{"id":24227,"date":"2012-12-24T17:19:31","date_gmt":"2012-12-24T17:19:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=24227"},"modified":"2012-12-24T17:19:31","modified_gmt":"2012-12-24T17:19:31","slug":"portugues-o-que-podemos-aprender-com-hippies-e-punks","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2012\/12\/portugues-o-que-podemos-aprender-com-hippies-e-punks\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) O Que Podemos Aprender com Hippies e Punks"},"content":{"rendered":"<p><em>Absorvidos aparentemente pelo mercado, eles retornaram pela atualidade de sua cr\u00edtica radical ao consumismo e desejo de produzir com autonomia.<\/em><\/p>\n<p>Atualmente h\u00e1 um determinado tipo de ideologia que conquistou grande parte da sociedade. Essa ideologia vem gerando consequ\u00eancias como preju\u00edzo \u00e0 sa\u00fade dos indiv\u00edduos, aumento da desigualdade social e degrada\u00e7\u00e3o do meio ambiente. Trata-se de uma ideia sedutora e perigosa que hoje est\u00e1 mais difundida no mundo do que qualquer religi\u00e3o ou outra forma de pensamento. Essa ideologia \u00e9 o consumismo.<\/p>\n<p>Nenhuma sociedade sobrevive sem algum tipo de rela\u00e7\u00e3o entre produ\u00e7\u00e3o e consumo. O consumismo n\u00e3o \u00e9 o mero incentivo ao consumo; \u00e9 o pensamento de que uma vida boa e feliz depende inteiramente da quantidade de bens materiais que se pode consumir. Ao n\u00edvel dos pa\u00edses, \u00e9 a ideia de que o bem estar de uma na\u00e7\u00e3o deve ser medido apenas pelos n\u00fameros de produ\u00e7\u00e3o e consumo de bens. Nesse contexto, o principal papel do Estado seria estimular a popula\u00e7\u00e3o para que consuma cada vez mais. Para o consumismo, o sucesso de uma sociedade ou de um indiv\u00edduo \u00e9 medido simplesmente pela quantidade de produtos consumidos.<\/p>\n<p>Essas no\u00e7\u00f5es est\u00e3o de tal forma naturalizadas no imagin\u00e1rio coletivo que causa estranhamento demonstrar que elas representam uma ideologia cuja origem pode ser investigada \u00e0 luz da hist\u00f3ria recente da sociedade ocidental.<\/p>\n<p>No campo das ideias, o primeiro est\u00edmulo para o desenvolvimento da economia de consumo foi dado pelo escoc\u00eas Adam Smith. Em 1776, o economista publicou o texto <em>A riqueza das na\u00e7\u00f5es<\/em>, no qual defendia que o verdadeiro progresso econ\u00f4mico ocorre quando os indiv\u00edduos s\u00e3o livres para buscar os pr\u00f3prios interesses. Assim, quando todos agem de forma ego\u00edsta, a sociedade como um todo se beneficia. Cabe ao Estado interferir o menos poss\u00edvel nessa din\u00e2mica e apenas deixar que as pessoas invistam livremente em seus interesses individuais. Surge ent\u00e3o a teoria que sustenta, at\u00e9 hoje, a ess\u00eancia do capitalismo.<\/p>\n<p>Logo, as inova\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial permitiram que um grande n\u00famero de pessoas tivesse acesso a bens materiais que estavam nas m\u00e3os da elite. O princ\u00edpio de democratiza\u00e7\u00e3o do consumo foi levado adiante por Henry Ford que, ao criar sua companhia, em 1901, tinha como objetivo que todas as classes pudessem adquirir um carro, at\u00e9 ent\u00e3o um artigo de luxo. Ford realizou seu desejo em 1908, com o lan\u00e7amento do primeiro Modelo T, um autom\u00f3vel resistente, barato, simples de dirigir e f\u00e1cil de consertar.<\/p>\n<p>O industrial pretendia que seu carro popular fosse feito para durar e se preocupava em n\u00e3o fazer melhorias que tornassem o modelo anterior obsoleto. Gra\u00e7as ao desenvolvimento da linha de montagem e da escala de produ\u00e7\u00e3o, Ford conseguiu baratear cada vez mais o pre\u00e7o de seu Modelo T, que passou de US$950, em 1909, para US$290, em 1924.<\/p>\n<p>Devido ao desenvolvimento da linha de montagem, produtos industrializados mais complexos como os carros e os eletrodom\u00e9sticos deixaram de ser privil\u00e9gio e se tornaram acess\u00edveis para muitos. As fam\u00edlias m\u00e9dias norte-americanas logo possu\u00edam bens materiais em abund\u00e2ncia, destinados \u00e0s mais diversas a\u00e7\u00f5es. As empresas, movidas por quest\u00f5es econ\u00f4micas, mudariam radicalmente a vis\u00e3o e o papel do consumo na sociedade.<\/p>\n<p>Durante a d\u00e9cada de 1920, percebendo que logo poderiam ter um excesso de produ\u00e7\u00e3o, as empresas resolveram investir no aumento da demanda. A solu\u00e7\u00e3o seria fazer com que as pessoas quisessem comprar coisas novas mesmo que as coisas antigas ainda estivessem funcionando. Acabava a era do consumo que servia para suprir as necessidades. A cria\u00e7\u00e3o e o constante est\u00edmulo \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o de bens materiais se tornariam a\u00e7\u00f5es centrais no desenvolvimento da sociedade. A chave para a prosperidade econ\u00f4mica era a cria\u00e7\u00e3o organizada da insatisfa\u00e7\u00e3o, pois se todos estivessem satisfeitos ningu\u00e9m teria interesse em comprar coisas novas. A insatisfa\u00e7\u00e3o social seria organizada de duas maneiras: a obsolesc\u00eancia dos produtos e a propaganda.<\/p>\n<p>A obsolesc\u00eancia dos produtos faz parte de uma estrat\u00e9gia de mercado que pretende manter o consumo constante fazendo com que os produtos parem de funcionar (obsolesc\u00eancia programada) ou tornem-se obsoletos em pouco tempo (obsolesc\u00eancia percebida), tendo que ser substitu\u00eddos.<\/p>\n<p>A obsolesc\u00eancia programada consiste em simplesmente reduzir a vida \u00fatil do produto, fazendo com que ele funcione cada vez menos tempo. Esse tipo de obsolesc\u00eancia teve in\u00edcio com as l\u00e2mpadas el\u00e9tricas. Em 1924, as l\u00e2mpadas duravam cerca de 2.500 horas, enquanto que em 1940 o padr\u00e3o j\u00e1 havia sido reduzido para 1.000 horas.<\/p>\n<p>No que se refere \u00e0 obsolesc\u00eancia percebida, trata-se da ess\u00eancia da pol\u00edtica das empresas contempor\u00e2neas: lan\u00e7amentos no mercado de novos modelos com m\u00ednimas atualiza\u00e7\u00f5es, apenas com o objetivo de tornar obsoletos os produtos anteriores. Assim, os consumidores sentiriam a necessidade de se manter sempre atualizados com bens de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o, descartando produtos antigos, ainda que estejam em funcionamento.<\/p>\n<p>Hoje, tais estrat\u00e9gias comerciais, iniciadas na primeira metade do s\u00e9culo 20, chegaram ao extremo, sobretudo em rela\u00e7\u00e3o aos bens tecnol\u00f3gicos. Aparelhos de telefonia m\u00f3vel s\u00e3o produzidos para serem trocados, em m\u00e9dia, a cada ano. Um exemplo tradicional de obsolesc\u00eancia percebida \u00e9 o <em>Ipod:<\/em> lan\u00e7ado em 2001, o aparelhinho j\u00e1 havia passado por seis \u201cgera\u00e7\u00f5es\u201d em 2009, levando-se em conta apenas o modelo \u201ccl\u00e1ssico\u201d. Se incluirmos as varia\u00e7\u00f5es do mesmo produto, como o <em>Shuffle<\/em>, o <em>Nano<\/em>, o <em>Mini<\/em> e o <em>Touch<\/em>, s\u00e3o impressionantes 24 modelos de um mesmo produto, tudo isso em apenas 11 anos. Al\u00e9m disso, a bateria do primeiro modelo de <em>Ipod<\/em> era produzida para durar apenas um ano; depois desse per\u00edodo, o consumidor seria obrigado a comprar um novo produto, pois o aparelho era produzido de uma forma que praticamente impossibilitava a reposi\u00e7\u00e3o de bateria.<\/p>\n<p>De forma ampla, essas pr\u00e1ticas comerciais aumentaram de forma dr\u00e1stica a demanda por recursos naturais e aceleraram a produ\u00e7\u00e3o de lixo. Cada vez mais computadores, celulares e eletrodom\u00e9sticos, ainda em pleno funcionamento, s\u00e3o descartados. A obsolesc\u00eancia dos produtos aumentou a demanda; mas isso ainda n\u00e3o era suficiente para as empresas, pois o consumidor n\u00e3o possu\u00eda a autonomia de escolher quando se atualizar. A solu\u00e7\u00e3o seria encontrar uma forma de aumentar a insatisfa\u00e7\u00e3o e estimular os desejos de consumo. Surgem ent\u00e3o as t\u00e9cnicas de controle e de manipula\u00e7\u00e3o das massas desenvolvidas a partir das teorias psicanal\u00edticas de Freud sobre o ser humano.<\/p>\n<p>Eleito pela revista <em>Time<\/em> um dos norte-americanos mais influentes do s\u00e9culo 20, Edward Bernays foi o criador da propaganda moderna. Ele utilizou as ideias de seu tio, Sigmund Freud, para manipular as emo\u00e7\u00f5es e os desejos das massas. Bernays acreditava que ao conhecer as motiva\u00e7\u00f5es das pessoas, seria poss\u00edvel influenciar seu comportamento sem que elas se dessem conta disso. Ao vincular bens materiais a desejos inconscientes, Bernays ensinou \u00e0s ind\u00fastrias como fazer as pessoas desejarem algo de que n\u00e3o precisam de fato. A propaganda n\u00e3o se limitaria mais a apresentar o produto e a informar sobre suas qualidades. Agora, a publicidade teria o objetivo de influenciar a audi\u00eancia, produzindo respostas emocionais e n\u00e3o racionais aos produtos. Nesse momento, surge a no\u00e7\u00e3o de consumismo como \u00e9 compreendida atualmente, tornando-se uma forma de explorar mentes, emo\u00e7\u00f5es e identidades das pessoas.Medos e inseguran\u00e7as s\u00e3o manipulados de modo a serem traduzidos em desejos de produtos materiais, e a sociedade \u00e9 ent\u00e3o condicionada a desejar sempre al\u00e9m.<\/p>\n<p>Para aumentar o desejo das pessoas, o consumismo instiga as inseguran\u00e7as e as car\u00eancias emocionais, gerando cada vez mais ansiedade e depress\u00e3o nos indiv\u00edduos. Tal fato ocorre pois a propaganda na cultura consumista \u00e9 baseada em uma falsa promessa de felicidade. Os bens materiais s\u00e3o vendidos como uma forma de suprir car\u00eancias que n\u00e3o s\u00e3o do \u00e2mbito material. Estimula-se a busca da solu\u00e7\u00e3o de problemas emocionais atrav\u00e9s da aquisi\u00e7\u00e3o de produtos comerciais. A propaganda vende a ideia de que mais produtos nos far\u00e3o mais amados, mais estimados, mais felizes e mais valorizados. A verdade \u00e9 que, quanto mais tempo o indiv\u00edduo gasta focado na aquisi\u00e7\u00e3o dos bens, menos tempo ele possui para cultivar v\u00ednculos afetivos com a fam\u00edlia, os amigos e a comunidade.<\/p>\n<p>A din\u00e2mica \u201cmais produtos = menos v\u00ednculos\u201d n\u00e3o foi pensada ao acaso. Bernays acreditava que as massas eram irracionais e perigosas e que deveriam ser controladas. Para ele, a democracia sem o controle da popula\u00e7\u00e3o configurava um fator de risco para a estabilidade social. Nesse sentido, seu m\u00e9todo de propaganda buscava manter as massas ocupadas em busca da felicidade atrav\u00e9s de bens materiais. Quanto mais o consumismo \u00e9 estimulado, menos as pessoas se interessam pela participa\u00e7\u00e3o ativa na pol\u00edtica. Na cultura consumista, as pessoas s\u00e3o induzidas a acreditar que a felicidade n\u00e3o depende do Estado ou da sociedade, mas dos produtos criados pelas empresas. O cidad\u00e3o que busca a realiza\u00e7\u00e3o pessoal atrav\u00e9s da participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica transforma-se no consumidor que passivamente aguarda as empresas realizarem seus desejos. A liberdade pol\u00edtica torna-se ent\u00e3o a liberdade de consumir. Dessa forma, a combina\u00e7\u00e3o de democracia e consumismo \u00e9 a f\u00f3rmula perfeita para manter o povo longe do poder e preservar o <em>status quo<\/em>.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da apatia pol\u00edtica, a cultura consumista estimula o ego\u00edsmo, a inveja e promove a desagrega\u00e7\u00e3o social. Em uma sociedade baseada no consumismo, n\u00e3o basta ter o suficiente para viver bem; o consumismo \u00e9 comparativo. Assim, manipula-se o desejo a fim de possuir mais do que o outro: mais do que o vizinho, mais do que o colega de trabalho, mais do que as pessoas que aparecem nas m\u00eddias sociais e tradicionais. Isso gera uma infinita insatisfa\u00e7\u00e3o e um ciclo de consumo cada vez em propor\u00e7\u00f5es maiores. As pessoas tornam-se isoladas, centradas nos pr\u00f3prios desejos; e, por sua vez, a sociedade \u00e9 constru\u00edda de forma mais fragmentada.<\/p>\n<p>O consumo tem se consolidado como o objetivo central da vida pessoal, arregimentando as esferas do lazer, da cultura, da vida social e familiar. Os <em>shoppings<\/em>\u00a0estabeleceram-se como novos templos de dedicados s\u00faditos, espa\u00e7os nos quais as pessoas re\u00fanem-se, consomem e passam seu tempo livre. Entretanto, deve-se observar que, ao contr\u00e1rio dos antigos templos e das pra\u00e7as p\u00fablicas, nos <em>shoppings<\/em> a vida social se empobrece e \u00e9 reduzida ao simples ato solit\u00e1rio de comprar.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, o consumismo nem sempre triunfou sem oposi\u00e7\u00e3o. Algumas vozes dissonantes surgiram no decorrer do s\u00e9culo 20. Dentre elas, as mais expressivas est\u00e3o ligadas \u00e0 cultura hippie nos anos 60, e do movimento punk, nos anos 70.<\/p>\n<p>A cultura hippie floresceu nos anos 1960 nos EUA, epicentro do consumismo. Os hippies rejeitavam as hierarquias e as institui\u00e7\u00f5es estabelecidas, contestavam os valores da classe m\u00e9dia, opunham-se \u00e0s armas nucleares e \u00e0 guerra e eram comumente vegetarianos. Eles utilizavam-se de artes alternativas como o teatro de rua e o rock psicod\u00e9lico para expressar suas ideias e valores. Opondo-se \u00e0 pol\u00edtica tradicional, cultivavam ideias n\u00e3o doutrin\u00e1rias e libert\u00e1rias em favor da paz, do amor e da vida em comunidade.<\/p>\n<p>Desiludidos pela sociedade moderna extremante individualista, ego\u00edsta e competitiva, decidiram viver em comunidades pr\u00f3prias e independentes, adotando um estilo de vida coletivo que estimulava a coopera\u00e7\u00e3o e a comunh\u00e3o com a natureza. Nessas comunidades, as decis\u00f5es s\u00e3o consideradas coletivamente, n\u00e3o havendo hierarquias, e todos os participantes exercem alguma fun\u00e7\u00e3o. Adota-se como pr\u00e1tica o cultivo dos pr\u00f3prios alimentos e o com\u00e9rcio ocorre entre os moradores atrav\u00e9s da troca ou da permuta.<\/p>\n<p>J\u00e1 a cultura punk surgiu nos anos 70 nos EUA e na Inglaterra. Ela se caracteriza por ser um movimento extremamente urbano que, de forma ampla, defende uma vis\u00e3o anarquista centrada na autonomia do indiv\u00edduo, opondo-se \u00e0 m\u00eddia tradicional, ao Estado, \u00e0s institui\u00e7\u00f5es religiosas e \u00e0s grandes corpora\u00e7\u00f5es capitalistas.<\/p>\n<p>A primeira manifesta\u00e7\u00e3o cultural do punk foi no \u00e2mbito musical. O punk rock surge como a retomada de um estilo aut\u00eantico, no qual o mais importante \u00e9 a express\u00e3o individual, pois os membros estavam profundamente decepcionados com a cena do rock que, na \u00e9poca, se mostrava vinculada \u00e0 grande ind\u00fastria da m\u00fasica. O <em>showbizz<\/em> americano e ingl\u00eas tinha como preocupa\u00e7\u00e3o produzir estrelas e divulg\u00e1-las em grandes shows, criando artistas que, na vis\u00e3o dos punks, careciam de autenticidade. Assim, a cultura punk come\u00e7ou a produzir m\u00fasicas curtas e bastante simples, tocadas com pouco mais do que tr\u00eas acordes, sendo facilmente reproduzidas por qualquer pessoa sem forma\u00e7\u00e3o musical. Essa concep\u00e7\u00e3o musical tinha como objetivo instigar outros jovens a criar suas pr\u00f3prias bandas. Surgia ent\u00e3o uma grande express\u00e3o do anticonsumismo: a cultura do \u201cfa\u00e7a voc\u00ea mesmo\u201d (do ingl\u00eas <em>do it yourself<\/em> \u2013 DIY).<\/p>\n<p>O princ\u00edpio do \u201cfa\u00e7a voc\u00ea mesmo\u201d relaciona-se ao questionamento tanto da necessidade de comprar coisas quanto dos processos existentes que impulsionam a depend\u00eancia do indiv\u00edduo \u00e0s estruturas sociais vigentes. De acordo com a cultura punk, os indiv\u00edduos podem se expressar e produzir trabalhos s\u00e9rios, ainda que com recursos limitados. As bandas punks gravavam suas pr\u00f3prias m\u00fasicas, produziam e distribu\u00edam os \u00e1lbuns, e se apresentavam em garagens ou em por\u00f5es, evitando o controle das grandes corpora\u00e7\u00f5es e assegurando a liberdade de suas performances. Suas ideias circulavam atrav\u00e9s de fanzines, isto \u00e9, publica\u00e7\u00f5es caseiras realizadas, editadas e distribu\u00eddas por f\u00e3s.<\/p>\n<p>Aparentemente, esses dois movimentos culturais perderam a for\u00e7a inicial ap\u00f3s alguns anos, tendo sido, de certa forma, assimilados pela moda e pela sociedade consumista, ainda que isso soe paradoxal. Entretanto, pode-se afirmar que suas ideias demonstravam for\u00e7a suficiente para, cinquenta anos depois, ressurgirem como uma possibilidade alternativa \u00e0 atual cultura de consumo.<\/p>\n<p>Na verdade, longe de estarem esquecidos, muitos desses valores permanecem na nossa cultura em \u00e1reas inusitadas. \u00c9 poss\u00edvel afirmar que a contracultura dos anos 60 promoveu o desenvolvimento do computador pessoal e a organiza\u00e7\u00e3o da internet. A concep\u00e7\u00e3o de uma grande rede mundial sem fronteiras, sem qualquer autoridade central, na qual indiv\u00edduos s\u00e3o livres para compartilhar informa\u00e7\u00f5es, deve-se \u00e0 influ\u00eancia hippie da cultura americana. Os valores hippies baseados nas ideias de comunh\u00e3o e de colabora\u00e7\u00e3o mostram-se cada vez mais presentes no mundo virtual e tecnol\u00f3gico. Exemplo disso s\u00e3o os sites de constru\u00e7\u00e3o coletiva estilo <em>wiki<\/em>; bem como os softwares livres e de c\u00f3digo aberto, nos quais todos podem contribuir livremente e de forma espont\u00e2nea para o desenvolvimento, o compartilhamento, a edi\u00e7\u00e3o e a difus\u00e3o de ideias e de conhecimento.<\/p>\n<p>Na sociedade contempor\u00e2nea, a internet permite o compartilhamento de ideias, tornando-se um instrumento capaz de estimular novas formas de consumo e de conex\u00e3o entre as pessoas. A no\u00e7\u00e3o de consumo colaborativo vem crescendo em meio \u00e0 troca de ideias, pondo em cena pr\u00e1ticas alternativas que envolvem trocar, emprestar, reusar e revender objetos. Torna-se cada vez mais comum grupos que se organizam e se re\u00fanem a fim de trocar roupas, brinquedos e livros; planejando caronas; compartilhando carros e aparelhos eletr\u00f4nicos; praticando a permuta de servi\u00e7os; fazendo uso do sistema de <em>book crossing<\/em> ou <em>couchsurfing<\/em>. As atividades s\u00e3o realizadas e negociadas diretamente entre as pessoas, estimulando os la\u00e7os de comunidade e permitindo viver bem com menos dinheiro. Em tais pr\u00e1ticas, o indiv\u00edduo \u00e9 valorizado pelo modo como interage com a comunidade, marcando o surgimento de um novo tipo de capital: o capital social.<\/p>\n<p>O movimento do \u201cfa\u00e7a voc\u00ea mesmo\u201d hoje \u00e9 mais presente do que nunca. Atrav\u00e9s de v\u00eddeos e aulas pela internet, na rede \u00e9 poss\u00edvel ter acesso a possibilidades infinitas de aprender a produzir e a divulgar suas pr\u00f3prias realiza\u00e7\u00f5es, fugindo da cultura passiva consumista e buscando a realiza\u00e7\u00e3o pessoal de forma ativa. Hoje pode-se plantar vegetais em casa, fazer cerveja caseira, costurar as pr\u00f3prias roupas e at\u00e9 mesmo produzir objetos manufaturados. A produ\u00e7\u00e3o pode ser individual ou coletiva, e os objetos podem ser feitos para o pr\u00f3prio consumo ou para a venda, pois o s\u00e9culo 21 aumentou a produtividade da produ\u00e7\u00e3o de pequena escala. Pode-se exercitar a criatividade, desenvolver novas habilidades e talentos e a criatividade em novas formas de produzir bens de consumo. A \u00e9tica do \u201cfa\u00e7a voc\u00ea mesmo\u201d d\u00e1 poder aos indiv\u00edduos e \u00e0s comunidades, encorajando o emprego de abordagens alternativas para a solu\u00e7\u00e3o de problemas.<\/p>\n<p>Assim, observa-se que a sociedade consumista enfraquece os la\u00e7os sociais, estimula o individualismo, e retira a autonomia dos indiv\u00edduos, que se tornam consumidores passivos, cujo \u00fanico poder \u00e9 a escolha entre a marca A ou a marca B. Em contrapartida, a cultura hippie e seus ideais fortalecem a ideia de coletividade e de colabora\u00e7\u00e3o. O princ\u00edpio do \u201cfa\u00e7a voc\u00ea mesmo\u201d estimula a autonomia, d\u00e1 poder e liberdade aos indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>Um novo modelo cultural pode entrar em cena, criado \u00e0 luz de a\u00e7\u00f5es que priorizam a partilha de produtos e de conhecimentos, a produ\u00e7\u00e3o de bens de consumo, e o comprometimento cr\u00edtico por seu modo de vida, a fim de consolidar conex\u00f5es sociais e comunit\u00e1rias. Meio s\u00e9culo depois do surgimento dos hippies, eles e os punks s\u00e3o mais atuais que nunca: j\u00e1 temos todas as ferramentas que possibilitam promover \u00a0de uma sociedade mais feliz, socialmente mais justa e ecologicamente sustent\u00e1vel, bem como o desenvolvimento de uma economia de abordagem essencialmente humana, e n\u00e3o simplesmente monet\u00e1ria. Teremos coragem para us\u00e1-los?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.outraspalavras.net\/2012\/12\/20\/o-que-podemos-aprender-com-hippies-e-punks\/\">Go to Original \u2013 outraspalavras.net<\/p>\n<p><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Absorvidos aparentemente pelo mercado, eles retornaram pela atualidade de sua cr\u00edtica radical ao consumismo e desejo de produzir com autonomia.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-24227","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24227","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24227"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24227\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24227"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24227"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24227"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}