{"id":225180,"date":"2022-12-05T12:02:16","date_gmt":"2022-12-05T12:02:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=225180"},"modified":"2022-12-05T05:33:11","modified_gmt":"2022-12-05T05:33:11","slug":"portugues-vamos-ao-encontro-de-nossa-destruicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2022\/12\/portugues-vamos-ao-encontro-de-nossa-destruicao\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Vamos ao Encontro de Nossa Destrui\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p><em>2 dez 2022 &#8211; <\/em>A hist\u00f3ria do ser humano na Terra em grande parte se resume num permanente conflito contra o ambiente. Esse processo foi levado t\u00e3o longe que o ser humano moderno moveu uma verdadeira guerra contra a Terra em todos as suas\u00a0 frentes: no solo, no subsolo, no ar e no mar, sempre na perspectiva de saquear e extrair mais e mais vantagens. Fala-se em\u00a0 c\u00edrculos cient\u00edficos que a a\u00e7\u00e3o humano sobre a Terra como um todo fundou uma nova era geol\u00f3gica, o <em>antropoceno<\/em>. Significa: os danos \u00e0 natureza n\u00e3o v\u00eam de fora, mas da pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o pensada e orquestrada do ser humano no seu af\u00e3 de extrair mais e mais benesses para a sua vida. Tal fato teve como consequ\u00eancia o desequil\u00edbrio do planeta que reage enviando-nos mais calor, eventos extremos como enchentes, tuf\u00f5es e secas al\u00e9m de uma gama crescente de v\u00edrus, muitos deles letais como o Coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que perdeu-se a perspectiva do Todo. Ficou-se somente com a parte. Ocorreu uma verdadeira fragmenta\u00e7\u00e3o e atomiza\u00e7\u00e3o da realidade\u00a0e dos respectivos saberes. Sabe-se cada vez mais sobre cada vez menos.Tal fato possui suas vantagens mas tamb\u00e9m seus limites. As vantagens, especialmente, na medicina que conseguiu identificar os v\u00e1rios tipos de enfermidades e como trat\u00e1-las. Mas importa recordar que a realidade n\u00e3o \u00e9 fragmentada. Por isso os saberes sobre ela tamb\u00e9m n\u00e3o podem ser fragmentados.<\/p>\n<p>Dito figurativamente: a aten\u00e7\u00e3o se concentrou nas \u00e1rvores, consideradas em si mesmas, perdendo-se a vis\u00e3o global da floresta. Pior ainda, deixou-se de considerar as rela\u00e7\u00f5es <em>de interdepend\u00eancia<\/em> que todas coisas guardam entre si. Elas n\u00e3o est\u00e3o jogadas ai ao esmo, uma ao lado da outra sem as necess\u00e1rias conex\u00f5es entre elas que lhes permitem, solidariamente viver, se auto-ajuda e juntas\u00a0 co-evoluir.<\/p>\n<p>Vejamos as \u00e1rvores: elas possuem uma \u00a0linguagem pr\u00f3pria, diversa da nossa, fundada na emiss\u00e3o de sons. Elas falam mediante odores que emitem e a produ\u00e7\u00e3o de toxinas que enviam para as outras. Entre as iguais estabelecem rela\u00e7\u00f5es de reciprocidade e colabora\u00e7\u00e3o. Com outras diversas, n\u00e3o raro, fazem verdadeiras batalhas qu\u00edmicas, no af\u00e3 de cada uma ter mais acesso \u00e0 luz do sol ou a nutrientes do solo.\u00a0 Mas sempre \u00e9 feito sem excesso, numa <em>medida justa<\/em> de tal forma que o conjunto das \u00e1rvores formam uma rica e diversa floresta.<\/p>\n<p>No caso humano, perdemos estes <em>equil\u00edbrio e justa medida<\/em>: erodiu-se aquela corrente que relaciona todos com todos, chamada de\u00a0 <em>Matriz Relacional.<\/em> Desconsiderou-se a vast\u00edssima rede de rela\u00e7\u00f5es e de\u00a0 interconex\u00f5es que envolvem o pr\u00f3prio universo e todos os seres existentes. Nada existe fora da rela\u00e7\u00e3o. Tudo est\u00e1 relacionado com tudo em todas as circunst\u00e2ncias. Essa \u00e9 a realidade de todas as coisas existentes, no universo e na Terra, das gal\u00e1xias mais distantes \u00e0 nossa Lua, at\u00e9 \u00e0s ervas\u00a0\u00a0 silvestres. Elas t\u00eam\u00a0 seu lugar e sua fun\u00e7\u00e3o no Todo.<\/p>\n<p>Numa elegante formula\u00e7\u00e3o do Papa Francisco em sua enc\u00edclica <em>Laudato si: sobre o cuidado da Casa Comum (2015)<\/em> se afirma:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u00a0\u201cTudo est\u00e1 relacionado e todos n\u00f3s, seres humanos, caminhamos juntos, como irm\u00e3os e irm\u00e3s, numa peregrina\u00e7\u00e3o maravilhosa que nos une com terna afei\u00e7\u00e3o,ao irm\u00e3o Sol, \u00e0 irm\u00e3 Lua, ao irm\u00e3o rio e \u00e0 irm\u00e3 e M\u00e3e Terra<\/em>\u2026<em>o Sol e\u00a0 Lua, o cedro e a florizinha, a \u00e1guia e o pardal s\u00f3 coexistem na depend\u00eancia uma das outras para se completarem mutuamente no servi\u00e7o uma das outras\u201d <\/em>(n.92;86).<\/p><\/blockquote>\n<p>Se realmente todos estamos entrela\u00e7ados, ent\u00e3o devemos concluir que o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, individualista, visando o maior lucro poss\u00edvel \u00e0 custa da explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho e da intelig\u00eancia humana e especialmente das riquezas naturais sem se dar conta das rela\u00e7\u00f5es existentes entre todas as realidades, poluindo o\u00a0 ar, contaminando as \u00e1guas e envenenando os solos com pesticidas, est\u00e1 na contram\u00e3o da l\u00f3gica da natureza e do pr\u00f3prio universo que ligam e religam tudo com tudo, constituindo o esplendoroso grande Todo.<\/p>\n<p>A Terra nos criou um lugar amig\u00e1vel para viver mas n\u00f3s n\u00e3o estamos nos mostrando amig\u00e1veis para com ela. Ao contr\u00e1rio, a agredimos sem parar a ponto de ela n\u00e3o aguentar mais e come\u00e7ar a reagir, numa esp\u00e9cie de contra-ataque. Este \u00e9 o significado maior da intrus\u00e3o de toda uma gama dos v\u00edrus, especialmente o Covid-19. De cuidadores da natureza (G\u00eanesis 2,15) nos fizemos em seu Sat\u00e3 amea\u00e7ador.<\/p>\n<p>Ate o advento da modernidade entre os s\u00e9culos XVII-XVIII, a humanidade se entendia normalmente com parte da M\u00e3e Terra e de um cosmos vivente e cheio de prop\u00f3sito. Percebia-se ligado ao Todo. Agora a M\u00e3e Terra foi transformada num armaz\u00e9m de recursos e\u00a0num ba\u00fa cheio de bens naturais a serem explorados. Nessa compreens\u00e3o que acabou por se imp\u00f4r, as coisas e os seres humanos est\u00e3o desconectados entre si, cada qual seguindo um curso individual.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia do sentimento de perten\u00e7a a um Todo maior, o descaso das teias de rela\u00e7\u00f5es que ligam todos os seres, tornou-nos desenraizados e mergulhados numa profunda solid\u00e3o. Somos possu\u00eddos por um sentimento de que estamos s\u00f3s no universo e perdidos, coisa que uma vis\u00e3o integradora do mundo, que existia anteriormente, o impedia. Hoje nos damos conta de que devemos estabelecer um la\u00e7o de afetividade para com a natureza e para com os seus diversos seres vivos e inerte, pois possu\u00edmos a mesmo c\u00f3digo gen\u00e9tico de base, portanto, somos irm\u00e3os e irm\u00e3s, (\u00e1rvores, animais mas tamb\u00e9m montanhas, lagos e rios). Sem n\u00e3o colocarmos cora\u00e7\u00e3o em nossa rela\u00e7\u00e3o \u2013 da\u00ed a raz\u00e3o cordial \u2013 dificilmente salvaremos a diversidade da vida e a pr\u00f3pria vitalidade da M\u00e3e Terra.<\/p>\n<p>Por que fizemos esta invers\u00e3o de rumo? N\u00e3o ser\u00e1 uma \u00fanica causa, mas um complexo delas. Mas a mais importante e danosa foi ter abandonado da assim chamada <em>Matriz Relacional<\/em><strong>.<\/strong> Vale dizer, a percep\u00e7\u00e3o da teia de rela\u00e7\u00f5es que entrela\u00e7am todos os seres. Ela nos conferia a sensa\u00e7\u00e3o de sermos parte de um Todo maior, de que est\u00e1vamos inseridos na natureza como parte dela e n\u00e3o simplesmente como\u00a0 seus usu\u00e1rios e com interesses meramente utilitaristas. Perdemos a capacidade de encantamento pela grandeza da cria\u00e7\u00e3o, de rever\u00eancia face ao c\u00e9u estrelado e de respeito por todo tipo de vida. Caso n\u00e3o mudarmos, poder\u00e1 se realizar o que o Papa Francisco advertiu na enc\u00edclica <em>Fratelli tutti:\u201destamos no mesmo barco:ou nos salvamos todos ou ningu\u00e9m se salva<\/em> (n.32).<em>\u201d<\/em>N\u00e3o somos chamados a ser os agentes de nossa pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o mas a ser a melhor flora\u00e7\u00e3o do processo cosmog\u00eanico.<\/p>\n<p>_________________________________________________<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/15342-Leonardo_Boff_bio-e1517222599916.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-105405 size-thumbnail\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/15342-Leonardo_Boff_bio-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a> Leonardo Boff \u00e9 um escritor, te\u00f3logo e fil\u00f3sofo brasileiro, professor em\u00e9rito de \u00e9tica e filosofia da religi\u00e3o da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, recebedor do <\/em><strong><em>Pr\u00eamio Nobel Alternativo da Paz<\/em><\/strong><em> do Parlamento sueco [<\/em><strong><em>Right Livelihood Award<\/em><\/strong><em>]em 2001, membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra, e professor visitante em v\u00e1rias universidades estrangeiras como Basel, Heidelberg, Harvard, Lisboa e Salamanca. Expoente da <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teologia_da_Liberta%C3%A7%C3%A3o\" >Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/a><\/em><em> no Brasil, foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. \u00c9 respeitado pela sua hist\u00f3ria de defesa pelas causas sociais e atualmente debate tamb\u00e9m quest\u00f5es ambientais. Colunista do <\/em>Jornal do Brasil<em>, escreveu os livros<\/em> Francisco de Assis: Ternura e Vigor, <em>Vozes 2000; <\/em>\u00a0A Terra na palma da m\u00e3o: uma nova vis\u00e3o do planeta e da humanidade<em>,Vozes 2016;\u00a0 <\/em>Cuidar da Terra \u2013 proteger a vida: como escapar do fim do mundo<em>, Record 2010; <\/em>\u00a0<em>A <\/em>hospitalidade: Direito e dever de todos, <em>Vozes 2005<\/em>; Paix\u00e3o de Cristo, Paix\u00e3o do Mundo<em>, Vozes 2001<\/em>; Brasil: Concluir a refunda\u00e7\u00e3o ou prolongar a depend\u00eancia, <em>Vozes 2018; <\/em><em>\u201cDestino e Desatino da Globaliza\u00e7\u00e3o\u201d em<\/em><em>: Do iceberg \u00e0 Arca de No\u00e9,<\/em><em> Mar de Ideias, Rio 2010 pp. 41-63.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/leonardoboff.org\/2022\/12\/02\/vamos-ao-encontro-de-nossa-destruicao\/\" >Go to Original \u2013 leonardoboff.org<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>2 dez 2022 &#8211; A hist\u00f3ria de ser humano na Terra em grande parte se resume num permanente conflito com o ambiente. 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