d oculta uma verdade desagrad\u00e1vel: n\u00e3o \u00e9 suficiente desenvolver energias renov\u00e1veis. Antes de tudo, as energias renov\u00e1veis s\u00e3o intermitentes: o sol nem sempre brilha no Norte da Europa\u2026 \u00c9 verdade que foram feitos progressos t\u00e9cnicos nesta \u00e1rea, mas eles n\u00e3o podem resolver tudo. E, sobretudo, as energias renov\u00e1veis requerem recursos minerais que correm o risco de se esgotarem. Se o vento e o sol s\u00e3o ilimitados, n\u00e3o \u00e9 este, de modo algum, o caso para os materiais necess\u00e1rios para sua utiliza\u00e7\u00e3o (l\u00edtio, terras raras, etc.). Ser\u00e1 portanto necess\u00e1rio considerar uma redu\u00e7\u00e3o do consumo global de energia, e uma diminui\u00e7\u00e3o seletiva: medidas que s\u00e3o inimagin\u00e1veis no quadro do capitalismo.<\/p>\n<p><strong>Gra\u00e7as \u00e0s t\u00e9cnicas de captura e sequestro de carbono evitaremos a cat\u00e1strofe clim\u00e1tica<\/strong><\/p>\n<p>Este \u00e9 um argumento cada vez mais utilizado pelos governos, e que encontramos at\u00e9 mesmo em alguns documentos s\u00e9rios (por exemplo, do IPCC). \u00c9 a ilus\u00e3o de uma solu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica milagrosa, que salvaria o clima, sem a necessidade de nada mudar em nosso modo de produ\u00e7\u00e3o (capitalista) e em nosso modo de vida.<\/p>\n<p>Lamentavelmente, a triste verdade \u00e9 que estas t\u00e9cnicas miraculosas de captura e sequestro de carbono atmosf\u00e9rico est\u00e3o longe de ser uma realidade. \u00c9 certo que foram feitas algumas tentativas, e que alguns projetos estejam em curso aqui e ali, mas no momento n\u00e3o se pode dizer que esta tecnologia seja eficaz e operacional. Ela ainda n\u00e3o resolveu as dificuldades de captura ou de sequestro (em regi\u00f5es subterr\u00e2neas imperme\u00e1veis \u00e0s fugas). E n\u00e3o h\u00e1 qualquer garantia de que poder\u00e1 faz\u00ea-lo no futuro.<\/p>\n<p><strong>Gra\u00e7as ao autom\u00f3vel el\u00e9trico, reduziremos substancialmente as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa<\/strong><\/p>\n<p>Este \u00e9 outro exemplo de meia-verdade: \u00e9 certo que os autom\u00f3veis el\u00e9tricos s\u00e3o menos poluentes do que os autom\u00f3veis a combust\u00e3o (a gasolina ou diesel), e, portanto, menos prejudiciais para a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o urbana. No entanto, do ponto de vista das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, seu balan\u00e7o \u00e9 muito mais mitigado. Eles emitem menos CO<sub>2<\/sub>, mas contribuem para uma situa\u00e7\u00e3o desastrosa \u201ctudo a eletricidade\u201d. Contudo, na maioria dos pa\u00edses, a eletricidade \u00e9 produzida com\u2026 combust\u00edveis f\u00f3sseis (carv\u00e3o ou petr\u00f3leo). A redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es dos autom\u00f3veis el\u00e9tricos \u00e9 \u201ccompensada\u201d pelo aumento das emiss\u00f5es resultantes do maior consumo de eletricidade. Na Fran\u00e7a, a eletricidade \u00e9 produzida por energia nuclear, outro impasse. No Brasil, s\u00e3o as megabarragens destruidoras de florestas, e, por conseguinte, respons\u00e1veis por um balan\u00e7o de carbono pouco reluzente.<\/p>\n<p>Se quisermos reduzir drasticamente as emiss\u00f5es, n\u00e3o podemos evitar uma redu\u00e7\u00e3o significativa da circula\u00e7\u00e3o de autom\u00f3veis privados, por meio da promo\u00e7\u00e3o de meios de transporte alternativos: transportes p\u00fablicos gratuitos, \u00e1reas de pedestres, ciclovias. O autom\u00f3vel el\u00e9trico mant\u00e9m a ilus\u00e3o de que podemos continuar como antes, mudando de tecnologia.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 atrav\u00e9s de mecanismos de mercado, como os impostos sobre o carbono ou os mercados de direitos de emiss\u00e3o, ou ainda aumentando o pre\u00e7o dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, que conseguiremos reduzir as emiss\u00f5es de CO<sub>2<\/sub>.<\/strong><\/p>\n<p>Para os ecologistas sinceros, isto \u00e9 uma ilus\u00e3o; na boca dos governantes, \u00e9 ainda uma mistifica\u00e7\u00e3o. Os mecanismos de mercado t\u00eam demonstrado por todo lado sua perfeita inefici\u00eancia na redu\u00e7\u00e3o dos gases de efeito estufa. N\u00e3o s\u00e3o apenas medidas antissociais, que buscam fazer as classes populares pagar o pre\u00e7o da \u201ctransi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica\u201d, s\u00e3o incapazes, sobretudo, de contribuir substancialmente para a limita\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es. O fracasso espetacular dos \u201cmercados de carbono\u201d institu\u00eddos pelos acordos de Kyoto \u00e9 a melhor demonstra\u00e7\u00e3o disso.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 com medidas \u201cindiretas\u201d, \u201cincentivadoras\u201d, baseadas na l\u00f3gica do mercado capitalista que conseguiremos por um freio no poder absoluto dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, que mant\u00eam o sistema funcionando h\u00e1 dois s\u00e9culos. Para come\u00e7ar, ser\u00e1 necess\u00e1rio expropriar os monop\u00f3lios capitalistas de energia, criar um servi\u00e7o p\u00fablico de energia, que ter\u00e1 como objetivo a redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica da explora\u00e7\u00e3o dos combust\u00edveis f\u00f3sseis.<\/p>\n<p><strong>As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas s\u00e3o inevit\u00e1veis, s\u00f3 podemos adaptar-nos<\/strong><\/p>\n<p>Este tipo de afirma\u00e7\u00e3o fatalista pode ser encontrada nos meios de comunica\u00e7\u00e3o e entre os pol\u00edticos \u201crespons\u00e1veis\u201d. Por exemplo, Christophe Bechu, ministro da transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica do novo governo Macron, declarou recentemente: \u201cJ\u00e1 que n\u00e3o podemos evitar o aquecimento global, quaisquer que sejam os nossos esfor\u00e7os, temos que conseguir limitar seus efeitos enquanto nos adaptamos a ele\u201d.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma excelente receita para justificar a ina\u00e7\u00e3o, o imobilismo e o abandono de qualquer \u201cesfor\u00e7o\u201d para tentar evitar o pior. Contudo, os cientistas do IPCC explicaram bem que, embora o aquecimento j\u00e1 tenha de fato come\u00e7ado, ainda \u00e9 poss\u00edvel evitar ultrapassar a linha vermelha de 1,5 graus \u2013 desde que comecemos imediatamente a reduzir de modo significativo as emiss\u00f5es de CO<sub>2<\/sub>.<\/p>\n<p>Certamente, temos que tentar adaptar-nos. Mas se as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas se tornarem incontrol\u00e1veis e acelerarem, a \u201cadapta\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 apenas um engodo. Como \u201cadaptar-se\u201d a temperaturas de 50\u00b0C?<\/p>\n<p>Poder\u00edamos multiplicar os exemplos. Todos levam \u00e0 conclus\u00e3o de que, se quisermos evitar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, devemos mudar o sistema, ou seja, o capitalismo, e substitu\u00ed-lo por outra forma de produ\u00e7\u00e3o e consumo. Isto \u00e9 o que chamamos \u201cecossocialismo\u201d.<\/p>\n<p>__________________________________________<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>Michael L\u00f6wy \u00e9 diretor de pesquisa em sociologia no<\/em> Centre nationale de la recherche scientifique (CNRS). <em>Autor, entre outros livros, de<\/em> O que \u00e9 o ecossocialismo (<em>Cortez<\/em>)<em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/leonardo-boff-e1504357428786.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-96488\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/leonardo-boff-e1504357428786.jpg\" alt=\"\" width=\"100\" height=\"118\" \/><\/a> Leonardo Boff \u00e9 um escritor, te\u00f3logo e fil\u00f3sofo brasileiro, professor em\u00e9rito de \u00e9tica e filosofia da religi\u00e3o da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, recebedor do <\/em><strong><em>Pr\u00eamio Nobel Alternativo da Paz<\/em><\/strong><em> do Parlamento sueco [<\/em><strong><em>Right Livelihood Award<\/em><\/strong><em>]em 2001, membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra, e professor visitante em v\u00e1rias universidades estrangeiras como Basel, Heidelberg, Harvard, Lisboa e Salamanca. Expoente da <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teologia_da_Liberta%C3%A7%C3%A3o\" >Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/a><\/em><em> no Brasil, foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. \u00c9 respeitado pela sua hist\u00f3ria de defesa pelas causas sociais e atualmente debate tamb\u00e9m quest\u00f5es ambientais. Colunista do <\/em>Jornal do Brasil<em>, escreveu os livros<\/em> Francisco de Assis: Ternura e Vigor, <em>Vozes 2000; <\/em>\u00a0A Terra na palma da m\u00e3o: uma nova vis\u00e3o do planeta e da humanidade<em>,Vozes 2016;\u00a0 <\/em>Cuidar da Terra \u2013 proteger a vida: como escapar do fim do mundo<em>, Record 2010; <\/em>\u00a0<em>A <\/em>hospitalidade: Direito e dever de todos, <em>Vozes 2005<\/em>; Paix\u00e3o de Cristo, Paix\u00e3o do Mundo<em>, Vozes 2001<\/em>; Brasil: Concluir a refunda\u00e7\u00e3o ou prolongar a depend\u00eancia, <em>Vozes 2018; <\/em><em>\u201cDestino e Desatino da Globaliza\u00e7\u00e3o\u201d em<\/em><em>: Do iceberg \u00e0 Arca de No\u00e9,<\/em><em> Mar de Ideias, Rio 2010 pp. 41-63.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/leonardoboff.org\/2022\/09\/17\/onze-pistas-falsas-sobre-o-clima\/\" >Go to Original \u2013 leonardoboff.org<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Contesta\u00e7\u00e3o de lugares-comuns que dificultam o combate \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":96488,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[686,519,401,993,493],"class_list":["post-219995","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-original-languages","tag-climate-change","tag-ecology","tag-environment","tag-global-warming","tag-paris-climate-agreement"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/219995","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=219995"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/219995\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media\/96488"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=219995"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=219995"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=219995"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}