{"id":23814,"date":"2012-12-10T12:00:09","date_gmt":"2012-12-10T12:00:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=23814"},"modified":"2012-12-08T14:49:37","modified_gmt":"2012-12-08T14:49:37","slug":"portugues-toni-negri-america-latina-deixou-de-ser-periferia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2012\/12\/portugues-toni-negri-america-latina-deixou-de-ser-periferia\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Toni Negri: Am\u00e9rica Latina Deixou de Ser Periferia"},"content":{"rendered":"<p><em>Entrevista a\u00a0Ver\u00f3nica Gago\u00a0e\u00a0Diego Sztuwark no\u00a0<\/em>P\u00e1gina 12 [Argentina]<em>.<\/em><\/p>\n<p><em>Prestes a completar oitenta anos, o pensador italiano<strong> Antonio Negri,<\/strong> autor, ao lado de Michael Hardt, da trilogia \u201cImp\u00e9rio-Multid\u00e3o-Commonwealth\u201d (a \u00faltima parte ainda sem tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas) e de cl\u00e1ssicos como \u201cPoder Constituinte: ensaio sobre as alternativas da modernidade\u201d, participou do IX Col\u00f3quio Internacional Spinoza, na Universidade Nacional de C\u00f3rdoba, Argentina. Negri centra o foco de suas an\u00e1lises na transforma\u00e7\u00e3o radical pela qual passou o capitalismo, a partir dos anos 70, com o desenvolvimento das tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o, fato que alterou a forma de produ\u00e7\u00e3o \u2014 agora imaterial e cognitiva \u2014 e a maneira como o capital controla o trabalho.<\/em><\/p>\n<p><em>A sa\u00edda de cena da linha de montagem fabril e a ascens\u00e3o dos grandes sal\u00f5es de telemarketing \u2014 enquanto o sistema financeiro termina por se afirmar como o \u201celemento que unifica o complexo social, de um modo abstrato, por\u00e9m efetivo\u201d \u2014 \u00e9 o que interessa a Negri, na sua leitura inovadora de Marx, firmemente assentada no imanentismo de Spinoza \u2014 que se volta para a defesa do comunismo no horizonte do capitalismo cognitivo e, por tabela, globalizado. N\u00e3o existem, dentro do sistema negriano, concess\u00f5es para o sistema do capital como tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda que n\u00e3o seja global para um capitalismo globalizado, no qual os Estados-na\u00e7\u00f5es est\u00e3o postos em fun\u00e7\u00e3o do funcionamento do sistema.<\/em><\/p>\n<p><em>Diante do Imp\u00e9rio capitalista global, \u00e9 necess\u00e1rio mais do que indigna\u00e7\u00e3o e velhas t\u00e1ticas, a compreens\u00e3o do fen\u00f4meno e a produ\u00e7\u00e3o de novas formas de atua\u00e7\u00e3o, baseadas na multid\u00e3o como classe emergente global e na reapropria\u00e7\u00e3o da riqueza comum. \u00c9 essa preocupa\u00e7\u00e3o que fez de Negri um observador atento, e visitante recorrente, da Am\u00e9rica Latina: ele enxerga nas experi\u00eancias dos movimentos sociais do continente, e sua relativa \u201cchegada ao poder\u201d nos \u00faltimos anos, fatos dignos de aten\u00e7\u00e3o no que concerne \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o de uma nova pr\u00e1xis revolucion\u00e1ria global, objeto central de sua obra militante.<\/em><\/p>\n<p><em>Lutas como as do novo sindicalismo e dos sem-terra no Brasil, dos movimentos ind\u00edgenas na Am\u00e9rica Andina \u2014 sobretudo na Bol\u00edvia e Peru \u2014 e de movimentos democr\u00e1ticos antineoliberais por todo o continente, sua ascens\u00e3o na forma dos governos Lula, Kirchner, Ch\u00e1vez ou Morales (entre tantos outros) e o consequente atravessamento que passou a existir entre Estado e movimentos animam o pensamento de Negri \u2014 em contraste com a constata\u00e7\u00e3o da paralisia da esquerda europeia, burocratizada e elitizada.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 certo que o ciclo de mais de uma d\u00e9cada desses governos apenas aprofundou certas contradi\u00e7\u00f5es j\u00e1 existentes nos seus planos iniciais, sobretudo no que toca ao fortalecimento do extrativismo. Como agir diante disso? Quais ganhos e quais projetos merecem mais aten\u00e7\u00e3o? Quais ainda merecem aten\u00e7\u00e3o? S\u00e3o quest\u00f5es como estas que Negri buscou responder em uma entrevista ao peri\u00f3dico argentino Pagina 12. (<strong>Hugo Albuquerque<\/strong>.)<\/em><\/p>\n<p><strong>H\u00e1 alguns anos, voc\u00ea prop\u00f4s uma hip\u00f3tese para entender a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na Am\u00e9rica do Sul: disse que havia um atravessamento do Estado por parte dos movimentos sociais. Desta maneira, o poder constituinte dos movimentos podia desenvolver-se, ainda que de modo conflitivo, no interior do poder constitu\u00eddo. Agora fala em estar \u201cdentro e contra\u201d o Estado. Como voc\u00ea l\u00ea atualmente esta rela\u00e7\u00e3o entre pot\u00eancia popular e Estado?<\/strong><\/p>\n<p>Eu penso que quando se diz \u201cdentro e contra\u201d, se faz uma afirma\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica que sempre deve ser confrontada com as determina\u00e7\u00f5es do concreto. N\u00e3o \u00e9 que \u201cdentro e contra\u201d signifique sempre o mesmo, mas sim que se trata de adotar uma perspectiva da qual se enxergam as coisas. Tenho a impress\u00e3o de que tanto do ponto de vista da gest\u00e3o econ\u00f4mica como da pol\u00edtica houve, nos \u00faltimos anos, um relativo declive a partir da situa\u00e7\u00e3o inicial formada na \u00faltima d\u00e9cada, depois de 2001, quando havia um quadro efetivamente revolucion\u00e1rio. Houve um primeiro deslocamento do ponto de vista econ\u00f4mico a partir do governo de N\u00e9stor Kirchner: a partir de uma recupera\u00e7\u00e3o produtiva, que tomou como base a produ\u00e7\u00e3o social em um sentido amplo, se produziu uma confronta\u00e7\u00e3o com os ditadores dos mercados, sustentada pela experi\u00eancia de resist\u00eancia do per\u00edodo anterior. Aquele primeiro momento foi efetivamente muito importante, na medida em que ganharam for\u00e7a os movimentos piqueteiros, as ocupa\u00e7\u00f5es de f\u00e1brica, a organiza\u00e7\u00e3o das vizinhan\u00e7as como base de amplia\u00e7\u00e3o do terreno da produ\u00e7\u00e3o social, sem fechar essas experi\u00eancias em uma interpreta\u00e7\u00e3o puramente ideol\u00f3gica. Este elemento novo da produtividade social insurgente \u00e9 a for\u00e7a que consegue se fazer representar em um processo institucional efetivo, que tem a na\u00e7\u00e3o como espa\u00e7o definido. Nesse sentido, o poder pol\u00edtico nacional consolidou a efetiva necessidade de ter um ponto de refer\u00eancia central para enfrentar os mercados e suas manobras monet\u00e1rias. Por exemplo, deste ponto de vista, a renegocia\u00e7\u00e3o do pagamento da d\u00edvida e as tratativas com o Clube de Paris t\u00eam sido um momento de requalifica\u00e7\u00e3o da trama institucional da democracia argentina em rela\u00e7\u00e3o aos esquemas herdados do peronismo tradicional, levando em conta as muta\u00e7\u00f5es no tecido social.<\/p>\n<p><strong>E qual sua impress\u00e3o sobre o que aconteceu depois?<\/strong><\/p>\n<p>Do ponto de vista econ\u00f4mico, parece que foi dado um impulso ao extrativismo, empurrado pelo agroneg\u00f3cio da soja, consolidando a estrutura de rela\u00e7\u00f5es com as grandes empresas multinacionais. Seguramente, a disputa com o campo teve a ver com isso. Desse ponto de vista, parece ter havido uma paralisa\u00e7\u00e3o e uma forte inten\u00e7\u00e3o de centralizar o poder por parte do governo. O extrativismo n\u00e3o \u00e9 apenas um fato econ\u00f4mico. N\u00e3o se trata somente de discutir que pode ser \u00fatil concentrar a produ\u00e7\u00e3o em certos produtos, mas sim ter em conta que isso funciona como nega\u00e7\u00e3o efetiva de uma democratiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, no sentido de que nega uma produtividade generalizada. Agora, a pergunta \u00e9 como faz o modelo atual para garantir um regime efetivo de bem-estar na Argentina. Tenho a impress\u00e3o de que as pol\u00edticas sociais \u2014 tal como acontece, por exemplo, na Venezuela \u2014 adotam cada vez mais a apar\u00eancia de concess\u00f5es ao povo e, por tabela, cada vez menos parecem ser consequ\u00eancia de uma mobiliza\u00e7\u00e3o geral produtiva, \u00e0 qual corresponde um welfare efetivo.<\/p>\n<p><strong>E como funciona ent\u00e3o o \u201cdentro e contra\u201d o Estado nesse\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Consiste na utiliza\u00e7\u00e3o do Estado, por assim dizer, no interior do espa\u00e7o global dos mercados, colocando no centro esse problema fundamental da democracia, que n\u00e3o \u00e9 tanto o problema da liberdade, mas sim o da produ\u00e7\u00e3o. Quero dizer que \u00e9 no n\u00edvel das condi\u00e7\u00f5es materiais de produ\u00e7\u00e3o que se desempenham, em ess\u00eancia, o devir democr\u00e1tico e a conquista de novas liberdades.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea acredita que outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina manejam a rela\u00e7\u00e3o entre welfare e extrativismo? Pensemos nas experi\u00eancias important\u00edssimas de Venezuela e Brasil.<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 mencionei o que se passa na Venezuela. N\u00e3o sei se podemos chamar de welfare, mas h\u00e1 ali, sem d\u00favida, uma difus\u00e3o de servi\u00e7os \u00e0s comunidades com significativo salto pol\u00edtico e tecnol\u00f3gico com o apoio cubano (m\u00e9dicos, professores etc). Foi algo muito importante, na medida em que houve um constante crescimento no n\u00edvel de expectativa de vida. Sem d\u00favida, uma verdadeira democratiza\u00e7\u00e3o da sociedade sup\u00f5e enfrentar muitas dificuldades. Por exemplo, os problemas que se abateram sobre as miss\u00f5es, ao mesmo tempo em que se forma uma nova burguesia, t\u00e3o ativa quanto espoliadora. Tenho uma avalia\u00e7\u00e3o mais positiva do processo brasileiro, que conta com condi\u00e7\u00f5es excepcionais do ponto de vista dos recursos naturais e sociais. H\u00e1, de fato, uma situa\u00e7\u00e3o muito afortunada, mas n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a pol\u00edtica de Lula foi capaz, efetivamente, de permitir que todos participassem do desenvolvimento, configurando uma sociedade aberta, em termos democr\u00e1ticos e produtivos. Lula desencadeou uma luta de classes cont\u00ednua, contra uma burguesia e um setor capitalista fortes e com grande capacidade, o que sup\u00f5e problemas enormes.<\/p>\n<p><strong>O Brasil lhe parece um modelo?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei se essas lutas podem se dar de modo igual em diferentes lugares. N\u00e3o creio que sua pol\u00edtica seja um modelo. Mas, esses dias eu me perguntava sobre a \u00eanfase do discurso oficial argentino a respeito da batalha contra o grupo Clar\u00edn. Lula precisou enfrentar o enorme poder da televis\u00e3o brasileira e n\u00e3o fundou um s\u00f3 di\u00e1rio, preferindo apoiar-se na capacidade de intervir sobre outros setores, sustentado em uma politiza\u00e7\u00e3o das bases por meio dos grandes movimentos, como o MST e os movimentos de favelados que foram extremamente importantes. A situa\u00e7\u00e3o argentina n\u00e3o parece contar hoje com uma capacidade de recriar movimentos sociais dessa magnitude, ainda que eu tenha muitas d\u00favidas a esse respeito. De toda a maneira, me parece que o problema da democracia se mostra com toda clareza na Am\u00e9rica Latina, isto \u00e9, que ela j\u00e1 n\u00e3o pode ser pensada como um territ\u00f3rio perif\u00e9rico, pois em muitos aspectos constitui um cen\u00e1rio central para todos n\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>O extrativismo convive em boa parte da Am\u00e9rica Latina com uma ret\u00f3rica contr\u00e1ria ao neoliberalismo, mesmo que n\u00e3o haja uma s\u00e9rie de pr\u00e1ticas sociais que funcionam segundo l\u00f3gicas de apropria\u00e7\u00e3o neoliberais. Como avalia essa defasagem?<\/strong><\/p>\n<p>A mim parece que quando o Estado se pronuncia contra o neoliberalismo, ele mente. Existe toda uma s\u00e9rie de acordos espec\u00edficos com multinacionais. \u00c9 um pouco o que aconteceu aqui (na Argentina) no momento da crise do campo. Dentro do marco no qual surgem esses acordos, atuam as empresas nacionais e os empreendimentos cooperativos imersos na l\u00f3gica capitalista. Esses governos est\u00e3o contra o neoliberalismo? Talvez seja melhor dizer: est\u00e3o contra as extremas consequ\u00eancias do neoliberalismo, que s\u00e3o aquelas que buscam anular o welfare. Mas essas s\u00e3o apenas as consequ\u00eancias extremas.<\/p>\n<p><strong>Podemos pensar que \u00e9 o capital financeiro, enquanto tal, que funciona de um modo parasit\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de valor do conjunto da sociedade?<\/strong><\/p>\n<p>Tenho a impress\u00e3o que h\u00e1 uma identidade completa entre capital financeiro e extrativismo. Mesmo que os governos progressistas da Am\u00e9rica do Sul tenham constru\u00eddo novas rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos mercados financeiros, o certo \u00e9 que esses capitais seguem funcionando a partir da expropria\u00e7\u00e3o do valor produzido pela coopera\u00e7\u00e3o social. \u00c9 certo que o capital financeiro continua sendo o elemento que unifica o complexo social, de um modo abstrato, \u00e9 verdade, por\u00e9m efetivo. E n\u00e3o se trata de uma interven\u00e7\u00e3o que venha de fora, de um modo imperialista: ao contr\u00e1rio, trata-se de uma interven\u00e7\u00e3o que condiciona a m\u00e1quina social inteira, e busca prefigur\u00e1-la. Por isso \u00e9 insuficiente toda tentativa de lhe opor meramente uma estrutura de regula\u00e7\u00e3o vertical. O problema pol\u00edtico que se imp\u00f5e \u00e9, na verdade, como articular\u00a0contra isso as pluralidades produtivas. Eu n\u00e3o vejo uma proposta diferente.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o lhe parece tamb\u00e9m um problema o modo como se fixa uma certa imagem do movimento social, incapaz de dar conta de novos modos mais difusos de organiza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Creio que isso se trata, efetivamente, de um verdadeiro problema. Vejo que, por esses dias, fala-se muito [na Argentina] dos panela\u00e7os. Para al\u00e9m do sentido pol\u00edtico que possui o movimento \u2014 pelo que escuto aqui, \u00e9 um movimento basicamente de direita \u2013, trata-se de fen\u00f4menos que n\u00e3o se expressam no n\u00edvel institucional, mas no das multid\u00f5es. Coloca-se a pergunta: como se pode dizer que uma multid\u00e3o \u00e9 \u201cboa\u201d ou \u201cm\u00e1\u201d? Creio ter uma resposta, embora ela seja abstrata: o que distingue uma boa multid\u00e3o da m\u00e1 \u00e9 o que chamo de comum. Trata-se de uma hip\u00f3tese te\u00f3rica que abarca tamb\u00e9m uma no\u00e7\u00e3o de democracia substancial, n\u00e3o como algo meramente formal. Eu me refiro \u00e0 democracia enquanto capacidade de organizar um conjunto de rela\u00e7\u00f5es, e extrair delas uma consci\u00eancia pol\u00edtica. O comunismo n\u00e3o \u00e9 algo que pode brotar do comum de modo direto. Por isso, h\u00e1 de se criar formas pol\u00edticas capazes de p\u00f4r as singularidades em rela\u00e7\u00e3o, e de dar-lhes uma forma institucional no decorrer do processo.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea pensa essa forma institucional sem que se termine atado ao Estado nacional?<\/strong><\/p>\n<p>Creio que depois da grande pol\u00eamica contra o Estado-na\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m frente ao poder de inova\u00e7\u00e3o capitalista, devemos refletir sobre os termos nos quais se considera a quest\u00e3o hoje, a partir de uma vis\u00e3o de esquerda. Na Europa, o fracasso da esquerda consiste em n\u00e3o ter conseguido ir al\u00e9m do Estado-na\u00e7\u00e3o e de n\u00e3o chegar a imaginar uma gest\u00e3o do poder por fora e para al\u00e9m dele. O defeito da esquerda europeia \u00e9 ter identificado a pr\u00f3pria ideia de governo como uma \u00fanica inst\u00e2ncia. Ao identificar a ideia de governo \u00e0 de Estado nacional, a capacidade de imaginar formas de governo sobre os mercados ficou bloqueada, uma vez que eles possuem poderes que excedem as fronteiras dos pa\u00edses. E ent\u00e3o, acontece que os mercados criam por eles mesmos suas inst\u00e2ncia de governo. Assim, o Banco Central atua como representante da rede europeia: \u00e9 disso que se trata o comunismo do capital. Na Am\u00e9rica Latina, as coisas se d\u00e3o de outro modo, embora tamb\u00e9m aqui se trate de superar vis\u00f5es que se fecham nos limites dos projetos nacionais-extrativistas. E me parece que a possibilidade de articular uma espacialidade mais ampla passa pela compreens\u00e3o do papel desempenhado pelo Brasil.<\/p>\n<p><strong>Em que sentido?<\/strong><\/p>\n<p>Porque o Brasil produz mais do que produzem os demais pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, e tem uma enorme capacidade de atra\u00e7\u00e3o no n\u00edvel internacional, fato que o coloca necessariamente em posi\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica. Esse problema se situa fora do conceito de hegemonia que prop\u00f5e Laclau, referido exclusivamente ao n\u00edvel nacional, e que exclui a necessidade de levar a s\u00e9rio o n\u00edvel regional. Creio que ter\u00edamos de pensar em um equil\u00edbrio da rela\u00e7\u00e3o entre espa\u00e7os nacionais e regionais a partir de uma colabora\u00e7\u00e3o real. Porque se os pa\u00edses se fecham na exporta\u00e7\u00e3o de seus recursos naturais, \u00e9 muito f\u00e1cil que passem a competir uns com os outros, ao estilo do Oriente M\u00e9dio, mas sem xeique.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea fala de uma s\u00e9rie de paradoxos em torno do que chama biocapitalismo e o sujeito atual \u201chomem-m\u00e1quina\u201d como parte da din\u00e2mica de valoriza\u00e7\u00e3o. De que se trata?<\/strong><\/p>\n<p>Seria importante voltar a trabalhar sobre as no\u00e7\u00f5es de Marx, tais como capital constante e capital vari\u00e1vel, al\u00e9m de capital fixo e capital circulante, para ver como essas categorias se modificam a partir da hegemonia do capital financeiro. O paradoxo \u00e9 que, ao mesmo tempo que as finan\u00e7as constituem atualmente o pr\u00f3prio poder do capital, a for\u00e7a de trabalho est\u00e1 determinada por novas formas de exist\u00eancia em virtude de sua mobilidade, da incorpora\u00e7\u00e3o do conhecimento e do fato de que sua coopera\u00e7\u00e3o tornou-se aut\u00f4noma. Neste sentido, pode-se dizer que o trabalho vivo sofreu uma mudan\u00e7a antropol\u00f3gica: o homem-m\u00e1quina, tomando aqui como exemplo a imagem de Deleuze e Guattari, se apropriou de elementos do que Marx tradicionalmente chamou de capital fixo, isto \u00e9, as m\u00e1quinas. Essa muta\u00e7\u00e3o sup\u00f5e que o capital j\u00e1 n\u00e3o dirige o trabalho de modo direto, mas sim \u00e0 dist\u00e2ncia, capturando o trabalho a partir de dispositivos financeiros. Trata-se de um capital que capta o resultado do trabalho em rede. Esta \u00e9 uma grande diferen\u00e7a, que implica uma s\u00e9rie de consequ\u00eancias pol\u00edticas.<\/p>\n<p><strong>Por exemplo?<\/strong><\/p>\n<p>Por exemplo, a respeito da quest\u00e3o da propriedade, que concerne cada vez menos \u00e0 posse imediata de um bem e mais \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de servi\u00e7os. A propriedade depende cada vez mais do conjunto do trabalho que se organiza em torno da posse. A composi\u00e7\u00e3o desse trabalho se d\u00e1 como uma realidade inteiramente bipol\u00edtica, que implica um movimento de subjetiva\u00e7\u00e3o fundamental. Me parece que a reconstru\u00e7\u00e3o de um pensamento revolucion\u00e1rio deve se desenvolver\u00a0sobre este terreno, no sentido de ligar a an\u00e1lise dessas transforma\u00e7\u00f5es \u00e0 utopia: nisso, Maquiavel, Lenin e Gramsci continuam sendo muito atuais.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea fala tamb\u00e9m de uma moeda do comum, a que se refere?<\/strong><\/p>\n<p>Creio que hoje se coloca o problema da reapropria\u00e7\u00e3o da riqueza comum, processo que s\u00f3 poder\u00e1 se dar por meio da moeda do comum, de modo a torn\u00e1-la o mais extensa poss\u00edvel, aceitando sempre a abstra\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que isso n\u00e3o pode ser revertido. Logo, nesse territ\u00f3rio, s\u00f3 uma luta comum em n\u00edvel global \u00e9 que resolve o problema. N\u00e3o vejo outras solu\u00e7\u00f5es. Pode haver solu\u00e7\u00f5es particulares de ruptura, expulsar uma multinacional, repetir opera\u00e7\u00f5es com a de 2001, n\u00e3o pagar, declarar a insolv\u00eancia: s\u00e3o momentos de luta, mas n\u00e3o de solu\u00e7\u00e3o. Esses s\u00e3o problemas que se colocam politicamente de maneira muito forte, por isso este \u00e9 um momento maquiav\u00e9lico puro.<\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Hugo Albuquerque.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.outraspalavras.net\/2012\/12\/04\/negri-o-momento-maquiavelico-puro-da-america-latina\/\" >Go to Original \u2013 outraspalavras.net<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dinamismo das lutas sociais na regi\u00e3o seria contraponto ao decl\u00ednio da esquerda europeia e abriria caminho para pol\u00edticas dos \u201ccomuns\u201d.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-23814","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23814","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23814"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23814\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23814"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23814"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23814"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}