{"id":22928,"date":"2012-11-12T12:00:35","date_gmt":"2012-11-12T12:00:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=22928"},"modified":"2012-11-09T19:48:52","modified_gmt":"2012-11-09T19:48:52","slug":"portuguese-uma-nova-era-das-cooperativas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2012\/11\/portuguese-uma-nova-era-das-cooperativas\/","title":{"rendered":"(Portuguese) Uma Nova Era das Cooperativas?"},"content":{"rendered":"<p>O primeiro grande surto de cooperativismo ocorreu na Gr\u00e3-Bretanha no in\u00edcio da era das estradas de ferrro na d\u00e9cada de 1840. Foi uma coopera\u00e7\u00e3o de consumo da classe trabalhadora industrial. Ao longo de 50 anos, ela cresceu e resultou em uma rede de mais de 1.000 cooperativas de varejo e uma sociedade atacadista que se tornou a maior organiza\u00e7\u00e3o empresarial do mundo. Durante a I Guerra Mundial, cooperativas brit\u00e2nicas foram respons\u00e1veis por 40% da distribui\u00e7\u00e3o de alimentos. Eles possu\u00edam suas pr\u00f3prias f\u00e1bricas, fazendas, linhas de navega\u00e7\u00e3o, bancos, uma empresa de seguros e at\u00e9 uma planta\u00e7\u00e3o de ch\u00e1 no Ceil\u00e3o (hoje, Sri Lanka). Na vis\u00e3o de um de seus organizadores e inspiradores, JTW Mitchell, O movimento cooperativista seguiu a trilha do desenvolvimento de uma economia alternativa<\/p>\n<p>Houve movimentos similares de pequenos fazendeiros e artes\u00f5es na Europa e Am\u00e9rica do Norte e, mais tarde, na \u00c1sia. Era comum entre todos eles a \u00eanfase no civismo, na democracia no ambiente de trabalho, na autonomia, na qualidade do trabalho e em unidades de pequena escala, articuladas com organiza\u00e7\u00f5es onde a larga escala era necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>Tal modo de pensar a economia n\u00e3o combinava com o modelo de produ\u00e7\u00e3o em massa que se tornou dominante no s\u00e9culo 20, estabelecendo-se como paradigma para a ind\u00fastria. Tamb\u00e9m \u00a0n\u00e3o rimava com as alternativas centradas no Estado \u2014 ou totalmente centralizadas \u2014 que a esquerda defendeu nesse per\u00edodo. A marcha para a coopera\u00e7\u00e3o foi interrompida.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos trinta anos, contudo, houve um r\u00e1pido crescimento de todas as formas e iniciativas de economia social. Perdeu-se a confian\u00e7a nas alternativas baseadas na centraliza\u00e7\u00e3o estatal, particularmente depois de 1989. A revolu\u00e7\u00e3o informacional e comunicacional tornou poss\u00edvel sistemas muito mais horizontais de organiza\u00e7\u00e3o, na forma de complexas redes de colabora\u00e7\u00e3o. Agora, com o colapso financeiro de 2008, que colocou o neoliberalismo na defensiva, \u00a0estamos testemunhando um novo interesse pelo cooperativismo.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma enxurrada de livros de bi\u00f3logos evolucionistas sobre a necessidade intr\u00edseca de coopera\u00e7\u00e3o para a humanidade, e tamb\u00e9m de soci\u00f3logos, sobre as aptid\u00f5es exigidas para tanto. Para o surpresa geral, o pr\u00eamio Nobel em Economia de 2009 foi dado para Elinor Ostrom, por seu trabalho sobre a economia social dos comuns. E cooperativismo \u00e9 tema recorrente nas discuss\u00f5es de alternativas pelo movimento Occup. Como muitos dos ativistas do Occupy Wall Street colocam, eles querem um mundo de cooperativas, associa\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito e com\u00e9rcio justo.<\/p>\n<p><strong>Sinais do ressurgimento<\/strong><\/p>\n<p>O que dever\u00edamos fazer diante de tudo isso? Em que aspecto as cooperativas podem ser modelo de uma economia alternativa do s\u00e9culo 21? Elas poderiam converter-se em formas de empreendimento dominantes, como as empresas por a\u00e7\u00f5es foram, na era industrial? O Estado poderia \u2014 sendo ele pr\u00f3prio parte da economia social \u2014 encontrar um modo para atuar junto \u00e0s cooperativas, em novas formas de colabora\u00e7\u00e3o? \u00c9 poss\u00edvel imaginar um modelo de economia cooperativa que gere tanta confian\u00e7a quanto as v\u00e1rias vers\u00f5es do socialismo da era fordista?<\/p>\n<p>Vamos come\u00e7ar com as finan\u00e7as. Em vez de um sistema financeiro dominado por um pequeno n\u00famero de bancos globais centralizados, que se subordinam apenas \u00e0 sua l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o, podemos imaginar um outro, baseado em milhares de bancos locais, cuja propriedade pertenceria aos seus membros, ou \u00e0s prefeituras? Eles seriam meros reposit\u00f3rios das poupan\u00e7as locais e emprestariam para pequenas empresas e fam\u00edlias que necessitassem \u2014 como faziam os bancos do interior da Inglaterra, no come\u00e7o do s\u00e9culo 19.<\/p>\n<p>Para maiores investimentos e suporte t\u00e9cnico, esses bancos formariam corpos e regionais e nacionais. E para objetivos estrat\u00e9gicos maiores, seriam um banco nacional p\u00fablico que proveria fundos e consultorias para as entidades locais.<\/p>\n<p>Tudo isso eram sonhos dos cooperados do s\u00e9culo 19, tanto da Europa quanto da Am\u00e9rica do Norte. Hoje, na Gr\u00e3-Bretanha, eles seriam vistos como meros ut\u00f3picos verdes. Mas na Alemanha, s\u00e3o parte da vida quotidiana, representando mais de 1.100 cooperativas banc\u00e1rias independentes, com 13 mil filiais e 16 milh\u00f5es de membros. Em quase todas as vizinhan\u00e7as do pa\u00eds, \u00e9 poss\u00edvel encontrar cooperativas banc\u00e1rias. Normalmente, do outro lado da rua, em uma competi\u00e7\u00e3o cooperativa, haver\u00e1 15,6 mil filiais dos 430 bancos de poupan\u00e7a municipais ou <em>Sparkassen<\/em>. E h\u00e1 mais de 1.500 bancos locais independentes, com mais de 30 mil filiais.<\/p>\n<p>Ambos, bancos municipais e bancos m\u00fatuos, t\u00eam sua pr\u00f3pria garantia nacional e regional de compensa\u00e7\u00f5es e bancos especialistas. Juntos, eles dominam a \u00e1rea de varejo banc\u00e1rio. Os bancos comerciais contentam-se com menos de um ter\u00e7o dos neg\u00f3cios. O banco de desenvolvimento p\u00fablico, o KfW, compromete mais de 20 milh\u00f5es de euros a cada ano financiando meios de produ\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica alternativos \u00e0 energia nuclear, para cumprir metas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Eles precisam de uma rede banc\u00e1ria altamente granular para alcan\u00e7ar as fam\u00edlias e as pequenas empresas, que s\u00e3o a chave para o novo modelo energ\u00e9tico \u2014 e s\u00e3o financiados pelas cooperativas banc\u00e1rias e bancos municipais. Esses dois pilares sociais do <em>trip\u00e9 de sustenta\u00e7\u00e3o <\/em>do sistema alem\u00e3o t\u00eam como principal fator de sucesso econ\u00f4mico as pequenas e m\u00e9dias empresas industriais do Mittelstand.<\/p>\n<p>Esse modelo de cooperativas banc\u00e1rias foi desenvolvido nas \u00e1reas rurais montanhosas nos anos 1850, para dar suporte a agricultores locais, pequenos negociantes e artes\u00f5es ignorados por bancos comerciais, e mais tarde nas cidades orientais como fundo comum para artes\u00f5es e negociantes. O sistema espalhou-se pela Alemanha inteira e por boa parte da Europa, funcionando na maior parte em sistemas banc\u00e1rios nacionais. Na Holanda, por exemplo, o segundo maior banco (um dos 30 maiores do mundo) \u00e9 o Rabobank, uma de confedera\u00e7\u00e3o de 141 associa\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito locais. Como as cooperativas banc\u00e1rias da Alemanha, e inspiradas tamb\u00e9m nas redes do Canada, elas orientam-se para o bem-estar social das suas economias locais.<\/p>\n<p>E sobre a ind\u00fastria? Como poder\u00edamos imaginar cooperativas regionais de produ\u00e7\u00e3o que sejam auto-sustent\u00e1veis, numa economia global? Elas poderiam equipar agricultores e artes\u00e3os com ferramentas modernas, e ajud\u00e1-los a formar cooperativas para vender seus produtos pelo mundo. Cada cidade poderia focar em um produto particular e, assim, desenvolver suas especialidades necess\u00e1rias. O sistema poderia ter sua pr\u00f3pria escola, para que as habilidades de uma gera\u00e7\u00e3o fossem passadas para a seguinte. O financiamento viria de cooperativas banc\u00e1rias ou bancos p\u00fablicos, e toda contabilidade seria processada por uma densa rede de contabilistas.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 uma descri\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o da Emilia Romagna, na It\u00e1lia. Muitas das ind\u00fastrias leves de l\u00e1, e das regi\u00f5es vizinhas, mant\u00eam-se perfeitamente e s\u00e3o l\u00edderes de seus setores, na Europa. Na cidade ceramista de Imola, as cooperativas s\u00e3o agora as maiores produtoras da Europa. Carpi \u2014 uma cidade de 60 mil habitantes, com 4 mil empresas \u2014 \u00e9 uma das maiores produtoras de t\u00eaxteis na Uni\u00e3o Europeia. Os fazendeiros emilianos n\u00e3o fornecem somente \u00e0s cooperativas de supermercados que dominam o varejo na prov\u00edncia. Tamb\u00e9m estabelecem as pr\u00f3prias cooperativas de processamento e agregamento de valor. O queijo parmes\u00e3o \u00e9 feito por uma cooperativa de 550 produtores de leite, enquanto o conhecido presunto de Parma \u00e9 feito por uma cooperativa de criadores de porcos nas margens do Rio P\u00f3.<\/p>\n<p>Esse padr\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 restrito \u00e0 chamada \u201cTerceira It\u00e1lia\u201d. H\u00e1 regi\u00f5es industriais semelhantes na Dinamarca, Alemanha e nas regi\u00f5es basca e valenciana da Espanha.<\/p>\n<p>Alternativas do tipo j\u00e1 existem em muitas das \u00e1reas centrais da economia atual. Contra a comida industrializada, consumidoras japonesas (quase todas mulheres), em colabora\u00e7\u00e3o com fazendeiros locais, criaram um not\u00e1vel sistema de \u201ccaixa de alimentos\u201d. Uma vez por semana, eles se re\u00fanem organizar os pedidos, acondicionar os produtos adquiridos em caixas e entreg\u00e1-los, por meio de uma rede local de seus pr\u00f3prios microgrupos (conhecidos como Han). As cooperativas de consumidores t\u00eam hoje 12 milh\u00f5es de membros, al\u00e9m de come\u00e7arem a se associar com cooperativas de processamento de alimentos, embalagem, impress\u00e3o e atendimento. Est\u00e3o se expandindo para prestar servi\u00e7os de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade, \u00e0s crian\u00e7as e idosos.<\/p>\n<p>Ou tomemos, por exemplo, a energia renov\u00e1vel. Um quarto da eletricidade produzida na Dinamarca vem de fontes e\u00f3licas. Essa produ\u00e7\u00e3o \u00e9 gerada por turbinas de mais de mais de 2 mil \u201ccooperativas de vento\u201d locais. O Reino Unido tem muito menos cooperativas, mas as que existem podem agora distribuir sua energia atrav\u00e9s da rec\u00e9m-formada Cooperativa de Energia Midcounties, que atraiu 20 mil membros em seu primeiro ano de funcionamento. H\u00e1 pr\u00f3speras redes de coopera\u00e7\u00e3o semelhantes em \u00e1reas como educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, social e esporte.<br \/>\n<strong><br \/>\nCooperativas e Democracia<br \/>\n<\/strong><br \/>\nA ideia que muitas pessoas fazem das cooperativas \u00e9 turvada pelos problemas que qualquer pequeno grupo de pessoas tem, ao escolher um lugar para comer; ou pelo temor de discuss\u00f5es incessantes, que tornam dif\u00edcil executar qualquer coisa. Mas para sobreviver, as cooperativas tiveram que encontrar meios eficazes de se organizar democraticamente, fazendo com que o envolvimento seja uma fonte de for\u00e7a, n\u00e3o de fraqueza.<\/p>\n<p>S\u00e3o complexos os estudos dos bi\u00f3logos evolucionistas sobre o n\u00famero m\u00e1ximo dos grupos sociais em que \u00e9 poss\u00edvel manter la\u00e7os pessoais estreitos. O antrop\u00f3logo e psic\u00f3logo brit\u00e2nico Robin Dunbar diz que o teto s\u00e3o 150 pessoas. Curiosamente, as maiores 22 cooperativas de trabalhadores do Reino Unido t\u00eam uma m\u00e9dia de 41 membros. Somente a maior, a Suma Wholefoods, atinge a marca de Dunbar. Se algu\u00e9m duvida da viabilidade de cooperativas, devem olhar para a Suma. O seu <em>staff<\/em>compartilha entre si v\u00e1rias tarefas entre si, de modo que cada pessoa conhece a empresa como um todo. Os trabalhadores s\u00e3o uma fonte constante de id\u00e9ias inovadoras (e s\u00e3o pagos tamb\u00e9m\u2026). O posto-chave n\u00e3o \u00e9 o do diretor de finan\u00e7as, mas o da pessoa respons\u00e1vel pela equipe \u2014 que, em empresas convencionais, seria chamado de diretor de Recursos Humanos.<\/p>\n<p>Muitas cooperativas s\u00e3o bem maiores do que isso \u2014 associa\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito podem ter milh\u00f5es de membros \u2014 mas muitos deles est\u00e3o acomodados naquilo que poder\u00edamos chamar de \u201cc\u00e9lulas de Dunbar\u201d, combinados em confedera\u00e7\u00f5es e unidos para realizar tarefas de larga escala.<\/p>\n<p>A rede Mondragon de trabalhadores cooperados, no Pa\u00eds Basco (Estado Espanhol) \u00e9 um exemplo disso. Sua inspira\u00e7\u00e3o, o padre Jose Arizemendiarreta, compartilha da mesma f\u00e9 de Gandhi em organiza\u00e7\u00f5es de face humana. Se uma cooperativa Mondragon \u00e9 demasiado ampla, recomenda-se que seja desmembrada em uma nova ramifica\u00e7\u00e3o. Os servi\u00e7os coletivos da Mondragon, como seu banco, s\u00e3o de propriedade dos cooperados a quem ela serve, assim como as associa\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito locais controlam o ponto cr\u00edtico de suas opera\u00e7\u00f5es. Esta \u00e9 uma caracter\u00edstica comum da democracia cooperativista \u2014 pequenas unidades locais que controlam as organiza\u00e7\u00f5es de servi\u00e7os coletivos acima delas.<\/p>\n<p>H\u00e1 outras condi\u00e7\u00f5es para a democracia efetiva. A primeira \u00e9 um compromisso com a tecnologia humanamente orientada. Para Gandhi isso foi sintetizado pela roda de fiar. Seu argumento no seu debate com Nehru foi a de que o uso da tecnologia em larga escala, defendido pelo segundo, teria seus pr\u00f3prios imperativos e interesses e nunca poderia estar sujeito ao controle democr\u00e1tico efetivo. Na Mondrag\u00f3n, h\u00e1 um compromisso com a tecnologia moderna (existem tr\u00eas grandes laborat\u00f3rios de pesquisa), mas \u00e9 uma tecnologia compreendida e controlada pelos donos de trabalho.<\/p>\n<p>Segundo, a democracia cooperativa n\u00e3o se resume a algo quantitativo, expresso pela f\u00f3rmula \u201cum membro, um voto\u201d. Procura pesar o envolvimento de cada membro e seu desenvolvimento como pessoa. Para Gandhi, a coopera\u00e7\u00e3o era uma extens\u00e3o do princ\u00edpio de autogoverno ou <em>swaraj<\/em>. Ele vinculava a ideia das cooperativas a valores pessoais e espirituais, n\u00e3o apenas coletivos. Este tem sido um tema de muitos dos principais movimentos cooperativos, seculares e religiosos, dos \u00faltimos 150 anos. Em outras palavras, as cooperativas n\u00e3o tratam apenas de poder econ\u00f4mico coletivo; atuam sobre as habilidades e vantagens de ser social. T\u00eam a ver com a pot\u00eancia de ser humano, n\u00e3o apenas o poder de conseguir mais.<\/p>\n<p>Isso ajuda a explicar a forte \u00eanfase das cooperativas em educa\u00e7\u00e3o. Os primeiros cooperadores, os pioneiros de Rochdale, queriam aplicar 10% dos seus excedentes em educa\u00e7\u00e3o, mas ficaram restritos a 2,5%, pelo Estatuto das Sociedades entre Amigos. Muitos dos associados brit\u00e2nicos das cooperativas nascentes tinham uma sala de leitura, uma biblioteca e um programa de educa\u00e7\u00e3o de grande alcance para os membros. As cooperativas de Mondragon surgiu de cursos ministrados pelo padre Arizmendiarrieta e a educa\u00e7\u00e3o continua a ser o pilar principal da rede \u2014 que tem sua pr\u00f3pria universidade. Arizmendiarrieta viu a not\u00e1vel rede de cooperativas de trabalhadores que ajudou a criar como um projeto educacional, com uma base econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia da democracia de cooperativas baseia-se na no\u00e7\u00e3o de que seus membros est\u00e3o envolvidos individual e coletivamente \u201cnum processo\u201d \u2014 n\u00e3o desorganizados em uma nuvem de opini\u00e3o fragmentada. \u00c9 isso que o soci\u00f3logo franc\u00eas Bruno Latour chama de \u201cremontar o social \u201c: n\u00e3o movimento separado e oposto \u00e0 indivudualidade, mas algo criado e recriado atrav\u00e9s das formas e processos de pr\u00e1tica di\u00e1ria. Por isso, esta democracia funciona melhor quando seus membros t\u00eam um interesse pragm\u00e1tico no trabalho de cooperativa. H\u00e1 aqui li\u00e7\u00f5es que s\u00e3o transfer\u00edveis para o Estado.<br \/>\n<strong><br \/>\nLa\u00e7os Fortes<\/strong><\/p>\n<p>As primeiras sociedades de consumo brit\u00e2nicos exigiram que os membros comprassem apenas da sua cooperativa. Cada membro, portanto, tinha grande interesse na rela\u00e7\u00e3o qualidade-pre\u00e7o de seus produtos \u2014 e na ger\u00eancia da organiza\u00e7\u00e3o. O mesmo aplica-se \u00e0s cooperativas de produtores rurais, de trabalhadores e de servi\u00e7os \u2014 como educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade \u2014 que se beneficiam de rela\u00e7\u00f5es con\u00ednuas de confian\u00e7a.<\/p>\n<p>Os setores relacionados a servi\u00e7os, ali\u00e1s, s\u00e3o grandes \u00e1reas para crescimento potencial das cooperativas. Muitos problemas econ\u00f4micos envolvem a colabora\u00e7\u00e3o de diferentes partes para a sua solu\u00e7\u00e3o. Na assist\u00eancia social, por exemplo, existem os receptores de cuidados, juntamente com suas fam\u00edlias e vizinhos; bem como os prestadores de cuidados e financiadores. Cooperativas surgidas recentemente, envolvendo todas estas partes, t\u00eam sido capazes de assegurar clara melhora na qualidade do atendimento. A regi\u00e3o do Quebec, no Canad\u00e1, tem liderado este processo na Am\u00e9rica do Norte. Na Europa, a It\u00e1lia voltou a ser a pioneira. Existem hoje 7 mil italianos sob o cuidado de cooperativas. Em cidades como Bolonha cooperativas sociais agora fornecem 85% dos servi\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma tend\u00eancia paralela \u2014 por raz\u00f5es semelhantes \u2014 na Educa\u00e7\u00e3o. Na Inglaterra, h\u00e1 hoje 200 cooperativas de ensino. Muitas delas est\u00e3o localizadas em bairros carentes. Eram originariamente escolas do Estado, que foram amea\u00e7adas por pol\u00edticas de desmonte dos servi\u00e7os p\u00fablicos e pelas cadeias privadas de ensino. Ao inv\u00e9s disso, converteram-se em cooperativas. T\u00eam como membros crian\u00e7as, pais, professores e simpatizantes na comunidade. Criam cooperativas secund\u00e1rias para fornecer os servi\u00e7os de apoio que as autoridades locais tentam reduzir ou privatizar<br \/>\n<strong><br \/>\nA disciplina de mercado<\/strong><\/p>\n<p>Karl Marx era a favor de cooperativas. Ele as via como caminhos pr\u00e1ticos para que a classe trabalhadora assumisse o controle da economia. Mas achava que seriam sempre limitadas pela concorr\u00eancia dos capitais privados. O poder produtivo de tecnologia capitalista, juntamente com a oferta m\u00e3o-de-obra barata, sempre tendem a destruir cooperativas ou pression\u00e1-las a tabme\u1e3f seguir um caminho capitalista. As asas da aspira\u00e7\u00e3o seriam drasticamente cortadas.<\/p>\n<p>A atual economia cooperativa \u00e9 influenciada, tamb\u00e9m, por essa concorr\u00eancia cont\u00ednua do mercado. H\u00e1 pelo menos quatro maneiras pelas quais as cooperativas sobreviveram:.<\/p>\n<ul>\n<li>Iniciativas individuais vision\u00e1rias que conseguiram manter-se em \u00e1reas perif\u00e9ricas \u00e0 economia principal. Estes t\u00eam sido confinados a espa\u00e7os abaixo do radar do mercado privado.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Algumas cooperativas, em face da concorr\u00eancia direta da economia convencional s\u00e3o obrigadas, como Marx previa, a copiar as estruturas de escala e centralizada de seus rivais privados. Isso \u00e9 comum, por exemplo, em bancos ou seguradoras cooperativas. Eles conservam um pouco das estruturas de coopera\u00e7\u00e3o, mas os la\u00e7os entre seus membros s\u00e3o fracos e sujeitos \u00e0 amea\u00e7a de desarticula\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Em alguns pa\u00edses, as cooperativas tiveram foram beneficiadas por medida de prote\u00e7\u00e3o contra o mercado privado, atrav\u00e9s de legisla\u00e7\u00e3o protetora ou apoio financeiro do Estado.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Algumas cooperativas desenvolveram redes como as que descrevi, cujos princ\u00edpios e formas alternativas de trabalho deu-lhes vantagens decisivas contra a concorr\u00eancia privada.<\/li>\n<\/ul>\n<p>As cooperativas podem viver cada uma destas experi\u00eancias \u2014 ou todas elas, simultaneamente. Muitas surgem como movimentos de marginalizados. Algumas crescem e descobrem formas de oferecer servi\u00e7os sem sacrificar as vantagens de c\u00e9lulas pequenas, de dimens\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>As redes de cooperativas bem-sucedidas t\u00eam sua pr\u00f3pria ecologia. Os integrantes da rede colaboram entre si na compra e venda de produtos. Obt\u00eam financiamento de bancos cooperativos e estabelecem interc\u00e2mbio de know-how, m\u00e1quinas e at\u00e9 mesmo de pedidos dos clientes. Em uma era em que as economias de sistema est\u00e3o se tornando mais importante do que as economias de escala, esses sistemas cooperativos v\u00e3o se tornando um p\u00e1reo duro para seus concorrentes privados.<\/p>\n<p>Ainda assim, ter\u00e3o sempre de enfrentar as for\u00e7as, em disputa, de caos e ordem. A fragmenta\u00e7\u00e3o pode se tornar uma fraqueza, em vez de uma for\u00e7a. Em face das crises, as cooperativas muitas vezes s\u00e3o pressionadas \u00e0 centraliza\u00e7\u00e3o como um meio de sobreviv\u00eancia. Perdem, ent\u00e3o, as vantagens proporcionadas pela diversidade e engajamento dos seus membros. Algumas das redes mais bem sucedidas t\u00eam encontrado formas de enfrentar este problema. Muitas vezes, interv\u00eam positivamente nas cooperativas que enfrentam problemas e depois as devolvem a seus membros.<\/p>\n<p>Marx era c\u00e9tico sobre os espa\u00e7os que podem ser ocupados por uma economia alternativa. Tais espa\u00e7os estar\u00e3o sempre sob press\u00e3o \u2014 do mercado, do Estado e, \u00e0s vezes, a corros\u00e3o de valores cooperativos e das pr\u00e1ticas internas. Nestas circunst\u00e2ncias, as cooperativas individuais ser\u00e3o como pequenas embarca\u00e7\u00f5es isoladas no oceano. Eles precisam da for\u00e7a combinada de uma frota.<br \/>\n<strong><br \/>\nCaminhos futuros<\/strong><\/p>\n<p>Eles precisam, tamb\u00e9m, focar em \u00e1reas em que a coopera\u00e7\u00e3o tem, por sua pr\u00f3pria natureza, qualidades que n\u00e3o combinam com o capital privado. Vivemos em um per\u00edodo em que campos \u2014 nos quais nem o mercado privado, nem o Estado em suas formas atuais sentem-se \u00e0 vontade \u2014 est\u00e3o crescendo. S\u00e3o territ\u00f3rio em que a coopera\u00e7\u00e3o pode ser muito mais efetiva que a corpora\u00e7\u00e3o privada.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo 20, uma forte corrente, no interior do cooperativismo, desenvolveu um modelo de uma economia em rede, que teria o Estado como suporte. \u00c0 \u00e9poca, este projeto n\u00e3o estava em sintonia com o modelo dominante, marcado pela produ\u00e7\u00e3o em massa. Agora, \u00a0uma nova revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica \u2014 da informa\u00e7\u00e3o e da internet \u2014 mudou o paradigma industrial e p\u00f3s-industrial. Isso produziu uma onda de coopera\u00e7\u00e3o informal. Vivemos num mundo em que avan\u00e7am o software livre, as licen\u00e7as Creative Commons, a Wikip\u00e9dia. A coopera\u00e7\u00e3o informal j\u00e1 se estendeu muito al\u00e9m dos sonhos de William Morris.<\/p>\n<p>Na economia formal, a coopera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode se enraizar. Ela tem seus pr\u00f3prios sistemas de gerenciamento e contabilidade. Suas melhores pr\u00e1ticas s\u00e3o \u00a0impulsionada pela fun\u00e7\u00e3o social, que substitui os imperativos lucro m\u00e1ximo a curto prazo. Nos escombros da crise financeira atual, essa invers\u00e3o de valores \u00e9 exigida por nossas vidas cotidianas exigem. Pela primeira vez, em d\u00e9cadas, a coopera\u00e7\u00e3o, em suas diversas formas, tem agora o vento a seu favor. Ter\u00e1, tamb\u00e9m, a capacidade de expandir sua frota?<\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Hugo Albuquerque<strong>.<\/strong><\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.outraspalavras.net\/2012\/11\/06\/uma-nova-era-das-cooperativas\/\" >Go to Original \u2013 outraspalavras.net<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Relegadas pelo capitalismo e socialismo do s\u00e9culo 20, elas est\u00e3o ressurgindo, favorecidas pelo economia imaterial. 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