{"id":22819,"date":"2012-11-05T12:00:52","date_gmt":"2012-11-05T12:00:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=22819"},"modified":"2012-11-05T11:27:35","modified_gmt":"2012-11-05T11:27:35","slug":"portuguese-portugal-a-universidade-mercado-sete-exemplos-da-mercadorizacao-do-ensino-superior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2012\/11\/portuguese-portugal-a-universidade-mercado-sete-exemplos-da-mercadorizacao-do-ensino-superior\/","title":{"rendered":"(Portuguese) Portugal: A Universidade-Mercado &#8211; Sete Exemplos da Mercadoriza\u00e7\u00e3o do Ensino Superior"},"content":{"rendered":"<p><em>Nos \u00faltimos anos fomos assistindo a estrat\u00e9gias de transforma\u00e7\u00e3o da universidade pelo mercado, com o objetivo de amenizar o seu potencial cr\u00edtico e emancipat\u00f3rio. <\/em><\/p>\n<p>As universidades foram sempre um espa\u00e7o de debate, cr\u00edtica e movimento. Foram sempre uma pedra no sapato do sistema, porque nelas se exprimiram com imensa intensidade a liberdade, a subvers\u00e3o, a rebeldia e a cr\u00edtica. Nos \u00faltimos anos fomos assistindo a estrat\u00e9gias de transforma\u00e7\u00e3o da universidade pelo mercado, com o objetivo de amenizar o seu potencial cr\u00edtico e emancipat\u00f3rio. Vejamos sete exemplos.<\/p>\n<p><strong>Na universidade o mercado \u00e9 obrigat\u00f3rio<\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong>Quando um estudante entra no Ensino Superior, depois de fazer a matricula dirige-se obrigatoriamente ao mercado. Ou seja, para fazerem o cart\u00e3o de aluno, os estudantes t\u00eam obrigatoriamente de se dirigir aos balc\u00f5es das institui\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias presentes na sua institui\u00e7\u00e3o e dar os seus dados ao banco. O seu cart\u00e3o de estudante passa assim a ser um cart\u00e3o de estudante-cliente, afeto a uma institui\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>O mercado decide a gest\u00e3o universit\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong>Uma l\u00f3gica de gest\u00e3o p\u00fablica e democr\u00e1tica das institui\u00e7\u00f5es de ensino superior e das decis\u00f5es pol\u00edticas e pedag\u00f3gicas que as afetam devia passar, naturalmente, por um \u00f3rg\u00e3o de representa\u00e7\u00e3o dos agentes educativos das universidades: estudantes, professores e funcion\u00e1rios. O que acontece hoje \u00e9 que nos Conselhos Gerais, onde se tomam decis\u00f5es t\u00e3o importantes como o aumento das propinas ou o encerramento de cursos, representantes de empresas e de institui\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias ocuparam parte dos espa\u00e7os de representa\u00e7\u00e3o dos agentes educativos, promovendo uma agenda de transforma\u00e7\u00e3o da universidade em universidade-empresa. As empresas e institui\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias t\u00eam mais poder na defini\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas pedag\u00f3gicas para a universidade que os pr\u00f3prios estudantes.<\/p>\n<p><strong>O mercado d\u00e1 nome a universidades<\/strong><\/p>\n<p>Em muitas universidades do pa\u00eds onde antes as salas e os audit\u00f3rios tinham nomes de professores ou de figuras acad\u00e9micas importantes para a universidade, hoje t\u00eam nomes de empresas e bancos. Assistimos assim \u00e0 multiplica\u00e7\u00e3o de \u201cSalas Santander Totta\u201d e \u201cAudit\u00f3rios Caixa Geral de Dep\u00f3sitos\u201d. O mercado entra na universidade ao ponto de se tornar s\u00edmbolo e nome de espa\u00e7os espec\u00edficos das universidades.<\/p>\n<p><strong>O mercado marca o quotidiano universit\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong>As universidades j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o completamente esse espa\u00e7o de liberdade e autonomia t\u00e3o prof\u00edcuo ao debate, \u00e0 cr\u00edtica e naturalmente ao movimento. Os estudantes hoje t\u00eam a obriga\u00e7\u00e3o de cumprir disciplinarmente hor\u00e1rios, obrigatoriamente definidos pelos docentes, onde \u00e9 decidido ao pormenor quanto tempo um estudante tem de estar nas aulas, quanto tempo tem de trabalhar fora das aulas e, naturalmente, quanto tempo um estudante pode ter livre para aprender o que lhe apetecer e como lhe apetecer.<\/p>\n<p><strong>Na Universidade-Mercado as presen\u00e7as s\u00e3o obrigat\u00f3rias<\/strong><\/p>\n<p>Em algumas universidades os estudantes t\u00eam j\u00e1 um controlo de presen\u00e7as e de hor\u00e1rios de entradas e sa\u00eddas informatizado como em qualquer empresa. Mesmo que fique ao crit\u00e9rio de estudantes e professores a gest\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o em aulas, o sistema passa a registar todas as movimenta\u00e7\u00e3o dos estudantes.<\/p>\n<p><strong>Como no mercado, na universidade s\u00f3 h\u00e1 espa\u00e7o para \u201cos melhores\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Como em qualquer empresa, as universidades n\u00e3o podem estar abertas a toda a gente. Essa \u00e9 agenda escondida dos v\u00e1rios governos desde que introduziram as propinas nos anos 90. Com Bolonha, em vez de tirarmos um curso de cinco anos, sempre com o mesmo valor de propina, temos agora de tirar um curso de 3 anos de licenciatura e 2 de mestrado, sendo que os dois \u00faltimos s\u00e3o substancialmente mais caros porque n\u00e3o h\u00e1 teto m\u00e1ximo para o valor das propinas. Com as bolsas de estudo foram tentando compensar a agenda de aumento de custos com o ensino superior, aproveitando para as atacar severamente quando as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas \u2013 maioria absoluta do PS ou imposi\u00e7\u00e3o da \u201cinevit\u00e1vel\u201d pol\u00edtica da troika \u2013 assim o proporcionaram. A l\u00f3gica \u00e9 empresarial: na Universidade s\u00f3 pode haver espa\u00e7o para os melhores. O problema \u00e9 que \u201cos melhores\u201d s\u00e3o simplesmente os estudantes de grupos sociais e fam\u00edlias com mais rendimentos. Os \u201cpiores\u201d s\u00e3o os mesmos de sempre: aqueles que n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de pagar um sistema de ensino que deveria ser gratuito e que \u00e9 dos mais caros da Europa.<\/p>\n<p><strong>Na Universidade-Mercado tudo se vende<\/strong><\/p>\n<p>Vendem-se p\u00e1tios, vendem-se salas, vende-se audit\u00f3rios, vende-se \u201ccapital humano\u201d, vendem-se ideias, vende-se \u201crecursos humanos\u201d, vende-se \u201ccompetitividade\u201d. A universidade \u00e9 como um mercado: utiliza os recursos que disp\u00f5e para entrar no campo competitivo de gest\u00e3o entre a oferta e a procura. Ela torna-se, desta forma, mais um ator no campo da negocia\u00e7\u00e3o, da competi\u00e7\u00e3o e da ambi\u00e7\u00e3o comercial. Nela, os estudantes s\u00e3o tamb\u00e9m isso: recursos que se podem usar para credita\u00e7\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Apesar destas serem algumas tend\u00eancias not\u00f3rias na generalidade das institui\u00e7\u00f5es, elas ainda n\u00e3o s\u00e3o completamente hegem\u00f3nicas nas universidades. Elas enfraquecem-se sempre que uma associa\u00e7\u00e3o de estudantes for\u00e7a a discuss\u00e3o pol\u00edtica no espa\u00e7o da faculdade, sempre que os estudantes ocupam o espa\u00e7o p\u00fablico da universidade, sempre que um mural \u00e9 pintado, sempre que os professores e os alunos se juntam para defender os seus direitos, sempre que se espalham cartazes e se distribuem panfletos, sempre que a \u201cnormalidade empresarial\u201d \u00e9 interrompida.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que este combate n\u00e3o est\u00e1 perdido: se as institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o feitas de pessoas, ent\u00e3o depende das pessoas a transforma\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es. E afinal de contas quantas vezes na hist\u00f3ria as a\u00e7\u00f5es n\u00e3o transformaram as estruturas?<\/p>\n<p>_____________________<\/p>\n<p><em>Jo\u00e3o Mineiro<\/em><em>: estudante e dirigente associativo do ensino superior.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.esquerda.net\/opiniao\/universidade-mercado-sete-exemplos-da-mercadoriza%C3%A7%C3%A3o-do-ensino-superior\/25321\" >Go to Original \u2013 esquerda.net<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As universidades foram sempre um espa\u00e7o de debate, cr\u00edtica e movimento. Foram sempre uma pedra no sapato do sistema, porque nelas se exprimiram com imensa intensidade a liberdade, a subvers\u00e3o, a rebeldia e a cr\u00edtica. Nos \u00faltimos anos fomos assistindo a estrat\u00e9gias de transforma\u00e7\u00e3o da universidade pelo mercado, com o objetivo de amenizar o seu potencial cr\u00edtico e emancipat\u00f3rio. 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